Capitulo 8 – Palácio do Céu Estrelado

Definitivamente Kagura fizera um mau negócio. Estava arrependida de ter aceitado a proposta de Akemi e se juntado à ela no Palácio do Céu Estrelado. As novas roupas e o quarto que cederam à ela não eram ruins, mas a companhia dos outros youkais era entediante, assim como as funções que lhe delegaram.

Fazia uma semana que estava ali e até o presente momento não encontrara algo que tivesse afinidade; Se mostrara um desastre para a culinária e pior ainda se saíra no bordado. Não tinha paciência para artesanato e pintura, nem o conhecimento necessário para desenvolver a caligrafia, o teatro ou a música. Chuya, a criadora daquele lar para youkais, demonstrava estar insatisfeita com o seu desempenho e Kagura já estava a ponto de ir embora, pois esse parecia ser o desfecho inevitável do que viria a seguir. Contudo, por intercessão de Akemi, foi-lhe permitido que auxiliasse o Mestre do Chá daquela casa e essa seria a sua última tentativa por ter chego ao fim dos trabalhos disponíveis, visto que o número de dançarinas estava em seu limite, não sendo desde o início a dança uma opção para ela.

No Palácio do Céu Estrelado a organização era fundamental para o seu bom desenvolvimento. Chuya, a dona da Casa, era a responsável em fiscalizar a função de todos e delegar serviços. Porém, cada área dentro da casa tinha o seu próprio responsável e eles por sua vez tinham autonomia para gerenciar os youkais sob sua responsabilidade, ainda que a palavra de Chuya fosse a final. No total, pelo o que Kagura pôde observar, haviam trinta e sete youkais trabalhando ali e alguns tinham mais do que um encargo por terem o domínio em mais de uma arte. Entretanto, apenas o Mestre do Chá trabalhava sozinho, ainda que todos os youkais que viviam no Palácio devessem saber as etiquetas desta arte. Akemi lhe contara que essa decisão fora tomada devido ao grande número de visitantes que compareciam ao evento mensal que realizavam.

- Nos últimos tempos o número de youkais que nos procuram aumentou – Começou Akemi – Anteriormente a nossa casa servia para que os nobres da nossa espécie apreciassem o que temos de melhor para oferecer. Contudo, nosso projeto adquiriu um novo propósito ao longo dos anos, servindo principalmente nos dias atuais para a formação de novas alianças, inclusive a matrimonial. Apesar de todas nós sermos youkais femininas, com exceção do Mestre do Chá que é o único homem entre nós, nós não restringimos a visitação por gênero e, com as guerras eclodindo em toda a região, tanto as feitas por youkais quanto as feitas por humanos, está ficando mais difícil e mais necessário as uniões entre aqueles com os mesmos valores.

Kagura não compreendeu a explicação de Akemi na hora em que lhe foi dita, porém mais tarde aquelas palavras lhe fizeram sentido, apenas porque Emi, sua colega de quarto, decidiu argumentar sobre as dúvidas que possuía.

- Durante o Festival da Lua Cheia, como chamamos o dia em que abrimos nossas portas ao público, youkais de todo o canto aparecem para celebrar um dia em meio as artes. Nós trabalhamos arduamente todo o mês para apresentar o melhor entretenimento possível aos nossos clientes, iniciando nossas atividades no período da tarde e as estendendo até o amanhecer do dia seguinte. Por sermos um grupo restrito de alta classe, humanos e meio-youkais não são bem-vindos – Pontuou Emi.

- E por que aqui se tornou um centro para formação de alianças? – Questionou.

- Bom, nós somos um lugar seguro. Nosso único interesse é a preservação da arte e não em disputas por poder. Não participamos de guerra e por isso ninguém nos têm como inimigos. O Palácio do Céu Estrelado é um dos poucos lugares em que qualquer youkai de classe superior pode comparecer sem correr o risco de ser atacado, por não tolerarmos violência na casa. Para garantir isso, nós levantamos uma barreira de proteção no dia do festival que anula o poder demoníaco de todos os presentes, deixando-os tão potentes quanto um mero mortal.

- E eles aceitam isso?

- Eles não tem opção. Se quiserem aproveitar o que temos para oferecer, esse é o preço a ser pago, mas também cobramos cinquenta moedas de ouro de cada um para cobrir os custos do nosso serviço. No final das contas, o número de nossos clientes vem aumentando a cada mês. É vantajoso para eles por terem a oportunidade de formarem novas parcerias com grandes guerreiros, lordes e potenciais esposas.

- Qual a finalidade de se formar aliança?

- Depende da intenção de cada um, mas basicamente é para garantir ou adquirir poder.

- E qual nossa função no meio de tudo isso?

- Garantir que eles fiquem à vontade e que não destruam a paz do Palácio, basicamente. Nós iniciamos o festival com leitura de poemas, seguimos para a apresentação teatral, depois para a música. Após finalizado o repertório musical que preparamos, nós fazemos um intervalo para servir o jantar e, após o jantar, continuamos com a dança e a cerimônia do chá. Durante cada uma de nossas apresentações o número de presentes se torna escasso, pois ao longo do dia muitos escolhem ficar em algum de nossos vários quartos disponíveis, sejam para terem conversas privadas para a formação de alianças ou para receber atenção particular de alguma de nossas garotas na falta de companhia.

Ciente de que já recebera informação demais para apenas uma conversa, Kagura optou em silenciar seus pensamentos sobre a divisão de funções durante o referido festival da Lua Cheia e não mais voltou a tocar no assunto. Mesmo porque a sua preocupação principal estava concentrada em encontrar uma função que fosse adequada à sua pessoa naquele lugar antes que fosse expulsa.

O Palácio do Céu Estrelado era praticamente uma vila murada, protegida por uma barreira constante lançada por Chuya. Somente aqueles que eram bem-vindos em sua residência podiam ultrapassá-la, qualquer outro seria repelido por um raio que os atiravam longe. Essa era a vantagem da dona daquele santuário por ter como poder o domínio dos raios. Apesar de Akemi e Emi se referirem com frequência à chefe delas, Kagura ainda não tivera a oportunidade de conhecê-la e nem fazia tanta questão disso. Pelo o pouco que ouvira das únicas duas pessoas com quem tivera um pouco mais de contato, Chuya era uma youkai com mais de mil anos que há mais de trezentos anos optara pela reclusão em seu próprio santuário, apesar de já ter trabalhado em outro no Oeste por tempo indeterminado.

- Ela foi uma excelente dançarina, musicista e atriz – Contou Akemi - Infelizmente ela não divide o seu conhecimento com ninguém, por julgar não haver mérito em coisas facilmente conquistadas – Lamentou – Já tentei vasculhar sua mente em busca de mais informações, mas foi como tentar quebrar uma pedra com um graveto, só que a diferença entre Chuya e uma pedra, é que a pedra não tenta te matar quando você arrisca romper sua camada de proteção.

Como Kagura descobrira pouco depois de encontrar Akemi pela primeira vez, a mulher tinha uma elevada habilidade mental, podendo ler e controlar os pensamentos de qualquer um que ela desejasse sem que eles desconfiassem que ela estava por trás dessa faceta. Claro que Chuya era uma exceção ao seu poder.

- Você lê a mente de todos? – Kagura questionou, um pouco desconfortável com a possibilidade de se tornar um alvo.

- Só quando alguém demonstra ser uma possível ameaça ou quando estou entediada – Akemi respondeu com um sorriso ingênuo – Contudo só consigo usar meus poderes se puder tocar em meu alvo ou se tiver acesso aos olhos da pessoa.

- Você usou seus poderes em mim?

- Claro – A mulher demonstrou-se surpresa com a dúvida de Kagura – Precisava saber se era seguro trazê-la para cá e basicamente apostei na sorte – Confessou – Não havia nada em sua mente que fosse vagamente relevante, mas fiquei curiosa com o fato de você ter tão poucas lembranças e nem mesmo fazer ideia do porquê – Akemi deu de ombros – Independente de qualquer coisa, espero não me decepcionar com você.

A única pessoa que Kagura desejava não decepcionar no momento era o Mestre do Chá. Por mais chato que fosse o serviço ou mais entediante que fosse o seu companheiro de função, ela não estava disposta a aceitar a sua incompetência. O que a fazia desejar continua ali não era o medo de não ter para onde ir, mas sim ter que aceitar que não possuía nenhum talento digno como os que aqueles de sua espécie possuíam.

- Você é bem competitiva, não é mesmo? – Comentou Akemi em voz alta, demonstrando estar admirada com o que captava nos pensamentos de Kagura.

- Você nem imagina – Kagura sorriu com o canto dos lábios repuxados, tentando disfarçar o nervosismo que crescia dentro de si desde que Akemi a encontrara varrendo o jardim e decidira interromper a atividade que estava executando para acompanhá-la até os aposentos do Mestre do Chá.

- Provavelmente você se dará bem com o Byakuya – Apontou Akemi – Ele é bem peculiar, porém tem uma energia semelhante à sua – Tomando uma mão de Kagura e passando-a em volta de seu próprio braço, a mulher sorriu ingenuamente para a companheira – Qualquer dúvida que possa ter referente à ele, é melhor que pergunte pessoalmente.

Kagura pôde perceber que Akemi demonstrava sentir prazer em confundi-la com suas observações e não era preciso ter o mesmo poder mental da outra para saber que enfrentar o Mestre do Chá será a maior de suas provações no Palácio do Céu Estrelado. Pelo menos por enquanto, concluiu mentalmente, arrancando um novo sorriso de Akemi que acompanhava toda a sua linha de pensamento e demonstrava concordar com ela, visto que não se deu nem ao trabalho de defender-se das acusações recebidas.