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Queda na conexão
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Parou o carro diante do grande prédio. A fachada antiga tinha sido preservada, mas por trás daquele tradicional muro com charme da arquitetura feudal havia um enorme prédio que comportava as salas de um dos maiores conglomerados de comunicação de toda Kyoto. Inúmeras revistas eram produzidas dentro daquelas salas, assim como jornais e material publicitário. Era naquele império que a revista Queijos&Vinhos ganhava vida.
Com um suspiro, a mulher se empertigou para ter uma melhor imagem de seu reflexo no espelho do quebra-sol, verificou seu batom vermelho bem desenhado no contorno de seus lábios na mais intensa das cores. O dia tinha sido corrido, seu escritório tinha pego o projeto de um hotel de luxo que estava sendo reformado na área nobre. Seu trabalho exigia que estivesse por dentro das tendências do design de maneira ecológica, afinal tudo que era sustentável estava em alta.
Quando recebeu a mensagem de que o show de Aoba teria sido adiantado para a sexta daquela semana, Kurenai pensou em simplesmente não ir. Estava atolada em trabalho e qualquer tempo que tivesse para relaxar em sua casa era bem-vindo, mas Asuma, o homem que era praticamente seu esposo, ficou todo ansioso quando soube, insistindo para que não faltassem com a justificativa de que seria uma desfeita com o amigo.
Ela até tentou convencê-lo que Aoba não se importaria caso não fossem e mais ainda, disse que ele poderia ir sozinho como representante do casal, afinal todos os outros estariam lá também e ninguém daria muita bola para sua ausência, mas Asuma pareceu tão decepcionado... Depois de um certo tempo convivendo com o homem dentro da mesma casa, Kurenai percebeu que relacionamento era feito de sacrifícios e só por isso ela assumiu o compromisso de ir, ainda que fosse chegar relativamente tarde e estivesse exausta.
Mas sempre deslumbrante.
Pegou o celular olhando a hora antes de discar o número da amiga. Rin trabalhava nesse local chique e imponente, mas com um estacionamento ridículo. Era impossível pegar uma vaga e por isso a mulher gastava uma pequena fortuna em táxis, ficando dependente dos outros para eventuais caronas em caso de saídas noturnas. É claro que isso não era um problema desde que Kakashi nunca reclamou em ir pegá-la, mas sempre que terminavam era Kurenai que assumia o papel do chofer, e seu estúdio era quase que do outro lado da cidade.
O celular chamou duas vezes até uma esbaforida Rin aparecer de supetão pela traseira do carro, se jogando contra a porta para entrar de uma vez. Murmurou suas desculpas pelo atraso enquanto cavoucava sua bolsa em busca de sua nécessaire repleta de cosméticos. Seria a primeira vez que ela e Kakashi estariam juntos depois do término, então era natural que queria estar bonita.
— Asuma já está lá? – Ela perguntou retocando o rímel nos longos cílios castanhos.
— Sim, foi mais cedo com os meninos. – Confirmou prestando atenção nos espelhos enquanto fazia a conversão na rua para evitar ter que pegar o retorno mais à frente.
— O Kakashi vai, não é?
Teve que segurar o volante com mais força para evitar um longo e profundo suspiro que só deixaria a outra irritada. Rin estava lhe lembrando os tempos de escola quando vivia pelos corredores, apaixonada e sonhadora, em busca do amor de sua vida: Hatake Kakashi. Na época era até normal, mas ali, quando elas já tinham 36 anos, soava como desespero.
— Sim – Disse depois de um tempo — Vi o Asuma confirmando com ele ao telefone. Genma, Gai... Só a Shizune e o Yamato que não vão poder ir. – Informou sabendo que a única informação que era necessária tinha sido respondida logo no começo.
— Olha, eu estava no shopping ontem – Rin começou melando os lábios com aquele brilho labial enquanto ignorava totalmente o relato da outra — Eu vi o Kakashi saindo de uma joalheria. – Disse virando para Kurenai com expectativa.
— ... Certo. – Hesitou por um momento antes de responder — E daí?
— E daí? – A outra perguntou perplexa com a reação pouco empolgada da outra — Kurenai, o Kakashi estava numa joalheria, por vontade própria! Aquele pão-duro estava num dos locais mais caros de Kyoto e saiu com uma sacolinha minúscula, o suficiente para caber uma caixinha de veludo vermelha com um anel.
— Como você sabe que a caixinha era vermelha? – Questionou franzindo o cenho.
— Estou deduzindo! Mas a cor não interessa – Continuou logo em seguida, ainda perplexa com a falta de interesse da amiga no cerne da questão — Pode ser preta, azul... Tanto faz! O que interessa é que Kakashi estava comprando alguma coisa, e aquele mão-de-vaca jamais gastaria tanto dinheiro com uma ninfeta qualquer que conheceu outro dia, logo... Kurenai – Ela disse sugando o ar para os pulmões cheia de ansiedade — Eu acho que ele vai me pedir em casamento hoje!
A mulher de longos cabelos pretos olhou pelo retrovisor para o carro que lhe cortava com o farol alto, praguejando internamente enquanto processava os dizeres da pessoa que se encontrava no banco do carona. Diante daquela fala, Kurenai queria parar o carro, se virar para a amiga e lhe dar um tapa no rosto, gritando para que ela acordasse dessa fantasia idiota e parasse de se torturar com coisas que não vão acontecer.
Casamento? Kakashi? Pff...
Que piada.
Ouvir aquelas coisas da amiga lhe deixava até preocupada com seu estado emocional. Imagine que loucura! Estão a quase dois meses sem trocar uma mensagem sequer, o homem até estava ficando com outras pessoas! Que ideia pensar que absolutamente do nada Kakashi resolveria pedi-la em casamento? Não sabia como a mente turva de Rin tinha chegado nessa conclusão, mas encontrar as palavras para lhe dizer o quão absurdo esse pensamento era estava se tornando uma tarefa difícil.
— Oh... – Deixou escapar junto com um estalar de língua. — Eu não sei, Rin. – Disse por fim tentando, pelo menos, plantar uma dúvida.
— Qual é, Kurenai! – Disse numa suplica — Eu sei o que você acha, mas pensa: Ele terminou comigo, ficou um tempo sozinho, depois saiu para pegar a ninfeta-rosa e viu que ela não se comparava a mim, e então... – Deu uma curta pausa, mordendo o lábio com o pensamento — Então ele percebeu que era a hora para o próximo passo.
Havia uma mania em Kurenai que ela nunca conseguiu se livrar: Fazia biquinho. Quando precisava segurar um pensamento, a mulher fazia um biquinho breve como que está travando os lábios para não deixar uma opinião agressiva escapar. Asuma sabia bem disso, seus companheiros mais íntimos do escritório também, e Rin.
— Só fala o que você quer dizer de uma vez. – A jornalista disse recostando no banco com uma pontada de mau-humor.
— Eu acho que você tá criando uma história linda, mas que não parece nenhum pouco com Kakashi – Ela disse resolvendo simplesmente deixar as palavras saírem — Eu concordo com você: Ele nunca compraria nada tão caro para alguém que ele conheceu ontem, mas ele pode ter ido lá pra comprar um relógio para si, um anel, ou até mesmo um presente pra Aoba. – Disse dando os ombros — Não inventa uma história só pra ficar criando expectativa e depois ficar mais frustrada.
Kurenai podia falar um pouco mais, contar algumas fofocas e impressões, porque apesar de Asuma se recusar a contar o que sabe sobre a tal garota com a qual Kakashi estava se relacionando, os áudios que o homem reproduzia descuidadamente na cozinha eram ouvidos do quarto, e por tabela ela acabava sabendo que o próprio Kakashi estava fazendo mistério sobre ela, o que significava que nenhum dos meninos a tinha apresentado a ele.
O que podia levar a pensar que ele conhecia essa menina a muito mais tempo do que elas achavam, e que sim, podia ter havido uma traição nesse tempo, assim como também podia ter acontecido absolutamente nada. A verdade é que Kurenai gostava de dar o benefício da dúvida ao homem porque não havia motivos consistentes para desconfiar dele, e mesmo que houvesse, que diferença faria a essa altura?
De todo modo, compartilhar as coisas mínimas que sabia não faria diferença e só torturaria a amiga com o que ela não precisava saber. Rin precisava superar Kakashi porque o discurso dele era de alguém que já havia seguido em frente. As poucas vezes que ouvia o nome da amiga nas conversas era Genma com suas brincadeiras nada sensíveis.
O silêncio se fez presente no veículo por um longo momento. Kurenai via a amiga de relance olhando para os carros passando na rua através da janela enquanto rapidamente chegavam ao local do show. O Icon tinha um estacionamento privado, mas acabava que nunca era o suficiente para todos que queriam ir. Deixou o carro estrategicamente posicionado para saírem assim que ouvissem a segunda música. A arquiteta realmente precisava dormir, e de preferência nos braços de Asuma.
— Rin, olha – Disse antes de saírem — Eu sei que pode ser confuso ver o Kakashi agindo de uma maneira que você não espera, mas eu só quero que você seja realista. Não quero você mais magoada do que já está, ok? – E viu os olhos castanhos esmorecerem em conformidade.
Saíram do carro e Kurenai imediatamente buscou a amiga num longo abraço, garantindo que Rin estivesse ciente que ela só queria seu bem, que nada do que Kurenai dizia era para ser cruel. Se olharam por um momento e Rin já esboçava um sorriso brincalhão. Tudo ia ficar bem no final das contas, Kurenai acreditava fielmente nisso.
Pegou na mão da amiga e logo adentraram o local. O que mais gostava naquele bar era a decoração em tons sóbrios, sofisticada com suas mesas quadradas e assentos acolchoados. Havia um balcão grande na lateral onde as pessoas podiam sentar e pedir um drink, ficando de olho no espaço aberto frente a um palco pequeno, porém arrojado, onde podiam dançar. Era um estilo vintage, meio como uma taberna de luxo. A especialidade da casa eram os drinks de várias misturas.
As bandas que tocavam ali geralmente tinham um tom que combinavam com o espaço, mas as vezes uma batida eletrônica ganhava a vez, ou até mesmo uma balada lenta. Dependia do dia. Naquela noite, porém, Aoba traria sua banda para deleitar todos os convidados com o indie mais delicioso de Kyoto. Kurenai sorria inevitavelmente enquanto passava pelas mesas até aquela que era cativa do grupo, no canto estratégico que ficava perto do bar, perto da pista de dança e com espaço para ver a banda. Era o spot perfeito.
Soltou a mão de Rin quando chegou à mesa, sentando ao lado da cadeira cativa guardada ao lado direito do namorado, recebendo um beijo rápido junto de um sorriso quando se sentou. Foi só quando já estava acomodada com Asuma lhe servindo uísque que a mulher percebeu: Rin não sentaria ao lado de Kakashi naquela noite.
O primeiro momento foi estranho. Genma e Gai continuaram conversando como se nada tivesse acontecido após cumprimentar as duas brevemente. Kakashi estava muito bem no celular, dando risadinhas eventuais enquanto digitava e talvez fosse sua amizade com Rin falando mais alto, mas aquilo era tão irritante. Enquanto isso, Aoba estava conversando com Asuma enquanto bebericava um drink de cor azul. Rin se resignou, recostando na cadeira enquanto tomava um pouco da bebida de Genma, que nem tinha percebido seu copo sumir.
Kurenai suspirou.
— Eu não vou aguentar uma noite toda nesse clima – Sussurrou pra Asuma — Ele tá sendo um pau no cu, amor.
— Ah, Kurenai... Dá um desconto. Ninguém sabe como agir nessas situações. Deixa eles beberem um pouco mais, aí as coisas só se resolvem – O homem disse sem dar muita importância — Mas me fala, como que foi seu dia?
Passou a mão nos cabelos tentando desopilar do clima tenso na mesa e começou seu relato, sobre como as coisas estavam cada vez mais caóticas, reclamando do contratante ter tantos elementos específicos que queria harmonizar no layout do novo hotel.
Lentamente as outras pessoas na mesa iam interagindo com ela, discutindo o dia-a-dia dela, dando opiniões. Asuma no final estava certo, era só dar um pouco de tempo e as coisas iam se ajustar. Eram todos amigos afinal, mesmo que Rin quisesse claramente ser algo mais.
Pouco depos, Aoba se levantou rumando para o palco para passar o som enquanto aquele CD antigo soava num tom baixo nas caixas de som do ambiente, esperando pelo grande show da noite. Todos o cumprimentaram, dando seus sinceros incentivos para que ele simplesmente mostrasse seu melhor. Ele tinha essa banda desde a época de faculdade e nunca tinha feito muito sucesso até Genma publicar um vídeo deles.
Não que agora pudessem se colocar num plano como celebridades, mas era um bom início para quem nunca tinha conseguido tocar em nada além de eventos gratuitos via editais. Foi num desses shows, inclusive, que Kurenai e Asuma tinham decidido ir morar juntos. Ela estava bêbada e ele sugeriu que poderiam pular todas as etapas, que quando ela voltasse para casa, ele queria estar lá todos os dias para recebe-la.
Foi lindo, romântico... E impulsivo.
Mas ela não se arrependia. Asuma era um grande companheiro, sempre muito calmo e balanceava bem seu ímpeto mandão. Não conseguia visualizar uma vida sem ele e seus cigarros fedidos, sua barba desleixada e seu bom humor irrevogável. Asuma era o amor de sua vida, e adorava saber que não havia hesitado quando o momento de transformar o relacionamento deles em algo tão mais sério surgiu. Não que antes não fosse, mas quando você passa a morar com alguém o compromisso dobra.
— Aí eu disse a ele que só precisava de um carro bacana e uma garota gostosa para fazer o clipe daquela música estourar – Genma falava gesticulando como se estivesse tentando impressionar alguém — Mas ele ficou insistindo naquela ideia besta sobre as pessoas ouvirem a música dele pela música e não pelo visual.
— Então pra quê ele queria um clipe? – Gai perguntou confuso — Era só por a música no YouTube, não é?
— Pois é! – O outro disse imperativo — Pra que me contratar pra fazer um clipe que só vai manchar minha carreira? Ai eu só disse pra ele procurar outra pessoa porque nossos trabalhos eram incompatíveis.
— Mas você também parece que quer enfiar um carro de luxo e mulher gostosa em tudo quanto é clipe – Kurenai disse revirando os olhos — É como se fossem todos iguais.
— Nisso eu discordo – Kakashi disse depois de tomar um gole de sua bebida — Teve aquele clipe lá do cara que caminhava num deserto, e aí ele encontrava...
— Um carro. – Kurenai resmungou enquanto Asuma ria do seu lado.
— Mas não tinha uma gostosa! – Genma ressaltou apontando para a mulher e depois para o amigo, que concordou com a cabeça exageradamente antes de começarem a rir juntos
— Eu lembro daquele da moça na janela, chorando enquanto a casa pegava fogo – Rin disse franzindo o cenho — Ela era bem normal pelo que eu me lembro. O clipe era seu, não é?
— Assinado por Shiranui Genma – Ele disse como se fosse um locutor de algum trailer — Mas era um clipe bem depressivo mesmo.
— Quase não acreditei que era seu – Gai se pronunciava — Era tão sensível e você é tão idiota.
— Ah, vai se foder. Eu sou sensível pra caramba! – Disse fazendo todos rirem um pouco — Tem o selo indie da minha produtora e a gente só faz coisa sensível. Só os artistas experimentais, com aquelas letras sofridas... Inclusive to procurando uma garota pra esse clipe, que tem todo um conceito em plano aberto com muita natureza...
— Quando você diz garota, você quer dizer uma daquelas mulheres irreais? – Kurenai perguntou — Da bunda grande e cintura fina?
— Fala "gostosa", Kurenai. – Genma soltou com uma risada quando a viu revirar os olhos. — E olha, posso te confirmar que elas são bem reais. – Disse entonando um duplo sentido no final da frase. Rin soltou um ruído de asco. — Mas não, minha cara, estou procurando uma garota normal que tenha boas expressões.
Levando seu copo a boca, Kakashi saboreou o gosto amargo da cerveja gelada enquanto se perguntava como Shizune conseguiu a façanha de namorar Genma por tanto tempo. Eles tinham começado esse romance quase que aleatoriamente, ficaram uns dois anos juntos e pareciam estar funcionando até ele abrir o jogo: suas vidas eram incompatíveis.
Ele era um homem da noite e tinha que lidar com horários malucos por conta das gravações, e ela era médica com plantões cada vez piores. Acabava que passavam semanas sem se ver. Segundo ele, o sexo era ótimo, mas ele sentia saudade de passar mais tempo com ela, e sem saber lidar com tudo eles terminaram.
Ainda assim, continuaram amigos quase como se nunca tivessem se relacionado amorosamente. Kakashi sabia que no fundo eles ainda transavam eventualmente, mas era até engraçado pensar que Genma pagava de comedor para todos, mesmo que no fundo só quisesse alguém para relaxar, porque era exatamente isso que o homem confessava a Kakashi toda vez que conversavam a sós.
No final das contas, Kakashi tinha inveja de Genma e de como ele tinha conseguido lidar com o término de maneira madura. Shizune continuava presente nas saídas do grupo sempre que sua agenda permitia, e a interação entre eles era tão simples e fácil, nada como esse clima de merda que estava presente naquele momento porque mesmo que Rin estivesse resignada, ainda assim, toda vez que seus olhos se cruzavam parecia que ela estava lhe pedindo alguma coisa, quase como um cão sem dono.
Foi quando o som da bateria ritmou no ambiente de maneira mais elevada. Kakashi olhou de relance para Gai e depois para Genma antes de Asuma levantar declarando ir pegar umas bebidas especiais com o bartender. Foi Rin quem puxou a conversa para o lado gastronômico da coisa, falando sobre como o frango frito do local tinha melhorado de tempero, mas que ela faria um molho com menos páprica.
Por sorte a conversa não ia durar muito, porque em poucos minutos as luzes baixavam no ambiente, direcionando os olhares para o palco. A mesa se calou e todos ficaram olhando ansiosos a aparição do amigo que logo começaria a tocar o melhor do indie japonês, pelo menos era o que Kurenai e Rin esperavam, porque o resto estavam com seus celulares apostos na espera de um outro amigo.
Quando Asuma fez sua aparição, nervoso enquanto passava a mão nas laterais das calças jeans, que Kurenai soltou um ruído de surpresa. Kakashi a olhou de relance vendo sua expressão confusa e divertida. O homem no palco pigarreou contra o microfone, gaguejando no seu começo enquanto passava a mãos nos cabelos.
— Boa noite a todos – Disse naquela voz de fumante — Sei que estão aqui à espera do grande show da noite, mas antes eu queria dizer àquela mulher ali que eu a amo. Sim, Kurenai, você mesmo.
A mulher de cabelos negros colocou a mão na boca numa visível surpresa. Sentia um misto de vergonha e animação enquanto via os olhos miúdos de Asuma a mirarem com expectativa. O que aquele louco estava fazendo ali? O que estava acontecendo? No fundo ela sabia exatamente do que se tratava, não era idiota, mas ao mesmo tempo tudo tinha lhe pego tão de surpresa...
— Faz 19 anos que eu e essa mulher começamos a namorar – Ele disse enquanto sua plateia jazia silenciosa — E foi num show dessa mesma banda, enquanto estávamos completamente bêbados, que decidimos morar juntos. No outro dia eu só conseguia pensar numa maneira de desfazer esse negócio, porque eu não tinha nem emprego, queria mudar de curso, mas ela... Ela era essa mulher decidida e podia governar o mundo e ainda fazer isso parecer fácil. Que homem em sã consciência não duvidaria de si mesmo diante dessa mulher?
Genma jogou o celular na cara da mulher que não se importou. Eles tinham combinado de cara um registrar alguma coisa, e Genma ficou com a tarefa de gravar todas as reações da mulher. O sorriso dela era incrível e aqueles olhos vermelhos revelavam estar completamente apaixonados pelo que estava ouvindo e vendo. Relembrar a história deles daquele jeito era surreal.
Todos estavam ouvindo, todos prestavam atenção nas palavras nervosas de Asuma que dominavam o ambiente pelas caixas de som, mesmo assim Kurenai apenas queria saber do homem ali em cima, limpando sua mente de tudo que havia a sua volta.
Oh, Kami...
— Mas ela disse sim e eu que não perderia essa chance. Dividimos aquele apartamento de um só quarto por tanto tempo, meu amor. Passamos por tantas coisas, brigas, desentendimentos... Quantas vezes eu já não dormi naquele sofá apertado? – E riu antes de passar a mão nos cabelos pela décima vez — Nós vamos fazer 20 anos de namoro em breve, e eu sei que estou uns dez anos atrasado para isso, mas espero que me perdoe mais uma vez e aceite... – Ele cavoucou seu próprio bolso soltando uma risada nervosa enquanto procurava algo por ali. — Kakashi, você me deu o anel não foi? – Perguntou nervoso enquanto todos gargalhavam.
Rin olhou para o homem de cabelos prateados que levantou sua mão com um polegar para cima, sinalizando que sim, ele já lhe tinha entregado o anel. No curto período que Asuma procurava o anel em seu bolso, a mulher percebia que Kurenai tinha razão o tempo todo. Tinha criado uma história bonita em sua cabeça para se encher de esperança enquanto a realidade estava cruelmente estampada na sua cara. Não havia mais afeto. Na verdade, a muito tempo não havia mais desse carinho romântico.
Ela mordeu o lábio enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas e aproveitou o momento feliz para chorar silenciosamente, enganando a todos que estavam ao seu redor com aquela falsa emoção de estar feliz por outra pessoa, porque naquele momento, Rin estava apenas triste por si mesma.
— Achei! – O homem disse alto ao microfone e todos continuaram rindo. Kurenai se passou a mão no rosto ainda incrédula, olhando para ele toda boba, toda feliz. — Como eu ia dizendo, espero que você aceite esse anel.
Já tinha desistido de casar. Era como um sonho que tivera um dia e que percebeu que não ia mais rolar. Como eram um casal que já moravam juntos a muito tempo, Kurenai e Asuma combinavam as coisas, e foi assim com o tópico casamento. Ela não esperava ser pedida, na verdade eles conversavam sobre isso num plano prático, sobre as implicações, os gastos, e como isso mudaria a dinâmica deles. Era sempre uma conversa, como se estivessem resolvendo mudar de carro ou sobre a viagem de férias.
Mas ali estava Asuma pouco se lixando para as conversas e lhe oferecendo aquele anel. Ele se aproximou descendo do palco, andava quase saltitando. Os meninos pareciam ter virado torcedores de um time e tudo foi tão engraçado e perfeito... Quando ele ajoelhou aos seus pés segurando o pequeno aro dourado com as duas mãos na sua frente, o silêncio foi absoluto.
— Kurenai, quer se casar comigo?
Seu coração parou e o dele também. Se olhavam tão ansiosos numa expectativa tão animada. Kurenai sorriu colocando suas mãos em cima das dele, querendo lhe puxar imediatamente para um longo beijo, mas sabia que precisava responder primeiro. Confirmou com a cabeça várias vezes enquanto sim lhe escapava como se fosse um disco quebrado repetindo a mesma melodia.
Ele se levantou num sorriso largo, colocou a aliança no dedo feminino sentindo sua mão tremer, e então finalmente a abraçou, tocando-lhe os lábios com os próprios enquanto os aplausos subiam no ambiente. O som da banda começou a ecoar, Kurenai e Asuma olharam para todos ali envergonhados e cumprimentando cada um como se não soubessem mais como agir.
Se olhavam tímidos, quase como se tivessem acabado de se conhecer, e os olhos marejados de Kurenai misturados a expressão ancha de Asuma simbolizava todo o amor que tinham construído juntos. Eles se sentaram à mesa enquanto Aoba desejava felicitações ao casal lá do palco, se olharam novamente por um momento a mais e pareciam ter aquela conversa que só casais de longa data conseguiam ter.
— Agora é planejar uma despedida de solteiro – Genma disse e nem esse comentário foi capaz de tirar o sorriso do rosto da mulher, que se limitou a revirar os olhos.
— Temos é que planejar uma série de exercícios para o Asuma perder essa barriga aí – Gai disse — Correr todo dia para ficar bem no smoking.
— Vai com calma aí, Gai – Ele disse fazendo uma careta — Ela gosta de mim cheinho. – Falou com um sorriso torto ao olhar para ela, e ela simplesmente o beijou rapidamente.
— Aí, ele tá perfeito gente – Disse e todos riram, fazendo piada sobre como o amor engana os olhos das pessoas.
— Deixa eu ver sua aliança – Rin pediu sorrindo para amiga.
Elas se olharam por um momento e Rin viu nos olhos vermelhos da mulher que ela queria pedir desculpas, mas pelo quê? Rin a fez se levantar novamente para abraça-la, deixando qualquer energia ruim para trás, se permitindo ficar genuinamente feliz pelo que estava acontecendo, ainda que a tristeza por si mesma continuasse em algum lugar de seu ser.
— Você vai ser a noiva mais bonita que eu já vi – Sussurrou no ouvido da mulher — Eu não poderia estar mais feliz por você. Acredite. – Pediu antes de se afastar para olhar a mulher nos olhos.
— Eu sei, Rin. Você é milha melhor amiga, e já quero que saiba que será minha madrinha, claro. – Disse com um sorriso gentil.
— Mas é claro! – Rin confirmou segurando as mãos da mulher, olhando brevemente para o anel liso num dourado brilhante — Serei a melhor madrinha possível, e com isso já quero avisar a todos vocês que a nossa despedida de solteiro vai ser bem melhor. – Disse olhando para o resto da mesa.
Genma protestou e de repente tudo estava bem. Asuma revelou que todo seu plano podia ter ido por água abaixo quando o show foi adiantado, porque estava sem tempo de pegar as alianças e que Kurenai já estava dando para trás. No final tudo tinha dado certo e eles já conversavam sobre se casar daqui três ou quatro meses, enquanto isso Genma perturbava o casal com suas ideias mirabolantes para festas e todos pareciam divertidos ao som da banda de Aoba, que mais uma vez se tornava a trilha sonora do casal.
Mas vendo os dois ali planejando coisas ao vento e tão felizes, Rin não conseguia deixar de sentir pena de si mesma, porque eles namoravam a quase vinte anos e era basicamente o mesmo tempo que ela e Kakashi teriam se não tivessem terminado tantas vezes. A verdade é que Rin se arrependia a todo momento de ter ido com Obito naquela época, porque agora podia ser a sua vez, poderia estar com o homem que amava comemorando um noivado.
Kakashi nunca lhe foi ruim, principalmente nos primeiros anos. Eles tinham essa sintonia singular que os faziam ser um casal que todos viam como ideal. Eram calmos, raramente brigavam e sempre muito civilizados. Ele sempre foi essa pessoa pacata e tranquila, o que combinava com a personalidade gentil de Rin em diversos aspectos.
Ela o amou assim que o viu. Sabia que queria viver esse sentimento para sempre e quando se confessou quando tinha apenas 16 achou que seu coração ia explodir, mas Kakashi tinha aquela tranquilidade dominante que a alcançou, só por isso conseguiu ouvir com clareza quando ele sugeriu que saíssem para ver no que ia dar. Pulou de alegria naquele dia, quase enfartou quando marcaram aquele primeiro encontro.
Foi tudo tão perfeito durante anos, até a insegurança dela bater forte sobre todas as escolhas que ela havia feito na vida. Porque ela estava ali fazendo uma faculdade medíocre e Kakashi só conseguia falar de como era importante cuidar dos cachorros de ruas e mais necessitados. Parecia que sua vida seria um inferno, porque Kakashi não se preocupava com nada e tudo bem porque a estrutura familiar dele permitia isso, mas ela não.
Rin queria mais. Ela via Kurenai trabalhando em projetos nos estágios e com emprego garantido assim que terminasse, via Shizune se tornando a favorita da melhor médica do Japão, via Anko viajando os quatro cantos do mundo com aquele professor dela, fazendo contatos por todas as partes enquanto que ela... Ela não conseguia um estágio, tinha que trabalhar naquela loja de roupas para conseguir se manter e em suas folgas escutava Kakashi falar sobre como o Japão precisava de políticas públicas mais eficazes para o controle de cães abandonados.
Se sentia uma fracassada que tinha feito todas as escolhas erradas. Kakashi era brilhante, já estava desenvolvendo tantas coisas junto de seus professores, seu nome já era conhecido nas melhores clinicas e ela se sentia cada vez mais à sombra dele. No começo de tudo eles eram iguais, mas naquele momento as óbvias diferenças começaram a aparecer, e ela não queria ser a esposa de Hatake Kakashi, ela queria ser a jornalista mais foda de Kyoto.
Por algum motivo, ela relacionou seu fracasso profissional ao seu marasmo que era seu relacionamento. Amava Kakashi, mas a cada dia se questionava até que ponto viver seu sonho de criança valia a pena. Queria se colocar em primeiro lugar, e quando Obito surgiu dizendo todas aquelas coisas sobre se livrar de seu sobrenome e fazer algo por si mesmo... Deus.... Aquilo entrou em sua cabeça de uma maneira surreal.
Ela sempre soube que ele tinha um crush por ela, mas nunca deu muita bola até o momento que ele começou a ficar cada vez mais atrativo. Obito ia para Tóquio em breve, rumando para o curso de formação de detetives na corporação de polícia do Japão, e isso ia contra tudo que sua família rígida planejou para o homem, mas ele não se importou. Ele ficava falando sobre como ele ia construir sua própria identidade, e nessa época Rin foi notando como ele tinha crescido, como seus ombros eram largos e sua voz tão grave.
Daquela criança engraçada, Obito tinha se tornado um homem atraente.
Quando ela confessou isso a Kurenai, a amiga rolou de rir no sofá dizendo que Kakashi era sem dúvidas muito mais gostoso. Mas Rin não estava fazendo uma competição. Ela estava simplesmente declarando que o homem tinha lá seus atrativos e que de alguma forma ela estava começando a notar isso.
E tudo que aconteceu depois...
...
— Eu vou ao banheiro – Ela disse para Kurenai quando percebeu que estava tão cansada. — Volto já.
A amiga concordou com a cabeça vendo Rin partir rumando ao banheiro mais próximo. Ela sabia que provavelmente a mulher estava com sua mente a mil, resultado de suas expectativas frustradas, e normalmente iria atrás dela para lhe apoiar, mas a verdade é que achava que Rin precisava ficar um pouco sozinha. Pôr os pensamentos no lugar era algo difícil de ser feito, e a primeira reflexão poderia acontecer inclusive num momento solitário no banheiro de um bar.
Na mesa, ela viu Kakashi pousar os olhos nas costas da mulher. Pela primeira vez na noite, ele a olhava diretamente. Parecia pesaroso, quase como quem quer ir atrás dela, mas não pelos motivos que Rin gostaria que fosse. Sim, ela concordava com Kakashi, manter distância tornava as coisas mais claras para a mulher, facilitava para ela ainda que soubesse que a conversa final estava por vir e poderia ser mais caótica do que o esperado.
Entretanto era algo que Rin precisava lidar mais que tudo. Precisava parar de sonhar com o garoto que ela conhecera na escola e enxergar Hatake Kakashi como ele era naquele momento, e entender que relacionamento mudam assim como as pessoas. Sim, ela ainda podia nutrir esse sentimento tão poderoso por Kakashi, mas tinha que reconhecer até que ponto isso a faria sofrer.
Ele tamborilou os dedos na mesa como se tomasse uma decisão e se resignou. Era difícil vê-la assim, tão melancólica. Rin ainda lhe era uma pessoa importante demais para fingir que não se importava, e ele sabia que tinha errado com ela de tantas maneiras, mas ficar próximo e se mostrar preocupado poderia passar a ideia errada.
Rin precisava superar.
Foi quando, de repente, ele sentiu uma mão tocar seu ombro com suavidade. Seu corpo reagiu reconhecendo aquele toque e todos na mesa pararam para olhar a figura atrás de si. Ele virou o corpo ainda sentado para ver Sakura lhe sorrindo com seus cabelos caindo pelo ombro, num vestido de cor clara que marcava sua cintura fina. Sempre linda, com aquele sorriso em seus lábios e o olhar tão quente.
— Sakura – Ele disse sorrindo para ela, levantando no processo para lhe dar um beijo no rosto.
— Desculpa o atraso. – A moça disse mordendo o lábio — O jantar na casa da Ino demorou mais do que eu esperava.
— Tudo bem – Respondeu com uma mão na cintura dela — Pensei até que você não vinha mais.
— Ela até tentou – Uma voz muito característica surgiu, revelando seus loiros cabelos logo atrás — Mas eu queria muito conhecer você, Doutor Hatake – Disse estendendo a mão.
Yamanaka Ino em pessoa, num cropped roxo e saia longa. Ela trocou um olhar esperto com Sakura e voltou a encarar Kakashi com orgulho. Eles já se conheciam, mas não era o tipo de apresentação pessoal o suficiente. Ela era sua cliente e nada além, mas a partir da festa no Jardim Botânico, Kakashi a conhecia como melhor amiga de Sakura, a pessoa responsável por fazê-la ter coragem em conhece-lo.
— Puts, Ino. – Sakura resmungou com humor.
— É um prazer, senhorita Yamanaka. – Ele segurou na mão dela por um tempo e sorriram de maneira amigável. Kakashi já gostava dela de graça e esperava que fosse algo reciproco.
— Pode me chamar de Ino. – Disse por fim olhando diretamente nos olhos dele — E eu lhe chamarei de Kakashi.
— Perfeito.
Kakashi se virou para a mesa vendo vários pares de olhos curiosos lhe mirando. Inspirou com força pensando que tinha sido uma péssima ideia convidá-la sabendo que Rin estaria ali. Quando a chamou sequer pensou nos sentimentos de sua ex, apesar de ter alertado Sakura sobre a presença da mulher no ambiente. Ele estava mais preocupado sobre como Sakura iria se sentir do que sobre como Rin reagiria.
Ele queria que ela conhecesse todos os seus amigos e essa era a oportunidade perfeita, pensou que poderia lidar com uma Rin mal-humorada, chamou Sakura ainda de manhã, lhe dizendo que se ela não fosse se sentir desconfortável poderia ir, e pelo que Ino disse, a moça tinha pensado algumas vezes se deveria mesmo estar ali.
De todo modo, ele não tinha imaginado que Rin ficaria tão... melancólica. Agora ele se encontrava preocupado com o que quer que pudesse acontecer. Não queria pôr Sakura numa situação complicada, e não queria se mostrar insensível com Rin. A verdade é que ele torcia para que as coisas apenas seguissem um curso tranquilo, mesmo que achasse que seria impossível.
Pigarreou quando viu Kurenai lhe olhando como se silabasse em seu ouvido que a sua morte chegaria muito lentamente.
— Sakura, Ino – Disse às duas que estavam ao seu lado antes que a situação ficasse estranha — Esses são Asuma, Kurenai, Gai e Genma. – E viu Sakura cumprimentar todos eles de um jeito tímido, quase nervoso, enquanto que Ino pegava na mão de cada um individualmente. — Pessoal, essa é a minha... – Olhou para Sakura e a viu rir de nervoso — ... amiga. Sakura. – Colocou para fora com incerteza — E esta é...
— Yamanaka Ino – Genma disse se levantando para pegar na mão da mulher, que arqueou uma sobrancelha num misto de divertimento e surpresa. — É um prazer conhece-la. – Completou se empertigando — Shiranui Genma. Grande fã.
Sakura deitou a cabeça levemente no seu ombro. Era muito claro que estava se divertindo com a reação tão polida de Genma diante de sua amiga, ao mesmo tempo que agia como uma menina se escondendo para ver uma cena em segredo. Sakura era linda. Reprimiu a vontade de puxá-la para um beijo longo quando ela o olhou discretamente, encontrando seus olhos negros mirando-a.
Foi quando Gai soltou uma de suas piadas exageradas e todos riram, desviando sua atenção. Kakashi acordou de seu torpor apaixonado e se pôs a olhar Kurenai com intensidade, lhe dizendo entre olhares que ela precisava ir atrás de Rin, porque seria cruel demais, porque ele era covarde demais. Viu a mulher reprimir um suspiro pesado, entendendo o recado e partindo para o encontro da amiga logo após anunciar sua saída.
Genma se levantou dando lugar a Ino e saiu para pegar mais duas cadeiras. Sentiu o cotovelo de Sakura lhe empurrar no flanco e riu quando viu sua expressão de divertimento com as reações de Genma sobre a amiga, parecendo querer a atenção dela para si de toda forma.
Quando ele a convidou para aquele encontro, Sakura não pensou realmente em ir. Saber que encontraria com a mulher que namorou Kakashi desde sempre lhe deixava ansiosa de uma maneira ruim. Imaginou-se sendo julgada e analisada por todos eles, porque eram amigos dela e provavelmente ficaram do lado dela sempre. Ela não esperava, no entanto, se sentir bem no meio daquelas pessoas tão rapidamente.
É claro que em suas conversas com Ino, ela lhe disse categoricamente que se ela quisesse levar qualquer coisa a diante com Kakashi, então deveria aprender o quanto antes a lidar com sua ex, porque era muito provável que ela fosse a todos os eventos, que se esbarrassem com frequência, afinal ela também era amiga dos amigos dele. Era um encontro inevitável.
Porém adiável.
Mas como sempre, Ino estava certa. Sim, Sakura não queria encontrar a mulher e estava quase desistindo da noite não fosse a amiga lhe dizer que a acompanharia durante todo o momento, porque também queria saber onde ela estava se metendo. A verdade é que Ino queria fugir daquele jantar em sua casa o quanto antes e a usou como desculpas, mas Sakura não se importou desde que fora beneficiada nessa situação. Assim que chegaram, Sakura reparou na cadeira vazia, se sentiu aliviada por um momento, como se os deuses estivessem lhe dando uma oportunidade para respirar o ar amigável e conseguir conquistar algum deles antes da tensão se estabelecer com a volta da ex.
Quando se sentou à mesa e começou a conversar com aquele grupo estranho tudo foi ficando tranquilo, como se ela não precisasse de advogado porque ninguém estava ali lhe fazendo de vilã, inclusive pareciam até curiosos com sua presença, apesar de Genma continuar tão empenhado em fazer Ino se sentir acolhida a ponto de se tornar cômico.
— Pera aí, então se você é a Ino – E apontou para a loira como se estivesse percebendo algo — Então você é aquela Sakura?
— Só confirmo se você souber guardar segredo. – Sakura disse bebericando o drink que havia pedido. Cosmopolitan.
— Sério? – Ele disse animado, olhando para Ino e depois para Sakura — Eu nunca ia adivinhar que você tinha cabelo rosa. Achava que a pessoa de cabelo rosa nas fotos era uma amiga qualquer, e não a Sakura!
— O que isso significa? — Gai perguntou confuso com a interação.
— A Ino tem uma amiga que nunca aparece nos storys mas sempre está com ela — Kurenai disse quando voltou a mesa, se sentando juntamente de uma dose de uísque — Todo mundo é curioso para sabem que é a garota, e agora vocês estão diante dela.
Sakura se encolheu na cadeira com um sorriso tímido. Levantou a taça na direção de Kurenai como um cumprimento de que ela havia desvendado o mistério, e a outra lhe sorriu de uma maneira polida. Kakashi trocou um breve olhar com ela, mas a mulher o ignorou completamente.
— Bem, espero que vocês sejam discretos – Ino disse maneando a cabeça — Ainda quero manter Sakura em segredo até atingir os cem milhões. – Confessou driblando a pergunta óbvia que surgiria com a questão. Sakura sorriu pra Ino com cumplicidade.
— Alguém já perguntou como eles se conheceram? – Kurenai perguntou com um sorriso, olhando diretamente para Kakashi.
— Boa pergunta! – Genma disse — E aí? Como você esbarrou na Sakura? – E ainda parecia tão empolgado em conhecer a garota.
Kakashi soltou o ar recostando na cadeira, olhou para Gai, para Ino e finalmente Sakura. Eles sabiam como tinha sido de verdade, mas ele não estava disposto a compartilhar aquilo com todo mundo.
— Na internet – Falou por fim dando os ombros — Seguimos uma página em comum no instagram. Ela tinha comentado algo numa postagem e eu respondi, e então começamos uma conversa.
— No começo eu não tava dando muita bola pra ele, mas... Ele pode ser bem persuasivo quando quer.
Se olharam brevemente, porque havia todo um clima naquelas palavras que só quem conhecia aquela história podia captar. Ele sabia que Kurenai estava tentando lhe mandar um recado, mas a verdade é que ele não conseguia prestar atenção em muita coisa quando Sakura lhe olhava daquele jeito.
Virou para ela vendo seus olhos vermelhos intensos lhe mirarem como fogo. Ele sabia o que ela queria, sabia que ela gostaria que colocasse as cartas na mesa ali e ele tinha essa coragem, mas ela continuaria? Até que ponto seria um bate-boca bem na noite de seu noivado? Ele decidiu apenas arriscar.
— Você achou a Rin? – Perguntou de repente, deixando seu sorriso dar lugar a sua expressão habitual de tranquilidade.
— Sim. – Ela respondeu depois de tomar sorver um pouco do líquido âmbar — Resolveu ir embora mais cedo, não estava se sentindo bem.
— Entendi. – E olhou para baixo por um segundo, pensando se deveria procura-la finalmente. Era noite e ela provavelmente tinha pego um táxi. — Procure saber se ela chegou bem. – Disse por fim numa preocupação genuína.
— Fale com ela, Kakashi – Kurenai lhe disse diretamente, sabendo que Kakashi era o tipo de homem que não admitia intromissões como essa em sua vida, mas ele também sabia que Kurenai não dizia essas coisas levianamente.
— Farei isso. – Ele disse por fim, porque ela estava certa. No final, Kakashi sabia que só estava protelando algo porque não queria perturbar sua paz, mas isso a estava ferindo como ele pôde presenciar naquela noite. Suspirou quando Kurenai confirmou com a cabeça, aliviando a tensão que havia se estabelecido entre eles.
Kakashi olhou para Sakura com um sorriso nos lábios, perguntando se ela estava bem enquanto Genma já mudava de assunto, tentando fazer Ino se interessar por qualquer coisa. Sakura sorriu daquele jeito meio conformado, sinalizando com a cabeça que tudo bem enquanto ele colocava os dedos por dentro do cabelo dela, tocando sua nuca numa massagem simples antes de lhe beijar o topo da cabeça brevemente.
Era o jeito dele dizer não precisava se preocupar com o que tinha acontecido ali, e ela pareceu entender bem, porque logo estava de papo com Kurenai sobre qualquer outra coisa, aproveitando a noite com seus amigos, rindo e bebendo enquanto Genma tentava manter Ino interessada em alguma coisa, ainda que ela estivesse claramente zombando dele depois de atingirem um certo nível de intimidade.
Foi fácil.
Sakura era uma garota espirituosa, e parecia ser o tipo tranquilo, que levava a vida com certa leveza. Kurenai gostou dela, tinha que admitir. Apesar de ser muito mais nova que Kakashi, a moça tinha um certo ar maduro conseguindo conversar sobre praticamente tudo que rolou na mesa, se resignando brevemente quando Aoba retornou, mas apenas porque ele era novidade ali.
Até se sentia um pouco culpada por estar aproveitando a companhia das meninas daquele jeito, mas Yamanaka Ino estava ali com toda sua personalidade, fazendo seus storys para sua rede social enquanto comentava do Icon e sobre como ele era charmoso apesar de sua fachada, fazendo também publicidade gratuita para Aoba e sua banda. Ela era surpreendentemente acessível ainda que parecesse mandona em muitas situações.
Mas isso não a fez gostar menos dela.
Elas eram uma dupla divertida, cheias de piadas internas e tinham aquela aura que só pessoas jovens que não se preocupam tanto com o futuro tinham. Era mais interessante ainda que Sakura tivesse algumas semelhanças com Rin, como o olhar gentil e a risada às vezes contida, mas mais interessante ainda que Kakashi a olhasse tão visivelmente encantado.
Parecia estar descobrindo todo um mundo novo. Ela falava e ele parecia prestar atenção em cada fonema, registrando tudo nos menores detalhes. Kurenai nunca o viu daquela maneira tão dedicado a alguém, como se a menor coisa que ela fizesse fosse a coisa mais incrível que já tinha visto. E ele sorria daquele jeito bobo, fazendo sua expressão rejuvenescer alguns anos.
Tinha que admitir, ele estava muito bem e talvez aquela relação fosse algo que Kakashi não pudesse ignorar porque seus sentimentos estavam bem claros ali. Não era uma empolgação como de alguém querendo se envolver com alguém mais jovem, ou de alguém que queria curtir com uma ninfeta. Eram reações de alguém que estava adorando cada momento de algo e se jogando de cabeça ainda que não percebesse.
E isso tornava tudo tão mais difícil para Rin, porque quando ela foi ao banheiro procurar pela amiga, a encontrou parada num canto observando a moça de cabelos rosas ser acolhida por todos os seus amigos com aquele sorriso gentil. Se juntou a Rin inevitavelmente, ficando irritada pelo descuido de Kakashi em ser tão insensível com a situação da amiga.
Mas Rin não parecia zangada. Na verdade, seu olhar era triste e distante, como se a cena remetesse a algo muito mais antigo, como se estivesse enxergando uma outra situação além daquela. A amiga riu sem jeito quando percebeu que havia derramado uma lágrima e não falou muito mais além de sua despedida, alegando que seria melhor assim. Precisava ir para casa e Kurenai completamente entendia. Não precisava se torturar daquele jeito e fingir ser forte para provar qualquer coisa, porque não havia o que provar.
Kurenai a levou na porta e a esperou entrar num táxi, quando voltou pegou um uísque no bar e rumou novamente para mesa onde seu noivo estava, determinada a odiar Sakura e Kakashi até que Rin se sentisse melhor sobre isso, durasse o tempo que for. Porém, diante daquela moça tão divertida, dos olhares apaixonados que trocavam e da conversa fácil que surgia, Kurenai não podia fazer nada além de admitir que não conseguiria odiá-los, e torcer para Rin que se permitisse seguir em frente.
Porque Kakashi já havia seguido.
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Quando entrou naquele táxi, Rin começou a chorar. As luzes da cidade, o balanço suave do veículo, as caras de arquitetura antiga e tudo lhe faziam pensar sobre como eles haviam chegado nesse ponto. Sobre como ela tinha sido tão estúpida. Começou o dia achando que seria pedida em noivado, compartilhou isso com sua melhor amiga apenas para cair cada vez num constrangimento sem fim, e não bastasse o engano, Kakashi ainda tinha levado sua ninfeta para apresentá-la a todos.
Como pôde?
Ela se sentia triste, envergonhada. Queria abrir um buraco no chão e se esconder por meses, talvez anos até aquele sentimento passar. Seus olhos se enxiam de lágrimas numa velocidade absurda e os soluços lhe acometiam com os espasmos inevitáveis provenientes de suas emoções despedaçadas. Não havia o que fazer diante dos fatos.
Kakashi tinha seguido em frente, ela sabia, no fundo sabia.
Mas isso não tornava mais fácil vê-lo apoiar sua mão na cintura dela daquele jeito delicado enquanto a beijava brevemente. Não tornava fácil vê-lo encantado diante da presença de uma moça que parecia ser melhor que ela em todos os aspectos: Mais nova, mais interessante, cheia de novidades...
Seu pensamento era patético, estava com dó de si mesma. A quem ela queria enganar? Não se tratava daquelas coisas. Por mais que se enganasse, não era culpa da ninfeta e seus encantos. A culpa era toda dela e de suas decisões erradas, de sua insegurança e autoritarismo. Se haviam chegado nesse ponto onde Kakashi simplesmente a descartou como se fosse fácil jogar 14 anos de relacionamento fora, então certamente tinha sido culpa dela, porque antes de Obito, Kakashi jamais cogitaria algo assim.
Riu contra o vidro enquanto o motorista fingia não sentir pena diante de seu estado deplorável. Mais uma vergonha para a lista da noite. Ela sentia que precisava esquecer, que precisava de uma forma para lidar com todos aqueles sentimentos sem carregá-los para dentro de sua casa, porque dormir àquela hora já não fazia mais parte de seus planos.
Pediu ao homem que a levasse num bar perto de sua casa. Ainda hesitante, ele assentiu impotente. Era meramente um contratado e precisava levar a mulher onde ela quisesse, desde que no final recebesse, mas a silenciosa e curta demonstração de preocupação a irritou. Quem era ele para se preocupar com ela? Agora, Rin não devia mais satisfações a ninguém! Podia ir onde quisesse e quando quisesse.
Kakashi não se importaria, não é?
Deixou o dinheiro com o homem antes de sair puxando seu casaco bege, sem imaginar que naquele lugar obscuro, enquanto bebia uísque ruim numa mesa escondida no canto, ela encontraria alguém que não via a muito tempo.
Sua cabeça ainda estava girando com os fatos de seu relacionamento, oscilando entre a raiva de si mesma, a culpa, a auto piedade e a tristeza. Ela revisitava todos os lugares que haviam, revia todos os erros que tinha cometido, e tudo culminava naquele dia ridículo onde o traiu com Uchiha Obito no banco de trás daquele carro velho que ele tinha. Kakashi nunca soube, não tinha como saber. No mesmo dia ela terminou seu relacionamento, confusa e achando que era a coisa certa a se fazer.
Nunca amou Obito. Não foi amor que a fez deixar Kakashi, tampouco culpa. Na verdade, havia um bolo de coisas entalado em sua garganta, ela se sentia insana naquela cidade com aquelas mesmas pessoas e todo mundo parecia estar se encaminhando para algum lugar enquanto ela permanecia. Obito era como uma oportunidade, um sinal de mudança para si, um símbolo.
Ele era gostoso, divertido. Iria para Tóquio em algumas semanas viver uma vida que ninguém esperava que ele vivesse. Ela queria a capital do Japão, as noites agitadas, a vida de uma verdadeira jornalista ao lado do detetive irreverente que era, seu até então, um amigo. A ideia de ser essa pessoa, de ter um relacionamento moderno, de viver num local agitado lhe seduzia cada vez mais.
Facilmente poderia pôr a culpa no homem, dizer que tinha sido Obito que a persuadiu, mas ele nunca teve esse poder. Foi ela e sua mente inebriada pelas possibilidades que a levaram a ceder quando Obito lhe beijou daquele jeito. Foi ela quem decidiu terminar o relacionamento com Kakashi, mesmo o outro tendo dito que jamais revelaria sua transgressão.
E, Deus... Ela tinha sido tão ingênua.
— Rin?
A mulher levantou seus olhos bêbados para vê-lo curvado na sua direção. Vestia uma camisa preta com uma gravata fina bem alinhada também de cor preta. Preto era definitivamente uma cor dominante em Obito. Ele estava ali inclinado sobre a mesa para aproximar seus rostos, e de alguma forma ela sentiu como se estivesse vendo um fantasma.
Riu na cara dele daquela maneira bêbada e confusa. Como isso foi acontecer? No momento mais baixo de sua vida, quando sentia esse gosto amargo de estar no fundo do poço, quando queria ficar desesperadamente sozinha, nesse momento ele aparecia ali com aquela expressão meio preocupada, meio animada.
— Obito. – Ela disse se recompondo, sem perceber que sua voz estava alterada pelo álcool. — O que você tá fazendo aqui? – Perguntou logo em seguida, sem conseguir segurar as palavras que lhe atingiam.
— Fui transferido pra Kyoto. – Disse rapidamente, como se não quisesse explicar muita coisa — Meus novos colegas de trabalho quiseram beber um pouco e... Nossa... – Suspirou passando a mão nos cabelos — Rin, eu não esperava te ver assim.
— Miserável e sozinha num canto de bar? – Riu da própria desgraça, levando o copo à boca de maneira não muito educada.
— Eu ia dizer casualmente – Falou com um sorriso breve, encolhendo os ombros como se fosse aquele garoto de anos atrás. — O que aconteceu? – Perguntou puxando uma cadeira para si, sentando sem permissão da mulher.
O que aconteceu?
A pergunta ecoou nos mínimos cantos de sua mente, reverberando por toda sua memória, dominando seus sentimentos. Encheu o copo novamente com mais daquele uísque barato, tomou um gole sentindo tudo queimar. Quanto mais barata a bebida era, mais queimava, mas era uma sensação boa, como se estivesse cauterizando todas as feridas, ainda que sangrassem dentro de si num misto de sentimentos.
Não queria encontrar com Obito novamente. Não naquela situação.
Passou a mão nos cabelos enquanto aquela maldita pergunta ainda lhe rondava maldosa, minando seu auto controle. O que tinha acontecido, ele perguntava com aquela expressão quase ingênua. Como se ele não soubesse que todos os problemas dela tinham começado com aquela péssima decisão de ir com ele.
— Você aconteceu – Ela resmungou percebendo sua língua torpe.
— O quê? – E o homem se inclinou para mais perto, mostrando que não tinha entendido uma palavra sequer. — Rin, você e Kakashi discutiram de novo...?
Oh, sim. Porque todos os problemas femininos se resumiam a relacionamentos, não é? Tudo girava em torno de um pau, e no caso de Kakashi, que pau...
Ela soltou o ar dos pulmões com uma risadinha olhando para o homem ao seu lado pelo canto do olho. Sentia a cabeça pesada, os ombros caindo e uma vontade de tombar no tampo da mesa. Onde estava sua dignidade? A quem estava enganando? Por mais que quisesse se mostrar dona de si e blindada sobre essas questões tão frívolas que eram relacionamentos, Rin estava ali, bêbada e confusa, conversando com seu ex num bar sujo, e sim, tudo por conta de um relacionamento frustrado.
— Não – Ela disse depois de um momento — Ele terminou comigo. – Confessou revirando os olhos.
— Eu sei.
Ela girou a cabeça rápido demais para vê-lo. Sentiu-se zonza por um momento antes de perguntar como? Como ele sabia se estava a tanto tempo longe? Kakashi não falava mais com ele, não é? Franziu o cenho enquanto ele sorria daquele jeito como quem foi pego no flagra.
— Eu vi no instagram. – Confessou encolhendo os ombros — Eu sigo todo mundo lá. Às vezes até converso com o pessoal.
— Você... Uchiha Obito, conversa com Kakashi? – Ela perguntou perplexa.
Desde que tinha voltado de Tóquio, todo mundo foi lentamente isolando Obito nos grupos das redes sociais até um ponto que ninguém falava mais dele. Talvez fosse só quando ela estava presente, mas pensar que Kurenai ou Kakashi falavam com ele mesmo depois de tanto tempo fazia sua cabeça girar.
Ou talvez fosse o álcool.
— Ah, sim. – Disse maneando a cabeça — Às vezes comento uma foto dele, e do nada conversamos sobre alguma coisa. Nada de mais, na verdade. – Deu uma pausa — Nada muito íntimo. É assim com todo mundo. Somos amigos afinal, não é? – E sorriu.
Sentiu que queria vomitar. A cara de pau dele era tamanha a ponto de simplesmente manter contato com todos e não falar com ela? Como se eles tivessem terminado tão mal a ponto de seu nome não puder ser dito em sua presença? Porque ele não a havia procurado? Porque ninguém havia lhe dito qualquer coisa sobre ele?
Eles pensavam que ela era tão frágil a ponto de não aguentar ouvir um "falei com Obito ontem, ele está bem"? Soltou um ruído de desgosto, mandando o resto do líquido em seu copo para dentro. Bando de ingratos desleais... Deveriam estar nesse momento comemorando o noivado de Kurenai, conhecendo a ninfeta-rosa e todos os seus sorrisos.
Pelos deuses, ela era tão linda. Vê-lo colocar a mão em sua cintura tão protetivo, tão suave. Kakashi sorria como se estivesse vendo sua pessoa favorita no mundo e aquilo doía mais que tudo, saber que tinha sido trocada tão rapidamente por uma garota que não tinha nada para oferecer a ele além de seu corpo jovem.
Porque era nisso que Rin queria acreditar. Que aquela mulher de cabelo rosa-chiclete era apenas um rosto bonito com zero conteúdo. Porque ela queria que Kakashi percebesse em algum momento que tinha cometido um erro, que as coisas seriam melhores, que...
Que podiam tentar de novo.
Não percebeu quando seus olhos se encheram de lágrimas, escorrendo pelo seu rosto até alcançarem o dedo calejado de Obito deslizando tenro por sua bochecha. O olhou em surpresa, vendo sua expressão séria, como se quisesse fazer alguma coisa naquele momento.
Tão patética.
Ela afastou a mão dele de maneira agressiva, virando seu rosto choroso para o outro lado, enxugando suas lágrimas com resignação enquanto se recompunha com mais um gole daquela bebida grosseira.
— Ele terminou comigo – Disse sem olhar para o homem — Dessa vez foi ele quem terminou – Fungou segurando o copo com displicência, balançando o que havia sobrado para um lado e para o outro. — Kurenai noivou hoje – Falou logo em seguida com seus pensamentos confusos vindo aleatoriamente à tona — Eu achei que Kakashi fosse me pedir em noivado na verdade, mas era tudo para Kurenai. – Deu uma pausa sentindo o gosto da vergonha misturar-se com o uísque — E no final de tudo, Kakashi apresentou sua nova garota para todos.
— Rin...
— Eu não consegui ficar lá, assistindo tudo aquilo e fingindo estar feliz. – Sugou o ar de maneira abrupta, se concentrando na atividade de não chorar, porque já não bastava sua miséria, não precisava ficar derramando lágrimas por aí — Eu sou uma amiga horrível – Disse sentindo que não conseguia mais — Minha melhor e mais antiga amiga foi pedida em casamento depois de 20 anos de namoro e eu não consegui ficar lá porque me senti miserável demais para ficar perto de Kakashi, deixando essa inveja barata me consumir, deixando esse sentimento de inferioridade me impedir de sorrir pra ninfetinha dele e fingir que não me importo. – Rin levantou-se de maneira bêbada, sentindo sua cabeça a mil — Obito, eu sou uma fraude.
— Calma, Rin – Ele disse se levantando — Pra onde você vai?
— Banheiro.
Cambaleou bêbada ignorando Obito atrás de sim, se jogou contra a porta que sinalizava o banheiro feminino e segurou na pia com força, colocando tudo pra fora. Não conseguiria chegar sequer no sanitário, teve que fazer aquilo ali mesma e não havia ninguém pra segurar o seu cabelo. O cheiro ácido e intenso do vômito se espalhou muito rápido, ela ligou a torneira tentando amenizar sua situação, mas foi impossível.
Se escorou na parede ouvindo o barulho oco da música lá fora, ouvindo o barulho da água se fazer presente enquanto aquele cheiro nojento permeava o ar, e inevitavelmente sentiu que queria vomitar novamente. Dessa vez foi ao vaso, sentou-se ao chão sem se importar com a sujeita, deixou tudo sair mais uma vez, soluçando e chorando agarrada no vaso sanitário.
Miserável e patética.
Nohara Rin estava definitivamente no fundo do poço.
Mesmo quando deixou Kakashi daquela primeira vez, mesmo quando brigaram depois que voltaram, mesmo depois de se sentir horrível enquanto voltava para Kyoto naquele avião, ainda assim Rin nunca tinha descido tão fundo como agora, porque Kakashi sempre esteve lá, não importava o que acontecesse, mas agora se sentia só.
E aquilo queimava em seu peito, aquilo dominava todos os seus sentidos. Kakashi era aquele com quem ela queria ficar, com quem ela sonhou em construir uma vida. Ela o queria tanto que chegava a doer em seu peito.
Sugou o ar com força no meio de seu choro, abaixou a tampa da privada e alcançou a descarga ali mesmo do chão. Ficou mais um momento ali, tentando controlar seu impulso de deitar e sucumbir a tristeza, mentalizando que não precisava desse show todo, que deveria sofrer com dignidade pelo menos.
Levantou-se com dificuldade. Seu vestido justo estava sujo na lateral e seus sapatos de salto tornavam a tarefa de andar um tanto mais difícil. Se escorou na pia novamente vendo seu reflexo no espelho. Sua visão turva ainda era precisa o suficiente para ela ver o quão horrível estava com sua maquiagem derretida e seus olhos inchados e caídos.
Passou água no rosto, esfregando seus olhos com o sabonete barato que era oferecido no dispenser. Seu cabelo, por algum milagre, ainda estava intacto apesar do vômito ter alcançado uma mecha, e ali de cara lavada ela se sentia um pouco melhor. Passou água na boca tentando se livrar do gosto ruim, e sua barriga parecia estar lhe dando os sinais que deveria parar de beber imediatamente.
Voltou para a mesa onde encontrou Obito sentado junto a um copo de água. Os amigos dele já tinham ido embora e o bar parecia muito mais vazio. Ela pegou seu casaco em silêncio sentindo os olhos negros acompanharem seu movimento, ela tirou dinheiro do bolso interno do casaco e jogou no tampo, se dirigindo para a porta sem dizer uma palavra.
— Rin! – Ele disse logo atrás.
Mas ela o ignorou. Dando seus passos largos na direção da saída e sentindo o frio de fora bater assim que cruzou a porta, mas Obito era insistente, segurou seu braço e a fez virar para ver sua expressão preocupada. Mais um naquela noite que lhe dirigia aquele olhar de pena.
— Rin, para! Me deixa te levar em casa, deixa eu te colocar na cama e ter certeza que chegou bem.
Deus... Porque era tão difícil sofrer sozinha naquela cidade?
— Obito, vá embora! – Ela disse com raiva, querendo desesperadamente se livrar da visão daquele homem.
— Não! Droga, Rin! Me deixa te ajudar!
— Eu não quero a sua ajuda! Ninguém aqui te pediu ajuda! – Esbravejou com fúria — Você acha o quê? Que vai voltar pra Kyoto, me encontrar e de repente resolver todos os meus problemas? Se toca, Obito! Tudo começou a desandar quando eu dei trela pro teu papinho furado! Tá querendo me ajudar? Então vai atrás do teu amigo e faz ele parar de me torturar de uma vez por todas! Faz ele voltar pra mim!
As palavras saíram sem que Rin sequer se desse conta do que estava falando. O tinha acusado de ter levado sua vida ao fracasso atual, mesmo sabendo que a única culpada era si mesma, ainda assim o álcool e a fúria lhe acometeram numa combinação não muito feliz. Tinha o magoado novamente, via isso nos olhos negros muxoxos na sua frente.
O frio era agressivo, as luzes da cidade tão opacas diante da escuridão que pairava na noite. Eles se olharam por um longo momento, os ruídos do ambiente não eram ouvidos diante do silêncio pesado que se estabeleceu entre eles. Rin se curvou, abraçando a si mesma porque sempre fazia tudo errado. Sempre fazia todas as merdas possíveis.
Porque ela tinha que ser tão idiota...?
— Obito – Ela disse com sua voz falhando — Eu não estou num dia bom – E deu uma pausa sentindo que estava prestes a chorar novamente — Me desculpe. Você... Você não tem culpa de nada.
— É o que você quer? – Ele perguntou ignorando tudo — Kakashi de volta é o que você precisa?
— Não. – Ela disse franzindo o cenho sem nenhuma certeza de sua resposta — Eu... Obito... Ver você aqui hoje foi... Mais do que eu podia aguentar.
Se olharam por um longo momento e ele parecia hesitante até que a viu exausta. As lágrimas lhe invadiram sorrateiras num choro quase tranquilo, limpando sua mente das confusões, deixando escorrer a raiva e a pena, restando apenas a tristeza. Ela viu Obito encurtar a distância entre eles como se tivesse se decidido, a abraçou rapidamente, confortando-a em seus braços.
Ele não era tão alto quanto Kakashi, também não tinha as mãos tão grandes, mesmo assim Rin sentia aquele conforto familiar de alguém que sempre quis vê-la sorrir. Obito sempre foi alguém que nunca escondeu o que sentia, principalmente quando se tratava de seus sentimentos pela mulher. Rin sabia, por certo sabia de seu amor, e quando se deu conta que ele estava se contentando com tão pouco quando estavam juntos, ela decidiu voltar.
Talvez fosse o que Kakashi sentiu quando terminou com ela, que estava lhe dando pouco.
O cheiro forte marcado pelo perfume masculino inundava Rin com as memórias do passado, de como Obito era cheio de vida e sempre estava de bom humor. Tinha sido uma experiencia interessante estar com alguém que pudesse ser tão diferente de Kakashi. De repente, sentiu falta daquilo. Sentiu falta de como ele lhe tratava, de como as coisas podiam ser boas com ele de um jeito despretensioso.
O homem a afastou apenas para olhar seu rosto e sorrir tranquilo, como se dissesse que tudo ficaria bem.
O que estava fazendo?
Se perguntou antes de puxá-lo para um beijo, deixando suas lágrimas caírem enquanto sentia a língua quente e áspera de Obito corresponder seu impulso. Porque ele era tão fácil? Porque ele cedia daquela forma como se estivesse esperando por aquele momento desde que a viu? Porque ele não se amava ao ponto de dizer a ela que parasse de lhe dar essas esperanças vazias?
Ele sabia, por certo sabia que Rin nunca seria dele, então porque quando ela o beijou daquela maneira imperativa ele simplesmente se rendeu?
Seus lábios se afastaram e ambos se olharam ofegantes. Rin não fazia ideia do porquê, mas sentia que era o que precisava fazer. Sentia que podia lidar com isso, lidar com Obito. Sentia que...
— Me leva em casa.
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— Que tal esticarmos a noite?
Yamanaka Ino cruzou os braços ao ouvir aquela declaração vinda de Genma bem ao seu lado. O volume de sua voz e os olhos castanhos que lhe miravam com expectativa deixava claro que era um convite à dois, entretanto, sua entonação não parecia pender para o lado sexual. Era como se estivesse lhe chamando para dar uma volta de carro despretensiosa.
Ela quase riu.
— Eu e você? – Perguntou não porque quisesse confirmar, mas porque queria que ele entendesse o que estava fazendo naquele momento enquanto todos os outros se despediam calorosamente na porta do local, felicitando o casal que recém noivava.
— Sim. – Disse quase ansioso, como se fosse um menino tentando a sorte com a representante da turma. Ela quis rir daquela expressão sem saber o que esperar do homem.
— E pra onde você me levaria? – Perguntou olhando para o lado apenas para se certificar que Sakura ainda estava ali, conversando daquele jeito tímido com o homem chamado Gai enquanto Kakashi e o casal conversavam um pouco mais sérios.
— Se você tiver com fome, conheço uma lanchonete que fica aberta de madrugada – Disse numa óbvia sugestão.
Lanchonete, é?
Oh, Deus.
Aquele homem tinha quantos anos? Esticar a noite numa lanchonete? Parecia uma coisa que a irmã mais nova de Hinata e seu namoradinho infanto-juvenil fariam. Além disso, tinha lhe perturbado a noite toda falando sobre trivialidades de uma maneira tão desesperada. Não que aquilo realmente a tivesse incomodado, mas era meio triste zombar dele quando ele sequer estava percebendo.
Mas tinha que admitir que ele era gostoso.
Quanto tempo fazia que não dormia com um homem daquele jeito casual? Tinha namorado anos com Gaara, depois aquele relacionamento mais curto com Sai... Parecia que ela tinha uma coisa com almas sofridas, ambos tão melancólicos. O sexo com eles era como poesia, e era bom de uma maneira nova e interessante, mas as vezes ela só queria uma rapidinha gostosa.
Apesar da tagarelice, quando ele desopilava dela e começava a interagir com os outros, Genma se mostrava inteligente e bem articulado, quase com uma postura de quem está acostumado a comer todas as mulheres que caiam na sua lábia. Acreditava que ele estava nervoso perto dela, talvez fantasiasse demais com aquele momento em que finalmente se encontrariam, ela não o culpava.
Na verdade, Genma tinha cara de quem fazia o melhor oral que uma mulher poderia receber de um homem. Houve um momento em que ele estava distraído, girando um cubo de gelo dentro da boca com aquela língua enorme e Ino quase salivou ao imaginar ele fazendo aquilo em si. Quando ele notou, ficou todo vermelho.
Awn... Que tímido.
Quando se propôs a ir com Sakura naquele encontro, Ino só queria fugir do papo chato que duraria a noite toda em sua casa sobre projetos futuros com outras famílias abastardas. Shikamaru tinha sumido, Chouji tinha inventado uma dor de barriga, e Ino inventou um compromisso de última hora com Sakura! Além disso, ela também queria olhar para Kakashi ao vivo sem estar solicitando uma consulta para Kore.
A noite tinha sido boa, Kakashi olhava para sua amiga do jeito certo e ela amou que mais uma vez estava certa sobre sua intuição, apesar de que parecia que ele não tinha se resolvido totalmente com a ex, mas achou que podia lhe dar o um pouco de crédito já que tinha sido um relacionamento tão longo. Depois falaria com Sakura sobre isso, que também não pareceu muito preocupada.
No final das contas tudo ocorreu bem.
E agora estava ali, com Shiranui Genma lhe convidando pra esticar a noite numa lanchonete e ela só conseguia pensar que queria ser o lanche dele.
— Não estou com fome, mas topo ir na sua casa preparar algo quente e suculento pra você – Ela disse provocativa, com aquele olhar cheio de primeiras, segundas e terceiras intenções.
Oh, dane-se! Ela queria foder até o dia amanhecer, e talvez foder um pouco mais além disso. Se ele fosse bom, quem sabe tomaria café da manhã com ele, mas nada além disso. Queria sexo, queria aquela língua na sua boceta, queria sentar no pau daquele homem e ele estava ali tão fácil.
Irrecusável.
— C-claro! – O viu gaguejar em sua resposta, surpreso pelas palavras são diretas dela. Ino quase riu, quase.
Girou o corpo para ver Kakashi voltando para perto de Sakura enquanto acenava para o casal que se ia. Ele se aproximou colocando a mão na cintura da mulher e lhe dando um beijo no topo da cabeça. Ino gostava de como era essa a recepção dele sempre. Calorosa, mas não espalhafatosa.
— Vai voltar com Kakashi, Sakura? – Ino perguntou olhando para a amiga de maneira significativa. Sakura tremeu a sobrancelha brevemente, sorrindo no processo sem olhar para Genma um pouco atrás.
— Claro – Disse em seguida sem desmanchar seu sorriso — Você vai ficar bem?
— Sempre fico – A loira sorriu em resposta, deixando toda malicia transparecer.
— E você, Genma, vai voltar comigo ou...? – Gai perguntou sem sacar as ideias.
— Hã... Não. Vou só... – E pensou se deveria só declarar que iria com Ino ou mentir dizendo que iria pegar um táxi.
— Ele vai comigo – Ino declarou cheia de certeza, porque ela não tinha nada a esconder de ninguém — Não se preocupem, vou cuidar muito bem do amigo de vocês. – Completou piscando para Gai.
Sakura colocou a mão na boca tentando segurar a risada que lhe invadia. Ino conseguia ser tão sacana, deixando o Gai todo vermelho, se desculpando enquanto declarava que então estava de partida. Kakashi fingiu costume, sem tirar a mão da cintura de moça de cabelos rosas, enquanto esta só tentava encarar Ino sem rir por um momento.
— Então é isso – Kakashi disse finalmente antes que as coisas ficassem esquisitas — Boa noite pra vocês. – E se aproximou de Genma para um abraço breve — Se acontecer alguma coisa com ela, eu quebro a sua cara. – Disse baixinho porque, deus! Ino era a melhor amiga de sua não-namorada, e ele queria que ela gostasse de tudo!
— Confia no pai – O outro disse não tão baixo, fazendo Kakashi quase suspirar.
— Ei, me liga amanhã – Sakura pediu abraçando a amiga — E dá um trato daqueles nesse cara – Sussurrou daquele jeito pervertido. Ino riu.
— Deixa comigo. – Disse e olhou para um ansioso Genma logo em seguida — Vamos?
— Sim, claro. – Ele concordou um tanto duro e Kakashi quis bater na cara dele — Boa noite! – Se despediram dando as costas.
Sakura e Kakashi ficaram ali por um tempo, vendo Genma entrar no Saab de Ino. Um carro luxuoso de cor vermelha, bem chamativo e sofisticado. Quando os viu partir, Sakura riu imaginando a história que sua amiga iria lhe contar no outro dia. Kakashi começou a conduzi-la para o carro sem tirar a mão de sua cintura, e ela gostava da sensação calorosa que isso lhe trazia. Começaram uma conversa fácil e ele lhe perguntou se tinha gostado da noite e das pessoas.
— O meu preferido foi o Genma – Ela confessou divertida — Ele tem aquele jeito todo cheio de si, chega a ser engraçado um pouco.
— Ai ai... – Kakashi suspirou — Não é nenhuma surpresa, o Genma sempre foi muito popular com as mulheres – Disse externando um pensamento.
— Não vai me dizer que está com inveja do vodu de Genma? – Sakura disse se virando para ele antes de abrir a porta do carro.
O homem riu brevemente vendo o olhar divertido da moça a sua frente. Ela estava deslumbrante, como sempre. E aqueles olhos verdes tão brilhantes, e sua boca tão sedutora... Ficou ali por um momento admirando a mulher, negou com a cabeça diante da fala dela, não estava com inveja, porque no final das contas era ele ali com a única garota que valia a pena, encostando-a no carro e curvando-se para beijá-la em seguida.
Se segurou a noite toda para não tomar seus lábios fervorosamente na frente de todos. Toda vez que ela os mordia, ou que sorvia um resto de bebida que sobrava ali, Kakashi tinha vontade de toma-la nos braços e leva-la a qualquer lugar onde pudessem ficar às sós.
Jogou os braços entorno do seu pescoço enquanto ele a pressionava cada vez mais com seu corpo, o beijo intenso tornando-se cada vez mais denso, exigindo cada vez mais de seus corpos. O jeito com que o corpo dela respondia ao desejo produzido pelo contato de suas línguas quentes e molhadas o fazia tremer em desejo.
Mordiscou o lábio dele, saiu beijando o rosto masculino pela linha do maxilar enquanto ele recuperava o folego. Kakashi era tão quente, tão gostoso. Ela deixou suas mãos percorrerem o corpo dele, descendo pelos ombros e braços, alcançando seu abdômen e indo mais além. Recuou o rosto para olhar a expressão dele e lhe lançou seu melhor olhar perigoso, enchendo-o com aquela expectativa de quem promete tudo.
Se ele já se contraia em desejo só de ver aquele olhar através de seu monitor, quando o recebeu ao vivo àquela distância ele sentia que poderia gozar só com seu comando. Sakura era erótica de um jeito tão intrínseco. Ela o puxou pelo cinto escuro que ele usava, e com suas mãos pequenas começou a desafivelar o acessório.
— Sakura... – Ele disse incapaz de tirar os olhos dela, que lhe sorriram com aquele ar de quem vai assumir todos os riscos, de quem não se importa com as consequências.
Kakashi soltou o ar quando sentiu a mão dela alcançar seu membro duro, ainda com os olhos fogosos lhe mirando diretamente. Lambeu os lábios evocando todo o tesão que existia no corpo masculino e então, finalmente, olhou para o seu pau pulsando em sua mão de maneira lasciva, adorando o que estava vendo, amando o tom avermelhado que invadia o rosto do homem.
O estacionamento era escuro. Podiam ouvir algumas pouquíssimas pessoas transitando em busca de seus veículos. Daquela posição, só quem chegasse muito perto poderia vê-los, e Kakashi contava com certo bom senso alheio, enquanto ela o masturbava tortuosamente. Pra cima e pra baixo, com verde de seu olhar perigoso fazendo o corpo do homem tremer.
— Amo quando você geme assim pra mim, Kakashi – Ela disse naquele tom baixo e indecente, quase como se ele fosse algum garoto que precisasse de incentivos óbvios, mas... Droga! Aquelas palavras tinham um efeito tão estranho sobre sim.
Ele gemeu mais uma vez curvando seu corpo um pouco mais, sentindo cada musculo de si enrijecer enquanto ela continuava com seu ritmo torturante. Nem o frio da noite era capaz de fazer seu corpo perder a sensação tão intensa que era vê-la daquela forma, perdida na expressão vulnerável que ele fazia sob as sombras do estacionamento.
A risadinha dela quando ele reprimiu um gemido, o jeito que ela encostou sua boca em seu ouvido, empertigando seu corpo para lhe dizer tão erótica...
— Quando você quiser gozar é só pedir.
Esfregando seu pau um pouco mais forte, fazendo o pré-gozo se espalhar pela sua mão, indo e vindo naquela sensação maravilhosa que era tê-la ali consigo. Gemeu um pouco mais alto, se curvou apoiando a cabeça no ombro dela inevitavelmente, a segurou com força pela cintura enquanto ouvia o ruído de deleite da mulher se espalhar pelo seu corpo, pulsando através do seu pau bem na mão dela.
— Sakura, por favor...
Sim! Ele imploraria para ela quantas vezes fossem necessário, enfrentaria a vergonha daquele ato sórdido em meio ao risco de serem vistos porque era completamente incapaz de lidar com aquele sentimento que ela transmitia ao lhe beijar. E foi assim que ela fez, fazendo-o levantar o rosto para então lhe sorrir vitoriosa, acelerando seus movimentos de vai e vem, tomando os lábios dele com vontade e desejo.
E então gozou.
Sentiu o líquido viçoso e quente escorrer pelos seus dedos. Tomou cuidado para que não sujasse seu vestido ou as calças escuras que o homem vestia, ainda assim viu uma gota cair sem querer no sapato lustroso. Sorriu completamente excitada. Ainda o olhando daquele jeito pervertido, Sakura viu a vermelhidão no rosto dele, e ele era lindo daquele jeito. Absolutamente lindo. Era como se fosse seu e sempre seu.
Tocou o rosto dele com a mão limpa, lhe deu mais um beijo quente antes de chupar a ponta de um dos dedos melados de um jeito quase inocente, encarando o homem ainda com tanto desejo.
— Céus...
O viu suspirar enquanto a assistia, ainda ofegando pelo gozo, com o suor se precipitando em sua testa. Ela sorriu abaixando o olhar, vendo o pau dele ainda disposto a mais e riu mordendo o próprio lábio, sendo pega de surpresa logo em seguida pelo beijo desesperado que Kakashi exigia de si, e ela se entregou por inteiro, querendo mais dele, querendo-o em si.
— Tá sentindo? – Ela perguntou quando ele colocou a mão dentro de sua calcinha, tocando seu clítoris com cuidado — To latejando por você. — Completou quando ele movimentou os dedos fazendo-a arquejar. — Aqui não. – Disse quando viu um grupo de amigos vindo na direção de onde estavam — Consegue esperar até chegarmos em casa?
— Por você? Ah, Sakura, por você eu esperaria para sempre – Ele perguntou tirando a mão, conferindo rapidamente se o vestido estava no lugar. Sorrindo para ela em seguida, e havia divertimento de terem feito algo tão inesperado naquele lugar.
E então ela lhe beijou mais uma vez, pequeno e modesto, como um eu te amo no final dos telefonemas, e ele se viu sorrindo como um idiota.
Esperaria para sempre por ela, e essa espera valeria cada segundo.
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Tombou as costas na cama sentindo o homem vindo logo acima de si. Agarrou nas costas dele enquanto sentia o pau quente penetrar no meio de suas pernas, invadindo sua intimidade sem muita demora. A estocou com força enquanto a fazia gemer sem controle nenhum de suas ações. Já estavam tão suados e o cheiro de sexo pairava absoluto misturado ao cheiro forte do perfume dele e do álcool barato que tinha consumido a noite toda.
Gemeu mais uma vez sentindo-o cada vez mais fundo, deixou que o corpo respondesse com aqueles movimentos tão confusos, agarrando em qualquer lugar. As mãos do homem seguravam suas pernas e continuavam os movimentos enquanto soltava grunhidos de prazer. Era estranho e familiar, porque Obito sempre a fodia daquele jeito meio bruto, como se ela fosse apenas uma puta que ele havia conseguido para a noite.
Era o jeito dele, e ela lembrava de adorar aquilo. O homem parou por um segundo, tirando seu pau de dentro dela para virá-la, fazendo-a ficar de quatro. Ele ainda vestia aquela camisa preta aberta, porque quando ela puxou acabou estourando os botões que voaram para todos os lados ainda no elevador. Não que ele se importasse, apenas retribuiu rasgando sua calcinha, devorando seu corpo com um tesão que parecia ter se acumulado com os anos.
O quadril dele se chocava com sua bunda enquanto ele puxava seus cabelos sem nenhum cuidado, vendo sua expressão bêbada de prazer vulgar. Era assim que se sentia: Vulgar. Ele soltou seus cabelos para segurar suas coxas, fazendo os movimentos serem mais agressivos, mais intensos, e ela gemia descontroladamente, sendo invadida pelo sentimento mais imundo de prazer que existia.
Obito a tratava como uma qualquer na cama. Quem o visse não diria que transava daquele jeito sádico. Soltou um ruído alto de prazer, lhe deu um tapa forte na bunda que a fez gritar com a dor e o prazer, foi quando seus braços vacilaram e ela inclinou-se na cama, deixando sua bunda empinada para ele fazer o que quisesse dela.
Ela se sentia assim, vulnerável às vontades dele, disposta a tudo desde que ele a fizesse esquecer por um momento de sua miséria. Obito sabia que não era amor, sabia que não estava ali porque ela sentia falta dele.
Aquilo era sexo e apenas isso.
As estocadas continuavam firmes e sua vulva jazia tão inchada e sensível. Ela esticou um braço por entre as pernas estimulando a si mesma porque já não aguentava mais, queria gozar forte e desesperadamente enquanto o homem atrás de si se satisfazia com seu corpo sujo, mas ele não a deixaria. Puxou-a para ficar erguida em seus joelhos, com as costas encostando no peito dele, deitando a cabeça por cima de seu ombro enquanto ele chupava seu pescoço sem se importar em deixar marcas.
Era assim com Obito. Sexo louco e insano.
Quando ele a puxou com força contra seu pau, ela se sentiu ser invadida por algo quente enquanto ele soltava o ar com força contra sua pele exposta. Ficou um momento ali até que ele puxou seu pau de dentro dela, se jogando na cama bem ao lado dela, ofegante.
Rin sentiu seus joelhos falharem. Não chegou nem perto de gozar, mas de alguma forma sentia que merecia aquilo. Deitou-se ao lado dele se sentindo tonta. O álcool ainda estava no seu organismo, mas não num nível tão grande. Seu estomago reclamava enquanto sentia a porra de Obito escorrer pelas suas pernas.
— Vem cá – Ele disse puxando-a para o seu peito, lhe dando um conforto estranho depois de tudo.
Ela se permitiu ir em silencio, colocando uma perna sobre ele enquanto pensava inevitavelmente em Kakashi, porque ainda que Obito tivesse cumprido seu papel em fazê-la esquecer apenas por um segundo, assim que o sexo acabou e seu corpo ia esfriando, era Kakashi quem surgia em seus pensamentos, e ela se odiava tanto por pensar nele depois de tudo.
Sentiu o lábio tremer e por isso o mordeu, mesmo assim não foi suficiente porque logo as lágrimas surgiram tão miúdas quanto uma garoa fina no começo do inverno. Era horrível se sentir daquele jeito. Ela precisava fazer alguma coisa, se levantar e fazer alguma coisa!
— Você não gozou, não é? – Obito perguntou depois de um momento, ignorando as lágrimas que molhavam sua camisa.
A mulher negou com a cabeça, desolada.
— Certo. Deixa comigo – Ele falou com um sorriso idiota, fazendo com que ela risse inevitavelmente.
— Obito. – Chamou sem forças — Você pode só... Ser mais... Delicado?
Deus... A que ponto tinha chegado.
— Claro – O homem confirmou com um sorriso breve — Ainda gosta daquele jeito, né?
— Sim.
— Deixa comigo!
Então ele se posicionou entre suas pernas, beijando sua vulva sensível gentilmente. A mulher soltou um suspiro, esquecendo por um momento o quão patética era. Aquele pedido... Ela sabia que Obito não era nada gentil, que qualquer outro tipo de sexo que não fosse aquele agressivo o entediava, mesmo assim estava ali pedindo aquelas coisas, porque no final das contas ela queria gozar, mas sentia que só poderia fazer isso se pelo menos pudesse se enganar por um momento e pensar que ali era Kakashi.
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Quando abriu os olhos naquela manhã sentiu sua cabeça lhe torturar como nunca. A luz que invadia seu quarto pela janela panorâmica lhe causava náuseas cada vez mais fortes. Produziu um ruído avaliando sua voz e o gosto ruim de sua garganta. Se sentia péssima. E como se não bastasse sua ressaca gigantesca, os deuses ainda lhe torturavam fazendo-a lembrar de cada ação que tomou na noite anterior, desde o momento em que entrou naquele carro com Kurenai até o momento em que adormeceu.
Nos braços de Obito.
Fechou os olhos se concentrando por um segundo na sua respiração antes de simplesmente pensar o que merda estava fazendo da sua vida.
Não sabia que horas eram, mas parecia ser muito cedo. Suspirou tentando oxigenar o cérebro para fazer aquela dor de cabeça diminuir enquanto percebia o meio de suas pernas todo grudento. Deixou o ar escapar se sentindo suja. Fodeu com Obito a noite toda e sequer tomou um banho para dormir. Além disso tinha um pouco de vômito no seu cabelo.
Mas que merda!
O homem estava ao seu lado, dormindo de bruços como um bebe. Em algum momento havia se livrado da camisa suada e simplesmente se deixou dormir confortável com a sujismunda que era. Tensionou o maxilar com força colocando um braço sobre os olhos sentindo que podia chorar a qualquer momento ali.
Se arrastou para fora da cama antes que começasse a sentir pena de si mesmo. Obito dormia como uma pedra desde que se lembrava, então apenas se preocupou em ir ao banheiro e tomar o mais longo dos banhos, esfregando sua pele duas vezes com aquela esponja vegetal nova e bem amolada. O cheiro do sabonete subia no box enquanto lentamente ela se livrava daquela sensação imunda.
A noite tinha sido um terror, e de todas as pessoas, encontrar logo Obito naquele bar obscuro tinha sido fatal. Seu termino com ele tinha sido tranquilo, mas ela optou por não manter contato porque achava que teria mais chances de Kakashi aceita-la de volta caso fosse assim, mas imagine sua surpresa ao saber que eles ainda mantinham contato mesmo que mínimo?
Era como se tivesse sido traída esse tempo todo. Ela foi julgada por todos apenas por ter terminado com ele e ido embora com outro homem, e Obito ainda tinha amizade com todos deles. Até Kurenai! Sentia que tinham sido injustos consigo, deixando-a longe do que estava acontecendo. O que eles falavam entre si? Qual assunto tinha além do passado e...
Dela.
Tirou o condicionador do cabelo e se enrolou na sua toalha bege felpuda, limpando o espelho embaçado para olhar seu rosto inchado do choro compulsório da noite anterior. Olhos castanhos, pele macia, uma ou duas marcas de espinhas e rugas nas laterais da testa. Estava velha. Mesmo assim, ainda parecia a mesma Rin de anos atrás, com um pouco mais de experiencia, um pouco mais triste. Ainda assim, Rin.
Abriu o armário tirando um Advil. Ingeriu sem o auxilio de água, sentindo-o descer arranhando sua garganta. Soltou um pigarro e escovou os dentes duas vezes, se livrando do gosto amargo da ressaca. Já se sentia um pouco melhor depois de passar seu hidratante no corpo e colocar um creme-gel no rosto.
Suspirou antes de abrir a porta e encontrar Obito lhe encarando com uma expressão tranquila. Ela sorriu para ele chutando as roupas jogadas ao chão para o lado enquanto rumava ao seu armário. Tirou uma blusa presta transpassada, junto a uma saia bege claro. Se trocou na frente dele sem pudor, colocando uma calcinha confortável e sutiã molinho.
— Bom dia, princesa. – Ele disse com um sorriso torto quando a viu se virar, usando o apelido besta que tinha lhe dado na época que moraram juntos.
— Bom dia, chuchuzinho. – Retribuiu da mesma forma, sentindo aquela estranha familiaridade.
— Seu apartamento é lindo. – Ele comentou depois de um momento em que se encararam — Não tive a oportunidade de comentar antes. — Disse cheio de segundas intensões e ela riu enquanto revirava os olhos.
— Obrigada.
O silêncio se fez presente enquanto se olhavam daquele jeito estranho. Rin sentia uma espécie de expectativa vindo dele, mas não sabia até que ponto era só ela sendo ansiosa. Sua cabeça ainda latejava com a dor fina vinda da nuca, e Obito parecia ter saído direto de uma maquina do tempo, tão divertido quanto ela se lembrava.
— Quer tomar café da manhã em algum lugar? – Ele perguntou — Aquela lanchonete 24 horas ainda existe?
— Existe – Ela disse divertida — Mas eu já não como mais lá.
— É claro... Nohara Rin, a crítica gastronômica, é muito boa para locais populares.
— Como sempre, você é muito chato. – Disse divertida, mas percebendo que realmente já não comia nos locais que gostava antigamente.
— E aí, vai me levar pra comer onde? – Ele perguntou novamente, pulando para fora da cama cheio de energia.
— Obito, eu acho melhor não. – Disse por fim, assumindo que tinha que coloca-lo para fora de casa — Não quero que você tenha a...-
— ... Ideia errada – A interrompeu apenas para completar sua frase, olhando para ela enquanto vestia a sua cueca — Eu sei, Rin, que ontem à noite não significou muita coisa – Disse sendo bem sincero — Acho até que te devo desculpas. Você tava bêbada e sensível, eu devia ter dito não...
— Nem pense em se culpar. Você só me deu o que eu quis. Se alguém te deve desculpas, esse alguém sou eu. – Sim, porque ela o tinha usado como um band-aid fraco e sem cola, que serviu apenas nas primeiras horas, mas que depois já havia caído revelando o corte que ainda sangrava. — Eu te usei, me desculpe.
— Pode me usar mais vezes se for desse jeito – Ele comentou divertido, como se as palavras dela não o afetassem.
Obito era sempre assim, tão tranquilo. Nada parecia chateá-lo. Era tão injusto que ele tivesse aparecido bem naquele momento em que ela mais queria magoar alguém, e se sentia péssima quando lembrava do que tinha lhe dito tão descuidadamente.
— Não seja tolo – Disse com humor — Vá pra casa, Obito. Eu preciso ficar sozinha.
Ele concordou com a cabeça, pegando sua camisa e gravata do chão. Se olharam por um momento e Rin o viu como se nunca o tivesse deixado. Ele a abraçou de repente, apertando-a em seus braços com força, fazendo-a quase chorar com o gesto de afeto tão súbito. Obito sempre foi idiota, mas sempre foi o tipo que gostava de fazê-la sentir querida, e era o que mais precisava naquele momento.
— Se precisar de qualquer coisa, me procura no Line – Ele disse enfiando a mão no bolso e tirando um cartão com seu nome, cargo e telefone. — Venho correndo.
— Obrigada, Obito.
— Tchau, Rin.
E assim se foi, deixando seus lençóis impregnados com seu cheiro forte, e as memórias da noite anterior ainda flutuando em sua cabeça como marcas que não sumiriam nunca. Ela suspirou tirando a roupa de cama rapidamente, livrando seus travesseiros das fronhas manchadas por sua dor e miséria, e finalmente viu seu quarto um pouco mais digno.
Tinha descido tão baixo, e encontrar Obito não lhe ajudou de verdade. Sempre ele. Parecia que sua vida girava em torno de dois homens de um jeito quase desordenado. Depois de 14 anos de namoro com Kakashi, ela deitou-se com Obito como se fosse tão fácil esquecê-lo, e no final repetiu os mesmos vícios. Ainda se lembrava de como pedia ao homem que fosse mais gentil, que transasse com ela delicadamente, porque era assim que se sentia quando Kakashi a tocava antes do término.
Porque assim podia fingir que ele era Kakashi.
Depois que voltaram ele ficou mais distante, e o sexo se tornou um tanto mecânico. Ela sabia que tinha destruído tudo quando foi com Obito, mas achou fortemente que podia reconstruir, que podia colocar os tijolos no lugar e recuperar o que havia deixado para trás, porém acabou sendo sugada pela conformidade e aceitação.
E só agora percebia isso.
Suspirou pegando o telefone. Eram sete da manhã ainda e as mensagens de Kurenai ocupavam toda sua central de notificação. Riu baixinho feliz por ter uma amiga tão preocupada com sua segurança, e se sentiu uma merda logo depois lembrando que a tinha deixado sozinha bem no dia de seu noivado.
Outro suspiro.
Nohara Rin: "Desculpa não ter respondido. Eu cheguei bem em casa, mas muito bêbada."
Yuhi Kurenai: "Eu sei! Liguei pra portaria pra saber se você tinha chegado! Humf."
A mulher rui brevemente com a mensagem da amiga, que havia chegado quase no mesmo instante que a sua.
Nohara Rin: "A gente precisa conversar, você não vai acreditar no que aconteceu ontem"
Yuhi Kurenai: "Vamos beber a noite!"
Nohara Rin: "Por tudo que é mais sagrado, não!"
Nohara Rin: "Meu estomago revira só de pensar em uísque!"
Yuhi Kurenai: "Vamos beber suco hoje à noite!"
Nohara Rin: "Marcado!"
Começou a rir sozinha, soltando o telefone ao lado da cama, imaginando as reações de Kurenai ao contar que encontrou Obito num bar e transou com ele logo em seguida. A amiga ia matar ela lentamente, mas ela precisava muito compartilhar aquilo com alguém, colocar pra fora todos esses sentimentos e de algum jeito entender o que estava se passando.
Viu o cartão de Obito jogado sobre o aparador perto da porta e mordeu o lábio. Ela sabia o que tinha que fazer, sabia o que era necessário para dar o próximo passo ao fundo do poço ou à sua escalada para sair daquilo. Ainda sentia uma ressaca moral ridícula, ainda queria morrer de tanto chorar, mas ela podia ser tudo na vida, menos medrosa.
Pegou seu celular novamente e rapidamente encontrou quem procurava na agenda.
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Com os olhos fechados, Kakashi sentia a sensação da brisa quente invadir seu quarto pela janela que esqueceu de fechar na noite anterior. Nem sabia que horas eram, mas pelo clima calmo já deveria beirar às 9. Sakura estava adormecida ao seu lado, com seu braço adornando o peito masculino displicentemente. Tinham chegado ontem meio queimados do álcool, fizeram aquele amor gostoso e finalmente apagaram depois de um banho regado à boa conversa.
Olhando para o lado com preguiça por um breve momento, ele via a expressão relaxada da mulher que respirava profundamente numa paz absoluta. Ela era simplesmente linda e ele se via cada vez mais absorto naquele romance tão inusitado que estava vivendo. Tudo bem, fazia pouco tempo que estavam se vendo, mas já sentia que era algo para durar.
Tirou os fios de cabelo do seu rosto com cuidado para não perturbar seu estado de relaxamento enquanto se permitia admirá-la um pouco mais. Fechou os olhos em seguida apreciando a sensação da manhã morna e a felicidade matinal que lhe invadia até que seu telefone soava insistentemente no seu quarto.
Pela terceira vez.
— Amor, atende logo... – A mulher resmungava sonolenta ao seu lado, se mexendo apenas o suficiente para se fazer mais confortável sobre o peito dele. Sequer abriu o olho para ver Kakashi, mas ele a tinha ouvido muito bem, e adorou como o vocativo soou na voz rouca dela.
Esticou o braço por além de sua cama, alcançando-o na mesa de cabeceira. Das outras vezes tinha deixado tocar até que desistissem, mas dessa vez só queria por o celular no silencioso e voltar ao seu sono matinal despretensioso.
Chamada recebida: Nohara Rin.
Apertou o botão para silenciar a chamada e devolveu o celular à mesa quando Sakura resmungou novamente que ele deveria atender. Olhou brevemente para a moça de cabelos rosas que sequer se mexia, apenas se mantinha confortável em seu estado de semissono, murmurando coisas sem querer fazer muito esforço.
Não sabia, no entanto, se ela havia visto o nome de Rin no identificador de chamadas, não tinha como saber. Hesitou por um momento pensando se seria, de alguma forma, ruim falar com Rin ao telefone na frente de uma Sakura ainda não desperta, mas quando encarou a tela do celular por um breve momento e a foto de Rin lhe surgia sorridente, ele inevitavelmente lembrou-se de sua expressão na festa e não havia outra alternativa a não ser atender sua chamada.
— Rin. – Disse colocando o telefone no ouvido com um bocejo.
— Você acordou agora?
— Sim – Respondeu tentando melhorar sua voz rouca do sono — Você chegou bem em casa? – Perguntou em seguida, olhando para Sakura com os olhos fechados e respiração leve.
— Sã e salva – A mulher respondeu rapidamente, parecia nervosa, mas com um humor bom — Só liguei porque achei que você estaria no parque com os cachorros – Se explicou sem nenhuma necessidade.
— Tô de ressaca. Amanhã dou uma volta com eles – Disse fechando os olhos, sentindo o corpo meio mole ainda com o sono.
— Tá ficando velho, Kakashi. Bebeu tão pouco e já tá derrubado? – Brincou daquele jeito tão atípico. Ele franziu o cenho ainda sonolento. A verdade é que sua ressaca tinha mais a ver com ter ficado acordado até muito tarde do que com álcool, mas ele não queria especificar.
— Rin, aconteceu alguma coisa? – Ele perguntou tentando se manter acordado e cortando aquele papo furado porque duvidava que ela o tinha ligado para papear num sábado de manhã.
O silêncio se fez presente na linha enquanto ela hesitava por um momento que Kakashi considerou logo demais. Ele já não sabia se Sakura estava acordada, mas olhava para ela atentamente se perguntando o que ela estava achando, se ela podia ouvir Rin do outro lado da linha, se tinha alguma coisa que...
— Nós precisamos conversar – Ela disse de uma vez com uma voz sôfrega. — Preciso ver você hoje. Temos que...
Ele olhava para Sakura enquanto ouvia a voz de Rin sumir brevemente. Engoliu a saliva em sua boca tentando umedecer a garganta enquanto pensava sobre a conversa que ainda não tiveram. Tencionou o maxilar apertando os dentes um contra o outro sem perceber.
— Pode ser hoje, depois do almoço? – Perguntou por fim sabendo que já havia adiado aquilo por tempo demais.
— Claro. – Ela falou quase num sussurro — Passo aí?
— Não. – E continuou olhando para o rosa dos cabelos, o nariz arrebitado, sua pele clara e macia enquanto pensava sobre tantas coisas — Eu passo aí.
— Tá bom. Vou estar esperando. – Disse por fim parecendo resignada — Ahn... Tchau, eu acho. – E deu uma risada nervosa.
— Até depois, Rin. – Ele disse e finalmente desligaram.
Olhou por um momento para a tela do celular vendo as notificações do chat, dando pouca atenção aos pedidos de Genma para que o ligasse assim que visse as mensagens. Ele suspirou colocando o celular na mesa de cabeceira novamente para então deixar o ar sair dos pulmões enquanto olhava o teto branco de seu quarto. Não havia muito mais coisas em sua mente naquele momento, a paz do seu quarto colaborava para se manter num plano tranquilo.
Seja o que fosse dizer logo mais depois do almoço, Kakashi sentia que não queria pensar muito sobre. Não ficaria ensaiando conversas em sua mente, tentando prever os passos de Rin e adiantar suas respostas. Queria que fosse algo honesto e completamente sincero, porque no fundo era o que os dois mereciam depois de tanto tempo que passaram juntos, afinal, mesmo que as coisas tivessem ido por um caminho não muito amistoso, eles ainda se apoiaram em diversos momentos.
Não era ingrato. Ela fora uma das pessoas mais importantes de sua vida por muito tempo, mas vê-la sair de sua vida quando ele mais queria que ela ficasse foi tão... Determinante. Nunca entrou no mérito de acusá-la de traição ou não, mesmo que Gai insistisse nisso por um tempo, o foco dele estava no fato de que ele nunca a enxergou. Estava pronto para dar o próximo passo enquanto ela estava pronta para recuar.
Timming pior não existia.
Vasculhar aquelas memórias também não tornava as coisas fáceis. Era tudo tão distante e confuso, ele sequer lembrava do que tinha dito a ela naquela ocasião, se havia dito alguma coisa. Lembrava da aliança e do rosto de Rin, de como ela chorou enquanto dizia que não queria aquela vida para si, lembrava dos elogios vazios que ela lançava como uma compensação barata ao rompimento bruto que acontecia.
Era até mesmo difícil descrever como tinha se sentido diante de tudo aquilo, porque suas memórias eram turvas, imprecisas. Como se sua mente tivesse feito questão de arrastar tudo para um vão longínquo, mas perto o suficiente para ele colher alguns fragmentos quando precisava.
Suspirou novamente, deixando seus olhos penderem para a mulher ao seu lado que lhe o encarava com seus olhos verdes iluminados pela luz calma da manhã. O que ela via? O que estava pensando? Era como se sua alma estivesse tão clara como um cristal para aquele par de olhos.
— Bom dia – Ele disse fazendo-lhe um carinho nas costas ainda se sentindo tão exposto.
Sakura não respondeu de imediato. Seus olhos o continuavam mirando e ela imaginava o que sairia daquela conversa que teriam mais tarde, pensando que a noite ele poderia lhe ligar a qualquer momento para dizer-lhe que não poderia vê-la mais. Eram anos de relacionamento, anos de história. Essas coisas não se iam facilmente, ainda que ele dissesse categoricamente que havia terminado de uma vez.
Desviou seu olhar brevemente sentindo que queria seu travesseiro, sua casa e sua privacidade. Se eram esses os pensamentos que a invadiriam logo pela manhã, então que a tortura acontecesse onde poderia simplesmente surtar em paz. Sim, estava insegura, e sim, gostaria de não saber o que aconteceria mais tarde, porque sua mente era dessas que ficava lhe jogando coisas na cara, minando sua felicidade que a essa altura parecia tão frágil.
— Sakura, olha pra mim – O ouviu pedir e percebeu que tinha demorado tempo demais para reunir forçar e fingir que estava tudo bem.
Hesitou por um brevíssimo momento levando seu olhar ao rosto do homem. Sua mão ainda jazia tranquila no seu peito que subia e descia com a respiração ritmada. Seu cheiro delicioso remetia aos cedros de alguma floresta distante, e era tão presente de uma maneira suave que Sakura só queria eternizar aquele momento por um instante.
Quando o olhou finalmente, viu a gentileza que sua expressão carregada. Kakashi sorria com os olhos e isso era uma das coisas que ela mais gostava nele. Se encolheu novamente sem conseguir suportar o peso de seus medos contrapostos à certeza que Kakashi emitia com todos os seus detalhes.
— Vem cá – E a puxou para si, beijando seu rosto várias e várias vezes. Seus lábios tocavam a pele de sua testa, suas pálpebras, suas bochechas, nariz, queixo e lábios. Era singelo e ao mesmo tempo tão intenso. Se sentia como se transmitisse seus sentimentos em forma de gestos, como se dissesse que tudo bem que ela estivesse com aquela confusão diante de tudo, mas que à noite ele ainda estaria ali para ela. — Consegue olhar pra mim?
Ela negou com a cabeça, se deixando ser abraçada logo em seguida por um Kakashi que não conseguia desmanchar o sorriso que brotava em seus lábios. Sim, se sentia horrível por fazê-la ficar daquela maneira, mesmo assim tinha assumido a condição de lhe ser honesto, então não faria muito alarde sobre aquele telefonema.
— Tudo bem, então só me escute – Disse continuando seu carinho nas costas femininas, se fazendo presente por meio dos gestos enquanto pronunciava tudo com calma — Tudo que eu falei anteriormente ainda vale. Essa conversa que vamos ter não vai passar disso, e é claro que será longa e exaustiva, mas é algo que eu preciso dar a ela. Eu gostaria muito que você pudesse confiar em mim, mas é claro que eu não posso pedir isso a você nesse momento, então eu gostaria que continuasse a me dar o benefício da dúvida. – Ele passou os dedos pelos cabelos dela, fazendo o cheiro do xampu alcançar suas narinas — Então não me olhe como se estivesse se despedindo. É só o começo pra nós dois.
O silêncio continuou pairando após um momento. Ouvia lá longe o latido de Buru para o que quer que tenha visto no quintal. A brisa ainda entrava pela janela lateral mexendo brevemente os fios de cabelo rosa que estavam espalhados em sua cama.
A verdade é que Kakashi queria dizer muito mais. Queria lhe garantir com toda a certeza do mundo que jamais voltaria com Rin, queria lhe dizer que era só o começo e que não queria pensar num final, porque era assim que se sentia, mas sabia também que não podia fazer esse tipo de declaração inflamada. O que ela precisava era da realidade, de suas palavras certas e confiantes, não do bobo apaixonado que havia se tornado.
— Porque você me convidou para ir lá ontem? – Sakura perguntou de repente erguendo a cabeça para vê-lo melhor. Seus olhos finalmente se encontraram e Kakashi pôde ver a dúvida estampada, e não queria começar um relacionamento daquela maneira.
— Porque eu queria que você conhecesse meus amigos – Disse sendo honesto — Porque estavam todos curiosos para saber quem era você, a moça quem dancei na festa mais desejada da cidade. – Ele deu uma pausa, olhando a expressão de Sakura que ainda esperava, sabendo que havia mais por trás daquela resposta — E sim, eu cometi um erro. Não era o momento. Eu estava preocupado com você se sentir mal por qualquer coisa que Rin pudesse dizer, mas não pensei em como Rin se sentiria. Ela ainda está muito fragilizada, por isso sequer voltou à mesa.
— Tem certeza que você não queria, sei lá... Jogar na cara dela que está com outra?
— Tenho. – Ele disse olhando o verde intenso de seus olhos — Rin é minha ex, mas também é uma amiga e eu espero que possamos ter um relacionamento nesse nível. Não quero cortar ela porque todos os meus amigos também são os amigos dela, porque ela é importante pra mim. Queria, inclusive, que um dia vocês pudessem se conhecer e se darem bem, mas isso não depende só de mim.
A mulher concordou com a cabeça absorvendo aquelas palavras. Era bem o que Ino lhe disse na outra tarde, sobre como inevitavelmente Rin estaria presente na sua vida, porque ela não era uma ex qualquer, não era um relacionamento de um ou dois anos. Sakura não sabia ainda como se sentia em relação a tê-la por perto, mas por hora as palavras de Kakashi pareciam ser sinceras o suficiente.
— Posso beijar você? – Ele perguntou de repente, tirando-a de seus pensamentos. Sorriu inevitavelmente ao vê-lo tão bobo olhando para si.
Levou uma mão ao rosto dele e se aproximou com suavidade. O beijou calmamente, sem nenhuma pressa. Adorava como suas bocas se encaixavam tão naturalmente, como se fossem feitas uma para outra e nada além. O jeito que a conduzia, o clima que se criava. Kakashi era sempre tão preciso com seus beijos ora sedutores, ora brincalhões.
Quando se afastaram, Sakura sentia que podia lidar um pouco melhor com o que quer que viesse a acontecer. Ela o abraçou livrando seus pensamentos da tortura que lhe pegou desprevenida e se muniu da única missão de viver o momento que estava diante de si. Sorriu por fim, olhando para ele um pouco mais leve antes que ele simplesmente trouxesse à tona uma das mais importantes perguntas naquela manhã.
— Quer comer? – Ele perguntou um pouco mais energético e pelos deuses, ela estava mesmo com fome.
— Oh, sim. Por favor! – Disse manhosa — Faz aqueles ovos, sabe? Com queijo. E traz aquele patê caseiro que é um pecado de tão gostoso!
E era como se nada pudesse perturbar aquela paz.
Toda vez que ela falava daquele jeito, Kakashi queria apenas rir e apertar suas bochechas. Sakura era uma comilona, ele havia descoberto isso quando lhe fez um almoço na quinta. Ela repetiu o prato, beliscou os ingredientes individualmente, e ainda disse que tinha espaço para uma sobremesa. Sem falar do jeito que ela acabou com meio pote de patê enquanto assistiam um daqueles filmes chatos que ela tanto gostava.
— Vou fazer um pouco pra você levar pra casa amanhã – Disse se levantando.
— Amanhã? – Ela perguntou divertida. Era engraçado como Kakashi a convidava para passar a noite simplesmente dizendo coisas como aquela. — Eu vou pra casa hoje, Hatake.
— É final de semana – O homem disse dando os ombros — Tem nada pra fazer em casa dia de domingo, então fica aqui. Tenho 8 cachorros que não vão deixar você sentir tédio.
— Kakashi, é só a primeira semana e você tá quase abrindo espaço no seu closet para eu guardar algumas coisas. – Disse divertida.
— Boa ideia. Vou esvaziar uma gaveta ou duas pra você – E lhe sorriu daquele jeito sacana, fazendo com que ela desse uma longa risada enquanto jogava a cabeça para o lado.
— Céus! Daqui a pouco estarei morando aqui sem nem perceber.
— Você já tem uma escova de dentes no banheiro. – E se encararam naquele desafio divertido de quem iria dar pra trás primeiro. Ela se arrastou na cama e o envolveu em seus braços, beijando a bochecha masculina com um som estalado.
Sim, ela queria ficar, mas imaginava que talvez fosse melhor dar espaço para o homem processar o que quer que acontecesse durante sua conversa tão definitiva com sua ex. Não queria estar ali para perturbar seus pensamentos, e além disso...
— Eu realmente adoraria dormir aqui com você, mas eu tenho um show pra fazer à noite, lembra?
...
Oh...
É mesmo... Era sábado. O dia de seus encontros agendados com a sexy e excitante Healer. Era o dia que se sentava em frente ao computador para vê-la rebolar tortuosamente, tirando suas roupas peça por peça, lançando seus olhares matadores e exigindo o gozo de todos os pervertidos de plantão.
Sábado era o dia que ele mais esperava na semana e fazia meses que se sentia assim. Era o dia que pedia por um show privado apenas para encontrar a misteriosa moça de cabelos rosas que tinhas as risadas mais gostosas, que mordia o lábio com certa frequência, que lhe excitava como nenhuma outra mulher foi capaz de fazer.
Era o dia de seu encontro com Sakura.
Ele soltou o ar dos pulmões percebendo que tinha escondido essa informação na sua mente em algum momento. Como ele pôde esquecer de algo tão fundamental?
Sakura era uma camgirl.
Sakura era Healer.
— Você não fez o show da terça, não foi? – Perguntou tentando puxar da memória se havia recebido a notificação.
— Não, eu estava muito... Sabe? – Ela disse divertida, como se estivesse lembrando de algo — Eu só conseguia pensar em você e se eu fizesse um show naquele estado, então seria algo muito íntimo. – Disse um tanto envergonhada, mas sem economizar nas palavras.
Ele confirmou com a cabeça ainda se sentindo atordoado pelo fato de que estava diante de uma das maiores camgirl daquele site e talvez do país. Seu cérebro começou a processar vários fatos, juntando as informações que tinha num momento onde as coisas se uniam para fazer algum sentido.
Sequer tinha pensado em como ela se mantinha morando sozinha num dos pedaços mais caros da cidade quando não tinha um emprego de meio período sequer. Tudo bem, era uma quitinete, mas ainda assim era um espaço caro pela sua localização estratégica entre os mais importantes pontos da cidade.
A renda dela vinha do site, com certeza.
E pensar no site o fazia lembrar daquele chat que pipocava indecências a todo instante. Com aquelas pessoas dizendo vulgaridades da mais baixa categoria para sua garota. A garota tímida e fofa que corava facilmente. A sua Sakura que tinha o sorriso mais bonito do mundo.
Lembrou-se também das histórias pervertidas dela, de como ela contava suas invenções sexuais para todos como se fosse algum tipo de depravada. Kakashi já havia, inclusive, zombado dela em algum momento por uma história sobre como um padre a havia comido dentro do confessionário, mas ela nunca negou a história apesar de ele ter total certeza que era uma grande mentira.
Ele precisou sentar quando as imagens dela dando atenção aos seus superfãs lhe vieram à mente. Deus, porque? Nunca se passou pela sua mente como seria essa dinâmica depois que a encontrasse. Kakashi apenas focou no que estava diante de si e seguiu em frente, destinado a conhecer a pessoa com quem ele conversava dia e noite por meses, a pessoa que ele transava na internet aos sábados, a mulher que ele havia se apaixonado.
Dane-se se ela era uma camgirl.
Não era esse o ponto. Ele adorava que ela fosse tão autoconfiante e tivesse esse poder sobre si mesma a ponto de se exibir daquela maneira, mas havia o outro lado de si que começava a pensar como namorado monogâmico dela. Era inevitável, não era? Querê-la para si. Mas como dizer a ela tais coisas quando, desde o começo, sabia exatamente quem era ela e o que fazia.
Como lidar com o fato que teria que dividi-la, todos os sábados, com um bando de desconhecidos tarados na internet?
E nas terças também, é claro.
Sem falar que a renda dela vinha daquilo! Se já era difícil abordar esse assunto quando só considerava o fato do relacionamento deles, quando incluía o fator financeiro as coisas ficavam só piores.
E eles precisavam conversar sobre isso, não é? Era com certeza algo para ser conversado, mas Kakashi ainda não sabia direito o que queria dizer sobre aquilo. Pedir para ela parar? Dizer a ela que a ajudaria a achar um emprego regular? Ele queria isso? Ou melhor, isso realmente o incomodava a tal ponto?
— Kakashi?
A voz dela o chamou, fazendo com que seus olhos encontrassem os dela de supetão. Pigarreou percebendo que tinha entrado num estado de torpor enquanto era bombardeado pelas constatações e questões que lhe acometiam de maneira bruta.
— Desculpe – Disse desviando o olhar, sentindo que precisava pensar por mais um momento para decidir o que aquilo significava para si.
Foi com aquela simples palavra que Sakura começou a entender a situação. Seus olhos semicerraram enquanto olhava para o homem quando a ficha caiu. Se empertigou sentindo uma espécie de irritação tomar conta de si, numa mistura com incredulidade. Ele parecia atônito, como se tivesse acabado de receber uma notícia inesperada.
Será possível?
— Já que estamos sendo honestos aqui – Ela disse se agachando na frente dele, suprimindo seus impulsos irritadiços — Kakashi, você tem algo que queira me dizer?
Homens, por mais perfeitos que fossem, ainda eram homens. E toda criatura que havia nascido com um pau no meio das pernas tinha uma tendência absurda a ser escroto. Ela sabia que Kakashi não era nenhum santo, mas também não esperava aquela reação. Não esperava que ele a olhasse como se estivesse tentando resolver um quebra-cabeça em sua mente quando lhe disse:
— Sakura, eu... – Soltou o ar — Eu só... É que – E parecia difícil dizer qualquer coisa com ela lhe encarando daquele jeito, e ainda nem tinha processado tudo direito, mas... — Você é uma camgirl.
A viu recuar imediatamente quando as palavras saíram de sua boca. Parecia afetada e quase decepcionada numa óbvia surpresa desagradável. Ele se levantou imediatamente percebendo como tinha soado ridículo, mas não era isso, não se tratava disso. Foi atrás dela com passos rápidos enquanto ela se mantinha de costas para ele, olhando para seu quintal pela janela do quarto.
— Sakura, por favor – Disse rapidamente — Me desculpa, eu não quis soar dessa forma – Emendou percebendo que estava falando rápido demais.
— E como você quis soar? – Perguntou virando para ele parecendo estarrecida. — Porque pra mim pareceu que você tá se dando conta agora que a pessoa que você tá dormindo, apresentando pros seus amigos e chamando de amor é uma dessa depravadas que se exibem na internet!
— Não, Sakura! – Exclamou percebendo o quão errado ele tinha se feito entender — Não é isso! Desde o começo eu sabia quem você era, o que você fazia. Tudo bem. – Disse apressado, como se precisasse explicar tudo de uma vez — Eu sei que você não é nenhuma depravada. Deus... Eu só me dei conta que você ainda vai continuar fazendo os shows. – Disse finalmente, percebendo também que todo seu choque se resumia a isso.
Ela franziu o cenho, olhando-o de maneira perplexa. Ainda sem entender, Sakura sentia sua irritação continuar pairando dentro de si. O que aquilo significava? Não foi assim que se conheceram? Ele sabia desde o início! Não era como se ela estivesse escondendo alguma coisa, não tinha nada pra esconder. Soltou o ar dos pulmões rapidamente, fazendo um barulho no processo.
Passou a mão nos cabelos com uma risada sarcástica, sentindo-se uma idiota. É claro que aquilo aconteceria. O que ela achava? Que tipo de homem aceitaria se relacionar com alguém como ela? Foi uma idiota ao se permitir viver aquele pequeno conto de fadas como se nada pudesse atrapalhar. Como se não bastasse a ex de anos dele, sua insegurança, agora seu hobby também era um ponto em tudo aquilo.
Deu alguns passos no silêncio morno do quarto, sentou-se na cama com o corpo curvado, olhando para suas mãos e unhas bem-feitas. Era seu maior medo diante de tudo aquilo. Kakashi agora enxergava Healer. Ela não era mais Sakura, sua identidade havia sido trocada por aquela que ela usava quando se masturbava na internet.
Estalou a língua quando aquela fala idiota que Sasori lhe disse a tanto tempo invadiu seus pensamentos tão abruptamente.
Quem iria gostar de alguém suja como você?
— Sakura – Ela o ouviu dizer naquele tom preocupado e fechou os olhos com força querendo sumir daquele lugar o mais rápido possível. Tentava focar na sua respiração, mas sentiu o colchão afundar um pouco ao seu lado e a presença de Kakashi estava bem ali, serpenteando através do curto espaço que havia entre eles — Eu não quis insinuar nada – Falou numa voz soando tão sincera — Por favor, me diz que eu não estraguei tudo.
Estragar tudo?
Ela soltou uma risada fraca e sem humor. Não havia como ele ter estragado algo que já estava assim a muito tempo.
— Acho melhor eu ir pra casa – Ela disse depois de um momento, sentindo-se desolada, sozinha.
— Não vai embora assim. – Pediu sentindo um frio estranho na barriga, uma tensão subir pelos seus ombros e se estabelecer, como quando uma vez ela disse que queria parar com tudo aquilo e encerrar o que quer que tivessem na época.
— Isso nunca vai dar certo – Saiu num sussurro e ele percebeu que ela chorava.
Hesitou por um momento, pensando se poderia tocá-la, se poderia de alguma forma consolá-la por seu equivoco, mas ela levantou-se rapidamente. O homem se ergueu junto a ela, ainda sem saber de que forma poderia mudar tudo aquilo, sentindo que estava perdendo tudo.
— Sakura! – Suplicou vendo-a tirar a camisa que vestia, se enfiando no vestido que tinha usado na noite anterior — Por favor, vamos conversar. Não vai assim.
— Para de me chamar assim! – Ela disse com raiva, com dor. Porque Sakura soava tão doce na voz dele, tão perfeito, como se fosse sua palavra preferida e ela era só uma...
... camgirl.
— Não! – Ele disse imperativo — Esse é o seu nome! Você é Sakura! – Afirmou fazendo-a olhar para si, fazendo-a ver em seus olhos o quão importante era aquilo para ele — Você é Sakura. – Repetiu mais suave, sentindo a respiração ofegar de repente, vendo os olhos verdes amedrontados como se esperassem pelo pior — É um nome bonito. Combina com você. – Ele disse puxando todas as memórias — É o nome que teu pai te deu. – E riu nervoso, sem saber o que estava fazendo, mas sentindo que eram coisas que ele precisava dizer — Você é a minha Sakura.
Sim, sua Sakura.
Kakashi estava ali completamente nervoso. Era visível a urgência em tudo que fazia, no jeito que falava, no modo que gesticulava, na curvatura de seus ombros e na sua expressão tão transparente. Ela o olhou falando aquelas coisas, dizendo tudo aquilo como se tudo estivesse tão claro para si, e por um momento Sakura acreditou em suas palavras, acreditou no que ele enxergava.
Seu lábio tremia e o ar parecia tão mais denso, como se estivesse difícil respirar. Ela esvaziou os pulmões com um ruído quase desesperado e tomou no peito masculino, se deixando ser abraçada por Kakashi e suas mãos grandes, pelo cheiro de cama e limpeza que ele tinha, pelo calor do seu corpo nervoso com toda a situação. Ela se deixou chorar soluçando sem nenhuma classe. Deixou que ele a mantivesse naquele abraço forte e protetor, e parecia que ele não a largaria nunca mais.
Lentamente suas respirações foram se acalmando enquanto ele a acalentava em seus braços fortes. Os pensamentos iam se tornando menos caóticos e ele apenas se concentrou em fazê-la sentir, através daquele gesto, que ele estaria ali pra ela. A sentiu se mexer um pouco dentro de seu enlace, ajustando suas mãos envolta do seu pescoço.
— Vem.
Ele sabia o que ela queria fazer, e quando ela deu o impulso, Kakashi agarrou suas pernas mantendo-a segura enquanto Sakura adornava sua cintura com elas. Ela ainda estava silenciosa, com seu rosto afundado na curva do pescoço masculino, mas já podiam sentir um pouco mais de calma depois de tudo que aconteceu, depois da explosão que se instaurou em segundos no local.
Sua manhã perfeita tinha sido perturbada, mas não significava que não podia ser consertada.
A levou para a cama, deitando-a com cuidado. O vestido colocado pela metade, já abarrotado, caiu de seus ombros, mas ninguém se importou. Kakashi a beijou delicadamente no rosto após enxugar o rastro das lágrimas em suas bochechas, vendo seu nariz e olhos avermelhados, os lábios inchados. Era como fosse apenas uma garota que levou um tombo feio.
Se olharam por um longo momento até que Sakura desviou o olhar um tanto constrangida, ainda assim se deixou encostar no ombro dele, sentindo essa necessidade de manter contato físico mesmo que pouco, mas o homem pegou sua mão que se perdeu entre os dedos masculinos, ele puxou aos lábios beijando-lhe as costas delicadas de sua mão miúda e sorriu para ela.
Até que sua barriga roncou.
Ele fechou os olhos como quem está amaldiçoando a si mesmo enquanto ela não escondeu sua risada um tanto rouca do choro. Se olharam por mais um momento com humor, e o sorriso que ele carregava nos lábios era sereno e divertido. Ela mordeu o lábio, deixando aqueles sentimentos pesados para trás.
— Eu também to com fome – Disse por fim, vendo-o concordar com a cabeça.
— Vamos pra cozinha – Ele sugeriu ainda segurando sua mão — Vou fazer seus ovos, com queijo, e te dar o pote de patê.
— Você sabe mesmo como fazer uma mulher feliz – Sua voz soava divertida, com risadinhas fáceis escapando pelo teor de sua provocação.
Por mais um longo momento se olharam e Kakashi maneou a cabeça sabendo que precisava colocar ao menos uma conclusão temporária naquilo.
— Sakura, me desculpa – Ele disse com seus olhos sinceros — Eu não quis ser indelicado ou...
Ele parou de falar quando a viu levantar uma mão fraca enquanto negava com a cabeça. Ficou em silencio vendo-a organizar seus pensamentos, e quando voltou a olhá-lo, parecia mais tranquila.
— Eu que te devo desculpas – Disse brevemente — Porque, sim, eu sou uma camgirl e você sabe disso, mas não significa que não precisamos falar sobre isso. – E mordeu o lábio inferior ainda escolhendo as palavras — A verdade é que eu supus uma coisa, e você assumiu outra, e tudo bem... Foi só um desencontro. – Ela viu querendo falar, mas precisava continuar — Eu também reagi exageradamente a tudo, porque eu tive um relacionamento antes de você do tipo que deixa cicatrizes profundas – E seu olhar se perdeu em algum lugar antes de olhá-lo novamente — É um saco de lidar com isso, e não posso prometer que não vai acontecer novamente mas...
— Eu to aqui. – Ele disse antes que ela concluísse — Não vou a lugar nenhum. – E a olhou por um longo momento, sentindo a intensidade de suas próprias palavras ganharem um significado tão sólido — Não precisamos falar sobre você ser camgirl agora, ou sobre o que você passou se não quiser.
A mulher sorriu de maneira singela. Maneou sua cabeça balançando os cabelos rosas levemente prum lado e para o outro, deixando a cabeça deitada sobre um ombro enquanto o olhava daquele jeito, como se tivesse saído de um filme romântico.
— Obrigada – Ela disse ganhando um tom rubro — Amanhã ou depois falamos sobre minhas atividades na internet – Disse com uma risada — E sobre o outro assunto, prometo que te conto tudo um dia.
— Tudo certo – Ele concordou depositando um beijo na sua testa — Agora tira esse vestido, põe algo confortável e vamos descer. Eu realmente to com muita fome.
Sakura sorriu.
Sua manhã voltava a ser perfeita.
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Estava deitada no deque com seus cabelos amarrados num coque frouxo no topo da cabeça. Tinham tomado aquele café da manhã delicioso que só Kakashi sabia fazer e agora deitava apoiada em Buru enquanto o homem tinha ido comprar uma melancia numa venda perto dali para fazer um suco, porque aquele dia quente e ensolarado pedia isso. Ventava forte, o que era muito bem-vindo. Os cachorros brincavam com o regador automático do jardim, aproveitando a água que jorrava brevemente para cima.
Aquela tinha sido uma manhã turbulenta, mas de alguma forma Sakura se sentia mais leve. Ainda precisava definir coisas, e tinha descoberto que Sasori ainda era uma questão latente que podia explodir nas piores horas. Mesmo assim, ela se sentia tranquila, porque Kakashi tinha sido tão preciso em suas palavras, agindo da maneira certa apesar do gatilho que tinha provocado em si.
Pakkun se aproximou dela e a cheirou quase de maneira indiferente. Era o único resistente à sua presença, talvez porque sentisse falta de Rin. Ela não sabia. O chamou fazendo um barulhinho repetitivo com a língua, mas o cachorro a ignorou e saiu trilhando seu caminho para além. Suspirou. Nem buda tinha agradado a todos, não é?
Mas ela tinha uma ideia de como conquistar aquele pequeno e rabugento pug!
Fechou os olhos com suavidade, deixando a sensação boa da manhã se misturar com sua tranquilidade adquirida, lembrando como Kakashi tinha dito aquelas últimas palavras de um jeito tão sincero. Minha Sakura. Oh, céus... Ela tinha sido pega desprevenida.
Deu um sorriso bobo se virando com vergonha para afundar seu rosto no pelo escuro de Buru, que se espreguiçou com a mudança de posição. Ela riu fazendo um carinho na barriga dele enquanto falava sobre ele ser um grandalhão fofão na voz mais fofa que tinha.
Foi quando seu celular tocou e ela viu o nome de Ino estampado na tela. Sorriu colocando o telefone no ouvido.
— Me conta tudo! – Disse sem sequer dizer oi — Como foi a noite, porquita?
— Kakashi não tá com você, não é? – A outra perguntou se certificando que podiam conversar com privacidade.
— Não, ele tá em algum lugar comprando melancia. Vai, conta tudo – Disse ansiosa.
— Sakura... – Ino disse com uma risada nervosa — Oh, deus, como eu começo...
— Pelo começo!
Ino riu mais uma vez do outro lado da linha e Sakura soube que ela estava no viva-voz quando Kore miou manhosa do outro lado da linha. Parecia que tinha sido algo bem peculiar porque nunca faltavam palavras para a loira começar uma história.
— A foi pra casa dele, né. Ele tava todo nervoso quando chegou, errando a chave que abria a porta da frente. Um caos. Eu tava me segurando para não começar a rir de tudo que ele fazia.
— Céus!
— Pois é! Tava quase me arrependendo até a gente finalmente entrar. A casa dele é bem aquilo de homem solteiro cafajeste. – Ela disse com humor — Ele tem uma daquelas adegas refrigeradas no meio da sala. O cara é preparado – Contou ainda no tom humorado.
— Tinha coisa boa na adega? Porque se for vinho barato... – E até podia soar um pouco esnobe, mas bebida barata não combinava com alguém como Ino.
E nem com ela.
— Sim, ele abriu um rosé maravilhoso. – E Sakura podia visualizar Ino gesticulando ao vento — Mas não importa. Ele acabou derrubando a própria taça no tapete dele. – E deu uma longa risada — Sakura, ele tava tão atrapalhado que eu fiquei imaginando o que porra eu fui fazer ali.
— Puta que pariu! – E gargalhou imaginando a cena sem medir o volume de sua voz. — Ele já tava surtando só de falar com você no bar. Todo mundo reparou. O Asuma tava filmando escondido!
— Eu percebi aquilo também! – E compartilhou da risada da outra — Sakura, mas quando a gente se beijou, eu pensei "agora vai", porque ele tinha aquele jeito de beijar, sabe? Com aquela pegada firme de quem sabe o que tá fazendo.
— Ah, se sei... – Suspirou lambendo os lábios. — Então foi bom, né?
— Escuta, porra! – Resmungou como se tivesse muita coisa para contar — Ele me beijou, começamos a tirar a roupa, ele me empurrou no sofá e... Sakura... Deus! Que oral! Ele me chupou de um jeito que eu acho que tive orgasmos múltiplos!
— Parece que valeu a pena, hein! – Exclamou ansiosa com o relato.
— Oh, mas você não sabe de nada... – Riu parecendo nervosa — Teve uma hora que a gente virou no sofá, ele ficou por cima me beijando, e ai eu fui catar o pau dele pra dar aquele trato antes da penetração né – E deu uma pausa — Sakura... Você não vai acreditar...
— Não vai me dizer que tinha mais de 20 centímetros. – Riu porque ele não tinha cara de quem tem pau grande.
— Não! Não... – A loira resmungou no telefone com humor — Sakura, tava mole.
— Que?
— Ele brochou, Sakura.
A gargalhada que a mulher deu com certeza foi ouvida por todos do bairro. Os cachorros pararam o que estavam fazendo para olhá-la com curiosidade, Pakkun a repreendeu com aquela cara de julgamento habitual, e Buru apenas levantou a cabeça para olhá-la e depois voltou pro seu estado de relaxamento. Sakura colocava a mão na boca tentando se controlar, mas Ino também ria do outro lado da linha de uma maneira nervosa e exagerada.
— O que você fez!? – Sakura disse entre as risadas, imaginando a expressão de tacho da amiga.
— Eu fiquei parada, sabe? Em choque! Ninguém nunca brochou comigo! – Disse parecendo perplexa — Ele ficou me olhando com aquela cara de cachorro pidão e eu só conseguia pensar, "mas que porra"!
— O coitado! Ficou nervoso demais, não conseguiu lidar com a situação!
— Sakura, eu só queria morrer. – Ino confessou rindo nervosa — Falei lá "tudo bem, acontece" e ele me dizendo aquelas coisas de sempre, sabe? "Nunca aconteceu comigo antes" pff...
— Tadinho! – E riu um pouco mais. — Você ficou lá com ele?
— Sim! Eu não sou um monstro! Tava com pena dele, passei a mão nas costas dele, falei que tinha gozado gostoso na língua dele, que já tinha valido a noite.
— Caralho... – Deixou escapar incrédula com a situação.
— Fiquei com ele até de manhã, descontraímos um pouco. Dai quando foi umas cinco horas eu me mandei de lá. – Confessou com um suspiro bem humorado — Mas sabe, você se produz toda, faz dieta, fica hiper gostosa pros caras não saberem como lidar com você e brochar? É tão frustrante.
— Ah, Ino! Mas pega leve, essas coisas acontecem. Ele tava realmente muito nervoso com você. Parecia que cada vez que ele entrasse em você ia ser um "Obrigado, Deus".
— Ele era tão gostoso, sabe? Com aquela cara de cachorrão.
— Ele ainda é gostoso. Ele não tá morto, você sabe.
— Pra mim, ele tá.
— Você não vai dar outra chance pra ele? – Perguntou quase inocente depois de rir da declaração da amiga.
— Pra que? – Suspirou — Só vai ser uma situação constrangedora, Sakura. – Resmungou — E vai que ele brocha novamente.
— Ah, corta essa. Ele te fez um oral tão bom, porque não dar outra oportunidade pra ele? Marca um jantarzinho, deixa ele jogar um papo em você, e aí... Sei lá. – Deu os ombros.
— Não sei. Ele ainda não me mandou nenhuma mensagem, deve tá morto por dentro. Acho que vou mandar alguma coisa, só pra ele se sentir melhor, mas não faço ideia do que falar – Disse confusa — Talvez seja melhor esperar por ele, né?
— Acho melhor – Disse pensando o que faria na situação dela — Só dá um tempo, se ele não falar com você então fica de boas, se ele falar então dá uma outra chance.
— Cara, quando eu sai de lá eu só imaginava a sua cara quando eu contasse – Disse divertida — Essas coisas só acontecem comigo, puts.
— Ainda bem que só acontecem com você – E gargalhou.
— Vai te catar, testuda desgraçada!
— Ei, vou aí a tarde, pode ser? – Perguntou inocente — Aí você me faz um relato mais detalhado!
— Combinado! – Ela disse com um suspiro profundo — Te vejo daqui a pouco, Sakurinha.
— Hai, te amo – E mandou um beijo estalado antes de desligar.
Deixou o telefone cair ao seu lado com um baque moderado, se esfregou em Buru lembrando das palavras de Ino enquanto a risada de lhe escapava por ali. Aquela manhã estava sendo incrivelmente caótica, cheia de histórias. Ficou ansiosa pelo encontro com a amiga, porque também tinha coisas que queria compartilhar sobre o que tinha acontecido durante sua conversa animosa com Kakashi, sobre o que ele poderia conversar com Rin...
Mas naquele momento, Sakura se permitiu apenas rir de Genma e sua performance. Quem diria que alguém com uma cara que gritava sexo casual brocharia tão miseravelmente numa noite com Yamanaka Ino, a mulher mais gostosa que Sakura conhecia. Porque Ino não era só sua personalidade imponente e autoconfiante, ela também tinha aqueles peitos voluptuosos, sua cintura de pilão e aquela bunda redondinha.
Ino tinha os atributos certos.
Foi quando a porta se abriu e Kakashi entrou com uma sacola displicentemente. Tinha ido a pé porque, segundo ele, o local era próximo o suficiente. Deu a volta por fora da casa, chegando à ela com um sorriso tranquilo. Se olharam por um breve minuto, tendo pela primeira vez aquele tipo de conversa silenciosa que só casais com muito tempo de relacionamento conseguiam ter.
— Ele te ligou, não foi? – Sakura perguntou sem revelar muita coisa. Ele confirmou com a cabeça, deixando o sorriso brotar divertido em seus lábios
— Então ela já te ligou também – Constatou sentando-se ao lado dela, deixando a melancia para lá.
Se olharam por um longo momento até que Sakura começou a rir, acompanhada pelo homem que também não media o volume de sua voz. Eles gargalharam juntos, enquanto Sakura segurava sua barriga chamando pelos deuses.
— Não seja cruel com o Genma, ele só ficou bem nervoso – Kakashi disse protegendo o amigo de uma Sakura divertida.
— Foi o que eu falei pra ela – Confessou tentando controlar a risada — Mas imagine, ela louca para ter uma noite quente e... – Fez um gesto com o dedo bem característico — Imagine sua decepção!
— Fala pra ela dar outra chance pra ele – Kakashi pediu e obviamente tinha sido algo que Genma conversou com ele, fazendo a cama pro amigo — Ele só tava nervoso – Ressaltou novamente quando viu a expressão zombeteira de Sakura — Por favor? – Perguntou por fim apelando com seus olhos negros.
— Eh...? E o que eu vou ganhar em troca? – Ela perguntou com um sorriso presunçoso.
— O que eu posso te dar? – Perguntou deitando por cima dela, aproximando suas faces.
— Hm... – Ela disse de maneira preguiçosa, jogando seus braços ao redor dele — Quero você. – Disse por fim olhando para ele diretamente, vendo-o sorrir.
— Feito. – E então a beijou, logo e pacifico, se dando a ela de todos os modos, deixando que ela o marcasse como seu.
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— Tô falando sério, vou deixar duas gavetas pra você lá em casa – Disse quando viu a moça pegando uma bolsa no banco de trás do seu carro — Assim você não precisa ficar andando com mala pra cima e pra baixo.
— Tenho medo de deixar minhas calcinhas na sua casa – Ela disse divertida — Vai que você é um pervertido.
— Mas eu sou um pervertido – Ele disse com humor — Só que minha tara é sobre quem está vestindo as calcinhas.
— Ah...! Entendo – Disse quase inocente, rindo no processo enquanto beijava o homem brevemente. — Falando sério, eu vou deixar umas roupas mesmo lá. Fica mais fácil.
— Ótimo. – Ela sorriu para ela, desejando que pudesse passar o resto do dia com a sua garota.
— Vou indo lá – Sakura disse brevemente — Boa sorte com sua conversa.
Ele concordou com a cabeça vendo-a sair do carro em seu vestido claro da noite anterior. Estava com o cabelo preso no coque frouxo no alto da cabeça e tinha decidido ficar descalça, pisando na grama mais verde que existia em toda Kyoto. Ele sorriu vendo-a olhar para trás e lhe lançar uma piscada de olho.
Suspirou sentindo o bom-humor penetrar em si. Seu olhar caiu para o porta luvas de seu carro inevitavelmente como se houvesse um imã para seus olhos ali. Coçou a cabeça brevemente, abrindo de uma vez para tirar o que tinha comprado para Sakura na quinta, quando foi pegar a aliança de noivado de Asuma naquela loja no shopping.
Deixou o carro ligado sem se importar, correu rápido na direção da moça que ainda estava sob sua vista, andando pela trilha de tijolos que a uma semana eles percorriam juntos. A alcançou com um breve chamado, fazendo-a virar em seu vestido que armava com o movimento. Ela era linda. Parou na frente dela com um ar nervoso, a viu arquear sua sobrancelha fina com humor.
— Oi...? – Ela perguntou deitando a cabeça sobre seu ombro. — Está perdido, senhor?
— Não – Ele disse endireitando sua postura — Na verdade, estou bem onde queria estar – E sorriu para ela, vendo-a ganhar aquele tom rubro que a invadia tão facilmente. — Sakura, eu queria te dar isso ontem a noite, mas as coisas... Ganharam outro rumo. — Ela soltou uma risada maneando a cabeça enquanto olhava para o que ele tinha nas mãos — Pensei em te dar quando acordássemos, mas não foi o melhor momento também.
— Desculpa – E encolheu os ombros, toda tímida.
— Sem problemas – Kakashi mantinha sua expressão agradável — Eu quero te dar isso agora, porque... Bem, aqui parece ser o local perfeito. – Falou levando uma mão a nuca, levemente envergonhado com suas palavras.
Ele a ofereceu uma espécie de estojo retangular rígido, coberto com veludo azul. A tranca era fina, evidenciando ser uma daquelas caixas elaboradas onde se guardava joias. Ainda nervosa e sem saber o que esperar, Sakura abriu com delicadeza, mordendo o lábio sem perceber. Ali estava uma pulseira dourada brilhante, cravejada com pequenas pedras verdes no contorno do aro rígido.
Levou a mão a boca segurando a caixa com a outra em uma visível surpresa. O olhou timidamente, vendo-o ansioso como se esperasse sua reação. Ela riu jogando a cabeça para o lado, olhando para ele com aquela vergonha gostosa dentro de si, porque ele a surpreendia de um jeito tão bobo.
— É linda – Disse por fim tirando-a da caixa e dando a ele — Me ajuda aqui – E esticou seu punho para que ele colocasse.
— Gostou mesmo? – Perguntou adornando o contorno mais fino de seu braço, prendendo o aro delicado que se pendia sobre o punho feminino.
— Eu amei – E era tudo verdade. Amou mais ainda a escolha do local, das palavras. Amou que fosse naquele dia, que fosse daquele jeito, amou que ele estava ali na sua frente com o rosto um tanto vermelho, amou que quando o beijou cheia de afeto, o sentiu retribuir da mesma maneira. — Obrigada! – E o beijou novamente segurando-o com suas mãos, sentindo o metal repousar na sua pele.
Ele recuou brevemente, a olhou por um momento, e então depositou um beijo na testa feminina, demorando seus lábios ali enquanto sentia a brisa e o cheiro dela se misturando com o das plantas que haviam por ali.
— Obrigado, você. – Disse por fim, deslizando um dedo pelo rosto dela — Tenho que ir. Posso te ligar mais tarde?
— Vou ficar esperando. – Sorriu para ele quando o viu confirmar com a cabeça levemente.
Mais uma vez se olharam envoltos naquela timidez inocente que havia surgido pelo gesto e então ele lhe deu as costas, andando calmamente com as mãos nos bolos enquanto sorria rolo para o nada a sua frente enquanto ela tentava não saltitar enquanto andava na direção da casa de Ino.
Ele a olhou por cima do ombro por um momento, vendo sua figura se afastar e voltou a olhar para frente, sem ver que logo em seguida ela fez o mesmo. Se sentia leve, se sentia pronto...
Se sentia vivo.
Quando voltou ao carro, conferiu seu celular. Haviam duas ligações perdidas, e quando foi olhar o número, o celular começou a tocar. Número oculto.
Arqueou a sobrancelha. Seria um trote? Atendeu sem muita expectativa.
— Alô?
Silêncio.
— Alô? – Repetiu insistente, um pouco mais agressivo. Ouviu uma respiração ao fundo, como se quisesse se fazer ouvido. Suspirou revirando os olhos enquanto desligava, jogando o telefone no banco do carona e dando partida em seu carro.
O dia tava só começando.
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EITA!
Gente, capítulo novinho ai, espero que curtam!
E quero agradecer a senhorita abismo das cinzas que me mandou um combo LINDO de comentários! Sério, super me deu um boost pra que eu terminasse esse capítulo! Eu recebi os e-mails enquanto tava escrevendo e pude sentir real o carinho, vou responder todos com mais tempo, mas desde já, obrigada!
No mais, continuem todos comigo, tamo engatando a marcha 2 ainda XD
