Capítulo 9 – Mestre do Chá

O Palácio do Céu Estrelado era exatamente como o seu nome sugeria: um palácio. Ao atravessar a barreira de proteção de Chuya, um esplendoroso castelo de três andares era revelado, com um enorme jardim que o separava das demais construções ao seu redor formando um perfeito U.

No palácio as festividades tomavam lugar. Quem adentrasse o andar térreo seria maravilhado com um palco onde as apresentações ocorriam no dia do festival, enquanto nos demais dias servia para treinar as dançarinas e as musicistas, assim como o corpo do teatro. Ainda nesse andar, de frente com o palco, era exibido um enorme hall vazio onde posteriormente seria preenchido por mesas e assentos para os visitantes. Ao fundo, uma larga escada levava aos andares superiores, todos com uma visão clara para o palco, já que a construção do edifício buscava valorizar aquele ponto específico.

No primeiro e no segundo andar, ficavam disponíveis mais de vinte aposentos em cada um, todos ocupados pelos convidados que desejavam se hospedar a modo de obter mais privacidade para as alianças que formariam no Festival da Lua Cheia. O terceiro e último andar, por sua vez, servia de moradia para aqueles que ajudavam a manter o Palácio do Céu Estrelado em pleno funcionamento. Com exceção do quarto de Chuya e de Akemi, todos os demais eram ocupados por duas pessoas ao mesmo tempo. Kagura descobriu que Akemi tinha direito à esse capricho por ser a pessoa que estava há mais tempo sob os serviços daquele lugar, além de ser a responsável em treinar as dançarinas, sendo a melhor entre todas elas.

Para honrar o nome do estabelecimento, com exceção do terceiro andar, todos os demais tinham as suas paredes externas ocultas por enormes janelas e o teto sobre o palco era vazado, fazendo com que durante a noite ele fosse iluminado pelo luar. Apesar de já estar há uma semana ali, Kagura ainda se pegava admirando essa bela construção e contemplava o céu com mais frequência do que era desejado.

As casas ao redor do palácio por sua vez eram modestas, sendo todas térreas e conectadas umas às outras com portas de entrada individuais. Nas edificações em frente ao prédio principal encontrava-se a oficina de arte, a de bordado, a sala de estudo das letras e o depósito de decorações. Ao fundo, se localizava a cozinha, a casa de chá e o quarto do Mestre do Chá. Por ele ser o único homem em meio a trinta e seis mulheres, Chuya optara em separá-lo das demais.

Foi para a casa de chá que Akemi levara Kagura.

O lugar tinha o mesmo tamanho da cozinha, apesar de serem feitas menos coisas ali do que na construção anterior. A estrutura por sua vez era mais organizada, revelando a personalidade perfeccionista de seu ocupante. Havia uma pequena fogueira em seu meio, onde a água ou o leite para a bebida seriam fervidos. Em todas as paredes, estantes e balcões de madeira ocupavam seus respectivos lugares, abrigando vários conjuntos de xícaras e bules feitos com a mais rica porcelana chinesa e um grande número de potes refinados de cerâmica que guardavam as ervas e flores utilizadas na preparação dos chás. O cheiro das mesmas podiam ser sentidas assim que a porta era cruzada. Devido à grande variedade, a fragrância era quase insuportável de ser tolerada por quem tinha uma narina mais sensível. Kagura não se considerava uma pessoa sensível à odores, mas franziu o cenho ao inalar aquele aroma pungente.

- O Mestre do Chá ainda deve estar dormindo – Akemi suspirou ao notar a ausência do youkai.

O dia já havia raiado tinha algumas horas e a maioria dos ocupantes do Palácio do Céu Estrelado já estavam empenhados em suas funções, porém Byakuya era um daqueles que ainda estava repousando antes de começar os seus afazeres. Kagura era como um pássaro matutino e não o invejou por isso, mas se irritou pelo descaso dele em sua recepção.

- Devemos esperá-lo? – Indagou, cruzando os braços.

- Você sim. Eu tenho minhas obrigações – Informou, dando-lhe as costas – Aproveite a ausência do Mestre do Chá para se familiarizar com sua nova atividade.

Kagura não teve tempo de rebater aquela sugestão, pois a outra a deixara sozinha, retornando para o palácio.

Com tanto movimento no palácio, ficar sozinha era uma verdadeira luxúria. Devido a função que cada um tinha, ninguém ficava ocioso sob a administração da youkai raposa Hideaki. Hideaki era a intendente que Chuya escolhera para administrar as funções no palácio. Ela era a responsável em garantir que todos estivessem ocupados realizando algum serviço, como a organização dos aposentos que seriam utilizados durante o primeiro dia da lua cheia, a limpeza de todo o palácio e suas construções adjacentes, além de fazer as preparações necessárias para o atendimento dos futuros clientes, trabalhando com a reserva e a distribuição dos atendimentos privados. Fora essa youkai que lhe ordenara a limpar o jardim antes de Akemi aparecer. Tendo abandonado o serviço para conhecer sua nova função, Kagura se questionava se Hideaki lhe cobraria uma explicação ao notar sua ausência. Porém, os trabalhos designados por um superior possuía uma hierarquia maior à ser respeitada, independentemente de qualquer um designado pela intendente.

Aproveitando o raro momento de solidão que lhe foi permitido, Kagura agradeceu silenciosamente a ausência do Mestre de Chá. Depois de uma longa semana no Palácio do Céu Estrelado, poder vagar de um lado pro outro dentro da Casa de Chá sem se preocupar com o que deveria fazer a seguir lhe dava uma paz de espírito gigantesca, ainda que soubesse que isso duraria apenas poucos e preciosos minutos.

No tempo passado desde que despertara, devagar ela ia tomando consciência sobre si. Não sentia prazer em receber ordens e ser comandada e muito menos gostava de ter todas as horas do seu dia preenchida por atividades, entretanto Emi deixara claro que a maior recompensa de um árduo serviço era o quanto receberia por ele. Chuya era uma mulher rígida e ao mesmo tempo generosa. O valor alto que cobrava de entrada para os visitantes era revertido no salário que suas funcionárias recebiam, porém divergia de cargo para cargo. Kagura usava Emi como referência para saber o quanto receberia ao final do festival já que as duas estavam no mesmo rank de funcionárias, ainda que Emi fosse musicista e ela a ajudante do Mestre do Chá, contudo esperava no mínimo duas moedas de ouro e 5 de pratas como pagamento. Claro que esse valor poderia variar se fosse escolhida para atender algum cliente com reserva de quarto, mas apenas as mais experientes eram selecionadas para este serviço.

Emi lhe confessara que o motivo para juntar dinheiro era para começar uma vida nova na China. Sua colega de quarto não sabia o que esperar de seu destino nas terras que desejava conhecer, então estava há mais de vinte anos fazendo suas economias. Kagura descobrira que dinheiro era fundamental para sobreviver naquela Era, tanto para humanos quanto para youkais. Com dinheiro se comprava roupas, armas, terras, títulos e comida. Apesar de não possuir nenhuma ambição que elevasse o seu status, o pagamento que receberia ajudaria a pagar o possível conserto de seu leque e as viagens que desejava realizar. Por essa razão e também pelo seu próprio orgulho, ela não desejava decepcionar o Mestre do Chá.

Tentando evitar que o seu desconforto pelo forte cheiro das ervas e flores secas ficasse explícito, Kagura cruzou o cômodo e se debruçou sobre um dos balcões para abrir a enorme janela que estava fechada, tomando cuidado para não quebrar nenhuma daquelas preciosas porcelanas que estava em seu alcance.

- Ninguém te disse que é feio mexer nas coisas dos outros sem permissão?

Uma voz masculina preguiçosa ecoou por todo aquele lugar, rompendo o silêncio e a solidão.

- Yo, ninguém te disse que é feio deixar os outros esperando? – Retrucou, sem desviar sua atenção da janela que aparentemente estava emperrada.

Incomodada com o que ela julgou ser uma risada contida vinda do Mestre do Chá, usou mais força do que era necessário para desemperrar a janela, quase caindo sobre o balcão e arrancando uma exclamação de desespero do outro que em um movimento rápido se pôs ao lado dela, agarrando o tecido das costas de seu quimono com uma mão e segurando um pote de cerâmica com a outra que ameaçara ir ao chão.

Com os dentes serrados pelo o que acabara de ser evitado e incomodados um com a atitude do outro, ambos se encararam enquanto uma corrente de ar inundava o cômodo e espalhava ainda mais o cheiro dos ingredientes para chá antes de conduzi-lo para fora.

O momento fora congelado pelos dois. A expressão de desgosto que traziam em seus rostos fora substituída pela de surpresa. Olhos vermelhos estudavam olhos azuis. O longo cabelo preto azulado preso em um rabo de cavalo alto do Mestre do Chá dançava ao vento e se misturava com as madeixas castanhas escuras soltas de Kagura. Essa era a primeira vez que ela estava o vendo e ainda assim, sentia um forte sentimento de familiaridade com ele.

- Kagura! – Um grito estridente feminino ecoou da porta de entrada da Casa do Chá, rompendo o momento entre ambos.

Kagura reconheceu a figura solene de Hideaki. Aproveitando que o punho de Byakuya afrouxara no tecido de seu quimono, ela recuperou a postura e conduziu uma mecha de seu cabelo para trás da orelha antes de dirigir a palavra para a intendente.

- Em que posso ajudá-la, Hideaki-San? – Byakuya foi o primeiro dos dois a se manifestar com um tom extremamente gentil que arrancou arrepios dos ouvintes – Kagura foi designada para ser minha ajudante e pedi para que ela abrisse essa janela que estava emperrada.

Qualquer repreensão que Hideaki planejara fazer fora suspensa depois das palavras proferidas pelo Mestre do Chá.

- Kagura, da próxima vez que abandonar uma atribuição que lhe dei, peço para que se reporte a mim o motivo da mesma – Informou a youkai, demonstrando-se desconcertada – Mestre do Chá, vim entregar as moedas que Chuya-Sama separou para que fosse comprar os ingredientes que listou. Espero que os dois não arrumem nenhuma confusão. Chuya-Sama não tolera nenhum tipo de deslize entre seus funcionários.

Deslize? Kagura teve certa dificuldade em entender o termo usado pela mesma antes de deixá-los a sós. Byakuya, por outro lado, emitiu um riso abafado, sentindo em sua mão o peso da bolsa de veludo azul que lhe fora entregue por Hideaki e em seguida a escondeu na manga de sua vestimenta.

- O que ela quis dizer com isso? – Perguntou ao seu novo mestre.

- Apenas para que não arrume nenhuma confusão enquanto permanecer no Palácio – Byakuya deu dois leves tapas no topo da cabeça dela antes de colocar o pote de cerâmica que tinha na outra mão novamente sobre o balcão.

Kagura franziu o cenho e ajeitou o cabelo no local em que ele lhe tocara.

- Como se eu tivesse algum plano para fazer isso... – Murmurou.

- Pelo o que sei, você tem manias de arrumar confusão por onde passa – Em um movimento rápido, Byakuya posicionou o seu rosto bem próximo ao de Kagura, levando-a a cambalear um passo para trás – Mas eu não estou disposto a participar de qualquer uma delas.

- Yo! – Exclamou em indignação – Você não me conhece para fazer tal declaração sobre minha pessoa!

O Mestre do Chá riu, endireitando a coluna.

- De fato não nos conhecemos, contudo já ouvi muitas coisas a seu respeito, Kagura, a Mestra dos Ventos. Afinal de contas, viemos do mesmo criador.

Viemos do mesmo criador... Aquelas palavras ecoaram em sua mente enquanto recordava do pequeno youkai verde que carregava consigo um cajado de duas cabeças. Jaken chegara a chamá-la de Mestra dos Ventos e também a acusara de ser cria de...

- ... Naraku...? – Deixou escapar o nome daquela que Jaken dissera ser o seu criador.

- Por favor! – Byakuya pediu, colocando o dedo indicador em frente aos lábios à modo de pedir silêncio – Não diga esse nome perto de mim.

Kagura permitiu-se sorrir pelo canto dos lábios.

- Aparentemente ele não era um bom sujeito pela sua reação – Zombou.

Byakuya massageou as têmporas antes de respondê-la.

- Você não tem noção do lugar onde eu fui parar por causa dele. Se não fosse pelo auxílio daquela nobre senhora que me resgatou, eu jamais teria saído de lá. Demorei mais de meses para retirar o cheiro do submundo do meu corpo quando eu voltei – Byakuya enrugou o nariz em desgosto provocado pelas lembranças – Por conta dele você também não deve ter ido parar em um lugar muito bom. Estou fascinado em saber a sua versão de como conseguiu escapar de lá. Até onde eu saiba, o seu corpo foi destruído e não me recordo de ter encontrado o vislumbre de seu espírito onde eu estava.

Kagura fez menção de respondê-lo, porém foi interrompida antes que tivesse a chance de dizer algo.

- O caminho que vamos tomar é um pouco longo. Você pode entreter o nosso percurso com a sua história – Byakuya se direcionou até a porta e ficou a espera dela, que o encarava de volta com olhos cheios de indagações – Preciso ir até a residência do fornecedor de suplementos. Vou lhe mostrar o caminho para que nas próximas vezes que precisarmos de algo você possa ir sozinha. Como deve saber, eu tenho muitas responsabilidades como Mestre do Chá e não posso negligenciá-las com atribuições como essa.

Kagura revirou os olhos e deixou escapar um suspiro de descontentamento. Ainda que sentisse que poderia ter um pouco mais de intimidade com ele do que com qualquer outra pessoa daquele lugar, não pôde evitar em observar o quão arrogante e inconveniente ele demonstrava ser.

Sem questionar o comando que lhe foi passado, ela o seguiu. Independentemente de onde eles estavam indo, parecia ser uma boa ideia uma mudança de ares, ainda que a jornada durasse apenas algumas horas.