ARMADILHAS DO CORAÇÃO
Estava uma tarde agradável em Dalton, todos estavam aproveitando o dia ensolarado e quente, espalhados pelos jardins da Vila.
Jeff, estava num dos jardins mais afastados, conversando consigo mesmo enquanto andava de um lado para outro sem parar. "Muito me admira que um homem que viu como os outros homens se transformam em bobos, quando sob a influência do amor e que ridicularizou as loucuras dos outros, possa fazer-se objeto de seu próprio desprezo, tornando-se apaixonado. Kurt é um indivíduo nessas condições. Conheci-o no tempo em que para ele só havia música; no entanto, agora, os poemas e juras de amor. Lembro-me ainda do tempo em que ele era capaz de andar dez milhas para apreciar uma boa armadura; agora poderá ficar acordado dez noites seguidas, só a pensar no sorriso de um jovem rapazote. Antes, falava com senso e naturalidade, como homem de bem que era, e bom soldado; agora só usa expressões rebuscadas; sua fala é um banquete fantástico em que abundam os pratos esquisitos."
De repente, parando no meio do pátio, Jeff, com as mãos na cintura e com um tom questionador, continua. "...Poderá acontecer que eu também venha a me transformar a ponto de enxergar as coisas desse jeito? Quem sabe?" ... e gesticulando como numa palestra, explicava-se á uma plateia inexistente "...Não posso jurar que, de um momento para outro, o amor não me transforme em ostra; mas o que afirmo é que, enquanto ele não me transformar em ostra, não fará de mim um bobo daquela marca. Tal rapaz é formoso; a mim pouco se me dá. Aquele outra é sábio; que tenho eu que ver com isso? Aquele outro é virtuoso; continuo passando muito bem. Mas, enquanto todas as graças não se reunirem em uma só pessoa, nenhum individuo me cairá em graças. Terá de ser rico, sem sombra de dúvida; inteligente, ou não lhe darei importância; virtuoso, sem o que não discutirei o seu preço; bonito, sem o que não olharei para ele; de bom gênio, condição indispensável para que se apaixone por mim; nobre, sem o que nem como anjo me serviria; de conversação agradável, exímia na música e de cabelos... hum... da cor que Deus quiser e olhos, que tenham fogo neles, mas a cor tanto faz... "
Parando em seus devaneios, Jeff percebe que Don David está se aproximando acompanhado de senhor Leonard e Kurt, seguidos por Trent e mais alguns músicos, e decide esconder-se. "Oh! Eis o príncipe e monsieur Amoroso. Vou tratar de esconder-me atrás destes arbustos..."
...
Chegando ao centro do pátio, Don David pergunta animadamente aos amigos "Que faremos agora? Ouvimos música?". Com um sorriso no rosto, Kurt responde ao príncipe "Sim, milorde. Aproveitemos esta tarde deliciosa com a harmonia e melodia!
Aproximando-se do jovem amigo, Don David, numa espécie de sussurro diz á Kurt "Não vistes Jeff? Está escondido por aqui em algum arbusto." E busca disfarçadamente com o olhar, pelo amigo falador. Kurt por sua vez, num tom conspiratório, responde ao príncipe Vi, milorde; e com certeza, concluída a serenata, nosso amigo terá sua surpresa." Terminando com um sorriso malicioso no rosto.
Dom Davis, então, acenando para o jovem Trent, pede ao rapaz por distração "Repete, Trent, aquela música tão inspiradora." O que foi respondido com grande humildade, mas ao mesmo tempo com um toque de brincadeira "Oh, meu senhor! Não acredito que o milorde, quer que eu estrague, mais uma vez, com minha voz, tão doce melodia."
Sorrindo, e aproveitando para acomodar-se próximo ao repuxo de água, Don David continuou "É sinal certo de grande habilidade pôr a gente defeito em seus talentos. Por favor meu amigo, cante e não me obrigues a implorar pela música!"
Com um sorriso tímido no rosto, Trent responde humildemente ao príncipe "Já que mencionaste implorar pela música, resolvo-me a cantar com imenso prazer!" e começa com a melodia.
Enquanto a músico toma conta do jardim, Jeff, que mantinha-se escondido (pelo menos era o que ele achava, pois o Príncipe, Kurt e o senhor Leonard sabiam de sua presença.) estava inquieto, falando pra si mesmo "Vem agora a divina música! O cantor fica em êxtase. Não é extraordinário como uma pequena melodia pode enfeitiçar até o mais duro soldado"
Trent continua a cantar harmoniosamente, á plenos pulmões "Não choreis tanto, meigas donzelas, que os homens sempre foram mutáveis, no mar revolto, nas praias belas; só na inconstância serão estáveis. Não choreis tanto, perdeis o encanto. Cantai morenas, louras, trigueiras, e em melodias mudai o pranto; sede brejeiras. Parai com essas canções dolentes, cantai modinhas de letra leve, que os homens vivem sempre contentes desde que o fogo derrete a neve. Não choreis tanto, perdeis o encanto. Cantai morenas, louras, trigueiras, e em melodias mudai o pranto; sede brejeiras."
Contente com a apresentação do jovem Trent, Don David o elogia "Palavra de honra, é uma excelente canção.""...E um péssimo cantor, milorde." Respondeu um acanhado Tren, que acenava negativamente com a cabeça a atenção que estava recebendo.
Ouvindo a conversa entre Don David e o jovem Trent, Jeff ainda atrás do Arbusto, gesticulava agitado e continuava falando sozinho "Se o meu cachorro houvesse uivado desse jeito, teriam enforcado o pobre coitado! Deus queira que essa voz esganiçada não pressagie nenhuma desgraça. Encontraria mais prazer em ouvir o corvo noturno, por maiores calamidades que se lhe seguissem.", porém sem perceber, como estava exaltado pela situação, sua voz aumentou de volume entregando sua presença.
Dom David, percebendo a voz de Jeff, virou-se para o amigo Kurt "Boa idéia. Estás ouvindo, Trent? Prepara-te para fazermos uma serenata amanhã à noite, debaixo da janela do jovem Blaine.", que concordou prontamente "Farei o possível, milorde." Com isso, Trent e os músicos se despediram e deixaram o jardim, ficando somente Dom David, Kurt e o senhor Leonard conversando.
Os três se aproximaram do arbusto onde Jeff ainda estava escondido, e fingindo o total desconhecimento da presença do rapaz ali, Dom David inicia a conversa, que mudaria de uma vez por todas a vida de Jeff. "Vinde cá, Leonard. Que foi que me dissestes há dias? Que vosso sobrinho Nick estava apaixonado pelo senhor Jeff?" perguntou Don David num tom sério, mas escondendo o riso.
Também segurando o riso, e sussurrando para que Jeff não ouvisse, Kurt falou ao príncipe "Oh! Ai! Cautela, cautela, que nossa presa já mordeu a isca!" e aumentando a voz, para que aí sim, Jeff pudesse ouvir "Nunca me passaria pela cabeça que ele pudesse chegar a amar alguém."
Também participando da trama contra ou a favor do jovem Jeff, senhor Leonard diz "Nem eu, tampouco. E o que é mais de admirar é ter ficado ele apaixonado pelo senhor Jeff, a quem, se julgarmos pelas aparências, até hoje ele parecia abominar."
Enquanto a conversa se passava no jardim, atrás do arbusto, chocado com o que estava ouvindo, Jeff prende a respiração, coloca as mãos na cabeça confuso "Será possível? O vento vem dessa direção?"
"Dou-vos minha palavra, milorde, que não sei o que pensar do caso; o que é certo é que ele o ama desesperadamente, muito mais do que poderíamos imaginar." Diz Leonard fingindo estar preocupado com a situação.
Dom David, querendo deixar o pobre Jeff ainda mais confuso com tudo que vinha ouvindo, questionou o senhor Leonard "Quem sabe ele não está fingindo?" o que foi reforçado pelo jovem Kurt "É também o que eu penso.", e os dois tamparam seus rostos para segurar a risada que se formava, com os sons de desagravo atrás da moita.
Como num teatro bem ensaiado, senhor Leonard aumentou um pouco o tom da voz para enfatizar o que dizia "Fingindo? Oh Deus! Nesse caso jamais uma paixão fingida se pareceu tanto com uma verdadeira, como a dele neste momento."
Com a intenção de aumentar ainda mais o desespero do jovem Jeff, Don David questiona o senhor Leonard: "Mas como se manifesta essa paixão? Ele demonstra algum sinal desses sentimentos?" sinalizando com a mão ao amigo, que continuasse com a conversa.
Kurt, por sua vez, mais uma vez sussurrou aos dois presentes apontando para o arbusto esconderijo de Jeff "Coloque sua melhor isca no anzol, que é certeza vir o peixe morder.". Senhor Leonard, entendendo a que o jovem se referia, continuou a falar num tom como de preocupação "Como sei... Que sinais, milorde? Ele fica sentado pensativo..." e virando-se para Kurt, tentando se livrar da situação, já que não sabia mais o que dizer, Leonard continua "Meu filho já vos disse em que estado, não foi Kurt?". "Realmente." Respondeu Kurt de sobressalto.
Insatisfeito com a resposta, Don David insistiu "Em que estado? Por favor, os senhores me deixaram surpreso com tal afirmação. Sempre fui de pensar que o coração desse rapaz estava à prova dos assaltos do amor.", ganhando um suspiro de cansaço de senhor Leonard que reuniu suas forças e criatividade para responder "É o que eu poderia ter jurado, milorde, sobretudo em se tratando de Jeff."
Ao mesmo tempo que a conversa se desenrolava no jardim, o jovem Jeff, cada vez mais nervoso, não conseguia se conter "Poderia pensar que nada disso passava de uma cilada, se não fosse estar ouvindo a notícia da boca do próprio tio" e começava a andar de um lado pro outro a pequena distância que tinha atrás do enorme arbusto.
Com o olhar maroto, Kurt, que estava bem próximo do arbusto que escondia Jeff sussurra para os comparsas da trama "O nosso homem já está contaminado. Prossegui! Prossegui!" e sinaliza para Don David e o senhor Leonard para que continuem a inventar histórias para provocar o interesse do jovem Jeff.
Dom David, entendendo a intenção de Kurt, questiona "Ele já deu a conhecer a Jeff os seus sentimentos?" o que Leonard responde com um tom, que poderia ser de tristeza pelo sobrinho "Não, e jura que jamais o fará. Nisso é que consiste o seu suplício." Kurt então, para aumentar ainda mais o desespero do jovem escondido, completa "Isso mesmo! Vosso filho me disse que todos os dias, Nick se vê se questionando se é possível que depois de ter zombado dele tantas vezes, fosse escrever-lhe para dizer que lhe tenho amor?"
"É sempre o que ele diz, quando toma da pena para lhe escrever. Sim, que ele se levanta vinte vezes por noite, perambulando feito um fantasma, e se assenta à escrivaninha até encher uma folha de papel, mas que a amassa e joga fora com um suspiro dolorido. Meu filho nos conta tudo o que se passa." Reforçou senhor Leonard.
Achando que ainda não era suficiente, e querendo pincelar ainda mais cores à história já inventada, Kurt diz com um tom leve "E por falar em folha de papel, recordo-me de uma brincadeira contada por vosso filho..." que é completado por Leonard "Já sei: que ao dobrar a carta que acabara de escrever, verificou que os nomes Jeff e Nick se encontravam. Não foi isso?" "Justamente." Respondeu Kurt.
Senhor Leonard, deixando ainda mais intrigante a história, continua "Então ele rasgou a carta em mil pedaços e censurou-se por levar a ilusão ao ponto de escrever a quem ele de antemão sabia que haveria de zombar de seu sentimento." E continuou a narrar, como se fossem as palavras do sobrinho "E com toda razão", disse Nick desesperado, "porque eu zombaria dele, se ele chegasse a me escrever. Sim, é o que faria, apesar de todo o amor que lhe dedico".
Kurt, tomado pela história que dom Leonard descrevera, continua como com a descrição do que seria as ações de Nick "Depois disso, cai de joelhos, chora, soluça, bate no peito, puxa os cabelos, põe-se a rezar e desespera-se "Oh, meu querido Jeff! Deus me dê paciência!"
Já quase não aguentando mais falar sério, Leonard, enfatiza "É assim mesmo que ele procede; meu filho me tem contado todas essas cenas. E a tal ponto se deixa dominar pela paixão, que meu filho, por vezes, tem medo de que ele pratique contra si próprio qualquer desatino. É a pura verdade."
"Seria bom que Jeff fosse informado disso por alguém, uma vez que ele não se resolve a lhe revelar." Disse Don David, seriamente, sendo prontamente respondido por Kurt "Para quê? De semelhante revelação faria assunto apenas de zombaria, aumentando, assim, o sofrimento do pobre rapaz"
Aceitando a resposta do jovem amigo como uma forma de provocar os sentimentos em Jeff, dom David continua "Se ele procedesse dessa maneira, seria ação meritória enforcá-lo: Nick é um excelente rapaz, de reputação acima de qualquer suspeita." E Kurt acrescenta "Sobre possuir inteligência esclarecida." "Sob todos os aspectos, menos no que respeita à paixão por Jeff." Provoca don David, sabendo que o jovem ficaria indignado ao ouvir tal afirmação.
Leonard então continua com seu tom de tio preocupado "Oh milorde! Quando a paixão e o entendimento entram em luta num corpo tão delicado como o dele, há dez probabilidades contra uma de caber a vitória à paixão. Tenho muita pena dele, e razões não me faltam para tanto, porque além de tio, sou seu tutor."
Pensando em finalizar a trama que ali se desenrolava no jardim, e instigar o coração do jovem Jeff que ainda estava escondido, Don David diz "Por favor, o correto a fazer é comunicar a Jeff o que se está passando, para ouvirmos o que ele diz." O que é questionado por Leonard "Acreditais que semelhante revelação possa ter boas consequências?"
Kurt, querendo intensificar a agonia de Jeff afirma "Blaine está convencido de que Nick morrerá de qualquer maneira! E está preocupadíssimo com o primo! Porque Nick jura que morrerá se não for correspondido... ou que morrerá antes de lhe revelar o seu amor, e, no caso de ele lhe confessar algum sentimento, morrerá de preferência a ceder uma linha que seja do seu habitual espírito de contradição."
Dando um tapa no ombro de Kurt, e falando sério, mas olhando em direção ao arbusto onde Jeff está, Don David diz "E tem razão, porque se ele lhe revelasse os seus sentimentos, ele seria capaz de rir dele, porque como bem o sabeis, o nosso homem é de gênio gozador."
Enquanto isso, atrás do arbusto, Jeff estava agoniado com a situação e como as coisas que falavam o afetavam. De repente, Jeff ouve Kurt afirmando que ele, Jeff, era um rapaz correto. "Finalmente alguém a me defender" disse Jeff desapontado. Porém continuou a prestar atenção á conversa que continuava.
"Realmente, de exterior muito feliz" disse Don David. "E a meu ver também bastante inteligente." completou Kurt, o que foi respondido por Don David novamente "De fato; descobrem-se nele algumas centelhas reveladoras de espírito." "Tenho para mim de que é um indivíduo valente." Afirmou Leonard.
Os três comparsas (Leonard, Kurt e o príncipe) continuaram com os elogios ao Jeff para amenizar o nervoso do rapaz, enquanto Jeff ouvia tudo, ainda atrás do arbusto.
Dom David afirmou "Jeff, apesar da imagem brincalhona é cauteloso na maneira de resolver disputas, por evitá-las com sabedoria ou aceitá-las com medo genuinamente cristão." "Se for pessoa temente a Deus, necessariamente há se der amigo da paz, forçoso lhe sendo entrar em brigas trêmulo e com medo." Continuou Leonard.
"É o que se dá, realmente, com o nosso amigo, que revela em alto grau o temor de Deus, muito embora suas brincadeiras habituais não demonstrem semelhante disposição. Tenho muita pena de vosso sobrinho. Não será mesmo, melhor procurar Jeff para contar-lhe o que se passa? Questionou mais uma vez Don David.
Kurt, com um tom de voz como de indignação refuta veemente "Nunca, milorde! Resolvamos o caso apenas com bons conselhos." E Leonard completa "Nem isso será possível, que, antes de o resolvermos, ele terá deixado de existir."
Dando um suspiro resignado, Don David diz "Está bem; vosso filho nos irá pondo a par do que se for passando. Nesse meio tempo deixemos a coisa esfriar. Como amigo de Jeff, desejara que ele tivesse suficiente imodéstia para se examinar e se certificar de que não é merecedor de alguém como Nick." O que foi ouvido por Jeff, que deu um suspiro de reprovação.
Ouvindo o pequeno deslize do rapaz escondido, Dom Leonard, com um sorriso no rosto, termina a falsa conversa com um convite para o jantar. "Bom, meus senhores, já está ficando tarde e o jantar já deve estar pronto. Vamos entrar, milorde?
Kurt por sua vez, num tom conspiratório, para que Jeff não fosse capaz de ouvi-lo: "Se depois disto, ele não ficar apaixonado por Nick, não sei o que mais será necessário." e concordando com a situação, Don Pedro diz no mesmo tom do amigo "Vamos armar a mesma rede para Nick. Ficará isso aos cuidados de vosso filho e do jovem Sam. O divertido do caso consistirá em ficar cada um deles convencido da paixão do outro, quando, de fato, nada existe ainda."
Já se afastando do jardim, em direção 'a casaI, Don David tem mais uma idéia para apimentar a trama "Vamos pedir à Nick que venha chamar Jeff para o jantar.", e Leonard e Kurt, já não conseguindo conter o riso, concordam.e Kurt, já não conseguindo conter o riso, concordam./p
