Capítulo 8
Nova convivência
"Then somebody bendsunexpectedly."
"Beauty and The Beast" – Celine Dion & Peabo Bryson.
Elizabeth e Snape desaparataram na sede da Ordem com diferença de poucos segundos. Ela ainda conseguiu alcançar o homem quando ele subia os degraus do Largo Grimmauld. Entraram juntos, o que não passou despercebido por ninguém, principalmente por Sirius, que não disfarçou o tom malicioso ao cumprimentar a prima. Os pais de Elizabeth apenas acenaram com a cabeça na direção de Snape, Edward o cumprimentou mais efusivamente com um firme aperto de mãos. Porém, o que surpreendeu Elizabeth foi a atitude de sua avó. Valentina adentrou a sala de jantar, foi saudada pelos membros da Ordem e, antes mesmo de falar com sua neta, dedicou sua atenção ao professor.
— Boa noite, Severo — depositou uma mão sobre o ombro do homem enquanto se sentava ao lado dele.
— Boa noite, Sra. Jones. — Snape respondeu muito respeitoso e constrangido com o toque.
Elizabeth observou tudo calada e muito séria. "Severo"? Sua avó realmente tinha chamado ele pelo primeiro nome? A única pessoa que o chamava assim era Dumbledore que, por sua vez, assistia a cena com um sorriso. Elizabeth pigarreou e a avó olhou.
— Olá, minha querida — mandou um beijo para a neta.
Logo após isso, Lupin se aproximou lentamente de Elizabeth, que se assustou com a chegada sorrateira do lupino.
— Eu queria agradecer pela poção, Elizabeth.
— Então funcionou? — Ela comemorou em voz alta, chamando a atenção de Snape.
— Sim — sorriu. — Não sei o que fez de diferente, mas senti menos dor durante a transformação.
— Eu fiz algumas modificações. Te usei como cobaia, me desculpe. — Confessou e olhou de soslaio para Snape, que a encarava muito sério. — Adicionei cúrcuma — declarou com orgulho —, mas ainda estudarei mais sobre a poção. Quem sabe, com estudos, a gente consiga aplacar totalmente a dor.
— Fico feliz de ter sido uma cobaia, neste caso. — Riu. — É uma grande pocionista, Elizabeth. Muito obrigado.
Elizabeth sorriu, se sentou defronte ao professor de Poções e aguardou, silenciosa, o início da reunião.
Observou, em silêncio, enquanto o Sr. Weasley e Ninfadora falavam sobre a situação dentro do Ministério da Magia. Segundo eles, eram poucos os que acreditavam no retorno de Voldemort, porém essas pessoas preferiam se manter neutras, temendo algum tipo de repreensão por parte do alto escalão do Ministério que, por sua parte, continuava a alimentar os rumores de que Dumbledore estava louco.
Lúcio Malfoy era presença constante no Ministério, de acordo com o Sr. Weasley. Fazia doações generosas e mantinha sua influência poderosa sobre muitos dos funcionários. Elizabeth não conseguiu evitar uma leve risada de escárnio. Sabia o suficiente sobre os Malfoy para detestá-los – principalmente Lúcio.
Remo Lupin também contou à Ordem sobre suas tentativas falhas de entrar em contato com alguns lobisomens da região. Durante a reunião, Snape permanecia em silêncio absoluto enquanto mantinha os olhos fixos na superfície de madeira escura da mesa. Contudo, Elizabeth percebeu que, raras vezes, o professor erguia minimamente o olhar para encontrar o dela.
Ela não sabia dizer como se sentia sobre aquilo, sobre ele. Era tudo muito estranho ainda. Num dia ainda o odiava; acreditava fielmente que ele era mais um Comensal da Morte sanguinário, aguardando o momento em que apunharia Dumbledore pelas costas. E, de repente, lá estava ela, mentalmente agradecendo por ele estar a mantendo segura, guardando sua existência em segredo de seu mestre. Mas ainda não sabia dizer o que sentia sobre os olhos de ônix que a fitavam discretamente.
— Severo? — Dumbledore despertou ambos de seus devaneios.
— O Lorde das Trevas tem recrutado novos comensais. — Snape começou a dizer e abandonou os olhos de Elizabeth. — Mas a maioria não recebeu a Marca, o que só dificulta a identificação deles. Creio que o Lorde das Trevas pretende reunir mais seguidores sem o uso da Marca Negra, justamente para facilitar a infiltração.
Elizabeth sentiu algo muito ruim enquanto ouvia Snape falar sobre seu papel como espião. Era como se uma adaga fosse cravada e torcida em seu peito. Sentia-se sufocada e arrepiada de um jeito muito ruim. Então, por um breve momento, quase desejou abraçá-lo.
— Isso dificulta o nosso trabalho. — Alastor Moody sussurrou para todos.
— Realmente. — Snape respondeu, passando os olhos por Elizabeth para depois cravá-los no ex-auror. — O Lorde das Trevas prefere manter esses novatos longe dos comensais para que não possamos os reconhecer.
Uma onda de silêncio pairou sobre os membros da Ordem. Elizabeth manteve os olhos fixos em suas mãos, pensando em tudo o que a guerra causaria àquelas pessoas sentadas consigo. Dumbledore foi quem quebrou o silêncio, colocando suas mãos cruzadas sobre a mesa.
— Bem, neste fim de semana, eu incumbi uma pequena tarefa a Severo e Elizabeth...
— Como assim? — Robert se curvou em direção ao diretor.
— Eles foram até à Alemanha...
— Perdão? — O patriarca dos Jones elevou o tom de voz. — Como você manda a minha filha para fora do país sem a minha ciência?
— Pai! — Elizabeth e Edward repreenderam-no ao mesmo tempo.
— Robert, meu amigo, foi uma missão sem perigo algum. Eu jamais colocaria Elizabeth em risco, sabe disso.
— Você enlouqueceu de vez! — Esbravejou. — Minha filha... Caçula... — Sua fúria era tanta que ele mal conseguia falar.
— Por Merlin, Robert! Para que todo esse drama? — A esposa bufou.
— Cássia! Como pode concordar com isso? — Virou-se, desesperado, para a esposa.
— Pai, eu não sou uma criança!
— Mas eu ainda sou seu pai. Sou responsável por você.
— Eu não acredito que estamos tendo essa conversa. — Afundou o rosto nas mãos. Estava envergonhada pela reação exagerada do pai. — Foi uma missão tranquila, sem risco algum.
Robert sempre fora muito protetor com Elizabeth, pelo menos desde quando ela conseguia se lembra. Não que seu pai não tivesse um cuidado excessivo com o primogênito, aliás, sempre temeu que descobrissem a ascendência da família, mas com a filha sempre foi mais protetor que o normal. Ela podia sentir as bochechas corarem com os olhares sobre a sua família, e quis sair dali. Uma risada rouca e debochada agravou a tensão. Sirius curvou-se sobre a mesa.
— Tio, o senhor tem motivos, sim, de estar preocupado. Eu não deixaria minha filha viajar sozinha com o Ranhoso.
— Sirius... — Edward alertou.
— O senhor seria muito idiota em confiar a proteção da sua filha a um Comensal da Morte. — Continuou em tom raivoso, tocando firmemente a superfície da mesa com a ponta do dedo, pontuando cada palavra. — Me surpreende que Elizabeth ainda esteja viva.
Snape se ergueu bruscamente sendo acompanhado por Sirius, que o encarava com ódio. Edward, Moody, Lupin e o Sr. Weasley levantaram-se também com as varinhas apunhaladas, prontos para apartarem qualquer briga.
— Está me chamando de assassino? — O professor sibilou.
— Por Morgana! Parem com isso! — Elizabeth gritou batendo com a mão fechada sobre a mesa. — Cuidado com o que fala, Sirius. Lembre-se que sua imprudência o trancafiou em Azkaban. — Disse com rancor.
Todos olharam espantados para Elizabeth e para Sirius, que agora tremia de raiva. Snape voltou seus olhos para a jovem bruxa, admirando internamente sua coragem e sentindo um prazer quase culposo por ver seu desafeto sendo confrontado na frente de todos.
— Elizabeth! — Sua mãe a repreendeu.
— O que é isso agora, Eliza? — Black perguntou com um sorriso furioso.
— Precisa aprender a calar a boca — o tom de Elizabeth não tinha nada das implicâncias que tinha com o primo, era duro e cortante. — Não faz sentido ter desconfiança entre os membros da Ordem. Isso nos enfraquece.
— Aonde quer chegar?
— Eu confio em Snape — declarou, mantendo os olhos firmes nos do primo.
Sirius ergueu as sobrancelhas com surpresa. Respirou fundo e olhou de Snape para Elizabeth, balançando a cabeça em descrença.
— Parabéns, Ranhoso — ele se virou para o outro homem. — Você está fazendo um ótimo trabalho. Voldemort deve estar orgulhoso. — E, assim, deixou a sala de jantar.
O cômodo morreu em um silêncio fúnebre. Todos se entreolharam, desconfortáveis com a situação. Snape voltou a se sentar, sendo seguido pelos outros que também estavam de pé. Como se nada tivesse acontecido, Valentina disse:
— Rob, meu filho, eu, como mãe e avó, entendo a sua preocupação. Mas todo esse desespero é dispensável. Elizabeth sabe se proteger sozinha. — Fitou profundamente o filho.
— Eu sei, mas...
— E também sabemos que Snape jamais deixaria que algo de ruim acontecesse a nossa Lizzie. — Interrompeu o filho. — Não é, Severo?
— É claro. — Snape respondeu com uma convicção que surpreendeu até ele mesmo.
Elizabeth e Snape trocaram olhares significativos e assentiram com a cabeça um para o outro. Por trás daquele gesto, por trás da declaração de confiança, por trás da confirmação de que ele a protegeria, por trás dos olhos castanhos e por trás dos olhos negros, eles sabiam... Eles apenas sabiam.
— Como eu dizia — Dumbledore retomou —, enviei Snape e Elizabeth para a Floresta Negra, na Alemanha. Precisava que eles buscassem algo que será de grande valor para a guerra. Elizabeth, por favor.
Ela tirou o cordão do seu pescoço e o depositou em cima da mesa. Os membros da Ordem encararam a joia sem entender, mas Elizabeth viu no rosto da avó, do pai e do irmão que eles também podiam ver o brilho.
— Esta pedra é uma safira. Mas, é claro, não é qualquer safira. — O diretor deitou seus olhos marotos sobre a afilhada, que assentiu.
— Eu sei que as safiras são as pedras de Ravenclaw, e julgando que esta não é qualquer safira...
— Exatamente, Lizzie. Esta pedra, precisamente esta que estamos vendo, foi enfeitiçada pela própria Rowena Ravenclaw.
A Ordem soltou uma exclamação de surpresa e admiração. Elizabeth, então, entendeu porque a pedra brilhava tanto para ela. Conseguia sentir, mesmo de longe, a magia que a pedra emanava. Dumbledore se curvou sobre a mesa, pegou o colar e o guardou no bolso.
— E o que ela faz? — Quem perguntou foi Ninfadora com um olhar curioso.
— Saberemos na hora certa — o diretor se levantou da cadeira. — Por hoje, isso é tudo. Molly, nós adoraríamos ficar para o jantar, mas temos afazeres amanhã. — Justificou incluindo Snape e Elizabeth na sentença, deixando claro que, como chefe, não permitiria que seus funcionários voltassem tarde para ao castelo. Afinal, o dia seguinte já seria segunda-feira.
ooOOooOOoo
O Dia das Bruxas não tardou a chegar. Era uma terça-feira nublada e fria, mas dentro do Salão Principal a comida exalava um cheiro magnífico e a comemoração provocava um calor aconchegante.
Elizabeth roubava mais atenções do que esperava. Para a ocasião, optou por se vestir mais elegantemente. Em cima de um sapato fechado de salto alto, ela trajava um belíssimo macacão vinho. No colo repousava um colar de turmalina azul e usava um chapéu pontudo, fazendo par com Minerva. Naquele momento, ela realmente parecia uma bruxa de sangue puro, e não restou dúvidas para Snape que Elizabeth, definitivamente, era uma Black também.
O professor assistiu a estagiária caminhar com confiança por entre as mesas. Viu quando um aluno da sua casa, Jesse Leambroundi, se levantou para cumprimentar Elizabeth. Eles se abraçaram efusivamente e conversaram um pouco. Snape ignorou o incômodo que sentiu ao vê-los juntos, porém não deixou de achar um absurdo a maneira como o rapaz olhava descaradamente para os lábios de Elizabeth. Snape fechou a cara e balançou a cabeça. Voltou sua atenção para a refeição e sentiu-a se sentar ao seu lado poucos segundos mais tarde. Ele não se demorou no banquete. Na verdade, não suportava mais ter que dividir as refeições com Umbridge.
— Jones, não...
— Não vou esquecer — ela o interrompeu e o fitou com calma. — Não vou me demorar.
Snape assentiu com a cabeça e seguiu para seu laboratório. Elizabeth chegou alguns minutos depois. Tirou o chapéu da cabeça e o colocou em cima da bancada. Ele não comentou nada, mas não conseguiu evitar de achar estranhamente adorável o cabelo bagunçado da jovem. Porém, não conseguiu disfarçar o olhar e, percebendo isso, ela passou as mãos nos fios castanhos procurando ajeitá-los.
— Espero que eu não tenha me atrasado — comentou Elizabeth, enquanto lavava as mãos na pia. — Minerva entrou num assunto muito interessante.
— Termine a poção — disse simplesmente e voltou a atenção para os deveres que corrigia.
Elizabeth trabalhou em silêncio por alguns minutos. Era uma cena até estranha vê-la tão bem arrumada atrás de um caldeirão borbulhante. Snape se perguntou se ela não temia sujar as vestes que parecia terem sido caras. Contudo, ela era uma profissional exemplar, uma ótima pocionista. Cada movimento era preciso e nunca cometia uma falha.
Passada uma hora, Elizabeth limpou sua bancada e suas mãos, informando ao professor que a poção estava pronta. A Amortentia exalava um perfume tentador para Elizabeth, que ficou desconfortável por estar tão próxima do cheiro. O homem se levantou devagar, mas elegantemente. Sua longa capa que lhe dava um ar sombrio não assustava mais a garota que, aos poucos, começava a nutrir um sentimento de admiração pelo seu orientador. Snape se aproximou lentamente e parou do outro lado da bancada.
— Qual é o cheiro que você sente? — Perguntou.
— Perdão? — Ela arqueou a sobrancelha.
Snape apenas lançou um olhar penetrante, deixando claro que não repetiria o que disse. Elizabeth cruzou os braços, inconformada, e reclamou:
— É uma pergunta muito pessoal, sabia?
— Ainda não me respondeu, Jones. Preciso saber se a poção funciona.
Elizabeth o encarou com teimosia, mas suspirou e cedeu, por fim. Aproximou-se do caldeirão e inalou o aroma.
— Eu sinto cheiro de livros, perfume masculino e... ervas. — Sentiu as bochechas corarem. — E você?
— Não é da sua conta — sorriu, provocativo, assistindo com satisfação a face da garota se fechar. — Por hoje é só.
Elizabeth ainda o olhou por mais alguns segundos até ser a primeira a desviar o olhar. Snape voltou para sua mesa e Elizabeth engarrafou a poção. Lavou os utensílios, pegou seu chapéu e caminhou para a porta.
— Tenha uma boa noite — desejou esperando o habitual silêncio como resposta.
— Boa noite, Elizabeth.
Ela parou com a mão na maçaneta. Virou-se e encontrou o professor com a atenção dedicada aos pergaminhos e sua costumeira face de impaciência. Não conseguiu negar a si mesma que seu coração bateu mais rápido ao ouvir o professor proferir seu nome pela primeira vez. Ela lambeu os lábios que estavam secos e respirou fundo. Desejou boa noite mais uma vez e saiu do laboratório.
Nenhum dos dois havia percebido que o cheiro da Amortentia de Elizabeth era o cheiro de Snape. Àquela altura, não havia mais volta. Estavam unidos pelo destino e nem ao menos sabiam disso.
Elizabeth fora dormir tarde, sentindo um calor subir pelo corpo ao lembrar do perfume que sentiu. Do outro lado do corredor, Snape ainda permanecia acordado, segurando um copo de uísque contra os lábios e tentando entender por que sentira um cheiro diferente entre os habituais aromas de Lilian.
