N/A: Finalmente capítulo 10! Nossa, esse capítulo ficou muito longo, mas eu amei escrever no ponto de vista do Aro. Toda a história dos Volturi me fascina, o jogo político, as tramas dos líderes e a relação com outros clãs, por isso acabou se tornando um dos meus capítulos favoritos. Aro não está feliz com a chegada de Claudio, e ainda tem o 'problema' das crianças híbridas... Ainda tem muita coisa pra acontecer nessa história. Ah, decidi que atualizarei a história aos sábados, muito obrigada por acompanhar!
Obs: P.O.V = ponto de vista do personagem que está narrando
Obs 2: alguns personagens tiveram a idade alterada, e a aparência escolhida para alguns foi a descrita no livro e não no filme
[Todos os personagens pertencem a Stephenie Meyer!]
10
Aliança
Aro P.O.V.
- Depois de nossa última viagem achei que as coisas finalmente mudariam um pouco. – Sulpicia disse em um tom melancólico. Optei por não respondê-la, ou acabaríamos discutindo sobre aquele assunto tão desgastado durante horas e não tinha todo esse tempo, ela acabaria se esquecendo de tudo assim que Alec e Corin começassem a distraí-la. Além disso, precisava pedir a Chelsea que voltasse a ligar Sulpicia com Elia, à conexão estava enfraquecendo e sua irritação era a prova disso.
Sulpicia não se importava com minhas visitas à Elia há alguns anos, mas as coisas mudaram à medida que ela foi crescendo. Seus pensamentos indicavam que tinha medo de ser substituída, por isso pedi que Chelsea agisse assim que Elia chegou, ela precisava de apoio, de uma mãe, não de outra pessoa que ficasse espalhando boatos e a fizesse se sentir uma intrusa.
- E por que mesmo está indo ao Egito?
- Para pedir o apoio de Amun, de maneira discreta, é claro. Benjamin não saberá o porquê da nossa visita.
- O feiticeiro – ela sussurrou. Era assim que ela se falava sobre Benjamin depois que descrevi seus dons extraordinários.
- Conversaremos quando eu voltar. – foi à última coisa que disse antes de deixar a câmara. Sem beijos de despedida ou demonstrações de carinho dessa vez. Sulpicia assentiu e voltou a escrever, ela gostava disso.
Segui para o andar de cima até a biblioteca, a procura de Marcus, precisava me despedir antes da viagem e ter certeza de que ele estava bem. Não me incomodei em me despedir de Caius, não falava com ele apropriadamente desde que Elia voltou da Romênia. Encontrei Marcus acomodado em uma pequena mesa, encarando um tabuleiro antigo e gasto de xadrez, o mesmo que o ajudou a se aproximar de Didyme séculos atrás, algo que modificou completamente sua vida.
Mas a cena agora era melancólica e vazia.
Me aproximei sem fazer barulho, pois não queria assustá-lo, ele poderia estar em um momento delicado dentro de sua própria mente, e em situações como esta não podia forçá-lo. Toquei seu pescoço levemente com o indicador e rapidamente fui invadido por sua melancolia, todas as suas lembranças de minha irmã, desde o momento em que se conheceram até o último dia em que se viram, então surpreendentemente vieram às estratégias de xadrez. Marcus estava jogando consigo mesmo, mentalmente. Ele nem se mexeu, já estava acostumado com minhas checagens diárias.
Me surpreendi ao ver o rosto de Elia com freqüência em seus pensamentos, até que lembrei que Marcus a estava ensinando a jogar xadrez, algo que ela sempre recusou quando mais nova, mas agora, por compaixão a ele, estava animada em aprender, principalmente se isso o distraísse.
À medida que pensava em novas técnicas de ensiná-la, Marcus começava a divagar em como queria que ela ficasse no castelo, em como sentia falta de ter um amigo e em como poderia fazer algo errado se continuasse a pensar em como estava solitário.
- Não quer que ela vá? – minha pergunta o pegou de surpresa. Marcus se endireitou na cadeira, fazendo com que um pouco de poeira caísse de seus ombros.
Olhei ao redor da biblioteca, éramos os únicos ali.
- Onde estão seus guardas?
- Felix e Demetri também irão com você.
- Sabe que não pode ficar sozinho.
- Santiago já deve estar chegando – assenti ao ouvir seu tom vagaroso – e sim preferia que Elia ficasse aqui.
- Sabe que preciso dela nessa viagem.
- Amun poderia vir até aqui.
- Ele não virá agora – sentei a sua frente e movimentei uma das peças no tabuleiro. Fazia muito tempo que não jogávamos uma partida - não depois do último conflito.
- Ninguém mais virá se continuar matando todos.
- Não matarei Amun – Marcus finalmente fez sua jogada – agora. Ele é um ótimo fornecedor de talentos e sabe que estamos fazendo isso em sigilo absoluto.
- Amun é um ótimo avaliador, não é para isso que está levando Elia? Para que ele diga se ela vale à pena?
- Elia vale à pena – consegui tomar uma de suas peças – e se a estou levando é como um gesto de boa fé.
Sorri, escondendo os outros motivos pelo qual iria expô-la da pior maneira desde que Caius a mandou para uma missão suicida e Demetri a levou para Roma. O maior deles, como Marcus havia adivinhado, era de que Amun era um especialista em identificar pessoas talentosas e precisava de sua opinião sobre o potencial de Elia. A maneira com que ela confundiu Vladimir me fascinou, e o jeito que conseguia se esconder de Demetri era brilhante. A segunda era porque, ao levá-la, Amun teria certeza de que não me dei ao trabalho de ir até sua casa para travar uma batalha, mas para uma negociação amigável.
– Antigamente tudo se resolvia com um bom acordo de casamento.
- Mas Elia já é casada – um raro e leve sorriso surgiu no canto dos lábios de Marcus. Se não estivéssemos jogando teria me esticado para tocar sua mão, mas pela minha experiência sabia que ele estava comparando-a novamente com Didyme.
Fui tomado por uma sensação estranha ao pensar no mais novo recém nascido que recebemos, algo que não sentia há muito tempo e cujo nome não recordava. Claudio Salvatore era o único que poderia, de fato, afastar Elia de mim, uma das razões pelo qual o desprezava.
- Eu gosto dele – a voz de Marcus me fez voltar ao presente, havia perdido metade de minhas peças sem me dar conta.
- De quem? – perguntei, ainda confuso.
- Do jovem Claudio – Marcus me encarou, esperando meu movimento. Apesar de ser um cadáver ambulante, às vezes, ele tinha momentos de lucidez que bastavam para me provocar – ele a completa perfeitamente.
- Tão perfeitamente assim? Não foi você quem disse que Demetri e ela possuem uma ligação? – acabando completamente com meus planos uni-la com Alec, o único que a manteria sob controle com minha supervisão.
- Mas não uma ligação como a que ela tem com o jovem Claudio – Marcus suspirou – não sei o que Elia faria se algo acontecesse a ele.
Cerrei os punhos, um gesto instintivo, impensado. Marcus ainda me encarava de maneira desafiadora. É claro que ele sabia o que Elia faria se Claudio morresse, ela se transformaria em uma versão mais jovem dele mesmo, alguém que um ou dois guardas não dariam conta.
- Até logo, Marcus. – levantei e deixei a biblioteca.
O jogo permaneceria inacabado. Foi um belo empate.
XXX
Não era uma caminhada longa até a pista de decolagem, apenas um pouco mais afastada da Igreja que já fora reluzente e movimentada um dia, há muito tempo. Didyme costumava rezar ali nos raros momentos em que estava sozinha, e ali Elia transformou o humano, seu atual parceiro, sem o meu consentimento.
Aquele lugar gostava de me desafiar.
- É bom vê-lo, senhor! – Renata foi a primeira a me cumprimentar quando cheguei. Ela sempre me acompanhava por proteção, mas agora havia estendido seus serviços à Elia também, pelo menos até encontrar alguém que fosse tão útil e influenciável quanto Renata que pudesse protegê-la e me manter atualizado sobre seus passos.
- Onde estão os outros? – perguntei.
- Felix e Demetri estão supervisionando os humanos, senhor, para que possamos sair na hora combinada.
Estava prestes a perguntar sobre Elia quando ouvi uma pequena discussão vinda do outro lado da aeronave. Elia estava de pé, pronta para partir, falando com Claudio Salvatore, que não parecia muito feliz.
- Ele não devia estar aqui.
- Sei que não, senhor – Renata respondeu depressa – mas ele disse que só veio acompanhá-la até o avião decolar.
- Diga aos pilotos que quero sair agora.
- Mas senhor...
- Agora! – disse rispidamente. Renata recuou e voltou correndo para dentro do avião.
- Já é a terceira vez que está indo embora sem mim – ouvi Claudio dizer quando me aproximei – está se tornando um hábito.
- Voltarei logo, eu prometo! – os braços de Elia o envolviam, enquanto ele resistia ao impulso de correspondê-la – Mas Aro pediu que...
- Não precisa fazer tudo o que ele pede, não é serva dele!
- Não, ela não é. – Claudio olhou assustado em minha direção ao ouvir minha voz.
Sua mente estava sob minha observação desde o momento em que nos conhecemos, primeiro porque não o aprovava em minha família, mas com o passar do tempo suas desconfianças sobre mim e seu desgosto em beber sangue humano cresceram, e ele não era esperto em guardá-las para si, precisava compartilhá-las com Elia, precisava envenená-la contra mim e contra as normas que criei.
Ele era perigoso demais para ficar com ela.
- Claudio não quis dizer isso – Elia suspirou – perdoe-o, por favor.
Sorri para ela. Não havia satisfação maior do que ouvir Elia me pedindo algo, não nesses últimos meses em que o mundo resolveu se levantar contra mim.
- Eu o perdoo – disse olhando para o jovem inconsequente que minha Elia escolheu como esposo. Ele engoliu em seco – mas agora precisamos ir.
- Sim – Elia suspirou e olhou para Claudio, cheia de tristeza.
- Estarei bem aqui quando você voltar – Claudio a beijou uma última vez antes de finalmente soltá-la.
Infelizmente ele ainda estaria aqui quando voltássemos.
XXX
Felix e Demetri já estavam no avião quando entramos, eles ficariam na parte de trás com Renata enquanto Elia me seguiu até os assentos mais confortáveis na frente. Não precisei tocar em Demetri para perceber o quanto ele se incomodou em ver Claudio ali. Imaginei que estivesse acompanhando toda a discussão do casal atentamente.
Se continuasse acompanhando tudo de longe, sem se intrometer, duraria mais tempo aqui. Talvez Claudio precisasse se aproximar mais de Demetri para entender como as coisas funcionavam no clã.
- Por que Alec não irá conosco? – Elia perguntou. Ela tentava se reaproximar de Alec desde que voltou com Claudio, mas as coisas não iam bem entre eles. Alec estava muito magoado.
- Ele não quis vir – resolvi não mentir para ela sobre esse assunto me particular. Fiquei feliz por ver que ela usava o colar com o brasão dos Volturi e por ter aposentado o colar barato de seu irmão.
A porta do avião foi fechada, fazendo com que minha adrenalina subisse um pouco.
- Seus amigos gostarão de mim? – Elia desviou o olhar por um segundo da pista, já que a deixei se sentar próximo da janela, e me encarou ao mesmo tempo em que apertou minha mão, era muito mais fácil entendê-la dessa maneira, podendo ler seus pensamentos com todos aqueles sentimentos conflitantes.
- Eles irão amá-la – beijei as costas de sua mão e fechei os olhos, tentando esquecer de que estávamos em uma grande caixa de metal. Não gostava de viagens longas, mas ter Elia ao meu lado me acalmava – eu prometo.
Elia P.O.V.
Aquela foi a primeira vez que viajei de avião.
Foi totalmente estressante no começo, apesar de Felix continuar falando nos fundos em como não morreríamos em um acidente, o que não ajudou em acabar com o meu nervosismo. Aro não fez nada, afinal ele também não gostava de voar, era um de seus poucos medos, talvez o único que conhecia. Ele passou toda a viagem segurando minha mão e sorrindo quando meus pensamentos ficavam incontroláveis com vários cenários em que o avião acabava explodindo e todos nós morreríamos de novo. Cortesia de Felix.
Chegamos ao Egito em mais uma pista particular, onde saímos do avião direto para um grande carro, o bastante para acomodar todos e escuro o suficiente para bloquear a luz solar e os olhares de alguns curiosos nas agitadas ruas de Gizé.
- Queria poder estar do lado de fora – suspirei.
- Não precisa se sentir presa aqui – disse Aro, que havia voltado ao normal – poderá visitar o que quiser durante a noite, sem guias ou turistas, mas Renata terá que acompanhá-la.
- Não preciso de um guarda-costas. – fui mais rápida que Renata ao me pronunciar, seus lábios se contraíram.
- Posso levar você – disse Demetri.
Assenti em resposta. Ele havia morado aqui então devia saber aonde ir em segurança. Devia ser o suficiente para Aro.
O carro adentrou em uma grande casa de muros e vegetação alta. Sua arquitetura era tradicional, com arcos que deixavam a luz entrar suficientemente para deixá-la aberta e arejada. Havia diversos vasos e esculturas retratando antigas divindades egípcias, além de confortáveis sofás espalhados por todo o andar, inclusive de frente para uma piscina interna. Tudo era convidativo, como uma linda casa familiar misturada com um luxuoso museu, mas os funcionários humanos não tinham uma expressão alegre. O motorista e o homem que nos recebeu na entrada usavam ternos simples, de forma que não chamassem a atenção, tinham pele morena e o cabelo preto bem aparado, narizes longos e expressões sérias. Eles pegaram nossas malas, já que aparentemente nenhum membro do clã podia repetir roupas, enquanto aguardávamos a chegada de seus mestres em uma área coberta.
- Aro! – um homem alto e moreno surgiu no portal de entrada, com os braços abertos. Ele sorria, mas parecia apreensivo ao mesmo tempo. Usava uma túnica verde água com um colete e calças escuras.
- Amun – Aro o abraçou rapidamente.
Demorei para notar que havia uma mulher atrás dele, ela era muito bonita, de cabelo longo e ondulado e pele escura, que contrastava com a túnica cinza, os braceletes de bronze e o lenço cor de vinho pendurado ao redor de seus ombros.
- Como pode ver trouxe um grupo pequeno – Aro nos indicou com a cabeça - portanto Benjamin ficará onde está.
- Não estou pre... Preocupado com isso – Amun gaguejou por um momento.
Ele estava mentindo e é claro que Aro sabia disso, ainda segurava a mão dele.
- Então trouxe uma nova companheira – Amun disse ao olhar para mim, rápido em mudar de assunto – sua filha, imagino.
- Sim – Aro disse com um sorriso, me levando para frente.
- Vejo que usa o bracelete que mandamos em sua honra – disse Amun – Kebi o escolheu com muito cuidado dos tesouros do antigo império.
A vampira atrás dele assentiu com a cabeça. Levei a mão direita até o bracelete dourado que adornava meu braço esquerdo. Aro havia me dito para usá-lo durante a viagem, como uma gentileza.
- Foi um lindo presente – respondi – é um prazer conhecê-los.
- Seja bem vinda – disse Amun, então se dirigiu para grupo atrás de nós: - sejam todos bem vindos.
A casa era ainda mais extraordinária por dentro, ao contrário do castelo dos Volturi era surpreendentemente clara e aberta. A entrada era larga e nos levava direto para a sala de estar, com portais em forma de arcos e com várias esculturas que reconheci como sendo dos antigos deuses egípcios. Não havia lugares para sentar e pude avistar ao fundo uma grande piscina.
Um jovem casal nos recepcionou na sala, o garoto se parecia com Amun, porém mais sorridente, a garota parecia frágil como Renata, mas era quieta como Kebi. Ambos usavam roupas parecidas, túnicas cor de vinho como a cor dos olhos de Alec. Aquilo me fez lembrar como queria que ele estivesse aqui.
- Como vão? – o garoto disse altivamente. Ao contrário de Amun ele não parecia com medo, mas também não parecia feliz em nos ver.
- Benjamin! – Aro, ao contrário, pareceu genuinamente feliz ao vê-lo, algo muito raro – É um prazer te encontrar novamente.
- Sempre tão gentil – Amun assentiu – mas não temos tempo a perder, Aro.
- Sim, é claro que não – Aro concordou com Amun, mas ainda olhava intensamente para Benjamin, como se ele fosse um brinquedo novo. Só quando estava prestes a seguir Amun para o andar de cima foi quando ele olhou para mim – Demetri e Renata cuidarão de você durante o dia, está bem?
Ele acariciou o meu rosto por um segundo. Assenti um pouco apreensiva por ele me deixar sozinha em uma casa estranha.
- Se for agora voltarei mais depressa – ele disse como uma resposta a minhas preocupações.
- Eu sei – respondi. Aro sorriu e finalmente subiu as escadas, escoltado por Amun e Kebi. Renata apertou as mãos, apreensiva, pois era sua função garantir a segurança de seu mestre e ela não tinha como fazer isso à distância e também não se sentia confortável em me proteger.
- Então você é a Elia – o garoto que Aro chamou de Benjamin se aproximou de mim, mas agora com uma expressão mais convidativa. A garota que devia ser sua parceira o seguia de perto – é muito bom te conhecer.
Estava prestes a cumprimentá-lo quando Demetri se colocou entre nós.
- Não toque nela. – disse ele.
- Seria apenas um aperto de mão – Benjamin ainda sorria, na verdade sua postura relaxada não havia se alterado um centímetro sequer – você melhor do que ninguém devia saber que Amun nos ensina a receber bem nossos convidados.
- Ele me ensinou a ser um assassino – Demetri respondeu – boas maneiras não faziam parte das lições diárias.
- Demetri! – me coloquei na frente dele, acabando com aquela discussão ridícula – Já chega!
Ignorei sua expressão incomodada e cumprimentei Benjamin, para o desespero de Demetri.
- As mãos dele são perigosas.
Benjamin sorriu com a declaração de Demetri. Aro me falou um pouco sobre ele então não era completamente leiga sobre suas habilidades como Demetri pensava, na verdade estava muito ansiosa para vê-las. Assim que soltou minha mão, Benjamin estalou os dedos, fazendo com que a água de um dos jarros de flores que se encontrava no canto da sala voasse de encontro ao rosto de Demetri.
- Sentiu o perigo? – Benjamin perguntou num tom de deboche. Pude ouvir os risos de Felix e Renata ao fundo enquanto tentava me recuperar do choque – Nos vemos depois, Elia, quando os ânimos se acalmarem.
Benjamin e a garota cujo nome ainda não sabia foram embora aos risos. Tirei a echarpe dos ombros e rapidamente comecei a secar o rosto de Demetri.
- Eu sinto muito – sussurrei, lançando um olhar para que Felix e Renata se retirassem – não queria que...
- Está tudo bem, Benjamin é só uma criança. – Demetri sorriu de leve e segurou meu pulso – Não precisava sujar sua roupa por minha causa.
- É só um pouco de tecido... – me afastei um pouco dele enquanto recolocava a echarpe e comecei olhar as esculturas mais de perto – Acho que li sobre todas essas divindades quando mais nova.
- Leitura estranha para uma criança – Demetri se colocou ao meu lado e apontou para a estátua a nossa frente – Osíris. Amun costumava construir santuários em sua homenagem no passado. Ele representa tudo o que o Clã Egípcio mais preza, ou prezava, antigamente.
- Entendo. Anúbis sempre foi meu favorito.
- O que a torna ainda mais estranha, Elia De Rossi.
- Meu pai e irmão são professores de história – estiquei a mão para tocar em uma das esculturas, mas desisti, elas pareciam frágeis e não queria envergonhar Aro - então estou acostumada com coisas estranhas do passado.
Demetri sorriu enquanto arrumava o cabelo, seu topete havia saído do lugar por causa da água. Acho que ele se encaixava no perfil de ser estranho e antigo.
- E você? Quais deuses costumava homenagear? – tinha certeza de que ele já havia feito uma referência a deuses, no plural, então estava curiosa já que ele nasceu na Grécia Antiga.
- Não acredito nos deuses pagãos de Amun – Demetri balançou a cabeça – podemos conversar sobre minha religião quando formos para a Grécia.
- Eu quero visitar a Grécia – respondi – mas dessa vez quero que Claudio me acompanhe. Acho que minha cabeça vai explodir de tanto que estou pensando nele... E em Alec... Queria que Alec estivesse aqui também.
- Quer qualquer um que não seja eu, não é?
- Demetri...
- Eu sinto muito! – ele suspirou – Não devia ter dito isso.
- Não preciso explicar por que sinto falta de Claudio, você deve entender, mas quanto a Alec...
- Ele se afastou, eu sei. Ele se afastou de mim também.
Pensar em Alec me entristecia. A conversa que tivemos na Romênia foi à última, depois disso ele se trancou em seu quarto e raramente saia, a não ser nos breves momentos que visitava Sulpicia. Tentar me acostumar com a sensação de ter perdido um amigo era horrível.
- Não te recrimino por sentir falta de Claudio – Demetri tentou se explicar – ele é seu marido, eu compreendo.
- Só estou preocupada porque nunca o deixei sozinho desde a transformação e ele ainda é um recém nascido.
- Ele tem maior controle do que você.
- Eu sei – sorri. Aquilo era mesmo verdade. Ao contrário de mim, Claudio conseguia ficar mais perto dos humanos com facilidade, então Aro o designou como um guarda, assim como Afton, que também o estava ensinando a lutar – talvez ele esteja mesmo bem. Quanto á Alec, espero que ele saia um pouco do quarto enquanto estamos aqui.
- Essa não foi à primeira desilusão amorosa do Alec, Elia. Ele ficará bem, confie em mim, eu ainda estou aqui, não estou?
Olhei para ele e balancei a cabeça, não acho que Demetri podia ser o exemplo de alguém que "seguiu em frente", mas não queria que pensasse que não apreciava sua companhia.
- Será que poderia me mostrar o resto da casa? – perguntei, estava mais do que ansiosa para mudar o tom daquela conversa.
- É claro – Demetri sorriu – está um pouco maior do que me lembrava, mas será um prazer.
Aro P.O.V.
- Acabar com as crianças híbridas – Amun ponderou por alguns segundos, o pé balançando - Benjamin e Tia não aceitarão esse acordo.
- Eu sei – respondi – é por isso que estou negociando com você. Eles não precisam saber agora.
- Mas vimos como essas crianças se desenvolvem, que não são um problema – Amun demonstrava resistência, talvez sua recente lealdade a Carlisle fosse maior do que aparentava – Joham realiza testes com elas há anos e não sabíamos, os Volturi não sabiam, então por que começar outra perseguição?
Olhei para ele com raiva, não gostava quando nossa incompetência era trazida a tona e de fato aquele foi um dos maiores erros que havia cometido. Sim, tínhamos visto o menino híbrido, mas isso não quer dizer que o considerava como algo benéfico para a nossa espécie. Além do mais, muitos o viram, quantos tentariam fazer o mesmo? E a questão de Joham era ainda pior, precisávamos encontrá-lo.
- Está considerando fazer o mesmo, Amun? Achei que o Clã Egípcio sempre respeitava as tradições.
- Não pretendo fazer algo assim! É...
- Doentio – retruquei com rapidez. Amun finalmente pareceu concordar – após anos de campanha para que nossa existência fosse mantida em segredo simplesmente não podemos permitir que alguns poucos saiam reproduzindo com humanos, dando origem a essas pequenas bestas.
- Fala com tanta segurança – ele suspirou – que me faz pensar se há outros motivos de ter tomado essa decisão.
- O que quer dizer com isso?
- Que talvez sua resistência a essas crianças híbridas seja do fato de que não poderá ter uma sua.
Sustentei o olhar de Amun por um tempo, ele de fato não disse aquilo como uma brincadeira, realmente acreditava que estava com raiva por não poder trair Sulpicia?
- Eu já tenho Elia – respondi – e ela é a única para mim.
Amun assentiu.
- Quando mandou uma mensagem falando sobre ela achei que estivesse brincando – ele parecia pensativo – mas vendo-o com ela, o jeito que a trata... Talvez não seja tão frio quanto nós pensamos.
- Será que pode me dar logo uma resposta sobre o que realmente vim propor aqui? Aceita ou não ajudar os Volturi a extinguir essas crianças amaldiçoadas?
- Eu aceito – disse Amun – pois isso assegurará nossa sobrevivência e manterá nossa discrição, mesmo que isso me faça ir contra Carlisle e Benjamin, ele não pode saber disso. Conheço alguns nômades, eles podem nos ajudar a procurar o português.
Sorri, satisfeito. Mais uma vez Amun havia feito a escolha certa, assegurando sua existência e a de sua família. Era por isso que vampiros como ele precisavam viver.
Ouvimos passos do lado de fora e batidas na porta. Kebi entrou, com Elia seguindo-a de perto. Ela parecia assustada, o que se confirmou quando segurei sua mão, se perguntava o que veio fazer aqui.
- Amun te fará algumas perguntas, apenas isso, querida, está bem? – fui rápido em dizer. Antes que Kebi fechasse a porta por completo pude ver o olhar indiscreto de Demetri tentando nos espionar.
Ajudei Elia a se sentar em meu lugar, de frente para Amun. Sua mão ainda segurava a minha, ela pensava em como aquilo se parecia com suas idas ao dentista no passado, de como segurava a mão de seu pai humano. A lembrança que a confortava me irritava ao mesmo tempo.
Seria tão mais fácil se ela esquecesse todos os que fizeram parte de sua vida humana.
- Como passou o dia, Elia? – Amun perguntou.
- Bem... – Elia olhou para mim primeiro, depois para ele – Benjamin me mostrou alguns truques.
- Ele gosta de impressionar as visitas – o egípcio sorriu, orgulhoso de sua criação – mas agora vamos nos concentrar em você. Aro me disse que é especial, mas pode explicar exatamente o que consegue fazer?
- Aro diz que sou imune a Demetri – Elia engoliu em seco, agora pensava em como as idas ao dentista não a deixavam tão nervosa quanto agora – e Demetri diz o mesmo, que não consegue me rastrear.
- Aro também me falou que isso acontece de acordo com suas variações de humor. Pode confirmar isso?
"Eu não sei", Elia pensou, mas não disse nada. Lancei um olhar a Amun e ele reformulou a pergunta:
- O que estava sentindo quando Demetri não a rastreou? Consegue se lembrar?
- Estava ansiosa, preocupada, assustada. Pensando demais.
- Sob pressão?
- Sim. – Elia apertou minha mão um pouco demais, mal conseguia sustentar o olhar de Amun. Tentei afagar o seu cabelo, ela não podia perder o controle aqui.
- Interessante. Em todos os anos que fiquei com Demetri ele nunca falhou – Amun sorriu e automaticamente me acalmei, isso quer dizer que ela era mesmo uma preciosidade – não achei que em todos esses anos seria possível surgir alguém que o confundisse, que o vencesse.
- Não achei que seria algo tão difícil de fazer... – "ou tão especial", ela pensou.
- Não para você, minha querida – sorri e olhei para Amun – o que acha? Devo testá-la?
- Sim, e não apenas com Demetri, mas com todos. Não temos certeza se ela é um escudo ou um ponto cego.
- Como assim? – Elia perguntou.
- Um escudo pode repelir ataques, Renata repele ataques físicos. A garota dos Estados Unidos repele ataques mentais.
- Que garota?
- Ninguém importante – retruquei.
- Até agora você repeliu rastreadores – Amun continuou - a questão agora é saber quais os tipos de ataques, habilidades que pode repelir.
- Como visões do futuro? – perguntei.
Amun hesitou, mas assentiu.
- Não seria impossível. Carlisle me disse uma vez que Alice não conseguia enxergar os lobos.
- E manter essa informação apenas para si foi conveniente? – minha voz soou ríspida o bastante para que Elia se assustasse e pedisse que ignorasse aquilo, mesmo não sabendo o que significava.
Se contasse aquela informação para Caius ele se animaria ainda mais com a antiga idéia de cães de guarda, já que ganharíamos dupla proteção.
- Amun já disse tudo o que precisava, querida – eu disse a Elia – pode voltar para Demetri, consigo ouvir seus passos agitados daqui.
- Tudo bem – ela olhou para Amun – obrigada, senhor.
Dei um beijo em meu pequeno diamante antes que deixasse a sala. Um escudo capaz de repelir Alice, capaz de tomar decisões sem que os Cullens soubessem. Por isso não conseguimos vencer a batalha, estávamos em desvantagem desde o começo, mas agora isso poderia mudar. No entanto precisava pensar nos pontos negativos desse maravilhoso dom.
- Vejo que Elia se adaptou bem a nova dieta – Amun quebrou minha linha de pensamento – é bom ver que Demetri encontrou alguém.
- O parceiro de Elia ficou em Volterra – respondi, para a surpresa dele – mas sim, ela não teve problemas em beber sangue humano, é a única dieta que conhece.
- Quer dizer que...
- Não contei a ela sobre o outro modo – fui mais rápido que Amun em completar a frase. Me aproximei da janela, já era noite.
- Mas por quê? – ele insistiu - Não acha que devia deixá-la escolher?
- Escolher para que? Para deixá-la sofrer tentando resistir à sede enquanto recebemos carregamentos de humanos todos os meses? Não sou tão cruel quanto pensa, Amun.
Ele balançou a cabeça.
- Acho que não contou a sua preciosa Elia que podemos sobreviver com sangue animal com medo de que ela vá embora, deixando-o sozinho mais uma vez. Não é essa a razão?
- Acredite no que quiser – respondi, não demonstrando que ele havia acertado. Se contasse a Elia sobre o sangue animal ela tentaria, ainda mais agora com Claudio Salvatore envenenando-a contra mim. Se ele soubesse desse meio poderia convencê-la com mais facilidade e a levaria embora. Portanto os treze anos que passei ao lado dela, criando-a a minha imagem teriam sido em vão.
Quando olhei novamente para Amun me surpreendi por ele estar sorrindo.
- Depois de todos esses anos, finalmente descobri o seu ponto fraco.
