Escarlate: roupas de segunda mão
Capítulo 9
Meia-Noite
A bruxa não costumava reparar muito nas pessoas. Lembrava que na época do colégio, demorou uma eternidade para notar que vários dos garotos que falavam com ela não queriam apenas sua amizade, mas algo mais. Assim como as meninas que diziam ser amigas muitas vezes não eram. Ginevra era sempre a última a saber, e aquilo continuou na vida adulta.
Então era irritante como Ginevra simplesmente sabia haver algo de estranho com Malfoy. Mais irritante ainda que o bruxo fingia estar tudo bem enquanto contava o dinheiro do caixa, sem ela nem mesmo pedir. E completamente enlouquecedor o maldito mal olha-la na cara desde o começo da manhã do primeiro dia que se viam depois do Natal.
Tinha quase certeza de que não era culpa de seu atraso, mas então, o que mais poderia tê-lo deixado com tamanho bico a não ser as duas horas que resolvera passar a mais na cama? Olhou-se mais uma vez no espelho e concluiu que era impossível ver qualquer traço de ressaca em seu rosto, fruto de uma noite de firewhisky com o irmão para afogar qualquer mágoa restante que não chorara na véspera do feriado.
Mesmo sem ressaca, seus olhos estavam com problemas em se manterem abertos, especialmente com todo o silêncio que havia naquela manhã. Deveria ter mantido a loja fechada até ano que vem.
Seria mais fácil esperar até o próximo ano para concluir que sim, estava reparando demais em Draco Malfoy.
"Quer dizer que Potter te trouxe de volta?" A frase foi dita quando o relógio marcava dez para meio dia, numa tom de voz que a bruxa ainda não havia ouvido sair daqueles lábios.
Ginevra não conseguia entender da onde havia vindo aquilo, e demorou muitos segundos para processar a informação. Por que aquele louco estava perguntando se Harry havia-
Ela estava reparando demais em Draco Malfoy, e definitivamente, chegar a conclusões que faziam seu coração pular não era boa coisa.
"Você está com ciúmes?" Não conseguiu evitar um sorriso quase debochado tomar conta de seus lábios, tentando cobri-lo inutilmente com uma das mãos antes do bruxo percebe-lo. Aqueles olhos claros não pareciam em nada felizes, mas a a cara parecia levemente mais amigável do que antes.
"É óbvio que eu não estou com ciúmes!" A resposta não demorou nem um segundo para vir, Draco parecendo mais interessado em observar novamente qualquer coisa menos a bruxa, que segurava-se para não gargalhar.
Era óbvio que ele estava, uma voz dizia dentro de sua cabeça. Do mesmo jeito que Michael sentira ciúmes de Harry durante todo seu curto relacionamento. A cara fechada, as poucas palavras, o nome de Potter citado do nada no meio de uma conversa. A voz, insegura e irritada.
Deveria reparar menos em Malfoy. Draco poderia ajudar, se vestindo um pouco pior ao invés de estar toda hora com aquela maldita sexy jaqueta de couro - aquilo com certeza era couro de dragão.
"Da onde você tira essas ideias, Escarlate?"
Recordou-se ter combinado de tomar um café com Luna, que estranhamente não havia aparecido ainda naquela manhã, muito menos justificado sua ausência. Não havia aparecido pelo menos para ela - da onde mais o loiro tiraria a ideia de que ela voltara para casa com o ex, senão de sua amiga?
Lembrou da última conversa que tivera com a bruxa, dias antes do feriado, e como esta insistira em tocar no nome do sonserino. A lufana jurava que havia algo ali, e por mais que Ginevra não tivesse discordado, afirmava que qualquer coisa que houvesse com certeza era e sempre seria unilateral. Não, Draco nunca havia dado qualquer sinal de vê-la como qualquer coisa além de amiga - se é que o bruxo a considerava uma.
E claro que Ginevra não admitiu aquilo para a amiga - mal admitia para ela mesma -, mas sentia-se levemente decepcionada com a falta de interesse do homem, que mais uma vez parecia mais interessado na caixa registradora do que nela. Qualquer sinal de interesse era motivo para seu coração se comportar mal, do jeito que estava agora.
Sacudiu a cabeça: ele não estava com ciúmes, ele não poderia estar e ela precisava focar em qualquer outra coisa. Mas sonhar um pouco não faria mal algum - desde que deixasse claro na sua cabeça que o ciúme que via era de faz de conta.
"Bem, Harry não me trouxe de volta, furão." afirmou, não conseguindo conter um sorriso ao ver os olhos claros muito mais receptivos do que estavam há alguns minutos atrás. "E já que você se sente íntimo o suficiente para se meter na minha vida amorosa, me responde uma coisa: como que você deixou a sua namoradinha casar com Blaise Zabini?"
A cara que o bruxo fez foi impagável, e mais uma vez foi difícil conter a gargalhada.
"Não que Zabini não seja atraente-" continuou, a voz falhando um pouco com a bruxa tentando segurar o riso.
"Por Salazar, eu não precisava saber disso."
"Mas ele é insano, e a Parkinson vivia de quatro por você e todos sabiam disso!" Viu o bruxo massagear as têmporas, sacudindo a cabeça. "E ela é maravilhosa - ao menos fisicamente falando, aquela sonserina era o sonho de muito bruxo que eu conhecia."
"Quando foi que eu te dei tanta abertura, Escarlate?" o tom era sério, a cara era séria, e ainda assim, Ginevra sabia que o bruxo não estava irritado com a pergunta. Talvez um pouco inconformado em considerar respondê-la, mas definitivamente não bravo por ter sido questionado quanto aquilo.
Como ela podia ter tanta certeza, apenas o olhando?
"Você vivia de quatro pelo Potter." Touchè. Ela poderia jogar aquele jogo.
"Definitivamente não de quatro. Bem, não com Potter." retrucou antes de se dar conta, e ouviu Draco engasgar, qualquer que fosse a resposta que ele daria agora presa em sua garganta. Sentiu-se orgulhosa, ela pela primeira vez deixando sem palavras o bruxo que pouco a pouco ficava da cor de um tomate. "Draco Malfoy está com vergonha? Oh Merlin, eu consegui te deixar da cor do meu cabelo!" provocou, chegando perto o suficiente para dar um tapa brincalhão no ombro do ex-sonserino, notando que o gesto já virara hábito entre os dois.
E seu coração ameaçou explodir quando sentiu a mão grande copia-la.
"Cala a boca, Escarlate!" ele devolveu o tapa, e era irritante como o fazia de uma forma tão fraca que o gesto parecia muito mais um carinho. "Pansy nunca foi minha namorada - não que isso seja da sua conta." Demorou mais alguns segundos para Draco recuperar a cara habitualmente pálida.
"Ah, confessa logo! Nem um beijinho?" continuou, já retirando da bolsa o sanduíche que trouxera para o almoço, o coração mais calmo com a distância que suas pernas colocavam entre os dois. "Por que então ela sempre estava do seu lado no seu sexto ano? A bruxa era sua sombra!" E foi outra vez apenas o observando que Ginevra soube que tocara num tópico pouco confortável.
Draco apertava os dedos da mão esquerda cada vez que sentia-se acuado, aprendeu aquilo em menos de três meses de convivência. E ele estava fazendo isso agora, e por um momento, tudo que a ruiva mais queria era pegar aquela mão e fazê-la relaxar, como ele fazia vez ou outra com a dela quando ela estava a mutilar seus dedos com a boca.
Engraçado que ele a teria mandado para o inferno, tivesse essa pergunta sido feita dois meses atrás.
"Porque ela estava preocupada comigo." Viu a unha perfeitamente lixada quase quebrando a pele branca, mas imaginava que o bruxo não reagiria tão bem quanto ela com o toque. Não agora, não enquanto seus olhos claros pareciam tão perdidos. Ginevra se perdia daquele jeito vez ou outra - e ela não queria ninguém a tocando com dó enquanto acontecia. "Ela passou dois anos preocupada comigo."
Deveria falar que ele não precisava responder? Que ninguém precisava falar sobre aquilo, sobre aqueles anos, sobre aquela maldita guerra?
"Ela, e então Blaise. Seria muito pior se não fosse pelos dois. As minhas decisões-" A voz morreu, trêmula na última palavra dita. Seus olhos castanhos não conseguiam sair da unha que cravava cada vez mais no dedo indicador, e já conseguia ver um traço vermelho. "Eu também perdi. Mas as pessoas só lembram," Era sempre o braço da marca que ele insistia em machucar, e era para esse braço que ele gesticulava. "Disso."
Sabia que ele não deixaria colocar muito mais coisa além do curativo no dedo que sangrava, então com o curativo ela se contentou. O sanduíche foi parar no balcão, Ginevra achando em segundos um band-aid que sempre carregava na bolsa. Viu surpresa nos olhos claros quando ela tocou na mão machucada, mas não encontrou resistência alguma ao forçar a mão aberta e enrolar o curativo no dedo, tão mutilado quanto os dela.
Ficou surpresa quando o bruxo continuou a falar.
"Pansy sempre foi como uma irmã pra mim, eu conheço ela desde pequeno. Agora que ela é Pansy Zabini, a bruxa faz parte da minha família." Mais surpresa ainda quando recebeu um dos sorrisos mais verdadeiros que já vira nos lábios daquele homem. "Você não tem que ter ciúmes, Escarlate."
E era verdade: ela não precisava. E ela sabia daquilo.
O bruxo voltou a se distrair com qualquer coisa que não fosse ela, o rosto muito mais relaxado do que no começo da manhã. Enquanto Ginevra comia seu sanduíche, não conseguia não olha-lo, Draco atendendo um trouxa como se fizesse aquilo há anos. Como o bruxo mudara tanto em tão pouco tempo? Por que seus olhos o enxergavam de um jeito que ninguém mais parecia ver?
Só desviou a atenção quando os olhos claros acharam os dela após minutos distraídos. Ela lembrava de olhares como aquele. Lembrava de olhos verdes a olhando do mesmo jeito, há tantos anos atrás, como se ela fosse seu bem mais precioso.
Merda.
Precisava muito parar de reparar em Malfoy.
Só no dia 31 retirou o curativo do dedo - cinco dias com o mesmo curativo trouxa, um dia a mais e seu dedo com certeza infeccionaria. Ridículo, por não tirar algo apenas porque fora a bruxa que o colocara ali. Ridículo por sentir-se tão feliz com um gesto tão simples, ridículo por sentir-se feliz com ela e ponto.
Por que tudo mudara em sua cabeça depois dos dias longe dela? Por que ele se deixava levar por sentimentos, logo ele, logo Draco Malfoy, que nunca sentira nada além de desejo pelo sexo oposto. Não que o bruxo não tivesse tentado sentir nada além: ele quis sentir o que sentia agora com Astoria. Mas não adiantava apenas querer, aparentemente.
Já tinha desistido de achar alguém que o fizesse sentir-se quente por dentro, alguém que o fizesse se perder em pensamentos e não o entediasse nem mesmo com o mais chato dos discursos. Por Merlin, Ginevra poderia falar sobre o processo de produção de um pergaminho, e aquilo seria a coisa mias interessante de seu dia.
E não havia feitiço, não havia azaração, não havia nada além dela e ele estava tão, tão fodido. Mas nem isso o fazia parar de sorrir.
Impossível qualquer coisa entre os dois, ele sabia. Não havia jeito de algo durar ali, não entre uma Weasley e ele - e não seria por ele não querer. Mas sim porque seria muito mais do que ele a faria aturar. Eles sairiam, ela se apaixonaria - ele se apaixonaria ainda mais -, e então começariam as conversas, as notícias, o peso do que ele carregava caindo sobre ela, e ao invés dele deixa-la sem ar com beijos, o ar acabaria cada vez que ela olhasse para a caveira que Draco carregava no antebraço esquerdo.
E era por isso que ele não a beijaria.
Por isso que ele manteria toda a distância física possível. E ele conseguiria aquilo, desde que ela não chegasse perto. Desde que aquele maldito cheiro de gengibre que amava não o deixasse sem foco. Desde que-
Estava prestes a abrir uma garrafa de vinho quando escutou a batida em sua porta.
"O que você vai fazer hoje à noite?" Desde que ela não batesse na sua porta vestindo um vestido curto demais para ele manter qualquer pensamento coerente. Não bastava arrancar seu coração sem pedir, a filha da mãe precisava faze-lo perder as palavras vestindo aquele pedaço de pano verde enquanto mostrava o par de pernas que sempre escondia embaixo de roupas que em nada combinavam.
"Beber sozinho até o ano que vem." Por que diabos havia se arrumado tanto vestindo justo aquela cor?
"Errado." Ginevra corrigiu, entrando apartamento adentro sem nem mesmo pedir. A maldita nunca pedia para entrar em nada mesmo. "Você vai numa festa trouxa comigo."
Uma festa trouxa. Draco poderia aguentar uma festa trouxa com ela ao seu lado.
"Você só quer ter um backup se não achar ninguém para beijar até meia noite, Escarlate." disse, e tentou manter o rosto neutro e as mãos longe dela ao ver o rosto ficar como o dele havia ficado há dias atrás.
"Alguém está se achando bom o suficiente para ser um beijo de ano novo." Escutou Ginevra zombar enquanto encostava a porta do quarto, obrigando-se a vestir algo mais apresentável que seu pijama.
Apareceu minutos depois vestindo a jaqueta de couro que a ruiva deixou transparecer gostar e o par de jeans que já não aguentava mais vestir ao lado daquela ruiva. Nada aconteceria, nada jamais aconteceria e ela o via como a metade das mulheres que olhavam para ele daquele jeito o viam: desejável. Draco sabia que era bonito, sabia que aquelas roupas lhe caiam muito bem, e que o olhar que Ginevra lhe dava era apenas por ele ser fácil para os olhos apreciarem.
Nada aconteceria, mas isso não o impediria de aproveitar a maldita companhia que fazia seu jeans tão apertado.
"Onde vamos?"
Ok, precisava admitir que ele aceitar o convite havia sido inesperado. Draco Malfoy indo numa festa trouxa, acompanhado por uma Weasley, no último dia do ano: improvável.
O que apenas a fazia pensar ainda mais que o ciúme que vira nos olhos cinzas não havia sido fruto de sua cabeça. O ciúme, todas as vezes que ele parecia arranjar alguma desculpa para toca-la, os sorrisos, as perguntas desconfortáveis que ela fazia e o bruxo começara a responder.
E agora uma festa trouxa, que ela acabara de arranjar e era apenas uma desculpa para vê-lo uma última vez antes do próximo ano. Quem mesmo havia lhe recomendado aquela festa? Com certeza não era uma informação relevante para fazê-la desistir, ainda mais agora que ganhara um sim e saía do prédio acompanhada pelo bruxo mais improvável e ainda assim o único que andava querendo como companhia.
"Você sabe que me deve uma, não sabe?" ele fez questão de outra vez lembra-la assim que pisaram dentro do apartamento, pequeno demais para a quantidade de pessoas que abrigava. De quem mesmo era aquela festa? Tinha quase certeza de que não conhecia o dono, e aquilo não parecia qualquer festa que Luna recomendaria. Mas três quarteirões longe de sua casa era bom demais para recusar, ainda mais em um dia de neve. Só seria melhor se tivessem ficado no apartamento.
Sacudiu a cabeça, tentando parar de pensar em ficar sozinha com Draco Malfoy - eles já faziam aquilo o suficiente no dia a dia, ainda mais durante aquela última semana, a loja praticamente deserta senão pelos dois.
"Te pago com sábados de folga." engoliu seco ao sentir a mão, tão mais quente que a sua, segura-la pela cintura enquanto tentavam passar da sala para a cozinha para, quem sabe, conseguir um copo para acabar com a garrafa que o bruxo segurava na outra mão.
Disse para si mesma que não, Malfoy não havia respondido não querer sábados longe dela, e que a mão apenas estava em sua cintura para ela não ser sugada pela multidão na pista de dança - quem dava uma festa dessas com certeza não tinha vizinhos no andar debaixo. Ou melhor, todos os vizinhos, senão todos do prédio, estavam naquela festa, que não fazia questão em manter a música num volume aceitável.
Nunca ficou tão feliz em chegar numa cozinha, por mais que a mão enfim a soltasse, o vinho aberto e a garrafa esvaziada em dois copos gigantes de plástico.
"Então a ideia é bebermos até ano que vem, Escarlate?" brindaram, o ex-sonserino abandonando a garrafa vazia junto com tantas outras sobre o balcão.
"Pareceu melhor do que ficar em casa sozinha." se olharam, e ela soube o que Draco falaria sem ele abrir a boca. "Shine é bem independente, a última coisa que ela quer é companhia à noite."
"Está dizendo que você só bateu na minha porta porque é uma ótima chefe, e ficou com dó do sonserino malvado ter o mesmo destino da sua gata?"
Não.
"Vai dizer que preferia estar comigo num sofá do que cercado por trouxas completamente embriagados?"
Ele estava prestes a responder quando uma loira se pôs na frente dos dois, tocando de forma íntima demais o ombro do bruxo, próxima demais, sorrindo demais. Ginevra respirou fundo e virou-se para onde todos dançavam, acabando com meio copo de vinho e tentando convencer seu cérebro que aquilo era o melhor que poderia ter acontecido.
Porque ela não queria ouvir a resposta dele. Porque ela preferia que o bruxo respondesse que preferia sim passar a noite ao lado dela no sofá. E se caso ele respondesse o que a ruiva tanto queria ouvir, sabia que estaria perdida.
Idiota, ele não a via como nada além de uma amiga - se é que ele o via como uma, ainda tinha suas dúvidas.
Estava prestes a se perder sozinha no meio de toda aquela gente quando sentiu a mesma mão que tanto queria voltar para sua cintura, a segurando firme.
"Então você me traz para uma festa só para virar as costas e sumir?" Os lábios estavam quase colados em seu ouvido, e sentiu-se vitoriosa quando conseguiu conter um arrepio. "Continua andando, Escarlate." Oh Merlin, sentia que obedeceria qualquer coisa que o bruxo pedisse naquela voz rouca, suas pernas moles agradecendo o braço forte que praticamente a segurava de pé.
Draco não exatamente ajudava o bom senso da bruxa ao encosta-la na parede depois de alguns passos, as mãos apoiadas na mesma, não deixando espaço para a ruiva escapar. Não que ela quisesse escapar daquilo, ainda mais depois de ter terminado com seu vinho em poucos goles.
"O que você está fazendo?" Não conseguiu evitar perguntar, a nova proximidade dos dois lhe dando outra vez um coração inquieto. Inferno, será que ele conseguia sentir o quão rápido seu coração batia?
"Que fique bem claro que isso é tudo culpa sua. Você que me trouxe pra cá e você que iria me abandonar com uma trouxa bêbada demais." A voz ainda saía rouca, o bruxo inclinando a cabeça para onde antes estavam, onde a mesma loira de antes os encarava nada feliz. "Eu disse que estávamos juntos." Era oficial: seu peito iria explodir. Sentia o coração cada vez mais rápido, e pensou em fechar os olhos, se contendo no último segundo. "Então você vai ter que me aturar perto por alguns minutos, Escarlate."
Não podia fechar os olhos, não naquela posição, não tão perto, não com ele. Deixou-os se perderem pelas pessoas presentes naquele espaço, pensando no que deveria responder para aquela última frase. Deveria responder alguma coisa? Deveria começar outro assunto?
Foi tão bom o loiro ser mais rápido que ela.
"Está vendo aqueles dois?" Draco olhou para um casal não muito longe deles, o homem que vestia um terno vestia uma cara séria, a mulher parecendo a trouxa mais entediada de todo aquele espaço. "O cara está tendo um caso com a babá e a mulher consegue comer um bolo de meio quilo em menos de vinte minutos."
Foi como se ele soubesse o quanto Ginevra estava nervosa. A risada foi automática depois daquela frase, a ruiva sentindo o coração pouco a pouco voltar ao normal, por mais que os braços continuassem a mantendo prisioneira.
"Como você é-"
"Trouxa, eu sei." E seus olhos voltaram para os dele, grande erro. Draco estava tão perto que conseguia sentir a respiração do bruxo em seu rosto, aquele cheiro cítrico que sempre sentia quando ele estava ao seu lado a intoxicando. "Mas você gosta quando eu me visto de trouxa pra você." Gostar era pouco, seu cérebro automaticamente pensou. "Eu sei que gosta. Seus olhos adoram essa jaqueta - dá pra ver."
"Acho que alguém bebeu demais aqui." provocou, mesmo sabendo que não havia cheiro algum de álcool na respiração que sentia. Onde havia ficado o copo de vinho dele?
"É mesmo? Quer que eu te carregue, Escarlate?" Ele era tão melhor do que ela nisso.
Deixou outra vez os olhos se perderem na festa. Não confiava em seu auto controle se continuasse a olha-lo. Draco sabia quantas tonalidades de azul haviam em seus olhos? Porque Ginevra conseguia contar pelo menos três, mas só teria certeza se observasse-os mais.
"Procurando seu beijo de ano novo?" Ele poderia se afastar agora, a garota de antes nem mesmo estava mais ali.
"Eu não preciso de um beijo de ano novo." Afirmava mais para ela mesma do que para o bruxo.
Draco finalmente abaixava um dos braços, mas antes de Ginevra pensar em usar o novo espaço para escapar, sentiu uma mão quente segurar a dela, e qualquer pensamento em sair dali novamente ia embora. Aquilo não iria acabar bem, ou aquilo acabaria bem demais.
"Sua mão está gelada."
E ela não sabia qual das duas opções era a melhor.
"Está frio." Não esperava que a jaqueta que adorava nele fosse parar ao redor dela.
"Sabe," Draco respirou fundo, por um segundo parecendo incerto sobre o que estava prestes a falar. "Quando eu era criança, eu tinha essa impressão de que-" Bastou se olharem para Ginevra ver a incerteza sumir. "De que quando eu beijasse alguém que eu realmente quisesse ficar, o mundo iria parar." Ele sorriu, e ela retribuiu com um que traduzia todo o nervosismo que sentia. "Piegas, tão piegas, justo eu te falando isso, maldito vinho."
Maldito vinho que Ginevra via pela língua ainda vermelha que ele nem havia bebido.
"Meu pai parece ser um monstro sem emoções, até ele olhar para minha mãe. Quando eu era criança, me perguntava como era possível reverenciar alguém apenas com um olhar. Quando Lúcio olha para minha mãe, é como se só houvesse ela no mundo. O mundo parece parar para os dois quando se beijam." Em nenhuma palavra os olhos claros saíam dos dela. Ficou grata pelo braço que ainda estava ao seu lado: talvez suas pernas tivessem falhando se não tivessem aquele apoio. "E eu beijei, e beijei, e beijei tantas bruxas diferentes, e meu mundo continuou igual. Eu não beijei Parkinson, antes que você comece outra vez com essa história."
"Por que você está me falando tudo isso?"
"Porque é quase meia noite." Sentiu o frio no estômago que há tanto havia esquecido quando a mão grande do bruxo colocou uma mecha vermelha que insistiam em cobrir seus olhos atrás de sua orelha. Tão perto. "Eu ainda não te dei um presente de Natal." Tão, tão perto, e Ginevra já não se importava mais com o que aconteceria no dia seguinte. Os olhos claros se mostravam incertos até ela deixar suas mãos pararem no cós do jeans do bruxo. "Mas eu só vou te dar isso se você realmente quiser." Sentiu a testa dele encostar na sua, as mãos segurando seu rosto como se ela fosse quebrar com qualquer movimento mais brusco. "Por que eu acho que se eu te beijar uma vez, eu não vou mais conseguir parar - então você precisa querer isso. Ginevra, eu-"
Aquilo não iria acabar bem, ou aquilo acabaria bem demais.
"Gina?"
Primeira opção.
Só se deu conta do que estava fazendo ao sentir as mãos que segundos antes o puxavam para perto o largarem, uma voz que não lhe era estranha chamando o nome da bruxa que há segundos atrás estava tão receptiva.
Ele sabia quem era aquele rapaz, e sabia o quanto se arrependeria se ficasse ali.
Se afastava sem olhar para trás no segundo seguinte.
Ir para aquele apartamento havia sido automático. Lembrou vagamente do que pensava nos primeiros dias de sua pena: o único ponto positivo em trabalhar ali era ter Blaise Zabini á poucas quadras de distância. O bruxo insistia em morar no centro de Londres, assim como insistia em aparatar onde quer que quisesse. A bruxa que abriu a porta era conhecida, mas Draco não conseguia exatamente colocar um nome naquele rosto.
Não que aquilo importasse para ela, que o puxava para um beijo ao mesmo tempo em que ambos ouviam os fogos do lado de fora. Tudo que ele não queria para o primeiro beijo do ano: uma estranha bêbada o agarrando pela calça, indo de sua boca para seu pescoço em segundos. Sabia que precisava retribuir e tirar aquela ruiva de sua cabeça, mas a única coisa que conseguiu fazer foi parar a bruxa e escapar para o meio da multidão que Zabini fazia caber naquela cobertura.
Viu Pansy sussurrar algo para o marido antes de ir abraça-lo, desejando um feliz ano novo e perdendo-se no meio da festa segundos depois.
"Ela já tomou taças demais de champanhe para falar qualquer coisa coerente." Blaise disse enquanto o puxava para o bar, enchendo dois copos de firewhisky. "Achei que não fosse aparecer." Talvez fosse a cara de Draco que o tivesse denunciado: estava no meio de provavelmente a melhor festa de Londres e ainda assim não conseguia demonstrar muito senão frustração. "Você não ia."
Virou o copo de firewhisky, e o próximo que ele mesmo se serviu teve o mesmo destino em segundos. Zabini tirou a garrafa de perto de suas mãos quando Draco terminou com o terceiro copo.
"Antes de você ficar mais retardado do que um trasgo, me faça entender que merda está acontecendo para você precisar disso."
"Me dá essa merda, Zabini." Quis gritar quando a garrafa só foi posta mais longe. "Me dá essa merda e eu falo."
Foram mais dois copos antes da primeira palavra.
"Você deveria me deixar aqui e ir dançar com a sua mulher, estou acabando com a festa dos dois." Como ele sempre parecia fazer, ultimamente.
"Cara, eu já disse," Zabini pareceu tão frustrado quanto o loiro naquele momento, respirando fundo enquanto fechava os olhos. "Você é família, desgraça. Você pode aparecer quando quiser, assim como eu sei que eu posso aparecer quando eu quiser. E falo em nome de Pansy também, antes que você ache que ela está muito brava por você dar as caras no ano novo - nós te convidamos, caralho." Blaise acabou com o líquido amarelo ao servi-los uma última dose de álcool, arremessando a garrafa no lixo. "Bêbado o suficiente para finalmente me contar o que eu provavelmente já sei? E se você está se perguntando desde quando eu sei, a resposta é desde aquele almoço."
Draco olhou janela afora, os fogos de artifício colorindo o céu escuro mais uma vez. Lembrou-se do primeiro dia em que comprara um café para Ginevra, Zabini ao seu lado o olhando como se soubesse de alguma coisa.
"Você não compra café nem pra mim - e eu mereço você me comprando um todo dia." Filho da mãe, sabendo daquilo antes mesmo de Draco se dar conta do que poderia acontecer. "Eu não sei o que ela tem, mas adoraria saber."
"Eu também adoraria." disse, encostando-se na parede. "Eu adoraria saber porque gosto justo dela, Blaise. Eu gosto dessa bruxa mais do que eu algum dia imaginei ser possível gostar de alguém."
"Mas?"
"Mas eu vou dormir pensando em como seria difícil justo ela ficar comigo." confessou em voz alta pela primeira vez. "E acordo todo dia desejando não gostar."
"Draco, você sabe que não foi sua culpa. Essa marca no seu braço não foi sua culpa, iriam matar seu pai se você-"
"Não importa o que eu sei, Blaise!" A voz saiu frustrada, as mãos enchendo outra vez o copo com algo que parecia alcóolico. "Importa o que todos que veem minha cara acham, importa o que todos achariam dela. O que poderiam tentar-" Estava tão fácil falar agora. Deveria voltar para o prédio que dividia com a bruxa e bater em sua porta, estava tão fácil não pensar no dia seguinte.
"Ninguém tentaria nada com a Weasley." Zabini tirou o copo vazio de suas mãos, fazendo-o desaparecer junto com a garrafa. "Ginevra tem cinco irmãos pra garantir isso, mais você."
"Denis apareceu na festa." Tão, tão fácil.
"Foi uma coincidência." O amigo o forçou a olha-lo nos olhos. O quão bêbado havia ficado em minutos? "Draco, foi uma coincidência."
"Eu deveria ter aceitado Azkaban." Bêbado o suficiente para preferir a primeira pena que lhe fora imposta.
"Não deveria, Draco." Viu Blaise respirar fundo, o guiando até um dos tantos sofás. "Sabe quem merecia Azkaban? Seu pai. Minha mãe. A porra do meu vizinho que testa poções as duas da manhã. Você merece Azkaban tanto quanto eu." Sentaram-se, um copo de água aparecendo na sua frente. "Talvez até menos, visto todas as coisas ilegais que Pansy me obriga a fazer e o quão bem você está se comportando ultimamente."
"Você não sabe-"
"Eu sei que eu não sei. Mas eu imagino tudo que você passa. Eu imagino que deve ser uma bosta todos saberem o que você carrega, uma merda ter escolhido o lado errado de uma guerra e isso continuar a te definir cinco, sete anos depois - por mais que você não seja o mesmo garoto estúpido de anos atrás. Eu sei como a maioria da sociedade bruxa londrina pensa, e realmente só posso imaginar o quão difícil deve ser pra você viver nela." Sentiu a mão do amigo em seu ombro, tentando lhe passar algum conforto. "Mas é a maioria, não toda. Ela não é a maioria, a gente sabe disso."
Zabini não voltou para o lado da esposa antes de assegurar que o amigo ficaria bem.
"Você tem duas opções: beber todas e ficar aqui nessa cobertura, ou tomar só água por uma hora e ir bater na porta da Weasley. Escolha com sabedoria."
Quando abriu os olhos no dia seguinte, sua cabeça parecia que iria explodir. Acordou no sofá do amigo, a loira que o recebera ao seu lado, o mesmo incômodo que sempre sentia ao ver qualquer outra que não a ruiva tão perto.
Nota da autora má: Era óbvio que eu iria atrapalhar, gente. Ainda faltam alguns capítulos para o tão esperado beijo - mas ele vem! Fiquem por aqui! Talvez venha até que rápido, visto a gripe que eu peguei e a impossibilidade de fazer qualquer coisa a não ser vegetar no sofá - não é corona, rs, é gripe mesmo, o frio é foda.
Comentários? Xingamentos? Frustrações? Tudo é bem vindo aqui, me contem aí na caixinha!
Ps.: Olga, que linda vc, comentou em todos os capitulos da minha antiga fic! Não tenho seu email para responder, então meu obrigada vai por aqui! Espero que tenha se divertido, e espero que esteja gostando dessa!
Beijão pra todos,
Ania.
