Dez
O senhor Uchiha esperava ao lado da porta de saída daquela pequena pensão, enquanto digitava algo em seu celular ultramoderno. Era pouco estranho ver uma pessoa vestida daquele jeito, dava a impressão de que estava disfarçado com aquele sobretudo preto, as luvas, os óculos e o chapéu, tudo da mesma cor. Meus olhos desviraram para o tempo do lado de fora, parecia mais aberto sem toda aquela chuva que caía ontem à noite e a madrugada de hoje.
Os meus passos descendo as escadas de madeira com uma pequena Sarada ao meu lado segurando o corrimão pareceu chamar sua atenção, pois ele havia erguido a cabeça. E mesmo seu olhar escondido por detrás daqueles óculos supercaros eu não pude evitar àquela sensação de estar sendo exposta por seus olhos. Desviei meu olhar para o chão, controlando aquela sensação estranha que circulava meu estômago. Mordi o lábio discretamente antes de voltar para Sarada depois que descemos o último degrau.
- Agora você me espera perto de seu pai enquanto eu faço o Check-out, ok?
Ela apenas assentiu com a cabeça, obediente, segurava o senhor Popis no colo. Sorri e ergui sua pequena mochila com estampas de borboletas azuis para ela, mas antes que sua mão desocupada pudesse segurar, uma mão enluvada segurou por ela. O senhor Uchiha havia chegado até nós sem eu ao menos perceber, pois um segundo atrás ele estava a alguns metros de distância.
- Eu já fiz o Check-out – ele disse, e agora tomando a minha mala de minha mão.
- Ahn?
Eu fiquei meio que sem reação com sua atitude repentina, meu cérebro parecia que estava se transformando em geleia, pois quando ele estava perto eu me sentia estranha, meus pensamentos ficando descompassados, e por causa desse detalhe que demorou alguns segundos para processar o que ele havia feito.
- Senhor Uchiha... acho que o senhor não tem obrigação em pagar minha conta.
- Não quero discutir sobre isso, senhorita. – Ele deu as costas e com passos largos se afastava. - Apenas vamos embora.
Não havia mais como contestar, estava atônita o suficiente para essa façanha, apenas arquei com sua ordem e o segui, segurando a mão de Sarada para fora da pensão. O dia estava realmente melhor, e alguns raios de sol sobressaíam sobre as nuvens com pouca carregação escura. Seguimos uns dois metros a pé até um carro preto luxuoso e moderno com os vidros escuros. Ele abriu o porta-malas e colocou minha mala e a mochila de Sarada lá dentro, para em seguida estender a mão para a minha mochila, que a entreguei sem contestar. Depois de ajeitar Sarada no banco de trás, ele abriu a porta do carona para mim.
- Obrigada – murmurei baixinho antes de entrar no carro e ser arrebatada por aquele cheiro de perfume, o seu cheiro impregnado por todo o automóvel, despertando aquelas sensações estranhas em mim.
Eu estava me sentindo esquisita.
Dei uma olhada na Sarada sentada no banco de trás com o senhor Popis em seu colo, e sorri assim quando nossos olhares se encontraram e ela retribuiu o gesto ao mesmo tempo que o senhor Uchiha sentava-se no banco do motorista.
O silêncio reinou o caminho inteiro, por um momento eu pensei eu puxar algum assunto com ele, sei lá, queria desesperadamente quebrar aquele clima estranho que havia ali. Mas para falar a verdade, eu estava ansiosa por me ver livre daquele carro. Queria ir para longe do senhor Uchiha, pois não estava conseguindo controlar as batidas aceleradas do meu coração, ou relaxar o meu corpo que estava rígido naquele banco do carona, enquanto olhava para frente sem ter coragem de virar meu rosto para o lado. A tensão que eu sentia daquele homem era quase que insuportável. E o fato de seu dedo indicador batendo no volante toda vez que o carro parava num sinal vermelho e o seu cheiro que estava impregnado por todo o local só piorava tudo, contribuindo para a minha mania de morder o canto de minha boca enquanto torcia os dedos quando estava nervosa.
Quando o carro atravessou os portões de ferro e estacionou na garagem daquela casa, eu não consegui evitar soltar um suspiro de alivio, o que não passou despercebido por ele, que virou seu rosto para me fitar com aqueles olhos escuros sem a presença dos óculos, assim como o chapéu que ele havia retirado assim quando entrou no carro.
- Está aliviada, senhorita Haruno?
Seu comentário pouco irônico fez minhas bochechas ficarem vermelhas.
- Eu... – não consegui achar uma resposta para aquilo, e me senti uma idiota por não ter sido mais discreta.
O que ele deveria estar pensando agora?
E como se soubesse o quanto eu estava sem graça, ele ignorou e saiu do carro primeiro, abrindo a porta de trás para a pequena Sarada sair. Resolvi parar de bancar a tola e reagir, mandando o comando para minha mão abrir a porta do carro, e aconteceu na mesma hora que o ele abria para mim. Foi inevitável não ficar surpresa com sua agilidade e rapidez.
- Obrigada – minha voz saiu baixinha, meus olhos focando o chão, sem coragem de encarar seus olhos negros, e constrangida por ainda estar corada.
Depois de pegar as minhas coisas no porta-malas e entregá-las para mim, nós finalmente entramos na casa. Sarada havia pegado em minha mão e de alguma forma aquilo me confortou, levando embora um pouco da tensão em meu corpo, consequência da presença de seu pai que estava a minha frente.
Karin apareceu daquele mesmo jeito robótico com passos sentinelados, abaixou sua cabeça assim que ficou de frente para o senhor Uchiha, que acabara de encerrar seus passos.
- Seja bem-vindo novamente, mestre. – E quando ergueu sua cabeça, seus olhos âmbar capturou logo os meus, e uma expressão surpresa passou como um raio e um arquejar de sobrancelhas antes de fitar a pequena Sarada ao meu lado.
- Senhorita Haruno? – E fitou o senhor Uchiha, como se esperasse uma explicação de sua parte.
- Olá, Karin – sorri meio que comprimindo os lábios, ainda chateada com o modo como ela me pôs para fora ontem à noite. – Bom dia.
- Bom dia, senhorita Haruno – respondeu, sem um pingo de emoção ou sentimento na voz, parecia programada como se fosse um robô.
- Karin, a senhorita Haruno irá continuar trabalhando aqui. – A voz grossa do senhor Uchiha trouxe sua atenção toda para ele.
Ela assentiu com a cabeça.
- Sim, mestre.
- Imagino que já esteja familiarizada com a rotina da casa – ele agora olhava para mim. Eu apenas assenti com a cabeça, sentindo uma timidez constrangedora quando eu me via sendo alvo de seus olhos. – Mais tarde traga sua carteira de trabalho para que eu possa assinar.
- Sim, senhor – minha voz saiu baixinha, desviando meus olhos para o lado.
- E você, mica mea arahide, não fuja mais de casa – e passou a mão em seus cabelos, parando em seu ombro. – Estamos entendidos?
- Tá. – Ela respondeu tão baixo que eu mal consegui escutar, mesmo estando ao seu lado.
Em seguida ele deu as costas e se afastou, indo em direção as escadas e sumindo no andar de cima, acalmando meus batimentos cardíacos.
- Seja bem-vinda novamente, senhorita Haruno. – A voz seca de Karin trouxe minha atenção para si, sem saber ao certo se ela estava sendo falsa ou verdadeira. Karin era uma pessoa indecifrável.
- Obrigada.
- Babá, agora nós vamos subir e brincar de chazinho. – Sarada me puxava pela mão, sua animação era visível em sua voz.
- Isso não será possível, pequena Sarada, pois o professor Hatake ainda se encontra na biblioteca lhe esperando.
A voz de Karin fez ela parar, e eu continuei:
- Isso quer dizer que você irá subir e se arrumar para estudar.
- Ah – reclamou, soltando a minha mão -, não queria estudar hoje.
Me agachei a sua frente, segurando seus braços.
- Nem pensar você faltar aula hoje, já basta ter fugido de casa para ir atrás de mim. Você quer que o seu pai me mande embora? – Ela negou com a cabeça. – Então você vai subir para o quarto, vai se arrumar rapidinho enquanto eu vou trocar de roupas e preparar algo para você comer...
- Não precisa se preocupar com esse detalhe, senhorita Haruno, o dejejum da pequena Sarada já está pronto, só irei pôr a mesa.
Ergui meus olhos para ela, agradecida.
- Obrigada, Karin – soltei um pequeno sorriso e voltei-me para a menina. – Então é melhor você se apressar e a tarde nós brincamos de chazinho, e como bônus irei fazer cookies com gotas de chocolate.
- É mesmo? – E seus olhos brilharam.
Sorri, assentindo com a cabeça.
- Sim.
- Tá bom – e em seguida me abraçou fortemente antes de sair correndo em direção as escadas.
- Está fazendo um excelente trabalho, senhorita. – Disse Karin enquanto eu me pus de pé. – É bom tê-la novamente nesta casa.
Ela não esperou por resposta, apenas deu as costas e saiu, me deixando sozinha e confusa sobre o que pensar a seu respeito. Eu realmente não conseguia entender Karin.
. . .
Mais tarde naquele dia eu estava indo atrás de Sarada para ajudá-la se arrumar para o almoço depois que as aulas acabaram quando me esbarrei com o senhor Hatake no corredor. Ele estava vindo da direção da biblioteca, e como ontem, estava com sua bolsa de couro marrom retangular no ombro direito e os livros e papéis nos braços. Ele sorriu para mim, parando a minha frente enquanto arqueava as sobrancelhas.
- Boa tarde senhorita, soube que foi demitida e readmitida em menos de vinte quatro horas.
Sorri meio que sem graça, coçando meu braço esquerdo. Não tivemos chances de trocar diálogos mais cedo, devido ao atraso de Sarada pelo simples detalhe de que ela havia fugido de casa.
- Pois é, foram poucas horas bem turbulentas, mas tudo está sob controle agora.
- Que bom – e abriu aquele sorriso sedutor que combinava perfeitamente com aquela pinta perto de sua boca. – Seria uma pena essa casa, Sarada e... eu ficar sem o brilho de sua presença.
- Ah.
Minha nossa, era impressão ou o senhor Hatake estava mais ousado em suas investidas? Fiquei sem o que responder, apenas com a quentura do rubor em meu rosto.
- Ainda espero sua ligação.
Seus olhos negros fitando os meus me causava uma sensação de letargia, era como se a minha vontade fosse usurpada, recriando outras que não eram minhas.
- Ligação – murmurei, hipnotizada por aqueles olhos, minhas vontades todas se moldando.
- Domingo à noite – disse lentamente, com uma paciência invejável.
E de repente eu me via com uma vontade tentadora em dizer sim, esquecendo qualquer tipo de consequência que poderia vir. Por um momento eu havia me esquecido de tudo, da casa, a Sarada, minhas obrigações, meus princípios...
- Eu...
- Olá, Sasuke – o senhor Hatake cumprimentou alguém que estava atrás de mim sem ao menos tirar os olhos dos meus.
Aquilo foi como um destrave para me trazer de volta a vida real, desviando meus olhos do senhor Hatake rapidamente, piscando-os várias vezes, voltando minha consciência, confusa.
- Quero falar com você – a voz potente e fria do senhor Uchiha, assim como a sua presença me causou um sentimento flamejante que me queimava por dentro, escorraçando para fora todo aquele sentimento estranho que sentia segundos atrás.
Tomei coragem e virei meu corpo para trás, só para me chocar com o olhar penetrante dele, me fitando. Minha boca abriu e depois fechou novamente, eu estava me sentindo uma tonta. E num ato de desespero interno, apenas abaixei minha cabeça levemente e murmurei um com licença e saí por um outro corredor a minha direita, minhas pernas bambas diante da situação constrangedora.
A quanto tempo ele estava ali?
. . .
Estava na cozinha tirando a fornalha de cookies com gotas de chocolates do forno e colocando em cima do fogão. O cheiro dos cookies estava por todos os lugares e a aparência estava muito boa, do jeito que a Sarada gostava. Só de imaginar a expressão prazerosa da pequenina enquanto comia os cookies fazia um sorriso abrir em meu rosto. Fui em seguida adoçar o suco de laranja na jarra, seria um bônus especial para seu chazinho.
- Senhorita Haruno. – A voz de Karin soou enquanto adentrava a cozinha, o som de seus saltos ecoava por todo o cômodo.
- Sim?
- O mestre Uchiha lhe espera em seu escritório, leve a sua carteira de trabalho.
- Ah... Ok.
Coloquei a jarra de suco na geladeira e deixei os cookies esfriando em cima do fogão e fui direto para meu quarto pegar minha carteira que estava dentro da mochila. Aliás, iria ter todo o trabalho de arrumar minhas coisas de volta no lugar quando meu expediente acabar.
Segui com passos rápidos ao escritório do senhor Uchiha, e quanto mais me aproximava, mais eu me sentia novamente tensa. Eu ainda tentava entender o que havia sido aquilo a algumas horas atrás com o senhor Hatake, era um sentimento estranho e confuso, e quando o senhor Uchiha apareceu tudo se desandou, como se eu estivesse numa espécie de feitiço e sua presença tivesse quebrado.
Sorri ironicamente balançando a cabeça para os lados.
Feitiço?
Eu só poderia estar pirando, ou a minha amnésia me deixando louca de vez.
Cheguei a porta do escritório e fiquei parada por um momento, suspirei profundamente, tentando me colocar sob controle de meus próprios sentimentos e agir naturalmente, e não como uma alienada que não consegue ficar mais de dois minutos na frente de um homem bonito sem gaguejar.
Vamos lá, Sakura. Você consegue lidar com isso.
Levei a mão a porta e dei três batidas e esperei.
- Entre – sua voz soou abafada.
Quando abri a porta fui novamente arrebatada com o cheiro de seu perfume, me paralisando por um segundo no portal, extasiada com aquele cheiro embriagante e pouco familiar.
O senhor Uchiha estava sentado atrás daquela enorme mesa com papéis e objetos pessoais estrategicamente espalhados por pontos que deixava a mesa arrumada. Seus cabelos negros estavam úmidos e ele usava uma camisa social de linho preto com as mangas compridas arregaçadas até os cotovelos, e os três botões de cima aberto. Se ele estava bonito com aquele terno e sobretudo com chapéu mais cedo, agora com uma roupa mais casual ele estava diabolicamente lindo.
Todo meu autocontrole havia ido embora, me deixando novamente parecer como uma colegial boba.
- Senhorita, entre – sua voz linda e rouca agora mais suave e com aquele sotaque fez todos os pelos do meu corpo se enrijecer.
Eu me sentia trêmula enquanto me aproximava e sentava na cadeira com estofado de couro marrom que ele me indicava com a mão para eu me sentar. Seus olhos negros nos meus, me impedia de pensar com clareza e acabei gaguejando miseravelmente:
- Ah... senhor Uchiha... eu... eu trouxe a... carteira. – Estendi a carteira, odiando-me por novamente agir como uma idiota.
Qual era o meu problema?
Ele estendeu a mão e pegou a carteira de minha mão, fazendo as pontas de seus dedos tocarem os meus no processo, me causando um leve tremor com seu toque, e tudo isso sem desviar seus olhos nos meus. Sua expressão parecia mais suave do que cedo de manhã, que parecia mais irritado.
E antes que minha atitude covarde me fazer desviar os olhos para o lado, ele desviou primeiro, abrindo minha carteira ao mesmo tempo que pegava uma folha de preenchimento dentro de um fichário preto em cima da mesa. E o silêncio tomou conta do local. E mesmo eu sendo considerada uma pessoa tagarela eu não conseguia achar palavras para começar um diálogo com ele sem eu empacar diante de sua atenção em mim. E assim optei pelo silêncio, fitando minhas mãos em meu colo enquanto mordia novamente o canto de minha boca, esperando ele terminar para eu dar o fora dali.
- Está mais calma agora, senhorita?
A sua voz soando de repente me despertou de meus devaneios de fuga, ergui meus olhos para cima, ele ainda mantinha sua atenção em preencher o papel com meus dados que estavam na minha carteira
Franzi o cenho, confusa com sua pergunta.
- Perdão?
E sem me olhar respondeu, paciente:
- A senhorita estava agitada mais cedo, lembra-se?
- Ah... – senti minhas bochechas ficarem quentes quando a cena lamentável da minha humilhação me veio à mente. – Sim. Estou sim, obrigada.
Silêncio.
Voltei a olhar um ponto qualquer naquela mesa, apenas escutando o som da caneta no papel.
- Percebi que está bem familiarizada com a casa e os empregados.
Seu comentário me fez voltar a atenção para ele.
- Como assim?
E desta vez ele ergueu seus olhos para me fitar.
- A senhorita é muito querida aqui.
- Ah.
Estava surpresa com que ele havia dito. Querida aqui? Apesar de que Sarada havia deixado claro seus sentimentos por mim, ele agora tinha consciência daquele detalhe.
O senhor Uchiha folheou minha carteira e carimbou uma página e em seguida escreveu algo. Ele voltou a falar:
- Nunca vi Karin argumentar tanto por alguém como ela argumentou a favor da senhorita.
Não pude evitar não me sentir surpresa com aquela revelação. A Karin argumentando por mim? Era pouco difícil de acreditar diante de sua expressão fria perante a mim e a todos. Mas uma lembrança me surgiu quando ela disse enquanto me colocava para fora da casa que tinha argumentado a meu favor, mas não acreditei em suas palavras diante de suas ações.
- Ela fez isso? – Minha voz soou baixinha.
- E pelo visto – ele deu outra carimbada, ignorando minha pergunta antes de erguer os olhos para mim -, é querida pelo professor Kakashi também.
- Ahn? – Franzi o cenho diante do rumo que a conversa estava tomando.
- Parece que ele está encantado com a senhorita, se é que me entende.
- Deve ser só impressão.
O que ele queria com aquele assunto? Eu não tinha feito nada de errado para uma abordagem daquela, certo?
- Assim espero – disse, voltando sua atenção para o documento.
O quê?
- Só quero deixar algumas coisas em claro, senhorita Haruno – e me fitou, estava bastante sério agora -, o momento que aceitou trabalhar nesta casa, terá que arcar com as regras e uma dela, nada de romances pelos cantos entre funcionários. Não permito esse tipo de situação no ambiente em que minha filha vive.
Senti meus olhos arregalando enquanto tomava consciência do que ele estava pensando.
- Senhor... – interrompi-me, incrédula com suas palavras. Balancei minha cabeça para os lados e umedeci meus lábios rapidamente. – Por Deus, eu... não existe nada entre mim e o senhor Hatake. Eu juro. Eu mal o conheço, isso é um mal-entendido
Não exatamente um mal-entendido, pois o senhor Hatake havia me abordado com intensões românticas para cima de mim, e só a lembrança me fazia sentir que eu estava fazendo algo errado.
Ele não respondeu, apenas esticou a folha que estava preenchendo e uma caneta para mim.
- Assine na área marcada.
Peguei a caneta e a folha e assinei na parte de baixo aonde havia um pequeno x, e não pude evitar de perceber a sua caligrafia perfeita escrita os meus dados na folha.
- Também foi a primeira vez que vi minha filha querer tanto alguém perto de si. – Ele disse, voltando o assunto inicial e me fazendo fitá-lo, ao mesmo tempo devolvi a folha e a caneta. – Foi uma surpresa para mim. Geralmente Sarada se afasta de todos.
- Talvez seja por que ela colocou na cabeça que todos a odeia. – Aquela era minha chance de abordá-lo sobre o comportamento da menina. – Senhor, eu acho que a sua ausência faz com que ela se sinta solitária, faz ela criar suposições sobre a aceitação da família sobre ela.
- Estou ciente desse detalhe, senhorita Haruno.
Senti meu cenho franzir com sua resposta.
- O senhor não pensa em fazer nada a respeito?
- Creio que isso não diz respeito a seu trabalho – sua resposta soou fria enquanto ele estendia a carteira para mim.
Senti algo ferver em minhas veias, e uma irritação tomar conta de mim. O que ele pensa que a Sarada é? Ela era uma criança que merecia toda a atenção, não algo que se resolva por telefone. Engoli atravessado uma bela de uma resposta e peguei minha carteira de suas mãos, me levantando da cadeira, ignorando aqueles sentimentos idiotas que meu corpo transmitia.
- Obrigada por assinar minha carteira – murmurei baixinho –, com licença.
Dei as costas para sair daquele lugar, ir para outro cômodo longe daquele homem, longe de sua frieza e prepotência para com sua filha. Era difícil entendê-lo, uma hora parecia preocupado com Sarada, e outra hora parecia nem aí com o bem estar da menina. Qual era o problema dele?
- Senhorita. – Sua voz soou quando minha mão já estava na maçaneta dourada para abrir a porta.
Parei, fechando os olhos com força para depois abri-los e voltar virar meu corpo e fitar sua imagem escandalosamente bela me olhando com uma calma irritante.
- Seja bem-vinda.
- Obrigada.
Saí do escritório rapidamente, fechando a porta atrás de mim. Pude soltar todo o ar que prendia de uma vez, colocando minha mão trêmulas em meu peito, sentindo meu coração acelerado na mesma proporção do frio que circulava meu estômago.
O que diabos havia sido aquilo?
