O dia das bruxas.
-Eu amo o Halloween –suspirou Alice –Tudo fica decorado.
Draco não conseguiu acreditar em seus olhos quando viu que Harry e Rony continuavam em Hogwarts no dia seguinte, parecendo cansados, mas absolutamente felizes.
-Eles não seriam expulsos por isso –bufou Sirius –Se não eu não estaria aqui há muito tempo, né Prongs?
O maroto assentiu, sem dizer nada. Sirius já começou a ficar impaciente com o amigo.
-Se fosse dessa forma, com certeza não teríamos durado nem uma semana nessa escola –concordou Remus, tentando acabar com aquele clima estranho no recinto.
De fato, na manhã seguinte Harry e Rony começaram a achar que o encontro com o cachorro de três cabeças fora uma excelente aventura e estavam prontos para outra.
-Culpa sua –falou Remus a James, esperando uma reação de Lily.
Um segundo.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Sete.
Oito.
Nove.
Dez.
Nada.
Entrementes Harry contou a Rony sobre o pacotinho que parecia ter sido levado de Gringotes para Hogwarts, e passaram muito tempo pensando no que poderia precisar de tanta proteção.
– Ou é uma coisa realmente valiosa ou realmente perigosa – falou Rony.
-Ou as duas –falou Frank, recebendo um murmúrio amedrontado da namorada.
– Ou as duas – acrescentou Harry.
Remus ergueu a sobrancelha para o amigo, que sorriu com a coincidência e puxou uma Alice apavorada para mais perto.
Mas como só o que sabiam com certeza sobre o misterioso objeto era que media uns cinco centímetros de comprimento, não tinham muita possibilidade de adivinhar o seu conteúdo sem outras pistas.
Nem Neville nem Hermione mostraram o menor interesse pelo que estava sob os pés do cachorro e do alçapão. Neville só estava interessado em quando iria chegar perto do cachorro outra vez.
-Nunca mais, Neville Longbottom, nunca mais. Estamos entendidos? –brigou a futura mãe com o ar.
-Ele não está aqui, sua doida –riu Sirius.
-Sirius Black, faça-me o favor de se calar? Eu sei perfeitamente que o meu filho não está presente, assim como você, mas isso não irá me impedir de dar broncas durante toda a narrativa. E é melhor que você fique quieto na próxima vez –ela direcionou o olhar de "mãe" para o maroto, que fingiu não se importar (apesar de ter se encolhido no mínimo uns três centímetros no assento) e bufou.
Hermione agora se recusava a falar com Harry e Rony, mas era uma menina tão mandona e metida a saber de tudo que eles encararam sua atitude como um prêmio.
-Viu, Lily? –perguntou Sirius –Nenhuma amizade aí.
-Veremos, Black –respondeu, ainda mais reclusa que o normal.
Sirius e Remus se entreolharam, e em seguida olharam para Alice, que deu de ombros, demonstrando uma mínima felicidade. Afinal, essa reação já era uma pequena vitória.
Agora só o que realmente queriam era descobrir um jeito de se vingar do Draco, e para sua grande satisfação, a oportunidade chegou pelo correio mais ou menos uma semana depois.
Todos olharam rapidamente para Lily, esperando que ela repreendesse James ou o próprio filho.
Contudo, a ruiva continuou quieta e com os olhos nas próprias mãos entrelaçadas.
Quando as corujas invadiram o salão como de costume, a atenção de todos foi atraída por um longo pacote carregado por seis corujonas. Harry sentiu tanta curiosidade quanto os outros para ver o que havia no pacote e se surpreendeu quando as corujas desceram planando e o largaram bem diante dele, derrubando o seu bacon no chão. Mal tinham se afastado quando outra coruja deixou cair uma carta em cima do pacote.
-É uma vassoura! –exclamou James, animado, sendo recebido por sorrisos de pura alegria com sua reação.
-McGonagall deve ter dado a ele, Prongs –falou Sirius.
-Discordo –murmurou Lily –não acho que a professora favoreceria os alunos assim, na cara dura.
-Ela favorece esses três na cara dura –disse Frank, dando de ombros.
Harry abriu a carta primeiro, o que foi uma sorte, porque ela dizia:
NÃO ABRA O PACOTE À MESA. Ele contém a sua nova Nimbus 2000, mas não quero que todo o mundo saiba que você ganhou uma vassoura ou todos vão querer uma. Olívio Wood vai esperá-lo hoje à noite, às sete horas, no campo de quadribol, para a sua primeira sessão de treinamento.
Profa. Minerva McGonagall
-Tenho que agradecê-la imediatamente –suspirou James, ansioso –Uma Nimbus 2000!
Lily deu leves tapas no ombro do futuro marido, sorrindo timidamente para ele.
-Acredito que nosso filho seja o queridinho da professora.
-Como nós fomos –ele mordeu o lábio inferior, olhando-a nos olhos pela primeira vez depois de algum tempo.
Os outros olharam entusiasmados com a troca de olhares do casal e bateram um high-five discreto, enquanto Snape trincava o maxilar.
Harry teve dificuldade em esconder a alegria quando passou o bilhete para Rony ler.
– Uma Nimbus 2000! – Rony gemeu de inveja. – Eu nunca nem pus a mãoem uma.
-Nenhum de nós Rony, nenhum de nós –suspirou Sirius dramaticamente.
Os dois saíram depressa do salão, querendo desembrulhar a vassoura sozinhos antes da primeira aula, mas no meio do saguão de entrada encontraram o caminho barrado por Crabbe e Goyle. Draco tirou o pacote de Harry e apalpou-o.
– É uma vassoura – falou, atirando-o de volta a Harry com uma expressão de inveja e despeito no rosto. – Você vai se ferrar desta vez, Potter, alunos do primeiro ano não podem ter vassouras.
Rony não conseguiu resistir.
-Vocês são parecidos –observou Remus.
-Não somos, não. Ok, nós dois somos melhores amigos dos Potter, mas eu sou muito mais charmoso e encantador que esse cara. Fala sério! Isso é um insulto a minha beleza, Moony.
O resto da sala apenas bufou, com Severo incluído nisso.
– Não é uma vassoura velha qualquer, é uma Nimbus 2000. Que foi que você disse que tem em casa, Draco, uma Comet 260? – Rony riu para Harry. – A Comet enche os olhos, mas não tem a mesma classe da Nimbus.
-Realmente –concordou James –a Nimbus é mais leve, vira com mais facilidade ao menor comando.
– Que é que você entende disso, Weasley, você não poderia comprar nem a metade do cabo. Vai ver você e seus irmãos têm que economizar para comprar palha por palha.
Antes que Rony pudesse responder, o professor Flitwick apareceu ao lado de Draco.
– Não estão brigando, meninos, espero – falou com voz esganiçada.
-Já ouvimos isso antes –Remus fez uma careta para os amigos e os três olharam em direção a Severo, que os olhou com a mesma expressão fria e distante de sempre.
– Potter recebeu uma vassoura, professor – disse Draco depressa.
-Fofoqueiro –bufou Frank –Agora ele vai se ferrar.
– Eu sei – respondeu o professor Flitwick, abrindo um grande sorriso para Harry. – A Profa. Minerva me falou das circunstâncias especiais, Potter. E qual é o modelo?
– Uma Nimbus 2000, professor – informou Harry, lutando para não rir da expressão horrorizada no rosto de Draco. – E, para falar a verdade, foi graças ao Draco aqui que ganhei a vassoura – acrescentou.
-Boa, meu garoto –gargalhou Sirius –Aprendendo com o melhor.
-Quem está falando com alguém que não está presente agora, Black? –Alice o observou com um ar de superioridade.
-Quieta. –ele sibilou, fazendo Remus, Frank e a namorada segurarem o riso.
Harry e Rony subiram as escadas sufocando o riso diante da raiva e confusão visíveis de Draco.
– É verdade – disse Harry, caindo na gargalhada, quando chegaram ao alto da escadaria de mármore. – Se ele não tivesse roubado o Lembrol do Neville eu não estaria no time.
– Então suponho que você ache que ganhou um prêmio por desobedecer ao regulamento? – Ouviu-se uma voz zangada logo atrás deles.
-Tudo bem –murmurou Lily –ela não é uma pessoa fácil inicialmente, mas eu tenho certeza que vamos nos surpreender com ela. –Sirius revirou os olhos.
-Insuportável –murmurou.
Hermione subia com passos decididos a escadaria, olhando com desaprovação para o pacote nas mãos de Harry.
– Pensei que você não estava falando com a gente – comentou Harry.
-Ela poderia continuar assim –continuou Sirius, sob olhares de desaprovação da ruiva.
– É, continue a não falar – falou Rony –, está fazendo tanto bem à gente.
-Tão parecidos –brincou James, se soltando e levando um leve soco do amigo (que se deu ao trabalho de levantar para repreendê-lo).
Hermione se afastou com o nariz empinado.
Harry teve muita dificuldade em se concentrar nas aulas daquele dia. Seus pensamentos não paravam de vagar até o dormitório onde guardara a vassoura debaixo da cama, ou de se desviarem para o campo de quadribol onde iria aprender a jogar. Jantou depressa à noite, sem ao menos reparar no que estava comendo e, em seguida, correu até o quarto com Rony para finalmente desembrulhar a Nimbus 2000.
-Aleluia! Nem eu estava aguentando mais –falou James.
-Que novidade –disse Lily, revirando os olhos.
O maroto a olhou por um tempo, tentando entender se aquilo era um sinal de que os dois estavam voltando a se falar, mas não soube dizer.
– Uau – suspirou Rony, quando a vassoura apareceu na cama de Harry.
Até Harry, que não entendia nada de vassouras e suas diferenças, achou que a Nimbus tinha uma aparência fantástica.
-Vamos mudar isso, Harry Potter. Faço questão de ter ensinar absolutamente tudo a respeito de quadribol. –falou o pai do dito cujo, com um sorriso esperançoso.
-E ele vai aprender com o melhor –disse Alice, sorrindo para o amigo.
-Obrigado –ele agradeceu, tentando disfarçar os olhos levemente marejados.
Aerodinâmica e reluzente com um cabo de mogno, a vassoura tinha uma longa cauda de palhas limpas e retas e a marca Nimbus 2000 escrita a ouro próximo ao punho.
-Ela é linda –babou James.
Quando eram quase sete horas, Harry saiu do castelo e se dirigiu ao campo de quadribol no lusco-fusco. Nunca estivera no estádio antes. Havia centenas de lugares em uma arquibancada em volta do campo de modo que os espectadores viam o que acontecia do alto. Em cada ponta do campo havia três balizas douradas com aros no topo. Lembraram a Harry os canudinhos de plástico que as crianças trouxas usavam para soprar bolinhas de sabão, só que tinham mais de 15 metros de altura.
-E vemos que Harry tem uma imaginação fértil novamente –riu Lily.
James a olhou de relance, sem dizer nada.
Ansioso demais para esperar Olívio sem voar, Harry montou a vassoura e deu um impulso. Que sensação – ele mergulhou pelas balizas, subiu e desceu pelo campo. A Nimbus 2000 ia aonde ele queria ao menor toque.
-Eu preciso de uma dessas! –falou James, em tom sofrido. –Preciso.
– Ei, Potter, desça!
Olívio Wood chegara. Carregava uma grande caixa de madeira debaixo do braço. Harry pousou ao lado dele.
– Muito bom – comentou Olívio, os olhos brilhando. – Estou vendo o que foi que Minerva quis dizer... você realmente tem um talento natural.
-É claro –disse James –olhe para o pai dele! –e apontou para si mesmo, mexendo no cabelo.
-Você é inacreditável –murmurou Lily.
-Isso é bom ou ruim? –perguntou confuso.
-Eu...não sei. Acho que nem bom nem ruim –James a olhou com intensidade. A ruiva corou, e desviou o olhar –continue, Frank.
-Hoje à noite só vou lhe ensinar as regras do jogo, depois você vem aos treinos do time três vezes por semana.
-Três, só? –bufou James –É preciso quatro para ter um time bom e cinco para ter um excelente.
-Você é o único louco que coloca treino cinco vezes por semana, Prongs –apontou Remus –E eu tenho dó, muita dó, dos seus jogadores.
-Recebemos ou não recebemos a taça desde que me tornei capitão? –disse arrogantemente.
Os outros apenas reviraram os olhos, sabendo que não valia a pena discutir.
Ele abriu a caixa. Dentro havia quatro bolas de tamanhos diferentes.
– Certo – disse Olívio. – O quadribol é muito fácil de entender, mesmo que não seja fácil de jogar. Tem sete jogadores de cada lado. Três deles são artilheiros.
-A melhor posição –comentou James, sentando na ponta do sofá, para ouvir a história mais atentamente.
– Três artilheiros – Harry repetiu, enquanto Olívio apanhava uma bola muito vermelha do tamanho aproximado de uma bola de futebol.
– Esta bola se chama goles – explicou Olívio. – Os artilheiros atiram a goles um para o outro e tentam metê-la em um dos aros para marcar um gol. Dez pontos todas as vezes que a goles passa por um dos arcos. Está me acompanhando?
– Os artilheiros atiram a goles pelos aros para marcar pontos – repetiu Harry. – Então é como um basquete com seis cestas e vassouras, não é?
-Na verdade, sim e não –pensou Lily, colocando a cabeça para funcionar.
-O que é basquete? –perguntou Alice.
-Deixa para lá –ela fez um gesto displicente.
-Eu insisto –continuou a amiga.
-Remus? –ela o olhou desesperada, pedindo que ele explicasse.
-Nada importante –ele disse rapidamente.
-Mas...-Alice foi protestar mais uma vez, mas foi calada por Frank, que a beijou de surpresa –O que foi isso?
-Eu te amo –ele falou simplesmente –E chega de perguntas, senhorita curiosidade.
Ela o analisou por algum tempo, e por fim, deu de ombros.
-Eu também te amo.
– O que é basquete? – perguntou Olívio, curioso.
– Deixa pra lá – disse Harry na mesma hora.
-Olha, Lils, vocês pensam igual –riu Remus. A menina corou, mas ficou feliz ao saber que tinha algo em comum com o filho.
-Eu disse –murmurou James –ele tem muito de você, Evans. –a garota assentiu, sorrindo levemente.
– Agora, tem outro jogador, um para cada lado, que é chamado goleiro. Eu sou o goleiro de Grifinória. Tenho que voar em volta dos aros para impedir que o outro time marque pontos.
– Três artilheiros, um goleiro – disse Harry, que estava decidido a decorar tudo. – E jogam uma goles. OK, entendi. E essas para que servem? – Apontou para as três bolas restantes na caixa.
– Vou lhe mostrar agora. Segure aqui.
Ele entregou um pequeno bastão a Harry, meio parecido com um bastão de beisebol.
– Vou lhe mostrar o que os balaços fazem. Essas duas aqui são os balaços.
E mostrou a Harry duas bolas iguais, pretas e ligeiramente menores do que a goles vermelha. Harry reparou que elas pareciam estar fazendo força para se livrar das correias que as prendiam na caixa.
– Fique longe – Olívio preveniu Harry. Ele se curvou e soltou um dos balaços.
Na mesma hora, a bola preta saiu voando e em seguida desceu direto contra o rosto de Harry.
-Odeio esse jogo –resmungou Lily, baixinho.
James sorriu carinhosamente para ela, sem que ela notasse. Não seria Lily se ela não reclamasse de quadribol e sua agressividade, afinal.
Harry golpeou-a com o bastão para impedi-la de quebrar o seu nariz e mandou-a ziguezagueando para longe – ela passou veloz pelas cabeças deles e, em seguida, atirou-se contra Olívio, que mergulhou sobre ela e conseguiu imobilizá-la no chão.
-Quadribol é um jogo perigoso –falou Lily, dessa vez de forma audível. –Detesto os balaços.
– Está vendo? – Olívio ofegou, forçando o balaço indócil de volta à caixa e passando a correia para prendê-lo. – Os balaços voam pelo ar tentando derrubar os jogadores das vassouras. É por isso que tem dois batedores em cada time. Os gêmeos Weasley são os nossos. A função deles é proteger o time dos balaços e tentar rebatê-los para o outro time. Então: acha que guardou tudo?
– Três artilheiros tentam marcar pontos com a goles; o goleiro guarda as balizas; os batedores afastam os balaços do seu time – Harry repetiu como um gravador.
– Muito bem.
-Boa memória, querido –Lily disse suavemente –Estou orgulhosa.
-Nisso ele com certeza puxou vocês dois –apontou Frank.
A garota corou e olhou de relance para James, que a olhava atentamente. Os dois desviaram o olhar com rapidez e se endireitaram, como se nada tivesse acontecido.
– Hum... os balaços já mataram alguém? – perguntou Harry, esperando parecer displicente.
-Nunca em Hogwarts –respondeu James prontamente.
– Nunca em Hogwarts. Já tivemos uns queixos quebrados, mas nada mais sério. Agora, o último membro da equipe é o apanhador. Você. E você não tem que se preocupar com a goles nem com os balaços.
– A não ser que rachem a minha cabeça.
– Não se preocupe, os Weasley são uma parada para os balaços: quero dizer, eles parecem uns balaços humanos.
A sala riu, já que por mais que os conhecessem de forma rasa, sabiam que era uma boa maneira de descrevê-los.
Olívio meteu a mão no caixote e tirou a quarta e última bola. Comparada com a goles e os balaços, era pequenininha, mais ou menos do tamanho de uma noz. Era de ouro polido e tinha asinhas de prata que se agitavam.
– Estaé o pomo de ouro, e é a bola mais importante de todas. É muito difícil de se apanhar porque é veloz e pouco visível. A função dos apanhadores é agarrá-la. Eles têm que se meter entre os artilheiros, batedores, balaços e a goles para agarrá-lo antes do apanhador do time contrário, porque o apanhador que agarra o pomo ganha para o seu time mais cento e cinquenta pontos, o que praticamente lhe dá a vitória. É por isso que os apanhadores levam tantas faltas.
James tirou sem pomo do bolso e começou a brincar com ele.
-Você anda com isso para todo lado? –perguntou Lily, sem conseguir se segurar.
-Ando –deu de ombros –ele é uma boa distração.
-Guarda isso, Prongs –falou Sirius –Isso irrita.
-Se estou incomodando –e colocou-o no bolso novamente.
-Incrível que quando é Sirius quem diz, você obedece –resmungou Lily, para si mesma, mas James a ouviu.
-E me diz, Lily Evans –ele abriu um largo sorriso para ela –qual seria a graça do mundo se eu não pudesse te deixar irritadinha e corada?
Ela bufou, mas deu um sorrisinho discreto. Nunca admitiria, mas gostava (e muito) de suas provocações. Ele a deixava louca, porém, ela sentia falta quando não o tinha por perto.
-Um jogo de quadribol só termina quando o pomo é apanhado, o que pode demorar uma eternidade. Acho que o recorde é três meses, e precisaram arranjar substitutos para os jogadores poderem dormir um pouco – explicou Olívio. – É isso aí, alguma pergunta?
Harry sacudiu a cabeça. Compreendeu muito bem o que tinha de fazer. Fazer é que ia ser o problema.
-Acredite, essa é a parte mais fácil e divertida quando se tem um dom, o que você tem –sorriu James.
– Não vamos praticar com o pomo – disse Olívio, guardando-o cuidadosamente de volta na caixa. – Está escuro demais e poderíamos perdê-lo. Vamos experimentar com outras bolas.
E tirou do bolso um saco de bolas comuns de golfe e alguns minutos depois ele e Harry estavam no ar, Olívio atirando as bolas com toda a força para todos os lados e Harry apanhando-as.
Harry não perdeu nenhuma, e Olívio ficou encantado. Passou-se meia hora, a noite chegou e eles não puderam continuar.
-Que pena –murmurou James –isso é tão divertido.
– Aquela taça de quadribol terá o nosso nome este ano – disse Olívio feliz quando voltavam cansados ao castelo. – Eu não me espantaria se você se saísse melhor que Carlinhos, e ele poderia ter jogado na seleção da Inglaterra se não tivesse ido embora caçar dragões.
James estufou o peito, como se o elogio tivesse sido direcionado a ele. Sentia tanto orgulho do filho, em todos os aspectos.
Talvez fosse porque agora andava muito ocupado com o treino de quadribol três noites por semana além dos deveres de casa, mas Harry nem acreditou quando se deu conta de que já estava em Hogwarts havia dois meses. O castelo parecia mais sua casa do que a casa da rua dos Alfeneiros.
Porque ele é –falou Lily, com segurança –você pertence à Hogwarts, não a casa de Petúnia. Assim como eu –completou baixinho.
As aulas, também, estavam se tornando cada dia mais interessantes, agora que dominara os conhecimentos básicos.
Na manhã do Dia das Bruxas eles acordaram com um delicioso cheiro de abóbora assada que se espalhava pelos corredores. E, o que era ainda melhor, o Prof. Flitwick anunciou na aula de Feitiços que, em sua opinião, os alunos estavam prontos para começar a fazer objetos voarem, uma coisa que andavam morrendo de vontade de experimentar desde que viram o professor fazer o sapo de Neville sair voando pela sala.
O Prof. Flitwick dividiu a turma em pares para praticar. O parceiro de Harry foi Simas Finnigan (um alívio, porque Neville tinha tentado atrair sua atenção).
Alice fez uma careta.
-Não há nada de errado em fazer o trabalho com Neville!
-Lice, claro que não há –disse Frank calmamente –Mas você precisa admitir que nosso filho consegue ter uma facilidade absurda em sair explodindo tudo –Alice o olhou com raiva, enquanto os outros seguravam o riso.
Mas Rony teria que trabalhar com Hermione Granger.
Foi a vez do Sirius de fazer uma careta.
Era difícil dizer se era Rony ou Hermione que estava mais aborrecido com isso. Ela não falava com nenhum dos dois desde o dia em que a vassoura de Harry chegara.
-Graças a Merlin –murmurou.
– Agora, não se esqueçam daquele movimento com o pulso que praticamos! – falou esganiçado o Prof. Flitwick, como sempre empoleirado no alto da pilha de livros. – Gira e sacode, lembrem-se, gira e sacode. E digam as palavras mágicas corretamente, é muito importante, também, lembrem-se do bruxo Barrufo, que disse "s" em vez de "f" e quando viu estava no chão com um búfalo em cima do peito.
-Ele deu esse exemplo para a gente também –riu Lily –eu lembro dessa aula direitinho.
-Foi a primeira vez que você ganhou pontos para a Grifinória –James lembrou.
A ruiva o olhou espantada, já que nem ela mesma lembrava desse fato. O maroto desviou o olhar, começando a corar;
Era muito difícil. Harry e Simas giraram e sacudiram o pulso, mas a pena que deviam mandar para o alto continuava parada em cima da mesa. Simas ficou tão impaciente que a empurrou com a varinha e tocou fogo nela – Harry teve que apagar o fogo com o chapéu.
-Acontece em todas as aulas –riu Frank. –É impressionante.
Rony, na mesa ao lado, não estava tendo muita sorte.
– Wingardium leviosa! – ordenou, sacudindo os braços compridos como pás de moinho.
– Você está dizendo o feitiço errado – Harry ouviu Hermione corrigir aborrecida. – É Wing-gar-dium levi-o-sa, o "gar" é bem pronunciado e longo.
-Chata –bufou Sirius. Lily revirou os olhos.
– Diz você então, que é tão sabichona – retrucou Rony.
Hermione enrolou as mangas das vestes, bateu a varinha e disse:
– Wingardium leviosa!
A pena se ergueu da mesa e pairou a mais de um metro acima da cabeça deles.
– Ah, muito bem! – exclamou o professor Flitwick, batendo palmas. – Pessoal, olhe aqui, a Hermione Granger conseguiu!
Rony estava de muito mau humor na altura em que a aula terminou.
-Não consigo ver o porquê –gargalhou Remus, levando uma cotovelada nada graciosa de Sirius.
– Não admira que ninguém suporte ela – disse a Harry quando procuravam chegar ao corredor. – Francamente, ela é um pesadelo.
Alguém deu um esbarrão em Harry ao passar. Era Hermione. Harry viu seu rosto de relance – e ficou assustado ao ver que ela estava chorando.
-Ah não –gemeu Alice –coitadinha.
-Rony foi muito insensível –concordou Lily.
-Mas ela é um pesadelo mesmo –falou Sirius.
-Ela só estava tentando fazer amigos, Black –brigou Lily.
-Deveria ser um pouco mais simpática então –resmungou.
– Acho que ela ouviu o que você disse.
– E daí? – Mas pareceu meio sem graça. – Ela já deve ter reparado que não tem amigos.
-INSENSÍVEL –gritou Lily. –Iguais –olhou para Sirius assustada, enquanto ele bufava.
Hermione não apareceu na aula seguinte e ninguém a viu a tarde inteira.
-Oh não –reclamou Alice –Tadinha.
Ao descerem ao Salão Principal para a festa das bruxas, Harry e Rony ouviram Parvati contar à amiga Lilá que Hermione estava chorando no banheiro das meninas e queria que a deixassem em paz. Rony ficou ainda mais sem graça ao ouvir isso, mas no momento seguinte entraram no Salão Principal, onde as decorações do Dia das Bruxas tiraram Hermione de suas cabeças.
-Não acredito que Harry não fez nada! –exclamou Lily.
-Lils, ele só tinha 11 anos –murmurou James –Eu tenho certeza de que se ele fosse um pouco mais velho e maduro, ele teria feito diferente.
A garota o analisou, decidindo se acreditaria ou não no maroto; decidiu que sim, e sorriu levemente para ele, ainda afastada no sofá.
Mil morcegos vivos esvoaçavam nas paredes e no teto e outros mil mergulhavam sobre as mesas em nuvens negras e baixas, fazendo dançarem as velas dentro das abóboras.
-Odeio morcegos –Frank fez uma careta.
A comida apareceu de repente nos pratos de ouro, como acontecera no banquete de abertura das aulas.
Harry estava se servindo de uma batata assada na casca quando o Prof. Quirrell entrou correndo no salão, o turbante torto na cabeça e o terror estampado no rosto. Todos olharam quando ele se aproximou da cadeira de Dumbledore, escorou-se na mesa e ofegou:
– Trasgo... nas masmorras... achei que devia lhe dizer.
Em seguida desabou no chão desmaiado.
-Não acredito que contrataram um professor de Defesa Contra as Artes das Trevas tão incompetente! –exclamou Remus, se exaltando pela primeira vez–Ele, como professor dessa matéria, deveria ser o que manteria a situação sob controle. Ele tem medo da própria matéria! Até Snape seria um professor melhor que ele!
-Obrigado, Lupin –falou Severo, com frieza.
-Rem, você irá assumir essa matéria, eu juro –falou Lily, sentando ao lado do maroto –você vai conseguir! Você é inteligente e esforçado, não tem porquê não lhe darem o emprego.
-Claro que tem um motivo –murmurou chateado.
-Claro que não –falou James –Moony, não deixe essa sua condição te impedir de realizar seus sonhos.
-Você é muito mais que um problema peludo, Moony–concordou Sirius.
-Obrigado –murmurou, emocionado –vocês são bons amigos.
-Os melhores! –corrigiu Sirius. Eles riram.
"Apesar de mentirem", pensou consigo mesmo "Nem mesmo Dumbledore é louco o suficiente para contratar um lobisomem para dar aula a crianças".
Houve um alvoroço. Foi preciso explodirem várias bombinhas da ponta da varinha do Prof. Dumbledore para as pessoas fazerem silêncio.
– Monitores – disse ele com voz grave e retumbante –, levem os alunos de suas casas de volta aos dormitórios, imediatamente!
Era com Percy mesmo.
– Me acompanhem! Fiquem juntos, alunos do primeiro ano! Não precisam ter medo do trasgo se seguirem as minhas ordens! Agora fiquem bem atrás de mim. Abram caminho para os alunos do primeiro ano passarem! Com licença, sou o monitor!
-Grande coisa –bufou Sirius.
-É grande coisa, sim –falou Lily, com firmeza –Se não tivessem monitores, esse castelo seria um inferno, eu garanto.
-Mas é assim que a gente gosta –ele sorriu marotamente, lançando-a uma piscadela charmosa.
A ruiva apenas girou os olhos em resposta.
– Como é que um trasgo pode entrar? – perguntou Harry enquanto subiam a escadaria.
– Não me pergunte, dizem que eles são bem burros – respondeu Rony. – Vai ver o Pirraça deixou ele entrar para pregar uma peça no Dia das Bruxas.
-Duvido –falou Frank –Acho que isso tem cara de distração para pegar a Pedra Filosofal.
O arrepio foi involuntário.
Eles passaram por diferentes grupos de pessoas que se apressavam em diferentes direções.
Enquanto lutavam para passar por um bolinho de alunos de Lufa-Lufa, Harry de repente agarrou o braço de Rony.
– Acabei de me lembrar da Hermione.
-Ela não sabe do Trasgo –falou Lily, ficando repentinamente pálida –Oh não!
– O que tem ela?
– Ela não sabe que tem um trasgo aqui.
Rony mordeu o lábio.
– Ah, está bem – falou ríspido. – Mas é melhor Percy não ver a gente.
-Não sei se fico feliz com isso ou não –murmurou Lily, apreensiva.
-Fique –falou James, com sinceridade –Poucas pessoas teriam a coragem de salvar um amigo assim. Harry tem um bom coração.
Lily sorriu para o Maroto, se aproximando dele no sofá.
-Acho que preciso de apoio agora –disse com sinceridade.
James sorriu, abrindo os braços para ela. Lily se aconchegou no abraço dele. Sirius e Remus se entreolharam, sorrindo. Finalmente eles estavam voltando a se falar.
Severo abaixou a cabeça, "bem agora que eu achava que Lily estivesse o odiando novamente", pensou.
Abaixando-se, eles se misturaram aos alunos de Lufa-Lufa que iam na direção contrária, escapuliram por um lado deserto do corredor e correram para os banheiros das meninas.
Tinham acabado de virar um canto quando ouviram passos apressados atrás deles.
– Percy! – sibilou Rony, puxando Harry para trás de um enorme grifo de pedra.
Espiando para os lados, no entanto, viram não Percy mas Snape.
-Uma visão nada agradável –sibilou Sirius, levando uma cotovelada de Remus.
Ele atravessou o corredor e desapareceu de vista.
– Que é que ele está fazendo? – cochichou Harry. – Por que não está lá embaixo com os outros professores?
-Espero que você não esteja tentando roubar a pedra –falou Frank a Snape, que não reagiu, afinal, não havia como saber.
– Não me pergunte.
O mais silenciosamente possível, eles se esgueiraram pelo próximo corredor nas pegadas de Snape.
– Ele está indo para o terceiro andar – disse Harry, mas Rony levantou a mão.
-Não vou julgá-lo até saber o final da história –disse Remus a Severo –mas que isso está esquisito, isso está.
"Será que eu estou querendo roubar mesmo? Bem debaixo dos olhos de Dumbledore?", perguntou-se mentalmente.
– Você está sentindo um cheiro?
Harry fungou e um fedor horrível invadiu suas narinas, uma mistura de meias velhas e banheiro público que parece que nunca é limpo.
-Nojento –disse Alice, com uma máscara de nojo se formando em seu rosto angelical.
E em seguida ouviram – um grunhido baixo e passadas de pés gigantescos. Rony apontou: no fim do corredor, à esquerda, alguma coisa enorme estava vindo em sentido contrário. Eles se encolheram no escuro e procuraram ver o que era quando a coisa passou por um trecho iluminado pelo luar.
Era uma visão medonha. Quase quatro metros de altura, a pele cinzenta e baça, o corpanzil cheio de calombos como um pedregulho e uma cabecinha no alto, que mais parecia um coco.
Tinha pernas curtas, grossas como um tronco de árvore e pés chatos e calosos. Segurava um enorme bastão de madeira, que arrastava pelo chão, porque seus braços eram compridíssimos.
Lily se encolheu mais nos braços de James, que estava igualmente tenso.
O trasgo parou próximo a uma porta e espiou para dentro. Abanou as longas orelhas, tentando fazer a cabeça minúscula pensar, depois entrou devagar na sala.
– A chave está na porta – murmurou Harry. – Podíamos trancá-lo lá dentro.
– Boa ideia – concordou Rony, nervoso.
-Hermione está aí –gemeu Lily –Pense melhor, Harry. Pense!
Eles se esgueiraram até a porta aberta, as bocas secas, rezando para o trasgo não resolver sair naquele instante. Com um grande salto, Harry conseguiu agarrar a chave, bater a porta e trancá-la seguramente.
– Pronto!
-Merda –xingou Alice.
Afogueados com a vitória, começaram a correr de volta pelo corredor, mas ao chegarem num canto ouviram uma coisa que fez seus corações pararem – um grito alto e enregelante – e vinha da sala que tinham acabado de trancar.
-Hermione! –exclamou Lily, se recolhendo mais nos braços de James, que a segurava com firmeza na tentativa de fazê-la se sentir mais segura.
– Ah, não! – exclamou Rony, pálido como o barão Sangrento.
– Vem do banheiro das meninas.
– Hermione!– disseram os dois juntos.
-Ah, não –gemeu Lily.
-Vai ficar tudo bem com eles, Lils –falava James, mexendo no cabelo da ruiva. –Com os três.
Era a última coisa que queriam fazer, mas que escolha tinham? Dando meia-volta, correram até a porta e giraram a chave, atrapalhados de tanto pânico – Harry escancarou a porta – e entraram correndo.
Hermione estava encolhida contra a parede oposta, parecendo prestes a desmaiar. O trasgo avançava para ela, derrubando as pias que estavam na parede em seu caminho.
– Distrai ele! – Harry pediu desesperado a Rony, e, agarrando uma torneira, atirou-a com toda a força contra a parede.
O trasgo parou a um metro de Hermione. Virou-se com lentidão, piscando sem entender, procurou ver que barulho era aquele. Seus olhinhos malvados viram Harry. Ele hesitou, em seguida partiu para cima de Harry, erguendo o bastão.
-Isso não pode ser bom –falava James, tenso.
Lágrimas começaram a sair dos olhos do casal de pais, que não se deram ao trabalho de disfarçar.
Sirius estava com uma expressão de seriedade, algo que era raro para o maroto.
Remus abaixou a cabeça, a testa franzida de preocupação.
Severo mordia o lábio inferior com força, preocupado com uma Lily chorando do seu lado.
Já o casal de namorados segurava fortemente a mão um do outro, se dando apoio.
– Oi, cabeça de ervilha! – berrou Rony do outro lado do banheiro, e atirou contra ele um cano de metal. O trasgo nem pareceu sentir o cano bater no seu ombro, mas ouviu o berro e parou outra vez, virando o focinho feio para Rony, e dando a Harry tempo para correr em volta dele.
– Vamos, corra, corra! – Harry gritou para Hermione, tentando puxá-la na direção da porta, mas ela não conseguia se mexer, continuava achatada contra a parede, a boca aberta de terror.
-Que bom momento para ela travar –disse Lily, desesperada. –Vamos, Hermione, por favor.
Os gritos e os ecos pareciam estar deixando o trasgo enlouquecido. Ele rugiu de novo e avançou para Rony, que estava mais perto e não tinha jeito de escapar.
Harry então fez uma coisa que era ao mesmo tempo muito corajosa e muito idiota:
-Sua cara –falou Lily para James, que sorriu com culpa.
tomou impulso e deu um salto, conseguindo abraçar o pescoço do trasgo pelas costas. O trasgo não sentiu Harry pendurar-se ali, mas até um trasgo percebe quando se espeta um pedaço comprido de pau dentro da narina, e a varinha de Harry ainda estava na mão quando ele saltou – e entrou direto na narina do trasgo.
-Que nojo –disse Sirius, em uma careta.
Urrando de dor, o trasgo se virou e brandiu o bastão, enquanto Harry continuava agarrado nele tentando escapar da morte; a qualquer instante, o trasgo ia arrancá-lo do pescoço ou dar lhe uma tremenda porretada.
-Ah não –reclamou Remus, tenso também.
Hermione afundara no chão de tanto medo; Rony puxou a própria varinha – sem saber o que ia fazer, ouviu-se gritando o primeiro feitiço que lhe veio à cabeça:
– Wingardium leviosa!
Na mesma hora o bastão voou da mão do trasgo, ergueu-se no ar, foi subindo, subindo, virou-se lentamente – e caiu, com um barulho feio, na cabeça do seu dono. O trasgo cambaleou e, em seguida, caiu de cara no chão, com um baque que fez o banheiro todo sacudir.
-Isso foi muito inteligente –elogiou Frank.
Harry se levantou. Tremia sem fôlego. Rony continuava parado com a varinha no ar, espantado com o que fizera.
Foi Hermione quem falou primeiro.
– Ele está... morto?
– Acho que não – respondeu Harry. – Acho que só perdeu os sentidos.
Ele se abaixou e puxou a varinha da narina do trasgo. Estava suja de uma coisa que parecia uma cola grumosa.
– Eca... meleca de trasgo.
-Eca –falou Alice, com uma cara de profundo nojo.
-Está tudo bem com eles –Lily apontou o óbvio, sentindo seu corpo ser preenchido por um profundo alívio.
-Está sim –James sorriu, sem soltá-la.
E limpou a varinha nas calças do trasgo.
De repente o barulho de portas batendo e passos pesados fizeram os três erguerem a cabeça. Não haviam percebido a confusão que tinham aprontado, mas com certeza alguém lá embaixo ouvira a pancadaria e os urros do trasgo. Um instante depois a Profa. Minerva adentrou o banheiro, seguida de perto por Filch e Quirrell, que fechava a fila. Quirrell deu uma espiada no trasgo, soltou um gemidinho e sentou-se depressa em um vaso sanitário, apertando o peito.
-Ridículo –murmurou Remus –até crianças de 11 anos conseguiram derrotar o Trasgo e ele não.
Filch debruçou-se sobre o trasgo. A Profa. Minerva ficou olhando para Rony e Harry. Harry nunca a vira tão zangada. Seus lábios estavam brancos. A esperança de ganhar cinquenta pontos para Grifinória desapareceu logo da cabeça de Harry.
-Nem em sonhos –riu Sirius –Está mais para menos 50 pontos.
– O que é que vocês estavam pensando? – perguntou a Profa. Minerva, com uma fúria reprimida na voz. Harry olhou para Rony, que continuava parado com a varinha no ar. – Vocês tiveram sorte de não serem mortos. Por que é que não estão no dormitório?
Filch lançou a Harry um olhar rápido e penetrante. Harry olhou para o chão. Desejou que Rony baixasse a varinha.
Então ouviu-se uma vozinha que veio das sombras.
– Por favor, Profa. Minerva, eles vieram me procurar.
– Srta. Granger!
-Falei que ela era uma boa pessoa, Sirius. Agora você precisará pagar uma aposta –cantarolou Lily, se desvencilhando de James.
O maroto sorriu tristemente.
-Não tão rápido, ruiva. Não sabemos se eles serão amigos.
Hermione conseguira finalmente se levantar.
– Saí procurando o trasgo porque achei que podia enfrentá-lo sozinha. Sabe, já li tudo sobre trasgos.
Rony deixou a varinha cair. Hermione Granger, contando uma mentira deslavada a um professor?
-Viu, Sirius? Estou sentindo um cheirinho de...vitória? –provocou Lily.
-Calma, Lils. –falou James –não sabemos se essa amizade irá realmente para frente.
– Se eles não tivessem me encontrado eu estaria morta agora. Harry enfiou a varinha no nariz do trasgo e Rony derrubou ele com o próprio bastão. Não tiveram tempo de chamar ninguém. O trasgo ia acabar comigo quando eles chegaram.
Harry e Rony tentaram fingir que a história não era novidade para eles.
– Bem... nesse caso... – disse a Profa. Minerva encarando os três –, Srta. Granger, que bobagem, como pôde pensar em enfrentar um trasgo montanhês sozinha?
Hermione baixou a cabeça. Harry perdera a fala. Hermione era a última pessoa do mundo que desobedeceria ao regulamento, e ali estava fingindo que desobedecera, para tirá-los de uma enrascada. Era o mesmo que Snape começar a distribuir balinhas.
-Eu quero a minha de chocolate –disse Remus a Snape, que o olhou com intenso desagrado.
-A minha pode ser de maçã-verde –riu Lily. Severo a olhou chocado, como todos os outros –O que? Eu gosto de balinhas!
Todos continuaram a olhá-la com espanto, mas resolveram não dizer nada.
– Hermione Granger, Grifinória vai perder cinco pontos por isso – disse a Profa. Minerva. – Estou muito desapontada. Se não estiver machucada, é melhor ir embora para a torre de Grifinória. Os alunos estão acabando de festejar o Dia das Bruxas em suas casas.
Hermione se retirou.
A Profa. Minerva virou-se para Harry e Rony.
– Bem, eu continuo achando que vocês tiveram sorte, mas não há muitos alunos do primeiro ano que pudessem enfrentar um trasgo montanhês adulto. Cada um de vocês ganha cinco pontos para Grifinória. O Prof. Dumbledore será informado. Podem ir.
-Eles ganharam pontos? –perguntou Sirius, em choque. –McGonagall está perdendo a postura!
Eles saíram depressa do banheiro e não falaram nada até subirem dois andares. Foi um alívio se afastarem do fedor do trasgo, para não falar do resto.
– Devíamos ter ganhado mais de dez pontos – resmungou Rony.
– Cinco, você quer dizer, depois de descontar os pontos que Hermione perdeu.
– Foi legal ela ter nos tirado do aperto – admitiu Rony. – Mas não se esqueça, salvamos a vida dela.
-Não precisariam salvar se não tivesse prendido-a com o Trasgo –resmungou Lily.
– Talvez ela não precisasse ser salva se não tivéssemos trancado a coisa com ela – lembrou Harry.
-Vocês realmente pensam parecido –se impressionou Remus. Lily sorriu suavemente, feliz por conseguir ser parecida em algo com o filho.
Tinham chegado ao retrato da Mulher Gorda.
– Focinho de porco – disseram e entraram.
A sala comunal estava cheia e barulhenta. Todo o mundo estava comendo o jantar que fora mandado para lá. Hermione, porém, estava parada sozinha do lado da porta, esperando por eles. Houve um silêncio constrangido. Depois, sem se olharem, todos disseram "Obrigado" e correram para apanhar os pratos.
-É um bom início de amizade –riu Lily.
Mas, daquele momento em diante, Hermione Granger tornou-se amiga dos dois. Há coisas que não se pode fazer junto sem acabar gostando um do outro, e derrubar um trasgo montanhês de quase quatro metros de altura é uma dessas coisas.
-James –disse Lily ao maroto –acho que está na hora de decidir o mico do seu querido amigo.
-Tudo bem, eu estava errado –assumiu Sirius, em um suspiro –mas vamos, por favor, comer primeiro? Estou faminto.
Lily riu, mas concordou.
