Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Abby Green, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books.
Capítulo 9
Orihime assentiu, com o coração descompassado. Não poderiam ser mais sórdidos do que o que ela enfrentara naquela tarde desastrosa.
- Os homens do meu pai me trouxeram de volta para casa - Ichigo falou sem expressão - Eles disseram a ele com quem haviam me encontrado, e o que estávamos fazendo. O meu pai ficou mais furioso do que nunca, me levou para o meio dos estábulos e pediu aos homens que me segurassem, enquanto ele me chicoteava.
Orihime olhava para ele e só conseguia enxergar o seu rosto como o vira no dia seguinte, antes que se transformasse em uma máscara gélida e cruel. Ele parecia pálido e deveria estar em agonia, mas voltara para vê-la… talvez ele não quisesse ter dito o que dissera ? Talvez pretendesse apenas se proteger contra a maneira com que ela reagira. Ela se sentiu enfraquecer, mas Ichigo continuou a falar, sem mostrar emoção.
- Olhando para trás, agora vejo como o fato de eu fazer amor com a filha da sua ex-amante deve tê-lo enlouquecido, mas, na época, eu não sabia.
Ela começou a tremer violentamente, sem conseguir apagar a imagem de Ichigo sendo chicoteado. E tudo pelo que tinham feito inocentemente. As conseqüências haviam sido catastróficas.
- Não faça essa cara de terror, Orihime. Pensei que você gostaria do melodrama causado por nós. Não era disso que você precisava para acabar com o seu tédio ?
Melodrama ! Tédio ! Ela quase gritou. Ele não tinha idéia. Fora chicoteado por sua causa. Ela cobriu a boca e correu para o banheiro a tempo de vomitar no vaso. Ele veio atrás dela.
- Deixe-me sozinha, por favor.
- Não. Quero ajudá-la…
Antes que ela soubesse o que estava acontecendo, ele a levantava do chão e colocava uma toalha úmida no seu rosto. Ichigo colocou pasta de dente na escova e ela escovou os dentes. Quando acabou, ele a pegou pela mão e levou-a de volta ao quarto. Ela puxou a mão e se sentou na beirada da cama.
- Você é um enigma, Orihime Inoue. Resolveu me provocar há anos e, quando eu lhe conto o que me aconteceu, você vomita - ele contraiu o rosto como se tivesse se lembrado de alguma coisa e se encolheu. Orihime sabia que ele se lembrara do que ela havia lhe dito e desejou poder apagar as palavras cruéis.
- Eu nunca resolvi provocá-lo, Ichigo, e nem humilhá-lo - disse ela, com a voz rouca - Juro, pelo meu pai, que eu não tinha nenhum plano. Quando você me seguiu no primeiro dia, eu fiquei apavorada, mas também satisfeita. Eu queria você… mas nunca pensei em seduzi-lo para me divertir. Aquela semana… significou muito para mim.
Ele se aproximou e levantou-a pelos braços.
- Não tente reescrever a história, Orihime. Você me seduziu porque estava entediada. Aquela semana foi uma diversão, nada mais.
- Não - ela balançou a cabeça - Eu queria vê-lo de novo - ela se sentia à beira de um precipício. Sabia que não poderia lhe dizer tudo, e resolveu lhe contar meia verdade - Naquele dia em que nós fomos descobertos, eu fui levada para casa e encontrei minha mãe apavorada. Tivemos uma enorme discussão e ela me contou sobre o caso que tivera com o seu pai… o meu pai ouviu - ela se sentia confortada pelo fato de estar apenas omitindo alguns detalhes - Quando eu o encontrei, no dia seguinte, não consegui lhe falar a respeito do caso. Era sórdido demais. Eu estava envergonhada e tinha medo do que aconteceria se soubessem que eu continuava a encontrá-lo. Precisava fazer com que você se afastasse e disse as coisas mais horríveis que consegui imaginar; mas não era verdade.
Orihime se sentia mais exposta do que nunca. Acabara de abrir o seu coração. Ela desviou o olhar, temendo que ele visse que ela mentira, que ele visse a verdade que ela ocultara.
Ichigo a soltou e ergueu-lhe o queixo, fitando-a com um olhar penetrante.
- Antes que o seu pai aparecesse, algumas semanas depois, e que a minha mãe descobrisse sobre o caso, eu pensei que você e a sua mãe tinham ido embora para fugir daqui… e de mim.
Ela sentiu tristeza pela interpretação que ele dera aos fatos. Mas talvez Ichigo já soubesse o terrível segredo que ela carregara por tanto tempo…
- O que o meu pai disse exatamente aos seus pais ?
Ele recuou e passou a mão na cabeça.
- Ele queria falar com a minha mãe. Afinal, o meu pai já sabia. Meu pai não estava, naquele dia. Eu me lembro de encontrá-la histérica, gritando que o meu pai e a sua mãe tinham um caso. Precisei chamar um médico para sedá-la. Alguns dias depois, ela tomou uma overdose de comprimidos e deixou um bilhete dizendo ao meu pai que sabia de tudo. Já tinha sido ruim terem nos encontrado juntos, mas, depois do suicídio da minha mãe, a velha inimizade se fortaleceu. O ódio do meu pai o levou a ter um infarto.
Orihime sentia o coração se encolher. A mãe de Ichigo não parecia ter dito muita coisa. Se seu pai tivesse lhe contado a terrível verdade, ela deveria tê-la levado para o túmulo. Talvez tivesse sido horrível demais para ela compreender. Se o pai dele soubesse, com certeza a teria usado contra seu pai e contra o próprio filho. Ela colocou a mão no braço de Ichigo.
- Sinto muito.
Ele deu um sorriso tenso e amargo.
- Na maior parte do tempo, a minha mãe não era exatamente estável. É provável que ela sofresse de depressão, ou de bipolaridade, mas nunca foi diagnosticada. Não era preciso muito para fazê-la perder a cabeça.
- Deve ter sido difícil crescer com essa… falta de consistência.
Ele deu uma risada e puxou o braço.
- Pode-se dizer que sim. Enquanto meu pai tentava endurecer um filho fraco, minha mãe chorava silenciosamente num canto.
Orihime se comoveu ao ouvi-lo falar novamente da sua fraqueza.
- Mas você se superou e provou que ele estava errado…
- Ainda assim, ele não me respeitava. Acho que eu ter vencido o irritava - Ichigo retorceu os lábios: - Isso só queria dizer que ele precisava que seus homens me segurassem, enquanto ele me batia. Não tinha mais a satisfação de fazer isso sozinho.
Ela sentiu as lágrimas lhe subirem aos olhos. Não sabia que ele fora tão maltratado pelo pai. Ele percebeu o brilho nos seus olhos e puxou-a. Ela sentiu um nó na garganta e um peso no peito. Ele parecia furioso.
- Acho que está na hora de pararmos com a conversa e de nos lembrarmos do porquê desta noite…- ele a beijou antes que Orihime respondesse. Enquanto as lágrimas rolavam pelo seu rosto, ele se mostrava rude e tentava transportá-la para um espaço onde as palavras não eram necessárias. Ela cedeu, abraçou-o pelo pescoço, e a dor em seu coração se intensificou mesmo quando as lágrimas secaram e seus soluços se transformaram em gemidos de desejo.
Quando ela acordou, na manhã seguinte, demorou para perceber onde estava e o que acontecera. Sentia-se dolorida, mas de prazer. Ela se lembrou do vestido, do jantar, do orquidário… e do quarto de Ichigo. Abriu os olhos e viu que estava no quarto para onde fora levada na tarde anterior. Ela se sentiu vulnerável ao pensar que ele a levara para lá adormecida, de madrugada, como se tivesse se cansado dela, como se não suportasse passar nem mais um momento junto dela. E ela sabia por quê. Ele se ressentia por ter se aberto, por ter contado o que passara. Só de pensar que ele voltara ao orquidário com as costas em carne viva, ela sentia vontade de gritar.
Alguém bateu na porta e Orihime se encolheu. Estava sensível demais e não se sentia preparada para encarar Ichigo. Mas era a mesma moça que a levara à sala de jantar na noite passada, e que lhe trazia uma bandeja com o café da manhã.
- Trago um recado do señor Kurosaki. Ele disse que irá encontrá-la esta noite na sua casa.
O contrato.
Ela sentiu um peso no peito. Quando a moça saiu, ela se levantou, enrolou-se em uma toalha e foi até a janela que dava para os vinhedos e, ao longe, os picos nevados dos Andes. A vista era maravilhosa. Ichigo cavalgava entre as vinhas e, ao vê-lo, ela se encolheu. Naquele mesmo instante, ele olhou em sua direção. Ela ficou ali, encolhida, sentindo-se humilhada. Ele sequer se dera ao trabalho de vir lhe dizer pessoalmente. A noite acabara. Ele conseguira o que queria: vê-la tão exposta e rejeitada quanto ele se sentira anos antes. Se ele já sentira algo por ela, acabara há longo tempo.
Ichigo se censurou por olhar para a janela e imaginar que iria vê-la. Orihime dormia profundamente quando ele a deixara, com a pele branca marcada pelos sinais da paixão. Ele ainda sentia o sangue ferver e o corpo reagir. Arrancou uma uva de um galho e mordeu-a. Urahara o observava, e Ichigo sentiu necessidade de ficar só.
- Mais alguns dias e poderemos colhê-las. Encontro você mais tarde para conferir as outras.
Urahara entendeu a indireta e se foi. Ichigo suspirou de alívio. Ele estava muito confuso. Orihime fora a primeira mulher com quem ele dormira abraçado, relutando em soltá-la. Isso o fizera levá-la de volta ao quarto. Ansiava por ela ainda mais, desde que provara cada pedacinho do seu corpo. Novamente, pela primeira vez. Geralmente o seu desejo se esgotava rapidamente, mas a noite passada saíra dos trilhos no momento em que ela se levantara e arrancara as jóias, os sapatos. E no orquidário… Ichigo relembrou o pânico que sentira ao perceber o que ela pretendia, embora no fundo também desejasse romper a falsa polidez do jantar. Quando ele a vira na clareira, lhe parecera terrível, mas correto. Não havia melhor lugar para um desfecho. Mas ele esquecera tudo ao beijá-la. E quando descobrira a sua inocência… ele ainda se derretia por dentro ao pensar que ela era virgem, que era sua e de mais ninguém.
Ele só reparou que sua mão estava cheia de uvas ao sentir o suco escorrendo entre os dedos. Olhou para ela e percebeu que tremia. Lembrou-se das lágrimas nos olhos de Orihime ao ouvir o que ele dissera sobre seus pais, da afinidade que sempre existira entre os dois. O passado e o presente se misturavam perigosamente. Dormir com ela deveria ter sido terapêutico, mas se transformara em algo diferente e provara como ela era perigosa, invadindo suas defesas e lhe arrancando informações como fizera no passado. O que ela havia dito a respeito do que acontecera ainda era difícil de digerir e causava uma reviravolta que ameaçava tudo.
De repente, Ichigo sentiu medo. Um sentimento absolutamente novo para ele. E, então, ele se lembrou do contrato e ficou aliviado. O contrato colocaria um limite à noite anterior e o protegeria. Mais importante: manteria Orihime à distância.
Orihime entrara num estado de torpor bastante eficaz. Bloqueava as lembranças da noite anterior e, se lhe ocorria alguma imagem perturbadora, pensava em outra coisa até que ela desaparecesse. A casa estava vazia sem Byakuya e Hisana. Ela falara com Byakuya e ficara arrasada ao saber que Hisana precisaria sofrer uma cirurgia na próxima semana. Sentindo-se angustiada, não estava nada ansiosa para receber a visita de Ichigo, trazendo vitoriosamente o contrato.
Ela resolveu fazer um inventário das adegas e anotar o que iria precisar. Ichigo deveria esperar que ela estivesse preparada, quando começasse a receber o dinheiro.
Orihime não se sentia animada por sua propriedade receber uma injeção de fundos. Tudo parecia não ter mais sentido. Quando ela se lembrava de como se sentira nos braços de Ichigo, no orquidário, garantia a si mesma que a onda de amor se devera ao fato de ele ter sido o seu primeiro homem. Ela afastou-o da cabeça e se concentrou em trabalhar. Depois de algum tempo, suas costas doíam, de tanto ela se abaixar para ver os rótulos dos barris.
Quando ouviu alguém chamá-la, por um instante ela pensou maldosamente em se esconder entre os barris, como ela e o irmão faziam quando crianças.
- Aqui embaixo - gritou ela. Ouviu os passos de Ichigo, sua pele arrepiou-se, e ela mordeu os lábios para afastar as lembranças. Assim que ele apareceu, de jeans e camiseta, despenteado, bonito, ela sentiu o corpo esquentar e não conseguiu falar.
- Como poderia saber onde encontrá-la ? - perguntou ele, aborrecido - Por que você não tem um celular ? Poderia estar em qualquer lugar da propriedade… - ele se aproximou, com os olhos brilhando, e, para desgosto de Orihime, ela sentiu vontade de chorar.
- Como pode ver, eu estou aqui - respondeu ela asperamente.
- Eu não conseguia encontrá-la. Procurei em todos os lugares. Se algo tivesse lhe acontecido… você poderia ter caído e quebrado uma perna, ou algo assim - ele se calou e soltou um impropério - Preciso saber onde você está.
Ela se abalou ao ouvir a última frase, recuou e se tornou fria.
- Não vamos fingir que você realmente se preocupa, Ichigo. Você só não tem tempo para perder procurando um sócio. Trouxe o contrato ? - ela ficou surpresa ao vê-lo empalidecer e depois recuperar a cor.
- Trouxe. Está no escritório do seu pai - ele deixou que ela subisse na frente e aproveitou para recuperar o controle. Toda a sua confiança desaparecera quando não a encontrara e imaginara-a caída em algum lugar. Com tanto maquinário precário, tudo era possível… o seu alívio ao encontrá-la fora impressionante.
Quando chegaram ao escritório, ela deu uma olhada no contrato e olhou-o friamente. Ichigo sentiu o sangue ferver e uma pontada na virilha. Queria vê-la em êxtase novamente, no mesmo instante.
- Byakuya não voltará por alguns dias. Preciso esperar que ele chegue e examine isto.
Ichigo reparou que ela engolia em seco e que estava corada. Ótimo. Não estava tão fria quanto parecia.
- Eu tive notícias de Hisana. Ela está recebendo um bom tratamento, o médico acredita que a cirurgia será simples e que não haverá complicações.
- Ótimo, mas isto vai ter que esperar até a volta de Byakuya. Não posso incomodá-lo por causa de um contrato.
Ichigo ficou aliviado. Um adiamento. De repente, ele começara a odiar o maldito contrato. Tudo o que ele queria era Orihime.
Ela não gostou do olhar de Ichigo ao se inclinar sobre a mesa.
- Por mim, tudo bem. Mas, até que o acordo seja assinado, isso ainda não acabou.
Ela engoliu em seco e fingiu indiferença.
- O que não acabou ?
Ele deu a volta na mesa, levantou-a da cadeira e puxou-a contra o corpo.
- Isto - ele a abraçou com força, e os dois se encaixaram como duas peças de um quebra-cabeça. Orihime crispou os punhos e tentou afastá-lo, mas ele começou a beijar o seu queixo, o seu pescoço.
- Não, Ichigo. Não.
A resposta que ele lhe deu foi levantá-la do chão.
- Onde é o seu quarto ?
Ela ficou dividida. Sua respiração já estava ofegante e o seu corpo ansiava por ele, mas tinha centenas de motivos para não ceder. Tudo lhe parecia frágil e ilusório, como se fosse um sonho, e entre os dois havia, pela primeira vez, uma sensação de leveza.
- Lá em cima, segunda porta à direita - disse ela, odiando-se por ser tão fraca.
Quando os dois entraram no quarto, tudo o mais desapareceu. O passado, o presente e o futuro. Existia apenas o agora e o inesperado e louco adiamento. Orihime sentia-se aliviada por não ter assinado o contrato. Até assiná-lo, seria livre e não deveria nada a Ichigo Kurosaki.
Ichigo tirou-lhe a blusa e ela lhe tirou a camisa. Ele lhe soltou os cabelos e acariciou-os gentilmente.
- Isto ainda não acabou... - disse ele, erguendo-lhe o queixo.
Ele a beijou sofregamente, tirou o seu sutiã e acariciou-lhe os seios. Orihime agarrou-o pelos cabelos e gemeu. Quando ele a colocou na cama e abriu o zíper do seu jeans, ela levantou os quadris para ajudá-lo a despi-la. Ela não tinha tempo para pudores: estava excitada demais e impaciente para que ele também tirasse as roupas. Ela suspirou, satisfeita, quando Ichigo se deitou ao seu lado e acariciou o vértice de suas pernas. Não poderia falar, ainda que desejasse.
No momento em que Ichigo colocou o preservativo e entrou no seu corpo, Orihime resolveu que aproveitaria enquanto durasse. Lidaria com as conseqüências mais tarde.
Quando ela acordou, já era noite. Estava sozinha, e gelou ao recordar o que acontecera. Minutos depois de se encontrar com Ichigo, os dois estavam na cama. Aquilo não fazia parte do plano. Seria apenas uma noite, e ela assinaria o contrato… mas ela não assinara. E sentia um alívio culpado. Era como se os dois pudessem ignorar o inevitável, desde que o contrato não existisse. Assim que ela o assinasse, tudo mudaria.
Orihime ouviu um barulho na cozinha, que ficava dois andares abaixo do seu quarto. Levantou-se, vestiu-se, ajeitou os cabelos e desceu sem fazer barulho. Ela ouviu alguém assobiar na cozinha e parou, boquiaberta, ao se deparar com Ichigo fazendo panquecas. Ele abotoara erradamente a camisa e o botão do jeans ainda estava aberto. Assim que a viu, ele parou de assobiar.
- Como você gosta das suas ? Com creme, chocolate ou morangos ?
Ela entrou na cozinha, sentindo-se entre a realidade e o sonho.
- Onde você encontrou tudo isso ?
- Eu comprei.
Ela olhou-o, assustada.
- Que horas são ? Quanto tempo eu dormi ?
Ele olhou para o relógio.
- São nove horas. Você dormiu por cerca de quatro horas.
- Você deveria ter me acordado - ela olhou para o outro lado, não querendo que ele percebesse como estava aliviada por ainda vê-lo ali.
- Você parecia tão tranqüila… - o que ele não queria dizer é que não gostava do quanto desejava vê-la sem as olheiras de cansaço no rosto. Quando ele acordara, precisara se conter para não beijá-la e puxá-la contra o corpo. Quando ele vira a penúria da cozinha, sentira-se culpado. Saíra para fazer compras pela primeira vez em anos. E, enquanto fazia compras, percebera que, também pela primeira vez em anos, sentia-se incrivelmente leve. Sem o contrato entre ele e Orihime, não haveria barreiras a serem removidas entre os dois. Poderiam continuar a ter um caso porque, com certeza, depois de mais algumas noites, ele se cansaria e se afastaria dela.
Ele contraiu o queixo ao admitir que o seu desejo por Orihime parecia ter ficado mais forte. De repente, ele sentiu vontade de jogar os ingredientes de lado, limpar a mesa e possuí-la ali mesmo.
Orihime se sentou alegremente num banco e ficou olhando, enquanto Ichigo preparava outra panqueca. Ele já fizera seis.
- Quantas pessoas vêm para o jantar ?
Ele olhou para ela e deu um sorriso irônico.
- Eu costumava fazer toneladas de panquecas quando trabalhava nas vinhas francesas, durante um verão. Nós nos revezávamos para cozinhar… moradia comunitária - explicou ele - Eu estava fazendo o curso de Mestre de Vinhos.
- Foi uma grande conquista. Seu pai deve ter ficado orgulhoso - ela se reprovou ao vê-lo ficar tenso.
- Ele morreu logo depois de eu receber o resultado. Não pareceu ficar impressionado.
Orihime se comoveu ao perceber que ele não recebera nenhum afeto do pai. Isso era algo que ela conhecia.
- Então, já resolveu ? - perguntou ele, segurando uma jarra com chocolate e uma caixa de creme. Ela nunca pensara ter uma imaginação erótica, mas imediatamente o imaginou espalhando chocolate sobre seus seios e lambendo-os. Ficou vermelha e disfarçou.
- Creme e morangos, por favor.
Ichigo olhou para ela com malícia e colocou o chocolate de lado.
- Talvez eu o use mais tarde… - ele serviu a panqueca e ofereceu um copo de vinho a Orihime. Ela bebeu um gole e deixou que o líquido a levasse para longe da realidade: tudo era finito e transitório.
- Ichigo ? O que estamos fazendo ?
Ele fechou os olhos e afastou a lembrança dos gemidos roucos de Orihime há poucos instantes. Acabara de se vestir e se voltara. Ela estava na cama, apoiada nos cotovelos, deliciosamente despenteada e corada. O lençol mal encobria suas curvas, e ele, mesmo que saciado, sentira o desejo tornar-se mais intenso. A quem estava enganando ? Dentro do jipe, de volta para casa, ainda a desejava.
Três dias e noites haviam se passado e o tempo parecia parar, assim que ele entrava no terreno dos Inoue. Ele fora até lá todos os dias, a pretexto de conversar sobre as vinhas, mas invariavelmente os dois acabavam na cama. O seu desejo era insaciável. Maldição ! Ele socou o volante: Orihime entrara no seu sangue. Ocupara exatamente o lugar que ele não queria, um lugar do qual nenhuma outra mulher se aproximara. Desde aquela semana no orquidário, quando ele chegara tão perto de se abrir emocionalmente, Ichigo mantivera o coração fechado para todos. Aprendera bem sua lição.
A despeito disso, ele sabia que deveria corrigir as lembranças do que acontecera há oito anos. Orihime fora inocente, não tivera consciência do seu poder. Mas o que ela dissera ainda doía. A veemência com que ela falara ainda estava vívida na lembrança de Ichigo, assim como a maneira como ela vomitara quando ele a tocara. Ele admitia que talvez tudo não tivesse passado de uma reação melodramática de adolescente, depois que ela ficara sabendo do caso da mãe.
A pergunta que ela fizera ainda soava em sua cabeça:
- Ichigo, o que estamos fazendo ?
Ele voltara para a cama e a beijara longamente. Só parara ao sentir que estava chegando ao ponto onde não conseguiria se conter.
- Até que o contrato esteja assinado, é isto o que estamos fazendo.
Ela puxara o lençol para cima e o afastara.
- E, então, tudo terá acabado. É isso ?
Ele fitara os grandes olhos cinza e vira algo que o deixara extremamente nervoso: o seu próprio reflexo quando jovem, expondo-se ao ridículo. Não faria mais isso por ninguém.
- Não pode ser mais nada… não, se você quer o investimento.
Orihime empalidecera e o encarara.
- Eu só queria ter certeza de que não havia dúvida.
Ele ficara furioso com a frieza de Orihime. Beijara-a novamente, até ouvi-la gemer, demonstrando a sua falta de controle.
- Volto mais tarde para conversarmos a respeito de alguns detalhes.
Ela respondera em tom de desafio:
- Esta tarde, eu vou à clínica ver Hisana. A cirurgia foi marcada para amanhã.
- Então virei buscá-la e iremos juntos, depois de termos conversado.
Ichigo sabia que, assim que Hisana se recuperasse, Byakuya voltaria a Villarosa, examinaria o contrato, e Orihime iria assiná-lo. A trégua entre os dois estaria terminada. Orihime Inoue estava ligada a emoções e a lembranças demais para ocupar um lugar na sua vida.
P. S.: E, a seguir, o último capítulo.
