Depois de muito, depois de tentar arrumar minha vida(e consegui ma muito maromeno), enfim, volto a escrever. Um tanto atrasado(7 capítulos de NQO atrasados, 13 de AFC), mas espero conseguir matar este atraso. Se tudo der certo eu devo conseguir postar o próximo capítulo por volta das 15, 16 horas. No mais tardar às 17. Como eu disse anteriormente, a partir do último capítulo a fanfic vai ter uma abordagem um pouco mais pesada e agressiva, então creio que não preciso avisar-lhes que as coisas serão assim daqui por diante, preciso? Aproveitem sua leitura e boa terça.
As peças giravam perfeitamente sincronizadas, metal amassava metal conforme as engrenagens se esmagavam numa ciranda sem fim, umas menores que as outras, umas rodando a toda velocidade enquanto que outras pareciam quase imóveis de tão lentamente que se moviam, umas perfeitamente arredondadas e dentadas, outras achatadas e com dentes faltando.
Cada uma em seu lugar, cada uma em sua função.
As que eram perfeitamente redondas e dentadas seguiam a todo vapor, seus dentes nunca parando de morder os arredores, eram o vigor da máquina, o que os mantinha sempre em frente.
As banguelas e com pedaços faltando rodavam hora sim, hora não, sempre dando meia volta, uma volta, uma volta e meia e parando até que o ciclo atual se encerrasse e o próximo começasse, de um jeito preguiçoso elas eram o respiro, eram o que impediam que tudo se quebrasse.
As achatadas eram como dançarinas, sempre movendo outras engrenagens ao seu redor para outros lugares, tirando daqui e botando ali, tirano dali e botando aqui, eram as peças de ritmo e controle, que faziam o balanço perfeito entre o vigor incessante e o ócio revigorante.
Tudo perfeitamente balanceado.
Mas nem só de engrenagens vivia a máquina.
Dutos e mais dutos de ferro retorcido rodeavam aqui e ali, vapor entrava e saia, bombas comprimiam e descomprimiam, hora ou outra um jato de água gelada era despejado por sobre o ferro e evaporava quase que de imediato, resfriando todo o sistema.
Era praticamente um organismo vivo que vivia por eles e que dependia deles para viver, tudo na mais perfeita harmonia.
Mas Franky sabia encontrar a imperfeição no perfeito.
Seu olhar vermelho analisando a máquina como se a estivesse despindo peça por peça, roupa por roupa.
Meteu a mão metálica e agarrou uma das inocentes engrenagens, a maquina rangendo e se contorcendo ao seu redor diante de tamanho assédio.
E de modo grosseiro o mecânico arrancou a pobre engrenagem, deixando um dos lados a girar só e outro completamente parado, inerte e sem vida.
A engrenagem que removera era uma pequena e maciça peça feita em bronze, dez dentes a rodeando perfeitamente as extremidades.
Mas não havia perfeição real e ele não poderia aceitar que algo pudesse se considerar perfeito enquanto eles ainda precisassem de algo melhor. Com os dedos nus ele removeu um dos dentes da engrenagem, deixando rebarbas abertas da ferida que se abrira no metal.
Um apito de dor e agonia soou e Franky pôde ver a falta que fazia aquela peça: um barril de metal havia estufado e um barômetro indicava que a pressão interna estava chegando a níveis inimagináveis.
Felizmente, o barril era forte o bastante para aguentar toda a pressão, mas não era resistente o bastante para manter-se integro ante ao calor gerado e aos poucos ele se incandescia.
—Já já é sua vez.- respondeu ao nada com um tom de irritação, encarando o cilindro cada vez mais vermelho e brilhante enquanto que com os mesmos dedos que removera o dente da perfeita engrenagem decadental ele apertava o pedaço de metal rebarbado que sobrara, amassando-o até ter a finura de um espaguete, removendo-o também por fim.
Com um prego ele atravessou um pedaço do ferro, prendendo assim uma haste à engrenagem e colocando-a de volta no lugar de onde ele a tirara com a mesma rudeza que a removeu.
Prendeu a haste à uma série de outras que apertavam e puxavam ritmicamente e assim a engrenagem perfeitamente redonda e dentada virou uma engrenagem banguela e com um pedaço faltando, dando assim ritmo às peças que vinham dali por diante, fazendo-as girar na medida que um coração batia.
Claro que essa pequena pausa rudemente criada colocava gradativamente mais pressão no barril que a esta altura já emitia a mais pura luz branca, tamanha a pressão.
—Assim é que eu gosto!- afirmou ele rangendo os dedos metálicos ao fazer o movimento que normalmente faria para estala-los.
E sem se importar pôs as mãos sobre o barril de tamanho mediano, torrentes de chamas escapando por entre os dedos com o mero contato, e o apertou, pressionando o barril mais e mais, diminuindo sua área interna, aumentando sua pressão, empurrando o maquinário ainda mais aos seus limites.
Eventualmente uma bolha começou a se formar na casca do barril, ameaçando estourar e explodir tudo consigo, mas Franky não se importou e apenar empurrou a bolha de volta para o lugar de onde veio.
Quando o metal estava tão quente e maleável que podia sentir suas mãos começando a atravessar a superfície já não tão sólida, Franky sacou de seu bolso o dente que ele havia acabado de remover e o enfiou sem cerimônias no metal quase derretido.
Repetiu o processo com outros tantos dentes que ele removera de outras tantas engrenagens e alisou o metal, espalhando o derretido sobre o não derretido até que este se derretesse, transformando tudo em uma única e sólida estrutura.
Olhou para cima e viu um bico saindo pela extremidade de um cano. Esperou, mas nada aconteceu. Deveria ser a qualquer momento, mas parecia se recusar a cooperar.
E o Ciborgue bufou com uma expressão irritada em seu rosto.
Acertou um chute nas partes baixas do maquinário e tudo começou a tremer, se contrair e ranger.
Até que o bico logo acima abriu-se como uma válvula de escape, liberando uma rajada de vapor e por fim uma cascata de água gelada que recaiu por todo o local, mergulhando e resfriando o barril.
Para garantir que ele não se partiria durante o resfriamento abrupto, Franky permaneceu segurando-o, passando suas mãos por toda a superfície áspera para garantir que o metal novo se espalhasse homogeneamente.
E então ele se afastou.
Abriu um pino de segurança e fechou um redutor de pressão enquanto isso.
Amassou e retorceu um duto que não mais seria utilizado por mera preguiça de remove-lo e apertou com as mãos nuas uma rosca com tanta força que se danificou no processo.
Mas tudo estava funcionando perfeitamente bem.
Perfeitamente bem não, só bem.
O barril de pressão, agora de tamanho reduzido, enchia-se por completo mais rápido e as engrenagens, agora ritmadas, o esvaziavam mais lentamente.
E a cada ciclo completo o vapor do barril se desvanecia num único tiro, tão potente que deslocava a máquina por completo, e ele tinha certeza que o próprio Sunny subia e descia alguns centímetros por ciclo.
Dutos se contraindo, válvulas se abrindo, vapor vazando, engrenagens girando com potência total, disparos de pressão aumentando a temperatura, torrentes de água resfriando, dutos se expandindo, válvulas se fechando e então tudo de novo, gerando mais e mais cavalos de energia para mover as pás do navio, recarregando e descarregando as baterias na caixa de engrenagens agora expandida.
E assim eles iam aos trancos e barrancos em direção ao destino.
E assim as coisas iam.
Na batida de um coração toda a máquina, encolhia e expandia, fazia aumentar o calor e sua criação seguia viva, fazendo tudo que podia por eles.
Numa rápida olhada, Franky podia ver através dela, ver o que cada parte fazia, como cada peça se comportava e era capaz de ver cada um de seus defeitos e cada uma de suas qualidades.
Tudo aquilo que as fazia únicas e importantes estava exposto aos olhos do Ciborgue.
E ainda assim, não faltava a ele a coragem de altera-las, mudar o que era preciso, fazer os sacrifícios necessários para que elas pudessem ser ainda melhores.
A coragem para quebrar o singular para melhora-lo e tornar o todo ainda maior, ainda mais complexo.
Ainda mais perfeito.
Não era uma questão de apreço ou amor ao que já havia sido feito, era uma questão de dever.
Era um dever dele, enquanto criador, garantir que sua criação pudesse ser hoje melhor do que foi ontem, garantir que foi ontem melhor do que foi semana passada, garantir que foi semana passada melhor do que na retrasada e assim sucessivamente.
E, é claro, também cabia a ele garantir que na próxima hora ela seria melhor do que é agora, que amanhã será melhor do que será daqui a uma hora e assim por diante.
Garantir o melhor para aquilo que gerou, esse era o dever, o fardo e o prazer de todo criador.
Como seu capitão não poderia ver isso? Como ele poderia não entender o fardo da criação? Como ele poderia desprezar aquilo que ele criou com tanto amor com uma mulher? Sequer havia amor quando a criança foi feita?
Um ranger ensurdecedor tomou conta de seus ouvidos conforme ele apertava a própria mandíbula com uma força que não cabia em sua raiva.
Tomando uma garrafa solta, cheia até a metade de água morna, Franky tentou, de alguma maneira, se acalmar à goladas.
Durante todo esse tempo que ele era um chapéu de palha ele nunca pensou que Luffy fosse ser o tipo de homem que arrastaria uma mulher para sua cama apenas para se divertir com seu corpo e depois dispensa-la como se não fosse nada.
Ele sequer achava que Luffy soubesse o que era sexo.
Até a noticia de três dias atrás, ele ainda achava que Luffy não passava de uma criança inocente que sabia o jeito certo de surrar uns figurões fortes e importantes e derrubar uns governos aqui e ali.
Ele sequer sentia atração sexual? Não era possível, era?
Não, essa mulher, seja ela quem for, deve ter seduzido-o de alguma forma... como se seduz uma criança? Não importa, o que importa é que ela o usou para se divertir e agora tentava se aproveitar de sua inocência para ameaça-lo com uma criança...
E com o roncar final de seu estômago humano, Franky pôde ouvi-lo de novo.
"Eu não me importo"
Sua garrafa de água, que nada tinha a ver com aquilo, se partiu em vários pedaços, tamanha a força que o Ciborgue impôs ao seu aperto com a raiva que de repente voltou a arrebatar-lhe e sem sequer perceber ele já estava de novo debaixo de todo o metal, ranger e calor que era sua criação.
Não se importa? Quem diabos ele pensava que era pra não se importar com uma criança? Por acaso ele se importaria em não ter feito a criança se era pra simplesmente ignorar que ela existia depois?
Homens como ele deveriam ser impedidos de ter filhos, deviam ter as bolas arrancadas para não poder procriar.
Homem? Ele sequer podia chamar seu capitão disso.
Señor Pink era um homem.
Assumiu cada um de seus erros, chorou a perda de seu filho e ficou ao lado de sua mulher até o fim de seus dias, tentando sempre, de alguma forma, trazer de volta aquela que um dia amara, se humilhando simplesmente para vê-la sorrir.
Franky era homem.
Se, por acaso, todos os seus dias de diversão com as gêmeas tivessem gerado uma criança - mesmo que Franky tenha garantido que não teria um filho quando se transformou em ciborgue -, se houvesse um filho de Franky no mundo, um rascunho de prole que fosse, ele jamais abandonaria os frutos que caíram de seus galhos.
Jamais abandonaria a mãe, quem quer fosse. Jamais abandonaria as gêmeas. Jamais abandonaria sua família.
Por outro lado, seu capitão não era homem.
Quem coloca uma criança no ventre de uma mulher e a abandona no primeiro lixão que encontra como se não passasse de uma praga, um problema a se livrar não era homem.
Quem não se importava com quem o amava e com a própria cria não era digno de ser chamado de homem. Não passava de lixo. Uma escória pior do que os piores ratos que viviam nos piores esgotos. Não eram sequer dignos de serem considerados seres.
Não mereciam vida.
Não deveriam viver.
E enquanto o ódio proliferava no peito do Ciborgue, este destratava sua criação, apertando, retorcendo, quebrando, chutando, socando. Rudemente operando a própria criança, melhorando-a com tão grosseiramente que parecia mais interessado em mata-la do que ver crescer.
E a cada pontapé e soco desferido, lágrimas caiam pelos olhos do homem que destruía a própria criação sem ver, mesmo que ele a estivesse melhorando.
E suas lágrimas não caiam pela dor que causava ao que criou, pois afinal já não era capaz de enxergar o que fazia, cegado pelo próprio ódio.
Suas lágrimas traduziam outra dor.
A dor de odiar seu capitão e apenar-se de uma criança que não conhecia, pois no fim, ele mesmo era uma criança abandonada por outro capitão e isso o seu capitão jamais entenderia.
Talvez se um dia seu capitão nascesse de novo e fosse obrigado à ver seu próprio pai o deixando numa ilha repleta de nada além de lixo ele entendesse. Talvez então ele soubesse o que é ser tratado como lixo e pensar-se nada além de lixo. Talvez ele sentisse a dor do abandono e mudasse.
Até lá, em seu peito só haviam três coisas.
Dor, ódio e melancolia.
E começamos os capítulos do Franky. Espero que tenham gostado do que leram. Vou me ir pois tenho que correr pra arrumar a casa. Té mais queridos, bjos e papai ama vocês.
/ifversos
/ifola
