Sentada em uma cama de casal, encontrava-se uma bebê. As roupas que usava eram confortáveis e, bastou que o pente passasse uma última vez por seus cabelos arrepiados e castanhos para indicar que em breve estaria em seu berço.

— O que acha de um teatro antes de dormir, Sumiko-chan?

A criança não demonstrou interesse ao ver a mulher segurar uma fruta em cada mão. Apesar de não mostrar entendimento de qual era a finalidade de tudo aquilo, os olhos castanhos se mantinham fixos nas frutas com expressões rabiscadas, se movendo de um lado para o outro de acordo com cada situação.

Durante o teatro, a pera virou seu rosto alegre para a criança e, com sua voz suave, fez uma observação:

— Senhor tangerina, não acha que Sumiko-chan deveria sorrir mais? — O tom da voz então se agravou, tentando simular ao máximo uma voz masculina. — Claro, Sumiko-chan ficaria ainda mais bonita.

A criança então esticou os bracinhos, tentando alcançar a tangerina na mão da mãe, que de bom grado, entregou a fruta. Os dedinhos curiosos passaram pela casca laranja e, para a surpresa da mulher, eles se enterraram na fruta, conseguido perfurá-la superficialmente.

— Sumiko-chan… — Suzume murmurou chateada.

— Já é a terceira hoje. — Sumiko foi pega no colo pelo homem que acabara de entrar no quarto. — Você está ficando muito forte. — Ele brincou.

Assim que a tangerina foi pega e devolvida à mãe, a criança não pôde deixar de olhar contrariada para o homem do qual tinha herdado os traços físicos e cabelos desgrenhados.

— Não olhe assim para mim — pediu Clear. — Aquela tangerina tinha razão, você deveria sorrir mais.

A bebê piscou preguiçosa e os pais se entreolharam com sorrisos calorosos – a hora de dormir havia chegado.

Após subirem as escadas e rumarem em direção ao quarto da filha, algo chamou a atenção do casal. No quarto ao lado, a porta estava ligeiramente aberta.

— Eu não me lembro de ter deixado a porta aberta. — Clear se preocupou.

Ambos deram uma olhada, esperando se depararem com um menino na cama, mas a única coisa que acharam em cima dela foi um melão com uma carinha feliz desenhada na superfície.

— Poxa, Ren. — Clear murmurou cansado.

— Acho que já sei onde ele está!

Clear observou Suzume sair correndo e descer as escadas. Ele poderia aproveitar para ir na frente e tentar fazer a filha dormir.

— Parece que somos só nós dois por enquanto, Sumiko.

Ele olhou para a bebê esperando ver uma típica cara de tédio ou, quem sabe, uma rara risadinha; entretanto a pequena esperança de ver a filha rindo desapareceu ao perceber que ela já havia dormido em seus braços.

— Pelo menos você não parece tão séria dormindo. — Ele sussurrou ao perceber as feições de Sumiko relaxarem.

Aproveitando aquela situação inesperada, tratou de ir para o quarto da criança para colocá-la no berço.

Enquanto isso, Suzume chegou no pequeno jardim atrás da casa e encontrou a criança desaparecida, ajoelhada perto de uma planta que ficava em um canto próximo à cerca. Ficou curiosa, afinal ela pôde perceber que, recentemente, Ren adquiriu um interesse por aquele canto do jardim e sempre que a oportunidade - ou tédio - aparecia, o garoto partia para lá.

Se aproximando sorrateiramente, ela pôde ver o que prendia o interesse do menino. Se ajoelhou ao lado dele, observando a lagarta pendurada em um dos galhos de uma planta. Atento demais à criatura, Ren só percebeu a presença da mãe ajoelhada ao seu lado quando sentiu uma mão pousar em sua cabeça.

Suzume afagou os cabelos brancos da criança, sentindo sua mão esbarrar nos pequenos chifres escondidos entre a cabeleira. Em se tratando de aparência, o garoto de seis anos era idêntico ao pai, alguns inclusive diziam que ele era uma versão em miniatura do original.

— O que estamos fazendo aqui tão tarde? — Ela perguntou gentilmente.

O menino apontou triste para a lagarta pendurada na planta.

— Já está a muito tempo desse jeito... está morta? — Ele perguntou preocupado para a mulher, que ao escutar a pergunta deu uma risada.

— Não se preocupe, Ren-kun. A senhora lagarta só vai dormir por um tempo e, quando você menos esperar, nascerá uma bela borboleta em seu lugar. — Ela gesticulava alegremente.

O garoto olhou confuso para a lagarta paralisada e então de volta para a mãe.

— Ela não se parece nem um pouco com uma borboleta, mamãe…

— Não é bem assim, Ren-kun... — Ela cutucou a bochecha pensativa e tentou explicar. — Sabe, enquanto estiver dormindo, a senhora lagarta vai passar por uma transformação...

E então, Suzume usou todos os seus conhecimentos para explicar ao filho como aquela fase da vida da criaturinha funcionava. Estava longe de ser uma explicação minuciosa sobre o assunto, mas conseguia transmitir o básico para ele.

Ela percebia os olhos de Ren brilharem a medida que chegava ao final de sua explicação e, sabendo da curiosidade intrínseca do filho, tinha certeza que ele acompanharia a transformação da lagarta todos os dias naquele jardim.

— Assim, elas acabam se transformando em outro ser completamente diferente. — A explicação de Suzume chegou ao fim e o garoto abriu um grande sorriso.

— Uau… isso é incrível! — Alegre, ele se levantou com um pulo.

Ren gostava de borboletas, mas sempre achou que já nasciam com suas belas asas, prontas para voarem livremente. Nunca lhe ocorreu a ideia de uma transformação. Ficou cativado com a ideia e, por ser um garoto agitado e ingênuo, ele imediatamente abriu os braços, deixando ser levado por sua imaginação.

— Uau, será que eu posso fazer isso também? — Ele perguntou com os olhos brilhando e Suzume riu.

— Apesar de não ser igual, todos nós passamos por essa fase. — Ela envolveu o ouvido do filho com as mãos e se aproximou, como quem queria contar um segredo. — Aqui entre nós, seu pai já passou por isso também.

— Sério? Me conta! — Ele pediu animado.

— Eu vou te contar quando você for para a cama. — Assim que ela terminou a frase, a criança nem pensou duas vezes e voltou correndo para dentro da casa.

Após cumprir sua parte da negociação, Suzume voltou ao seu quarto. Lá, seu marido estava de costas, sentado na beira da cama, bocejando de cansaço. Sem nem pensar duas vezes, ela se uniu a ele em um abraço caloroso.

— Não se esqueça que amanhã cedo é a reunião de pais. — Ela relembrou.

Ele grunhiu de cansaço ao imaginar que teria que conversar com a diretora daquela escola. Com certeza o comportamento de Ren seria a pauta principal, sempre reclamando que seu filho era muito serelepe e que tal atitude poderia causar problemas. Ele não tinha culpa se as outras crianças poderiam se machucar tentando correr com seu filho.

— Eu acho que mesmo um mamodo teria dificuldade em acompanhar o ritmo dele. — Clear murmurou.

Ele esticou o braço o máximo que pôde e ajustou o relógio para poder acordar mais cedo e comparecer a chata reunião de pais antes de ir para o trabalho. Então, querendo deixar o tédio para o dia seguinte, ele sucumbiu ao cansaço e se deitou, tratando de puxar Suzume consigo.

— Parece que Ren-kun conseguiu te cansar hoje. — Ela brincou, descansando próxima ao seu corpo.

Ele riu ao se lembrar de terem ido ao parque aquele dia. Como esperado, Sumiko não deu trabalho, entretanto, brincar com Ren não era tarefa fácil, o filho era incansável e parava apenas para comer.

Ele e Suzume estavam casados há sete anos e, apesar de todo o cansaço e trabalho que tinham, era inegável que valia a pena ver o sorriso dos filhos e de sua esposa.

Certamente não trocaria aquela vida por nada.

— Você ainda não me contou como conseguiu fazê-lo dormir.

— Uma história… — Ela bocejou. — Sobre você…

Os olhos de Clear se abriram em surpresa e ele levantou a cabeça para encarar Suzume.

— O que você contou a meu respeito? — Ele perguntou receoso.

— É um segredo. — Ela riu travessa, se certificando de tranquilizar o marido com um sorriso despreocupado. Assim, não demoraram a pegar no sono.

Clear foi o primeiro a se levantar da cama, sendo seguido por Suzume. Primeiramente, ficaram alarmados pelo choro de Sumiko que provinha da babá eletrônica, e logo em seguida por uma gritaria que se aproximava cada vez mais.

— Mamãe! Papai! Acordem! — Ren entrou no quarto como um furacão e agarrou a mão do pai, puxando o homem sonolento para fora do cômodo.

Clear esfregava os olhos e bocejava enquanto era conduzido pelo filho. Ambos desceram as escadas e logo seus pés estavam pisando na grama macia do jardim e foi assim que a corrida cessou.

Ele esfregou os olhos pela última vez e olhou para baixo, na mesma direção que Ren. Conhecendo a personalidade do filho, não ficou nada surpreso quando descobriu o motivo do escândalo.

Semanas se passaram desde que Suzume tinha dito a ele sobre a fascinação de Ren pela criaturinha no jardim.

Ele acompanhou o filho, se sentando calmo na grama do jardim, assistindo pacientemente a borboleta que estava prestes a sair do casulo.

— Ela já vai sair do casulo?! — A voz familiar chamou a atenção dos dois.

Suzume se aproximava rapidamente para assistir ao espetáculo. Em seus braços estava Sumiko, que já havia parado de chorar e apresentava uma feição emburrada, provavelmente de mau humor por ter sido acordada pelo escândalo do irmão.

— Que bom ter sido acordada, eu não queria perder isso! — A mulher disse simpática e sentou na grama ao lado da criança.

Todos assistiram atentamente aos lentos e maravilhosos movimentos que a borboleta realizava para romper a crisálida. Até mesmo Sumiko, que antes parecia ter um olhar desinteressado, ficou com os olhos focados naquela bela criaturinha que finalmente emergiu da casca.

Foi impossível para todos ao redor desviarem o olhar para qualquer outra coisa quando as asas em formato triangular se abriram majestosas e os vários tons de azul se destacaram perante os raios de sol.

As asas azuis se agitaram e a borboleta voou em direção à Ren e pousou na ponta de seu nariz, mas sua estadia foi rapidamente interrompida por uma risadinha do menino.

— Não é linda, papai? — O menino mostrou a borboleta, que havia se mudado para sua mão.

— Ela é linda, filho. — Ele respondeu com um sorriso carinhoso, que se entortou aos poucos ao notar os risonhos Ren e Suzume com os olhares fixos em si, e não na borboleta. — Por que vocês estão olhando para mim desse jeito?

— Nadinha! — A dupla respondeu com olhares divertidos.

Durante a confusão de Clear e as risadinhas de Ren e Suzume, eles mal perceberam quando Sumiko afugentou a borboleta com um esticar de mão, em uma tentativa duvidosa entre tocá-la ou enxotá-la.

— Ei! — Ren lamentou ao ver a criaturinha escapar de sua mão.

— Parece que está na hora de ela ir em frente, Ren-kun. — explicou Suzume, observando a borboleta tomar distância de sua família. — Vamos nos despedir!

O menino tristonho não demorou a entender, e sorriu compreensivo para a borboleta que começava a voar para longe do alcance de seus olhos. Seguindo o exemplo de Ren, a família se despediu alegre ao ver a criaturinha finalmente deixar a antiga casca e voar livre como um novo ser.


Chegamos ao fim da fanfic! Um pouco longa, se for levar em consideração que estava planejando escrever apenas 7 capítulos, haha. xD
Modéstia à parte, fiquei bem feliz com o resultado, haha. xD
Gostaria de agradecer imensamente a todos que tiveram paciência em esperar os capítulos e que puderam ler até aqui.
Agradecimentos especiais à:
- Yori-sama
- kasedara
- Rosa-Vermelha
Muito obrigado pessoal por favoritarem e, principalmente, por comentarem constantemente, foi um grande incentivo! Vocês são demais!