Clear acordou sem muito esforço naquela manhã. Sequer esperou o despertador marcar seis horas e gritar estridente; já o silenciou dez minutos antes da hora marcada.
Já era sábado e ele estava animado, finalmente poderia aproveitar para descansar e ficar um tempo com Suzume. Devido ao seu trabalho e aos estudos da namorada, o final de semana era o único momento que ambos podiam aproveitar para ficarem juntos.
Naquele dia, eles finalmente iam concretizar a ideia de Suzume e fazer o tão esperado piquenique. Precisariam chegar cedo para pegar um bom lugar em baixo de uma das Sakuras as quais ela falava tão bem.
Se levantou da cama com disposição e partiu em direção ao banheiro. O banho foi rápido, não demorou nem cinco minutos para finalmente se secar e vestir as roupas que usaria naquele dia.
O tempo passou desde que ele tinha saído do hospital, transformando aquela situação em uma lembrança que servia para fazê-lo agradecer por estar finalmente em sua casa, e não entediado em uma cama o dia inteiro.
Ele atravessou a sala e, passando pela mesa de centro, pegou uma cesta de piquenique que tinha comprado para a ocasião; então se dirigiu à cozinha.
Suzume ficou encarregada de levar as bebidas e algumas frutas, alegando ser tão ruim na cozinha ao ponto de ser incapaz de fazer algo comestível para levar. Clear reprimiu um riso ao se lembrar da expressão chorosa dela ao explicar aquilo.
Ele também estava longe de ser um cozinheiro, mas poderia pelo menos fazer alguns sanduíches para levar. Também tinha comprado doces na noite anterior. Juntamente as frutas, eles poderiam se transformar no prato principal, caso os sanduíches não ficassem bons.
Clear logo escutou alguém batendo em sua porta e voltou para sala. Seus olhos encontraram o relógio de parede de lá, constatando que ainda eram seis e meia. Abriu a porta curioso.
— Suzume? — ficou surpreso ao vê-la quase uma hora mais cedo em sua porta.
— Bom dia! — Ela saudou alegremente.
Ele abriu passagem para ela entrar em seu apartamento, sendo recebido com um beijo rápido.
— Está adiantada. — Ele comentou.
A jovem riu nervosamente, colocando suas sacolas cheias na mesa de centro da sala.
— O Takamine-kun me ligou ontem à noite e falou que queria nos ver hoje o mais rápido possível. Estava pensando em irmos para a casa dele antes do piquenique, então vim mais cedo.
— O que poderia ser tão importante assim? — Clear perguntou incomodado.
— Eu não sei, ele não me disse. Mas parecia ser algo importante.
As diferenças entre Clear e Takamine estavam sendo jogadas de lado com o passar do tempo, pelo menos o suficiente para não saírem brigando ou discutindo com qualquer indireta. Entretanto, eles estavam longe de serem amigos e nenhum dos dois poderia negar que a presença do outro era um tanto incômoda.
— Eu não sei, você sabe que não gosto nem um pouco dele. — Clear resistiu com uma careta.
— Acredite, o Takamine-kun não se engana quando diz que algo é importante. — Ela segurou a mão de Clear e insistiu. — Vamos lá, apenas para saber o que ele quer.
— Tudo bem… — Ele cedeu. — Eu vou terminar a cesta e já vamos.
Voltando à cozinha, Clear tratou de pegar os doces na geladeira e os guardou na cesta , próximos aos sanduíches, terminando assim as preparações para o piquenique.
Ambos pegaram um táxi e chegaram à casa de Takamine em cerca de dez minutos.
Foram atendidos por uma mulher de meia-idade que prontamente sorriu ao ver Suzume. Provavelmente alguma parente de Kiyomaro, Clear pensou.
— Suzume-chan, há quanto tempo! — A mulher cumprimentou, alegre por ver uma amiga de longa data do filho. — Kiyomaro me avisou que você viria.
— É muito bom revê-la! —Suzume cumprimentou radiante.
O sorriso de Hana não desapareceu ao ver que alguém cujo o rosto nunca tinha visto antes estava acompanhando a amiga de seu filho.
— Kiyomaro me avisou que você viria acompanhada.
Suzume deu uma cotovelada de leve em Clear, que se manteve em silêncio por um tempo. Sendo "incentivado" por Suzume a se apresentar, ele lembrou do cumprimento que ela havia lhe ensinado. Inclinou o corpo para frente, fazendo uma rápida reverência.
— Meu nome é Clear Note. — Ele se apresentou.
— É um prazer conhecê-lo, meu nome é Hana Takamine. É muito bom conhecer mais um amigo da Suzume-chan.
— Somos namorados. — Ele corrigiu.
— Que estranho, Kiyomaro não me avisou que você estava namorando, Suzume-chan. — Aquilo não era surpresa para Clear. — Por favor, entrem.
Ambos aceitaram o convite e tiraram os sapatos, deixando-os em um canto na entrada da casa. Como acreditavam que seria rápido, deixaram a cesta de piquenique e as sacolas próximas aos calçados.
— Vocês vieram, que bom. — Kiyomaro saiu de um cômodo no corredor e se dirigiu à dupla.
Suzume o cumprimentou divertidamente, sempre feliz por reencontrar o amigo. Clear, por sua vez, não esboçou expressão e sequer cumprimentou Kiyomaro, que já esperava o comportamento indiferente.
— Venham comigo! — Ele subiu as escadas, sendo acompanhado pelo casal.
Sem delongas, ele os levou até uma sala de visitas, próximo ao seu quarto. Não era um cômodo grande, possuía duas mesas de madeira unidas, que cobriam grande parte do espaço. Uma janela média era responsável por arejar e iluminar o local. A pouca luz do sol que ainda nascia no horizonte conseguia entrar por ela, iluminando o cômodo.
No momento que se sentaram, a mãe de Kiyomaro adentrou à sala e ofereceu chá a todos.
— Se precisar de mim estarei na cozinha, Kiyomaro. — Hana recebeu um agradecimento do filho antes de fechar a porta.
Kiyomaro, sentado em frente ao casal, respirou fundo e tomou um gole de chá.
Clear pôde perceber perfeitamente que ele lançava olhares preocupados para Suzume desde que tinham chegado. Ele encarou o único relógio de parede na sala e achou desnecessários os cinco minutos que ele e Suzume estavam lá.
— O que você quer, Kiyomaro? — foi direto ao ponto.
Kiyomaro mais uma vez analisou o casal em sua frente, antes de suspirar pesaroso. Ele tirou um envelope do bolso traseiro da calça e o colocou no centro da mesa, arrastando-o na direção de Clear.
O envelope entregue era dourado, o símbolo do mundo mamodo enfeitava tanto o verso completo como o selo, que já havia sido rompido. Era óbvio quem tinha aberto o envelope, já que o nome de Kiyomaro estava escrito no idioma mamodo como destinatário.
— Eu nunca vi uma carta assim antes… — comentou Suzume.
— Ela veio endereçada à mim, mas o conteúdo é inteiramente destinado ao Clear — explicou Kiyomaro.
Clear estaria mentindo se dissesse que não estava um pouco curioso e, querendo acabar com aquilo de uma vez e matar sua curiosidade, ele pegou a carta guardada no envelope e começou a ler em silêncio.
Olá Clear,
Como você está? Sou eu, Gash! Já faz muito tempo desde que lutamos. Espero que não tenha ressentimento por eu ter te mandado para o mundo humano.
Sabe, durante as batalhas, eu e meus amigos fomos capazes de aprender alguma coisa no mundo humano. Passamos por duras provações e momentos ruins, mas sempre os superávamos juntos, fortalecendo nossos laços.
Meu coração me dizia que você seria capaz de encontrar algo bom na terra, capaz de te mostrar um lado que você nunca foi capaz de presenciar devido ao mal que habitava seu ser.
Enquanto escrevo essa carta, posso sentir que esse pressentimento se concretizou e que você está completamente diferente. E agora que você foi capaz de sentir o mesmo que todos nós, eu estou te entregando um convite.
Essa carta que está em suas mãos é um portal para o mundo mamodo que foi finalizado há pouco tempo, e eu gostaria que você fosse o primeiro a usá-la. Futuramente, espero que sejamos capazes de transitar entre os dois mundos sem o auxílio dela.
Enfim, fique com a carta em mãos que dentro de 24 horas o portal se abrirá. Assim que voltar, a restrição em seu corpo será retirada e você poderá viver livre no nosso mundo.
Estamos com as portas abertas para receber você de volta!
Gash Bell
— O que diz aí? — Suzume perguntou, olhando as letras desconhecidas de relance.
O silêncio foi a única resposta que ela recebeu. Clear estava compenetrado demais na carta para dizer qualquer coisa, enquanto Kiyomaro encarava o mamodo com seriedade, esperando alguma coisa que Suzume não sabia dizer o que era.
Clear nada falou quando seus olhos finalmente chegaram ao final da carta, exatamente onde estava a assinatura dourada de Gash.
Kiyomaro podia perceber a aflição de Suzume aumentar a medida que nenhum dos dois se atreviam a dizer uma palavra, mantendo expressões sérias. Kiyomaro já tinha lido a carta antes da chegada do casal e sabia muito bem qual era seu conteúdo. Ele reuniu toda a sua coragem para destroçar a felicidade da amiga com uma só frase.
— O Gash está me convidando para voltar ao mundo mamodo. — Clear tomou a iniciativa antes de Kiyomaro.
— Mas… o Takamine-kun não tinha dito que... — Ela parou ao tentar se lembrar o que ele tinha falado naquele dia.
— Ao que parece eles conseguiram desenvolver um protótipo de portal, para permitir a volta ao mundo mamodo. — Clear explicou, levantando brevemente a carta e envelope na altura dos olhos de Suzume. — Mas para desenvolver algo dessa magnitude, é necessário tempo. Bem mais do que poucos meses.
Kiyomaro percebeu Clear encará-lo com desconfiança e, sabendo que o mamodo não seria facilmente enganado, decidiu contar a verdade.
— Honestamente, eu estava sabendo do desenvolvimento desse protótipo há mais de um ano, mas não contei para ninguém, para não levantar falsas esperanças.
Ainda inexpressivo, Clear se levantou e ficou de frente à janela aberta da sala, pensando no que deveria fazer.
— Isso significa que… — Suzume não teve coragem de terminar a frase ao receber um aceno positivo do amigo.
Ela abaixou a cabeça e fez o melhor que pôde para não demonstrar tristeza, porém sem perceber que não era tão boa em esconder o que sentia.
Aquilo significaria o fim? Ele voltaria para o mundo mamodo e consequentemente se separaria dela? As mãos tremiam e sentiu sua mandíbula tremer ligeiramente. Quando sentiu que não conseguiria ficar quieta e estava prestes a abrir os lábios para protestar; sentiu uma mão pousar em seu ombro. Estava tão imersa em suas preocupações que não tinha percebido Kiyomaro se aproximar para ficar ao seu lado.
O olhar que ele lhe lançava era repreensor o suficiente para ela se sentir envergonhada por ser dominada por tão súbito egoísmo. Se recuperando lentamente de seu estado, ela acenou positivamente para ele, com um sorriso triste nos lábios. Se ela o amava, teria que apoiá-lo, independe de qual dos dois caminhos ele decidisse seguir.
— Ele está te dando uma chance de escolher, Clear — disse Kiyomaro. — A decisão é toda sua.
— O Takamine-kun tem razão! — Suzume havia reunido sua coragem. — Eu vou te apoiar, não importa qual a sua decisão!
Durante muito tempo, aquela carta era o que Clear mais desejava ter em mãos. Seria a oportunidade para voltar ao mundo mamodo e ter seus poderes de volta. Mas, estranhamente, aquilo já havia se tornado banal para ele.
Seus olhos se desviaram da dupla para ir em direção à vista que a janela oferecia. Já era primavera e a neve que cobria Mochinoki foi derretida pelo sol. Os pássaros cantavam alegremente e as árvores voltaram a produzir novas folhas. Estava gostando tanto daquele mundo que já o considerava como sua nova casa.
Sentiu o corpo esquentar assim que um raio de sol o alcançou, nunca havia pensado que se acostumaria tanto com tudo aquilo. Havia experimentado tantas emoções estranhas, sentiu a fraqueza na pele e passou por situações desagradáveis. Mas em compensação, existiam momentos valiosos que queria manter.
Ainda que os traços da raça mamodo em seu corpo fossem evidentes, ele se sentia tão humano quanto qualquer pessoa naquele lugar e, supreendentemente, gostava daquilo. Independente do que Kiyomaro e Gash afirmassem, em seu coração ele era humano.
Olhou para a causadora de sua mudança.
Caso voltasse para o mundo mamodo, perderia Suzume. Haveria a possibilidade de nunca mais vê-la novamente, assim como nunca sentiria seus toques carinhosos ou apreciaria aquele sorriso bobo que tanto o cativou. Sentiu o coração apertar diante do pensamento. Não queria se separar dela.
Os dois amigos se surpreenderam ao ver o rapaz colocar a carta na palma da mão e assoprá-la para longe. O envelope dourado voou rapidamente em linha reta, em direção ao céu, desaparecendo do campo de visão.
— Clear! Essa era a sua chance de voltar para o mundo mamodo! — Kiyomaro gritou incrédulo.
— Eu não entendo o que eu faria naquele lugar. — Ele disse indiferente. — O Gash que ache um mamodo para testar esse protótipo.
— Você… vai ficar? — Suzume se levantou e deu um passo na direção de Clear.
— Sim, temos um piquenique para fazer. — Ele disse sorridente.
A alegria foi tamanha que Suzume não soube contê-la e mal pensou duas vezes antes de se jogar nos braços do rapaz, sendo recebida calorosamente.
Do outro lado, Kiyomaro estava paralisado, olhando para o casal em completo choque. Sua expressão suavizou e um sorriso gigantesco se formou em seus lábios quando a alegria do casal estava óbvia demais para ser ignorada. Era normal ver Suzume tão sorridente; mas ele não esperava que Clear fosse capaz de demonstrar um sorriso sincero e que tão pouco abriria mão de uma oportunidade única apenas para ficar ao lado de Suzume. Agora ele conseguia ver que aquele não era o mesmo homem que ele havia conhecido.
— Essa não! — Suzume se alarmou ao ter um vislumbre da hora marcada no relógio da sala. — O piquenique!
— Parece que precisamos nos apressar.
Clear fez o que tanto queria fazer desde o momento que tinha posto os pés naquela casa. Pegou na mão de Suzume e saiu correndo de lá com ela.
— Esperem! — De nada adiantou gritar, o casal havia deixado a sala e Kiyomaro já podia escutar seus passos apressados na escada.
Desistente, ele suspirou e se dirigiu à janela da sala aberta. Clear e Suzume já haviam pego suas coisas e conversavam alegremente no quintal em frente à sua casa. Eles pareciam tão felizes que decidiu não interromper aquele momento.
Não demorou muito para um táxi parar em frente à casa do estudante. Suzume se virou e olhou na direção da janela, onde Kiyomaro ainda estava, e se despediu com um aceno de mão agitado. Kiyomaro se surpreendeu quando viu Clear fazer o mesmo, mas seu aceno era feito de mau gosto e seu sorriso satisfeito — estava mais do que na cara que ele estava imensamente feliz por sair de sua casa.
Kiyomaro continuou debruçado na janela, assistindo o táxi seguir seu caminho. Assim que o veículo desapareceu ao longe, seu sorriso se alargou ainda mais enquanto ele olhava na direção que a carta havia tomado pelo céu.
Chegamos ao quase fim da história! Por que "quase fim"? Bem, ainda temos o epílogo!
Estava planejando postá-lo depois, mas como demorei para lançar esse capítulo, decidi que seria melhor postar um "2 em 1".
Divirtam-se!
