COBRANÇAS
Dois dias atrás
HITSUGAYA POV
A noite caía alta quando desci na minha parada na estação de metrô. Fiquei vagando por aí, amortecido com a cabeça cheia. Não imaginava que havia demorado tanto. Sem celular não tive como avisar meu padrinho e assim que entrei em casa fui recebido com um grito.
- Toushirou, seu irresponsável!
Apenas vi pela visão periférica uma sombra voar até mim e me esquivei, inclinando o tronco para o lado ao agarrar o tornozelo dessa baixinha. Hiyori arquejou incrédula e a soltei. Ela apenas caiu de gatinhas sem o menor problema. Se levantando me apontou um dedo com toda autoridade que não tinha.
- Ei! Que horas são essas de chegar?! Todo mundo que veio da viagem de treino já foi pra casa à essa altura. Por que não me atendeu quando te liguei, seu hage?
- Yurusenee, você é muito barulhenta.
Me afastei dela a ignorando ao entrar direito na sala. Atrás de mim Hiyori me seguiu, seu humor péssimo como sempre quando se incomodava com minha vida.
- Ei! Estou falando com você! Fiquei te procurando pra voltarmos pra casa e onde diabos estava?! Aquele técnico demônio só faltou me arrancar o fígado quando fui te procurar no campo secundário e não te achei! Fala logo por que...
- Hiyori, já chega.
A olhei irritado sobre o ombro, esgotado de toda essa cobrança e ela percebeu. Seu rosto que havia corado sempre que gritava empalideceu em segundos. Os olhos dela aumentaram de choque e boquiaberta não disse mais nada. Apenas me voltei para a escada subindo até o segundo andar. Eu não queria falar com ninguém, discutir e muito menos ouvir perguntas agora. Estava cheio das minhas próprias me perturbando o bastante.
Seguindo direto até a última porta desse corredor, abri a trancando atrás de mim. Joguei a mala e a mochila de treino em um canto qualquer do quarto e simplesmente caminhei até a cama me deixando cair de costas. O balançar do colchão afundando com meu peso não me incomodou, apenas cobri os olhos com um braço e suspirei tremulo.
- Kurosaki, tem alguém te procurando.
Parando de deslocar algumas caixas, girei no lugar junto dela que vasculhava outras do outro lado desse depósito.
- Mas...
Ela me olhou indecisa e assenti para a porta.
- Pode ir. Qualquer coisa te chamo.
- Tá bom.
Batendo as mãos, se livrando da poeira ela saiu e continuei procurando o quadro tático. Cada vez tinha mais certeza que já pegaram. Zaraki e suas ordens de última hora, já era tempo do clube possuir um próprio. Talvez Arisawa-sensei resolvesse isso. Desistindo depois de procurar mais um pouco ajeitei as caixas no depósito, explicaria pra ele quando voltássemos. Falando nisso, Kurosaki estava demorando. Saí do depósito indo procura-la. Tínhamos que voltar para a reunião. Demorei um pouco por causa dos alunos arrumando e trazendo equipamentos para o ginásio. Nem todos os tiveram à sua disposição nos locais de treino.
Já chegava à porta lateral de saída quando a encontrei. De costas para mim ela conversava com uma garota ruiva. Havia uma certa semelhança entre elas e imaginei que fosse sua irmã.
- Kuro...
- Mas eu não posso ir agora.
Sustive o fôlego me interrompendo, pareciam estar em discussão. A garota ruiva, sua irmã, franzia o rosto agoniada pela resposta. Acho que é um assunto de família e preferi ficar quieto. Kurosaki suspirava nervosa e entendi bem a razão. Nosso treinador não é nada compreensível.
- Olha, Yuzu. Eu preciso ficar mais um pouco. Não posso fugir dessa reunião.
- Por que não? Papai disse para irmos embora, Karin-chan.
O que..?
Nesse instante, não pude ouvir mais nada. Os sons ao redor se abafaram enquanto não desviava o olhar das costas dela. Mesmo se quisesse não conseguiria. Meu corpo não me obedecia mais, dentro do peito meu coração batia tão forte, acelerado... Que duvidei que ainda estivesse pálido. Um calor me percorria por inteiro, torturante ao mesmo tempo aconchegante. Tremulo e desnorteado o único pensamento racional que me vinha era: Eu sabia.
Enquanto analisava a figura dela reconhecia traços que cego não enxergava antes. A pele pálida com o tom róseo próprio em seu rosto, as lentes dos ósculos disfarçando seus olhos delineados e escuros. Eram igual ao matiz negro e brilhante de seus cabelos. Dei atenção a eles e lembrei quando acordei com o rosto enterrado naquelas mechas. Aquele cheiro nostálgico e tão bom... Arfando tentei respirar.
Por dentro meu peito se apertava com esse martelar cardíaco, mas não doía ainda que seja tão irregular agora... Era bem melhor que aquele vazio, junto com a frustração por perseguir um fantasma nas lembranças. Ela estava bem aqui. Esse ano, durante o primeiro trimestre inteiro, ela esteve perto de mim.
Entendia vagamente preso nessa reação que não estava com aquele medo de me enganar como senti ontem. Aquilo passou. À medida que assistia arquejante ela conversar com a outra garota, a poucos metros de distância... Fez com que aquela frustração dissipasse dentro de mim, substituindo aquele vazio por uma calma misturada a alivio.
Involuntariamente, lembrei de cada pequena coisa que aconteceu durante esses seis dias. Seu jeito reservado, os olhares surpresos, até tímidos e as nossas conversas. Ela realmente mudou. Era cética agora, tinha um conhecimento profundo em futebol e ficou ferina em relação a garotos. Mas por detrás de tudo isso, ainda era aquela garota que não se importava com aparência e sim com caráter. Não foi por outro motivo que me sentia tão bem perto dela.
Mas...
Isso significa outra coisa também. Por entre seus rubores ocasionais, a palidez sempre estava lá. Toda vez que mencionava minha desconfiança sobre nos conhecermos. O martelar dentro do meu peito aumentou, batendo mais forte com a onda de sentimentos me revirando. Estremecendo ao estreitar o olhar, estava tão concentrado nessa sensação me corroendo agora, que me espantei ao vê-la sumir pelo corredor.
O que?
Pisquei aturdido, procurando um vislumbre dela até encontrar na parede lateral. Observei arfante para as vidraças do ginásio, Karin se distanciando acompanhada daquela menina. Assim que sumiram do meu campo de visão, graças a outro ginásio perto deste, um desespero tomou conta de mim. Simplesmente isso. O fato de que estavam indo embora me atingiu em cheio. Girando no lugar, corri em direção à outra saída desse prédio esbarrando com um grupo de jogadores de basquete. Sequer me desculpei quando reclamaram. Na direção contrária íamos nos encontrar assim que saísse desse prédio. Precisava chegar à porta dos fundos, antes que fosse tarde demais. Dois garotos que traziam postes para redes de vôlei se afastaram espantados para o lado assim que irrompi pela porta.
Ja fora do predio interrompi a corrida, freando ao olhar envolta, procurando um moletom cinzento nesse mar de tantos dos clubes esportivos. Logo percebi que não estava mais aqui e corri em direção ao portão. Eu não posso ter ficado desnorteado tanto tempo, elas não podem ter corrido para a saída! Se... se eu não conseguisse a alcançar... Um sufoco obstruiu minha garganta com a ideia e me recusei, arquejando ao aumentar a velocidade.
Ao adentrar o pátio de entrada tive um vislumbre daquele moletom. Ele sumiu detrás do muro que ladeava o colégio para a rua. Uma esperança se reacendeu e consegui atravessar o pátio até os portões em segundos. Ela estava tão perto, a certeza disso diminuiu um pouco o caos que me revirava por dentro. Entrando na calçada, ignorei todos ao redor me virando para a esquerda, na direção que a vi e arquejei incrédulo. Derrapei ao parar de correr, avistando um carro sumindo ao cruzar a avenida. Ela já tinha ido embora.
Tão perto e tão distante.
Nunca essa frase fez tanto sentido pra mim como agora.
Por quê? Estreitando o olhar, encarei o teto procurando uma resposta que não me vinha. Três meses e nada de me dizer. Durante essa semana... Por todos esses dias ela sustentou essa mentira e me revoltava por dentro. Arquejando, tentei me acalmar, raciocinar com clareza enquanto tentava aceitar que ela me enganou e eu deixei. Essa raiva ardia por dentro de uma maneira, que se não me controlasse seria pior. Daqui a dois dias, quando voltarmos às aulas era bem provável que assustaria assim que abordasse. Precisava refrear, controlar esses sentimentos, mas sentia que está ao ponto de explodir.
Essa semana terminou do jeito mais imprevisível possível.
Por que ela fez isso comigo? Por quê? Por que ela mentiu daquele jeito?!
Essa ansiedade me sufocando era doce e amarga ao mesmo tempo. Doce porque de fato ela estava ali, frequentando o mesmo colégio que eu. Amarga por mentir esse tempo todo com a maior habilidade. Que droga... Aquela maluca egoísta me negou o que tanto eu procurava. Esse ano meio que já tinha desistido, não era possível que ainda mantivesse aquele sonho. Ela quis tanto entrar nesse colégio, eu lembro. Como me lembro... Seus olhos tinham um brilho de empolgação tão cintilante. Quis fazer parte disso. Compartilhar cada momento ao lado daquela garota estranha até chegarmos à época de agora. E assim, entender a razão por ela ser tão animada em querer estudar no colégio Karakura.
Mas ela desapareceu. Abrupto e sem qualquer aviso.
No fim das contas, mesmo no meio de tanto rancor e magoa, esse aperto no peito não me sufocava tão dolorosamente. A cada suspiro me aliviava e passei a recordar. Ela tinha o mesmo cheiro. Chocolate e misturado com outro, o dela própria. Acho que desde o dia que acordei abraçado nela já sabia da verdade. Só não queria acreditar que estava me enganando. Cogitar bem lá fundo era uma coisa, mas confirmar era bem diferente. Foi um choque tremendo.
E ainda... O que foi que aconteceu com sua perna? Karin não tinha problema algum quando criança. E as cicatrizes... Isso me dava mal estar. Droga, naquela trilha pra pousada ela parecia tão frágil chorando. Era óbvio que sofria por isso tanto física como emocionalmente e entendo. Agora sim, eu entendo. Ter seu sonho arrancado de você e não poder fazer nada, era tão frustrante que chega a doer.
Acho que isso define bem o que estou sentindo. Uma onda enorme de frustração. Pelas mentiras, pela falta de confiança e pelo nome falso que me disse. Por que essa determinação tão grande em me esconder quem era? No estado que estava qualquer um teria dito a verdade, mas ela conseguiu mentir. Essa louca... O fato de tê-la ajudado tantas vezes não contava? Salvei sua vida literalmente ontem e ela me negar daquele jeito... Não tem explicação. Seja qualquer que diga e vai me dizer, não tem explicação plausível.
No meio desse devaneio amargurado, lembrei do que disse à ela no meu quarto. Um calor tomou conta de mim, rendendo meu rosto e alojando dentro do meu peito. Inesperadamente, não era vergonha que sentia. Era bem diferente. Sem lembranças do que fiz com Hinamori, o que agradeço, lembrei de Karin quase nua na minha frente. Diferente do moletom era uma roupa minha que imaginava ela usando. A imagem me fez suspirar tremulo sem folego.
De maneira alguma via ela como uma simples amiga. Essa garota me afeta demais pra representar somente isso pra mim. Mas por enquanto, ela me deve sérias explicações e segunda-feira, na primeira oportunidade cobrarei dela.
HITSUGAYA POF
Agora
KARIN POV
- Por que não me disse a verdade?
Não consegui responder. Arfando recuei uns passos, assustada ao ver que continuava avançando. E seu olhar... Não tinha a menor frieza apesar de sua expressão séria. Queimava. Inquisidora sobre mim e não aguentei encará-lo. Baixei os olhos, sentindo falta de ar completamente desorientada.
- O..o.. que?
- Por que me escondeu quem era você?
O que eu faço?! Em pânico procurei uma rota de fuga, mas a única saída estava bem atrás de mim! Teria que dar às costas pra ele e não queria me sentir vulnerável assim.
- Eu não sei do que está falando.
Tateei as cegas a maçaneta atrás de mim. Discretamente para não ver, mas falhei um passo e Toushirou avançou ainda mais rapido até mim. Me espantei com isso e acabei me chocando com a porta num baque, quase derrubei o caderno. Antes que escapasse pelos lados, ele me prendeu entre seus braços. Achei que ia gritar. Afinal tinha bons motivos, mas continuou calado e sinceramente isso estava me agoniando.
De tão perto assim, vi que arfava e estremeci mais nervosa. Estava com muita raiva mesmo. Se debruçando em mim, faltei entrar dentro da porta de tão nervosa com esse gesto. Ele abaixou a cabeça bem ao lado da minha e pude ouvi com mais clareza seu fôlego. Banhava minha orelha numa bruma morna me arrepiando e sem querer corei. Tanto por isso como por seus cabelos roçando minha pele. Encabulada me espantei quando falou em meu ouvido.
- Pare com isso.
Que voz foi essa? O tom grave vibrou dentro de mim de um jeito que prendi o fôlego.
- I..isso?
- De mentir pra mim. Já estou ficando cheio.
Fechei os olhos, engolindo em seco. "Cheio?" Nada disso, ele perdeu qualquer paciência comigo. Essa calma era só um disfarce, tinha uma tempestade rugindo dentro dele. Eu sei. Por que mais me encurralaria desse jeito?!
- Ainda não me respondeu. Por que não me disse a verdade?
Me encolhi contra a porta. O que eu faço? Apertei o caderno, arquejando apavorada. Não era pra ser assim, não desse jeito. Eu nem sequer ensaiei o que diria pra ele quando dissesse a verdade. Não estou preparada ainda!
- Se não falar não te soltarei até que diga.
Arquejei, arregalando os olhos aflita.
- Não pode ta falando sério.
- Estou falando muito sério. Sabe disso.
Mordi o lábio, agoniada.
- Por que você quer saber?
Joguei a toalha. Já tinha me entregado de bandeja ainda pouco. Insistir na mentira seria burrice. Com minha pergunta, ele quase riu incrédulo se endireitando.
- Por que? Talvez porque mereço. Você mentiu tantas vezes, é justo que eu saiba o motivo.
- Talvez eu não queira te falar. Já pensou nisso?
Ergui o olhar nesse instante, criando um pouco de coragem. Lembrava das suas palavras cruéis naquele dia. Quando eu não estava por perto era aquilo que pensava de mim? Até hoje isso dói. Ah... Droga, meus olhos estão ardendo e segurei com todas as forças. Isso não, não posso chorar agora. Estreitando o olhar, Toushirou viu minha teimosia e estremeceu cedendo a contra gosto ao suspirar.
- Que seja. Então me responde: por que sumiu há cinco anos?
Um tremor involuntário me percorreu, me deixando mais encurralada. Fiquei calada e virei o rosto. Que droga, droga, droga! Minha garganta travava de angustia, enquanto minhas narinas ardiam também. Ainda bem que minha franja cobriu um pouco meus olhos. Já estavam praticamente transbordando de lágrimas. Toushirou sequer percebeu, focado em me encher de perguntas.
- Eu sei que teve um bom motivo pra, de repente, não ir mais à escola. Ninguém sabia de você. Os professores sequer comentavam do assunto! Você se mudou de cidade por acaso?
- Não.
Respondi fraca. Era assim ou começaria a chorar. Isso amainou sua raiva. Percebi pela atmosfera menos densa.
- Então o que foi? Por causa dos seus pais?
Meneei de leve a cabeça.
- Se não foi uma situação de família, então o que foi? Por que parou de frequentar a escola?
Apertei os lábios, segurando o caderno contra o peito. Toushirou respirava com um ar agoniado pelas minhas respostas vagas. Então sem conseguir me segurar mais funguei piscando e ao ouvir ele arquejou.
- Karin.
Continuei quieta. Por favor, não diga mais. Por favor.
- As cicatrizes de sua perna... Não me diga que naquela época, você sofreu...
- CALE A BOCA!
Ele se espantou com meu grito e o encarei angustiada. Seus olhos arregalaram ao me ver chorar e me odiei por isso. As lágrimas corriam soltas pelas minhas bochechas, além do meu nariz rosado a essa altura. Mas não aguentei, eu tinha que extravasar toda essa agonia que me sufocava por dentro.
- Você quer saber por que nunca te contei quem eu era?! Aqui o primeiro motivo: Você não se lembrava de mim!
Empurrei seus braços pra longe de mim, o pegando mais desprevenido.
- O que?! Mas eu...
Não deixei que continuasse.
- Dois: Eu confiava em você e o que fez? Disse para turma toda o quanto não suportava meu jeito! Que nunca chegaria a gostar de uma garota como eu! Que sequer eu era uma de verdade pra começo de conversa! Claro que jamais gostaria de mim! Era uma loucura!
Arfei cansada, ele sequer dizia uma palavra. O ar de choque em seu rosto me magoou ainda mais e derramei mais duas lágrimas, fungando patética.
- Sabe como me doeu te ouvir dizer as mesmas ofensas que todos diziam sobre mim pelas costas? Você era meu amigo, Toushirou!
Joguei o caderno na sua cara, mas pro meu desgosto ele pegou. Arquejava igual a mim e vi incrédula seu ar confuso. Como se não tivesse culpa! Idiota!
- Como sabe disso?
- Eu ouvi. Nem adianta negar porque foi você quem disse! Eu vi! E ainda todo mundo rindo como se eu fosse uma piada...
Se não o estivesse fitando, não teria visto o quanto se agitou por causa disso. Seus olhos brilhavam em ansiedade, determinado ao se aproximar.
- Não foi bem assim. Você não sabe o que aconteceu.
Levantei a sobrancelha. Eu não acredito que disse isso! Mesmo que me sentisse esgotada, uma força vinda dessa raiva reprimida não me deixava quieta.
- Então como foi? Porque pelo o que entendi achavam que tínhamos alguma coisa e você, horrorizado, negou cheio de nojo.
- Para com isso!
Antes que percebesse tinha me agarrado pelos braços, me puxando para si. Me choquei contra seu peito arfante igual a mim. Essa atitude me assustou, toda a adrenalina sumiu me deixando completamente nervosa. Ele tinha um aperto de aço nos meus braços e espantada notei que nem era sua força toda. Estava se controlando, seu corpo tremulo dizia claro isso.
- Você não sabe o que aconteceu.
- Sei o suficiente.
Tentei empurrá-lo, mas sequer consegui me afastar um centímetro. Isso o irritou, arfando me puxou mais para junto dele do que já estávamos. Tive que me arquear e senti com clareza seu coração martelando contra o meu. Isso me foi o que mais me espantou até agora. De olhos arregalados ergui ate os seus e meus joelhos amoleceram. Toushirou me dirigia um olhar tão escuro, cálido, ele parecia prestes a soltar todos os freios que mantinha sobre si. Saber disso me arrepiou inteira.
- Não, não sabe. Só ouviu uma parte.
- Me solta.
- Não. Você vai me ouvir. Já está mais do que hora de esclarecermos isso.
Suspirando profundamente suas mãos desceram pelos meus braços até os cotovelos, de um jeito tão envolvente que me causou uma indesejada onda de calor e prazer. Ele viu pela maneira que corei arfando e aturdida, senti seu coração acelerar mais ainda que respirasse mais calmo.
- Sentiu isso?
- Não.
Seu olhar estreitou descrente enquanto sorria arquejante.
- Mentirosa.
Como se fosse possível corei de vergonha. Queria que me soltasse, mas também que continuasse me segurando junto dele. Eram tão confusos esses desejos. Toushirou notou esse meu conflito e resolveu o problema. As mãos em meus braços me soltaram envolvendo minha cintura. A pegada dele, me trazendo de volta para junto do si me estremeceu inteira, rendendo esse calor. Ele também parecia ter essa febre, era envolvente e tão quente.
- Algum problema por aqui?
Pestanejamos de susto e tão logo ele me soltou se afastando uns passos. Empalideci virando o rosto para o lado assim que abriram a porta. Pela visão periférica percebi que era o zelador. Graças a Kami. Se fosse um dos rapazes teria morrido de vergonha.
- Não aconteceu nada.
Toushirou respondeu mais recomposto.
- Tem certeza? Escutei gritos.
Engoli em seco. Ah, que droga. Fingindo uma calma fui até a uma fileira dos armários e procurei limpar meu rosto.
- Deve ter sido impressão sua, Kando-san. Toushirou, por que você não vai pegando os equipamentos pro treino?
- Claro.
Apenas uns segundos depois e ouvir saírem fechando a porta. Nesse momento me permiti relaxar de toda essa tensão e caí sentada no piso de madeira. Arfando segurei a gola procurando respirar. Que raios aconteceu aqui? Essa reviravolta me tirava do eixo. Preciso me acalmar. Daqui a pouco, chegarão os outros e o treinador.
Respirando fundo, me levantei e catei meu caderno no banco. Toushirou deve ter posto sem que eu percebesse. Tenho de fingir que nada aconteceu, senão vão notar. E isso era a última coisa que preciso.
O treino da manhã ocorreu normalmente me surpreendendo. Zaraki estava de péssimo humor já que teve de substituir temporariamente três jogadores. E por falar neles, assistiam ao treino sentados no banco. Noitra, Rikuo e Digio estavam de uniforme escolar mesmo, analisando as jogadas que durante as simulações de jogos no gramado faziam. Ou assim, eu pensava.
Quando fui buscar as toalhas no vestiário, ao passar pelas grades de saída senti minhas costas queimarem e olhei para a fonte. Espantada vi que se tratava somente de um e justo daquele que mais me perturbava. Digio. Ele me encarava de soslaio, sentado desleixado no banco ao se encostar na tela esverdeada. Seu olhar era analítico, em espreita e não gostei nenhum pouco disso. Parecia tramar algo e engoli em seco saindo o mais rápido daqui.
Nesse breve encontro de olhares vi que não havia nenhum vinco no nariz afilado, infelizmente não o quebraram e apenas uns hematomas no queixo, cortes perto da têmpora e olhos. Era tão bom de briga assim? Isso me deixou nervosa. Achei que ficaria intimidado, mas apenas parecia normal. Normalmente quieto. Já disse que me deixou nervosa essa calma toda dele?
O que será que vai fazer? Espero que nada. Já estou cansada com seus trotes. Não tenho mais paciência pra isso. Já tinha ajeitado todas as toalhas num cesto quadrado de plástico e aproveitei também pra pegar a maleta de primeiros-socorros. Tinha me esquecido pelo aconteceu mais cedo. Procurei ignorar as lembranças e encaminhei de volta. Novamente aquele olhar queimando a pele e me arrepiei com um calafrio.
Ele não vai fazer nada. Não vai fazer.
Me repeti durante o resto do treino até quando formos para as aulas. Eu entrei primeiro na sala do clube, apanhando minha mochila do armário antes que os meninos entrassem pra se trocar. Ao sair, trombei com alguém e a pessoa me segurou pelo cotovelo. Antes mesmo de sussurrar no meu ouvido, já sabia quem era. Apenas seu toque e o perfume já me disseram.
- Ainda não terminamos, Karin.
Arquejei, corada e olhei para cima assim que me soltou. Toushirou me olhava também e vi a mesma determinação de mais cedo em seu olhar. Ele ainda quer respostas. Não desistiu e isso me deixava extremamente nervosa. Se afastando de mim, entrou na sala sem dizer mais nada.
KARIN POF
