Escarlate: roupas de segunda mão
Capítulo 8
Gengibre
E o mês de Dezembro passou num piscar de olhos, a bruxa mal vendo os dias correrem. O que falavam mesmo, que o tempo passava rápido quando você estava se divertindo?
Bem, Ginevra tinha que admitir que a vida ficara um pouco mais divertida tendo Draco Malfoy como vizinho. Os pensamentos não tão puros sobre o ex-jogador de Quadribol do time sonserino continuavam ali, mas havia mais. Ela já podia chamar aquilo de amizade? Aquela relação que os dois dividiam, os cafés e xícaras de chá, os filmes e opiniões musicais. Era tão bom conversar com ele, que o bruxo poderia passar uma tarde discursando sobre a história da batata e ele teria sua total atenção.
Mas isso só queria dizer que ele era uma boa companhia, e mais nada. Ao menos era o que a bruxa repetia para si mesma, dia após dia. Ele era seu amigo, e como todos os seus amigos próximos, ganharia um pacote de biscoitinhos de gengibre - única receita que Ginevra dominava em seus vinte e quatro anos.
Tirava mais uma forma de biscoitos do forno quando escutou alguém batendo em sua porta. Era domingo, e tinha quase certeza de quem era, motivo do sorriso que se formava nos lábios.
"O cheiro que vem daqui de dentro está maravilhoso!" Definitivamente não era a pessoa que esperava encontrar. "Ginevra Weasley?" Fez que sim com a cabeça para o claramente bruxo moreno parado em frente a sua porta. O homem tinha sua altura e não parecia muito mais velho do que ela. Jurava já ter visto aquele rosto redondo antes. "Jace Thompson. Eu trabalho no Ministério, estou aqui para fazer algumas perguntas sobre seu funcionário."
"Draco?" Ela deixou escapar o primeiro nome, confusa. Por que alguém faria perguntas- "Ele fez algo de errado?"
"Não estaria aqui se não tivesse feito, certo?" E por um momento, o coração dela parou. O dia que ele curara sua mão, só podia ser por causa daquilo que o bruxo estava ali. E ela teria que mentir, e ela era péssima em mentir-
"Eu preciso tirar os biscoitos do forno." Respirou fundo, escancarando a porta e desaparecendo cozinha adentro. "Fique à vontade! Quer café?" Ela queria café. Ela queria café e queria ser uma boa mentirosa.
"Senhorita Weasley, essa na verdade é uma visita de rotina." Escutou segundos depois, Jace na entrada de sua cozinha. Ah, agora que o bruxo lhe avisava aquilo? "Pode continuar cozinhando, eu só quero saber se Malfoy tem dado trabalho."
Estranho como aquela era a primeira vez que vinham checar com ela qualquer coisa sobre Malfoy. Enrolou o dedo no cordão do colar que quase sempre estava ao redor de seu pescoço, tentando disfarçar as mãos inquietas.
"É o melhor funcionário que já tive."
"São amigos?" Seria bom ou ruim responder que sim?
"Mais para colegas de trabalho."
"E a senhorita não tem nenhuma reclamação a fazer?"
"Nenhuma."
"Essa provavelmente foi minha visita mais rápida do dia." O bruxo sorriu, mostrando dentes perfeitamente brancos. Onde ela o havia visto antes? Tinha quase certeza de que não havia sido no Ministério. "Que todas continuem sendo assim. Não se preocupe em me acompanhar até a porta, já tomei demais seu tempo."
O bruxo virava-se quando a mão de Ginevra alcançou seu braço.
"Jace, certo?" Era tão errado perguntar aquilo para um estranho. "O que ele fez de errado?" Seria tão errado descobrir algo que Draco não sentia-se confortável em dividir com ela.
Mas a única resposta ganha não diminuiu em nada sua curiosidade crescente.
"Ele tem a marca negra. Isso não basta?" O sorriso nunca foi embora do rosto redondo. "Tenha um bom dia, senhorita Weasley."
O mês de Dezembro só havia servido para deixar a ruiva cravada em sua mente. Ansiava pelas segundas e odiava domingos, vez ou outra acordando em uma casa desconhecida quando o que realmente queria era abrir os olhos e ver as sardas que aprendera a gostar. O cheiro de gengibre vivia em suas roupas, e até mesmo estava aprendendo a apreciar o gosto de café.
E eles eram amigos.
Draco Malfoy não era dos bruxos o mais experiente com relacionamentos, mas uma coisa sabia: ele estava fodido. Estava fodido porque sabia que aquilo estava evoluindo para algo pior do que a paixonite que a ruiva alimentava por Potter naqueles primeiros anos de colégio. Estava fodido porque aquilo provavelmente nunca passaria de algo unilateral, visto que após o episódio do sofá, Ginevra tratou de manter toda a distância física. E estava fodido porque, mesmo se algum dia passasse disso, bastaria pouco tempo para a bruxa descobrir o quanto ela não queria sair com um ex-comensal.
Nunca deixaria passar disso.
Mal havia acordado quando sua vizinha entrou como um furacão pela porta destrancada. Precisava começar a usar a tranca, definitivamente.
"Eu não sabia que o Ministério ia me fazer visitas perguntando de você!" Ginevra desandou a falar, nervosa, nem por um segundo parando para observar o estado que ele se encontrava, ainda vestindo seu pijama e um cabelo despenteado. "Quando aquele bruxo bateu na minha porta falando que era do Ministério e que você tinha feito algo de errado, eu quase enfartei!"
Foi quando Draco levantou que a ruiva pareceu notar o quão pouco ele vestia, a regata deixando os braços de fora pela primeira vez entre os dois. Mas os olhos castanho, ao invés de procurarem qualquer marca em seus braços, paravam na calça de flanela por tempo o suficiente para as bochechas ficarem coradas. Em momentos como aquele que o bruxo imaginava que sim, Ginevra poderia talvez querer tanto joga-lo na parede quanto ele queria arrancar as roupas que nunca combinavam.
E aquele definitivamente não era o momento de pensar em nada daquele tipo, seu jeans longe demais para seu próprio bem.
"Desculpe?" Tentou, alcançando a xícara de chá já morno e dando um gole, querendo acreditar que a camomila surtiria o efeito desejado. "Eu também não sabia-"
"Eu sou uma péssima mentirosa!" E por um segundo, após aquelas palavras, ele considerou preocupar-se. Draco também não fazia ideia que qualquer funcionário do Ministério estivesse vindo checar seu comportamento - ao menos não havia nada sobre tal escrito em sua pena. "Parece que foi só uma visita de rotina ou sei lá. Mas sério, quando o bruxo disse que você tinha feito algo errado, a primeira coisa que pensei foi-"
Na mão que ele não poderia ter curado mas curou. Draco sabia que o Ministério não conseguiria ligar aquele traço de magia à ele: a bruxa estava ao seu lado quando ele a fez. Ginevra não sabia. Deveria ele começar a ser mais aberto quanto a algumas coisas com a bruxa parada na sua frente?
"Não foi minha intenção te colocar numa situação dessas." Foi a única coisa que saiu de sua boca, a xícara vazia indo para a mesa de centro, ele sentando-se no braço do sofá, seus braços cruzados.
"Eu não estou reclamando. Bem, não foi a minha intenção reclamar disso, você me ajudou." Ginevra começou, chegando perigosamente perto, colocando ambas mãos em seu antebraço esquerdo. Ela lembrava o que tinha ali? No que colocava a mão? "É só que-" Sentiu as mãos o apertarem, e soube a pergunta que outra vez viria antes dela ser verbalizada. Ao menos estava desconfortável o suficiente para não importar-se com aquele toque. "Por que você está aqui?"
"Você nunca vai me dar paz quanto à isso, vai?" Os olhos castanhos falaram tudo: não. "Eu tive duas opções: cumprir minha pena em Azkabam, ou gastar alguns galeões e cumprir em regime aberto, fazendo trabalho comunitário." E quando os castanhos mostraram pela primeira vez vergonha, Draco viu sua chance de escapar de uma longa e desconfortável conversa. "Comunitário, ou você esqueceu que não me paga? Não me olhe assim, você sabe que eu não preciso do dinheiro, não se sinta mal." Retribuiu o olhar, dando um meio sorriso que sabia funcionar com a maioria das bruxas. "E às vezes nem parece que estou cumprindo pena alguma, Escarlate."
Ginevra não era a maioria das bruxas.
"Você sabia que seria eu? Sua chefe?"
"Não." E agora ela perguntaria o que diabos ele tinha feito para estar ali. O que de tão ruim fizera para não conseguir escapar de uma pena, quando nem mesmo seu pai estava atrás das grades. Maldita legilimência que ele precisava parar de usar sem pensar. "Ginevra, eu estou aqui porque não sou diferente de ninguém. Eu fiz escolhas erradas, cometi um crime - vários. E estar aqui não é culpa de ninguém a não ser minha."
E ele tencionou, o que não passou despercebido pela bruxa. Aqueles malditos olhos eram tão expressivos.
"Você não tem que ter dó-"
"Você era um garoto!" Tão, tão expressivos.
"Sim, um garoto que deveria ter pensado melhor-"
"No que, Draco? No que você devia ter pensado melhor? Em aceitar a marca, como se alguém pudesse dizer não para isso? Como se alguém pudesse dizer não para Voldemort?" Oh merda, aquela conversa estava tomando o pior rumo de todas as que tiveram até então. "Em ter consertado os armários, em não ter consertado, em ter-"
"Eu não quero falar sobre os meus erros, mas que merda!" Draco a segurou firme pelos braços, desejando mais do que tudo, pela primeira vez em muito tempo, que a ruiva calasse a boca. Porque outra vez, ali estava ele, pensando em contar tudo que acontecera em sua vida naquela época.
Como poderia considerar se abrir justo com ela?
"Então não fale!"
"Eu não consigo!" Confessou, uma das mãos pinçando o nariz. "Eu não consigo não falar quando você me pergunta as coisas desse jeito tão-" Tão sincero. Parecendo se importar, parecendo realmente querer saber o que tanto o atormentava. Como se fosse poder ajudar, como se fosse poder tirar o fardo daquele sobrenome de seus ombros. "Ginevra, o que você está-"
Não conseguiu prever aquele abraço.
"Fazendo." Gengibre. O cabelo dela cheirava a gengibre, e os braços ao redor de ser pescoço eram tão calorosos quanto o cheiro.
Por que seu coração não batia assim rápido com as bruxas que andava dormindo naquele mês? Por que só queria puxar para perto aquela maldita? Conseguiu resistir a vontade por 5 segundos, os 5 segundos mais eternos de sua vida, antes de envolver seus braços na cintura de Ginevra, a trazendo perto o suficiente a ponto de conseguir afundar a cabeça em todo aquele emaranhado vermelho de cabelos.
Ela se distanciou rápido demais.
"Não precisa me falar nada que você não queira." O assegurou, como se aquilo fosse verdade. "Ok?" Se ele a agarrasse agora e a beijasse, conseguiria fazer tudo que sentia sumir? Ou qualquer beijo só pioraria sua situação? "O que foi?"
Draco voltou a sentar-se no sofá, decidindo que não, aquela definitivamente não era a melhor hora para pensar nos lábios que já imaginara tantas vezes.
"Você anda irritantemente feliz."
"Claro que ando, é a melhor época do ano!" Ligou a resposta aos dias que passaria longe dali.
"É um feriado estúpido." Irritante como ele não estava ansiando passar dias longe daquela companhia. Talvez seu pai conseguisse fazer o que Zabini falhou, visto que Lúcio era mestre em rastrear qualquer tipo de traço mágico.
"Vocês também não comemoram o Natal?" Assim como talvez o melhor a fazer fosse nem tocar no nome de Ginevra com seu pai.
"Claro que comemoramos, que tipo de família acha que somos?" Respondeu, revirando os olhos. Irritante como a bruxa sabia que ele não estava irritado, e o sorriso continuou nos lábios, ela indo buscar um pacote que só agora Draco percebera em cima da mesa da entrada.
"Eu não vim aqui só para brigar com você. Tome." O pacote pardo foi parar em suas mãos no momento em que a ruiva resolveu sentar-se ao seu lado. "Biscoitos de gengibre. É a única coisa que eu sei fazer direito na cozinha."
E sem nem mesmo pedir, Ginevra alcançou o controle remoto e ligou a televisão. Irritante e tão bom ao mesmo tempo conseguir o que queria sem nem mesmo pedir.
"Eu não tenho nada-"
"Não estou te dando para ganhar algo em troca." Os olhos castanhos sorriam enquanto a ruiva passava canal por canal. "Feliz Natal, trouxa."
O domingo passado ao lado de seu funcionário passou rápido demais, enquanto o Natal parecia durar uma eternidade. O que era bom, Ginevra dizia para ela mesma, pois quase não andava vendo sua família fora dos feriados desde que abrira o brechó. Mas ao mesmo tempo, mais desconfortável do que previa, visto que todos de sua família estavam ali presentes.
Sua mãe tocara pelo menos três vezes no tópico que a bruxa queria esquecer, e isso apenas durante a preparação da janta.
Esvaziou mais uma xícara de eggnog enquanto observava a neve cair. Do lado de fora, conseguia enxergar toda a família ainda acordada pelas janelas espalhadas pela casa desigual. No quarto que um dia fora dela, Rose dormia agarrada a um dragão de pelúcia. Hermione e Rony conversava logo abaixo. E na sala, podia ver seus pais e alguns tios jogando baralho bruxo.
Demorou para perceber quem seus olhos faltavam achar.
"Feliz Natal." O moreno, tão familiar e estranho ao mesmo tempo, estendeu a mão, lhe entregou um pequeno pacote. Ginevra sentiu o coração apertar: não havia nem mesmo considerado seu antigo namorado enquanto fazia todas as dezenas de biscoitinhos de gengibre.
"Eu não tenho nada pra você." Repetiu as palavras que ouvira no dia anterior, não vendo outra saída senão pegar o presente.
"Eu sei que você está toda hora ouvindo música." Escutou assim que abriu o saco vermelho, encontrando dentro o aparelho trouxa que com certeza havia comentado querer antes de Outubro.
Definitivamente não esperava aquele final para sua Véspera de Natal. Olhou fundo nos olhos verdes que uma vez tanto desejou, seu coração batendo do jeito errado por eles. Quando fora a última vez que seu coração acelerara de um jeito bom ao olhar para os olhos do menino da cicatriz? A última vez que sua mão suava frio por um nervosismo que lhe fazia cócegas no estômago ao invés de embrulha-lo?
"Minha ideia para esse Natal era outra, mas-" Não, ela não esperava aquele fim para seu dia 24.
"Harry, não-"
"Por favor, deixa eu falar." O moreno enfim sentou-se no tronco tombado que Ginevra ocupava antes sozinha, agora com uma companhia que a fazia tão feliz e desconfortável ao mesmo tempo. Feliz porque parece que os dois finalmente conseguiriam conversar sem gritos. Desconfortável porque, bem- "Eu não sei como você está. Eu fiquei muito bem, e então fiquei muito mal depois daquela noite-" Términos nunca eram confortáveis. Ainda mais depois daquela noite de Halloween.
"Nada aconteceu-"
"Mas iria, não iria?" Ainda mais depois de seu ex te pegar quase beijando o homem que havia contribuído para sua vida ser um inferno. "Eu falei umas coisas das quais me arrependo, então se você puder, me desculpe. Mas doeu te ver justo com ele, Gina. Pareceu-"
"De propósito?" Nem mesmo considerou naquela noite que Harry poderia aparecer em seu apartamento, muito menos entrar preocupado depois de quase dez minutos batendo na porta. "Não foi."
A briga dos dois tinha sido feia, e sentiu um certo alívio ao bater na porta de Draco após o moreno desaparatar e não ter resposta. Já tinha sido ruim o suficiente mandá-lo embora daquele jeito, seria apenas pior saber que o bruxo escutara cada palavra preconceituosa dita por Harry no meio de uma crise de raiva. Sim, ele era um comensal - havia sido -, e sim, ele não tratara sua família da melhor das formas nos tempos de Hogwarts. Mas Ginevra era uma das pessoas que acreditavam em segundas chances.
E o ex-sonserino estava sendo agradável o suficiente - para sua mente e para seus olhos - para merecer até mesmo uma terceira. Ele havia lhe dado uma, afinal.
"Sabe, Draco não é o mesmo bruxo do colégio."
Os olhos verdes estreitaram por um instante, antes de parecerem vencidos, Harry os fechando e jogando a cabeça para trás.
"Sei que não é. E também não acho exatamente justo ele pagar tanto pelos erros que foram mais dos pais do que dele. Só que Malfoy não tem a melhor das famas no nosso mundo," Voltou a olha-la antes de finalizar a frase. "Você sabe disso, não sabe?" Ginevra fez que sim, sua vez de olhar para cima. "Só tome cuidado. Eu amo você. Posso não estar mais apaixonado, mas eu te amo."
Nunca ficou tão feliz em manter os olhos ocupados num céu sem estrelas.
"Eu vou tomar cuidado."
Cinco minutos que pareceram uma eternidade se passaram até o bruxo sentado ao seu lado ficar outra vez de pé. Nenhum deles se olhava quando as últimas palavras que Ginevra ouviria aquele ano de seu primeiro amor foram ditas.
"Achei o anel de noivado de minha mãe." A voz estava carregada de emoção, e ela sabia que haviam lágrimas querendo cair daqueles olhos verdes. "Ele teria ficado lindo na sua mão." Haviam lágrimas nos dela também.
Ginevra escutou a porta fechar antes de deixar a primeira lágrima rolar. E depois da primeira outra, e mais outra, e não demorou para tudo que saía dela a fazer soluçar de tremer. Eggnog frio cheio de neve e lágrimas, que jeito de terminar seu Natal.
Quando foi puxada para um abraço, automaticamente afundando a cabeça no peito quente e conhecido, o choro só aumentou mais.
"O quanto eu preciso machuca-lo?" escutou seu irmão perguntar depois de mais alguns minutos de soluços. "Porque eu posso adorar esse bruxo, mas ninguém faz minha irmã soluçar."
"Só me deixa chorar um pouco, J." pediu entre fungos, limpando os olhos molhados com as mangas frias do suéter laranja.
Era irritante como, depois de começar, era tão difícil conter o choro. Ao mesmo tempo a ruiva sabia que era libertador a leveza que sentiria quando as lágrimas finalmente parassem. Nem mesmo sabia ao certo porque chorava: sentia falta do moreno, claro que sentia. Sete anos ao lado de alguém, apenas alguém com muita raiva não sentiria nada.
Mas todo aquele choro, sabia que não era porque o queria de volta. Ginevra chorava por um amor que ia, ia, e ia ser, e não foi. Sim, ela ainda sentia amor pelo moreno - um amor de irmão, mas amor de qualquer jeito. O amor romântico estava há muito morto. As lágrimas eram para esse luto. Para aquelas últimas palavras, para aquele momento em que os dois chegaram a conclusão silenciosa de que nada mais haveria entre eles senão amizade - e até aquilo poderia ser difícil.
"Eu nunca vou achar alguém como ele, vou? Vou acabar sozinha e cheia de gatos, certeza que esse é meu destino." desabafou, como toda pessoa faz ao terminar um relacionamento.
"Você vai achar, sua boba." Jorge apertou mais o abraço, Ginevra limpando as últimas lágrimas, querendo acreditar nas palavras do irmão. "Irmãzinha, toda música termina, mas isso não é razão para não gostar de música. Às vezes nós escutamos a música outra vez, às vezes procuramos uma nova."
Quis abrir a boca e perguntar quando o bruxo que antes só sabia fazer piadas ficara tão sábio, mas se contentou com o abraço e o silêncio confortável, Jorge afagando seus cabelos bagunçados como fazia quando ela era criança.
Enrolou inconscientemente o dedo ao redor do colar que usava no pescoço e fechou os olhos, lembrando da manhã de domingo que dividira com seu vizinho naquele começo de semana. Nem se deu conta do sorriso que tomou seus lábios.
Todo o peso ficou mais leve.
Os cabelos vermelhos o atormentavam até mesmo na mansão dos pais. Dois dias sem falar com a ruiva e a vida parecia irritantemente mais tediosa: Draco queria gritar ao chegar aquela conclusão. Ele não queria sentir falta daquela maldita do jeito que estava sentindo. Ele não podia, Lúcio o lembrou inúmeras vezes sem nem mesmo tocar no nome da bruxa.
Os chás de camomila já não adiantavam mais.
"Ainda acordado?" escutou de sua mãe ao colocar a xícara vazia na mesa de centro.
"Acho que não estou mais acostumado a dormir aqui." respondeu, aconchegando-se mais no sofá que ocupava desde o fim do jantar de Natal. Era ao menos meia verdade aquelas palavras: não se sentia nem um pouco confortável naquela casa, que seu pai insistia em manter. A guerra havia acabado com qualquer memória agradável que tinha daquele lugar.
"Às vezes também acho difícil." Talvez aquilo também fosse verdade para sua mãe.
"Mas seu marido nunca moraria em outro lugar."
"Casamentos nem sempre são fáceis." Narcissa ocupou o lugar ao lado dele, um meio sorriso nos lábios. "Falando em casamentos-"
"Eu nem mesmo estou saindo com alguém, mãe." Draco teve que se conter para não revirar os olhos: estava demorando demais aquela pergunta.
"Mesmo? Ouvi outra coisa."
"De Zabini, outra vez?" sacudiu a cabeça. Por que o bruxo não podia parar de se meter na sua vida? "Ele anda muito linguarudo."
"Ele só se preocupa com você." Assim como eu me preocupo. Sacudiu a cabeça, passando os dedos pelos fios platinados, mais compridos do que o habitual. Aquela sua mania ainda lhe traria problemas, especialmente quando a pessoa em questão percebesse o que ele havia feito. "Mas não foi de Zabini. Como é sua vida na cidade?" Sua mãe, como sempre, deixou passar. "Aquela Weasley te trata bem?"
"Quem, Ginevra?" Não precisou entrar na mente de Narcissa: a expressão da bruxa denunciou a surpresa. Ginevra. "Sabe manter segredos de seu marido?" Nem pensou em ficar quieto: já estava fodido mesmo. "Ela não é tão mal." confessou, e sua mãe nem mesmo se preocupou em esconder o que sentia. "Você parece aliviada. Achava que a bruxa estava torturando seu filho?"
Claro que ela achava. Como poderia não achar, com tudo que passaram nos últimos anos?
"Mãe, não se preocupe tanto."
"Impossível." Narcissa disse ao levantar-se. "Você vai entender um dia."
Observava a mãe sumir na escuridão da mansão enquanto pensava o quanto aquelas últimas palavras estavam erradas.
Sim, ele era a última esperança de manter o nome Malfoy vivo, mas não tinha a mesma força de seu pai para colocar no mundo que vivia um filho. Não, um Malfoy nunca mais seria bem visto na Inglaterra - talvez o olhassem torto em qualquer lugar da Europa.
Ainda tinha coração o suficiente para não fazer tal coisa com uma criança. Além de tudo, se não Astoria, quem seria louca para ficar ao seu lado para sempre com todo o peso que seu sobrenome trazia? Só mesmo uma bruxa insana, que não dava a mínima para o que a sociedade pensava. Teria que ser muito corajosa para dar as mãos para ele no meio do Beco Diagonal.
Irritante como ele podia pensar em uma com todas as qualidades que ele buscava.
Ainda estava no sofá quando pegou no sono. Nunca poderia imaginar que sardas ficavam tão bem em sua pele.
Deveria ter batido na porta de Ginevra ao invés de ficar checando a hora a cada minuto. Ela não costumava atrasar - maldição, por que ele estava se comportando como um viciado em abstinência? Porque era aquilo que estava acontecendo.
Guardou o celular na gaveta. Talvez fosse melhor a ruiva nem aparecer. Talvez alguns dias distante o fizesse se desintoxicar de todo aquele vermelho. Talvez fosse melhor voltarem a trabalhar em dias alternados. Doeu fisicamente considerar aquilo.
Pegou o celular, e sentiu o coração acelerar ao ver o envelope de mensagem de texto.
"E aí, cara de fuinha."
Levantou os olhos, já sabendo que a pessoa que estava parada na sua frente não era um cliente trouxa. Não esperava justo aquela bruxa.
"Luna Lovegood." Não sorriu, o telefone indo para seu jeans. "Sua amiga ainda não chegou." Fingiu estar ocupado com o caixa - e falhou miseravelmente assim que escutou as próximas palavras.
"A noite passada deve ter sido boa, então." Como? "Harry a trouxe de volta."
E por um momento, sentiu cada célula de seu corpo gelar. Então era daí que vinha a expressão um banho de água fria? Maldita ruiva, e malditos sentimentos que ela o fazia sentir. Ela o fazia sentir. O fazia sentir alguma coisa boa, e o filho da mãe do Cicatriz havia a aparatado de volta para seu apartamento.
Era por isso que a bruxa estava atrasada.
Só voltou a olhar para a loira quando escutou uma risada. Merda, ele tinha sido assim óbvio - nem precisava saber dos pensamentos da lufana para saber o que tinha deixado demonstrar.
"Você precisava ver a sua cara."
"É a única que eu tenho, Lovegood." retrucou irritado, a irritação só aumentando com os olhos claros se negando em parar de fitá-lo. "O que foi?"
"Eu gosto de quem sorri quando está chovendo."
Draco definitivamente não estava sorrindo. Mas a bruxa também não parecia estar rindo dele, exatamente.
"Você é estranha." Ela perceberia se ele tentasse fuçar em seus pensamentos? O quão arriscado seria aquilo? "Eu respeito isso." Decidiu por ficar quieto.
Já considerava tirar outra vez o celular do bolso quando a bruxa chegou perto do caixa, debruçando-se no balcão.
"Posso te contar um segredo?" ela gesticulou para Draco aproximar-se, e ele o fez sem pensar. O que diziam, que era melhor não contrariar os loucos? "Você está apaixonado pela minha amiga."
E pela segunda vez em menos de uma hora, Draco sentiu-se gelar.
"Não se preocupe, eu não vou sair falando pra todo mundo." Abriu a boca para contrariar Lovegood, porém não conseguiu falar mais nenhuma palavra. "Só que eu sou péssima em guardar segredos quando Gina me pergunta, então se eu fosse você-"
Pop.
As pessoas andavam com aquela mania irritante de aparatar ao lado dele.
Nota da Autora: Quem aqui acha que a JKR c gou não dando um arco de redenção pro coitado do Draco? Eu acho, e eu tava inconformada discutindo isso com uma amiga um dia desses. As pessoas nem sempre merecem uma segunda chance, claro, mas a não ser que tenha muito mais podre do que a gente viu, o coitado merecia um futuro melhor.
E ELA AINDA MATOU A ASTORIA, COME ON! Pelo menos deixa a mulher viva.
Ok, passou. Depois dos tweets dela desse ano, a mulher perdeu o direito de definir o futuro dele pra mim E EU IGNORO FORTE A PARTE HG SEM SAL. Mas gosto do Harry, juro, o moleque só se ferrou nessa vida, ele poderia ser um total FDP. E por isso, não odeiem o coitado aqui, ele está superando, assim como a Gina. 7 anos de relacionamento terminando não é fácil, não dá pra parar de gostar do nada, ou parar de sentir um carinho, ou pensar no que poderia ter sido.
Harry tem mais química com a Luna do que com a Gina, prontofalei.
Falante hoje, não? Espero que vcs estejam falantes também! Me contem o que estão achando - tão vendo que reviews funcionam, né? Um novo por semana com vcs me empolgando a escrever no meu tempo livre!
Ótima semana (e fds se eu não aparecer mais por aqui),
Ania.
