BELLA POV

Emmett percebeu meu nervosismo e pediu para que Jasper pegasse alguma coisa na cozinha para eu beber.

Fiz uma careta ao beber a água com gás e açúcar que ele trouxe.

— Porra mano, pedi algo para beber, não Chernobyl líquido. – Emm reclamou.

— Me desculpe, mas ela está grávida, é melhor beber coisa saudável. – Jazz se justificou.

— Ela está grávida e não doente. Tenho que te ensinar tudo? – Emm se levantou, indo em direção à cozinha, voltando com um copo de Coca-Cola.

— Uau, como você é inteligente e saudável. – Jasper debochou.

Bebi um pouco do líquido, decidida a ignorar a discussão dos dois. Ao sentir o frio do refrigerante passar pela minha garganta acabei soltando um arroto.

— Dispensa o veterinário, a Mamãe Pig está viva. – Emm anunciou para ninguém.

— Para de chamar ela de porca, seu idiota. Ela está grávida. – Jasper criticou.

— Ela está grávida e não doente. – Emm decidiu retrucar.

— Doente ela seria por conviver com você. – Jasper respondeu.

— Dá para parar com essa briga infantil? – Eu perguntei, já irritada com tanto bate boca.

— Desculpa. – Eles responderam juntos.

Mesmo depois de ter bebido a Coca, eu ainda sentia minha garganta seca. E apesar de suas tentativas para manter naturalidade, os rapazes não conseguiam disfarçar sua curiosidade, o que me deixou mais tensa.

Respirei fundo e decidi contar tudo desde o começo, para tentar assim virar essa página em minha vida.

— Quando eu e Jacob nos casamos, ambos já tinham seus sonhos e no meu caso, um plano de vida formado. Ele não tinha ambições no ramo profissional por seu status de filho de pais ricos. Apesar de nunca ter passado dificuldade, eu sempre valorizei muito o dinheiro suado dos meus pais e eu tinha grandes sonhos, desde nova já havia uma ligação com a leitura. Como prova disso, vocês nunca me viram sem um livro em meu tempo livre, como Jazz disse uma vez, eu poderia facilmente ter sido uma traça de livros em outra vida. – Eu tentei inutilmente fazer uma piada, o que arrancou apenas risinhos fracos dos meus melhores amigos visivelmente preocupados.

— Nós três já tínhamos a editora quando tudo aconteceu, eu não sei se vocês se lembram, mas poucos dias antes do Dia do Trabalho, eu tive uma crise de sinusite. – Eu analisei seus rostos que concordaram comigo, lembrando da informação. — Eu sempre fui muito regrada com meu ciclo e com meus remédios, porém, a grande questão foi que enquanto eu tomava os antibióticos, os anticoncepcionais não serviram de nada para um meio contraceptivo, e eu e Jacob tivemos relações naquele feriado. Eu não sei ao certo quando percebi, ou quando eu pensei que estava grávida. Quando Jacob saiu a tarde para uma de suas reuniões com seus amiguinhos ricos, em uma comemoração adiantada de Halloween sem hora voltar, eu decidi ir até o hospital e descobri no fim daquela tarde que eu estava grávida.

Eu respirei fundo mais uma vez, tentando me preparar para reviver as piores lembranças de minha vida.

— Quando Jacob chegou de madrugada, eu decidi que não era a hora certa para contar. Eu era tão boba que achei que meu marido iria ficar feliz pela notícia, então decidi fazer algo mais elaborado. Na manhã seguinte, eu saí bem cedo de casa e comprei dois pares de sapatinhos, um para menina e um para menino. Cheguei em casa e agradeci aos Céus que Jacob estava dormindo, assim conseguiria fazer minha surpresa perfeitamente planejada.

Porém, nada saiu como planejado e tampouco perfeito. Ele pareceu realmente feliz com o café da manhã surpresa, mas toda sua felicidade sumiu ao ler o papel do exame relatando positivo e ao abrir a caixa com os sapatinhos. Eu pensei que era algo sobre o choque que ele levou, tentei ser compreensiva pois um bebê não estava em nosso planejamento. Mas Jacob foi incisivo em falar que não queria aquele bebê e que eu devia tirá-lo o quanto antes. Eu respeito as decisões que uma mulher toma com seu próprio corpo, mas eu queria aquele bebê e não iria permitir que meu marido o tirasse de mim. Desde aquele dia, Jacob não me tocou, ele dizia sentir nojo do que eu havia me tornado, de querer ter um bebê que foi fruto de um erro. Eu era tão cega que não conseguia perceber o quão mal ele me fazia. Eu ainda pensava que ao ver os exames, ele iria mudar de ideia, mas nada disso aconteceu. Em um sábado, eu acordei de madrugada com sangue escorrendo por minhas pernas, e uma cólica muito forte. Apesar do nervosismo, eu pensava que eu seria um daqueles casos em que a mãe menstrua mesmo grávida. Tentando manter a calma, mesmo assustada e sozinha eu peguei uma toalha, meus documentos e a chave do meu carro, sem me preocupar em trocar minha roupa, eu só rezava para que meu bebê estivesse bem. – Senti o braço de Emmett passar pelos meus ombros, me abraçando.

— Querida, se você não estiver pronta não precisa falar, tudo no seu tempo. – Jasper me tranquilizou enquanto apertava minhas mãos.

— Não, eu quero fazer isso. Eu preciso fazer isso. – Eu respondi decidida, limpando as novas lágrimas.

— Quando cheguei no hospital, todos me atenderam rapidamente, porém, após uma bateria de exames diferentes, a Drª Kate – que acompanhava minha recente gravidez e fazia meu pré-natal – chegou no quarto acompanhada de uma enfermeira que tentava mascarar seu olhar de pena. Eu já tinha desconfiança de que era uma notícia ruim, mas nada me preparou para quando ela anunciou que não havia batimentos cardíacos e nem sinal de vida em meu ventre, eu havia perdido meu bebê com pouco menos de três meses. Ali meu mundo acabou, foi como se abrissem um buraco e me jogassem dentro, sem apoio, sem chão, sem ninguém para me socorrer. Eu queria ligar para vocês, queria que vocês estivessem comigo naquele momento, mas eu senti vergonha. – Respirei fundo, tentando manter minha voz firme.

— Vergonha do meu corpo incapaz de gerar uma vida, vergonha do meu relacionamento fracassado, eu me sentia menos mulher, a assassina do próprio filho. Quando voltei para casa, passei o resto do dia deitada na cama, procurando onde eu errei, procurando algo para que pudesse me culpar. Pela noite, Jacob apareceu. Ele me viu chorando e veio perguntar preocupado o que tinha acontecido. Quando contei o que houve, ele nem ao menos tentou disfarçar, ele via tudo como um sinal. Ele disse que meu bebê não seria amado e que eu precisava superar isso. No mês em que tudo aconteceu eu liguei para vocês fingindo uma infecção urinária e uma viagem repentina enquanto eu melhorava, eu queria evitar todos os feriados de fim de ano. Era tudo mentira, eu ainda estava em Boston, vivendo como um zumbi desde que abandonei as idas à psicóloga, uma besteira, eu sei. Mas ficar tocando naquele assunto piorava tudo para mim, eu só queria dar um fim a tudo isso. Eu sei que foi uma decisão errada, mas era tudo tão recente que eu não quis me expor ou lembrar desse assunto. Eu queimei tudo que pudesse me lembrar daquilo. Os pares de sapatinhos, o papel com o exame, até mesmo a roupa que usei para descobrir a gravidez e a roupa que usei para descobrir o fim da mesma. Eu queria que tudo que desaparecesse. Eu queria muito filhos, não estava no meu planejamento, mas não planejamos essas coisas.

— Desde o aborto espontâneo eu deixei essa vontade sumir, junto com todas aquelas lembranças. Eu estava convicta que não havia mais nada que eu pudesse fazer e eu aceitei que não poderia ser uma boa mãe. Tudo mudou quando eu encontrei Jacob com aquela mulher em nossa cama. Eu senti raiva, não apenas por ser traída, mas porque deixei de ser quem eu era, eu me tornei uma mulher fria e sem vontades. Me afastei de duas das pessoas que mais amo no mundo, tentei inutilmente esquecer meu próprio filho enquanto focava no trabalho afim de evitar voltar para aquele apartamento e reviver tudo.

— Quando encontrei Tanya e fiquei cuidando de Zach, foi como se de repente, aquela escuridão dentro de mim, a dor e a infelicidade dessem lugar à esperança, o amor e a vontade de realizar um sonho que foi tirado de mim de forma tão brutal. Naquele dia eu já tinha uma decisão, mas ponderei sobre o assunto, por puro medo. Mas eu já sabia, eu ia fazer aquilo, mais cedo ou mais tarde. Foi quando decidi fazer a fertilização in vitro. Eu não queria contar para vocês até que tivesse certeza, não queria que vocês se decepcionassem, se tudo desse errado, seria apenas eu. Eu não quero substituir nada e sei que nunca vou esquecer, eu tentei por quase três anos superar isso, mas não há nada no mundo que possa fazer parar de doer. Eu apenas vivo com essa dor, eu aprendi a conviver com ela. Mas eu também não vou desistir de viver. – Enquanto eu falava coloquei minhas mãos em minha barriga, tentando de alguma forma proteger a pequena coisinha que crescia ali.

— Você é a pessoa mais forte, amorosa e corajosa que eu conheci, não pense que você é menos mulher por tudo que aconteceu, não foi sua culpa, tenha certeza disso. Não há bebê mais sortudo no mundo do que esse que você está carregando aí dentro. Você já é uma mãe maravilhosa, não duvide disso. – Jasper respondeu enquanto me puxava para um abraço.

— Fodidamente que sim. Não há ninguém mais amado no mundo do que você aí dentro. – Emm agora conversava com minha barriga, se juntando para abraçar eu e Jasper.

— Agora você vai deitar aí, vai descansar enquanto eu e o gigante aqui vamos arrumar a sala e tomar um banho. – Jazz falou enquanto se levantava.

— Gente, eu não estou doente, eu posso ajudar. – Eu tentei argumentar.

— Nem mais uma palavra, Isabella. Aceite os mimos, iremos arrumar tudo, tomar um bom banho e depois vamos dormir todos juntos. E amanhã vamos fazer o teste de exame de sangue, apenas para confirmações... – Emm me cortou.

Apesar de odiar os roncos de Emmett e as conversas noturnas de Jasper, eu estava feliz por desfrutar daquele momento com meus melhores amigos. Naquele momento, eu percebi o quão burra eu fui de não contar nada, Emm e Jazz sempre iriam me apoiar, não havia dúvidas nisso.

Na manhã seguinte acordei sozinha em minha cama e de longe consegui ouvir o barulho dos meninos e músicas dos anos 80 na cozinha.

Fiz minha higiene matinal e fui em direção ao som de "Eye of the Tiger", me arrependendo rapidamente de não ter um celular em mãos para gravar aquilo.

Emmett e Jasper faziam uma coreografia bizarra, e os dois tinham panos de pratos, com o intuito de representar uma bandana em suas cabeças, aparentemente os dois confundiram a música do Rocky Balboa com o personagem Rambo. Sylvester Stallone sempre muito versátil.

— Minha cozinha virou um ringue? Vamos alimentar um batalhão de lutadores? – Eu perguntei me referindo a música e ao tanto de comida na mesa.

— Quase isso, para ambas as perguntas. – Jazz respondeu, tirando o pano de prato da testa.

— Temos que alimentar o bebê, para ele crescer e ficar grande. – Emm respondeu de forma ensaiada.

— De onde você tirou essa frase? E não vale mentir. – Eu avisei enquanto me sentava e me servia com panquecas e suco de laranja.

— Masha e o Urso, eu sou um tio antenado em conteúdos infantis.

— Sempre muito ansioso, temos alguns meses para isso. – Jazz avisou enquanto tomava uma xícara de café.

— De qualquer forma, antes de irmos ao hospital, Jazzy e eu precisamos dar uma passadinha em um lugar antes. – Emm avisou e eu percebi um olhar diferente entre os dois, porém decidi ficar quieta, por enquanto.

Depois de tomar um banho e terminar de me arrumar, encontrei Emmett e Jasper cochichando no balcão da cozinha, mas o que tornou tudo mais estranho foi quando eles tentaram disfarçar, iniciando outro assunto, como se fosse algo que eu não pudesse saber.

Tentando controlar minha curiosidade, fiquei quieta. Se eles sentissem necessidade, com certeza iriam me contar.

Jasper insistiu para que fossemos em seu carro e eu nem me propus a discordar, eu amava o meu carro e amava dirigir, mas hoje eu simplesmente não estava no clima.

Entediada com a conversa dos meninos sobre algum filme novo nos cinemas, adormeci.

— Bella, acorda, já chegamos. – Senti os braços de Emmett balançando meu ombro.

— Eu não acredito que você dormiu tão rápido. Eu não sei se isso é mais um sintoma da gravidez ou se é só você e sua preguiça de sábado. – Jazz respondeu enquanto fechava a porta do carro.

Ignorando seu comentário, olhei em volta, reconhecendo o prédio onde eu costumava morar.

— Gente, não. Por favor, meu bebê precisará de tios, vocês não podem ser presos por dar uma surra em um merda como Jacob. Já faz tanto tempo, só esqueçam isso. – Eu tentei inutilmente impedi-los.

— Ele precisa de uma lição e nós já queremos fazer isso desde o primeiro dia em que ele apareceu. – Emm respondeu enquanto aberta o botão do elevador.

Felizmente ou não, o porteiro nos deixou passar sem interfonar antes.

— Você nos deve isso. Eu quero dar um soco na cara desse otário desde sempre, agora tenho ótimos motivos para isso. – Jazz respondeu animado com a possibilidade.

— Só não exagerem, por favor. Vocês são importantes para mim, eu não iria me perdoar se isso afetasse vocês de alguma maneira. – Eu disse desistindo de argumentar, quando eles tinham uma ideia em mente, meu voto era minoria.

Eles apenas assentiram e Emmett bateu na porta. Poucos segundos depois Jacob apareceu vestindo sua roupa de academia, ele estava indo fundo em seu personagem zen.

— Bella, querida! Eu sabia que você ia voltar, era só questão de tempo para que seus chakras se alinhassem, mas você podia pelo menos ter me avisado, não é mesmo? Eu estou tendo uma aula de yoga em casa, mas você pode ficar ali na sala com seus... amigos? – Ele perguntou enquanto tentava me puxar para um abraço, o que Emmett prontamente impediu.

— Acredite em mim, ela está com tudo perfeitamente alinhado, eu e Jasper que precisamos alinhar algumas coisinhas com você. – Emm respondeu sério, enquanto Jacob o encarava confuso.

Então Jasper o empurrou para dentro do apartamento, com Emmett em seu encalço, que prontamente fechou a porta sem me dar a chance de entrar.

Torci meus dedos de nervosismo, ponderando se eu tentava mais uma vez impedir o inevitável, mas eu conhecia os meninos muito bem. Eles não eram pessoas ruins, porém, eu estava receosa que os últimos acontecimentos tenham mudado suas perspectivas sobre tudo.

Enquanto estava aflita no corredor, ponderando se entrava ou não, ouvi o barulho de algo chocando contra a parede, foi o momento que eu decidi entrar para descobrir o que estava acontecendo.

Olhei rapidamente o apartamento extremamente desarrumado e encontrei Jacob encostado na parede, com o lábio cortado e o nariz sangrando.

— Vocês não podem fazer isso, eu vou ligar para a polícia! – Ele gritou, arrancando risadas dos rapazes.

— Ligue para a polícia e eu ficarei feliz em deixá-los cientes sobre as atividades ilícitas que acontecem em suas festas de negócios. – Jasper o ameaçou, enquanto jogava um pano em sua direção. — Limpe isso, quer deixar a casa mais imunda que você? – Ele perguntou sem esperar por resposta.

— Que festinhas eram essas? – Eu indaguei curiosa quando já estávamos de volta ao elevador.

— Sei lá, eu joguei verde e aparentemente colhi maduro. – Jazz deu de ombros.

— Colheu muito maduro meu amigo. Viu a cara dele de assustado? Eu queria que Bella tivesse gravado isso para virar um meme. – Emm respondeu em meio a sua risada estrondosa.

— Pois é, não tem vibe zen que aguente tudo isso. – Eu ri em resposta.

— Tudo por você, pequena traça. – Jasper respondeu com meu antigo apelido.

Já no carro de Jazz, eu me senti completa novamente, feliz. Eles eram meus melhores amigos, meus irmãos, não havia motivos para segredos entre nós, afinal.