Escarlate: roupas de segunda mão
Capítulo 7
Trouxa
Draco sabia que aquilo acabaria mal desde que pisara na casa de sua vizinha.
O plano sempre foi se embriagar sozinho - ele era bom naquilo. Havia conseguido fugir, depois de anos tentando, da lendária festa de Zabini, e não queria nada além de terminar com o vinho daquela garrafa enquanto gastava seu tempo na frente da TV. Tinha que admitir que os trouxas inventavam ótimas formas de passar o tempo, e que uma boa parte dos filmes que via beirava o aceitável. Que seu pai não descobrisse aquilo, ou Lúcio nunca pararia de encher seu saco.
Então por que aceitar ser comprado por um pote de sorvete? Era óbvio que aquilo acabaria mal. Já estava ruim o suficiente ele ter que dormir com a Weasley na cabeça - apenas - diariamente. Se fechar entre quatro paredes com a maldita que queria ver nua e uma garrafa de vinho jamais seria uma ideia para ser considerada - e ali estava ele, executando o inexecutável.
E tudo ia bem, até a ruiva pegar no sono. Quando que os dois haviam ficado tão próximos naquele sofá para ela dormir e encostar a cabeça em seu ombro? Quando que ele consideraria pegar no sono com qualquer uma totalmente vestido? Que merda ele estava fazendo ali? Deveria levantar e ir embora, simplesmente. A bruxa tinha tomado vinho suficiente para não acordar nem mesmo se batesse a cabeça. O que o fez encostar-se nela e ficar?
A companhia havia sido agradável, sim. Agradável a ponto dele responder perguntas que nem mesmo Astoria algum dia considerou fazer. Foi por isso que ele sentiu-se seguro a ponto de deixar-se pegar no sono ali naquela situação? Por isso que ao acordar tão perto dela, queria beijar cada uma das sardas que haviam naquele rosto?
Por isso que doeu tanto ser posto para fora do jeito que fora? Fechando a porta de seu apartamento, estava a ponto de rir de frustração ao lembrar-se de como a ruiva o havia mandado sair. Queria fazer o moreno - que ouvia gritar graças as paredes finas - ver como havia sido posto para dentro horas atrás.
Realmente queria sua varinha agora, para ao menos colocar um feitiço silenciador no apartamento da bruxa e parar de escutar uma briga que não ajudava em nada seu humor.
O relógio na parede marcava duas da manhã, e as festas de Blaise Zabini e Pansy Parkinson Zabini atingiam seu pico as três. Jogou água no rosto, arrumou o cabelo e pegou uma jaqueta de couro falso, decidindo que sua fantasia daquele ano seria a melhor de todas: trouxa.
Acordou com uma loira que definitivamente não lembrava nem mesmo de ter conversado na madrugada anterior. Irritante como ainda seu primeiro pensamento passava longe da cor dos fios longos que contrastavam com o lençol cinza - ao menos aquela não era sua cama.
Na verdade, queria que fosse. Queria que a vizinha escutasse tudo que ele nem ao menos lembrava da noite anterior. Quando levantou e viu que vestia ainda todas as roupas de baixo, já não desejava mais tanto que a farra tivesse acabado na sua casa.
A bruxa - seja lá quem ela fosse - não fez questão de abrir os olhos quando Draco disse que estava indo, e maldita seja a Weasley. Maldita seja essa ruiva e o feitiço que jogara nele.
Pegou um táxi - por todos os deuses, um táxi, que trouxa - e ignorou o estômago roncando, fazendo questão de um almoço que já passara demais da hora. Duas e meia da tarde e tudo que ele queria era tomar banho, mas fez uma nota mental para não esquecer de comprar uma pizza congelada na loja de conveniência que sempre estava aberta aos domingos.
Quarenta minutos de viagem depois, ele esqueceu a pizza, e só lembrou quando já estava na frente da porta de seu apartamento. Já esquecera sábado, e aquilo lhe rendera a noite mais frustrante de sua vida. Ele não deveria ter esquecido da merda da pizza outra vez.
"Draco, eu-" Respirou fundo.
Esquecer pizzas só lhe rendiam frustrações.
"Você tem que decidir como quer me chamar, Weasley." Finalmente achou a chave. O quanto ela merecia ter uma porta batida na cara?
"Eu não deveria ter te tratado como tratei ontem." Precisava dar um jeito naquilo, e precisava agora. Draco Malfoy não era uma pessoa que se envolvia, ponto. Ele não havia feito aquilo com Astoria - a única bruxa que realmente merecia sua atenção -, não seria com a Weasley parada na sua frente com uma expressão arrependida que faria. "Eu nunca deveria ter dito aquilo-"
"Bem, você é minha chefe, e eu não tenho melhor opção de superior por pelo menos mais uns o que, nove meses?" Mas por que estava sendo tão difícil manda-la embora? Não era como se ele fosse um bruxo que evitasse conflitos.
"Draco, não precisa ser as-"
"Não precisamos deixar essa situação ainda mais desconfortável, Ginevra." Porque já estava desconfortável o suficiente. Dormir era desconfortável, falar com ela era desconfortável, existir do lado dessa filha da mãe era desconfortável. "Talvez você não aceite sugestões de empregados, mas acho que o melhor para nós seria dividirmos turnos. Assim eu não te incomodo, e você pode seguir fingindo que eu não existo fora daqui. Como ontem à noite." Ele nunca viu o quanto os olhos castanhos perderam a luz com aquelas palavras, a maçaneta muito mais interessante. "Não se preocupe, eu definitivamente não vou te roubar." Abriu a porta, e se controlou para não voltar atrás quando uma mão segurou seu braço.
"É isso que você quer?" Ele sacudiu o braço esquerdo, livrando-se da mão pequena.
"É isso que eu quero."
Teria voltando atrás se tivesse se virado.
"Pode ficar com as manhãs."
A amizade entre Draco Malfoy e Blaise Zabini não havia sido automática. Os Zabini não faziam parte do círculo. Apesar de nenhum dos comensais ser suficientemente corajoso para mexer com a senhora apelidada de viúva negra, eles não faziam questão de incluí-los no meio de nenhum dos eventos sociais.
Não que Blaise algum dia reclamou daquilo: ele era é agradecido por não precisar atender a ainda mais eventos. Mas aquele distanciamento o fazia achar o que quase todos fora daquele seleto grupo tinham certeza: Malfoy Júnior era um cuzão. A última coisa que queria era socializar com mais um cuzão.
Foi numa noite do sétimo ano que ele descobriu que não, Draco não era como seus outros amiguinhos servos do Lord das Trevas. E desde aquela noite, o bruxo pálido e cheio de olheiras sentia-se confortável o suficiente para dividir o que passava e pedir conselhos. Engraçado que, apesar de sempre estar rodeado por bruxos e bruxas, aquela era a primeira vez que Blaise considerava alguém um amigo de verdade.
"Pelo que vi no sábado, você não está mais com Astoria." O moreno observou, sentando-se no balão velho de madeira.
"Eu nunca estive com Astoria-"
"E pelo que eu estou vendo, você também não está com a Weasley." Continuou, após passar os olhos rapidamente pelo brechó. "Ou ela está doente outra vez?"
"Eu te contei sábado o que aconteceu."
"Você estava tão bêbado que eu tive minhas dúvidas sobre a veracidade das informações que saíam da tua boca."
Naquela noite, há tantos anos atrás, um grupo de sonserinos tinha se reunido para dar uma surra em todos os bruxos sangue-puro que haviam traído a causa. Blaise sabia que em Hogwarts havia apenas uma bruxa que se encaixava na descrição, assim como sabia que os sonserinos não se limitariam a uma simples surra. Foi ali que ele viu o quanto o futuro melhor amigo se tornara poderoso após um verão.
"Quando que você vai finalmente parar de se culpar?" Olhou sério nos olhos claros. "Todos nós cometemos erros, Draco."
"E todos nós pagamos um preço. E se nem com todo o dinheiro que tenho eu consegui escapar desse preço, o meu erro deve ter sido realmente grande." Mas Draco não conseguia segurar o olhar por muito tempo. Observou com pesar as órbitas cinzas desviarem para o chão, o loiro fingindo contar algumas notas trouxas. "Todas as coisas que fiz, todas as coisas das quais eu não me orgulho mais. Eu não posso fingir que não fiz."
O bruxo não estava assim antes de começar a trabalhar naquele maldito brechó.
"Draco, a dor sempre existe, porque a vida dói para caramba." E Blaise sabia exatamente o que estava acontecendo. "Mas você precisa aprender que sofrer é uma escolha."
Ele só não fazia ideia de como consertar isso.
"Eu realmente não quero conversar hoje, Zabini."
Mas Pansy Parkinson sabia - e era por isso que Zabini casara justo com aquela bruxa. A sonserina era tão boa com palavras quanto ele, o que lhe rendia longos e árduos argumentos dos quais nunca saía vencedor. E aquilo só aumentava todo o orgulho que sentia ao ter uma bruxa tão maravilhosa ao seu lado.
Com um copo de papel na mão e um pouco mais esperançoso, Blaise entrou no brechó na tarde seguinte, pela primeira vez grato pelo acordo que havia sido feito entre seu amigo e sua chefe.
Ginevra parecia lembrar bem o problema que o moreno havia causado da última vez, visto a carranca que colocou na cara ao ver quem abria a porta.
"Malfoy já foi." A ruiva voltou a atenção para o livro que lia - então era dela que Draco havia pego a mania de leitura.
"Boa tarde pra você também, Escarlate." Disse ao colocar o copo quente em frente à bruxa. "Café?"
"Está envenenado?" Gargalharia se não precisasse evitar ser expulso dali antes de qualquer conversa. "Que cara é essa?"
"Você é mais parecida com ele do que eu poderia imaginar." A ruiva revirou os olhos com a resposta, colocando o livro ao lado do copo de café e bufando antes de começar a falar.
"Se você está aqui para discutir sobre-"
"Meu melhor amigo, que você expulsou de sua casa como se fosse um cão imundo?" A resposta veio automática, Blaise forçando-se a se lembrar da conversa com sua esposa.
Fale com calma. Apele para o lado emocional dela. Você está lidando com uma Weasley, afinal.
"A sinceridade é impiedosa." Encostou-se no mesmo balcão em que sentara no dia anterior.
"Draco é bem crescido para se defender sozinho, Zabini."
"As pessoas não deveriam ter que se defender sozinhas. E eu não vim defender meu amigo." Viu Ginevra aceitar conversar quando esta tomou um gole do café. Aquilo tinha sido mais fácil do que imaginava. "Me fale, Malfoy parece bem pra você?" Ou talvez ele estivesse falando cedo demais.
"Como é que eu vou saber?" A voz mudara de indiferente para irritada em segundos.
"Ginevra, você já fez algo de que não se orgulha? Já colou numa prova, ou pegou uma bala a mais e não pagou, ou seja lá o que grifinórios fazem de ruim? E aquilo simplesmente fica, e fica, e fica na sua cabeça, e todo dia você pensa: e se eu tivesse feito diferente? E se eu não tivesse tirado uma nota melhor e me sentido a foda, e tivesse estudado mais com minha amiga deprimida que precisava de companhia? E se eu tivesse pago a bala, ao invés de lamentar o fechamento da minha loja favorita?" Suspirou quando não viu o par de olhos castanhos nem ao menos suavizar. "Sabe por que você não tem uma caveira no seu braço esquerdo?"
"Porque minha família não é racista?" Daria tudo para ver Pansy discutindo com essa grifinória - mas ao menos ela havia respondido o que ele precisava ouvir.
"Isso mesmo." Os olhos castanhos finalmente mostraram algo: surpresa. É, não era todo dia que um sonserino admitia que uma família sangue puro era racista - mas então, Blaise não era como a maioria dos sonserinos. "Pense se tivesse sido criada para odiar gatos pretos. Eles dão azar. Sua mãe diz que é má sorte cruzar com um. Seu pai diz que o mundo seria melhor sem eles. Todos ao seu redor, sem exceção, detestam os pobres bichanos. Você vai olhar com bons olhos quando um gato preto aparecer na sua frente, ou vai expulsar a criatura do seu caminho?"
Pela primeira vez, não houve resposta. Deuses, ele amava Pansy, suas maravilhosas ideias e todo seu poder de persuasão. Só não deixara a própria bruxa vir falar com Ginevra pois conhecia muito bem seu temperamento.
Realmente queria ver uma discussão - amigável - entre as duas, algum dia.
"Draco nunca precisou chutar um gato preto antes de ter uma caveira no antebraço. E quando precisou, ele descobriu que o gato não era tão diferente das outras criaturas. Ele nem mesmo sabia explicar porque odiava gatos."
Houve um silêncio, e apesar das palavras que vieram, a bruxa parecia um pouco mais compreensiva.
"Eu conseguia pensar por mim mesma quando tinha dezesseis anos."
"Ele também conseguia." Blaise respondeu, revelando algo que Draco contara somente para ele. "Por isso que ele praticamente deu a varinha para o seu namoradinho na Mansão." Sabia que seu amigo poderia ter acabado com Potter se quisesse. E naquele momento, Ginevra parecia tomar conhecimento daquilo pela talvez primeira vez. "Sabe, nada machuca mais do que a vida. Se você cai, outra e outra vez, em cima do mesmo lugar, a pele ao redor vai ficando cada vez mais dura. Você cria uma couraça pra tentar se proteger. Mas a ferida ainda está ali, doendo."
E Blaise tinha medo que uma hora, Draco não conseguiria sentir nada além da dor na ferida. Ainda mais porque o filho da mãe estava realmente sentindo alguma coisa depois de anos e anos reprimindo seus sentimentos. O sonserino havia deixado aquela casca suavizar.
E havia caído outra vez.
"Blaise, eu sou a última pessoa que pode ajudar-"
"Então por que foi com você que eu o vi rindo pela primeira vez em anos?" Retrucou, perdendo um pouco de sua eterna paciência. "O que você fez com ele, Ginevra? Me ensina, e eu te deixo em paz. Me ensina a fazer esse filho da mãe se abrir, e eu dou um jeito de tirar ele daqui."
Mas a Weasley parecia saber tanto quanto Zabini.
"Talvez ele só precise de um tempo-"
"O tempo não muda tudo." E sabia que com Draco, o tempo só fazia piorar. "O tempo só vai deixar a couraça mais dura, e vai ter uma hora que nem eu mais vou conseguir entrar. Fazer alguma coisa é que muda."
"Zabini-"
"Você gosta dos seus irmãos, certo?" Não poderia falar exatamente o que queria, mas precisava tentar aquela última coisa antes de ir embora. Continuou quando a viu acenar sim com a cabeça. "Ele é como um irmão pra mim." Desencostou-se do balcão, já preparado para aparatar. "Há muito tempo atrás ele te ajudou - por mais que você não saiba. Por favor, retribua."
Pop.
O mês de novembro passou tortuosamente devagar. Suas manhãs eram tão longas que por um momento considerou pedir para trocar pelos turnos vespertinos - mas então, ele precisaria manter uma conversa mais longa do que o habitual boa tarde. O celular que antes vivia no bolso, agora descansava morto no criado mudo de seu quarto. Não era como se precisasse contatar alguém por aquele meio além de sua chefe - que ele não queria mais contato do que o necessário.
Mas Draco não imaginava que, graças à isso, seu contato estava prestes a se tornar muito mais do que uma troca de frases.
"Hoje é dia de Ações de Graças." Lendo um livro, completamente despreparado para escutar a voz da bruxa, a primeira coisa que Draco fez ao ouvi-la foi levantar a cabeça e dar de cara com Ginevra muito mais arrumada do que o normal. "Você não precisava ter aberto. Não recebeu minha mensagem?"
Era ridículo aquilo. Zabini passara o mês atrás de qualquer feitiço. Qualquer poção, qualquer azaração, qualquer traço de item amaldiçoado: nada. E ainda assim, era ela que aparecia na frente de seus olhos quando tentava beijar qualquer outra bruxa. Ginevra, com seus cabelos bagunçados, as unhas curtas e os dedos comidos, as roupas que nunca combinavam. Até com aquele suéter laranja ferrugem e jeans ela ficava linda para seus olhos.
E se ele simplesmente a agarrasse e beijasse aquela maldita até qualquer vontade de ficar próximo fosse embora? Draco sempre teve uma queda pelo que não podia ter. Aquela era a explicação que sobrara.
"Nós não comemoramos esse feriado." Respondeu depois do que pareceu uma eternidade, voltando os olhos para o fim da página que lia. Não que ele pudesse fazer aquilo: a bruxa provavelmente colocaria uma ordem de restrição nele, e então sua única opção seria cumprir o resto de sua pena na prisão.
"Por que?" Revirou os olhos: como ela conseguia ser tão insistente?
"Porque não somos americanos, e não vemos motivos para agradecer."
Quando o livro foi tirado de suas mãos, precisou admitir: a bruxa tinha uma coragem irritantemente Grifinória.
"Você vê?"
Olhou fundo nos olhos castanhos antes de responder.
"Ultimamente não. Pode devolver meu livro, chefe?"
Ginevra ignorando seu pedido o fez querer arrancar o livro das mãos sardentas. O que ela queria ali? Que merda ela queria dele? Aquilo era parte de sua pena?
Gelou com aquele pensamento.
Fazia sentido. Aquilo poderia muito bem ser parte de sua pena. Um feitiço tão bem feito que nem deixara traço para Blaise rastrear. Uma merda de azaração que o fazia só ter olhos para essa maldita, uma coisa completamente unilateral, como ela fez questão de demonstrar na noite de Halloween.
Fazia muito mais sentido aquela ser sua única opção de trabalho comunitário. Se perguntou se enfim havia descoberto, e caso tivesse acertado, se Ginevra sabia. Ele havia sido filho da puta o suficiente com toda a família de ruivos para ela concordar com aquilo. Não se surpreenderia caso viesse a descobrir suas suspeitas serem verdadeiras.
Merda. Se fosse verdade, preferia ter escolhido Azkabam.
Mas aqueles olhos pareciam tanto querer alguma resposta que não a frieza dos dele, que estava realmente difícil manter-se gelado.
Ela sabia o quanto era expressiva?
"Eu abri esse brechó faz um ano." O livro foi enfim retornado, mas Draco o deixou sobre o balcão. "Eu não sabia se eu realmente gostava de Quadribol, ou se eu só gostava por causa dos meus irmãos. Ou por causa dele. No meu primeiro jogo, um batedor do time adversário me provocou dizendo que eu só estava onde estava por causa do meu relacionamento. Eu derrubei ele da vassoura sem querer e o bruxo foi parar no hospital. Mas depois daquilo-" Um sorriso triste, e o aperto que sentira há semanas atrás voltava para seu peito. "Eu eu tinha um amigo que costumava me falar para eu nunca ficar na sombra de ninguém, nunca depender de ninguém. Então, eu desisti do Quadribol, abri a primeira coisa rentável que me veio à cabeça, e aluguei o apartamento do outro lado da rua assim que consegui dinheiro suficiente."
Draco sabia exatamente o peso que havia em um sobrenome.
"Eu trabalhei e trabalho duro aqui. E tudo é mérito meu. Ninguém conhece Ginevra Weasley no mundo trouxa, afinal." E ali estava Ginevra, respondendo a pergunta que ele havia feito naquela noite de sábado. "E eu sei que você não pediu para ouvir essa história, e não, eu não estou esperando você retribuir e me contar a sua-"
E ele precisava sair dali, pois estava prestes a falar qualquer coisa que a bruxa quisesse saber. Definitivamente, estava sob o efeito de algo.
"Se eu não preciso ficar aqui, prefiro ficar no meu apartamento com uma garrafa de whisky." Agarrou suas chaves, levantando da cadeira e passando pela ruiva, quando esta segurou seu braço como fizera no começo do mês.
"Eu sinto muito. Eu não deveria ter te tratado daquele jeito na noite em que-"
"Agora você quer consertar as coisas?" Se livrou do toque do mesmo jeito que fizera naquela tarde de domingo. "Não dá pra consertar tudo, Weasley, confie em mim. E tentar só vai te frustrar."
"Fiquei sabendo que colocaram a fuinha pra trabalhar com você." Jorge fora a primeira pessoa naquela casa a tocar no assunto Malfoy.
Engraçado como ninguém falara quase nada desde que acontecera. Sua mãe fizera uma ou duas perguntas, e seu pai dissera que se o bruxo se comportasse mal era somente avisa-lo que alguém daria um jeito.
"Pois é." Respondeu tentando não demonstrar a menor empolgação com tal enquanto colocava mais um prato limpo sobre a bancada da pia.
Mas seu irmão não parecia querer parar com o assunto tão rapidamente quando Ginevra desejava.
"Ele está se comportando?"
"Até demais."
"Escutei o contrário."
E ali estava o motivo.
"Não aconteceu nada, J." Ginevra afirmou, pensando no que Harry havia falado para todos estarem mudos quanto ao assunto. Sem perguntar sobre Malfoy, e sem tocar no nome de Harry Potter - isso que praticamente toda a família estava sentada junta naquela pequena mesa.
"Harry pegou vocês dois no sofá." Ela não queria nem saber, ao menos por enquanto, o que seu ex-namorado havia falado para seus irmãos.
"E ainda assim, não aconteceu nada. Eu que fui uma cuzona com ele. Incrível, né?"
"Eu não sei se estou mais surpresa com você ter sido uma cuzona ou falado cuzona." Maldita mania que a bruxa estava pegando. "Eu nunca acreditei quando Harry chegou aqui falando que você e o Malfoy estavam se pegando. Você não faria isso agora." Tentou não corar com a afirmação do irmão: ah, ela faria sim. Estava inclusive bem próxima de fazer, e era daí que vinham as afirmações do moreno de óculos. "O que aconteceu?"
"Eu coloquei Malfoy pra fora de casa como um cachorro, e ele foi a única pessoa que quis passar o Halloween comigo. Foi feio." E quando parava para pensar nisso, desejava não o ter feito. Ela realmente estava sentindo falta da companhia do loiro.
"Ouvi dizer que Malfoy havia se transformado em outra pessoa depois da guerra. Até estava saindo com uma Greengrass, pelo que fiquei sabendo." Estava, pensou com um certo contentamento. "Os Greengrass são mais parecidos com a gente do que com Malfoys, as garotas até mesmo saíram com trouxas quando eram mais novas. Chocante, não? Malfoy sair com esse tipo de gente. Malfoy pai deve ter surtado ao descobrir."
E ainda, aquele sobrenome era de uma família muito mais próxima da realidade de Malfoy do que a dela. Colocou mais um prato limpo sobre a pilha de pratos que estava acumulando na bancada, não conseguindo conter um suspiro.
Havia sido um mês tão frustrante o de Novembro, que tinha decidido não querer o mesmo para seu mês favorito do ano. Dezembro seria bom, dezembro seria repleto de biscoitos de gengibre, chocolates quente e um empregado muito mais falante.
"G, você tá bem?" A ruiva deu os ombros.
"Por causa de-" E como na noite que começara toda a sua confusão, quase trocou o nome que iria falar. "Harry?"
"Não, por causa do aquecimento global." Sacudiu a cabeça, forçando os lábios a esboçarem um sorriso. "Meu Merlin, sete anos e eu ainda não consigo fazer piadas que prestem - e não venha me falar que elas estão menos engraçadas porque são mais requintadas."
"Eu estou bem, J. Vocês deveriam tê-lo convidado para vir hoje."
"Mamãe convidou, mas o trio de ouro foi passar com a família de Hermione, como você pode ver. E achei que seria melhor conversarmos sobre a gravidez de Fleur do que sobre você se pegando no sofá com Malfoy."
"Jorge, eu-"
"Ele sente sua falta, fiquei sabendo." E por um momento, Ginevra se perguntou como Jorge poderia saber o que Draco sentia. "Harry, G. Eu estou falando de Harry."
"Eu sei."
"Não parece. Mas talvez seja melhor assim. Às vezes o que começa numa guerra não é feito pra durar."
Foi ao terminar de secar a última peça de louça que Ginevra falou novamente.
"Você realmente acha que ele está mudado?" Foi a vez de Jorge sacudir a cabeça, seus olhos castanhos mostrando um lampejo de surpresa.
"Acho que você pode responder isso melhor que eu, irmãzinha."
E somente quando se abraçaram antes de partir que ele voltou a tocar no nome do bruxo de cabelos claros.
"Me fale se Malfoy lhe causar problemas, ok? Sempre tenho uma solução para uma boca grande demais."
Antes mesmo de aparatar de volta para seu apartamento teve a certeza do que faria. Como imaginou, não foi recebida com a melhor das caras pelo seu vizinho, que por mais que demonstrasse certa surpresa, continuava vestindo a mesma carranca.
Nenhum dos dois falou nada por um minuto inteiro, até que Draco a fez ter uma ponta de esperança que sim, aquela tentativa de fazer as pazes poderia dar certo.
"Eu posso até estar sentindo sua falta, mas vai tomar no seu cu." E o bruxo tentou fechar a porta. Bem, ao menos ele parou a tempo de não esmagar a mão que ela pusera entre a porta e o batente. "Tira a mão, chefe."
E Ginevra obedeceu, mas não antes de empurrar um pote cheio das sobras do almoço para ele. Não havia comida melhor do que de sua mãe para animar alguém, afinal.
"O que é isso? Você finalmente vai tentar me envenenar?" Não conseguiu evitar de revirar os olhos.
"Já acabou?"
"Não."
E a porta foi, enfim, batida em sua cara.
Ok, ela merecia aquilo. Sem desculpas, e sem suas sobras de Ações de Graça, era o merecido por ela ter agido como agiu naquela noite.
Estava a ponto de desistir e afogar as mágoas num pote de sorvete quando a porta de seu vizinho voltou a abrir.
"Agora eu acabei."
Draco estava sorrindo. Não, ele estava mais que sorrindo, ele estava prendendo o riso. Colocou a mão na frente da boca, se perguntando o quão ruim seria rir agora: ele ficaria mais irritado? Acharia que estava rindo dele, e não daquela situação ridícula? Mas quando o viu começar a gargalhar, por mais que estivesse tentando se controlar, não conseguiu não cair na risada junto com o bruxo.
Os dois se encostavam na porta quando enfim conseguiram recuperar o fôlego.
"Ok, essa foi uma das melhores brigas da minha vida." Ginevra disse, enxugando uma lágrima. Fazia quanto tempo já que rira até chorar daquele jeito?
"Você anda precisando brigar mais, Escarlate." Draco cruzou os braços, em uma falha tentativa de voltar a fechar a cara. O sorriso voltou assim que a bruxa tocou seu braço.
"Eu já falei que sinto muito?"
"Já."
"Eu vou falar até você me desculpar."
"E parece que vai ficar aqui até eu te desculpar também, estou certo?" O viu revirar os olhos, mas o sorriso falava que ele não estava em nada irritado como queria demonstrar.
"Você sente minha falta!" Provocou.
"Sempre soube que ser simpático me traria problemas. Zabini estava tão errado quando me disse para praticar toda essa merda de simpatia. Vai, entra logo. Eu não vou comer tudo isso sozinho." Draco convidou, escancarando a porta e apontando para o pote de comida que descansava na mesa de centro. "E que fique claro que eu tenho o direito de ser um total cuzão com você - e você vai ter que me perdoar."
Ginevra acenou que sim, dando um passo para dentro.
"Trouxa."
"Nunca fui tanto um te deixando entrar desse jeito, Escarlate."
E Draco fechou a porta.
Nota da autora (que está bem feliz): Posso falar que fiquei mal acostumada com vcs me deixando um monte de reviews? Juro que vou continuar tentando fazer um por semana - por mais coisas que eu tenha pra terminar, e são muitas!
Espero que tenham gostado tanto do capítulo quanto eu gostei de escrever! Aos poucos vou respondendo as dúvidas e aprofundando mais o que tem acontecido na vida dos dois.
Beijo, e até o próximo - que será em breve!
