Maioria das pessoas que ficaram para trás mesclavam-se entre espíritos desesperados e em espíritos que esperavam pelo pior. De longe era possível acompanhar um show de horrores sem direito a fechar os olhos, pois os ouvidos ainda iriam captar os clamores de desespero vindo de uma aglomeração que começava a se formar na proa, uma tentativa frustrante de salvar a própria vida. A falta de informação combinada a desesperança colaborou para o espetáculo que pela manhã se tornaria um pesadelo, posteriormente um trauma, e muito tempo depois, um resquício que poderia causar admiração ou temor, tragédias costumavam causar compaixão, uma grande explosão de palavras bonitas, cabeças baixas, minutos de silêncio e a vontade de mudar algo, que geralmente permanece o mesmo.
Enquanto o amanhã – se é que ele existiria – não chegava, a solução era ainda tentar fazer alguma coisa ou simplesmente esperar a morte de braços cruzados. Moody e Marina sentiam como se facas entrassem em seu corpo de tão gelada que a água estava, e os coletes que pareciam seguros causaram feridas quando entraram em contato com o mar congelado, eram feito de lona e cortiça dura, que estava se mostrando um perigo para os passageiros e o a jovenzinha estava incluída na lista. Marina Claire Potter podia saber tudo, ser educada e saber se vestir como uma dama, mas isto naquele momento não estava servindo, o importante era saber nadar e se firmar na superfície, não mergulhando com grande frequência. Moody tinha que ajudá-la a quase todo o tempo, mesmo que tivesse se tremendo de frio e sentindo algumas dores nas pernas.
– Acho que vou aprender... – Mergulhou a jovem. – A nadar depois de tudo isso. – Sua voz ecoava dentre as milhares vozes desesperadas que pularam do navio. – Talvez seja necessidade.
O oficial a segurou nos braços, parecia ser a única maneira de mantê-la flutuando.
– Já bebi tanta água que acho que estou hidratado o suficiente. – Brincou Moody. – Agora temos que nos manter vivos, de algum jeito...
– Abraços aquecem! – Falou gritando, sua voz começava a se tornar inaudível. – Pode ser uma maneira de nos livrar da hipotermia!
– É, talvez, mas em caso de hipotermia teríamos que abraçar alguém com o corpo quente e sem estar com roupas molhadas.
As luzes do Titanic se apagaram como uma explosão, tudo agora era uma terrível escuridão. Marina virou-se e Moody ficou ao seu lado, esperando para o que estava para acontecer. O navio estava flutuando, a proa submersa o deixava em pé, mesmo que ela o estivesse puxando para baixo. Em meio ao negrume ouviu um rangido de metais, as pessoas se calaram, o navio estava se partindo ao meio com um barulho ensurdecedor, Marina recusava-se a acreditar na cena sombria que estava acontecendo diante dos seus olhos.
– Moody... – Marina segurou o choro, mas não resistiu em se jogar com as mãos no rosto sobre o peito do rapaz, ele fora respeitoso em apenas abraçar colocando a mão na nuca da jovem e levemente sobre a cintura. – Eu não quero ver isso! – Falou, aos prantos. – Eu não quero ver!
– Calma Mari, calma. – Ele tentou acalmá-la. – Pense em Lowe, daqui a pouco ele virá, tenho certeza. Pense no amor que ele sente por você.
O Titanic se partiu, fazendo a popa cair em cima das pessoas que estavam abaixo, causando uma espécie de onda momentânea, a força daquele navio estava estranhamente sobrenatural, após cair tornou a subir, ainda com a proa presa a popa por ferros, era o que fazia aquela parte se inclinar, mostrando que logo aquele navio iria desaparecer.
– Onde está Deus nessas horas? – Gritou uma voz revoltosa. – Aonde?
– Deus não tem culpa da imbecilidade humana! – Gritou Moody. – Se o Titanic está afundando, a culpa foi exclusivamente dos homens em sua ganância!
O homem se calou, com o oficial voltando seu rosto para o navio. Marina chorava compulsivamente em seu peito. A popa ficou em pé. Um novo rangido, algo parecido com uma explosão, som esse que ocorria enquanto o navio era puxado grosseiramente para baixo. As mais diversas perguntas começaram a surgir. Deus? Homens? Valia mesmo apenas fazer o mal? Valia a pena desprezar as pessoas por sua classe oficial? Valia a pena tanto luxo que agora estava destinado a virar lama e ser comido por fungos e bactérias no fundo do mar? do que adiantava ter tanto dinheiro, se a morte não fazia diferença entra branco e negro, rico e pobre, ingleses e outras etnias, levaria todos para o mesmo lugar? Quando o sexto oficial levantou o olhar, com seus olhos cheios de lágrimas, o grande e inafundável RMS Titanic despareceu como fumaça, o luxo descia para o fundo do mar grosseiramente, levando vidas consigo sem querer saber a que classe pertencia. Moody abraçou Marina em meio as lágrimas que saiam compulsivamente de seus olhos, a jovem o abraçava como quem abraçava um irmão em desespero, de certa forma se protegendo do frio e do medo.
Novos gritos começaram a ecoar ainda mais fortes do que antes, um coral de vozes – e até mesmo de apitos vindo de oficiais – que clamavam por um socorro desesperançoso em meio ao nada, em meio a um mar cheio de vidas, de histórias e sonhos que agora estavam se perdendo, não haviam botes, a essa altura eles estavam longe do navio por medo de serem sugados pela força da água na hora do naufrágio. Cada olhar perdido naqueles botes afastados mostrava preocupação, sem saber agora como iriam ser suas vidas posteriormente a tudo aquilo, mas em meio a tudo isso ainda havia pessoas de coração cheio de compaixão, empáticos o suficiente para perguntar se podiam voltar.
– Não, senhora Brown, quer causar um novo acidente? – O quartel-mestre Robert Hichens a encarava, Molly Brown não parecia intimidada. – Aquelas pessoas estão desesperadas, no mínimo vão nos afundar junto com elas, é desnecessário voltarmos!
– Se fosse o senhor que estivesse destinado a se tornar um boneco de gelo, também diria que era desnecessário? – Ela se colocou em pé, afrontando. – Se fosse o covil de cobras da primeira classe que gritasse por socorro talvez pudesse lhe chamar a atenção.
– Cale a boca! – Ordenou Robert. – A senhora está causando desordem no meu bote, sou eu quem estou comandando!
– Que Deus o livre de um dia o senhor ter esse mesmo destino. – Molly se deu por vencida, era uma nova rica de muito bom coração, não se deixou levar pelas luxúrias da riqueza.
Enquanto os oficiais a bordo de seus botes entravam em uma batalha interna entre a razão e a loucura de voltar ao lugar da tragédia – Lowe já havia decidido que iria voltar, não apenas por Marina, mas por cada vida que precisava de ajuda e ele faria o que fosse necessário. – O jovem oficial James Moody começava, ainda abraçado a Marina, a ter uma certa tremedeira exagerada, seu quepe tinha os primeiros flocos de gelo aparecendo, seus lábios estavam ficando azuis, e ele próprio começava a não assimilar tudo o que estava acontecendo ao redor, Marina provava desses mesmo sinais de morte por hipotermia, mostrando-se através de resmungo o seu pavor de pensar que tudo estava acabado, que aquela era sua hora. Os clamores passaram a diminuir, dando lugar a sussurros, a resmungos, mas não mais era aquele desespero do começo. Moody ainda tinha alguma chance, mas um infeliz pedaço de ferro que se soltou de um Titanic naufragado cortou sua perna – esses destroços sem rumo estavam ferindo alguns passageiros. – direita, fazendo ele despertar de um sono quase mortal com um grito ensurdecedor de dor.
– AH! – Gritou Moody. – Minha perna! Minha perna!
Marina o largou quando percebeu uma grande quantidade de sangue subia da perna de um Moody quase morto.
– Eu vou te ajudar. – Ela, apesar de poucas forças, procurou algum destroço em que ele pudesse se apoiar e para que Marina tentasse de alguma maneira estancar esse sangue. Nessa curta exploração, a jovem percebeu corpos congelados, que tinha os olhos saltados para fora, outros ainda estavam passeando entre a morte e a vida, era um cenário muito mais sombrio do que quando o Titanic naufragou, agora o Atlântico Norte era um cemitério a céu aberto.
Marina encontrou uma porta.
– Moody, vem comigo. – A jovem o ajudou a subir na porta. – Suba aqui.
– Não, Mari, é melhor que... que... – Soltou fumaça da boca. – Que você suba, as damas merecem mais atenção.
– Mas você está ferido. Suba, por favor.
O oficial subiu em cima da porta sentindo uma grande e insuportável dor. Marina mudou de lado, se mexia com frequência para se manter aquecida, ela teve a coragem de olhar a perna e ver o tamanho do corte, que subia do tornozelo até a coxa, sua calça estava rasgada e suja de sangue. A senhorita Potter usou parte da sua própria roupa para estancar o sangue.
– Estou fazendo o que posso. Você me salvou, Moody, preciso te retribuir.
– Argh... – Ele estava perdendo as forças novamente. – Não adianta. ARGH!
Marina fez um curativo improvisado com pedaços de seu vestido e da própria calça de Moody.
– Juntem os botes! Nós vamos voltar! – Gritou Lowe, desesperado.
Os passageiros olhavam para o quinto oficial com olhares de julgamentos, o achavam louco por querer voltar para procurar bonecos de gelo flutuantes que ele sabia bem que não tinha vida, não se havia necessidade, mas se era necessário ou não, Lowe uniu cinco botes salva vidas e mesclou seus passageiros entre eles, incluindo uma quieta garotinha de sete anos de olhos tristes. Isabellinha estava sentindo a dor das pessoas, mas não demonstrava isso através dos olhos, mas sim através de um silêncio. Cada grito, cada barulho, cada acontecimento a bordo do Titanic iria marcá-la para sempre, envolvendo dor e a saudade, ela tinha certeza que Moody não iria mais voltar com vida. Ele que fora um amigo, um pai talvez, um companheiro, com certeza estaria transitando entre esta vida e o que existe após a morte, pelo menos era isso que ouvia dos passageiros a bordo do bote.
– Vem. – Um marinheiro ajudou Isabella a se colocar no bote, ela se sentou, uma mulher chamada Dorothy a acompanhou.
Lowe usava sua lanterna para ajudar os trabalhos que precisavam ser feitos com pressas. Ele reuniu uma equipe de sete tripulantes e um voluntário, todos disposto a salvar alguém. Quando tudo estava preparada, começaram a remar de volta a um local cheio de resquícios, de corpos flutuando como o gelo, em um silêncio sepulcral mesclado a escuridão, onde apenas uma simples lanterna fazia um ponto durante o grito que cada passageiro que tinha compaixão poderia se fazer.
– Tem alguém vivo aí? – Gritava o oficial, em um ato heroico, de pé em seu bote. – Tem alguém vivo aí?
Ele teve a sorte de achar o primeiro sobrevivente, um homem. O segundo, também era um homem, o terceiro, o mesmo. Mas ele sentia que ainda não estava terminado, fez seu grito ecoar por diversas vezes, buscando mais alguma vida, até ouvir uma vozinha familiar citar seu nome, enquanto o oficial, vencido pelos companheiros, começava a remar de voltar.
– Lowe! – Falou uma voz feminina.
O quinto oficial paralisou, era a voz de Marina.
– O senhor ouviu algo? – Perguntou um tripulante.
– Ouvi a voz da minha esposa e a reconheceria em qualquer lugar! – Respondeu. – Voltem com essa lata de sardinha. – Ele apontou a lanterna para o mar, retirando os corpos a sua frente para abrir caminho sem desrespeitar.
Marina estava um pouco congelada. Seus cabelos castanhos continham alguns flocos de neve mais firmes, sua roupa estava endurecida, e algumas partes do corpo continham gelo, ela estava com a cabeça encostada nos braços, enquanto um sexto oficial congelado como uma pedra descansava em seu caixão. James Paul Moody, um oficial promissor, de grande futuro na White Star Line, um sonhador, um homem, uma vida, estava morto. Seus últimos momentos eram de angústia, achava-se de alguma maneira insuficiente, que não havia feito tudo oque podia para salvar aquelas pobres almas, ele sentiu grandes dores na parte, com o tempo sua consciência se foi e ele adormeceu seu sono de morte com o rosto voltado para o céu. Seus últimos pedidos ainda conscientes foi que cuidassem de Isabellinha com atenção redobrada – ele confessou que via a garota como uma espécie de filha. - para ele Serguei poderia fazer algum tipo de loucura com a menina, que Marina e Lowe fossem incrivelmente felizes e tivessem muitos filhos com uma vida confortável e o que ele mais queria era ser sepultado no local onde havia passado sua vida inteira, no mar, junto aos seus companheiros.
– Marina! – Ele tornou a gritar.
A jovem se soltou da porta, dando um sorriso triste antes de deixar alguém que lutou por ela para trás. Marina, antes de ir, beijou o topo da cabeça de Moody em um gesto fraterno. Nadou, ou pelo menos tentou, com uma certa rapidez, até ver uma forte lanterna sobre seu rosto e lindos olhos castanhos brilhando. Lowe a ajudou a subir em seu bote, a cobrindo com um cobertor e em seguida a abraçando. Um marinheiro tomou a frente e ordenou partida de volta.
A noite deu lugar, algum tempo depois, deu lugar a uma aquarela de tons de laranja, vermelho e amarelo. Um belo espetáculo se formava acima da cabeça dos sobreviventes, como se Deus quisesse mostrar que dias melhores estavam por vir na visão dos mais religiosos, para outros era apenas um espetáculo natural e para um ou outro era motivo de revolta e muita tristeza de perder seus entes queridos para o mar, impossibilitados de achar alguma coisa natural algo bonito. E era no crepúsculo entre a noite e o dia que o RMS Carpathia trouxe um fio de esperança para os sobreviventes. O capitão e sua tripulação não mediram esforços, a sua força de vontade de ajudar aquelas pessoas eram tão grandes que quebraram seu próprio recorde de velocidade, prepararam tudo para receber os sobreviventes do seu jeito. Marina dormiu a noite toda, somente acordando no momento em que Lowe lhe ajudou a subir no navio de resgate. Quando Marina se recompôs, a primeira coisa que fez foi procurar a irmã mais nova.
– Oi, Marina, estou aqui. – Falou Isabellinha, com o cabelo bagunçado, sentada no chão.
– Isabella. – Marina se abaixou para abraçá-la. – Como fiquei preocupada, achei que Serguei pudesse ter pegado ou mamãe...
– Não os vi ainda, mas acho que estão juntos. – Isabella respondeu, se retirando do abraço. – Marina, fiquei preocupada com você.
– Oh, pequena, eu também fiquei. – Passou a mão em seus cabelos. – Mas agora vai ficar tudo bem, estaremos sempre juntas para o que der e vier, mas vamos evitar andar em navios.
– Mas você se casou com um marinheiro, Mari, complica um pouco. – Isabella viu Lowe atrás da moça com uma xícara de chá e um cobertor.
– Não sou obrigada. – Marina se levantou, recebendo um cobertor sobre os ombros. – Navios perderam a graça!
– Os oficiais também? – Lowe brincou, a assustando. – Nós ainda temos muita graça, senhorita Potter.
– Mari, cadê o Moody? – A caçula indagou. – Eu não o vi subir...
– Ele se foi, Isabella. – Marina respondeu. – Mas ele prometeu que vai sempre cuidar de você e de nós, saiba que Moody foi um herói, lutou até o fim, e agora Deus o chamou para si.
– Todos os oficiais foram verdadeiros heróis. – Isabella caminhou em direção a uma grade. – Uns por terem voltado mesmo que a arrogância de alguns falassem mais alto, outros que decidiram ficar no navio até o fim... Toda vida importa e... – Hesitou. – Os céus estão com uma beleza triste, mas creio que Deus consolará o coração de cada um e seus espíritos brilharão como astros por toda a eternidade.
Lowe se aproximou da menina.
– Agora nós seremos uma família e teremos uma estrelinha zelando por nossas vidas. Quando aportamos em Nova York daqui a três dias, vou procurar uma casa para ficarmos durante um tempo e depois voltaremos para a Inglaterra. Vamos ser muito felizes!
– Senhor Lowe, deveria parabeniza-lo pelo ato heroico. – Molly Brown abriu um belo sorriso.
– Obrigada, senhora Brown, fico honrado em ser parabenizado pela senhora.
– E você, Marina, como se sente? – Perguntou a mulher.
– Ah, ainda estou tentando assimilar tudo. Foi um choque e tanto.
– E por acaso vocês têm para onde ir? Posso ajudá-los, se quiserem, é claro. – Brown ofereceu.
– Claro que aceitamos, senhora Brown. – Marina sorriu. – Mas porque nos ajudar? Sei que a pergunta é inconveniente.
– Oh, querida, claro que é uma forma de retribuir a atitude do senhor Lowe, ele fez o que eu tinha vontade e aquele... aquele... oh, como devo chama-lo... miserável do Robert Hichens não permitiu!
– O que ele fez foi um ato terrível de arrogância, teríamos salvado mais vidas... – Lowe colocou as mãos sobre a testa.
– A senhora por acaso viu o senhor Hondjakoff? – Marina perguntou.
– E ele sobreviveu? – Lowe estava chocado.
Eu – Sim, senhor Lowe, inclusive o vi conversando com a senhora Potter e aquele outro imbecil do Relish, acho que estavam planejando... Falavam em casamento... Reputação... Que deveria preparar um casamento rapidamente...
Marina e Lowe se entreolharam, esse problema ainda não havia chegado ao fim.
