Oito

Eu chorava baixinho, encolhida debaixo dos lençóis daquela estreita e desconfortável cama de solteiro daquela pensão. Minha cabeça doía, meus olhos estavam inchados, e meu rosto completamente vermelho de tanto que eu chorava. Não entendia o que tinha acontecido para me dispensarem assim, sem um motivo coerente. A minha falta de experiência naquela profissão não era um bom motivo para ter me chutado como se eu fosse um cachorro com sarna. Eu havia feito meu trabalho direito, eu cuidei e amei Sarada como se ela fosse minha própria filha.

Eu não sabia explicar, mas aquela menina tinha algo que preenchia o vazio que estava em meu peito, me fazia sentir-me viva. Sarada havia se tornado em tão pouco tempo alguém importante para mim, como se fosse tudo o que eu estivesse procurando nessa minha vida sem sentido. Eu estava me sentindo injustiçada, a dor que eu sentia em meu coração era algo quase que insuportável, parecia que havia arrancado um pedaço de mim. A agonia era pior do que ter minhas memórias esquecidas, era pior do que ficar sem oxigênios em meus pulmões.

Fiquei mais um bom tempo chorando, lembrando-me que havia me sobrado somente a opção de usar o dinheiro que ganhei para comprar uma passagem de trem e voltar para casa com o rabo entre as pernas, e ouvir os sermões de meus pais pela minha atitude idiota. Com tais pensamentos eu acabei sendo vencida pelo cansaço e acabei dormindo no meio da madrugada.

. . .

Eu me via no meio de uma sala ampla e luxuosa de frente para uma janela de vidro que ia do teto ao chão, contemplava a vista luminosa de Tóquio, a noite estrelada e a lua cheia no céu deixava tudo muito bonito. Senti um par de mãos me rodeando a cintura, aconchegando meu corpo com o corpo de trás. Minhas mãos seguraram as outras mãos por cima, meu coração acelerava com o toque de nossas peles, o quente no frio.

- Gostou da vista?

- É linda – respondi, meus lábios se curvando para cima. – Nunca vi Tóquio por esse ângulo de altura, parece até outro lugar.

Ele segurou minha mão e me virou para ele, capturando minha atenção com seus olhos negros. Não conseguia distinguir o rosto, a nevoa branca cobria todo ele, só seus olhos que se destacavam. Tocou meu rosto com as costas de seu dedo frio, causando um formigamento em minha pele por onde ele tocava. Colocou uma mecha de meu cabelo para detrás de minha orelha e desceu as pontas de seus dedos pelo meu pescoço, sem desviar nem um segundo seus olhos dos meus.

- O que foi? – Perguntei, a voz saindo baixinha depois de alguns segundos naquele silêncio.

- Estou apenas contemplando o quanto tu es linda.

Sua voz suave fazia com que as borboletas em meu estômago ficassem agitadas e o coração batesse mais rápido. Desviei meus olhos dos deles, incapacitada de continuar encarando seus olhos intensos.

- Assim você me deixa sem jeito – murmurei, sentindo meu rosto quente.

- Não precisa ficar tímida, apesar de gostar de vê-la com o rosto rubro. Mas só digo o que meus olhos veem. – Tocou o meu queixo, trazendo minha atenção para si. – E meus olhos não mentem quando contemplo seus olhos verdes e enxergar a pureza de sua alma. O mesmo com seu sorriso, é como contemplar uma constelação de estrelas. Você é a recompensa por todos os meus anos vividos. Eu a amo, Sakura. Amo-te tanto que minhas entranhas se contorcem quando penso na possibilidade de perdê-la. Não sei como será minha vida daqui para frente sem ti, sem os seus toques, sem a sua presença. Sou um homem corrompido por pecados que encontrou a paz em seus braços.

Eu soltei todo o ar que eu prendia em meus pulmões. Aquela havia sido a melhor declaração que alguém fez por mim, eu não sabia o que responder, e o melhor a se fazer era ser honesta com meus sentimentos e declará-los de uma vez por todas não só para ele, como para mim mesma:

- Eu também te amo – toquei seu peito -, e sinto medo desse sentimento. Tenho medo de você ser apenas um sonho e quando abrir meus olhos eu me deparar com o vazio pela falta de sua presença. Tenho medo de você não ser real, de eu não ser boa o suficiente para você...

Ele havia me calado com seus lábios macios e frios tocando os meus. Apenas um pequeno toque, que desencadeou vários sentimentos dentro de mim.

- Nunca mais fale isso, você é perfeita – ele estava me repreendendo, suas duas mãos segurando o meu rosto agora -, totalmente esculpida e moldada para mim. Você é tudo o que eu mais quero nesse mundo, Sakura. Você me faz feliz pelo simples fato de existir em minha vida e por fazer me sentir humano novamente.

.

Acordei com batidas em minha porta, me fazendo piscar várias vezes para me situar aonde eu estava. Minha cabeça doía, meus olhos estavam pesados e aquela sensação estranha que tinha depois de um dos meus sonhos estava presente enquanto forçava minha mente para se agarrar aos vestígios que sumia daquele sonho.

Mais batidas.

A luz do dia que entrava por aquela janela clareava todo o quanto quando me punha de pé e me arrastava até a porta daquele quarto de pensão, tentando imaginar quem poderia ser àquela hora. Não estava esperando ninguém e ninguém daquela cidade me conhecia. E quando abri a porta a surpresa que tive foi imediata, fazendo com que o oco em meu coração desaparecesse.

- Sarada?

Ela estava parada a minha porta com uma mochila no ombro direito e o senhor Popis nos braços, mas tudo foi ao chão de repente e ela pulou para cima de mim. Eu apenas segui meus instintos de ampará-la em meus braços e abraçá-la com força enquanto sentia suas pernas enrolarem em minha cintura quando ergui meu corpo para cima. Seus braços em volta de meu pescoço me agarravam forte e seu corpo tremia para logo ouvir os fungados de seu choro abafado em meu ombro. Eu já não consegui segurar as lágrimas e deixei derramá-las por meu rosto enquanto sentia seu cheiro de morango com creme que me confortava.

Permiti ficar assim por mais alguns minutos, sentindo o alívio de tê-la em meus braços, ignorando tudo a minha volta. Sarada estava comigo novamente, e toda a minha angustia havia ido embora com a sua presença. Mas a razão me trazia de volta para a realidade e agora encarar os fatos daquela menina ter surgido em minha porta.

- Por Deus, Sarada, o que você está fazendo aqui? – Minha voz havia saído pouco rouca devido ao choro enquanto agachava para pô-la no chão, mas continuei a sua altura.

Sarada me fitava com seus olhos e o rosto vermelho por causa do choro.

- Eu fugi.

- Estou vendo – e segurei suas mãos -, seu pai deve estar preocupado.

E eu iria ter problemas com isso.

- O papai disse que você foi embora. Você prometeu que nunca ia me deixar.

Ela estava desolada, e odiei o pai de Sarada por ter dito aquela mentira. A abracei mais uma vez.

- Meu amor, eu nunca quis te deixar. – Foi o infeliz de seu pai que me demitiu, disse em pensamentos.

- Então o papai mentiu? – Ela perguntou agora me fitando.

E por mais que eu estivesse chateada com mestre... mestre o cambal, senhor Uchiha, não podia colocar a filha contra o pai. Eu não era nada de Sarada, apenas a babá... quer dizer ex babá, e seria uma cretina se fizesse isso, eu não tinha o direito.

- Não fale assim dele, apenas fui demitida. Seu pai quer alguém com mais experiência para cuidar melhor de você.

- Eu não quero ninguém, eu quero você, babá. – E me agarrou novamente. - Eu não quero que ninguém cuide de mim se não for você.

- Eu também quero cuidar você – admiti. – Mas as coisas não são assim.

- Eu não vou aceitar outra babá.

Apenas suspirei, me afastando dela e me pondo de pé, peguei sua mochila e o senhor Popis do lado de fora e fechei a porta. Coloquei suas coisas em cima da minha cama e dei uma olhada no celular, eram sete e vinte três da manhã.

- Como é que você me encontrou aqui?

Sarada adentrou mais o quarto e sentou-se na minha cama, colocando o senhor Popis em seu colo.

- Eu segui meu coração, ele batia mais forte quando me aproximava. Olha – pegou minha mão e colocou em seu peito – ele está batendo forte, é por que te encontrei.

Sua resposta podia não ter uma lógica, mas o fato de seus sentimentos serem fortes por mim havia me pegado de jeito. Meus olhos marejavam novamente.

- Ah, Sarada - e a abracei novamente e chorei mais uma vez.

Eu não queria deixá-la ir embora, não queria ficar longe dela. Sarada havia demonstrado o quando me amava, e eu amava também. Mas ela havia fugido de casa, andado pelas ruas, e graças a Deus por nada ter acontecido com ela. Seu pai deveria está louco a procurando e associando ao fato dele ter me demitido, eu poderia ser acusada de sequestro.

- Você tem que voltar para casa – disse depois que sentei ao seu lado.

Sarada apenas balançou a cabeça para os lados, negando.

- Eu não quero voltar, eu quero ficar com você.

- Você não pode ficar comigo, seu pai vai pensar que eu a sequestrei.

E eu estaria em maus lençóis.

- Mas eu não quero ficar naquela casa sem você, Sakura.

Parei por segundo, surpresa por ela não ter me chamado de babá. Era a primeira vez que ela me chamava pelo nome, e eu estava tocada com isso.

- Você me chamou de Sakura – comentei, abobalhada.

- Chamei – disse baixinho, e desviou seus olhos para o colchão. – Agora eu posso ficar aqui?

Ergui as sobrancelhas. O quê?

- Você está tentando me manipular, mocinha – apertei seu nariz, conseguindo arrancar pequenas risadinhas suspeitas. – Mas isso não vai funcionar, eu só vou trocar de roupas que irei levá-la para casa.

- Mas eu não quero voltar para casa – sua voz saiu suplicante.

Suspirei.

- Sarada, tem coisas que as crianças não podem discutir. O seu pai deve está louco de preocupação com você.

- Mas ele não gosta de mim. Você gosta.

- Sim, eu gosto de você. - Sorri, afagando o seu rosto, e pondo uma mecha para detrás de sua orelha. - Você se lembra daquela história da Estrelinha?

Ela assentiu com a cabeça.

- Ela desobedeceu aos pais e acabou se perdendo na Via-Láctea.

- Então, como os pais da Estrelinha estavam?

- Eles estavam preocupados com ela.

- E a Estrelinha estava como depois que se perdeu?

- Com medo.

- E quem achou ela?

- O senhor Cometa.

- Certo. Agora aqui ente nós, quem é a Estrelinha agora?

Sarada parou por um segundo para pensar, o cenho pouco franzido.

- Sou eu?

Assenti, concordando, sentindo o canto de minha boca erguer-se para cima com seu raciocínio.

- Sim, e eu sou o senhor Cometa – e Sarada abriu mais os olhos com a revelação -, e vou levá-la ao seu pai que está preocupado com você.

- Mas eu não estou com medo, eu estou com você.

Não aguentei e acabei soltando uma pequena risada.

- Tudo bem, você não está com medo. Mas você já pensou como o seu pai deve estar louco a procurando? A sua ação tem consequências, e eu posso pagar um preço por isso. Você quer que eu pague por suas consequências?

- Não.

- Então, se você não quer que eu pague por isso, você tem que fazer a coisa certa. E a coisa certa agora é voltar para o seu pai.

- Mas eu não quero – e seus olhos estavam vermelhos e chorosos mais uma vez, e agarrou minha cintura com força. – Eu quero ficar com você.

- Sarada.

Era impossível fazê-la mudar de ideia e meu coração doía por vê-la sofrer daquele jeito. Não era justo com ela. Não era justo comigo. Mas eu podia tentar um diálogo com o senhor Uchiha e ver como fica a situação, e se precisar me humilhar para poder cuidar de Sarada, eu estava disposta a me humilhar. Eu só não podia deixar aquela criança sofrendo daquele jeito, era doloroso demais.

E pela segunda vez naquele dia, estavam batendo a minha porta mais uma vez. Olhei para Sarada enquanto ficava de pé, ela estava assustada, os olhos arregalados. Não havia tempo para questioná-la, pois as batidas eram insistentes.

Com passos rápidos cheguei até a porta e a abri, meus olhos enxergando os sapatos sociais Italiano, o terno preto por debaixo de um sobretudo da mesma cor, luvas pretas nas mãos e uma delas segurava um chapéu, enquanto a outra tirava os óculos escuro do rosto, revelando seus olhos negros como um mar de trevas que contrastava com a pele pálida, os cabelos pretos e pouco compridos, cobrindo metade de seu rosto.

Meu interior se contorceu, meu corpo estava trêmulo, meu coração disparado nas batidas e minha respiração rápida. Eu estava de frente para um homem diabolicamente bonito, e o perfume que ele exalava despertava sentimentos que eu nem imaginava que existia dentro de mim. Eu já havia sentido aquele cheiro, mas onde?

Seu maxilar perfeito se contraiu, mas não havia afetado a linha reta de seus lábios. Seus olhos negros pareciam queimar minha pele, me fazendo ter a sensação de estar nua a sua frente.

Meu Deus, quem era aquele homem?

Abri a boca para falar algumas vezes, mas nenhuma palavra parecia sair por ela e quando finalmente consegui fazer minha voz soar, saiu horrorosamente gaguejante:

- Pppois nnão?

Seus olhos conseguiram ficar mais negros quando finalmente sua voz soou, grossa e linda com um toque de arrogância que fez todos os pelos do meu corpo se enrijecer quando finalmente entendi quem ele era:

- Vim buscar a minha filha.