Capítulo Oito
St. Mungo's
Hermione foi encontrada, ao acaso, por Percy Weasley. A senhora Malfoy pareceu bastante satisfeita por ver-se livre dela ou, talvez, ficara feliz em entregá-la só para se livrar de um traidor de sangue. O senhor Malfoy e Hydrus estiveram distraídos demais com seus ferimentos — um nariz ensanguentado e um lábio inchado, respectivamente — para fazerem ou dizerem qualquer coisa, e Draco ficara em silêncio, exceto por um " a gente se vê no trem" superficial.
Hermione apertou melhor o roupão que a senhora Malfoy lhe emprestara — ou, melhor, lhe dera, porque Hermione duvidava que ela o aceitaria de volta — ao redor do corpo e seguiu Percy para longe da barraca.
O acampamento estava um caos diferente de mais cedo; os Comensais da Morte tinham ido embora e havia muito menos feitiços sendo lançados; por outro lado, havia várias pessoas indo de um lado para o outro, tentando guardar suas barracas destruídas ou chamando por familiares e amigos desaparecidos. Hermione se aproximou um pouco mais de Percy.
— Você está bem? — perguntou ele. Hermione assentiu, os olhos em uma garota que chorava e chamava por seus pais, sendo seguida por um Auror preocupado.
— Você sabe onde os outros estão?
— St. Mungos — respondeu Percy, os cantos da boca curvando-se para baixo. O estômago de Hermione, que se contorcera por toda a hora que passara na barraca dos Malfoy, congelou. — Eu não sei os detalhes — continuou ele, a voz um pouco rouca. — Eu fiquei por aqui pra te encontrar e agora vou pra lá, mas posso te deixar em casa antes se preferir...?
— Não — falou Hermione, tão rápido que Percy ergueu as sobrancelhas; ela só podia imaginar o que seus pais diriam se aparecesse com um roupão emprestado por cima de suas roupas rasgadas e chamuscadas. Era melhor que eles não descobrissem. — Eu... er... quero ver o pessoal.
Felizmente, Percy pareceu acreditar. Ele a guiou pelo acampamento, até o local onde um grupo de funcionários do Ministério tinha montado uma estação de Chaves de Portal.
— É mais rápido assim — murmurou ele quando ela o olhou duvidosamente. — Imagino que a entrada normal esteja lotada hoje.
Mal ele acabou de falar e se apoiou pesadamente em seu ombro. Hermione soltou um gritinho de susto e fez seu melhor para segurá-lo.
— St. Mungos? — perguntou um dos bruxos, permitindo que passassem.
— Por favor — falou Percy, rouco, arrastando os pés. Uma bruxa se aproximou e colocou uma escova de cabelo na mão de Hermione. Percy esticou a mão, fraco, e pressionou um dedo na escova, que emitiu um brilho azul e os levou embora.
Hermione tropeçou ao chegarem, e Percy — em pé e saudável — segurou seu braço para equilibrá-la. Eles estavam em uma sala de espera de paredes brancas, cheia de pessoas enlameadas e ansiosas, que usavam cachecóis, camisetas e suéteres de vários times de Quadribol.
— Por aqui — falou Percy.
— Você acabou de fingir...?
— Minha família está aqui e eu não sei por que — falou Percy rapidamente. — Não ia perder tempo tentando negociar uma Chave de Portal...
— Com licença! — Uma Curandeira em vestes verde-limão se materializou na frente deles com as mãos na cintura. — Vocês terão de esperar...
— Percy Weasley — falou Percy. Ele se esticou, abaixando a cabeça para olhar para a Curandeira como se ainda fosse o Monitor-Chefe e ela fosse uma estudante pega fora da cama depois do toque de recolher. — Minha família está aqui. — Os olhos da Curandeira foram para seu cabelo e ela pediu licença por um momento. Quando ela voltou, tinha uma expressão séria, e o coração de Hermione se apertou.
— Danos Causados por Feitiços — disse ela. — Quarto andar. — Tenso, Percy assentiu seu agradecimento e levou Hermione até os elevadores.
Eles subiram em silêncio e saíram em um corredor vazio, exceto por Harry e Marlene, que conversavam em voz baixa. Harry já observava o elevador — Hermione supôs que ele o ouvira — e fechou os olhos brevemente ao vê-los, parte da seu tensão pareceu sumir. Hermione tropeçou na barra do roupão longo demais e jogou os braços ao redor dele.
Ele retribuiu o abraço, e Hermione sentiu lágrimas cutucarem seus olhos; ela estava segura, e Harry estava ali e ele também estava seguro. Percy murmurou algo que Hermione não entendeu.
— ... é claro — disse Marlene. — Avise Bill e Arthur que podem parar de procurar e que podem sair do acampamento; Percy encontrou Hermione e ela está conosco. — Houve um forte brilho de luz prateada.
— Draco? — perguntou Harry.
Hermione se afastou e secou os olhos.
— Seguro com sua família — respondeu ela. Harry assentiu. Atrás dele, Percy atravessou o corredor, apressado, e o coração de Hermione subiu para sua garganta, ameaçando sufocá-la.
— Quem...?
— Ron, Fred e Charlie — disse Harry, desgostoso. — Eles estão bem. — Seus olhos foram para a porta mais próxima deles, ao lado da qual estava Marlene, e sua expressão mudou. — E Dora.
— Dora? — perguntou Hermione, sentindo-se nauseada; Harry não tinha dito que ela estava bem, nem o bebê. — Mas... o bebê?
— Não... — Ele pigarreou e desviou os olhos. — É ruim, acho.
— Oh, Harry. — Hermione o puxou para outro abraço, ficando na ponta dos pés para que ficassem com a mesma altura e ele pudesse descansar a cabeça em seu ombro. Ele tremia, a respiração entrecortada e irregular, como se tentasse não desmoronar. Em todos os anos em que se conheciam, ela o vira bravo, assustado, insistente, preocupado e magoado, mas achava nunca tê-lo visto assim. Sentiu vontade de chorar, mas sabia que Harry acharia que precisava consolá-la, por isso se controlou.
— Ainda há uma chance — falou Marlene em voz baixa, atrás deles. Ela ergueu o braço e correu os dedos pelo cabelo de Harry antes de apertar o ombro de Hermione. Seus olhos estavam escuros e cansados, e ela não parecia muito esperançosa.
Harry pigarreou e se afastou, os olhos secos, mas avermelhados.
— É melhor irmos avisar aos outros que você tá bem — disse ele. Como Percy já tinha se juntado aos outros, Hermione estava certa de que eles já sabiam, mas se Harry queria um motivo para ir para outro lugar, então ela permitiria.
— Tá — disse. Harry olhou para Marlene, que o puxou para um abraço lateral.
— Assim que tiver uma novidade — disse ela, respondendo à pergunta silenciosa que estivera no rosto dele.
Os Weasley ocupavam um quarto inteiro. Ron estava na cama à esquerda, pálido, e Ginny e George estavam sentados em cadeiras no espaço entre a cama dele e a de Fred — Ginny dormia, e George parecia prestes a fazer o mesmo. Fred estava apoiado em vários travesseiros, sem camiseta, com um horrível hematoma arroxeado cobrindo a maior parte de seu ombro, o braço numa tipoia. Percy tinha se acomodado numa cadeira entre George e a cama de Charlie, que tinha um olho roxo e uma queimadura na bochecha esquerda e pescoço. Ele estava sendo cuidado pela senhora Weasley, pelo menos até ela notar Hermione e Harry.
— Hermione, querida — disse ela, puxando-a para um abraço. — Estávamos tão preocupados...
— Estou bem, de verdade — disse Hermione. A senhora Weasley deu um tapinha em sua bochecha e puxou Harry para um abraço.
— Senhora Weasley, você já me viu — disse ele, mas Hermione não achava que ele se importava.
— Você pareceu precisar de mais um — disse ela, e Hermione podia jurar que Harry a abraçou com um pouco mais de força.
Hermione se virou, os olho indo para Ron, e ela se pegou lacrimejando mais uma vez.
— Eu tô bem! — disse Ron, apressado. — Um pouco maltratado, mas tô bem de verdade, Hermione. Não chore...
— Nós te perdemos — disse ela, sentando-se na ponta da cama dele. — Eu fiquei tão preocupada... — De perto, ela conseguia ver que Ron tremia levemente e não achava que era de emoção. Secou os olhos. — O que fizeram com você?
— Nada — disse ele. — Você tinha que ver o outro cara.
— Mesmo? — perguntou Hermione, fungando.
— Mesmo. Ele tava um caco quando Marlene e Dora acabaram com ele. — Hermione soltou uma risada trêmula, e Ron pareceu satisfeito consigo mesmo, mas seus olhos ficaram um pouco opacos quando ele mencionou o nome de Dora. Hermione segurou sua mão, tanto para confortar a ele quanto a si mesma. Ron apertou seus dedos.
— Draco está bem — disse ela.
— Bom — falou Ron. — Se bem que... er... O Malfoy pode estar com pena dele mesmo. — Hermione, que tinha visto Hydrus na barraca e sabia que esse era mesmo o caso, apenas ergueu as sobrancelhas. — Pode ser que eu tenha dado um soco nele — falou. — O idiotinha bocudo.
— Ron!
— Como se você pudesse falar — disse ele, sorrindo, e Hermione riu, um pouco envergonhada. Ron voltou a sorrir e, aí, olhou por cima do ombro dela e ficou sério. Só por sua expressão, Hermione sabia que ele olhava para Harry. — Alguma novidade sobre Dora?
— Harry disse que não estava bom. — O rosto de Ron se abateu. Como se tivesse sido convocado por seu nome (e com sua audição, era mesmo provável), Harry se aproximou e se sentou ao lado de Ron na cama, Hermione se ajeitando para lhe dar espaço para esticar as pernas.
Bill e o senhor Weasley entraram no quarto, os dois parecendo cansados, e Hermione sentiu-se igualmente culpada e agradecida; eles estiveram procurando por ela no acampamento, se fosse se basear no Patrono de Marlene. O senhor Weasley lhe deu um tapinha no ombro e foi se sentar na ponta da cama de Fred para perguntar como ele se sentia. Bill tinha ido até Charlie e os dois riam baixinho de algo que Hermione não conseguia ouvir.
Eles estavam vivos e seguros, e os Curandeiros faziam o que podiam por Dora e o bebê. Tinha sido um dia impossivelmente longo — parecia que anos tinham se passado desde que dividiram uma Chave de Portal com os Diggory e chegaram à Copa Mundial — e as pálpebras de Hermione começavam a pesar.
Na cadeira ao seu lado, Ginny começou a se mexer e a sibilar, ainda adormecida, e Hermione acordou com um sobressalto, perturbada. George também olhou para ela, franzindo o cenho. O rosto de Ginny se enrugou e, por um momento, Hermione achou que ela fosse gritar ou chorar, mas Harry se inclinou e a balançou.
Ginny se virou para ele, ainda sibilando, aí piscou e olhou ao redor, sonolenta.
— Pesadelo, Gin? — perguntou George.
Ela assentiu, resmungando algo que podia ter sido um pedido de desculpa, e voltou a se acomodar em sua cadeira, os olhos cansados, mas teimosamente abertos. Aí ela resmungou mais alguma coisa — dessa vez, Hermione não tinha a menor ideia do que tinha sido —, mas Harry assentiu e ela imaginou se Ginny falara com ele.
Hermione achou ter cochilado de novo, apesar de não saber por quanto tempo, porque quando se deu conta, viu que estava encolhida no pé da cama de Ron e podia ouvir a voz da senhora Weasley:
— Quem não for um paciente — dizia ela, gentil, mas firme: — tem que ir dormir em casa. — Dormir era uma ideia maravilhosa para Hermione, que se levantou de seu travesseiro grumoso (as pernas de Ron, escondidas pelo cobertor), sentando-se com um bocejo. Ron tinha dormido apoiado no ombro de Harry, que não parecia ter dormido. Ginny se levantou, parecia que a única coisa que a mantinha acordada era pura força de vontade.
— Você também, George, querido — falou a senhora Weasley, e George olhou para sua mãe de uma forma que a desafiava a forçá-lo a deixar seu gêmeo. Eles se olharam (ou, no caso de George, encarou) até a expressão da senhora Weasley se suavizar e ela fazer um gesto de desistência.
Hermione foi para o corredor atrás de Ginny, Bill e Percy, enquanto a senhora Weasley desejava uma boa noite aos que ficavam.
-x-
Ele estava irritado, mas entendia — essa era a única coisa que mantivera Wormtail vivo. Polkov tinha sido um aborrecimento, não soubera seu lugar, mas ele tinha sido útil e perdê-lo era outro contratempo... Era um contratempo menor do que se ele tivesse sido capturado vivo e forçado a revelar a localização de Lorde Voldemort ao Ministério, mas ainda assim um contratempo.
Lorde Voldemort não gostava de contratempos, e ele não ia...
— Psiu.
E, simples assim, ele voltou a ser Harry. Cansado, piscou e olhou para a porta, para quem fizera o barulho. Ele não tinha dormido, mas estivera cansado o bastante para que os pensamentos de Voldemort achassem o caminho até sua mente, e estivera ocupado demais ouvindo o que Voldemort tinha a dizer e os gritos de Wormtail para ouvir Padfoot chegar; ele estava apoiado no batente da porta do quarto dos Weasley, os olhos escurecidos de exaustão e fixos nele. O terror tomou Harry ao vê-lo, mas aí percebeu que ele não parecia mais triste do que estivera quando o vira pela última vez e relaxou. Padfoot inclinou a cabeça, como se dissesse venha aqui, claramente sem querer falar e acordar os Weasley.
Harry saiu da cama de Ron com cuidado; quando Hermione saíra, ele se acomodara ao pé da cama. Ron nem se mexeu, tampouco os outros Weasley. Harry foi se juntar a Padfoot no corredor.
Seu cheiro era cansado — o que era esperado, já que só Merlin sabia que horas eram —, drenado e triste, e ele puxou Harry para um abraço assim que o alcançou.
— Dora? — murmurou Harry contra as vestes de Padfoot.
— Melhor... ela é durona — sussurrou Padfoot. Harry soltou um suspiro de alívio. Padfoot o soltou e colocou uma mão em seu ombro para guiá-lo pelo corredor... mas para longe do quarto de Dora, não para ele.
— Aonde...?
— Eu preciso de chá e comida — falou Padfoot. — Achei que você talvez quisesse também. — Harry estava cansado demais para sentir fome, mas seguiu seu padrinho mesmo assim.
— Como está o bebê? — perguntou. Os cantos da boca de Padfoot se curvaram para baixo, mas a dor em seu cheiro era pior. O estômago de Harry se apertou dolorosamente.
— Estão fazendo o que podem — respondeu Padfoot, mas sua voz estava tão triste que Harry não conseguiu tirar nenhum conforto de suas palavras.
Não voltaram a falar até chegar ao Salão de Chá. Eram os únicos lá, exceto pela bruxa no caixa, mas ela apenas anotou seus pedidos e voltou-se para a longa carta que escrevia atrás do balcão. Padfoot tinha uma xícara grande de chá à sua frente e cortava um enorme muffin de mirtilo. O muffin de Harry estava intocado, e ele tomou um gole do seu chá fraco e o afastou, pensando no bebê. Padfoot observou o movimento.
— Desculpa — disse ele. Harry o olhou. — Parece que toda vez que algo acontece, eu acabo sendo pego em outras coisas e não consigo ver se você está bem. — Ele devia ter sentido o cheiro da confusão de Harry, porque continuou: — Depois do fim do semestre, eu não estava bem para poder fazer algo por você e hoje eu fiquei com a Dora. Nós ainda não conversamos sobre o semestre passado, mas você parece estar bem, por isso não insisti, mas hoje eu não queria te deixar...
— Eu tô bem — falou Harry, ainda confuso.
— Você viu um homem morrer.
— Voldemort não ficou feliz — falou Harry. Padfoot tinha uma expressão estranha no rosto. — Não por eu ter visto — esclareceu e, se as circunstâncias fossem outras, teria rido da ideia de Voldemort ter ficado chateado por Harry ter sido exposto a qualquer tipo de horror —, mas só por ter acontecido.
— Honestamente — falou Padfoot —, por enquanto eu não ligo muito pro que Voldemort pensa. Mas eu ligo pro que você pensa, se você está chateado com o que viu...
— Não estou — falou Harry e estava certo de que era a verdade. — Digo, não é o que eu queria que acontecesse, porque eu esperava que a gente conseguisse algumas respostas com ele, mas... bem, é uma pessoa a menos para enfrentarmos, uma pessoa a menos ajudando o Voldemort ou machucando o pessoal do nosso lado... ou qualquer pessoa, na verdade... Eu... eu sei que não é algo bom, mas... bem... também não é algo ruim. — A expressão de Padfoot era desgostosa e, subitamente preocupado, Harry adicionou: — Né?
Era uma pergunta honesta, uma que não lhe ocorrera até aquele momento.
— Não — falou Padfoot lentamente. — Não é algo ruim. — Harry assentiu, aliviado. Padfoot o estudou. — Por que não tinha certeza? — Harry deu de ombros, os olhos no muffin. O pé de Padfoot encontrou o seu sob a mesa e o cutucou uma, duas, três vezes, até que, relutante, Harry ergueu a cabeça. Os olhos de Padfoot eram gentis, mas curiosos. Incapaz de olhá-los por muito tempo, Harry voltou a baixar os olhos.
— Só... sei lá, talvez eu devesse estar chateado ou abalado ou qualquer coisa assim. Talvez eu passei tanto tempo sonhando que sou... ele, que comecei a pensar como ele pensa. — Não conseguiu se forçar a olhar para Padfoot, preocupado com o que veria: se ele estaria pensando no que tinha acabado de dizer, ou pior, que ele estivesse assentindo sua concordância.
— Não sei se você deveria estar chateado ou abalado — falou Padfoot depois de um momento. — Só você sabe o que sente e se você está bem, então eu também tô. Já sobre pensar como Voldemort... Eu acho que pensa mesmo, em alguns momentos. — Harry poderia ter vomitado se seu estômago não estivesse vazio. A única coisa que o impediu de sair correndo da mesa era que Padfoot não parecia bravo nem enojado. — Quando você tava falando com o Polkov — continuou —, as coisas que estava dizendo... você o entende, a forma que ele pensa. Com o jeito que as coisas estão, com a gente numa guerra ou a caminho de uma... Não acho que seja algo ruim.
Padfoot arrastou um pedaço de muffin pelo prato e ergueu os olhos.
— Em outros momentos, você não é nada parecido com ele. Voldemort não teria entrado na frente de seus seguidores da forma que você fez por mim hoje... ou... ontem. — Padfoot fez uma careta. — Você sabe o que quero dizer. E garanto que ele não passou uma noite sem dormir, esperando para saber se o seu pessoal tá bem. Certo?
— Certo — murmurou Harry. — Por falar em eu ter ficado entre você e Polkov... — Olhou para o rosto de Padfoot e ficou surpreso e aliviado por ver que ele parecia curioso, não irritado nem exasperado. Padfoot pareceu adivinhar o que estava pensando, porque ele abriu um sorriso irônico. — Por que você desfez o Corpo-Preso em mim em vez de simplesmente lidar com ele? Ele ainda não tinha te atacado, você poderia...
Padfoot suspirou e recostou-se em sua cadeira, esfregando as bochechas e o queixo com uma mão, e disse:
— Ele só precisava encostar em você e teria acabado. — Ele balançou a cabeça. — Era um risco que eu não quis correr.
— Mas por ter me ajudado, você foi atingido — falou. — Se tivesse sido a Maldição da Morte e não...
— Eu sei. — O rosto de Padfoot estava amargurado e seu cheiro deixava claro que qualquer outra palavra sobre o assunto seria desnecessária e indesejada. Harry mexeu seu chá frio, tentando em vão não pensar em todas as possibilidades.
— Eu preciso ser melhor — falou Harry por fim. Padfoot ergueu as sobrancelhas. — Ontem à noite, eu... Com o Charlie, eu fui inútil. Eu conheço feitiços que são perigosos demais — pensou no sectumsempra de Snape ou no incendio que aprendera quando era criança. Com Charlie, tinha visto como o fogo podia ser útil, mas Harry não sabia controlá-lo, o que não fizera diferença contra os Inferi na caverna, mas no acampamento, onde havia tantos inocentes por perto... — ou não prestam para duelos, são apenas... e contra várias pessoas... A coisa mais útil que eu pude fazer foi deixá-lo para que eu não fosse uma distração e tentar atrair alguns deles.
— Acho que Charlie deve ser anormalmente habilidoso — falou Padfoot. — Digo, eu tenho tentado te convencer a fugir desse tipo de coisa há anos... — Harry rosnou. — De mau tom?
— Só um pouco — murmurou Harry.
— Fico feliz que você não tenha fugido hoje — falou Padfoot depois de uma pausa. — O padrinho em mim está horrorizado, é claro, mas já é a segunda vez que sua presença me manteve vivo.
— Segunda? — perguntou Harry, cauteloso.
— Eu sei sobre o semestre passado — falou Padfoot. — Snape me contou.
— Ah. — Harry se remexeu, desconfortável. Padfoot não tinha mencionado o assunto, então Harry não sabia o que lhe fora contado ou o que ele lembrava. E Harry (que tinha desobedecido, que tinha ido desarmado defender Padfoot, usado a varinha dele para lançar um feitiço das trevas em Wormtail) não ficou completamente triste ao permitir que o assunto não fosse discutido.
Antes que um deles pudesse falar mais alguma coisa, a porta do Salão de Chá rangeu ao ser aberta, e Harry e Padfoot olharam para ela ao ouvirem os passos conhecidos; Moony.
Ele estava horrível — pior do que no dia seguinte de qualquer lua cheia que Harry já tinha visto —, mas, apesar de tudo, havia uma estranha intensidade nele, que foi direto para a mesa deles. A bruxa, que mordia a ponta da pena atrás do balção, nem sequer ergueu os olhos.
Preocupado, Harry cheirou o ar, mas não havia luto no cheiro de Moony, só uma estranha determinação.
— Marlene tá indo trabalhar se quiser falar com ela — avisou Moony. Padfoot o observou por um momento, então assentiu e se levantou, esfregando os olhos.
— Acho que vou com ela — falou. — Merlin sabe que vão precisar de todo mundo hoje. — Bagunçou o cabelo de Harry. — Você pode ficar aqui com o Moony, ir pra casa pelo Flu ou pedir pro Monstro te levar, tá?
— Tá bom — respondeu Harry. Moony se sentou na cadeira vazia em frente a Harry quando Padfoot foi embora. — Muffin? — ofereceu Harry, os olhos na porta.
— Obrigado. — Moony arrancou um pedaço e o colocou na boca. — Como está?
— Eu? — perguntou Harry, perplexo. — Moony, não se preocupe comigo, eu tô bem... se preocupe com você mesmo, com Dora e com seu filho... — O sorriso de Moony era fraco, mas afetuoso.
— Estou preocupado com Dora e meus dois filhos — disse Moony —, mas você é o único que posso cuidar no momento, então aqui estou. — A garganta de Harry se apertou de repente, não por estar emocionado com as palavras de Moony (apesar de estar), mas por causa do horrível cheiro de impotência que emanava dele.
— Eu tô bem — falou. — De verdade.
— Sirius me contou sobre Polkov, e Marlene disse que Ron, Fred e Charlie se machucaram.
— Eles vão ficar bem — garantiu Harry. — Polkov nem tanto, mas... — Deu de ombros, e Moony pareceu entender.
— Fico feliz. — Moony o estudou. — Eu me preocupei que você estivesse se culpando e preparei todo um discurso para te fazer recuperar o bom senso se Sirius não tivesse conseguido. Ia ser uma vingança pela noite no... — Moony pigarreou — acampamento.
Harry se lembrava vivamente; tinha sido na noite que descobrira que Dora estava grávida, que Moony tinha fugido e que tinha ido gritar com ele por causa disso. Tentou sorrir, mas não conseguiu. Moony esfregou os olhos, e Harry sentiu um cheiro salgado.
— Desculpa — falou Harry, engolindo. — Isso não deveria... Não é justo que... — Pigarreou e abaixou os olhos, tentando de novo. — O bebê, ele... — Não encontrou as palavras.
— Ela — falou Moony, rouco, quebrando o silêncio que se seguiu. Harry ergueu os olhos. — Uma garota se... se ela... — Ele secou os olhos novamente e fungou.
Harry, cuja visão também estava embaçada, levantou-se e arrastou sua cadeira para se sentar ao lado de Moony.
E lá eles ficaram, lado a lado, no Salão de Chá bem iluminado de St. Mungos, esperando, torcendo, até uma Andromeda Tonks chorosa ir procurar por Remus.
Continua.
N/T: Obrigada a quem comentou até agora!
Gente, pra esse ano é isso. Vou me dar duas semaninhas de férias, mesmo vendo que vou deixar vocês numa parte meio sacana. Mas tenho que dar motivo para vocês voltarem, né? hahahahaha
Enfim, gente, é isso. Dia 08/01 eu tô de volta. Bom fim de ano (sem aglomerar, hein, galera!) e que 2021 seja melhor para todo mundo.
Até mais.
