16 de abril de 1912
Após uma noite mal dormida, os sobreviventes experimentavam o improviso para suportar os dias monótonos e tristes que se seguiriam até a descida em Nova York. Sopas, chás, cobertores e cuidados especiais eram distribuídos pelos oficiais, as enfermeiras e os tripulantes, tudo isto sem parecer algo forçado ou que era feito apenas por fazer, o capitão do Carpathia estava disposto a cuidar de todos os sobreviventes reconhecendo sua limitação, mas fazendo tudo o que estivesse ao alcance sem quaisquer reclamações.
Serguei caminhava por aquelas pessoas – em sua maioria mulher e crianças com olhares perdidos, aparências tristes e cabelos bagunçados pela falta de cuidado. Os homens que estavam a bordo apenas esboçavam tristeza, eram quietos demais, parecia até mesmo um certo remorso. – como um rei caminhava pelos seus súditos, até que ele achava interessante ser tratado como um, ser servido pelos outros era simplesmente adorável. Ele encarava cada uma daquelas vidas com um olhar de desdém, não tinha empatia por ninguém e não aceitava que os de classe mais baixa tivesse mais chance de vida, nas únicas oportunidades entre o dia anterior e o dia posterior que teve de conversar com o presidente da White Star Line, expressou sua indignação e parece ter sido compreendido. Os cabelos do russo estavam bagunçados, no braço tinha uma atadura que escondia seu ferimento inflamado, mas não tão grave e ele ainda usava seu terno brilhante.
– Quer chá, senhor? – Indagou uma jovem enfermeira.
– Eu quero que todos vocês se explodam.
A moça estava impressionada em ouvir uma grosseria vinda de um homem tão bonito, tratar as pessoas de um modo ruim deixava a aparência humana desagradável, dependendo do ponto de vista de quem é tratado de modo ruim. Mas Serguei não se importava com o modo de falar, para ele tanto fazia, as pessoas estavam abaixo de seu nível social e ele devia trata-las com desprezou. Andou mais um pouco, até encontrar uma certa garotinha dormindo no chão, abraçada a uma boneca verde e no pescoço usava um colar desconhecido. Se Isabella estava ali, deveria saber onde a irmã estava.
– Acorda, boneca. – Empurrou-a com o pé. – Onde está sua irmã? Não era ela que se importava com você? Grande importância, deixar uma irmã doente dormir no chão.
– Ah, Serguei, me deixa em paz. Não sei onde Marina está, deve ter morrido no naufrágio. – Mentiu a menina, ainda deitada, estava com preguiça de se levantar.
– Eu sei que ela está viva e com o oficialzinho de quinta categoria, a vi ontem, onde ela está?
– Quer mesmo saber? – Isabella sentou-se, ainda sonolenta. – Então procure o senhor mesmo!
– Pirralha mal educada. – Revoltou-se.
– Aceite que Marina não lhe quer e já está casada com outro homem que a ama, a protege e dá a ela todo o carinho do mundo, coisa que o senhor nunca fez, pelo contrário, sempre a ameaçou ou fez pior do que apenas ameaçar. Deixe minha irmã seguir com o homem que ama e tudo ficará em paz.
– O que uma pirralha que vive doente sabe sobre sentimentos? Me diga, o que você sabe sobre problemas de adultos?
– Se fosses de fato um adulto não agiria como um menino de oito anos. – Se levantou definitivamente. – Quer chá para acalmar os nervos? – Pegou uma xícara com a enfermeira. – Talvez acalme o senhor.
Isabella derrubou chá quente na roupa de Serguei, correndo em seguida, o homem a perdeu de vista muito rapidamente por estatura comparada a de uma formiga. Marina, Lowe e Molly estavam em um local mais afastado, bebericando alguma coisa e conversando alguma assunto de adulto. Molly era uma mulher adorável, havia ajudado algumas mulheres durante o dia anterior e pretendia fazer o mesmo na parte da tarde, sentia a necessidade de ajudar a todos.
– Olá, Isabella, bom dia. – Molly a encarou.
– Bom dia, senhora Brown. – Fingiu boa educação. – Acho que dormi demais, estou com fome.
– É meio dia, senhorita, não acha que dormiu demais? – Lowe segurou a gargalhada. – O importante é que não vais ficar dormindo pelos cantos como eu.
– Dormi mal essa noite. É péssimo dormir no chão. – Marina reclamou. – Sem contar o frio e o barulho do mar.
– Espero que o covil de cobras aprenda a lição. Do que vale as futilidades nesse momento? Todos estão iguais perante o naufrágio, dormindo no chão como mendigos e sem algum lugar para encostar a cabeça.
– Não aprenderam nada, senhora Brown, Serguei continua o mesmo demônio e foi ele que me acordou, me empurrando com o pé.
– Só faltava abrir as portas do inferno. Como alguém não se cansa de ser tão imbecil? – Lowe se revoltou. – Esse homem é insuportável, se eu tive o azar de encontrar com ele, não vou hesitar de mata-lo.
– Melhor não. – Marina olhou para o oficial. – Não sabemos a fera que despertamos. Apenas piorei as coisas tentando mata-lo, é inútil lutar contra o próprio diabo encarnado.
– É uma situação delicada a sua, senhora Lowe, decisões mal administradas geram consequências. – Molly encarou a jovem. – Mas o senhor Lowe é um homem valoroso e parece-me gostar bastante da senhorita, creio que este assunto vai ser resolvido sem mais problemas.
Marina olhou para o lado e percebeu sua mãe sentada, com o olhar voltado para o mar, ela parecia perturbada, e seus lindos cabelos castanhos estavam bagunçados. A mulher jovial deu lugar a uma senhora cansada, melancólica e abatida. Riley estava pensando em muita coisa, relembrando os momentos felizes ao lado do único homem que amou de verdade, aquele esquisito que conheceu em um baile da aristocracia quando ainda era uma lady viúva. Nunca fora alguém com limites, mas começava a perceber que colheria o que plantou, teria as filhas para longe de si por culpa exclusivamente sua. A primogênita baixou a cabeça, Lowe colocou a mão sobre seu ombro com um pequeno sorriso.
– A sua mãe precisa de ajuda tanto quando você.
– Não quero falar sobre isso. – Marina segurou o choro. – Mas me conte, senhora Brown, a senhora tem algum projeto em mente para os sobreviventes?
Rússia, Crimeia, 1912
Não importava qual fosse o jornal, todos eles tinham um espaço reservado para as escassas informações sobre o naufrágio do Titanic. Tudo o que se sabia até aquele momento era que o navio havia batido em um bloco de gelo e com isto naufragado, informação verdadeira, mas faltava união entre o número de mortos e sobreviventes. Uns diziam 1525 mortos, outros 1700, 625 sobreviventes, era um desencontro de informações que causavam ainda mais desespero ao redor do mundo tendo seu epicentro na Inglaterra. Os russos, apesar de comovidos, não pareciam se importa, afinal os icebergs que lhe rodeavam eram outros, que davam ao país um aspecto revolucionário.
O czar nunca foi fã de jornais, raramente os lia, em contraste, seu cunhado, o imperador Pierre da Merávia gostavam um pouco mais, mas naquele dia, os dois resolveram ler os jornais no convés do Standart acompanhado de suas consortes. Nicolau, o czar russo, era um homem de barba volumosa, olhos azuis expressivamente gentis, seus cabelos eram castanhos e ele tinha uma estatura baixa. Pierre tinha uma aparência ligeiramente parecida, tinha olhos verdes, cabelos castanhos e também uma barba volumosa como a de seu cunhado, pareciam mais irmãos do que as próprias esposas.
– O inafundável Titanic afunda no oceano! – Pierre anunciou. – Numero provável de mortos chega à casa dos 1700.
– Que horror. – O czar russo olhou para a foto do navio. – Como pode um navio tão grande e moderno afundar por causa de um bloco de gelo?
– Se me permite, Majestade, posso responder sua pergunta. – Falou um oficial do iate imperial dos Romanov. – Navios não tem selo de inafundáveis, todos são frágeis como um papel. Icebergs pode se mostrar perigosos dependendo da estrutura, eles são afiados em suas pontas.
O czar e o imperador se encararam, houve um certo temor no momento. A esposa de Pierre era tão paranoica quanto sua irmã, a czarina Alexandra. A diferença entre as duas irmãs de Hesse e Reno era gritante. Enquanto Alexandra já parecia uma mulher um pouco mais velha, com o loiro de seus cabelos desaparecendo aos poucos e os olhos azuis sendo a única coisa jovial em um rosto cansado, Margaret, no entanto, ainda tinha seus cabelos loiros brilhando, seu rosto sem quase nenhuma ruga e seus olhos azuis eram ainda expressivos. A personalidade das duas era igual; por terem filhos com a tão assustadora hemofilia, tendiam a ser mais protetoras relacionada aos seus herdeiros, paranoicas e religiosas ao extremo.
– Oh, céus, será que o Standart vai afundar? – Margaret lembrou que a Rússia tinha gelo, poderia ter no oceano.
– Florzinha, não precisa se preocupar. – Pierre tentou evitar uma paranoia. – Nem estamos a navegar, apenas passando o dia.
– Sem contar que o Standart é seguro. – Nicolau assentiu.
– Eles também falaram isso a bordo do Titanic, Nicky, e olhe o tamanho da desgraça que viveram! – Alexandra encarou o marido.
– Melhor esquecermos esse assunto de Titanic. – Nicolau se levantou. – Acho que um pouco de dança pode ser favorável. Lembremos os velhos tempos de herdeiro que nossos garotinhos estão a viver!
O czarevich russo não parecia alegre quando corria em direção ao pai. Um menino alto, vestido de marinheiro com um quepe branco portando grandes letras escritas em russo, quepe esse que escondia seus cabelos loiro arruivados. O garoto ao seu lado tinha o mesmo semblante de travessura, o príncipe Phillipe tinha olhos azuis, cabelos castanhos e era da mesma altura do czarevich. Ambos eram hemofílicos. Ambos eram terrivelmente travessos. Ambos eram terrivelmente sensíveis as dores humanas.
— Papá! — Falou o czarevich. — Eu e Phillipe fizemos um lindo desenho!
O garoto entregou a aquarela. Não passava de rabiscos, mas dava para ver uma garota, um palácio, um cachorro e um rapaz vestido militarmente.
— Que belo desenho! — O czar encarou a pintura.
— Alyosha desenhou, e eu pintei! — O herdeiro do trono meravês se animou.
— Meu garoto tão talentoso! — Margaret abriu os braços, o garoto correu em em sua direção.
Vozes femininas.
– Podemos ler sobre Vassilisa, a Bela e depois fazermos um pequeno teatro. – Anastasia vinha caminhando com suas irmãs e as princesas da Merávia.
– Esses contos de fada são tão açucarados. – Falou a grã-duquesa Tatiana.
– Até que eles são legais. – A princesa Amelie saltitou um pouco. Olga revirou os olhos. – E vocês? Vão na biblioteca ler conto de fadas conosco? Maria nos falou que tem livros super legais.
– Contos de fada é coisa de mulherzinha! – Phillipe exclamou. – Vou ficar com mamãe, a tia Alix, papai e tio Nicky.
– Alexei tem que ir! Nessa história tem um czar! – Maria se animou. – Ele se casa com a Vassilissa no final!
– Só vou porque estou entediado. – Reclamou o czarevich. – E outra, quando eu for o czar, não me casarei, mulheres são chatas demais.
Todos riram. O menino deu a mão a irmã mais velha e seguiu seu caminho.
– Melhor ideia como esta não há.
Lowe estava interessado pelas causas sociais. Molly, Marina, ele e Isabellinha estavam planejando montar um orfanato para ajudar as crianças órfãs e as famílias necessitadas, unindo tudo em algo só. Molly, bondosa como era, não hesitou em apoiar a ideia louca do quinto oficial.
– Abrigaremos as criancinhas e as famílias carentes. – Marina encarou a mulher que tinha um pedaço de papel na mão.
– Ótimo. – Exclamou Molly. – Se me permitem, irei conversar com o inútil do Ismay para ver que ele apoiará este projeto, se apoiar é por puro desdém, mas mesmo assim farei o convite. Até depois.
– Até! – Marina a viu indo embora.
Os três estavam sentados no camarote improvisado no chão do Carpathia. Haviam três cobertores estendidos no chão, um uniforme azul escuro também estava no chão e servia como um cobertor para a caçula por ser quentinho. Lowe não estava incomodado de dormir no chão, para ele era até agradável. Marina estava fazendo duas tranças nos longos cabelos loiro escuro de Isabellinha, enquanto o oficial estava deitado.
– Quando chegaremos em Nova York? – Perguntou Marina.
– Dia dezoito. Se prepare para as mil perguntas que nos farão, a investigação e tudo mais... ninguém escapará daqueles repórteres. – Respondeu o oficial. – Falando nisso, Ismay quer falar com os oficiais amanhã.
– Com certeza querem esconder algo. Os escritórios da White Star devem estar cheio de preocupado com seus entes queridos e eles não vão querer se queimar por causa de certos erros.
– De fato.
Isabellinha brincava com sua boneca.
– Prontinho, está linda. – Sorriu Marina.
– Veja, senhora Potter, sua filha nos desonrando. – Serguei apontou. A mulher não deu importância.
Lowe estava cansado.
– Deus que me perdoe, Serguei, mas eu quero te matar. – Se levantou rapidamente. – Me cansei das suas bobagens, da sua covardia! Você é um covarde! Apenas um covarde!
– Posso ser covarde, mas não sou um marinheiro de esgoto como você.
– Pare com isso! – Riley gritou, atordoada. – Chega, Serguei, chega! Chega dessa palhaçada! Deixe minha família em paz!
– Não, senhora Potter, a senhora começou com isso e irei até o fim. Me casarei com Marina e não me importa se ela já é casada.
– Aceite meu casamento de uma vez por todas! – Gritou. – Para de ser tão louco! Eu não te amo!
– Mas me ama... – Ele não terminou a fala, uma enfermeira aplicou uma dose de sedativo percebendo a gravidade da situação. – Inferno!
Isabella riu. Lowe achou a ação excelente.
– Agora o senhor vai arrumar problema nos sonhos. – Debochou a enfermeira. – Me acompanhe até a enfermaria.
Serguei fora obrigado a ir, não tinha forças para andar direito. As gargalhadas no convés rolaram soltas, até mesmo o capitão se permitiu rir um pouco, se dirigindo até os quatro envolvidos.
– Nosso depatarmento de segurança ficará de olho nele, fiquem tranquilos. – Sorriu Arthur Rostron. – Ele não irá para a enfermaria. Vimos ele tratar uma enfermeira e esta mocinha de tranças.
– Graças a Deus! Ele é um psicopata, senhor. – Lowe expressou sua alegria. – Tentou matar minha esposa!
– E a mim também. – Riley o encarou.
– Ao aportamos ele irá direto para a delegacia, com licença. – O homem se retirou.
Suspiros aliviados que durariam um curto período. Riley se sentou ao lado das filhas e do genro.
