-Minha vez, né –perguntou Sirius –Acho que fui o único que não leu.

-É você mesmo, Padfoot –respondeu James.

O mestre das poções.

-Isso só pode ser praga –resmungou Sirius –vou ler justamente o capítulo que fala dele?

-Sirius, não é para julgar –repreendeu Lily. Sirius bufou, mas continuou a ler.

- Ali, olha.

Onde?

Ao lado do garoto alto de cabelos vermelhos.

De óculos?

Você viu a cara dele?

Você viu a cicatriz?

Os murmúrios acompanharam Harry desde a hora em que ele saiu do dormitório no dia seguinte. A garotada que fazia fila do lado de fora das salas de aula ficava nas pontas dos pés para dar uma espiada, ou ia e vinha nos corredores para vê-lo duas vezes.

-Isso é ridículo –bufou Lily –estão tratando ele com um palhaço de circo.

-Infelizmente –murmurou James –essa é a vida dele no mundo bruxo.

Harry desejou que não fizessem isso, porque estava tentando se concentrar para encontrar o caminho para suas aulas. Havia cento e quarenta e duas escadas em Hogwarts: largas e imponentes; estreitas e precárias; umas que levavam a um lugar diferente às sextas feiras; outras com um degrau no meio que desaparecia e a pessoa tinha que se lembrar de saltar por cima.

-Eu odeio isso –falou Alice, brava –eu sempre caio nessa, até hoje –os outros riram da garota, enquanto Frank a acalmava.

-Nem parece mais isso tudo de escadas depois de tanto tempo estudando em Hogwarts –disse Remus, pensativo, enquanto o resto do grupo acenavam em concordância.

Além disso, havia portas que não abriam a não ser que a pessoa pedisse por favor, ou fizesse cócegas nelas no lugar certo, e portas que não eram bem portas, mas paredes sólidas que fingiam ser portas. Era também muito difícil lembrar onde ficavam as coisas, porque tudo parecia mudar frequentemente de lugar. As pessoas nos retratos saíam para se visitar e Harry tinha certeza de que os brasões andavam.

-Na verdade, essa é uma boa pergunta –comentou Frank –nunca parei para pensar o suficiente no assunto para chegar a uma conclusão concreta.

Os fantasmas também não ajudavam nada. Era sempre um choque horrível quando um deles atravessava de repente uma porta que a pessoa estava querendo abrir. Nick Quase Sem Cabeça ficava sempre feliz de apontar a direção certa para os alunos de Grifinória, mas Pirraça, o Poltergeist, representava duas portas fechadas e uma escada falsa se a pessoa o encontrasse quando estava atrasada para uma aula. Ele despejava cestas de papéis na cabeça das pessoas, puxava os tapetes de baixo de seus pés, acertava-as com pedacinhos de giz ou vinha sorrateiro por trás, invisível, e agarrava-as pelo nariz e guinchava: "PEGUEI-A PELABICANCA!".

-Eu odeio ele –resmungou Alice.

-Só porque você cai em todas as pegadinhas –riu Sirius.

-Ah, e vocês não? –os três se entreolharam.

-Não –disseram em uníssono. Alice bufou.

-Só caímos no primeiro mês –Remus deu de ombros –depois ficou mais fácil de enganá-lo –e lançou-a uma piscadela marota.

Pior que o Poltergeist, se é que era possível, era o zelador, Argo Filch. Harry e Rony conseguiram conquistar sua má vontade logo na primeira manhã. Filch encontrou-os tentando forçar caminho por uma porta que, por azar, era a entrada para o corredor proibido no terceiro andar. Ele não quis acreditar que estavam perdidos, pois tinha certeza de que estavam tentando arrombá-la de propósito e ameaçava trancá-los nas masmorras, quando foram salvos pelo Prof. Quirrell, que ia passando.

-Acho que a confusão chama Harry –riu James.

-Parece que sim –Lily disse, revirando os olhos –Só espero que ele não puxe o pai –deu uma cotovelada de leve no dito cujo –e não saia por aí procurando a confusão.

James sorriu e fez sua melhor expressão de inocência, que não enganava ninguém.

Filch tinha uma gata chamada Madame Nor-r-r-a, como quem ronrona, um bicho magro, cor de poeira, com olhos saltados como lâmpadas, iguais aos de Filch. Ela patrulhava os corredores sozinha. Se alguém desobedecesse a uma regra em sua presença, pusesse o dedão do pé fora da linha, ela corria a buscar Filch, que aparecia, asmático, em dois segundos. Filch conhecia as passagens secretas da escola melhor do que ninguém

Os Marotos bufaram, rindo.

(exceto talvez os gêmeos Weasley) e podia surgir de repente como um fantasma. Os estudantes a detestavam e a ambição mais desejada de muitos era dar um bom pontapé em Madame Nor-r-ra.

-Os gêmeos não conhecem Hogwarts melhor que a gente –disse Sirius, metido.

-É impossível –concordou Remus.

-A não ser que tenhamos perdido o...aquilo lá –falou James, pensativo.

-Duvido –murmurou Sirius. Os outros olharam a interação com curiosidade, mas não disseram nada, sabendo que eles não iriam revelar o segredo.

-Só lendo para saber –James disse, sinalizando para o amigo continuar a leitura.

Além disso, quando a pessoa conseguia encontrar o caminho das salas, havia as aulas em si. Mágica era muito mais do que sacudir a varinha e dizer meia dúzia de palavras engraçadas, como Harry logo descobriu.

Todos riram levemente.

-Eu também tinha essa ilusão –concordou Lily.

Tinham de estudar o céu da noite pelo telescópio toda quarta-feira à meia-noite e aprender os nomes das diferentes estrelas e os movimentos dos planetas. Três vezes por semana iam para as estufas de plantas atrás do castelo para estudar herbologia, com uma bruxa baixa e gorda chamada Profa. Sprout, com quem aprendiam como cuidar de todas as plantas e fungos estranhos e descobriam para que eram usados.

-Herbologia é a melhor matéria! –Alice disse, animadamente.

Sem favor, a aula mais chata era a de História da Magia, a única matéria ensinada por um fantasma. O Prof. Binns era realmente muito velho quando adormeceu diante da lareira na sala dos professores e levantou na manhã seguinte para dar aulas, deixando o corpo para trás.

Binns falava sem parar enquanto eles anotavam nomes e datas e acabavam confundindo Emerico, o Mau, com Urico, o Esquisitão.

-Essa matéria é horrível –Frank fez uma careta. Todos assentiram em concordância.

O Prof. Flitwick, que ensinava Feitiços, era um bruxo miudinho que tinha de subir numa pilha de livros para enxergar por cima da mesa. No começo da primeira aula ele pegou a pauta e quando chegou ao nome de Harry soltou um gritinho excitado e caiu da pilha, desaparecendo de vista.

-Até ele? –perguntou Lily, inconformada. –Logo o meu professor preferido.

-E a McGonagall? –questionou Remus.

-E o Slughorn? –James levantou a sobrancelha para ela.

-Ok, ok –bufou Lily –eu tenho muitos professores favoritos, tá?

Eles riram em resposta.

Já a Profa. Minerva era diferente. Harry estava certo quando pensou que ela não era professora para aluno nenhum aborrecer. Severa e inteligente, fez um sermão no instante em que eles se sentaram para a primeira aula.

A Transfiguração é uma das mágicas mais complexas e perigosas que vão aprender em Hogwarts. Quem fizer bobagens na minha aula vai sair e não vai voltar mais. Estão avisados.

-Ela não mudou o discurso? –bufou Remus –Todos sabemos que isso não é verdade.

-Se esses dois nunca foram expulsos –disse Severo friamente, olhando para Potter e Black –ninguém será.

-Ah, obrigado pelo elogio, Ranhoso –murmurou Sirius, segurando a raiva.

Seu maxilar tremia de raiva.

-SIRIUS! Quantas vezes já lhe disse para não chamá-lo assim? –brigou Lily. O garoto só revirou os olhos e voltou a ler.

Transformou, então, a mesa em porco e de volta em mesa. Todos ficaram muito impressionados e ansiosos para começar, mas logo perceberam que não iam transformar os móveis em animais ainda por muito tempo.

-Maior ilusão da matéria –James suspirou.

Depois de fazerem anotações complicadas, receberam um fósforo e começaram a tentar transformá-lo em agulha. No fim da aula, somente Hermione Granger produzira algum efeito no fósforo; a Profa. Minerva mostrou à classe como o fósforo ficara todo prateado e pontiagudo e deu um raro sorriso à aluna.

-Pelo visto Harry não puxou meus talentos em Transfiguração –murmurou James, com uma careta.

A matéria que todos estavam realmente aguardando com ansiedade era a de Defesa Contra as Artes das Trevas, mas as aulas de Quirrell foram uma piada.

Remus bufou.

Lily sorriu simpaticamente para ele, oferecendo apoio.

Sua sala cheirava fortemente a alho, que todos diziam que era para espantar um vampiro que ele encontrara na Romênia e temia que viesse atacá-lo a qualquer dia.

Seu turbante, contou ele, fora presente de um príncipe africano como agradecimento por tê-lo livrado de um zumbi incômodo, mas os alunos não tinham muita certeza se acreditavam na história. Primeiro porque, quando Simas Finnigan pediu ansioso para Quirrell contar como liquidara o zumbi, Quirrell ficou vermelho e começou a falar do tempo; segundo porque eles repararam que havia um cheiro engraçado em volta do turbante, e os gêmeos Weasley insistiam que devia estar cheio de alho também, de modo que Quirrell estava protegido em qualquer lugar.

-Ele não pode achar que só porque são crianças, vão acreditar em tudo que ele diz –resmungou Remus.

Harry se sentiu aliviado ao descobrir que não estava muito atrasado com relação ao resto da turma. Muitos alunos tinham vindo de famílias de trouxas e, como ele, não faziam ideia de que eram bruxas e bruxos. Havia tanto para aprender que até gente como Rony não estava tão adiantada assim.

-Esse foi o meu maior medo também –Lily sorriu com carinho para o livro, sentindo vontade de abraçar o filho.

James passou um braço por seus ombros, puxando-a levemente para o seu calor. A garota sorriu brilhantemente em resposta, se aconchegando naquele abraço.

Sexta-feira foi um dia importante para Harry e Rony. Eles finalmente conseguiram encontrar o caminho para o Salão Principal e tomar o café da manhã sem se perder nem uma vez.

-Isso é uma grande vitória! –exclamou Alice –Eu demorei uns dois meses!

-Nós sabemos, Lice –disse Sirius, claramente segurando o impulso de rir da cara dela.

O que temos hoje? – perguntou Harry a Rony enquanto punha açúcar no mingau de aveia.

Poções duplas com o pessoal da Sonserina. Snape é diretor da Sonserina. Dizem que sempre protege eles. Vamos ver se é verdade.

Os Marotos e Alice fizeram uma careta, mas nada disseram.

Gostaria que Minerva nos protegesse. – A Profa. Minerva era diretora da Grifinória, mas isso não a impedira de dar aos seus alunos uma montanha de dever de casa no dia anterior.

-Claro que não –falou Frank –ela é justa.

-Mais do que eu gostaria –acrescentou Sirius, em um murmúrio.

Remus deu uma cotovelada no amigo.

Naquele instante chegou o correio. Harry agora já se acostumara com isso, mas levara um susto na primeira manhã quando centenas de corujas entraram de repente no Salão Principal durante o café da manhã, circulando as mesas até verem seus donos e deixarem cair as cartas e pacotes no colo deles.

Edwiges não trouxera nada para Harry até então.

James e Lily se puxaram instantaneamente para mais perto, precisando do apoio um do outro.

Remus, Sirius, Alice e Frank se entreolharam, mordendo o lábio inferior, sentindo a dor da impotência.

Às vezes entrava para beliscar sua orelha e comer um pedacinho de torrada antes de ir dormir no corujal com as outras corujas da escola. Esta manhã, porém, ela esvoaçou entre a geleia e o açucareiro e deixou cair um bilhete no prato de Harry. Ele o abriu imediatamente.

-Deve ser Hagrid –disse Lily, sorrindo esperançosa.

-Por favor, que seja –James torceu.

Eles se entreolharam, sabendo exatamente o que estavam sentindo. Por mais que tivesse passado apenas um dia, sentiam que tinham uma estranha e agradável conexão. Só de se olharem, conseguiam ler os pensamentos um do outro sem esforço.

E Lily, por mais impressionada que tivesse, amava o novo companheirismo.

Prezado Harry, dizia, numa letra muito garranchosa.

Sei que tem as tardes de sexta-feira livres, então será que não gostaria de vir tomar uma xícara de chá comigo por volta das três horas? Quero saber como foi a sua primeira semana. Mande-nos uma resposta pela Edwiges.

Hagrid.

-Hagrid é um amor –suspirou Lily, feliz com o carinho que seu filho recebia.

Harry pediu emprestada a pena de Rony e escreveu "Sim, gostaria, vejo você mais tarde"no verso do bilhete e despachou Edwiges outra vez.

Foi uma sorte que Harry tivesse o convite de Hagrid com que se alegrar, porque a aula de Poções foi a pior coisa que lhe acontecera até ali.

Sirius rosnou para Snape.

-Não sabemos o motivo disso, Sirius. Não julgue –se intrometeu Lily, antes que o maroto tomasse uma atitude precipitada, tão digna dele.

James se mexeu desconfortavelmente, retirando o braço ao redor da ruiva para apoiá-los nos joelhos, com receio do que estava por vir.

Não sabia até onde ia seu autocontrole.

No início do banquete de abertura do ano letivo, Harry tivera a impressão de que o Prof. Snape não gostava dele. No final da primeira aula de Poções, ele viu que se enganara.

-Viu, Sirius?

-Deixa eu terminar, Lily –murmurou raivoso.

Não era bem que Snape não gostava de Harry – ele o odiava.

Sirius olhou para Severo com ódio novamente.

-Continue lendo, Padfoot –recomendou James, ele mesmo controlando a raiva e apertando fortemente as mãos uma na outra.

A aula de Poções foi em uma das masmorras. Era mais frio ali do que na parte social do castelo e teria dado arrepios mesmo sem os animais embalsamados flutuando em frascos de vidro nas paredes à volta.

Snape, como Flitwick, começou a aula fazendo a chamada e, como Flitwick, ele parou no nome de Harry.

Ah, sim – disse baixinho. – Harry Potter. A nossa nova celebridade.

Dessa vez quem rosnou para Snape foi Remus, que também estava começando a perder a paciência.

Lily se limitou a apenas baixar o rosto, mexendo a mão desconfortavelmente em seu colo.

Draco Malfoy e seus amigos Crabbe e Goyle deram risadinhas escondendo a boca com as mãos. Snape terminou a chamada e encarou a classe. Seus olhos eram negros como os de Hagrid, mas não tinham o calor dos de Hagrid. Eram frios e vazios e lembravam túneis escuros.

"Como ele, que era meu melhor amigo, se transformou nisso?", pensou Lily.

Vocês estão aqui para aprender a ciência sutil e a arte exata do preparo de poções –começou.

Falava pouco acima de um sussurro, mas eles não perderam nenhuma palavra. Como a Profa. Minerva, Snape tinha o dom de manter uma classe silenciosa sem esforço.

Como aqui não fazemos gestos tolos, muitos de vocês podem pensar que isto não é mágica. Não espero que vocês realmente entendam a beleza de um caldeirão cozinhando em fogo lento, com a fumaça a tremeluzir, o delicado poder dos líquidos que fluem pelas veias humanas e enfeitiçam a mente, confundem os sentidos... Posso ensinar-lhes a engarrafar fama, a cozinhar glória, até a zumbificar,se não forem o bando de cabeças-ocas que geralmente me mandam ensinar.

-SÃO CRIANÇAS –gritou Alice.

-Como você pode falar assim com eles? –perguntou Frank ao sonserino, que não demonstrou nenhuma expressão.

Mais silêncio seguiu-se a esse pequeno discurso. Harry e Rony se entreolharam com as sobrancelhas erguidas. Hermione Granger estava sentada na beiradinha da carteira e parecia desesperada para começar a provar que não era uma cabeça-oca.

Potter! – disse Snape de repente. – O que eu obteria se adicionasse raiz de asfódelo em pó a uma infusão de losna?

-Na primeira aula você já esperava que ele soubesse isso? –perguntou Lily, inconformada.

James passou a mão nos cabelos com raiva.

Raiz do quê em pó a uma infusão do quê?Harry olhou para Rony, que parecia tão embatucado quanto ele; a mão de Hermione se ergueu no ar.

Não sei, não senhor – disse Harry.

A boca de Snape se contorceu num riso de desdém.

James levantou e passou a andar pela sala, ouvindo cada palavra vinda do livro.

Lily o olhou apreensiva, mas ao mesmo tempo, apreciando o que ele estava fazendo. Se fosse dois anos antes, ele teria azarado Severo sem nem pensar duas vezes.

Tsc, tsc, a fama pelo visto não é tudo.

E não deu atenção à mão de Hermione.

Vamos tentar outra vez, Potter. Se eu lhe pedisse, onde você iria buscar bezoar?

-Isso não é nem matéria de primeiro ano –a cada segundo, Lily ficava mais decepcionada com o garoto que um dia foi seu amigo.

Hermione esticou a mão no ar o mais alto que pôde sem se levantar da carteira, mas Harry não tinha a menor ideia do que fosse bezoar. Tentou não olhar para Malfoy, Crabbe e Goyle, que se sacudiam de tanto rir.

Não sei, não senhor.

Achou que não precisava abrir os livros antes de vir, hein, Potter?

Harry fez força para continuar olhando diretamente para aqueles olhos frios. Folheara os livros na casa dos Dursley, mas será que Snape esperava que ele se lembrasse de tudo que vira em Mil ervas e fungos mágicos?

Snape continuava a desprezar a mão trêmula de Hermione.

Qual é a diferença, Potter, entre acônito licoctono e acônito lapelo?

-Pelo amor de Deus –Lily gemeu –não piore, senão eu serei obrigada a te azarar.

Snape abaixou a cabeça, pedindo silenciosamente para que seu "eu futuro" se controle.

Ao ouvir isso, Hermione se levantou, a mão esticada em direção ao teto da masmorra.

-Essa menina é muito esperta –disse Frank, impressionado –isso não é nem matéria do ano dela, e no primeiro de aula ela já sabia? Inteligentíssima –elogiou, tentando mudar o clima de tensão da sala.

-Não sei como ela não foi para a Corvinal –concordou Alice.

Não sei – disse Harry em voz baixa. – Mas acho que Hermione sabe, por que o senhor não pergunta a ela?

James olhou para Snape, segurando a vontade de apanhar a varinha. Não faria isso, não com Lily por perto. Preferiu deixar para ela resolver, sabia que aquilo a estava machucando, e que aquilo era uma briga dela.

Por mais que tenha sido direcionada ao ódio que Snape nutria por ele.

Alguns garotos riram; os olhos de Harry encontraram os de Simas e este deu uma piscadela. Snape, porém, não gostou.

Sente-se – disse com rispidez a Hermione. – Para sua informação, Potter, asfódelo e losna produzem uma poção para adormecer tão forte que é conhecida como a Poção do Morto-Vivo. O bezoar é uma pedra tirada do estômago da cabra e pode salvá-lo da maioria dos venenos. Quanto aos dois acônitos são plantas do mesmo gênero botânico. Então? Por que não estão copiando o que estou dizendo?

Ouviu-se um ruído repentino de gente apanhando penas e pergaminhos. E acima desse ruído a voz de Snape:

E vou descontar um ponto da Grifinória por sua impertinência, Potter.

-Isso não é justo e você sabe disso melhor do que ninguém, Snape –disse Lily com frieza.

O garoto abaixou a cabeça, envergonhado. Sorriu amargamente ao notar que não era pela sua atitude, faria tudo de novo com o filho do Potter, mas por Lily descobrir, e tomar o partido do lado contrário.

As coisas não melhoraram para os alunos da Grifinória na continuação da aula de Poções. Snape separou-os aos pares e mandou-os misturar uma poção simples para curar furúnculos.

Caminhava imponente com sua longa capa negra, observando-os pesar urtigas secas e pilar presas de cobras, criticando quase todos, exceto Draco, de quem parecia gostar. Tinha acabado de dizer a todos que olhassem a maneira perfeita com que Draco cozinhara as lesmas quando um silvo alto e nuvens de fumaça acre e verde invadiram a masmorra. Neville conseguira derreter o caldeirão de Simas transformando-o numa bolha retorcida e a poção dos dois estava vazando pelo chão de pedra, fazendo furos nos sapatos dos garotos. Em segundos, a classe toda estava trepada nos banquinhos enquanto Neville, que se encharcara de poção quando o caldeirão derreteu, tinha os braços e as pernas cobertos de furúnculos vermelhos que o faziam gemer de dor.

-Acho que ele herdou o meu talento em poções –falou Alice, envergonhada –e olhe aqui, Ranhoso –o garoto a olhou, revirando os olhos –se você fizer algo com o meu filho, você vai se ver comigo.

Menino idiota! – vociferou Snape,

Alice com um aceno de varinha lançou o feitiço "levicorpus" e fez Snape ficar de cabeça para baixo. Ele era perfeitamente capaz de se defender, mas sabendo que estava em enorme desvantagem em número, resolveu não reagir.

Lily abaixou a cabeça, segurando as lágrimas. Não sabia se o defendia ou não, estava magoada demais.

James olhou para a ruiva e viu lágrimas saindo de seus olhos. Resolveu fazer algo que nunca teria feito na vida em outra ocasião. "Tudo pela Lily", pensou.

-Pare, Alice –ordenou –pare agora. –todos olharam para ele, chocados. Até o próprio Snape.

Alice desfez o feitiço e sentou, respirando profundamente.

-Não pense que fiz isso por você, Snape –disse friamente –eu só não deixarei que você magoe Evans dessa forma.

Snape acenou com a cabeça, sentando-se. James fez o mesmo, tremendo de nervoso.

-Obrigada –murmurou Lily, agradecida. Ele assentiu, fechando os punhos.

limpando a poção derramada com um aceno de sua varinha.

Suponho que tenham adicionado as cerdas de porco-espinho antes de tirar o caldeirão do fogo?

Neville choramingou quando os furúnculos começaram a pipocar em seu nariz.

Levem-no para a ala do hospital – Snape ordenou a Simas. Em seguida voltou-se zangado para Harry e Rony, que estavam trabalhando ao lado de Neville.

Você, Potter, por que não disse a ele para não adicionar as cerdas? Achou que você pareceria melhor se ele errasse, não foi? Mais um ponto que você perdeu para Grifinória.

Dessa vez foi Frank quem rosnou.

A injustiça foi tão grande que Harry abriu a boca para argumentar, mas Rony deu-lhe um pontapé por trás do caldeirão.

Não force a barra – cochichou. – Ouvi dizer que Snape pode ser muito indigesto.

Quando subiam as escadas para sair da masmorra uma hora depois, os pensamentos se sucediam velozes na cabeça de Harry, que se sentia deprimido. Perdera dois pontos para Grifinória na primeira semana – por que Snape o odiava tanto?

-Ele não suporta te olhar –murmurou Sirius, como se estivesse falando com Harry –não sendo fisicamente tão parecido com seu pai.

Lily resolveu que estava na hora de reagir. Levantou-se e sentou-se ao lado de Snape. Todos a olharam chocados.

-Harry é meu filho. –disse seriamente –meu filho! O filho da sua melhor amiga. Daquela que ficou com você todos os dias durante cinco anos da sua vida, e mesmo assim, você só consegue olhar para ele e ver James. Harry tem muito de mim, não só os olhos, Severo. Ele não merece que você o trate dessa maneira por uma rivalidade adolescente. –suspirou –Se você está aqui hoje, é porque seja lá quem for que nos mandou esse livro, acredita na sua mudança. Portanto, eu também acredito. E eu espero verdadeiramente que você se torne um adulto melhor, que você não desconte sua raiva em crianças inocentes, que você não se torne esse adulto rancoroso, carrancudo, frio, e incapaz de perdoar que você demonstra ser no livro. Eu estou decepcionada, e sei que Lily do futuro também estará se você não mudar de atitude. E não é para mudar por mim, é por você. Você merece mais do que isso, Sev. –ele a olhou pela primeira vez desde que ela começou a falar –Você merece ser feliz, merece amar e ser amado. Não deixe a felicidade escapar de seus dedos por uma rivalidade infantil. –ele assentiu para ela.

Ela se levantou e voltou para o lugar ao lado de James.

-Nós juramos que não iríamos atacar e julgar uns aos outros antes de terminarmos todos os livros –falou para o resto da sala –eu vou cumprir minha promessa, e espero que vocês façam o mesmo. –eles assentiram.

-Nós vamos, Lils –falou James, com uma seriedade que Lily nunca tinha visto em seu rosto. Ela sorriu para ele, agradecida.

Ânimo – disse Rony. – Snape está sempre tirando pontos de Fred e Jorge. Posso ir com você à casa de Rúbeo?

Às cinco para as três eles saíram do castelo e atravessaram a propriedade. Hagrid morava numa casinha de madeira na orla da Floresta Proibida. Uma besta e um par de galochas estavam à porta da casa. Quando Harry bateu à porta eles ouviram uma correria frenética e latidos ferozes. Depois, a voz de Hagrid dizendo:

Para trás, Canino. Atrás.

-Esse cachorro ainda está vivo? –questionou Frank, perplexo.

-E ainda parece tão saudável! –concordou Remus.

A cara barbuda de Hagrid apareceu na fresta quando a porta se abriu.

Espere aí. Para trás, Canino.

Ele os fez entrar, lutando para segurar com firmeza a coleira de um enorme cão de caçar javalis.

Havia apenas um aposento na casa. Presuntos e faisões pendiam do teto, uma chaleira de cobre fervia ao fogão e a um canto havia uma cama maciça coberta com uma colcha de retalhos.

-Não mudou nada –suspirou Alice, nostálgica.

Estejam à vontade – falou Hagrid, soltando Canino, que pulou imediatamente para cima de Rony e começou a lamber-lhe as orelhas. Como Hagrid, parecia óbvio que Canino não era tão feroz quanto se esperava.

-Tal pai, tal filho –gargalhou Sirius.

Os outros apenas balançaram a cabeça, esperando o ataque do maroto passar.

Este é o Rony – Harry disse a Hagrid, que fora despejar água fervendo num grande bule de chá e arrumar biscoitos num prato.

Mais um Weasley, hein?! – exclamou Hagrid vendo as sardas de Rony. – Passei metade da vida expulsando seus irmãos da floresta.

-E a outra metade tentando expulsar os Marotos –riu James, fazendo um high-five com os dois amigos envolvidos.

Os biscoitos quase quebraram os dentes deles, mas Harry e Rony fingiram gostar e contaram a Hagrid como tinham sido as primeiras aulas.

-A culinária de Hagrid é altamente questionável –Remus fez uma careta.

Canino descansou a cabeça no colo de Harry e cobriu as vestes dele de baba.

-Ai, que bonitinho –Alice sorriu.

Lily, por sua vez, fez uma careta imaginando a baba de cachorro.

Harry e Rony ficaram contentes de ouvir Hagrid chamar Filch de "guitarra velha".

Quanto àquela gata, Madame Nor-r-ra, às vezes eu tenho vontade de apresentar o Canino a ela. Sabe que todas as vezes que vou até a escola ela me segue por toda parte? Não consigo me livrar da gata. É Filch que manda ela fazer isso.

Harry contou a Hagrid a aula de Snape. Hagrid, como Rony, disse a Harry que não se preocupasse, que Snape não gostava praticamente de nenhum aluno.

Mas ele parecia que realmente me odiava.

Bobagem! Por que o odiaria?

Mas Harry não pôde deixar de pensar que Hagrid evitou encará-lo quando disse isso.

-Eu duvido muito que alguém que esteve por perto nos anos em que estivemos em Hogwarts não saiba –disse Remus, olhando de James para Snape, que se encaravam com seriedade.

Lily começou a fazer cafuné em James, ao ver quão tenso ele estava. Ele relaxou nos braços dela e agradeceu.

Ela, por sua vez, nunca esteve tão grata ao saber que escolheu o homem certo para acompanhá-la no resto de seus dias de vida. Como ela nunca havia notado como James era maravilhoso por trás daquela máscara de "metido gostosão" que ele colocava?

Percebendo seus pensamentos, ficou atordoada e abaixou a cabeça, evitando encará-lo.

Como vai seu irmão Carlinhos? – perguntou Hagrid a Rony. – Eu gostava muito dele. Tinha muito jeito com animais.

Harry se perguntou se Hagrid teria mudado de assunto de propósito.

-Claro que sim, não é como se ele fosse dizer: "ele e seu pai viviam brigando pelos corredores de Hogwarts e não deixavam um ao outro em paz" –riu Frank, tentando novamente descontrair o ambiente tenso.

Enquanto Rony contava tudo sobre o trabalho de Carlinhos com dragões, Harry apanhou um pedaço de papel que estava na mesa sob o abafador de chá. Era uma notícia recortada do Profeta Diário.

-Não gosto desse jornal –disse Remus –eles distorcem demais os fatos. Quero dizer, agora que Voldemort está no poder, né? Não sei como é sem Voldemort por perto.

-Isso é muito triste –suspirou Lily –nós não sabermos como é um mundo sem Voldemort –todos acenaram em concordância, exceto Snape, que não sabia exatamente se queria um mundo sem o Lord das Trevas.

O CASO GRINGOTES

Prosseguem as investigações sobre o arrombamento de Gringotes, ocorrido em 31 de julho, que se acredita ter sido trabalho de bruxos e bruxas das Trevas desconhecidos.

Os duendes de Gringotes insistiam hoje que nada foi roubado. O cofre aberto na realidade fora esvaziado mais cedo naquele dia.

"Mas não vamos dizer o que havia dentro, para que ninguém se meta, se tiver juízo", disse um porta-voz esta tarde.

Harry lembrou-se que Rony lhe contara no trem que alguém tentara roubar Gringotes, mas não mencionara a data.

-Nosso filho é esperto, vai relacionar as datas –disse James para Lily, que acenou em concordância e mordeu o lábio inferior ao olhar diretamente nos olhos dele.

Ele percebeu a mudança nela, mas sabendo que talvez ela precisasse de espaço, nada comentou.

Rúbeo! – exclamou Harry. – Aquele arrombamento de Gringotes aconteceu no dia do meu aniversário! Talvez estivesse acontecendo enquanto a gente estava lá!

Não havia a menor dúvida, desta vez Hagrid decididamente evitara encarar Harry.

-Ele definitivamente pegou a Pedra Filosofal –gemeu Lily, esquecendo momentaneamente seus sentimentos conflituosos –espero que Harry não se meta nisso. –todos abaixaram a cabeça para evitar olhar a ruiva, sabendo que seria difícil Harry não se envolver.

Resmungou alguma coisa e lhe ofereceu mais um biscoito. Harry releu a notícia. O cofre aberto na realidade fora esvaziado mais cedo naquele dia. Hagrid esvaziara o cofre setecentos e treze, se é que se podia chamar esvaziar alguém levar aquele pacotinho encalombado. Seria aquilo que os ladrões estavam procurando?

Quando Harry e Rony voltaram ao castelo para jantar, tinham os bolsos pesados com os biscoitos que a educação os impedira de recusar.

-Nosso filho é muito educado mesmo –disse James, sorrindo para Lily, que sorriu de volta para ele.

Harry pensou que nenhuma das aulas a que assistira até ali tinha-lhe dado tanto o que pensar quanto o chá com Rúbeo Hagrid. Será que Hagrid tinha apanhado o pacote bem na hora? Onde estava o pacote agora? Será que ele sabia alguma coisa de Snape que não queria contar a Harry?

-Só que ele e seu pai se odiavam, mas isso não tem nada a ver com a pedra –disse Remus, como se Harry estivesse em sua frente.

-O capítulo acabou. –disse Sirius.