Draco não havia percebido que estava congelado na porta da sala até sentir Harry colocar a mão no seu ombro e dar uma leve apertada, encorajando-o.

– Vai dar tudo certo. – disse Potter, indo ao encontro dos demais aurores que já estavam esperando.

Draco estava nervoso e suas unhas, mesmo curtas, deixaram marcadas na palma da sua mão. Droga, estava nervoso a ponto de ter deixado transparecer para Potter. Inspirou profundamente mais uma vez, voltando a sua postura quase aristocrática, antes de seguir pela mesma porta que Harry.

– Alguma última pergunta? – disse Draco, encerrando o curso. – Amanhã falaremos de poções e apresentaremos o novo kit de primeiros socorros dos aurores.

Malfoy não conseguiu conter um pequeno sorriso, satisfeito, enquanto arrumava suas coisas; tudo havia dado certo. Ele esperava resistência por parte dos aurores por tê-lo como instrutor mas, se eles não gostaram, não fizeram nenhum comentário, pelo contrário, os haviam participado bastante, e de bom grado, do curso.

– Foi um ótimo primeiro dia! – Harry se aproximou com um sorriso no rosto.

Draco não pode deixar de reparar em como os olhos de Harry estavam brilhantes com a empolgação, deixando o verde ainda mais chamativo. Desviou o olhar de volta para as suas coisas, a fim de espantar o pensamento. Antes que pudesse responder, Weasley, que estava logo atrás do moreno, se aproximou.

– Foi... surpreendente, Doninha. – disse Ron, parecendo um pouco contrariado – Harry, vamos no The Little Anchor?

– Claro! – respondeu Harry e, se virando novamente para o loiro, acrescentou – Quer ir? É um pub trouxa aqui perto, é simples, mas a comida é muito boa.

– Vou para casa mesmo. – disse Draco pegando o último pedaço de pergaminho que estava em cima da mesa – Até amanhã.

Draco chegou em casa e seguiu para o banheiro a fim de tomar um banho para relaxar. Quando saiu, ainda com a toalha enrolada na cintura e o cabelo molhado, se jogou de costas na cama; havia ficado apreensivo com o curso e quase não dormira de domingo para segunda.

Estava quase pegando no sono quando sua barriga protestou, lembrando-o que não comia nada desde o café da manhã. Vestiu o pijama e seguiu em direção à cozinha, torcendo para ainda ter alguma coisa do final de semana na geladeira. Não tinha. Ele instantaneamente se lembrou de Harry falado da comida do pub, fazendo sua barriga roncar novamente.

Draco definitivamente não estava disposto a cozinhar e pedir comida iria demorar demais, então se limitou a pegar uma das únicas coisas que tinha na geladeira, amoras, que também haviam sido seu café da manhã, e foi se deitar, bem antes do horário habitual.

No dia seguinte, Draco havia combinado de encontrar Pansy no laboratório do St. Mungus para seguirem juntos para o Ministério.

– Draco! – exclamou Pansy assim que o loiro bateu na sua porta

– Olá Pansy. Vamos?

– Preciso de dois minutinhos para tirar o jaleco e pegar minhas coisas.

Pansy pegou a sua bolsa e seguiu em direção ao banheiro enquanto começou a observar distraidamente os títulos dos livros nas prateleiras. A sala de Parkinson era muito elegante, possuía uma grande mesa de madeira escura em um dos cantos com uma imponente cadeira de escritório. Fora a mesa, todos os demais elementos da sala eram claros, deixando o ambiente leve; as paredes brancas e as cadeiras em tom creme destacavam as cores de diversos livros e poções que pareciam flutuar sobre estantes de vidros.

Draco se sentia tão à vontade naquela sala quanto na sua própria. Apenas dois meses após ele começar a trabalhar no St. Mungus, Pansy havia conseguido uma sala só para ela, assim, Draco, que só foi obter a própria sala quase 1 ano depois, sempre que tinha um tempo livre, ia para a área do laboratório.

Draco estava segurando um pequeno peso de papel de cristal na mão quando Pansy retornou.

– Tinha me esquecido disso. – disse o loiro com um sorriso ladino, mostrando o objeto – Vejo que você consertou.

– Merlin, quando deixamos de ser as pessoas que quebraram isso e nos tornamos adulto? – perguntou Pansy com uma leve risada.

Os dois se perderam por um instante na lembrança daquele dia, há cerca de 4 anos. Draco havia passado a semana toda com um caso particularmente complicado e, quinta-feira, no final do dia, seu paciente havia recebido alta então, assim que o expediente acabou, o loiro foi compartilhar a notícia com a amiga. Com o alívio depois de uma semana de tensão, não demorou nem meio copo de whisky de fogo para eles estarem trancando a porta e lançando feitiços de privacidade enquanto se agarravam. Em um dado momento, Pansy estava sobre a sua mesa e, com um movimento mais brusco de Draco, o peso de papel caiu no chão. Curiosamente, eles apenas perceberam o pequeno acidente quando Draco foi pegar sua camisa e dela caíram diversos cacos de vidro.

Os dois (e Blaise) tinham uma grande variedade de histórias daquele tipo mas Draco concordava com Pansy, aquilo parecia ter sido quase há uma vida inteira de distância.

– Vamos? – disse Pansy, trazendo Draco de volta ao presente.

O segundo dia do curso foi ainda melhor do que o primeiro e Draco, Pansy e Harry foram muito elogiados pelo novo kit de primeiros socorros. Depois que o curso acabou, Pansy ficou para conversar com alguns aurores e Draco seguiu para casa, afirmando que teria coisas para resolver.

Não vá ao mercado quando estiver com fome, essa era a lição que Draco havia aprendido ao chegar carregando 12 sacolas em casa. Guardou todas as coisas no seu devido lugar e pegou a torta de frango que havia comprado na parte da padaria para o jantar. Propositalmente ele havia comprado uma torta maior do que o necessário, assim não precisaria se preocupar com o jantar pelos próximos dois dias.

– Vamos sair para comer alguma coisa, quer ir? – perguntou Harry, quando o terceiro dia do curso chegou ao fim.

– Vou jantar em casa. – respondeu Draco saindo da sala, seguido de Potter e Weasley.

– Malfoy, está só fugindo. – provocou Ron, revirando os olhos – Até Pansy foi ontem, Doninha!

– Pansy? – perguntou Draco, surpreso. Pansy era muito extrovertida, mas ele não esperava que ela fosse socializar com os aurores.

– Ela é divertida. – disse Ron, dando de ombros. – Josh ficou particularmente interessado. – acrescentou, rindo, quando passaram por um dos aurores que estavam assistindo o curso, deixando-o tão vermelho quanto os cabelos de Ron.

Quinta, depois de mais um dia bem sucedido no curso e mais um convite recusado, Draco estava sentado na mesa da cozinha, comendo o último pedaço da sua torta de frango. Sexta seria o último dia e ele finalmente poderia respirar aliviado e ter uma noite de sono decente.

Durante a preparação do curso, Draco e Harry decidiram que sexta seria um dia mais prático, com dinâmicas para os aurores poderem testar alguns dos conhecimentos adquiridos. Assim, quando Draco agradeceu e anunciou que o curso havia acabado, os aurores estavam mais agitados do que o normal.

– Senhor Malfoy. – cumprimentou um homem alto e corpulento ao se aproximar.

Draco já havia notado a presença desse homem em alguns dos outros dias do curso. Ele sempre se sentava no fundo da sala, não participava e também não conversava com os demais aurores, apenas tomava notas de tempos em tempos.

– Boa noite, senhor...? – disse Draco, não se recordando de terem sido apresentado.

– Daniel Allen, sou o chefe dos aurores. – respondeu o homem, esticando a mão.

– Sim, senhor Allen. – disse Draco apertando a mão de forma educada que lhe fora ofertada – Potter havia me falado sobre o senhor, não sabia que iria assistir o curso.

– Aproveitei alguns dias que consegui sair mais cedo para participar. Gostaria de agradecê-lo e parabenizá-lo pelo curso.

– Obrigado, senhor. Mas o crédito não é só meu, a senhorita Parkinson e o senhor Potter foram de extrema importância.

– Claro, claro. – disse o sr Allen, não prestando muita atenção e já se dirigindo para a porta da sala – Espero que possamos ter mais parcerias produtivas no futuro.

– Foi um prazer senhor Allen.

Draco estava contente com o resultado do curso, mas não pretendia se envolver em um projeto como aquele em nenhum futuro próximo, era mais trabalho e estresse do que precisava. Ele estava arrumando as suas coisas e recebendo cumprimentos dos aurores que passavam por ele para sair da sala quando ouviu uma voz conhecida o chamou.

– Draco!

– Pansy? – cumprimentou Draco, abraçando a amiga – O que está fazendo aqui?

– O pessoal combinou de ir no The Little Anchor para comemorar o final do curso e me convidaram!

– O pessoal se chama Josh? – perguntou Draco com um olhar sugestivo.

– Cala a boca Malfoy! – exclamou Pansy dando um soquinho de brincadeira no amigo. – E não, não foi ele que me convidou. Os aurores estavam conversando sobre isso na terça quando eu saí com eles e o Potter me chamou.

Os dois ainda estavam rindo e conversando quando Harry se aproximou.

– Olá Pansy. – cumprimentou com um sorriso amigável.

– Oi Harry! – retribuiu Pansy.

Draco levantou uma sobrancelha, surpreso com a cena. Desde quando eles se tratavam pelo primeiro nome?

– Vamos? – disse Harry indicando o caminho da porta.

Pansy caminhava na frente, sendo seguida pelos dois homens. Quando chegaram na porta do Ministério, Draco estava se preparando para se despedir mas, antes que conseguisse falar a primeira palavra, Pansy o interrompeu.

– Nem pense, você também vai!

– Eu nem falei nada! – Draco se defendeu.

– Então você não ia falar que não vai sair com a gente? – perguntou Pansy em tom desafiador.

– Eu... – começou Draco, sem saber como prosseguir, uma vez que era exatamente aquilo que ele iria falar.

– Você não vai? – perguntou Harry, entendendo com alguns segundos de atraso a discussão dos dois.

Draco apenas negou com a cabeça, já tinha dado desculpas a semana toda e sabia que Pansy não seria tão fácil de convencer quanto Potter.

– Ele vai sim. – disse Pansy, pegando Draco pelo braço e começando a puxá-lo.

– Pansy, eu...

– Desiste. – Pansy o interrompeu.

Draco apenas suspirou e se deixou ser arrastado, discordar de Pansy e entrar em uma discussão seria cansativo e não levaria a lugar nenhum.

Quando entraram no bar, Harry os guiou para uma mesa no canto oposto à porta, onde Weasley e Granger já estavam sentados.

– Demoraram! – exclamou Ron enquanto eles sentavam.

– Tivemos que convencer esse daqui. – disse Pansy, apontando para Draco – Olá Granger.

– Mione! – exclamou Harry animado – Não sabia que você viria hoje!

– Olá Harry. – cumprimentou Hermione com um sorriso carinhoso – Malfoy, Parkinson. Eu consegui sair mais cedo hoje e como Ron já tinha me falado da comemoração de vocês, decidi me juntar.

– Boa noite. O que vão querer hoje? – perguntou a garçonete se aproximando.

– Gostaria de uma cerveja, por favor. – disse Harry.

– Mais duas. – acrescentou Hermione.

– E uma porção de batata. – corrigiu Ron.

– Uma cerveja para mim também. – disse Draco.

– Serão 5 cervejas e duas porções de batata então. – concluiu Pansy, recebendo um olhar agradecido da garçonete que havia começado a se perder nas contas.

– Como foi o curso? – perguntou Hermione, quando a atendente se afastou.

– Foi tranquilo. – respondeu Pansy.

– Foi ótimo! – corrigiu Harry – Todos elogiaram muito o conteúdo, as aulas e vocês!

– Acredito que deu tudo certo no final. – disse Draco, um pouco sem jeito pelo elogio.

Os cinco continuaram conversando em um clima amigável e comendo as batatas, Harry tinha razão, elas eram excepcionalmente boas. Draco e Pansy falaram um pouco mais sobre os seus respectivos trabalhos no St. Mungus. Hermione contou que também trabalhava no ministério, mas não como auror como Ron e Harry, ela também perguntou sobre Blaise, pois Harry havia contado que os três continuavam amigos, e eles explicaram que no momento ele estava na Hungria organizando um desfile da sua última coleção de sobretudos.

Algumas cervejas demais depois, a conversa fluía quase como se eles fossem velhos amigos.

– Quem diria que sonserinos e grifinórios estariam bebendo juntos, hein?! – comentou Ron, depois de uma piada particularmente ruim da qual apenas Pansy e Harry riram enquanto Hermione e Draco reviraram os olhos.

– Malfoy e Potter estão indo em encontros, isso daqui – disse Pansy indicando a mesa – não é nada!

– Encontros? No plural? – perguntou Ron, olhando magoado para Harry, acusando-o silenciosamente de estar escondendo as coisas dele novamente.

– Não tivemos outros encontros. – Harry se apressou em tranquilizar o amigo.

– Vocês se encontraram TODOS os dias da semana passada! – exclamou Pansy.

– Estávamos discutindo o curso. – argumentou Harry.

– E agora que o curso acabou vocês podem então finalmente ir em um encontro de verdade. – acrescentou Hermione. Assim como Pansy tinha ouvido sobre os encontros-não-encontros do ponto de vista de Draco, ela tinha ouvido do ponto de vista de Harry.

Harry imediatamente corou e parecia ter descoberto que a mesa era uma incrível obra de arte, enquanto Draco apenas continuou com uma máscara impossível de ler, e, calmamente, tomou mais um gole da sua cerveja. Todos da mesa ficaram em silêncio, esperando algum dos dois se pronunciar, até que Ron perdeu a paciência e resolveu perguntar.

– Então? Vocês vão em mais um encontro?

– Vocês dois são impossíveis! – exclamou Harry fuzilando o amigo com o olhar, estava com mais vergonha ainda. – E estão bêbados. É só igno...

– Amanhã às 19h? – perguntou Malfoy, interrompendo o moreno.

– O que? – disse Harry, com os olhos um pouco arregalados de surpresa, ele não era o único.

– Você quer sair amanhã às 19h, Potter? – Draco repetiu, lentamente.

– Eu… Ok. – respondeu Harry, bagunçando o cabelo, sem graça com o olhar de todos na mesa sobre eles.

Draco acenou com a cabeça e deu mais um gole da sua cerveja, ignorando Ron com o queixo caído, Hermione com um sorriso satisfeita, e Pansy com um olhar "safadinho".

– Então Potter, não sabia que era gay! – exclamou Pansy.

– Sutil você hein?! – disse Ron, fazendo todos rirem.

– Ué, curiosidade. – disse Pansy dando de ombros – Pensei que ele namorava a sua irmã.

– Namorava, mas terminamos à alguns anos já, somos bons amigos agora. – respondeu Harry.

– E você Malfoy, pensei que pegava a Pansy aqui mas pelo visto estava de olho no outro integrante do trio né?! – disse Ron.

– Sutil você hein?! – disseram Pansy e Hermione ao mesmo tempo, fazendo todos darem novas gargalhadas.

– Já tive minha cota dos dois. – respondeu Malfoy, dando de ombros.

Os grifinórios eram uma variação de expressões de surpresa. Ronald estava com os olhos arregalados e quase morreu engasgado com a própria cerveja, Harry havia levantado tanto as sobrancelhas que ela estavam escondidas embaixo do seu cabelo e Hermione, a mais discreta, tinha apenas lançado um olhar surpreso na direção dos sonserinos mas no momento já se ocupava em tentar segurar o riso da reação do ruivo ao seu lado.

– Essa é a sua versão da história né?! – disse Pansy, não vendo, ou simplesmente ignorando as expressões de espanto.

Draco revirou os olhos e deu de ombros, eles sempre chegam nesse mesmo impasse mas era sempre divertido ver Pansy rebater. Além disso, estava concentrado demais em tentar não rir dos demais membros da mesa.

Depois de alguns segundos, Harry pareceu sair do seu transe de surpresa, coçou a garganta, e se dirigiu à Draco com a primeira coisa que lhe veio à cabeça:

– Vi Allen conversando com você depois do curso. O que ele queria?

– Ele agradeceu pelo curso. – respondeu Draco.

Depois da súbita mudança de assunto de Potter, o assunto voltou a girar em torno de assuntos leves, sem surpresas. Alguns minutos depois, Ron foi buscar mais cervejas e voltou com os três colegas aurores que também ainda estavam no bar, incluindo Josh.

Todos conversavam alegremente, mas não demorou para Pansy e Josh se despedirem e saírem juntos. Como se não fosse óbvio que não iria cada um para sua própria casa, Draco ainda teve que aguentar uma piscadela de Pansy, para a qual ele revirou os olhos mas levantou a cerveja, em um brinde com o ar que dizia "divirta-se" para a amiga.

Depois de cerca de meia hora, Draco já estava começando a sentir os olhos pesados; aquela havia sido uma longa semana. Passou no caixa para pagar sua parte da conta, fazendo um agradecimento mental a si mesmo por ter levado a carteira com dinheiro trouxa, e voltou para a mesa para se despedir.

– Foi um prazer conhecê-los. – disse, se dirigindo aos dois aurores que haviam se juntado a eles no final da noite, recebendo acenos de cabeça como resposta. – Weasley, Granger, Potter.

– Até mais, Malfoy. – despediu-se Hermione.

– Tchau. – disse Ron.

– Até amanhã, Draco. – disse Harry.

Harry demorou um segundo para perceber o que tinha falado e corou, fazendo Draco sair do restaurante com um sorriso divertido de lado nos lábios.