O tradicional almoço de sábado n'A Toca havia sido ótimo. Obviamente a notícia sobre o encontro de Harry com Draco Malfoy já havia se espalhado para todos os Weasleys e Harry agradeceu que, naquele final de semana em particular, nem todos tivessem ido ao almoço. Molly e Arthur se mostraram preocupados em um primeiro momento, a família Weasley já havia sofrido muito com os Malfoy, mas, com o apoio de Hermione e, para a surpresa de todos, Ron, Harry lhes convenceu que Draco não era mais o mesmo e, acima de tudo, ele não era Lucius.

Percy e Penélope foram embora logo depois do almoço e sobraram apenas Ron, Hermione, Harry e Teddy com o senhor e a senhora Weasley. Depois de brincarem por quase duas horas no quintal com Teddy, Hermione e Ron se despediram, alegando, para a felicidade de Molly, terem algumas coisas do casamento para resolver. Harry aproveitou para também se despedir mais cedo do que costumava, queria passar um tempo a sós com o afilhado.

Harry morava em um apartamento, portanto não havia espaço para a brincadeira preferida de Teddy: quadribol. Por isso, eles resolveram brincar de snaps explosivos e, quando cansaram, foram jogar alguns jogos trouxas de tabuleiro.

Passava um pouco das 16h quando Teddy decidiu que queria assistir televisão e, após alguns minutos trocando de canal, parou em um filme de desenho animado. Mesmo o filme sendo infantil, Harry estava achando-o interessante mas, depois de um dia inteiro de brincadeiras ele estava cansado e não demorou a pegar no sono.

Acordou confuso com a campainha tocando, não tinha percebido que adormecera e não sabia quanto tempo havia se passado, mas o filme já havia acabado. Ainda estava abrindo os olhos e se sentando para abrir a porta, mas seu afilhado foi mais rápido.

– Quem é? – perguntou Teddy com a orelha já grudada na porta e a mão na maçaneta.

Harry ficou orgulhoso e aliviado de ver o afilhado perguntando antes de abrir a porta pois ele ainda era muito baixo para conseguir olhar pelo olho mágico. Teddy era muito extrovertido e, às vezes, Harry se perguntava se ele prestava atenção quando o padrinho e a avó lhe educavam sobre não falar com estranhos. De onde estava, Harry não conseguiu ouvir a resposta, viu apenas seu afilhado girando a chave e exclamando.

– Primo!

– Teddy? – perguntou Draco, confuso.

Harry olhou no relógio, 18h. Deveria ter deixado Teddy na casa de Andrômeda há uma hora atrás para a sua reunião com Malfoy. Ele se levantou passando a mão nas roupas em uma falha tentativa de desamassá-las e seguiu para a porta.

– Olá Malfoy.

– Potter. – cumprimentou Draco com um aceno de cabeça.

– Entre. – convidou Harry.

Assim que Draco passou pela porta Teddy começou a puxá-lo pela mão em direção à sala de estar, sem parar um minuto de falar como era legal Harry e Draco serem amigos pois assim os três poderiam brincar juntos. Harry viu o olhar questionador de Draco enquanto era arrastado e apressou-se em justificar.

– Desculpa, eu... – Harry mexeu nos cabelos, tinha essa mania quando ficava sem graça ou nervoso – Eu acabei cochilando enquanto estávamos assistindo um filme e..

– Cochilando? – Interrompeu Teddy, rindo – Você roncou o filme todo!

– Teddy! – repreendeu Harry, corando.

– Que foi? Só estou falando a verdade!

Draco parecia achar graça da situação, e mesmo Harry estando com vergonha por ser o motivo da piada, não pode deixar de reparar como Draco parecia bonito daquela forma, leve, sem a máscara usual. Mas assim que Malfoy percebeu o olhar de Potter em si, a máscara voltou e Harry aproveitou o momento de silêncio de Teddy para voltar a falar.

– Eu vou levar Teddy para a casa da Andrômeda. Vai ser rapidinho, eu posso pegar o kit dos aurores para vocês ir dando uma olhada enquanto eu estiver fora.

– Ah não! – exclamou Teddy, cruzando os braços, emburrado – Por que eu tenho que ir embora? Eu quero ficar pra brincar com vocês!

– Teddy, nós vamos discutir coisas do trabalho, não vamos brincar. – explicou Harry.

– Não acredito que o meu primo e o meu padrinho estão me expulsando!

Teddy começou a fazer bico, ele adorava fazer um drama. Conhecendo Sirius, Harry sabia que aquela era uma característica herdada dos Black.

– Teddy, por favor, arrume as suas coisas. – disse Harry firme.

– Deixa eu ficar, por favorzinho...

Como resistir aos olhinhos de gato de botas? Essa era uma pergunta para a qual Harry não tinha resposta. Antes que voltasse a tentar convencer Teddy a ir para a casa da avó, Harry foi interrompido em seus pensamentos.

– Por que não vamos os três para a casa de Andrômeda? – sugeriu Draco. Pelo visto Harry não era o único que não conseguia resistir à Teddy. – Podemos jogar uma partida de quadribol e depois nós voltamos para trabalhar.

– Podemos, padrinho? – pediu Teddy animado.

– Tudo bem. – Harry cedeu, não iria admitir mas ele também preferiria jogar quadribol do que trabalhar. – Mas só uma partida rápida!

– EBA! – comemorou Teddy.

– E suas coisas já estão prontas?

– Dois minutos. – disse Teddy saindo correndo para arrumar seus pertences que estavam espalhados por toda casa.

Harry se virou para Malfoy para conversar, mas não conseguiu falar. Ali estava novamente, o sorriso simples, sem ironia, sem ar de superioridade, apenas uma leve curva nos lábios pela animação do garotinho de cabelos azuis. Foi acordado de seus pensamentos quando um par de olhos cinzas o pegou encarando e toda a máscara ilegível voltou.

– É... – Harry tentou voltar a falar o que pretendia – Você tem certeza sobre isso? Eu posso levar Teddy e voltar em 5 minutos para falarmos sobre o curso.

– Não tem problema.

– Se você tem certeza...

– Sim.

– Eu vou pegar duas vassouras para levarmos então.

Sete minutos e uma caça ao boné das Holyhead Harpies, presente de Gina para Teddy no aniversário, depois, Harry entrou na lareira com Teddy.

– OI 'VÓ! – gritou Teddy assim que eles apareceram na casa da senhora Tonks.

Andrômeda apareceu na sala em poucos instantes, com um grande sorriso no rosto e um livro nas mãos.

– Olá querido! Se divertiu na casa da senhora Weasley hoje? – perguntou Andrômeda abraçando o neto.

– Sim, mas Victoire não foi hoje. – Teddy disparou a falar – O padrinho me levou mais cedo para casa dele e ficamos brincando lá. Quando ele estava babando no sofá a campainha tocou e...

Teddy se interrompeu quando as chamas da lareira voltaram a ficar verdes, atraindo a atenção dos três.

– Você esqueceu as vassouras, Potter. – disse Malfoy mostrando as duas vassouras que carregava.

– Draco? – disse Andrômeda surpresa.

– Olá senhora Tonks. – comprimentou Draco – Teddy nos convidou para uma partida de quadribol.

– É muito bom te ver, querido! E já falei para me chamar de Drômeda ou tia! – disse Andrômeda abraçando o loiro. – Não sabia que você e o Harry eram tão próximos.

– Eu... É... – começou Harry, mas sem saber ao certo o que falar. Como justificar Draco estar em sua casa quando, no aniversário do afilhado, tinha garantido que eles não eram amigos?

Draco tentava manter a expressão neutra mas Harry percebeu que ele parecia estar se esforçando para não rir, fazendo Harry corar e se calar. Como a senhora Tonks ainda estava esperando uma resposta, Draco resolveu se manifestar.

– Irei dar um curso para o esquadrão de aurores e ele está me ajudando. – respondeu Draco.

– Sério?! – exclamou a senhora Tonks – Sobre o que...

– Não vamos jogar nunca? – resmungou Teddy, interrompendo a avó.

– Tudo bem, tudo bem. – disse Andrômeda rindo – Podem ir jogar, depois conversamos mais.

Teddy não esperou nem um segundo para pegar Harry e Draco e arrastá-los para o quintal. A brincadeira acabou durando muito mais do que o planejado. Teddy voava empolgadíssimo de um lado para o outro e Harry tinha que admitir que o afilhado tinha talento, sem dúvida iria fazer parte do time quando fosse para Hogwarts.

Não era só Teddy que estava empolgado. Harry e Draco competiam como nos tempos da escola, como se estivessem novamente jogando Grifinória contra Sonserina. Mas o que mais chamava a atenção de Harry não eram as habilidades de Draco, que parecia ser ainda melhor do que era em Hogwarts. Harry se pegou admirando a interação do loiro com Teddy, como ele voava atrás do menino parecendo dar o seu melhor mas deixando um espaço para Teddy ganhar, como ele comemorava cada gol que a criança fazia e, pela terceira vez naquele dia, Harry se pegou admirando o sorriso de Draco.

– O jantar está pronto! – chamou a senhora Tonks da porta da varanda.

Harry se assustou com o chamado, tinha perdido completamente a noção do tempo. Os três desceram das vassouras e entraram.

– Obrigada pelo convite Andrômeda mas eu e Malfoy temos que ir. Já ficamos mais do que havíamos planejado. – disse Harry, temendo que Draco ficasse furioso com o tempo que haviam gasto sem discutir nada do curso.

– Não diga bobagens Harry. Vocês terão que comer de qualquer forma, é mais rápido comer aqui de uma vez e depois do jantar vocês voltam à trabalhar. – insistiu a senhora Tonks

– Não queremos dar mais trabalhado. – argumentou Draco.

– Não é trabalho nenhum! A comida já está pronta e tem mais do que o suficiente para todos. Vamos, sentem-se.

Harry olhou para Draco em busca de uma opinião e o loiro respondeu dando de ombros e se sentando à mesa, ao lado de Teddy. O jantar fora muito agradável, a comida estava excelente e Teddy fazia todos rirem narrando à avó a partida de quadribol que eles haviam acabado de jogar, com direito a muita sonoplastia e dramatização das manobras.

Quando terminaram de comer, Teddy subiu para o quarto para tomar banho enquanto os mais velhos arrumavam as coisas do jantar. Estavam na sala de estar conversando quando Teddy apareceu, de pijamas, e Draco e Harry foram se despedir.

– O jantar estava maravilhoso, muito obrigado! – despediu-se Harry, abraçando a senhora Tonks e, virando-se para Teddy e bagunçando os cabelos azuis de forma carinhosa, acrescentou – E você pestinha, lembre-se de se comportar e não dar trabalho para a sua avó.

– Obrigada a vocês pela companhia. – disse a senhora Tonks, com um grande sorriso no rosto – E Draco, mande um beijo para Narcissa!

– Claro, senho... Drômeda. O jantar estava muito bom mesmo, obrigado. – agradeceu Draco – Até a próxima Teddy.

– Tchau padrinho, tchau primo!

Harry entrou na lareira, acenando uma última vez para o afilhado antes das chamas verdes tomarem a sua visão, sendo seguido por Draco. Ambos já estavam exaustos do quadribol mas ainda tinham muitas coisas do curso para planejar, por isso o moreno foi logo guardar as vassouras e pegar o kit que Draco tinha ido avaliar. Quando Harry voltou para a sala, Draco o esperava parado em pé ao lado da lareira.

– Pode... – começou Harry enquanto tentava arrumar as almofadas do sofá que estavam todas espalhadas depois da sessão de cinema com Teddy – Pode ficar à vontade, sente-se. Aqui está o kit dos aurores.

– Ok. – respondeu Draco, sentando-se e já começando a avaliar as poções.

– Aceita alguma coisa para beber? Acho que vou pegar uma cerveja para mim, mas também tenho água, vinho dos elfos, suco de abóbora, e quase certeza que tem uma garrafa de whisky de fogo em algum lugar... – ofereceu Harry.

– Pode ser uma cerveja para mim também.

– É... É uma cerveja trouxa, não tenho cerveja amanteigada. – disse Harry, sem graça pela confusão.

– Tudo bem, já tinha entendido isso. – disse Draco mas, vendo que Harry não se moveu, levantou o olhar para o moreno, que ainda o encarava, surpreso – Está calor.

Harry foi para a cozinha buscar as bebidas e voltou com duas long necks, entregou uma das cervejas para Draco e sentou ao lado do loiro no sofá. Ainda estava surpreso, Draco não só estava tomando uma bebida trouxa como era uma cerveja, uma bebida informal, e ainda por cima tinha escolhido aquela bebida dentre outras, inclusive bruxas.

– Obrigado. – Agradeceu Draco.

Se a cerveja não era surpresa o suficiente, Harry reparou que Draco havia pegado um uma das canetas que Harry mantinha na mesa ao lado do sofá, junto ao telefone, e revezava em apertar nervosamente o botão e fazer diversas anotações em um pergaminho, provavelmente conjurado. Uma caneta, um objeto completamente trouxa. E Draco o usava como se fizesse isso rotineiramente.

– O que foi? – perguntou Draco, trazendo Harry de volta à realidade.

– Eu só... a caneta.

– Eu precisava de alguma coisa para anotar, achei que não teria problema.

– Não tem.

– Não estou entendendo Potter.

– Achei curioso você usando uma caneta.

– Ainda prefiro escrever com pena, mas a caneta é mais prática. Os trouxas tem muitas coisas assim, práticas. – disse Draco, encerrando o assunto, voltando a fazer anotações.

Eles passaram a hora seguinte discutindo o kit dos aurores. Draco reclamou de absolutamente tudo sobre o kit, desde às poções que o compunham, que eram desatualizadas e por isso pouco eficientes, até o fato de serem usados feitiços redutores para facilitar o transporte, o que, se mal executado, poderia comprometer a eficácia das poções.

Enquanto Draco fazia algumas anotações, resmungando, aparentemente para ninguém, Harry foi para a cozinha pegar mais uma cerveja para eles. Quando voltou encontrou Draco sentado no chão, usando a mesinha de centro como apoio.

Por Merlin, como aquele sonserino conseguia continuar tão elegante mesmo sentado no chão e com papéis espalhados por toda parte? Como ele conseguia manter as roupas tão alinhadas e aquela postura perfeita quando Harry tinha quase certeza que ele mesmo tinha grama no cabelo devido a uma queda enquanto jogavam quadribol?

– Vai voltar pra me ajudar ou vai ficar parado aí, esperando a cerveja esquentar? – perguntou Draco sem desviar o olhar do pergaminho, despertando Harry de seus pensamentos.

Harry sentou ao lado do loiro, no chão, e lhe entregou uma das garrafas.

– Então, como estamos até o momento? – perguntou Harry, tentando ler as anotações de Draco que, para ele, pareciam mais um monte de palavras soltas.

– Acho que conseguiremos reduzir o número de poções no kit de 13 para 3, que são poções multifuncionais. Além disso, sei que uma delas tem uma versão concentrada, que apenas poucas gotas resolvem, e acredito que seja possível fazer algo semelhante com as outras duas, assim seriam apenas 3 frascos pequenos, e não seria necessário usar feitiço redutor para transportá-las. – explicou Draco.

– Nossa, não esperava tanto. Será muito melhor!

– Ainda é só uma hipótese, tenho que confirmar tudo com um especialista em poções. Estava pensando também em convidar essa colega do laboratório do St. Mungus para me ajudar com o curso no segundo dia, tudo bem?

– Sem problema.

– Certo, vou falar com ela e te aviso.

Eles voltaram a conversar sobre o kit e aproveitaram para discutir sobre os outros dias. Já tinham perdido a noção do tempo e Draco só percebeu que estava tarde quando pegou Harry tentando disfarçar um bocejo.

– Por que não continuamos segunda? – sugeriu Draco.

– Acho melhor mesmo. – concordou Harry.

– Às 19h no OutBar?

– Combinado.

Draco recolheu suas anotações, Harry guardou as poções no kit e ambos se dirigiram para a porta de entrada.

– Até segunda então. – despediu-se Harry com um aperto de mãos.

– Até, Potter. – disse Draco, aparatando em seguida.