18 de abril de 1912

Serguei nunca fora um homem que facilmente se deixava vencer. Marina esqueceu que para permanecer junto ao oficial de quinta categoria em solo americano precisaria de documentos pessoais, caso contrário, não iria conseguir permanecer e muito menos circular pela cidade, e Lowe precisaria depor no comitê investigativo. Serguei havia sido muito mais esperto que o casalzinho com seu amor platônico, guardou os documentos de todos os envolvidos com ele próprio, Marina iria precisar falar com ele, era até mesmo um forma de manter a jovem presa a ele, nem um ser humano iria viver sem documentos e os jovenzinhos platônicos esqueceram desse pequeno detalhe. O russo se aproveitava desses pequenos e bobos descuidos.

Enquanto os próprios passageiros do Carpathia desciam lentamente, os sobreviventes do Titanic foram obrigados a esperar. Depois de alguns dias experimentando viver a base do improviso e de seus próprios pensamentos desconcentrados, cada sobrevivente tirava seus ensinamentos sobre o naufrágio, ao mesmo tempo pensavam em como ia ser sua vida posteriormente. Acompanhavam o desembarque com ansiedade e temor, outros choravam compulsivamente, mas todos olhavam para Ismay como quem olhava seu inimigo mais cruel. A ganância daquele homem por ter custado vidas inocentes. Lowe, como oficial, foi muito parabenizado e homenageado pela sua atitude heroica, quem fora resgatado por ele nutria uma gratidão explícita, mas o oficial sempre dizia que cada um dos seus colegas do naufrago foram tão heróis quanto ele, inclusive os que partiram. Estava encostado na grade com os braços cruzados, Marina estava ao seu lado com o olhar voltado para o mar e Isabellinha brincava no chão despreocupadamente, ela estava menos triste do que nos últimos dois dias.

- Nomes, por favor? - Perguntou Harold Bride, o telegrafista sobrevivente, fingindo não conhecer o oficial.

- Ora, Bride, já esqueceu quem eu sou? - Lowe o encarou, quase rindo. - Harold Godfrey Lowe. Esta é minha esposa Marina Claire Lowe e esta é Isabella Caroline Potter, minha cunhada.

- Es... es... esposa? - Indagou o jovem. - Mas o senhor embarcou solteiro!

- Embarquei, senhor Bride, apenas embarquei. Anote o que eu disse, obrigado.

- Se o senhor diz... tudo bem. - Anotou. - Com licença.

Marina saiu da grade do navio segurando a gargalhada, mas arqueou a sobrancelha ao lembrar dos documentos.

- Lowe. - Ela se aproximou, sussurrando. - E os meus documentos? Eles devem estar com o...

O oficial não esperou a esposa terminar a frase para revirar os olhos.

- Esquecemos desse pequenino e importante detalhe. - Ele estava exausto. - Agora temos que dar um jeito nisso. Sem seus documentos não vais poder ficar comigo. Aquele imbecil pensou até nisso! Deve ser medo de ir para a prisão!

Isabellinha não tinha medo - não ainda. - do russo. Ao ouvir a conversa, já tinha feito um plano que em sua cabeça poderia ser importante.

- Eu tenho uma ideia. - Falou, antes de começar a tossir. - Eu sou pequeninha, posso me esconder em qualquer lugar sem ninguém me ver, posso pegar os documentos! Mas vocês têm que se esconder em alguma cabine, não duvido nada ele procurar por vocês antes de desembarcar.

- Isso é perigoso, Bellinha, não dá! - Lowe se preocupou.

- Não me chama de Bella ou Bellinha, eu odeio esse apelido. Ah, e não precisam se preocupar comigo, vai dar certo, mas vocês têm que se esconder.

Marina hesitou um pouco, mas apesar de tudo, sabia que Isabella era esperta o suficiente para escapar das garras de Serguei.

705 sobreviventes começaram a desembarcar no píer da companhia Cunard Line em Nova York diante do olhar de três mil curiosos, familiares, maridos, esposas e filhos. A descida era feita ao redor de gritos que ditavam nomes desconhecidos e outros que chamavam por alguém que facilmente reconhecia a voz desesperada. Todos os que estavam esperando por um familiar seu desejava que o grito chegasse aos ouvidos de seu ente querido e ele fosse ao seu encontro como uma flecha ao encontro do alvo. Serguei não precisava que ninguém esperasse por ele, desembarcou como um rei, chegou até mesmo a empurrar alguém que gritou em seu ouvido, ele comprou alguns oficiais e fez com que a queixa contra sua pessoa fosse retirada, dizendo que não havia provas que pudessem acusa-lo de um crime. Essa liberdade fez com que ele voltasse a ameaçar Riley, e ela, debilitada como estava, não pode fazer nada a não ser voltar a ser uma simples marionete nas mãos de um homem que não tinha um pingo de senso.

- O senhor vai em seu carro? - Perguntou o russo ao senhor Relish.

- Oh, sim. - Respondeu o homem. - Harry, disse a senhora Relish que quero ser recebido com um banquete?

- Sim, senhor. - O empregado respondeu, abrindo a porta do carro e ajudando-o a subir.

Serguei encarou a cena com desdém. Edward tinha uma esposa muito mais nova do que ele, fora um casamento arranjado que lhe rendeu um herdeiro. A senhora Relish era uma mulher de grande reputação, dizem que era bela e jovial, além de muito educada, nunca fora de rebeldia, aceitando seu casamento sem causar mais problemas. Era tudo o que Serguei queria, uma esposa submissa que lhe desse um filho homem.

- Terei tudo o que Edward tem, nem que seja na marra. - Serguei encarou a senhora Potter. - Marina terá que vir até mim caso queira os documentos. - Ele mostrou o terno.

- Mas não há nada aí. - Riley olhou para os bolos vazios. - Tem certeza que pegou?

- Sim, eu peguei. - Ele encarou seu próprio terno. - Inferno!

Ele voltou para o Carpathia com furor. O oficial que estava ajudando desembarque foi orientado a não permitir que mais ninguém entrasse no navio, apenas em caso urgente. Todas as cabines estavam fechadas para evitar saques.

- Eu preciso encontrar minha noiva! - Ameaçou o oficial. - Me deixe passar ou eu acabo com a sua raça!

- Qual o... o... o...nome dela? - Indagou o moço, temendo ser morto.

- Marina. Marina Claire Potter. - Falou, soltando o oficial que foi olhar os nomes na prancheta.

- Não tem nenhuma Marina Claire Potter. Apenas Marina Claire... Lowe...

- O QUE? - Ele vociferou. - COMO ASSIM LOWE? O SENHOR SÓ PODE TER COMETIDO UM ENGANO!

- É o único nome que bate com que o senhor está procurando. - O homem segurou a gargalhada. - Acho que o senhor foi trocado por outro e ganhou um par de chifres na sua cabeça.

- REPITA O QUE DISSE, SEU PALERMA! - Arregalou os olhos e apertou o pescoço do homem. - MARINA NÃO TEM LOWE NO NOME! ELA VAI SER MINHA ESPOSA! MINHA ESPOSA! ENTENDEU, SEU MARINHEIRO DE QUINTA? AGORA ME DEIXE PASSAR ANTES QUE EU... EU...

- O navio será fechado agora. - Tentou se safar. - Essa moça já deve ter desembarcado, não há mais ninguém aqui.

- MAS EU NÃO A VI DESCER!

- Problema seu.

Serguei apertou o pescoço do rapaz, mas logo o soltou, não queria fazer sua primeira vitima daquela maneira, a morte precisava ser mais dolorosa e com uma pessoa específica. O rapaz passava a mão no pescoço, enquanto ele bufava pela traição que já sabia, mas não imaginava que seria pública. Ele seria feito de chacota. Isabella estava escondida, ficou sentida pelo oficial quase morto, mas riu do homem que agora tinha presentes na cabeça. A garota caminhou devagar pelo corredor das cabines, onde Marina a aguardava apreensiva, nos braços de seu oficial. A primogênita ainda tinha seus temores sobre o russo, ele não tinha limites e conseguia se safar sempre. Isabella bateu na porta. Lowe se levantou e pediu que Marina se escondesse no banheiro, caso fosse alguém indesejado.

- Ah, oi, Isabellinha. - Lowe sorriu. - Ficamos preocupados com vossa senhoria.

- Aqui. - Entregou ao oficial, entrando no quarto. - Ele se distraiu em um momento antes de desembarcar, acabou deixando o paletó sozinho e eu consegui pegar.

- Serguei é um psicopata burro. - Lowe riu.

- E agora um psicopata burro e traído. - Isabella sentou na cama. - Marina, pode sair, sou eu.

Marina saiu do banheiro.

- Conseguiu? - Perguntou a primogênita.

- Sim. Mas nós perdemos a Molly Brown de vista... e agora?

- Vamos desembarcar. Procurarei um hotel. - O oficial tirou o uniforme. - Se disfarcem de alguma maneira, por favor.

Os três desembarcaram do navio em um bom momento, não havia ninguém que pudesse ser potencialmente perigoso. O oficial conseguiu uma vaga em um hotel com os outros oficiais sobreviventes, Boxhall, Lightoller e Pitman. Pode encontra-los no salão do hotel, particularmente tensos, eles iriam ser interrogados e precisavam de uma resposta convicta, poderia cair sobre as costas deles um fardo muito grande.

- Que família bonita, inclusive me deu saudade da minha. - Lightoller riu. - Seu marido é um herói, senhora Lowe, devo parabeniza-lo. Sou Lightoller, o segundo oficial.

- Prazer em conhece-lo. - Marina estendeu a mão. - O senhor deve ser o Boxhall. - Olhou para um senhor de rosto bravo. - E o senhor Hebert Pitman. - Olhou para um de bigode acima da boca.

- Corretíssimo. E a senhora a famosa Marina Potter, digo, Marina Lowe, prazer é todo meu em conhece-la. - Sorriu Pitman.

- Já pensou em como vai relatar tudo o que aconteceu, Lowe? - Indagou Boxhall, enquanto a família se sentava. - Essa investigação vai render grandes confusões, tenho até um certo medo.

- Ismay vai querer escapar. A pressão na White Star vai ser gigantesca. - Se intrometeu Marina. - Foi uma tragédia cruel.

- Todos os sobreviventes vão ao comitê do naufrágio. - Lightoller acendeu um cigarro. - Espero que abram o jogo e não sejam desgraçados de esconder a verdade.

Marina tocou no braço de Lowe.

- Lowe, você tem algum dinheiro? Isabella e eu precisamos de vestimentas novas, não sabemos quanto tempo vamos ficar aqui.

- Ainda bem que eu nasci homem. - Riu Boxhall. - É simplesmente colocar qualquer coisa e sair por aí.

- Tenho. - Lowe tirou dinheiro do bolso. - Acha que dá?

- Bom, acho que sim. - Encarou os dólares dados aos oficiais sobreviventes para eles se manterem. - Vem, Isabella.

- Cuidado. - Falou Lowe, enquanto elas saiam de mãos dadas.

- Essa é a parte ruim dos casamentos, meu caro, elas sugam seu dinheiro. - Lightoller brincou, enquanto o quinto oficial ria.

As duas saíram em busca de alguma loja. Com o passar do tempo, aquelas roupas iriam se desgastar, e nada era certo, precisavam estar equipadas para qualquer coisa - sem contar que precisavam de chapéus para se esconderem. Cada uma comprou dois vestidos, dois chapéus e dois sapatos para usarem de maneira revezada. Marina estava tendo que aprender a despertar seu lado materno, e a irmã mais nova seria uma ótima pessoa para treinar esse lado. Isabella não era uma garota de frescura, gostava de vestidos simples, para ela estava suficiente.

- Acho que é suficiente. - Marina estendeu um vestido.

- Sim. - A garota respondeu. - Mas eu posso levar esse chapéu? Não compraram para mim quando embarcamos no Titanic, confesso que fiquei sentida.

- Pode. Vai combinar com suas trancinhas. - A primogênita pegou o belo chapéu e juntou as roupas que estavam sobre o balcão, ainda havia alguns laços para cabelo. - Aqui o dinheiro.

Enquanto Marina negociava com o vendedor, Isabella percebeu que havia um homem estranho que as encarava enquanto fumava um cigarro. A mais velha percebeu que algo estava errado.

- O que foi? - Indagou Marina.

- Tem um homem estranho ali, deve ser coisa de Serguei.

O homem não pareceu se intimidar, continuou ali parado, observando as duas caminharem rapidamente.