Capítulo 10: Gosto
Não foi nada.
Quase nada.
Mas foi um nada tão bonito.
Apenas suas respirações colidindo e olhos fechados enquanto o lábio superior de Draco se encaixava entre os de Hermione e a língua dele roçava o lábio inferior dela. Apenas uma pequena conexão de carne e gosto que durou apenas duas batidas dos ponteiros mais rápidos do relógio, antes que a realidade e a crueldade a quebrassem.
Os olhos cinzentos e selvagens se abriram e Draco pulou, afastando bruscamente seu rosto das mãos dela, como se tivesse sido pego fazendo algo errado; lutando para longe dela em movimentos frenéticos. Seu peito estava carregado com confusão e choque que queimavam seus ossos e pesavam seu crânio. Ele conseguia escutar ela ofegando também e seus olhos foram para a pele exposta do estômago dela e aquela porra de contração luxuriosa em sua virilha o atingiu de novo.
Tudo estava lentamente voltando para ele; a visão, os sons, tudo a respeito dela. Ele olhou para baixo, encarando a injeção anti-alérgica vazia em sua mão, sequer reparara que havia puxado de volta dela. Ele a jogou para longe com nojo, culpando a injeção por tê-lo colocado naquela situação.
Como ele pôde permitir que aquilo acontecesse?
Como Granger pôde permitir que isso acontecesse?
E por que mil demônios ela não se movia ou falava?
Tudo o que quebrava o silêncio entre eles eram suas respirações falhas e confusas. Ele ainda conseguia sentir o gosto dela em sua boca; seu lábio superior ainda úmido por sua sugada quase imperceptível. Ele levou a parte de trás do seu braço bruscamente até a boca, repetindo a ação várias vezes até que a pele começara a arder pela fricção.
Lançando um último olhar horrorizado para Granger, que ainda estava congelada no chão, ele se levantou e correu até seu quarto, deixando apenas a batida estridente de sua porta para que ela se lembrasse dele.
Ele teria facilmente sacrificado toda a fortuna dos Malfoy para colocar mais uma parede entre eles, mas no momento aquilo deveria bastar. Pelo menos ele não conseguia vê-la agora, mas sua língua e seu nariz ainda vibravam com a essência e a fragrância dela e ele não sabia se queria se derreter de felicidade ou tapar seu nariz e cortar sua língua para se livrar dela.
Ele vibrava de raiva e mortificação; seu rosto coberto pelas palmas de sua mão enquanto flashes teimosos dos lábios submissos e da pele dela pulsavam atrás de suas pálpebras. Um rosnado subiu por sua garganta e provocou suas amídalas enquanto ele tentava empurrar as imagens para o fundo de sua mente, mas elas não se moviam; ele não deixaria isso assim. Melin, ele a odiava. Ele se odiava. Ele odiava cada detalhe sórdido dos eventos que levaram àquele momento humilhante e degradante.
Draco sabia que ficara maluco. Mas que irônico; ele nunca se sentira tão verdadeiro.
E o gosto dela era perigosamente delicioso.
Merda...
Hermione estremeceu com a batida da porta e respirou fundo. Ela queria desaparecer entre as tábuas do chão, ou implorar a McGonagall por uma volta do Vira-Tempo para apagar o incidente de vez. A pior parte é que ela não fazia ideia de quem iniciara… aquilo. Aquele quase-beijo.
Meu Deus…
Ela não pôde evitar de lamber seus lábios e desfrutar do resto do gosto dele; algo próximo a cítrico e masculinidade, com um toque de menta. Ela podia sentir os resíduos quentes da palma da mão dele no seu abdômen e tinha certeza que ainda conseguia sentir o peso dele sobre ela. Malfoy havia voltado para sua forma mais saudável desde que ela começara a cozinhar para ele e parecia seguro e pecaminoso assim, tão perto.
Desde a noite do casamento de Gui e Fleur, quando ela e Rony perderam a inocência juntos de modo desajeitado, ela não havia aproveitado a presença de qualquer homem que pudesse ser considerada remotamente sugestiva. Tudo que conseguia realmente se lembrar daquela noite eram os toques suados e desajeitados e um adeus desconfortável enquanto ele e Harry desapareciam para começar a caça às Horcruxes e ela foi deixada para trás com um terço do seu coração e muitas perguntas.
E antes de Rony?
Alguns beijos interessantes com Vítor e alguns selinhos infelizes com Córmaco. Ótimo...
Ela sabia que não era a garota mais feminina de Hogwarts e teria que passar por uma lobotomia completa antes de se tornar uma garota confidente e promíscua, mas ainda tinha necessidades e desejos. Ela adorava aquela sensação prazerosa de proximidade íntima e, Godric a amaldiçoasse por isso, Draco parecia uma colcha de retalhos de sonhos com sedativos potentes que entorpeceram seu cérebro de forma maravilhosa. Foi um instinto e impulso; e um lembrete de que ela podia sentir muitas coisas além de desespero.
Mas agora...
Bem, agora era sentia como se tivesse traído todo mundo que a queria bem, incluindo ela mesma. Para a supostamente "bruxa mais brilhante de sua geração", ela acabara de fazer a coisa mais estúpida possível. Ela precisava de um pouco de ar, precisava organizar seus pensamentos; e era melhor que fosse à enfermaria para garantir que sua reação alérgica estivesse sob controle.
Havia um brilho de suor em sua testa e acima de sua boca enquanto ela cuidadosamente se levantava para sentar, gemendo quando suas costelas fracas protestaram. Ela estava tremendo, embora isso pudesse ser tanto um resultado da reação alérgica quanto dos lábios de Draco; de qual ela não fazia ideia. Seus dedos foram até sua blusa e rapidamente fecharam os botões, que ainda estavam quentes pelo toque dele.
Lutando contra o calafrio, ela pegou sua varinha e se arrastou com dificuldade até a porta, agradecendo a todas as deidades por seu quarto não ser tão longe da ala hospitalar. Andando com dificuldade pelos corredores solitários da escola, ela virou nas esquinas necessárias e teve um segundo choque naquela tarde ao perceber que a enfermaria estava fervilhando em atividade. Ela congelou na porta, seus olhos dançaram pelo quarto agitado, seu olhar confuso foi imediatamente até sua amiga loira, deitada em uma das camas.
— Luna — ela chamou, esquivando-se de dois terceiranistas enquanto se aproximava da Corvinal. — O que aconteceu?
— Uma das colmeias da sala de Herbologia colapsou — ela respondeu com o tom entediado. — Um monte de gente foi picada, mas eu acho que o caso do Dennis Creevey é, na verdade, envenenamento por tychfil.
Hermione nem ao menos piscou sobre o comentário estranho.
— E todo mundo está bem?
— Acho que sim. — Luna acenou, gesticulando para a pequena erupção cutânea em seu braço. — Madame Promfrey está quase acabando de atender Laura Madley e eu acho que sou a próxima.
— Quantas pessoas estão esperando depois de você?
— Aquelas pessoas ali — ela murmurou, apontando para um amontoado de, pelo menos, quinze estudantes. — Acho que as abelhas vieram para dentro do castelo por causa do frio. Por que você está aqui?
— Eu fui picada.
E então beijada…
— Você não tem alergia a picada de abelha, Hermione? — a outra bruxa interrompeu seu pensamento.
— Sim, eu só estava…
— Seus lábios parecem um pouco diferentes — a loira comentou calmamente, e a princesa da Grifinória sentiu suas bochechas queimarem. — E seus olhos estão meio contemplativos.
— É só… — Ela engoliu seco.
— Oh, senhorita Granger! — uma nova voz interrompeu, Hermione olhou para cima e encontrou uma McGonagall um tanto quanto confusa se aproximando dela. — Aí está você. O senhor Longbottom disse que você estaria na biblioteca, aquele menino bobo. Você foi picada? Está tudo bem?
—E-eu acho que sim — a morena gaguejou. — Quero dizer… sim, eu fui picada, mas eu…
— Certo — a diretora interrompeu, sinalizando para Hermione segui-la. — Vem, eu vou checar você agora. Com alergia não se brinca.
— Eu venho te encontrar depois, Luna — ela sussurrou para a amiga enquanto seguia a bruxa mais velha de perto. — Professora, eu preciso…
— Sente-se na cama, Srta. Granger — McGonagall ordenou, puxando a cortina para garantir privacidade. - Certo, onde você foi picada?
— Aqui - ela respondeu, mostrando para a outra bruxa a área inchada de pele entre o nó dos dedos e o pulso. — Mas eu…
— E você conseguiu tomar a injeção de anti-alérgico por conta própria a tempo?
— Não, eu…
— Eu vou chamar a Papoula para…
— Professora — Hermione sussurrou severamente, mantendo sua voz o mais baixa possível. — Draco me deu a injeção.
As sobrancelhas da diretora subiram em sua testa enrugada e Hermione a escutou murmurar um rápido feitiço silenciador antes de se voltar para ela.
— O Sr. Malfoy? — ela clarificou ceticamente. — Você tem certeza?
— Sim. — ela suspirou, movendo seu peso com desconforto. — Ele… ele me ajudou.
As sobrancelhas subiram ainda mais.
—Bem — McGonagall respirou. — Eu devo dizer que estou um tanto quanto surpresa…
— Talvez seja um bom sinal — Hermione disse com um rápido mas incerto otimismo. — Talvez eu esteja conseguindo me aproximar…
— Srta. Granger — ela interrompeu com uma feição preocupada. — Eu te alertei para não ter esperanças muito grandes em relação a esse seu... projeto...
— Mas eu…
— É possível que o senhor Malfoy não queria a culpa por nada que venha a acontecer com você — ela continuou cheia de razão, e a bruxa mais nova sentiu seu rosto se encher de dúvidas. — No entanto, pelo menos você está bem. Deixa-me apenas checar sua mão.
Hermione fez o que ela pediu sem questionar; seus pensamentos levando-a para longe enquanto McGonagall examinava a picada. Ela podia lembrar pouca coisa sobre o seu choque anafilático além dos níveis vibrantes de consciência e o pânico que latejava em sua cabeça, então ela não fazia ideia de como exatamente Malfoy a encontrara ou dos detalhes específicos dele injetando a injeção nela. Tudo que ficara em seu cérebro fora ele e o que aconteceu depois…
Godric. Godric. Godric… Ela estava tão faminta assim por companhia?
Ela tinha que admitir que seu desejo por alterar e apagar seus preconceitos haviam se tornado quase um tipo de obsessão, mas Dumbledore vira algo em Draco que era digno de redenção; e ela também enxergava aquilo. Sua solidão realmente não estava ajudando naquele dilema e ela sentia que isso havia contribuído em sua fascinação pelas pequenas mudanças que notara nele recentemente. Aquelas mudanças eram minúsculas, mas ela estava fixada nelas; fixada nele.
Ela não podia evitar. Ela não podia evitar que o beijara de volta.
Ela se permitiu ser levada a uma situação de tirar o fôlego e isso nunca mais aconteceria. Nunca. Ela ainda estava determinada a penetrar a mente dele, mas precisava manter seu cérebro sob controle e se lembrar: Malfoy ainda era o Malfoy e ela tinha que manter uma distância considerável dele, mesmo que os lábios dele fossem…
… como penas umedecidas de água...
Ela nunca pensaria que ele seria tão suave.
Hermione piscou quando percebeu que a boca de McGonagall se movia.
— Q-quê? — ela gaguejou, lançando um olhar de desculpas para a professora. — Desculpe-me, eu não te escutei direito.
— Eu disse que apesar dos motivos questionáveis pelos quais Malfoy te ajudou — a professora falou, concentrada na ferida na mão da bruxa mais nova. — Eu espero que você tenha agradecido apropriadamente.
Hermione mal conseguiu controlar o pequeno aceno enquanto desviava seus olhos, silenciosamente pensando que sua gratidão em relação ao Sonserino rancoroso estava longe de ser apropriada.
— Sim, professora.
— Eu tenho algumas notícias que podem te animar — ela lhe ofereceu um raro sorriso e eles eram realmente raros naqueles dias tensos. — Recebi uma carta de Ninfadora…
— Tonks? — ela perguntou, levantando sua cabeça com interesse. — Ela está bem?
— Pelo que eu saiba, sim — a professora garantiu. — Ela está vindo para uma visita dentro de alguns dias, para discutir algumas medidas de segurança em Hogwarts…
— Eu vou vê-la? Por favor, me deixe encontrá-la, Prof…
— Acalme-se— McGonagall suspirou. — Ela não quer chamar atenção, então vai se hospedar no Três Vassouras e eu ficarei feliz em te dar permissão para ficar com ela durante algumas noites…
— Oh! Obrigada — Hermione sorriu, aliviada pela distração boa em seu dia problemático. — Muito obrigada, professora. Quando ela vem?
— Próxima quinta e ela fica até sábado — ela explicou, terminando de curar a mão de Hermione. — Eu espero que você vá a todas as aulas, mas duvido que você faltaria, de qualquer jeito.
— Claro que não, professora.
— Então, sem problemas — a diretora disse. — E eu acho que vai… te fazer bem ver ela. Você parece estar muito preocupada recentemente…
— Espere — a bruxa mais nova franziu a testa quando Draco escorregou de volta para sua mente. Lábios. — E o Malfoy?
— O que tem ele? — ela respondeu calmamente. — Você mesma disse que ele passa a maior parte do tempo dentro de seu quarto. Além disso, eu tenho certeza de que ele vai ficar mais que feliz por ter um tempo sozinho e eu te recomendo aproveitar ao máximo essa folga. Eu sei que viver com ele deve estar sendo difícil para você.
Você não faz ideia, Professora… e a partir de hoje, vai ser ainda mais difícil…
— É — ela sussurrou, percebendo que tinha mais um segredo e que esse era provavelmente pior. — Nós ainda vamos para Hogsmeade nesse fim de semana?
— Claro — McGonagall acenou. — Eu imagino que muitos dos seus amigos te pediram para trazer encomendas.
Eu só perguntei a Malfoy…
— Não — ela murmurou, fechando seus olhos para esconder a culpa. — Apenas um.
— Você não acha isso triste?
Hermione arqueou a sobrancelha para sua amiga de cabelos claros.
— O que eu acho triste?
— Que todas essas abelhas vão morrer — Luna disse baixinho, se ajustando na cadeira da biblioteca. — Vinte e duas pessoas foram picadas, então pelo menos vinte e duas abelhas morreram.
Ela lançou um olhar fraco mas afetuoso para a amiga e secretamente a agradeceu por prover alguma distração a ela. A biblioteca estava fria e vazia — a não ser por dois alunos do quinto ano escondidos em outro canto — e a noite de inverno começava a projetar seus tons de azul marinho no espaço. Cercada por livros encantadores e pela presença inocente de Luna, Hermione percebeu que seus pensamentos tempestuosos sobre Malfoy se acalmaram um pouco, apesar de ela saber que aquilo era temporário.
— Não se preocupe, Luna, isso é só um mito — Hermione contou para ela. — Apenas as abelhas que produzem mel morrem após picarem e Hogwarts só cria zangões.
— Ah, que notícia boa! — Luna balbuciou, levantando sua cabeça e correndo seus olhos pelas feições da amiga. — Seus lábios estão diferentes, Hermione.
— Não, eles não estão… — a bruxa de olhos castanhos se defendeu. — Eles estão normais.
— Mas sua mão já está melhor — ela continuou. — Talvez você esteja reagindo a algo um pouco mais forte.
Esse era o problema com a querida e angelical corvinal; enquanto seu tom de voz continuava plano, ela podia soltar comentários aparentemente inocentes que te deixariam esclarecida ou paranóica. E aquele era definitivamente o último caso.
— Não consigo pensar em nada — Hermione respondeu duramente. — Mas isso importa?
— Só se estiver te incomodando — ela deu de ombro, virando a página de seu livro. — Você gostaria de dormir na torre da Corvinal hoje? Eu sei que não gosta de ficar sozinha quando está ventando muito.
Era uma oferta tentadora. Ela estava propositalmente adiando seu retorno para o dormitório, para ele, e aquela era uma oportunidade perfeita para prolongar a separação. Mas então sua coragem de Grifinória se tornou um problema; teimosamente dizendo a ela que evitar sua própria casa era uma opção covarde. Seu bom senso também entrou no debate e a lembrou de que teria que confrontar a situação em algum momento e que quanto mais evitasse, pior seria.
— Não, está tudo bem. — Ela suspirou relutantemente. — Eu acho difícil dormir em camas diferentes.
— Ok — Luna concordou, lentamente começando a guardar seus pertences. — Bem, se você mudar de ideia, eu tenho certeza de que vai conseguir desvendar a charada.
— Obrigada. Você quer que eu vá com você até lá?
—Eu prefiro ir sozinha — ela respondeu, se levantando e contemplando Hermione. — Eu não sei o que fez seus lábios parecerem diferentes, mas combina com você, Hermione.
A bruxa mais velha não conseguiu conter o calafrio.
— Você está imaginando coisas — ela respondeu com uma indiferença forçada, incapaz de sentir um pingo de impaciência em relação a garota, enquanto se virava para deixar a biblioteca. — Boa noite, Luna.
—Boa noite — ela respondeu sobre os ombros enquanto desaparecia entre os corredores.
Hermione franziu os lábios e podia jurar que sentiu um pouquinho do gosto de fruta de Malfoy ao fazê-lo. Por Merlin, aquilo estava sendo difícil. Aquele incidente-quase-inexistente acabou transformando-a em uma idiota atrapalhada com pensamentos perigosos que era muito rápidos e muito selvagens para serem realmente pegos. E o pior de tudo, ela não tinha ideia se escolheria apagar aquilo da sua memória ou se toda a confusão valia a sensação prazerosa dentro de sua boca. Aquilo contava como um beijo?
—Ah, foda-se — sussurrou para ela mesma, juntando suas coisas e um bocado de textos sobre magia negra e horcruxes antes de sair da biblioteca.
Os ventos de novembro quase certamente fariam com que ela acabasse dormindo no sofá da sala de novo e duvidava muito de que Malfoy se unisse a ela dessa vez. Ela não sabia como se sentia sobre isso. Enquanto estava relativamente contente por ter o máximo de distância possível dele, as duas noites em que dormira perto de Draco foram as mais longas e mais relaxantes desde que Harry e Rony partiram. Ela dissera a si mesma que era simplesmente porque a companhia dele provia algum tipo de segurança, mas tinha algo hipnótico sobre a respiração dele durante a noite…
Ela pausou ao entrar no dormitório, percebendo que estava tremendo levemente e que seu coração batia alto demais dentro de sua caixa torácica. Ela inalou o ar até que começou a queimar e então o soltou o mais lentamente possível, agitando os dedos das mãos e praticamente comendo seu lábio inferior.
— Godric, me dê forças — murmurou, oferecendo a senha aos leões curiosos. — Ad Lucem.
Com os dedos vibrando e o coração disparado, ela empurrou a porta e encontrou o dormitório completamente escuro. Examinando a confusão de sombras cautelosamente e achando apenas as formas com que estava acostumada, ela caminhou até sua pequena cozinha e concluiu que um chocolate quente acalmaria seus nervos. Assumindo que Malfoy estava em seu quarto e ficaria por lá pelo resto da noite, ela girou os ombros e se permitiu relaxar. Silenciosamente, acendeu algumas velas, apenas para criar um brilho aconchegante antes de dormir, enquanto preparava a bebida quente. A bruxa estava totalmente alheia aos par de olhos de serpente que assistiam a cada movimento seu.
Draco a observava do sofá, sentindo falta da escuridão que o protegia antes da Granger trazer um pouco de luz para o cômodo. Típico. Ela não o notara, o que era estranho, porque ele poderia jurar que ela olhara diretamente para ele quando passou pela porta, mas talvez estivesse mais escuro do que achava.
Assegurando-se de que sua respiração estava calma e estabilizada, ele a observou descaradamente; começando pela grande bagunça de cachos, descendo por sua coluna e terminando no alargamento feminino de seus quadris — que mal podia ser visto sob suas vestes. Ele pretendia incomodá-la agora; talvez assustá-la ou ameaçá-la para seu próprio divertimento e para provar que seu escorregão mais cedo não significava nada. Aquele era o plano, que mais uma vez fervilhava até virar uma névoa distante que lustrava seu olhar enquanto ele estudava aquela bruxa frustrante.
Ela inclinou sua cabeça e esfregou lentamente o canto do pescoço antes de retirar suas vestes e jogá-las sobre a bancada. Ele não pode evitar focar nas alças quase invisíveis do sutiã por baixo de sua camisa branca e ele estava quase totalmente decidido de que ele era azul. Simples e sereno; típico de Granger, mas aquele espasmo entre seus quadris beliscou novamente de qualquer jeito. Ele deixou seu assento cuidadosamente; esgueirando-se em volta dos móveis e das sombras com passos inaudíveis enquanto se aproximava dela.
Talvez se ele pudesse chegar mais perto dela, ele poderia inalar sua fragrância o suficiente para imitar seu gosto…
Repreendendo aquele pensamento perigoso — e a ele mesmo — lembrou-se do quão repulsiva ela era com aquele sangue inferior. A imagem daquele livro trouxa que ela insistira para que ele lesse apareceu atrás de suas pálpebras, mas ele a afastou rapidamente e colocou um tom de zombaria no rosto, apenas para refletir o quanto a desprezava.
E ele a desprezava mesmo. Honestamente; ele a desprezava. Realmente.
E ela precisava saber disso.
Escorregando para dentro da cozinha, ele agora estava perto o suficiente para conseguir tocá-la e aquela bruxa inocente estava alheia a isso até que seu pé arranhou o chão.
Hermione girou tão rápido com o susto que a caneca foi jogada para o outro lado, quebrando na queda e derramando todo o conteúdo no chão com um baque alto. O cabelo dela caiu por sua face; preso entre os lábios partidos e úmidos enquanto seus olhos refletiam uma surpresa tempestuosa. Ela ofegava freneticamente enquanto dava um passo para trás e a mão dele se adiantou para segurar seu pulso.
— Draco v ela engasgou, tentando sair de suas mãos e proteger seu rosto. — O que você...
Mas ela foi interrompida quando ele pegou sua outra mão e posicionou-as severamente em seus lados; fazendo-a dar passos para trás, até que ela estava presa entre ele e a bancada. Ela sentiu pânico borbulhando em seu peito; não porque ela pensava que ele poderia machucá-la, mas porque ele estava perto demais. Sua respiração alarmada sugava aquele cheio masculino e viciante e ela percebeu que seu corpo estava sendo inundado por uma onda de calor enquanto a proximidade deles doía sob sua pele.
Ela assistiu com olhos arregalados enquanto ele parecia vacilar e se afastar um pouco, balançando em seus pés com movimentos pequenos, mas sedutores. O ar estava preso em sua garganta enquanto ele se inclinou sobre ela com sua feição tensa e um rosnado zumbindo em sua traqueia.
— Eu quero deixar algumas coisas claras — ele retrucou sem rodeios e ela se sobressaltou com sua voz. — Eu não te ajudei porque eu me importo com você...
— Eu...
— Cala a boca — ele assobiou cruelmente, segurando seus pulsos com um pouco mais de força. — Eu estou falando muito sério, Granger. Eu sei como essa sua cabecinha patética funciona e estou te dizendo agora que aquilo não significou absolutamente nada.
— Então por que você me ajudou? — ela perguntou do modo mais desinteressado que conseguiu, controlando sua feição. — Por que se dar ao trabalho de...
— Porque eu tive que fazer! — ele gritou. — Se você morresse naquele momento, eu...
— Seria o culpado — ela terminou num tom desapontado. — Só que você não seria. Você não tem magia, Malfoy. Você realmente acredita que te culpariam por uma picada de abelha...
—Eu acho que você e a sua preciosa Ordem fariam qualquer coisa para se livrarem de mim...
— Bem, você está errado. — ela respondeu rapidamente. — Eles não...
— Eu não me importo! — ele cuspiu, aproximando-se um pouco mais. — Eu estou te dizendo aqui e agora que estou pouco me fodendo se você vive ou morre.
Aquilo não devia ter machucado, mas machucou. Ela sentiu algo em seu peito encolher como um pergaminho sendo queimado, mas fez tudo o que podia para não deixar transparecer.
— Você me ajudou, eu te ajudei. — Draco continuou de modo nítido. — Nós estamos quites, então vamos deixar as coisas como estão e voltar a odiar um ao outro.
— Então nós estamos de volta ao início — ela suspirou, odiando o toque de tristeza em seu sussurro.
Draco piscou pensando no comentário estranho enquanto um silêncio pesado e úmido se instalava entre eles. As pequenas bufadas da respiração dela pareciam estar acariciando a pele de seu rosto e ele estava usando todo o autocontrole que possuía para não olhar para a boca dela. Ela parecia tão encantadoramente vulnerável e pequena contra ele; ele podia sentir aquela fome incessante e indesejada começar a embaçar sua sanidade de novo. Ele precisava sair de perto dela…
— Estamos combinados, então — ele rosnou, soltando os pulsos da garota e caminhando em direção ao seu quarto. — E como eu disse, Granger; não deixe esse seu cérebro sobrecarregado pensar muito nisso.
Hermione sentiu o frio abraçando-a rapidamente quando ele se afastou e algo a incomodou enquanto observava os belos músculos dos ombros dele se flexionarem. Ela não estava satisfeita com o modo como ele terminou aquela discussão e a bravura Grifinória combinada com sua própria curiosidade eram uma mistura perigosa em tempos como aquele. A pergunta passou por entre seus dentes antes que pudesse evitar.
— E sobre o que você fez depois de me ajudar?
Ela sabia que sua voz havia vacilado, mas ela não deu a mínima, pois ele parou bruscamente antes de chegar até a porta. O ar do lugar instantaneamente se tornou tenso e seus olhos castanhos estavam fixados nele, enquanto ele lentamente se virava para encará-la com um olhar feroz que tirou seu ar. Parecendo estar alguma coisa entre enfurecido e perturbado, ela se encontrou notando suas feições aristocráticas e irritantemente marcantes. Ele era tão…
— Nada aconteceu — Draco resmungou lentamente, dando alguns passos novamente na direção dela. — Você me escutou, Granger? Nada acontece...
— Talvez eu me lembre das coisas de um modo diferente — ela disse de volta, levantando o queixo em desafio. — Porque eu me lembro...
— Cala essa maldita...
— … que você e eu...
— Não! — ele soltou, perto o suficiente para que seus instintos fossem novamente dominados por ela. — Não aconteceu nada! E nunca vai acontecer nada! Então, cala essa sua maldita boca de san...
— Boca de sangue-ruim? - ela terminou uniformemente, inclinando sua cabeça corajosamente para o lado e cruzando os braços no peito. — Eu sei que eu atingi um nervo seu em relação aos seus preconceitos contra os trouxas, Malfoy, então você pode usar essa palavra bobinha o quanto você quiser, porque eu sei que você está começando a se questionar...
— Você é estúpida demais! — ele rebateu, mas tinha um toque de hesitação ali e ele esperava que ela não percebesse. — Eu detesto você e a sua laia; e você e sua boca de sangue-ruim apenas me provaram o quão malignos vocês todos...
— Bem, você beijou essa boca de sangue-ruim!
— NÃO, EU NÃO BEIJEI!
O par ruborizado e agitado congelou quando seus nariz se tocaram suavemente; olhos dourados e prata confusos e desconexos. Hermione não ousou se mover enquanto a respiração deliciosa dele estava diretamente em sua boca e aquela pulsação quente retornava ao seu peito. Draco parecia horrorizado e talvez um pouco… assustado enquanto o silêncio os envolvia e enquanto ele fazia de tudo o possível para abafar aquele vontade quase instintiva de roubar um pouco mais do gosto dela.
Ele fechou seus olhos.
Sim; definitivamente ele tinha ficado maluco.
Ele agradeceu Salazar pela faísca de sanidade em seu cérebro que o levou de volta para a realidade e o fez se lembrar do que e quem ela era.
Sangue-Ruim. Sangue-Ruim. Sangue-Ruim.
Ele se desviou rápido demais e tropeçou desajeitamente em seus pés, lançando-lhe um olhar de puro desprezo e perplexidade enquanto girava a cabeça. Granger parecia um tanto quanto… tentadora; a boca levemente entreaberta e as bochechas rosadas e a pele de sua clavícula. Humana demais. Normal demais. Merda, ele precisava chegar até seu quarto.
— Nada aconteceu — ele repetiu entre os suspiros de pânico de seu peito. — Você entendeu, Granger? E se algum dia precisar de ajudar de novo, eu juro pelo meu nome como um Malfoy que vou assistir enquanto você sofre e vou aproveitar cada segundo disso.
Suas palavras sombrias e estáveis a atingiram como dardos congelados.
— Draco, eu...
— Fique longe de mim — ele ameaçou em um sussurro baixo, voltando para seu quarto. — Fica longe de mim, caralho!
E Hermione foi deixada sozinha, culposamente se perguntando se teria permitido que ele a beijasse de novo.
Do outro lado da porta, Draco caiu de joelhos e afundou sua cabeça dolorida entre as palmas das mãos, amaldiçoando a garota por tê-lo reduzido àquela patética versão de um bruxo. Sem magia e com sua sanidade relativamente fragilizada, ele determinou que aquele era o ponto mais baixo que já havia chegado em toda sua vida e o pior de tudo era que apenas ela parecia suavizar a tempestade em seu cérebro.
Com essa noção desconcertante nublando sua mente e outra enxaqueca começando, ele teria renunciado as frágeis migalhas de seu orgulho por mais um pouco do gosto dela; se aquilo fizesse com que os demônios que o assombravam em seu sono fossem embora.
Que merda era aquela que ela estava fazendo com ele?
E por que ele sentia que as coisas apenas piorariam a partir dali?
