Personagens de Stephenie Meyer, só estou brincando com eles...
E aqui estamos, o fim.
As pessoas fazem coisas idiotas quando estão com medo, ela ouviu Edward dizer na escuridão.
A consciência ia e voltava violentamente, como ondas de um mar agitado. Não conseguia mexer o corpo ou abrir os olhos. Só podia sentir a terrível agonia. Cordas com espinhos pareciam estar atadas nela. As cordas se mexiam e apertavam como cobras, se enrolando e torcendo. Ela queria gritar, implorar que alguém a ajudasse, mas seus músculos não reagiam. Estava impotente, presa, sendo sufocada pelas cordas, cada vez mais apertadas, mais ásperas, os espinhos cada vez mais profundos. As lembranças vinham torturá-la também, flashes brilhantes e sempre em rotação.
Renée gritando com ela. Uma tempestade caindo do lado de fora da janela. Alice com seus trajes elegantes. Charlie chegando em casa enlameado. Edward olhando com aqueles lindos olhos verdes. Uma velha curvada se arrastando em sua direção, suplicando por ajuda. Bella não conseguia lutar. Tampouco tinha lágrimas para chorar. Só podia sentir.
...Coisas idiotas quando estão com medo, Edward ficava repetindo.
Não conseguia compreender o que estava acontecendo. Que tipo de punição era aquela. O que fizera para merecer aquilo? Queria desesperadamente gritar; se por ajuda ou apenas para externar seu sofrimento, já não sabia dizer. O tormento continuou e continuou e continuou. E então, quando ela estava se perguntando se sofreria por toda uma eternidade, acabou.
A corda se apertou tanto que ela jurou que seus membros iriam se separar. E então arrebentou. E ela conseguiu abrir os olhos. Estava tão claro como a luz de mil lâmpadas. Pessoas estavam em cima dela, de máscaras e luvas. Havia uma bagunça de sons indistintos e um bip insistente ao fundo. Ela gritou. Levantou-se e correu, sem olhar para trás, sem ver muito bem para onde ia com toda aquela claridade. Estava assustada e queria apenas fugir.
De súbito, como se alguém tivesse apertado um interruptor, a luz diminuiu e as coisas tomaram forma. Se viu correndo por um longo corredor cheio de portas.
Edward estava ali, em frente a última porta da esquerda. Ela exultou em alívio. Correu para ele, querendo desesperadamente ficar ao seu lado. Sua ânsia era tanta que por momento se esqueceu de que ele era apenas um espírito. Quando se lembrou, já estava perto demais para conseguir parar de correr a tempo; iria atravessá-lo. Bella se preparou para se chocar com a porta atrás dele... Mas parou em seus braços, tão firmes e sólidos quanto os de um vivo.
— EDWARD! – Exclamou surpresa – Eu... Posso te tocar! EU POSSO TE TOCAR!
Sua alegria veio como uma explosão. Finalmente! Ela sonhara com aquilo tantas vezes. Que ele fosse palpável, tátil. Alcançável. Apertou seus braços, saboreando o toque, e passou a mão em seu peito, sorrindo. Subiu o rosto e encontrou seus lindos olhos verdes, querendo partilhar sua felicidade, mas aqueles olhos que ela tanta amava estavam cheios de uma profunda tristeza.
— Bella, ah Bella, eu sinto tanto... – Ele lhe disse e parecia a ponto de chorar.
A dor na voz dele era algo que nunca tinha ouvido antes.
— O que? – Indagou confusa.
— Bella... – Edward segurou seu rosto com as mãos – Não tenho palavras para dizer o quanto eu lamento...
— Lamenta? Pelo que? Eu posso te tocar! – Ela riu sem compreender – Sabe o quanto eu quis isso? Eu posso te tocar! Você está vivo!
— Não, Bella – Ele lhe disse suavemente, acariciando sua face com o polegar – Eu não estou vivo, meu amor. E nem você.
.
— Eu não acredito que ela fez mesmo aquilo – Bella falou, olhando a mulher.
— Eu sinto muito. – Edward disse.
— Eu sei.
Renée estava usando uma camisa de força. Não era a mulher que um dia tinha sido. Nem de longe. Seus olhos estavam selvagens e vazios. Ela ficava cantarolando uma música de ninar, balançando-se sozinha na cadeira.
Fora considerada mentalmente desequilibrada, o que a livrara da cadeia pelo assassinato da filha, mas agora viveria o resto de seus dias na clínica para pessoas com problemas mentais.
Não sabia ao certo o que sentia por Renée, mesmo agora. Aquela era a mulher que nunca a desejou. Aquela era a mulher que tornara sua infância infeliz. Aquela era a mulher que nunca a amou. Até por fim se tornar a mulher que lhe tirou a vida com um tiro.
Contudo, a criatura diante de si era digna de pena, ela pensava. Vendo-a, Bella percebeu que a verdadeira prisão não era aquela camisa de força, nem a clínica, mas sim a própria cabeça dela, com sua mente distorcida. Dali, Renée jamais conseguiria escapar.
— O que vai acontecer com ela? Quando morrer? – Bella perguntou a Edward.
— Não sei, Bella. Nem todos os caminhos são para cima.
Ela apertou os lábios. Levou seus dedos até seu couro cabelo, sentindo o buraco. O cabelo cobria com facilidade o ferimento. Era pequeno. Quase inofensivo. Bella se ouviu rir.
— Nós somos nada, não é? – Disse para ele, ainda rindo – Uma bala que não tinha nem um centímetro inteiro. Um buraco de nada. E me matou.
A aceitação não veio fácil, apesar de tudo. Não foi até ver seu corpo frio, branco e inanimado no caixão que ela finalmente parou de lutar. Alguém, Bella não sabia quem, tinha tido a ideia de colocar uma grossa tiara para esconder os grampos em sua cabeça aberta pela cirurgia que tinham feito para tentar salvá-la. Não faziam ideia de como aquilo tinha sigo agonizante para ela.
Seu corpo estava além da salvação, mas sua alma não parava de ser puxada de volta pelos aparelhos dos médicos. Até finalmente se libertar. Ela se lembrava da sensação de sofrer por muito tempo, da agonia terrível em cada centímetro de sua pele, embora a cirurgia tenha durado apenas duas horas. O espaço-tempo era diferente entre a vida e a morte, aparentemente.
— Você está bem? – Edward perguntou quietamente.
— Estou – Bella disse com sinceridade.
E estava mesmo. Tinha aceitado, tinha se conformado. Era algo que não podia mudar, então não iria perder mais tempo lutando. Olhou longamente para a mulher que havia sido sua mãe, uma última vez, e então foi embora. Sem olhar para trás.
Bella não a odiava, mas tampouco choraria por ela.
Era por Charlie que queria chorar. O curso da faculdade, os planos frágeis que fizera, os fracos desejos que tinha em vida; nada disso importava. Não estava sofrendo por deixar essas coisas para trás. Mas sofria por Charlie.
Ele ia visitar seu túmulo com frequência, ficando horas e horas observando a pedra de mármore branco. Não chorava, não falava, mas não era menos doloroso de ver. Ele parecia terrivelmente perdido. Bella se pegou desejado que ele fosse capaz, de algum modo, de vê-la, de senti-la, de saber que ela estava bem.
Seu único consolo era ver que Sue assumira seu papel de cuidar dele. Vinha todos os dias, cozinhava e fazia companhia para ele. Ele não estava completamente só.
Bella se recusou a se afastar até ter certeza de que ele ficaria bem. Longos meses se passaram, mas, pouco a pouco, Charlie foi voltando a vida. Teve algumas recaídas, como no dia em que limpou e encaixotou as coisas do quarto dela – esse foi um dos piores dias, o que lhe rendeu algumas lágrimas e quase uma semana de completo silêncio – porém ele continuava progredindo.
Em um raro dia de sol, muito parecido com o último dia dela, Bella finalmente o ouviu rir. Sue estava ali, contando-lhe uma história qualquer sobre pescaria, e o pai riu tanto que chegou a ficar sem ar. E quando as visitas ao cemitério começaram a diminuir, Charlie também voltou a pescar e a pedir suas pizzas.
Era por aquilo que ela estava procurando. A ferida nunca se fecharia por completo, Bella sabia. Mas ele aprenderia a conviver com a dor. Já estava aprendendo. Iria progredir cada vez mais, até que a dor se tornasse uma tênue parte da vida dele. Algum dia eles poderiam se reencontrar.
.
Eles foram para uma ilha no meio do oceano. As águas do mar não eram obstáculo. Tinham se despedido de Harry e partido logo em seguida. Estavam caminhando pela praia vazia, as mãos unidas. Não separavam as mãos por nada. O toque era diferente, como Alice dissera. Edward não era frio, nem quente, nem morno; era apenas tátil, sem temperatura, sem arrepios, sem pulsação sob a pele. Mas palpável, e isso era o suficiente.
Bella olhou o céu do entardecer. No ponto mais alto, onde o sol ficava a pino, havia uma luz profundamente branca. Ela sabia o que era aquilo, mesmo sem saber como sabia. Aquela luz a convidava, e Bella sabia que era muito bem-vinda por ela.
— Você virá comigo? – Perguntou para Edward distraidamente – Quando eu decidir atravessar?
— Bella – Ele sorriu – Você ainda pergunta?
Ela sorriu também. Estava livre. Finalmente livre de seus medos. Eles ficariam juntos, em qualquer lugar. Por um momento chegou a desejar que Alice estivesse ali, para poder abraça-la, e então se lembrou que provavelmente a encontraria quando fizesse a passagem. Tudo estava bem.
— Vou lhe contar algo – Edward falou – Aquilo ali nunca apareceu para mim antes – Ele indicou a luz branca com os olhos.
— Estava esperando por mim – Bella disse sentindo a verdade em suas palavras – Para irmos juntos.
— Sim, eu acho que sim. – Ele a olhou e voltou a sorrir – Acredita em destino, anjo?
Bella pensou em toda a sua vida e nos muitos problemas causados por seu dom incomum. Antes, durante os piores momentos, talvez, ela chegou a desejar ser apenas um ser humano normal, sem ficar vendo pessoas mortas. Agora, no entanto, ela tinha entendido; tudo tinha sido como deveria ser.
Ela sabia que não teria feito diferença, não ter aquele dom. Renée não a amaria do mesmo jeito, Charlie a amaria do mesmo jeito. A única diferença real seria a ausência de Edward, e ela não via como isso poderia ser possível. Não se imaginava em um mundo sem Edward. E sabia que não era nem uma possibilidade. Como poderia viver sem ele? Sem as brincadeiras, as piadas, as conversas?
Talvez fosse mesmo algo como o destino. Se lembrou de Edward dizendo que teriam sido um para o outro, se tivessem vivido na mesma época. Ele se enganara. A época não importava. Eles eram um do outro, e seriam para sempre.
— Eu gostaria que tivesse sido diferente. – Edward continuou. – Havia tanto pela frente.
— Nada que realmente valesse a pena. – Bella respondeu. – Não vejo isso como um fim, Edward, não mais. É só o começo.
— Que acha que vai ter lá em cima?
— O paraíso? – Ela deu de ombros. – Vamos descobrir no tempo certo. Qual vai ser nosso próximo destino?
— Então agora você quer viajar?
— Agora é diferente. – Ela sorriu e ergueu as mãos unidas de ambos. – Me sinto bem, como nunca me senti antes. Livre.
— A liberdade teve um preço alto. – Ele falou quietamente, sem conseguir se conter.
— Teve. – Bella concordou. – Mas nada teria evitado isso. Aconteceu como tinha que acontecer.
Era uma verdade inegável em seu âmago, mas Edward nunca havia cedido pacificamente, e não era agora que começaria.
— Você tinha concordado em ir à praia. – Ele a lembrou. – Mudou de ideia na última hora. Se tivesse ido, teria sido diferente.
— Se tivesse ido, teria encontrado o mesmo destino. – Ela o corrigiu. – Para qualquer lugar que eu fosse, teria dado no mesmo. O momento tinha chegado, Edward.
Bella lembrou-se de seus pesadelos. Compreendia-os agora. Não eram pesadelos, afinal, eram avisos do que estava chegando. Se lembrava de um deles em especial, aquele em que ouvira Renée rir histericamente.
Renée riu depois que atirou, Edward tinha lhe contado aquilo, um riso horrível e louco. Foi assim que a encontraram, rindo e ajoelhada perante a filha inconsciente. Foi um Phil muito abalado que trouxe as explicações que todos buscavam.
Temerosa com sua prisão eminente e sofrendo com o termino da relação com Phil, Renée começou a beber... E a beber cada vez mais, até tomar a decisão. Ligou para Phil antes de entrar no avião e disse o que pretendia fazer. Percorreu todo o caminho ainda bebendo, mas antes de chegar a seu destino, viu Bella fazendo justamente aquilo que sempre a aterrorizou. Foi aí que surtou.
Ela tinha ido tirar sua própria vida, Bella pensou quando ouviu o relato, e tirou a minha ao invés disso.
Phil jurou para Charlie que tentou ligar mais de trinta vezes, e todas elas sem sucesso. As chamadas não completavam, disse ele, o que para Bella só reforçou o fato de que não teria como evitar nada do que tinha acontecido. Edward podia dizer o quanto quisesse sobre a mudança de planos naquela manhã; era justamente para a praia que Renée pretendia ir, e Bella sabia que o lugar diferente não teria feito Renée hesitar.
— Ela sempre falou muito daquela praia e dos dias da juventude que passou lá. – Phil falou para Charlie durante o velório. – Quando me ligou, disse que queria ver a praia uma última vez.
— Acho que estava errada. – Bella falou após seu funeral. – Parece que ela gostava mesmo do Phil.
— Tanto quanto da própria liberdade, e estava perdendo as duas coisas. – Edward tinha respondido.
Tinha perdido os dois de qualquer forma, e a sanidade junto. Bella balançou a cabeça, decidida. Acabou, disse a si mesma.
— Se você não estivesse em Chicago quando a gripe chegou, acha que teria feito diferença? – Ela perguntou a Edward.
— Não. – Ele respondeu com uma careta, sabendo que era uma batalha perdida. – Estava por toda a parte, teria chegado até mim.
— Exato. – Ela sorriu, provando seu ponto.
— A morte não te deixou menos chata, pelo que vejo.
— Não mais do que deixou você menos resmungão.
— Eu não era resmungão quando estava vivo, era um perfeito cavalheiro.
— Um cavalheiro como se deve?
— Completamente. – Ele disse com orgulho.
— Acredito...
— Quer provas, anjo?
— O que vai fazer? – Bella provocou. – Tirar o paletó e colocar sobre uma poça, para que eu não suje meus belos sapatos?
— Não há poças, nem você é capaz de molhar seus belos sapatos, e eu não tenho um paletó.
— Se tivesse, tiraria?
— Talvez, junto com mais algumas coisas. – Ele disse com um sorriso malicioso. – Mas não era o que tinha em mente.
— O que era, então?
— Minha doce senhorita Bella. – Edward falou galantemente, cheio de pompa, mas com os olhos travessos. – Daria a honra de me conceder uma dança?
— O qu... Dançar?
— E você me acusa de não ser educado. – Ele a repreendeu, ainda com travessura no olhar. – Na minha época, quando um cavalheiro convidava uma jovem dama para dançar, ela aceitava com graciosidade e no máximo um risinho.
— As jovens damas da sua época provavelmente aprendiam a dançar antes de aprender a falar.
Bella nunca tinha tentado dançar, e tinha grandes dúvidas de que a condição de espírito melhoraria suas habilidades.
— Está com vergonha? – Edward leu seu rosto. – Não é como se alguém pudesse ver, anjo.
— Vai mesmo me fazer pagar esse mico?
— Com certeza. – Ele disse pegando sua outra mão. – As jovens damas eram irritantes, mas eu gostava de dançar. E vou gostar muito mais se puder ser com você.
— Há algo que eu gostaria bem mais. – Bella segredou-lhe.
Não tinha beijado ninguém em vida, e sabia que provavelmente era diferente, mas Bella não se importava. Era aquele beijo que tinha, aquelas sensações que tinha conhecido, e era tão bom que ela não tinha vontade de mudar as condições em que estava acontecendo.
Edward a beijou de volta e depois se afastou, sorrindo.
— As jovens damas da minha época não tentavam roubar a virtude de seus cavalheiros. – Voltou a repreendê-la no mesmo tom travesso.
— Não estamos na sua época. – Bella o lembrou sorrindo também.
— É verdade. – Ele concordou. – Mas e sobre aquela dança, anjo?
Edward a envolveu com os braços, de modo que ela não pudesse correr. Bella revirou os olhos, mas ainda sorria.
— Eu sou uma péssima dançarina – Ela o alertou.
Ele riu.
—Não ligo, acredite.
E eles dançaram sob o céu do entardecer, que já mostrava o brilho das primeiras estrelas.
Fim.
E acabou ;)
Eu sei que talvez muita gente não goste desse final, mas foi aquele que me pareceu o mais apropriado. E eu gostei bastante dele, particularmente. Considerando toda a história, se encaixa muito bem.
Gosto de finais felizes e essas coisas... Nas histórias de outros autores. Nas minhas, prefiro deixar tudo mais... Real? Acho que pode ser essa palavra. Não faz meu estilo escrever "E eles viveram felizes para sempre". Eu curto mais escrever à la As Crônicas de Gelo e Fogo. É o tipo de escrita que vou trazer em Universo Espiral.
~ Segredinho ~
Eu tenho um rascunho de um final alternativo. Ainda não está pronto, mas eu pretendo colocar ele no pdf de Mini World que vou fazer assim que tiver tempo, junto com um capítulo do Charlie sobre a descorberta. Assim que fizer, vou disponibilizar o link no meu perfil. Só fazer o download.
Um obrigado especial a Barbara, Mickky e Bellads. Sem vocês, essa história não teria terminado. 3
