Tenham uma boa leitura!
Diamond Heart
Capitulo 9
As pernas de Diamond tremiam tanto que ela ainda se perguntava como conseguiu sair daquele corredor e retornar para o escritório de Overhaul. Agradeceu por não ter comido nada, ou então estaria vomitando no banheiro ou teria vomitado no corredor mesmo e denunciado sua presença ali. Após ver o líder da Shie Hassaikai passar o bisturi na pele delicada da menina, ela deu as costas e foi embora.
Agora no escritório ela remexia naquelas folhas lendo tudo rapidamente e tentando entender a parte dela naquele plano elaborado dele. Mas quanto mais ela mexia e lia, mais seu estomago se revirava. Ela encontrou as folhas que em seu íntimo não queria encontrar e quando leu, sentiu repulsa por si mesma.
O sangue da menina era usado para fazer as drogas anti-herói, o sangue dela, ou melhor, a individualidade dela era como trazer algo ao ponto de início. E foi então que ela entendeu corretamente o plano dele, ele queria trazer a humanidade ao ponto de início, onde ninguém possuía individualidade. Ela já tinha ouvido falar dessas histórias onde em um tempo, anos e anos atrás, as pessoas eram apenas pessoas comuns. Mas sempre achou que fossem apenas histórias.
A porta foi aberta repentinamente e o ato fez Diamond saltar e largar os papeis que jaziam em suas mãos, seu olhar turquesa fitou os dourados de Overhaul, parado na porta e ainda segurando a maçaneta.
Overhaul não era débil ou ingênuo, sabia perceber as coisas nos atos mais sutis e ao ver o estado um tanto alarmado dela e as folhas que caíram no chão, ele percebeu que Diamond havia lido o relatório que ele fez sobre Eri. As anotações, as características e tudo mais sobre a menina e o poder dela.
Calmamente ele fechou a porta e caminhou até ela que começou a pegar os papeis rapidamente.
- Ela é a outra cobaia que Mimic uma vez comentou sobre – Diamond murmurou, enquanto se mantinha agachada e recolhendo as folhas, Overhaul a ajudava e parecia alheio ao fato de que ela agora sabia de tudo.
Ele não estava preocupado com o fato dela saber, estava era com medo de como ela reagiria. Um pânico de repente se assolou em seu peito temendo que ela sumisse de suas vistas, nos poucos meses de estadia dela ali ele se acostumou com a constante presença da garota e depois do envolvimento deles naquela noite após resgata-la das mãos de Oda... ele não sabia mais como era viver sem ela por perto.
- Ela não é bem uma cobaia – respondeu ele, pegando outras folhas no chão e em seguida se levantou – Eri é parte do meu plano de curar esse mundo.
Ela ergueu a cabeça para encara-lo e depois se levantou também, ainda olhando naqueles olhos dourados que agora ela não saiba o que causava nela, se era medo ou ainda possuía aquela chama ardente.
- Ela é apenas uma criança – alegou calmamente – Não há outro jeito de fazer isso?
- Se tivesse eu já estaria fazendo – rebateu e caminhou até a mesa onde colocou os papeis e os ajeitou corretamente – Mas a individualidade da Eri é complexa demais. Não importa quantos testes fazemos ainda não conseguimos saber nada sobre o poder dela ou como ela o ativa. Por não termos recursos o suficiente meus métodos são limitados – esclareceu.
Ainda com a cabeça atordoada, Diamond assentiu, demonstrando que compreendia, apesar de não aceitar o que era feito com a menina.
- Não será para sempre, Diamond, quando conseguirmos...
- Isso não terá fim – alegou ela, o cortando – Eri vai ficar para sempre nessa vida de cobaia. Pois muitos vão querer a droga – disse.
Overhaul a encarou, um tanto sério por ela o confrontar.
- Por que se preocupa? Você mesma é um desses que irão querer a droga, você veio até mim querendo que eu acabasse com sua individualidade – argumentou e a face dela ficou pálida – E assim eu o fiz.
- Mas eu não sabia que a droga era feita a partir de sangue humano... de uma criança, Overhaul! – exclamou, levando as mãos aos cabelos loiro platinado.
No entanto, a única coisa que Chisaki fez foi coçar o queixo como se aquilo fosse um mero detalhe e não algo importante e que ele ocultou dela. Sentiu nojo dela mesma por saber que parte do sangue da menina estava agora correndo em suas veias e que logo correria nas veias de outras pessoas, ou melhor, dos heróis. Algo entalou na garganta dela.
- Não adianta se alarmar ou chorar, o que está feito está feito – falou ele – E realmente espero que não faça nada imprudente, Diamond. Não quero que ter que tomar medidas drásticas – havia certo tom de ameaça na voz dele, que a fez engolir em seco.
Ainda atordoada, ela assentiu e tratou de sair logo da sala dele, esquecendo completamente de seu jantar e do dele, de repente a fome passara e agradeceu por não ter nada no estomago novamente. Após fechar a porta do escritório dele, ela correu para seu quarto e lá se trancou. Não querendo falar com ninguém.
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Diamond passou os dias seguintes reclusa. Não falava com ninguém, não se aproximava de Overhaul e nem mesmo saia de seu quarto, somente para comer. Rick tentou falar com ela e foi o único que ela permitiu entrar no cômodo para conversar, nem mesmo Nemoto ou Mimic ela aceitou. Não sabia se eles sabiam a respeito de Eri e se estavam de acordo com os planos de Overhaul.
Se ele queria destruir os heróis que o fizesse, não era da conta dela. Ela nunca fora muito fã de heróis mesmo, eles deviam ter salvado seu pai e sua mãe, mas falharam e nem mesmo a ela conseguiram proteger. Mas também não era a favor dos vilões, mas simplesmente não ligava para eles. Não ligava para a rixa entre heróis e vilões. Apenas queria viver sua vida tranquilamente e sem sua individualidade.
Mas saber que seu tão sonhado futuro tranquilo era gerado pelo sangue de uma garota inocente, partia seu coração ao ponto de sentir-se corroer por dentro. Vomitava toda vez que se lembrava das imagens e pensava na menina lá em baixo, sozinha e provavelmente sem um amigo ou alguém que pudesse lhe dizer palavras boas. Ela devia ser tratada pior que uma cobaia de laboratório.
Naquela manhã, depois de dias trancada no quarto, Diamond resolveu sair e andar pela base, mas evitou entrar em cômodos onde podia ouvir vozes dos outros membros da Yakusa. Soube que Overhaul estava no escritório com Kurono, tendo uma reunião somente os dois e agradeceu por isso, pois ainda não estava confortável em vê-lo. Olhar para ele seria como olhar para além dele e ver novamente a pequena garota.
No fundo ela queria que ele mudasse de ideia ou que ao menos desse um jeito de resolver aquela situação.
Mas haveria alternativa?
Diamond suspirou e encarou o céu azul, se encontrava no quintal bem cuidado da base e avistava as nuvens andarem tranquilamente, praticamente alheias ao fato de que o mundo era um caos, ás vezes.
- Finalmente, resolveu sair daquele quarto – a voz rouca e enigmática de Overhaul ecoo e ela abaixou a cabeça para encara-lo.
Seu coração deu um salto, tanto de receio quanto por ainda ser afetada pela presença do mesmo. Não podia negar que sentia algo por ele, que queria ficar ao lado dele, mas ao mesmo tempo se sentia uma suja ao saber que abaixo daquele solo havia uma garotinha amedrontada e sendo usada para fins inapropriados.
Durante aqueles dias Overhaul não tentou falar com ela, parecia que estava respeitando o fato dela ter se distanciado dele. Mas olhando nos olhos dourados dele, dava para ver que havia o mesmo receio dela, pairando naquela expressão sempre desinteressada.
Ambos estavam sem saber como agir, mas ela sentia o peso maior.
- Faz tanta diferença se eu me trancar lá? – questionou, sem interesse.
- Não. Até porque não sou seu pai para te tirar de lá – alegou ele, se aproximando dela e se agachando na grama, apesar de achar o solo mais sujo que a calçada na rua.
Mas para Diamond, ele sempre ignorava sua fobia. Como se o que sentia por ela ou o modo como ela lhe afetava fosse mais forte e mais importante que sua fobia.
Calmamente ele tocou o rosto dela com a mão enluvada, enquanto que a outra retirava a máscara de pássaro que usava. Diamond apenas o encarou com aqueles olhos turquesas, esperando pelas ações dele e percebeu que seu corpo ansiava pelos toques, pelos beijos. E foi com louvor que ela recebeu a boca dele, as línguas se encontrando e se enroscando, ela podia sentir o corpo se incendiar.
E tão logo ele parou e se distanciou, recolocou a máscara e se levantou.
- Irei sair para encontrar um novo patrocinador – comentou ele, a encarando – Não faça nenhuma besteira – avisou e em seguida saiu.
Ela apenas assentiu, enquanto o observava ir embora.
E logo em seguida a partida de Overhaul, junto dos oito preceitos da morte, Diamond se levantou de onde estava e averiguou até que o carro saísse da propriedade. Depois de aguardar meia hora a saída deles, ela correu até a passagem que levava até o subterrâneo e foi atrás de encontrar a garota. Eri.
Ela nem mesmo sabia porque estava fazendo aquilo, porque estava indo atrás dela.
Os corredores gelados deram mais medo ainda em Diamond, enquanto andava se esgueirando naquele lugar que não possuía pilastra ou mobília para se esconder. Como o lugar era muito grande sabia que encontrar em qual quarto ou cômodo Eri estava seria difícil, no entanto, ela teve um palpite de que Overhaul não a deixaria sem proteção. Se ela era tão importante para fabricar as drogas, logico que ele não deixaria a menina sem supervisão.
E um sorriso convencido cresceu nos lábios dela, quando avistou no final de um longo corredor um rapaz todo punk diante de uma porta. O mesmo estava de pé e encostado a parede, mexendo no celular enquanto assobiava. A porta parecia diferente das demais, as outras eram feitas de madeira enquanto que aquela parecia ser mais pesada, principalmente para uma criança empurrar ou tentar abrir.
Ela se escondeu na curva do corredor onde estava e o de Eri, tentando pensar em uma desculpa para entrar naquele quarto sem que o rapaz a impedisse ou que ele acabasse morto pelo líder por tê-la deixado entrar. Mas não havia alternativas para ela.
Com uma face exibindo calma, enquanto que por dentro estava uma pilha de nervos, Diamond caminhou até o rapaz que a olhou de cima abaixo e logo um sorriso de lado cresceu nos lábios.
- Conheço você – falou ele, erguendo os óculos escuros, que eram inúteis ali em baixo – É a garota do Overhaul. O que faz aqui?
Ele não parecia agressivo e nem do tipo que a levaria de volta ao andar de cima pelos cabelos, na verdade, parecia até curioso e o modo como a olhava a fez ter uma ideia.
- Overhaul saiu para uma nova reunião com um novo patrocinador e me pediu para ficar com a pirralha – moveu a cabeça em direção a porta – Apenas para ter certeza de que ela não vai aprontar nada. Sabe como são crianças – deu de ombros.
O rapaz coçou o queixo, compreendendo. E ela ficou feliz quando ele assentiu e abriu a porta a ela.
- Não vou demorar muito, não sou muito dada a crianças – alegou, passando por ele.
Ao entrar no cômodo ela se surpreendeu com o breu total, não havia nem ao menos um abajur para iluminar o local. Agradeceu por ter levado seu celular e o mesmo estar no bolso do short jeans. Ao ligar a lanterna do mesmo, avistou a pequena menina de cabelos platinados e olhos rubi em cima da cama e com a feição de puro pavor.
Dava para ver o corpo dela tremer, temendo o que ela faria consigo. E aquilo incomodou Diamond, além de a preocupar.
Seus olhos turquesa varreram o quarto parcialmente iluminado pela lanterna, havia brinquedos esparramados no canto do quarto, como bonecas, cozinha para meninas e ursinhos de pelúcia. No chão ao lado em cima de um tapete aparentemente velho, havia papéis com desenhos feito por uma criança. Aquilo cortou o coração de Diamond.
Eri tinha coisas de criança, mas duvidava que brincava com eles, já que algumas bonecas e outros bichinhos estavam ainda lacrados dentro de suas caixas. Provavelmente ela apenas desenhava naqueles papeis enquanto sonhava com a liberdade. E quando não estava desenhando, de certo estava chorando e clamando para que alguém a salvasse.
Calmamente se aproximou, mas a cada passo, Eri se encolhia na cama, tentando se afundar no travesseiro grande e fofo atrás dela. Havia faixas nos braços e nas pernas dela.
- Não tenha medo – disse, ao parar aos pés da cama – Não vou te machucar!
A menina não pareceu acreditar, ainda tremia e sua face chorosa ficou mais evidente.
- Só vim ficar um pouco com você – confessou – Overhaul não sabe que estou aqui – sussurrou, temendo que o rapaz do lado de fora escutasse.
E ao dizer aquilo, Eri pareceu parar de tremer e a olhar com certa curiosidade agora. Um sorriso gentil cresceu nos lábios de Diamond e ela se sentou na beirada da cama.
- Sou a Diamond, muito prazer – sorriu e estendeu a mão. Mas Eri não a pegou, no entanto, chegou a responder.
- M-Muito prazer – sua voz era baixa e amedrontada.
- Eu gostaria de saber algumas coisas, Eri. Tudo bem se eu fazer algumas perguntas? – indagou e a menina assentiu, concordando – Ótimo. Como Overhaul te achou?
A menina levou alguns segundos pensativa, antes de responder.
- Foi através do meu vovô – respondeu – Eu soube que ele tinha adotado Chisaki, quando o mesmo era criança. Ouvi as pessoas comentarem.
- Chisaki? – a olhou confusa.
- Overhaul. O nome dele é Chisaki Kai – contou.
Então aquele era o nome verdadeiro de Overhaul. Por que ele nunca contou a ela?
- Então, você é neta do antigo ligar da Yakusa – disse e Eri assentiu, apesar de não ter sido uma pergunta. Só podia ser, todos no submundo do crime sabia que Overhaul era o sucessor do antigo líder e se o avô de Eri o adotou, então o cara só podia ser o antigo líder – Onde está sua família, Eri? Estão presos também?
Eri tornou a exibir uma face chorosa, mas a respondeu com um aceno de cabeça.
- Eu não sei onde eles estão. Eles sumiram... a-acho que foi minha culpa – falou, incerta.
Diamond se lembrou das pesquisas e anotações que leu dias atrás no escritório de Overhaul. O poder de Eri fazia as coisas voltarem a um estado como se nunca tivesse acontecido ou algo do tipo. Será que ela havia usado a individualidade dela sem perceber e fez seus pais voltarem ao estado de antes terem nascido?
- Tudo bem, meu bem – sorriu e calmamente acariciou a cabeça dela, que tremeu diante do toque – Está tudo bem, não foi sua culpa. E quanto ao seu avô?
- Eu não sei. Ouvi dois capangas de Chisaki dizer que ele estava doente e que ele estava cuidando do meu vovô – explicou.
A menina podia ficar trancada naquele quarto, mas ouvia muita coisa. Sem contar que capangas sempre fofocavam sobre seus líderes, outro fato que nunca mudava. E aquilo fez Diamond questionar se o líder de verdade da Yakusa sabia sobre o que acontecia com Eri, pois desde que chegara a base, ela nunca o viu ou se quer ouvia alguém comentar sobre ele. Se fora alguém importante para Overhaul, ou melhor, para Chisaki Kai, então... ele ao menos devia comentar sobre ele.
Ela nem mesmo viu fotos do mesmo em algum lugar.
O que realmente aconteceu com ele?
- Como ele se chamava?
- Pops – respondeu Eri.
- Certo. Terei que ir agora, Eri – sorriu e novamente acariciou o topo da cabeça dela.
- Você vai embora? – os olhos suplicantes dela cortou o coração já em pedaços de Diamond.
- Tenho que ir. Overhaul não vai gostar de saber que estive aqui – alegou.
- Tome cuidado com ele – pediu a menina.
Diamond assentiu e em seguida se levantou da cama e saiu do cômodo, deixando-a novamente naquele breu aterrorizante.
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Retornando para o andar de cima, Diamond começou a vasculhar melhor a propriedade da Shie Hassaikai. Normalmente ela andava somente dentro da casa ou no quintal no fundo da mesma, onde adorava ficar perto da pequena fonte e observando as nuvens passar, enquanto sonhava acordada com seu futuro ainda incerto. Mas ela sabia que havia outras áreas, no entanto, nunca disseram se eram proibidas ou não.
Aproveitou que os outros membros da máfia não prestavam muito atenção nela, ou ela assim achava, pois eles estavam sempre em missão a mando de Overhaul ou fazendo alguma coisa que não fosse ficar no caminho dele. Calmamente passou entrar em todos os cômodos que via, alguns em sua maioria estavam vazios, já outros possuía sempre um grupo pequeno de cinco rapazes ou jogando cartas ou bebendo, apesar de ainda nem ser meio-dia.
Ignorou os olhares que ganhava e continuou por sua busca, quando chegou ao lado de fora. Avistou um outro cômodo, uma casa pequena e ao estilo japonês. Havia uma pequena trilha que levava até aquela casa que provavelmente possuía somente um quarto, sala e cozinha. Duvidava que houvesse algum banheiro ali. Mesmo temendo ser pega, Diamond não impediu seus passos e seguiu para a casa.
Abriu uma porta de correr e viu um corredor escuro e sem iluminação, a casa não havia outros cômodos somente uma porta contendo um quarto, supôs ela. A mão chegou a tremer quando puxou para o lado a porta do cômodo, havia somente um abajur de iluminação e no centro do quarto um homem de meia idade desacordado e ligado a aparelhos para lhe ajudar a respirar.
Os olhos dela se arregalaram, mesmo que ela não soubesse quem era aquele homem.
- Céus – ela suspirou, sentindo uma tontura diante das coisas que andava descobrindo.
No entanto, ainda não conseguia impedir de ser afetada por Overhaul, por Chisaki.
Retornou para a casa às pressas, se recolheu em seu quarto e no banheiro vomitou o café da manhã que mal tinha enfiado na goela. Achou melhor tomar um banho e tentar colocar os pensamentos no lugar. Não sabia o que fazer ainda, mas ela sabia que ali não poderia ficar mais, não sabendo de tudo aquilo. Não era a favor do que Chisaki fazia, mas também não tinha coragem de entrega-lo a polícia ou aos heróis, sabia o que fariam com ele caso fosse preso. E aquilo ela não podia suportar.
E em meio a água do chuveiro que caia sobre sua cabeça, lagrimas se misturaram, porém, ela sentiu algo caindo em seu pé e percebeu ser um pequeno diamante. Com isso novas lágrimas vieram.
O efeito da bala anti-herói de Overhaul havia acabado.
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Mais tarde naquela noite, Diamond resolveu esperar por Overhaul no quarto dele. Seu plano já estava arquitetado, não faria parte daquele plano, mas também não entregaria a pessoa que amava as autoridades. Simplesmente fugiria, deixaria de existir e talvez a Yakusa nunca mais ouvisse falar dela. Teria sorte se conseguisse ir para outra cidade, como tinha planejado quando se livrasse totalmente de sua individualidade.
Já era tarde da noite, logo todos iriam se recolher em suas camas. Ali ninguém dormia cedo, sempre se recolhiam por volta da uma da manhã. Jantara em seu quarto e ficou ali até decidir completamente seu plano de fuga e mesmo sentindo pesar no coração, não poderia contar com a ajuda de Rick desta vez.
A porta do quarto foi aberta e silhueta cansada de Overhaul apareceu na porta, iluminado pela luz que vinha do corredor, Diamond estava na penumbra, apenas aguardando por ele.
Os olhos dourados se ergueram e se alargaram um pouco mais ao vê-la. Principalmente pela forma em que estava vestida. Ela usava somente uma lingerie negra e um robe de cetim por cima, os cabelos loiro platinados estavam soltos e caiam graciosamente por seus ombros. O corpo todo dele reagiu a visão, apesar dele achar um tanto estranho o comportamento dela, diante do modo como ela vem agindo e o evitando.
Mas o olhar dela ainda estava vago, como se milhões de pensamentos a invadisse.
- Não esperava por essa recepção – comentou ele, fechando a porta atrás de si.
Não acendeu a luz, permitiu que ambos ficassem no escuro e com somente a claridade de fora invadindo o quarto. Calma e provocante, Diamond se levantou da cama e andou até ele, o abraçou e sua boca foi de encontro ao pescoço dele. Ela havia tomado banho, passado um creme, lavado os cabelos, estava limpa e pura somente para ele, e aquilo o fez respirar fundo.
Permitiu que ela retirasse seu casaco verde, que retirasse sua máscara e o restante da roupa logo também teve seu encontro com o chão.
Não demorou para suas bocas se encontrarem, seus corpos se colarem e encontrarem a cama. Ambos nus e entregues novamente a aquele paixão enlouquecedora que ambos sentiam quando se viam, se tocavam, se beijavam. No entanto, para ambos aquilo era diferente. Naquela noite estava diferente.
A forma como os corpos se uniam, como Overhaul ia de encontro ao corpo de Diamond, a forma como se olhavam quando se afastavam por breves momentos. Parecia uma despedida, parecia que seria a última vez que se veria, que se tocariam. Um sentimento de desespero se apossou em Chisaki, ao imaginar sua vida sem Diamond, a única coisa que fora luz em sua vida cheia de escuro e tristeza.
Ele a perderia também?
Quando chegaram ao limite, Overhaul deitou-se ao lado dela e a manteve entre seus braços. Pouco se importando se estavam suados e precisando de um banho, sentia a pele empipocar por isso, mas se controlou. Tinha medo de ao sair do banheiro, encontrar a cama vazia e nenhum sinal de Diamond.
- Não irei embora – mentiu e seu peito doeu com aquilo.
Evitou chorar, pois senão ele descobriria que sua individualidade estava de volta.
E nos braços dele, ela permaneceu, até que o mesmo adormecesse.
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A respiração dele estava tranquila, serena e aquilo sempre a deixou surpresa, em comparação com a personalidade tão difícil e fria dele. Quando percebeu que ele dormia um sono profundo, se levantou da cama com o extremo cuidado, como se estivesse pisando em um chão cheio de cacos de vidro e ela evitada cortas os pés descalços. Vestiu-se e saiu do quarto, sem fazer barulho.
Em seu quarto não havia mala a esperando, não levaria nada dali. Nem mesmo seu celular ela levaria, apagou todas as fotos e contatos – que praticamente não possuía – e o deixou largado na cama. Vestiu uma roupa simples e uma blusa de manga cumprida e com capuz. Os tênis ela levava nas mãos, temia que o calçado fizesse barulho na madeira sempre limpa demais.
Somente quando chegou do lado de fora que ela os calçou. Foi caminhando abaixada e sempre em alerta até a parte do fundo da base, seria uma estupida se saísse pela frente, onde sabia que havia uma proteção dobrada. A parte do fundo sempre era menos protegida e ela sabia de caminhos que poderia tomar sem ser vista pelos vigias da noite de Overhaul.
Porém, ela se surpreendeu ao avistar Rick parado ali, como se a tivesse esperando e a feição dele demonstrava pesar.
- Rick... o que faz aqui? – questionou, com receio.
- Diamond. Eu sei o que vai fazer – alegou ele e o coração dela deu um salto – Não sei o que houve para querer fugir, Overhaul não me contou, mas me pediu para ficar de vigia durante a noite caso você decidisse ir embora – explicou – Tenho feito vigia todas as noites – acrescentou.
Ela trincou os dentes. Mas mesmo que tivesse que brigar com Rick, ela não desistiria de sair da Yakusa. Ou então sairia morta dali.
- Não me impeça, Rick. Pelos anos de amizade que temos, por favor – tentou apelar pelo lado bom dele – Não posso contar o que houve também, mas não posso ficar.
- Você tem agido de forma estranha ultimamente, mesmo das vezes em que conversamos no seu quarto... você... tem andado pensativa demais. Até mesmo Overhaul tem se preocupado – confessou.
- Você contou de nossas conversas para ele? – indagou e ele assentiu que sim.
- Sinto muito.
- Você se tornou muito leal a ele, não é? – argumentou e fitou o chão desapontada – Você sabe como é feita a droga que ele está criando? – o encarou, após perguntar de repente.
Rick negou e em seus olhos ela percebeu que era verdade, além do mais, por mais que ele tenha se tornado fiel a Overhaul e a Shie Hassaikai, ela ainda confiava que ele nunca mentiria para ela. Não diante de um assunto tão sério.
- Overhaul não conta para ninguém como é o processo de fabricação das drogas – respondeu.
Fabricação. Um arrepio percorreu a espinha de Diamond ao pensar na pobre Eri, sozinha e no escuro abaixo daquele solo. Infelizmente ela não podia ir até lá e tirá-la, levar a menina seria como manter um alvo nas costas e ela apenas queria sumir, ao menos até decidir o que fazer, pois também não tinha coragem de denunciar a Yakusa.
- Vamos voltar para dentro, Diamond. Overhaul nem vai saber que você teve essa ideia maluca, mesmo que ele já tenha isso em mente. Mas ele pode fingir que nunca aconteceu e vocês voltam ao normal – disse ele, se aproximando dela.
- Não posso! – recuou – não posso voltar para lá, não enquanto... – ela se calou, não poderia colocar Rick no jogo, não poderia contar a ele e sem tempo a perder, ela ativou sua individualidade, uma que conseguiu controlar nesses dias trancada em seu quarto.
A pele em seu braço se tornou fria e dura como um diamante, até brilhava um pouco como um, ainda mais pela luz da lua alta no céu. Ela olhou fundo nos olhos de Rick e com os olhos marejados pelas lágrimas que não caiam, ela disse:
- Eu sinto muito.
E rapidamente avançou sobre ele, acertando um soco certeiro no rosto dele, que o fez apagar completamente. O corpo desacordado de Rick caiu no gramado e sem perder tempo, sem nem se despedir direito do amigo ou ajeita-lo melhor, ela correu e pulou o muro. Agradeceu pelo mesmo não ser tão alto, após pular, puxou o capuz do casaco de frio e correu pelas ruas desertas, em direção a estação de trem.
Em seu bolso na calça jeans, ela levava somente sua identidade contendo seu nome verdadeiro. Nome no qual passaria a usar dali por diante e na cidade onde moraria. Nunca mais alguém ouviria o nome de Diamond, de novo.
Ao menos, ela esperava que não.
