Capítulo 11: Dúvida
Puta merda.
Era difícil.
Tão difícil.
Após a noite mais longa de sua vida, durante a qual ele não conseguiu dormir nem ao menos um segundo, ele estava se aquecendo sob o sol da manhã que entrava pela janela. Sentia-se meio embaçado; ainda estava confuso e agitado devido ao incidente com Granger e cansado pela insônia. Em um momento aleatório de espontaneidade, ele tirou todas suas peças de roupa para checar se o ar frio ou os raios de sol quente poderiam fazer com que ele se sentisse mais vivo; mais real, mas ele se sentia como um fantasma.
Uma criatura frágil que estava à beira da realidade, mas não exatamente lá.
Provavelmente era quase hora das pessoas normais acordarem — pois ele conseguia escutar Granger começando a se movimentar — e um estremecimento dolorido tomou conta de seu rosto. Isso era o que ele vinha evitando e ao mesmo tempo desejando a noite inteira; a sua parte preferida daquela rotina degradante. Um brilho puro de suor desceu por sua pele nua quando ele escutou ela se mover para dentro do banheiro e quando ele pensou que havia capturado um pouco do gosto dela em sua boca, aquele ponto sensível abaixo de seu estômago se contraiu. De novo.
Era realmente difícil…
Ele tentou afastar o pensamento, mas sua cabeça estava confusa demais para realmente resistir ao puxão de seu corpo. Ele ouviu o que assumiu ser o barulho das roupas dela batendo no chão e ele engoliu em seco. Fechou seus olhos cansados pela falta de sono, sua imaginação o castigou com imagens coloridas e perigosas dela. Ele sucumbiu a elas rapidamente; cansado demais para tentar lutar de verdade e cativado demais pelas fantasias para ignorá-las.
Ele estava duro…
Tendo se entregado a inúmeras fantasias sexuais anteriormente, aquela era diferente; simples e sem exageros desnecessários. Em sua cabeça, Granger era exatamente como deveria ser, com seus cachos bagunçados caindo pelos ombros e a costumeira feição pensativa em seu rosto. Seu corpo, bem, ele não fazia ideia se sua imaginação se comparava com a realidade, mas ele achava que estava bem próximo disso enquanto seu subconsciente descartava as peças de roupa da dela. Ele ouviu o chuveiro começar a funcionar e respirou fundo quando sua mão se deslocou para baixo.
Ele estava envolvido demais para prestar atenção na voz sonserina dentro de seu crânio e perceber o que ele estava fazendo; e qualquer sussurro de dúvida foi chutado para longe quando os primeiros gemidos dela no banheiro alcançaram seus ouvidos. Mantendo seus olhos firmemente fechados e focando no lábios da Granger de sua fantasia, ele apanhou o comprimento duro como aço abaixo de seu umbigo.
Pela alma de Merlin…
Draco precisava disso. Draco realmente precisava muito disso.
Em sua cabeça, Granger estava no chuveiro agora e ele apertou seu pulso e começou a bombear sua tensão. Semanas e meses sem aquele alívio fizeram com que percebesse que ele não duraria muito, mas não se importava. Ele não dava a mínima para o fato de que sua cabeça estava cheia de pensamentos proibidos sobre ela ou que o quarto dele estava, como sempre, entupido com o viciante cheiro dela. Não tinha importância que a bruxa era catalisadora de sua tensão luxuriosa naquele momento, nem tampouco que a Granger de sua imaginação escorregou a mão por entre suas coxas para acompanhar o próximo gemido.
A imagem o mandou além do seu limite e um suspiro rouco de prazer trovejou por sua garganta enquanto seu líquido quente salpicou por seu abdômen. Seus olhos tremulavam abertos e a Granger de sua fantasia evaparou para longe de sua mente, deixando-o satisfeito e ofegante como uma raposa do Ártico que acabara de agarrar sua presa ou companheira. Seu coração batia contra a caixa torácica enquanto ele tentava se recompor; piscando para expulsar algumas gotas de suor que acabaram presas em seus cílios.
A sensação de êxtase não durou muito, mas nunca durava, de qualquer modo.
E o que ficou para trás foi o nojo de si mesmo que era quase fisicamente doloroso. Ele secou os restos de seu orgasmo com um par de boxers e se virou; curvando-se numa posição semi-fetal de derrota. Ele podia sentir o frio arrebatar sua pele agora, mas não se cobriu com o cobertor. Não havia desculpa para o que acabara de fazer e o frio trouxe a realidade de volta rapidamente.
A pior parte era que ele não fazia ideia se queria bater a cabeça contra a parede até que sua imaginação saísse para fora de seus ouvidos ou fazer aquilo de novo.
Ele não cobriu sua cabeça com um travesseiro para bloqueá-la. Ele deveria ter feito isso, mas não o fez. Em vez disso, permitiu que os sons do banho dela entorpecessem seu cérebro e distraíssem-no da realidade.
Ele acabara de se masturbar pensando em Hermione Granger.
A sangue-ruim.
— Caralho.
Ele rolou e agarrou a coisa mais próxima dele; o livro trouxa sobre o tal King. Ele girou-o em suas mãos e analisou a capa pela centésima vez, relembrando a discussão sobre preconceitos e a armadilha na qual ele caíra rapidamente. Ele a amaldiçoaria até a última geração, mas aquilo o fizera pensar, mesmo que durante apenas um momento.
Ele ficara se perguntando como ele a veria se não fosse o fato de sua genealogia suja e agora ele estava se perguntando aquilo novamente.
Caralho ao quadrado...
Neville praticamente a arrastou para jantar no Salão Principal, ignorando seus protestos e insistindo que passar um tempo com seus amigos a animaria. Aparentemente, a angústia dos seus pensamentos sobre os lábios de Malfoy estavam rabiscados descaradamente em seu rosto, porque geralmente Neville a deixava quieta em sua melancolia. Ele comentou que ela parecia pior hoje e ela eventualmente concordou em se juntar a ele e os outros, justificando que um pouco de conversas despreocupadas a distraíram da feia verdade.
E a verdade era realmente feia, ainda que estranhamente bonita de um jeito estranho. Como Draco.
Como eu pude beijá-lo?
Ela estava sentada em um canto afastado da pequena multidão, acabando um parágrafo de um trabalho que poderia ser adiado para mais tarde. Ela levantou sua cabeça e observou o grupo, passando seus olhos distraidamente por Gina, Lilá, Dino, Simas e Neville ao seu lado, franzindo a testa quando percebeu que faltava alguém.
— Neville — ela murmurou quietamente, mantendo a voz baixa para evitar atrapalhar os outros. — Onde está Luna?
— Nós notamos isso também — ele lhe contou. — Ela desaparece no horário do almoço às vezes e eu não acho que ela tem ficado aqui nos finais de semana também, sabe. Um estudante do quinto ano disse que a viu saindo dos terrenos da escola no último sábado.
— Para onde ela vai?
— Eu não sei — ele deu de ombros. — Ninguém sabe, na verdade. Mas ela deve ter a permissão da McGonagall.
— Que estranho — ela suspirou, virando-se quando um dos outros garotos disse algo para chamar sua atenção. — O que você disse, Simas?
— Eu estava falando sobre os rumores que estão correndo por aí — ele respondeu num sussurro, inclinando-se para que apenas os seis pudessem escutá-lo. — Muita gente tem dito que Voldemort vai se infiltrar no Ministério em breve.
Hermione levantou uma sobrancelha em descrença.
— Rumores as vezes são apenas rumores, Simas. Eu não prestaria muita atenção…
— Porém, isso poderia ser verdade — ele insistiu. — E se eles conseguirem controlar o Ministério, podem conseguir o controle de Hogwarts, e aí nós estaremos todos fodidos.
— Ênfase no SE — ela disse calmamente. — Se McGonagall pensasse que Hogwarts está em risco, ela já teria pensado num lugar alternativo para todos nós…
— Quem disse que ela não pensou nisso? — ele respondeu de volta. — E para onde nós iríamos? Minha mãe disse que pode acontecer…
— E sua mãe também acreditou naquele monte de besteira que escreveram sobre Harry no Profeta — Hermione lembrou o garoto, levantando-se de sua cadeira. — Existem muitos rumores no momento. Vamos nos prender ao que nós sabemos de fato.
— Onde você vai, Hermione? — Gina perguntou, parecendo desapontada quando a morena começou a juntar suas coisas. — Você ainda não terminou sua comida.
— Eu não estou com fome — ela disse fracamente, lançando um olhar de desculpas para sua amiga. — E eu preciso ver McGonagall.
— Bem — a ruiva continuou. — Se quiser, você poderia passar pela Torre hoje a noite? Ou eu poderia te visitar…
— Não! — Hermione argumentou rápido demais, encolhendo-se pela urgência em seu tom de voz. — Não, meu dormitório está uma bagunça. Eu vou tentar ir te ver mais tarde.
Ela acenou educadamente para os outros grifinórios antes de se virar e sair do Salão Principal, calculando que tinha mais ou menos trinta minutos para ver a diretora antes do início de sua próxima aula. Caminhou com passos largos e rápidos até o escritório de McGonagall e murmurou a senha para poder entrar, sabendo que a bruxa mais velha geralmente estava ali no horário do jantar.
— Srta. Granger — a bruxa mais velha cumprimentou de sua mesa. — Que visita inesperada. Está tudo bem? Você parece um pouco pra baixo hoje.
Malfoy…
Hermione hesitou e sentou-se na poltrona oposta, apertando seus lábios enquanto pensava.
— Não tenho certeza — ela murmurou. — Eu acho que tenho algumas coisas que preciso te perguntar.
— Muito bem — McGonagall acenou com a cabeça, ajeitando-se na cadeira e dando toda sua atenção à estudante. — O que está te incomodando?
— Bem — ela disse desconfortavelmente, perguntando-se por onde começar. — Simas mencionou que há boatos sobre Voldemort se infiltrando no Ministério, e eu estava me perguntando se há alguma verdade nisso…
A bruxa enrijeceu a boca e exalou um longo e cansado suspiro.
— Os boatos estão aí desde a morte de Dumbledore — ela admitiu cuidadosamente. — Porém, não se sabe dos detalhes. Tudo o que posso dizer é que existe uma possibilidade.
Hermione sentiu algo em seu peito afundar.
— E se ele se infiltrar?
— Então nós iremos evacuar a maioria dos estudantes — ela respondeu com um tom triste em sua voz. — Especialmente os nascidos trouxa, como você…
—Oh Deus…
— Tente não se preocupar muito com isso — McGonagall aconselhou calorosamente. — Pelo que posso dizer, o Ministério tem se segurado consideravelmente bem contra os Comensais da Morte e nós temos precauções em caso do pior acontecer.
Hermione cruzou os braços em torno de si mesma; de repente se sentindo muito fria e sozinha. Uma parte dela sempre suspeitara que o Ministério poderia ser afetado por Voldemort, mas era fácil perder o rumo de tudo o que acontecia do lado de fora de Hogwarts quando ela estava enterrada em seus livros ou envolvida em confusos beijos com alguém que não deveria.
— Eu não tenho tido muita sorte em minhas tentativas de desvendar o que são as outras Horcruxes são — ela sussurrou com desapontamento evidente. — Eu tenho tentado ver se posso encontrar uma ligação entre o diário e o anel com outros objetos que fariam sentido. E nós sabemos que o medalhão é um deles, mas não sabemos se é o verdadeiro e…
— Srta. Granger — a diretora interveio em seu devaneio. - Eu estou ciente de que você tem tentado o melhor que pode e que o Sr. Potter e o Sr. Weasley também têm. Eu tenho certeza que a resposta surgirá em algum momento. Mas você não deveria se estressar muito…
— Haverá uma guerra em breve….
— Nós tecnicamente estamos em guerra há meses, Srta. Granger.
— Bem, a batalha final, então — Hermione clarificou com frustração e inquietação. — Eu posso sentir que está se aproximando e eu não sei se nós teremos encontrado todas as Horcruxes em tempo…
Nós estamos todos fazendo o nosso melhor para nos preparar — ela a interrompeu de novo, lançando um olhar taciturno para a jovem bruxa. — Hermione, há um limite para o que podemos fazer. Lembre-se de que é humana, querida. Você está se saindo brilhantemente e eu não poderia te pedir mais nada. Por favor, tente não se estressar tanto. Isso não ajudará.
A bruxa de olhos de avelã soltou um suspirou desamparado mas se rendeu à lógica de McGonagall e suas palavras tranquilizadoras. Não era a primeira vez que ela tinha tido um pseudo-ataque de pânico na presença da diretora nos últimos meses e provavelmente não seria a última. A maioria dos membros da Ordem e alguns dos outros estudantes estavam tendo pequenas crises recentemente; aquilo era natural, considerando o momento em que viviam, e Hermione estava grata pelo fato de que a professora sempre conseguia acalmar seus pensamentos voláteis. Mesmo que apenas temporariamente.
— Está se sentindo melhor agora, Srta. Granger? — McGonagall perguntou. — Ou você ainda tem questionamentos?
— Eu tenho milhares de questionamentos — ela respirou, pausando para considerar antes que um pensamento flutuasse em sua mente e ela se lembrou do que Neville havia dito. — Na verdade, tem uma coisa que me deixou um pouco curiosa.
— Vá em frente.
— Neville mencionou que Luna tem saído de Hogwarts nos fins de semana — ela explicou, franzindo a testa quando a diretora evitou seus olhos. — Você poderia me dizer o por quê?
— Eu sinto muito, mas eu não posso — McGonagall disse após uma pausa para pensar. — Eu posso confirmar que a Srta. Lovegood realmente deixa a escola durante os fins de semana, mas ela me pediu sigilo absoluto sobre seus motivos, e eu a garanti que não diria a ninguém.
— Está tudo bem com ela? — Hermione perguntou. — Ela não está envolvida em algum problema ou algo do tipo?
— Ela está perfeitamente bem — a bruxa respondeu. — Eu posso garanti-la que ela está completamente segura.
— Então por que ela…
— É um assunto pessoal — McGonagall finalizou bruscamente. — Se você quiser saber mais, deveria perguntá-la pessoalmente.
Os alunos de Hogwarts estavam espalhados aleatoriamente pela biblioteca, apertados entre corredores e estantes e amontoados um pouco mais proximamente que o normal para se proteger contra o frio. O céu de inverno já estava cinza escuro às sete da noite e Madame Pince acendeu algumas velas extra e lançou um feitiço aquecedor fraco demais para acomodar os quarenta e poucos estudantes confortavelmente.
Hermione sentou-se sozinha num canto escuro perto da área restrita; perdida em sua bolha solitária que silenciava o barulho ao seu entorno. Ela tentou focar nas páginas rabiscadas em frente a ela, mas não conseguia parar de pensar em Malfoy e no que havia acontecido.
Como eu pude fazer aquilo?
Todos os métodos de distração que ela havia tentado tinham falhado e a deixado com os lábios coçando e mais confusa. Ela queria saber por quê e como aquilo acontecera, mas dificilmente poderia sugerir uma discussão sobre isso com o seu colega de quarto sonserino. O que deixava tudo ainda pior era que ela sentia como se todo mundo estivesse a encarando entrando em sua cabeça e roubando aquele segredo perverso e secretamente a desprezando por isso.
Paranóia era um parasita e tanto.
Mas aquilo não era o pior de tudo. Não importa o quanto tentasse rejeitar aquela noção absurda, ela não podia evitar pensar que estava sendo traída de algum modo. Não havia ao menos sido um beijo de verdade e ela sentia como se tivesse perdido algum tipo de conclusão ou… clímax.
Era como se ela tivesse ido ao inferno e não experienciasse a lambida das chamas.
Ela não deveria querer aquilo, mas realmente, realmente queria. Sua curiosidade estava conseguindo o melhor dela e ela queria mais. Ela queria…
— Hermione.
Ela começou com um suspiro forte e lançou um olhar penetrante à fonte de interrupção de seus pensamentos.
— Pela tumba de Merlin, Michael — ela murmurou. — Você me matou de susto.
— Desculpe-me — ele gargalhou casualmente de um jeito que fez ela pensar que ele não estava arrependido de modo algum. — Eu estava me perguntando se você terminou sua lista de tarefas para os monitores?
— Oh — ela respirou distraidamente, procurando a tal lista em sua bolsa. — Sim… Claro. Aqui.
Michael Corner aceitou a folha de pergaminho e deu uma olhada rápida antes de lançar-lhe um olhar preocupado. — Você está bem, Hermione? — o Monitor-Chefe perguntou. — Você parece um pouco distante.
— Eu estou bem. — Ela deu de ombros, abaixando a cabeça para esconder sua incerteza. — Tem algum problema com a rota?
— Não, parece boa — ele respondeu. — Eu só pensei que talvez você quisesse alguma companhia.
— Eu estou indo embora em um minuto — Hermione respondeu, tentando ser o mais educada possível, apesar de seu mau humor. — Desculpe-me, eu estou bem cansada.
— Ela fez uma nota mental para se desculpar com Michael por seu comportamento azedo ultimamente. Ela normalmente gostava das conversas leves com o corvinal, que havia amadurecido exponencialmente no último ano, particularmente após o término com Cho. Inicialmente, Hermione havia sido extremamente receosa em trabalhar com ele, após ter escutados alguns comentários nem um pouco lisonjeiros sobre ele vindos de Gina, mas ele era legal o suficiente, apenas um pouco competitivo demais, às vezes.
— Não se preocupe — ele disse em voz baixa. — Nós precisamos organizar um encontro para discutir o baile de Natal em breve…
— É realmente necessário? — ela rosnou, fechando seu livro bruscamente. — Temos coisas mais importantes que deveríamos discutir além de um bailezinho bobo…
— Eu acho que McGonagall está apenas tentando manter os ânimos — Michael a lembrou. — Qual é, Hermione. Não vai doer se divertir um pouco no Natal. As pessoas aqui estão precisando se animar.
— Pode ser. — Ela suspirou ceticamente, colocando suas coisas em sua bolsa e se levantando da poltrona. — Nós podemos discutir isso em Hogsmeade no fim de semana, então. Pode ser?
— Pode ser — ele acenou. — Você quer que eu te leve de volta até seu dormitório?
— Não, não seja bobo. — Ela o dispensou com um aceno de sua mão. — Eu acho que Terêncio e Antônio estão tentando te chamar de volta, de qualquer modo. Eu te vejo no sábado.
Hermione se virou antes que ele pudesse responder e caminhou em direção a saída, mantendo seus olhos baixos para tentar ignorar o olhar dos outros estudantes. Ela podia jurar que eles estão lançando olhares suspeitos de novo e ela se apressou com o coração pesado. Apesar de seu desejo de evitar o dormitório — ou mais precisamente o sonserino loiro que estava lá dentro — seus passos a levaram até lá, de qualquer modo. Ela tremeu de ansiedade ao sussurrar a senha e escorregar para dentro; seus olhos de avelã nervosamente escaneando cada canto criticamente.
Como sempre, o quarto não dava indicação alguma de sua presença e ela rapidamente concluiu que ele estava em seu quarto. Com um suspiro de alívio por poder adiar o confronto por mais um tempo, ela correu em direção ao seu quarto com a intenção de se esconder até de manhã, sem se importar se isso seria considerado covardia.
Ela parou pouco tempo depois ao ouvir três batidas contra sua porta principal e soltou um grito assustado. Merlin, ela estava sempre se assustando…
— Quem é? — ela perguntou, com sua voz fraquejando um pouco.
— É o Michael.
Ela franziu as sobrancelhas em irritação com a insistência dele e olhou de relance para o quarto de Malfoy, perguntando-se se seria uma decisão sábia ter um visitante quando ele deveria supostamente permanecer sem ser visto.
— O que você quer? — Ela perguntou alto, mantendo os olhos fixos na porta de Draco. — Eu estou um pouco ocupada.
— Você deixou um de seus livros pra trás — o Monitor Chefe explicou. — Está tudo bem aí?
Ela fez uma careta e lentamente foi em direção a voz, lançando um último olhar por cima do ombro antes de abrir a porta; apenas o suficiente para colocar sua cabeça contra a borda e manter o corpo escondido.
— Eu estava prestes a entrar para o banho. — ela mentiu quando ele lançou um olhar confuso a ela. — Eu estou vestindo meu roupão.
— Desculpe-me. — Ele sorriu timidamente, levantando o livro para ela pegar. — Tem certeza de que você está bem, Hermione? Você tem estado um pouco estranha hoje.
Ela conseguiu forçar sua boca a formar um sorriso desconfortável enquanto pegava o livro de seus dedos e o jogava em sua mesa.
— Eu só estou realmente cansada — ela disse, fechando a porta um pouco mais e esperando que ele entendesse sua deixa. — Eu acho que vou dormir cedo hoje, mas obrigada por me trazer o livro.
— Tem certeza? — ele insistiu e ela lutou contra o impulso de se irritar com ele.
— Tenho certeza — ela disse sem rodeios. — Boa noite.
— Boa noite, então. Eu te vejo no sábado.
Hermione soltou uma respiração abatida e descansou sua testa pesadamente compra a porta, desejando que as batidas altas de seu peito evaporassem. Ela sabia que as intenções de Michael eram totalmente inocentes e ela estava reagindo defensivamente demais, mas sentia como se todo mundo estivesse tentando encurralá-la naquele dia e mergulhou em seus pensamentos; seus segredos, e não queria que uma alma viva soubesse o que ela havia feito.
— Quem diabos era esse?
Sua cabeça girou tão rapidamente que ela quase perdeu o equilíbrio e parecia que seu peito se rasgaria quando seu coração começou a pulsar selvagemente. Subconscientemente ela recuou até que suas costas se pressionaram contra a porta e ela colocou uma mão sobre seu peito; fixada nele enquanto ele se encostava contra a borda da porta com uma expressão tempestuosa. Suas feições estavam contorcidas numa fascinante mistura de escárnio e ressentimento e algo mais que ela não conseguia identificar muito bem, mas que fez sua respiração ficar presa na garganta.
— Por que você tem que fazer isso? — ela engasgou com raiva quando conseguiu recuperar sua voz. — Você gosta de me assustar…
— Eu te perguntei quem era esse — ele cuspiu por entre os dentes, e ela percebeu então como os músculos dele estavam tensos. então E é melhor que você me dê uma resposta boa para caralho, Granger.
Ela encolheu enquanto ele se empurrou para longe da porta e se moveu em direção a ela, com movimentos lentos e calculados que a lembraram um lobo. Ela percebeu que Malfoy tinha uma graça e uma elegância refinada que ela não podia deixar de admirar e invejar; como se cada passo fosse intencional e pré-planejado para intimidar, ou mesmo seduzir. Ela deveria achar aquilo desconcertante ou desagradável mas, que Godric a perdoasse, ela não podia deixar de se sentir intrigada.
— Você é surda, Grang…
— Era só o Michael Corner — ela murmurou, tirando suas vestes e indo até os sofás. — Ele é do nosso ano e…
— Eu sei quem ele é — ele gritou, seu tom ainda sombrio e baixo. — Corvinório estúpido. Jogador de Quadribol de merda. A única coisa que o salva é que ele é sangue puro. O que ele queria com você?
— Ele estava me devolvendo meu livro — ela explicou inquietamente enquanto ele continuava a se aproximar; os braços cruzados arrogantemente sobre seu peito. — Por que você…
— E por que aquele merdinha idiota pensaria que você vai se encontrar com ele no sábado?
— Você estava espionando? — ela levantou as sobrancelhas.
— Apenas RESPONDA a minha pergunta, caralho! — ele demandou duramente, batendo sua palmas contra as costas do outro sofá. — Por que você se encontraria com ele?
— Não é da sua conta, é?
Ele estalou a mandíbula e balançou a cabeça, como se ele estivesse se segurando antes de fazer alguma coisa muito idiota. Seus olhos nublados se moveram entre ela e o chão enquanto ele mordia a língua e parecia tentar controlar sua respiração. Ela o estudou cautelosamente e umedeceu seus lábios com uma pincelada de sua língua, esperando nervosamente pela resposta dele.
— É da minha conta se ele está se convidando para vir aqui — ele respondeu cuidadosamente. — Se ele tivesse me visto, poderia sair cagando a informação para qualquer um…
— Ele não te viu…
— E se você planeja se atirar para ele por aí então…
— COMO VOCÊ OUSA! - Hermione gritou, levantando-se de sua poltrona e marchando em direção a ele. — Você NÃO tem o direito de falar comigo desse jeito…
— Eu posso falar com você como eu quiser — ele respondeu calmamente, esticando seu pescoço para pairar sobre ela. — Se você não me disser, eu vou tirar minhas próprias conclusões…
— Isso é ridículo! — ela sibilou. — Eu te disse que vou para Hogsmeade esse fim de semana e
— E você está indo com aquilo? — ele rosnou, como se apenas o pensamento da possibilidade fosse o suficiente para lhe causar revolta e deixou um gosto azedo em sua língua. — Então você está fodendo com aquele pedaço repulsivo de…
— Oh, por Godric, Malfoy! — ela exclamou, alheia a proximidade deles em meio a sua frustração. — Michael e eu somos as únicas pessoas indo porque somos Monitores Chefes!
A boca dele se fechou num estalo audível e ela sentiu como se ele estivesse despindo-a quando seu olhar correu pelo rosto dela. Ela percebeu o quão próximo eles estavam, então; perto o suficiente para que sua respiração conseguisse mover alguns fios do cabelo dela em sua testa, mas ela não se moveu, apesar de cada parte de seu instinto gritar para que ela o fizesse.
Lembra-se do que aconteceu na última vez que vocês ficaram próximos assim…?
Se ele se importava com a proximidade, não demonstrou e ela poderia jurar que alguma coisa perto de alívio inundou suas feições pálidas. Ele inclinou a cabeça levemente e deixou cair os ombros e a sala parecia se encher de estática quando a raiva anterior se dissipou.
— Você está querendo me dizer que aquele idiota inútil é Monitor-Chefe? — ele arrastou ceticamente. — Que merda de piada…
— Ele é muito bom, na verdade — ela argumentou, notando que o lábio superior dele se contraiu enquanto ela falava. — Terminamos aqui, Dra… Malfoy?
As sobrancelhas dele franziram com o erro dela e a bruxa tentou esconder o constrangimento sem sucesso. Ela se virou para sair, mas o aperto frio dele envolveu seu pulso antes que ela pudesse se distanciar.
Apenas empurre ele para longe… Muito perto…
—Que foi agora? — ela perguntou, recusando-se a olhar para ele. — Eu respondi suas perguntas e tolerei o bastante de sua…
— Eu não terminei — ele murmurou, apertando o braço dela um pouco mais. — Eu tenho outra pergunta.
Ela zombou:
— Eu não vejo motivo algum pelo qual eu devesse…
— Por que você preparou comida para mim hoje de manhã? — ele se apressou com óbvio desgosto.
Hermione piscou para ela mesma e lentamente girou seu pescoço para lançar-lhe um olhar confuso.
— O que... O que você quer dizer? — ela gaguejou. — Eu sempre preparo sua refeição de manhã…
— Eu pensei que depois da nossa briga na noite passada — ele disse relutantemente. — Que você não teria…
— Nós brigamos todo dia, Malfoy…
— A noite passada foi diferente.
A sala parecia ser feita de vácuo, e Hermione podia jurar que sentiu de verdade o ar sendo retirado de seus pulmões. Os olhos de Draco pareciam mais suaves agora, como fumaça leitosa; e ela estava totalmente fixada neles. Depois do seu discurso enfurecido e a negação total do pseudo-beijo na noite passada, suas palavras a abalaram completamente. Os dois sabiam do que ele estava falando quando disse que fora diferente e aquilo trincou entre ele como chamas perigosas; muito quente para tocar mas muito forte para ignorar.
O beijo…
— Eu não te deixaria com fome por causa… daquilo — ela quebrou o silêncio desconfortavelmente. — Seria cruel…
— Seria normal — ele argumentou e ela assistiu desapontada quando suas feições voltaram a carranca amarga e fechada que ela conhecia tão bem. — E eu tenho certeza de que você quer me dar uma lição tediosa sobre bondade e a moral Grifinória ou alguma merda que eu realmente não poderia me importar menos…
— Você me perguntou algo — ela protestou, liberando seu pulso do aperto dele e andando para longe. — Eu vou para a cama. Boa noite, Malfoy.
Draco cerrou os punhos enquanto Granger desaparecia em seu quarto, perguntando-se que diabos havia provocado aquele comportamento patético nele. Era humilhante e inaceitável e ele a culpava totalmente por aquilo. A partir do momento em que ela o infectara com seu sangue sujo e afogara-o em sua essência, tudo havia se deteriorado, especificamente sua mente. Agora, ele estava sendo submetido a assombrosas fantasias sobre ela e tentado por quase beijos que o deixavam se sentindo revoltado e ao mesmo tempo… faminto.
Aquilo estava quebrando seu cérebro em pequenos fragmentos perturbantes que faziam com que ele se questionasse sobre o quão longe estava disposto a ir antes que aquela fome inapropriada pelo gosto dela fosse saciada.
O ódio que ele sentiu quando aquele maldito corvinal apareceu ali havia sido explosivo e imoral e ele estava fisicamente abalado, mas não fazia ideia do por quê.
Não eram ciúmes.
Só ódio. Um ódio possessivo, talvez.
Sua luxúria e seus estímulos eram muito limitados naquela prisão e o gosto e o cheiro dela se tornaram, de algum modo, necessidades, e ele não dividiria isso com ninguém além daquela porta. Ainda que tivesse provado dela apenas brevemente, aquilo era dele agora, mesmo que ele nunca mais quisesse de novo, pelo bem de sua dignidade. E ele não queria encostar nela novamente. Na verdade, ele não queria, mas se o idiota do Michael Corner pensava que ele tinha o direito de dar uma lambida em Granger, ele estava enganado para um caralho.
Ele não entendia suas emoções perigosas em relação a ela, e nem gostava delas, mas elas eram poderosas e quase instintivas, impossíveis de serem ignoradas.
Ele correu de volta para seu quarto e silenciosamente implorou a Salazar que o livrasse daquela… obsessão pela sangue-ruim logo. Era degradante e consumia a mente dele e ele temia que acabasse fazendo algo sobre aquilo.
Eu não vou fazer nada sobre isso…
O vento, aquela noite, estava gritando como criancinhas sendo torturadas e Hermione se convenceu de que o relógio estava mentindo para ela.
Se realmente ainda fossem três da manhã, então ela estava encarando o teto por quatro horas e isso não era saudável. Ela foi para a reclusão de seu quarto e inflexivelmente se recusou a sair, distraindo-se enquanto terminava cada um de seus trabalhos que precisariam ser entregues até o Natal. Aquilo durou três horas e desde então ela tentava desesperadamente conseguir dormir, mas em vão.
Aquela noite não era por culpa do vento…
Não importa o quanto ela tentasse erradicar Malfoy de seus pensamentos, ela não conseguia; fosse por lembranças teimosas do pseudo-beijo deles ou apenas meditações sobre seu comportamento de modo geral. Ela se encontrava fascinada por ele — por mais que tentasse negar aquilo — e notou que ele não a chamara de sangue-ruim recentemente. Um mês em sua presença havia a afetado e ela se encontrava mais determinada que nunca a quebrar os seus preconceitos, apesar de não conseguir evitar de pensar se agora ela fazia aquilo por razões egoístas.
Ela queria que ele a visse de modo diferente e ela tinha quase certeza de que ele estava começando a fazê-lo.
Pelo menos ela esperava que sim.
Ela se sentou e esfregou o rosto com as palmas das mãos, perguntando-se se o interesse dela nele era apropriado e saudável. Provavelmente não.
Um calafrio subiu por sua espinha e ela agarrou sua varinha para reaplicar um feitiço aquecedor quando um pensamento chamou sua atenção. Ela tinha três cobertores e magia para lutar contra o frio de novembro, mas o que Draco tinha? Ele só possuía um cobertor…
E se ele estivesse congelando?
Ela percebeu então que se importava, quando realmente não deveria. Ela sabia que isso era de sua natureza, mas era também algo mais; uma preocupação genuína com o conforto dele que a deixava se questionando sobre quando começara a se importar de verdade.
Ela deixou sua cama e se enrolou em seu roupão, tentando decidir o que fazer exatamente. As opções eram simples; escolher entre ignorar e deixar aquele idiota imbecil lidar com aquilo sozinho, ou se render ao desejo de prover a ele um pouco de calor.
— Que diabos eu estou fazendo? — ela sussurrou para si mesma enquanto saía de seu quarto com passos leves.
Com menos de dois minutos de hesitação em frente a porta dele, ela mandou seus medos para longe e apontou a varinha em direção à maçaneta.
— Alohomora.
