Capítulo 10
O casamento
"Changing up and breaking all my rules ever since we met."
"Tunnel Vision" – Justin Timberlake.
Elizabeth aproveitou o horário do almoço para se aventurar pela biblioteca do castelo. Ela não precisava necessariamente ler algum livro, mas sentia-se confortável apenas de estar cerca daquelas folhas e volumes. O frio do outono já chegava aos corredores de Hogwarts, e a biblioteca era um escape quentinho para aqueles que, assim como Elizabeth, procuravam se refugiar do frio.
Sua fuga do almoço no Salão Principal, contudo, tinha outros motivos que não eram a temperatura. Jesse, apesar de ser um rapaz muito simpático e agradável, estava deixando cada vez mais claro que tinha interesses românticos na estagiária e parecia que ele estava em todo lugar perto dela. Ela poderia se desfazer do rapaz com facilidade. Sempre tendeu a ser muito franca e sincera com as pessoas. Um simples "eu não estou interessada" resolveria o problema. Todavia, fugir era mais fácil naquele momento, pois Elizabeth, internamente, sabia que na verdade estava fugindo de Snape.
Tinha ficado extremamente preocupada com o professor quando ele se ausentou do castelo para atender ao chamado de Voldemort. Não negava mais que sentia um grande apreço pelo homem. Ele, de certa forma que não compreendia, era especial para ela. Mas seu desespero com o bem-estar de Snape na outra noite e toda aquela preocupação era algo que a assustava, ainda mais quando percebeu que o perfume do professor era muito semelhante ao que ela sentiu na Amortentia.
Tentando manter a mente longe dos pensamentos acerca de Snape, Elizabeth lia um livro qualquer quando viu a melhor amiga de Harry Potter se aproximar. A garota segurava nas mãos dois livros grossos que pareciam pesar nas mãos pequenas.
— Srta. Jones, eu posso me sentar aqui? – Hermione perguntou, acanhada.
— Claro – concordou, tirando as pernas de cima da outra cadeira. — E pode me chamar de Elizabeth.
Hermione depositou os livros sobre a mesa, puxou a cadeira para perto de Elizabeth, que a observava com a sobrancelha erguida, e se sentou.
— Eu já queria falar com você há algum tempo. – A estudante sussurrou.
— Aconteceu alguma coisa? – Perguntou também sussurrando e curvando-se na direção da adolescente.
— Umbridge não tem nos ensinado DCAT. O Ministério está nos reprimindo.
— Sim, eu sei.
— Eu, Harry e Rony fundamos meio que uma... – olhou para os lados — organização secreta.
— Quê? – Elizabeth arregalou os olhos.
— Armada de Dumbledore. Nós nos reunimos na Sala Precisa e treinamos Defesa Contra as Artes das Trevas por conta própria.
— Hm... – Murmurou com surpresa. — Ousados!
Hermione riu e corou.
— Harry soube por Sirius que você faz parte da Ordem e eu pensei que poderia nos ajudar.
— Eu?
— Harry é um grande bruxo para sua idade, mas creio que também precisamos de alguém mais experiente.
— Eu adoraria ajudar. – Elizabeth animou-se.
Hermione explicou para ela como a AD funcionava e lhe deu a moeda que os membros usavam para se comunicar. Combinaram um treinamento para aquela noite e Dobby levaria Elizabeth até a Sala Precisa. A aluna da Grifinória agradeceu e se despediu de Elizabeth, que ainda ficou por mais algum tempo na biblioteca. Escutou o sinal tocar e suspirou. Não poderia fugir de Snape para sempre.
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Snape liberou a última turma do dia depois de um dia tranquilo de aulas, embora se sentisse exausto; não se sentia bem desde a reunião com o Lorde das Trevas. Percebendo isso, Elizabeth ajudou-o mais efetivamente e se responsabilizou de avaliar os alunos enquanto o professor apenas observava a aula correr. O tato e empatia que sua estagiária demonstrava não passaram despercebidas pelos olhos de carvão.
Ele assistiu, aliviado, o último aluno deixar a sala. Fechou os olhos e massageou as têmporas. Escutou um leve barulho de frascos se chocando ao longe, até que sentiu um toque delicado no seu braço. Levemente assustado com o contato, abriu os olhos e encontrou Elizabeth muito perto com um olhar comedido.
— Aqui – ela ofereceu um frasco de poção.
Snape pegou o vidro e acidentalmente encostou seus dedos gélidos nos de Elizabeth, que sentiu o coração acelerar dentro do peito. Ele a olhou por um breve momento, procurando por alguma reação, porém a jovem mulher escondeu muito bem o seu nervosismo. Um pouco desapontado – por esperar uma reação a qual não sabia bem –, bebeu a poção e devolveu o frasco para ela que, procurando fugir dos olhos de obsidianas, logo voltou para o laboratório para guardar a poção.
Quando Elizabeth retornou, Snape ainda estava em pé no mesmo lugar, com o olhar perdido no chão. Aproximou-se com os braços cruzados e parou na frente do professor. Snape subiu o olhar passando a vista pela extensão do corpo da sua estagiária, demorou-se nos lábios e alcançou seus olhos castanhos escuros. Encararam-se em silêncio por algum tempo e, surpreendentemente, quem desviou o olhar primeiro foi Snape.
— Quer conversar sobre? – Elizabeth perguntou em voz baixa.
— Não.
— Tudo bem – assentiu com a cabeça. — Acho que você deveria descansar. Pode deixar que eu arrumo a sala.
Snape apenas concordou com um murmuro e caminhou lentamente para a porta, sentindo que a poção começava a fazer efeito. Ele pôs a mão sobre a maçaneta e disse:
— Tenha uma boa noite.
— Severo – ela o chamou, incerta, lembrando de quando ele a chamou pelo seu primeiro nome. Percebeu os ombros dele ficarem tensos e esperou que a repreendesse, porém ele não disse nada. — Melhoras.
— Obrigado, Elizabeth – murmurou sem olhar para ela e saiu da sala.
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Elizabeth seguiu para o laboratório após o jantar. Snape não havia aparecido no Salão Principal e ela se questionou, mais uma vez preocupada, se o homem ao menos havia se alimentado. Preparou as poções para Madame Pomfrey lutando internamente a todo momento contra sua vontade de ir até os aposentos do professor para verificar se estava tudo bem. Era só uma dor de cabeça, sua doida, pensava consigo. Quando já estava arrumando as coisas para sair, já que teria o encontro da AD, Snape adentrou o laboratório e congelou quando deu de cara com Elizabeth.
— O que faz aqui? – A pergunta poderia parecer mordaz, mas a voz dele continha mais surpresa do que arrogância.
— As poções para a ala hospitalar, ora. – Respondeu o óbvio. — Mas já estou de saída. Está se sentindo melhor?
— Estou – caminhou até a própria bancada para dar continuidade à sua poção. — Não precisava ter vindo.
— E por que eu não viria? – Retorquiu com um leve sorriso não esperando nenhuma resposta. Snape percebeu, pela primeira vez, as leves covinhas que ela tinha nas bochechas. — Estou indo. Boa noite, Severo. — Atreveu-se a chamá-lo assim mais uma vez.
— Até amanhã, Elizabeth.
Ela sorriu mais ainda e saiu do laboratório. Caminhou até seus aposentos, tomou um banho rápido e, assim que terminou de se arrumar, escutou um som de desaparatação na sala.
— Boa noite! Dobby veio levar a srta. Jones até Harry Potter. – O elfo disse com sua voz fina.
Vagaram em absoluto silêncio pelos corredores do castelo, tomando cuidado com Filch ou algum professor que estivesse fazendo a ronda noturna. O elfo parou defronte a uma parede do quinto andar e após explicar a lógica da Sala Precisa, uma porta apareceu. Elizabeth agradeceu e adentrou a sala. Todos os adolescentes pararam e olharam assustados na sua direção, acreditando que haviam sido descobertos e que estavam encrencados.
— O que faz aqui? – Potter perguntou, nervoso.
— Eu a convidei. – Hermione respondeu, ganhando a atenção dos outros. — Elizabeth irá nos ajudar a treinar.
— Eu falei para não chamar ela – o garoto reclamou entredentes, sussurrando para que apenas a amiga escutasse.
— Fico feliz que tenha vindo, Elizabeth. – Hermione o ignorou.
Elizabeth, então, tomou partido e começou a ensinar e aprimorar alguns feitiços de defesa. Ela era uma bruxa poderosa com um vasto conhecimento mágico e tinha facilidade em ensinar. Potter não escondeu sua desaprovação com a presença de Elizabeth que, por sua vez, não conseguia entender por que o garoto parecia detestá-la. Treinaram efetivamente por um longo tempo até decidirem que já ficava tarde. Calma e lentamente, os alunos foram saindo da sala em pequenos grupos até restarem o Trio de Ouro e Elizabeth.
— Bem, eu vou embora. Foi uma aula interessante. – Sorriu. — Boa noite. – Acenou para os adolescentes antes de sair, e não deixou de notar que Potter coçava a cicatriz.
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O fim de semana chegou rápido e com ele o primeiro jogo de quadribol daquele ano letivo. O Salão Principal estava muito cheio e os alunos estavam animados, principalmente os das Casas que se enfrentariam: Grifinória e Sonserina. Elizabeth tomou o café da manhã animada. McGonagall estava ansiosa ao seu lado e assim que terminou seu desjejum, correu até a capitã do time para desejar boa sorte e até Snape trocou algumas poucas palavras com o capitão do time da Sonserina. Jesse, que era o goleiro do time, parou próximo ao professor, aguardando para falar com o capitão. Snape fez questão de perfurar o aluno com os olhos quando passou por ele.
Elizabeth seguiu com o restante da escola para o campo de quadribol e sentou-se entre Minerva e Snape na arquibancada. A multidão fazia um barulho ensurdecedor e Elizabeth achou engraçado ver como Minerva era tão competitiva.
Os dois times entraram no campo sob os gritos das arquibancadas. Madame Hooch apitou, os jogadores subiram ao ar com suas vassouras e as bolas foram soltas. Lino Jordan, aluno da Grifinória, era o narrador.
— Johnson está com a goles. Que jogadora ótima ela é! Falo isso há anos, mas ela nunca quer sair comigo...
— Jordan! – Minerva ralhou com o garoto e Elizabeth riu.
— É apenas um fato engraçado, professora. – O garoto falou no microfone. — E ela desvia de Warrington, ela está passando por Montague...
— O que eles estão cantando? – Elizabeth murmurou quando percebeu um som muito alto vindo da arquibancada da Sonserina.
Lino Jordan pareceu perceber a mesma coisa e por um momento parou de narrar. Então puderam ouvir com clareza a torcida sonserina cantar:
"Weasley não pode salvar nada, ele não pode bloquear um aro, é por isso que todos os sonserinos cantam: Weasley é o nosso rei!".
Elizabeth, por mais que soubesse o quão maldoso era, não conseguiu evitar um pequeno curvar dos lábios, apesar de ter se preocupado em como isso afetaria o goleiro da Grifinória. Do seu lado, Snape soltou o ar pelo nariz, o que ela interpretou como uma risada. Minerva, do seu outro lado, estava revoltada e nervosa. Tentando abafar os gritos dos sonserinos, Jordan voltou a narrar gritando ao microfone.
— Vamos agora, Angelina! Só falta ultrapassar o goleiro. ELA LANÇA... E...
Jesse salvou o gol e arremessou a goles para Warrington, que ziguezagueou entre o time vermelho e amarelo e jogou a bola pelo aro central.
— Sonserina marca. – Jordan declarou desanimado. — Dez a zero para a Sonserina.
Elizabeth comemorou, contida, e sentiu o olhar de Snape sobre si. Rindo, ela perguntou:
— O que foi?
— Não precisa torcer para a Sonserina só porque estou do seu lado. – Ele falou com uma expressão neutra. Elizabeth não se lembrava de tê-lo visto relaxado desse jeito alguma vez.
— Estou torcendo para Sonserina porque era a casa da minha mãe. – Falou alto para que ele pudesse ouvir. — E porque a Corvinal não está jogando.
— Você me decepciona, Elizabeth. – Minerva brincou com um falso tom ferido e as duas gargalharam.
A jovem mulher voltou a atenção para o jogo que não ia nada bem para a Grifinória. Weasley estava desapontando como goleiro e a torcida parecia cada vez mais desanimada, enquanto a arquibancada verde e prata cantava cada vez mais alto. Não havia nenhum sinal do pomo de ouro e os apanhadores dos times, Potter e Malfoy, apenas voavam atentos ao redor do estádio.
Rony Weasley deixou entrar mais três gols até que, finalmente, Angelina Johnson conseguiu marcar o primeiro gol da Grifinória e, em meio aos aplausos e gritos da torcida, pode-se ouvir o rugido do chapéu de leão que Luna Lovegood usava.
Demorou mais algum tempo até que Potter mergulhasse em direção ao pomo que estava próximo ao chão, perto de um dos aros da Sonserina. Malfoy também voou em direção à bola dourada e o estádio prendeu a respiração. O pomo mudou de direção, favorecendo Malfoy que estava à esquerda do apanhador adversário. Harry Potter segurou sua vassoura com firmeza, aumentando a velocidade e agora ficando lado a lado com o sonserino. Estando a um metro do chão, o garoto estendeu a mão e pegou o pomo. Um balaço atingiu o grifinório, que caiu da vassoura, mas por estar próximo do chão não sofreu nenhum machucado.
A arquibancada da Grifinória explodiu em comemorações. Minerva aplaudia de pé, feliz com a vitória da sua casa. Elizabeth virou-se para Snape que tinha a cara fechada. Ela sorriu achando graça, deu dois tapinhas no ombro do professor e disse:
— A vida tem dessas, Severo.
— Hum... – murmurou, indignado.
Porém, uma exclamação das arquibancadas chamou a atenção dos docentes. No gramado salpicado pela neve, Malfoy parecia discutir com um dos gêmeos Weasley, que Potter segurava tentando conter. De repente, Potter soltou o ruivo e seguiu em direção ao sonserino. Potter fechou o punho e deferiu um soco no estômago de Malfoy, que caiu no chão chorando de dor. Minerva espantou-se e Snape pareceu ficar ainda mais irado. Os dois diretores desceram a arquibancada furiosos e Elizabeth permaneceu sentada, surpreendida com o que acontecia no gramado do estádio. Madame Hooch usou um feitiço para tirar Potter de cima de Malfoy e parecia gritar com os jogadores. Os times se retiraram da quadra e Elizabeth retornou ao castelo.
Até o jantar, a notícia de que o Ministério instalara o Decreto Educacional nº 25, dando a Umbridge poder sobre punições designadas a alunos, já havia se espalhado. Potter e os gêmeos Weasley foram proibidos de jogar quadribol pelo resto do ano letivo. Snape deveria estar aliviado com a notícia, pensou Elizabeth, mas também estava muito irritado com a confusão do fim do jogo e por isso ela preferiu permanecer distante.
Na manhã de segunda-feira, durante o café da manhã, Elizabeth conheceu Hagrid, o professor de Trato de Criaturas Mágicas. Soube pelo próprio diretor que o meio-gigante havia se ausentado para uma missão da Ordem da Fênix. Analisando o rosto machucado de Hagrid, Elizabeth perguntou-se que tipo de missão Dumbledore gostava de incumbir aos membros da Ordem, preocupando-se com o que o padrinho poderia designar a ela futuramente.
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Novembro passou tão rápido quanto um foguete, e Umbridge continuava a irritar toda a escola. Elizabeth já esperava pela hora em que McGonagall teria um surto e partiria para cima da professora de DCAT.
Snape, já na metade do mês, recusou o convite para o casamento de Edward. Alegou que estaria ocupado no dia, embora Elizabeth soubesse que o homem estava apenas envergonhado de ter sido convidado, contudo, não insistiu.
Dezembro, por sua vez, chegou muito frio e com ele o casamento. No segundo sábado do mês, Elizabeth compareceu à cerimônia religiosa, que ocorreu numa pequena igreja da vila trouxa irlandesa onde o casal morava. Fora uma cerimônia muito reservada. Estavam presentes apenas os pais e avó de Elizabeth – que, embora fosse uma vila inteiramente trouxa, preferiu usar a Poção Polissuco para se reservar –, um casal de amigos trouxas de Emma – que foram seus padrinhos –, a tia da noiva e Philip, melhor amigo e padrinho de Edward.
No domingo, Snape lia um livro qualquer quando escutou a batida tímida à porta. Acreditou que se tratava do diretor e, cansado, caminhou até a porta. Não conseguiu, por mais que tivesse tentado, esconder a cara de admiração e surpresa quando encontrou Elizabeth muito bem maquiada e com um longo sobretudo negro parada à sua porta. Ela era, de fato, uma mulher belíssima e nem mesmo Snape era imune a isso. A jovem mulher deu um sorriso tímido, chamando a atenção do homem para seus lábios pintados de vermelho, e disse:
— Eu estou indo para o casamento. Pensei que talvez você tivesse mudado de ideia e vim chamá-lo para me acompanhar.
Snape demorou alguns segundos para se recompor. Ele pigarreou e falou:
— Eu nem ao menos estou arrumado. Não quero atrasá-la.
— Nós temos meia hora até a chave do portal ser ativada. – Mostrou uma pequena caixinha de papelão. — Eu posso esperar.
Snape não entendeu muito bem o porquê, mas aceitou. Convidou Elizabeth para entrar e pediu que se sentasse enquanto trocava de roupa. Quando retornou à sala, seu olhar vagou direto para a perna de Elizabeth que escapava do sobretudo devido à maneira como estava sentada.
— Vamos? – Disse chamando a atenção dela para si.
Elizabeth conseguiu esconder sua admiração melhor do que o professor minutos antes. Ele estava extremamente elegante, trajando uma calça social preta de corte fino, uma camisa de seda negra e um blazer de veludo igualmente preto. Levantou-se do sofá enquanto ele ia ao cabideiro e também pegava um sobretudo para vestir. Precisaram caminhar com pressa até os limites do castelo, onde puderam rodopiar através da chave do portal.
Firmaram os pés na grama livre de neve. O clima no jardim estava muito aconchegante e morno, o que fez Snape retirar o sobretudo.
— Eles lançaram um feitiço aquecedor pela extensão do jardim. – Elizabeth explicou enquanto andava até o pequeno portão.
— Boa tarde – a recepcionista disse com um largo sorriso. — Convites? – Os dois entregaram os papéis cor de creme para a mulher, que lhes sorriu antes de desejar uma boa festa.
Snape e Elizabeth atravessaram os jardins juntos. Algumas pessoas que conheciam o professor o fitaram com curiosidade, perguntando-se por que o primogênito dos Jones o convidara. Um bruxo barbudo, mais afastado, encarou o casal com o cenho franzido. Edward, muito elegante em um smoking cinza, estava recepcionando os convidados.
— Ed! – Elizabeth exclamou, correndo para abraçar o irmão. — Você tá um gato!
— Você está perfeita – beijou a bochecha da irmã. — Fico feliz que tenha vindo, Snape. – Disse apertando a mão do outro homem. — Tinha esperanças que Elizabeth o fizesse mudar de ideia, nem tirei seu nome da lista.
Snape apenas balançou com a cabeça e deitou seus olhos sobre a mulher, como se perguntasse por que Edward o considerava tanto. Bastou um olhar seguido de um dar de ombros de Elizabeth para Snape entender que o homem mais novo tinha conhecimento de que escondia a existência dos Jones de Voldemort.
— Emma está lá dentro. – Edward disse para a irmã. — Mamãe tinha ido até lá falar com ela.
— Vou ver como está a noiva, então. – Elizabeth disse e olhou para Snape como se perguntasse se ele ficaria desconfortável em ficar sozinho por um tempo.
— Dumbledore deve chegar em breve – comentou Edward. — McGonagall já chegou. Moody e Kingsley também. Pode ficar à vontade, Snape.
Elizabeth, então, se despediu dos dois homens e caminhou para a casa. Assim que entrou, retirou seu sobretudo e o pendurou no cabideiro pregado à parede. Estava prestes a subir as escadas quando escutou alguns sussurros vindos da sala de jantar. Reconhecendo as vozes dos pais, aproximou-se lentamente para ouvir.
— Você precisa se controlar mais, Robert. – Cássia repreendeu o marido. — Assim ela vai acabar descobrindo da pior forma.
— Ainda estou insatisfeito com Dumbledore. Preciso conversar com ele. – O homem disse, magoado.
— Elizabeth está bem, não foi uma missão perigosa. E, de qualquer forma, já faz meses disso.
— Mas poderia ter sido perigoso. – Robert ralhou com a esposa. — Ter a deixado sozinha com Snape não foi uma ideia prudente.
— Fique quieto. Desse jeito não vou conseguir ajeitar sua gravata. – Brigou. — Snape não faria isso.
— Sei que não. Mas ele ainda é um comensal e está sempre em contato com ele. – Diminuiu o tom da voz e Elizabeth deu mais um passo para ouvir melhor. — Ele pode deixar escapar ou...
— Pare com isso! Nada de ruim acontecerá à nossa filha. – Deu uma pausa antes de dizer. — Deveríamos contar a ela.
— Ainda não, Cássia. Ela não pode descobrir ainda.
Elizabeth deu alguns passos para trás, tentando entender do que os pais falavam. O que tanto temiam? Que Voldemort tomasse conhecimento sobre a ascendência Ravenclaw da família? Mas se temiam isso, por que ela era a principal preocupação do casal? E quanto a Edward? E seu próprio pai e sua avó? E o que ela não poderia descobrir? Sentiu a cabeça dar voltas e um pressentimento ruim descendo por todo seu corpo. Precisou respirou fundo algumas vezes, passar as mãos sobre os cabelos até se acalmar antes de caminhar na direção da sala de jantar, ouvindo que seus pais se silenciaram quando escutaram os passos se aproximando.
— Olá – ela saudou como se não soubesse de nada.
— Ah, Lizzie! – Seu pai exclamou com um brilho nos olhos. — Você está linda.
Elizabeth sorriu agradecida – embora o sorriso não tivesse chegado aos seus olhos –, escondendo dentro de si a decepção e medo de saber que seus pais lhe escondiam algo.
Nos jardins, Snape estava sentado em uma das últimas filas postas defronte ao altar. O último e único casamento para o qual fora convidado tinha sido o de Lúcio e Narcisa anos atrás. Não havia sido uma cerimônia aparentemente feliz. Era um casamento de interesses e a áurea dos Malfoy com a dos Black tornava o ambiente sufocante. Ali era muito diferente. Toda a decoração era trabalhada em tons claros de azul e champanhe. Edward parecia imensamente feliz e, por um momento, Snape pensou em Lilian, mas estranhou ao se sentir tão leve com o pensamento.
— Estou surpreso que esteja aqui. – Dumbledore sorriu e sentou ao seu lado.
— Sua afilhada me convenceu a vir, afinal.
— Elizabeth é determinada. – Dumbledore riu. — E falando nela, veja como está bonita.
Snape virou-se na direção em que o mago olhava e sentiu seu coração acelerar. Elizabeth havia tirado o sobretudo e revelou um belíssimo vestido verde esmeralda. As alças caídas, ombro a ombro, deixavam o suficiente de decote à mostra, deixando muito a imaginar. O tecido moldava o belo corpo da mulher, uma fenda se abria para revelar a perna esquerda. Ela sorria enquanto cumprimentava alguns convidados e Snape percebeu, talvez tarde demais, que a encarava atentamente. Ele se recompôs e voltou a olhar para Dumbledore, que o encarava com o semblante muito sério.
— Que foi? – O professor perguntou grosseiramente.
— Nada – o diretor deu de ombros e sorriu quando viu Elizabeth se aproximar.
— Olá, padrinho – ela o cumprimentou, parando bem ao lado de Snape, que, por estar sentado, ficou com os olhos bem na altura do busto da jovem mulher.
— Olá, querida. Está muito bonita. – O mago elogiou.
— É claro que está – o bruxo barbudo que encarava Snape desde que chegara se aproximou. — Herdou isso dos Black.
— Obrigada – agradeceu passando as mãos pelo corpo, tocando o vestido, e Snape desejou que ela não tivesse feito isso, pois sentiu seu corpo se arrepiar. Ela sorriu zombeteira para o bruxo barbudo. — Pena que o fio de cabelo que usou para a Polissuco tirou toda a beleza dos Black que há em você, Sirius.
— Ainda bem que o Snape veio, porque a falta de beleza dele realça a minha.
— Bem – Elizabeth disse rapidamente, evitando que Snape respondesse Sirius —, nós vamos para os nossos lugares. – Enroscou seu braço no do primo, querendo tirá-lo dali o mais rápido possível. — Fiquem à vontade.
Elizabeth se despediu e caminhou com Sirius. Snape percebeu que o homem foragido continuava a tagarelar, e pela face emburrada da caçula dos Jones, Black deveria estar a atormentando. Ela o empurrou discretamente para uma cadeira na terceira fileira e seguiu para a frente do altar, sentando-se na primeira fileira, ao lado de Philip.
Alguns minutos depois, quando todos os convidados já estavam acomodados, Edward se postou defronte ao representante do Ministério. Logo depois a noiva entrou sozinha, já que seu pai – assim como a sua mãe – falecera há muitos anos, e o tio que a criara também já não era mais vivo. O vestido de Emma, escolhido carinhosamente por Elizabeth, lhe caíra muito bem. Era muito simples, com mangas longas, e confeccionado em um tecido de tom perolado que contratava belamente com a pele escura de Emma. Seus cabelos crespos estavam bem armados, como uma coroa por toda sua cabeça, e uma singela tiara finalizava o penteado. A cerimônia foi rápida e muito singela. Depois do casal se beijar sob a salva de palmas dos que testemunharam o momento, os convidados foram guiados para a tenda onde ocorreria a festa.
Snape sentou-se na mesma mesa com Dumbledore, McGonagall, Black e uma bela bruxa ruiva, que descobriu, depois, se tratar de Valentina Jones, que também estava sob efeito da Poção Polissuco. Os recém-casados tiveram sua primeira valsa, e depois disso os músicos aceleraram o ritmo, levando vários convidados para a pista de dança. Em determinado momento, Elizabeth sentou-se à mesa com eles para conversar com a avó. Snape não conseguia ignorar quão bela ela estava e precisou se policiar algumas vezes quando percebia que estava a olhando muito fixamente.
— Está tudo bem? – Ela perguntou baixinho para ele de repente, colocando sem perceber a mão sobre o joelho dele. — Você está muito calado.
— Estou bem. – Bebericou o vinho. O corpo tenso pelo toque dela.
— Ora, vão para um quarto! – Resmungou Black, olhando para os dois com asco.
Valentina, que ainda era a única pessoa à mesa além deles, fitou Sirius com indignação. Porém, antes que ela ou Snape pudessem dizer algo, Elizabeth teve a atitude mais inesperada que poderiam imaginar. Ela sorriu para o primo com tanto deboche que parecia escorrer pela sua boca e enroscou seu braço ao de Snape, descansando a outra mão sobre o peito do professor.
— Ah, Sirius! – Riu com falsa meiguice. — Poderia nos arranjar um quarto no Largo Grimmauld? Prometo que não faremos muito barulho.
Ao mesmo tempo, a avó a olhou com surpresa e admiração, Snape tinha os olhos fixos na toalha branca que forrava a mesa, enquanto Sirius fitava Elizabeth com tanta exasperação e assombro que, por um momento, o copo em sua mão quase explodiu. Ela ainda sorria para o primo, lutando contra a vontade de rir, e Sirius balançou a cabeça, achando que as brincadeiras com a prima tinham ido longe demais.
— Você não era assim – balançou a cabeça em negativa. Afastando-se da mesa enquanto resmungava. — Está ficando impossível, Eliza.
Depois que Sirius se afastou, ela finalmente riu. Uma gargalhada tão larga e sincera que Snape quis rir junto a ela, mas ainda estava espantado demais com o toque dela em si e a insinuação de uma maior intimidade entre os dois para dizer qualquer coisa. Elizabeth levou mais tempo do que era necessário para se afastar dele, embora nenhum dos dois tivesse percebido isso – além de Valentina.
— Bem, não vai dançar? – Sorriu para ele.
— Eu tenho cara de quem dança? – Respondeu muito sério, e isso fez o sorriso dela vacilar.
— Aproveite a festa, professor.
Afastou-se com menos ânimo do que chegara, mas esqueceu-se do episódio assim que seu corpo começou a se mover no ritmo dos instrumentos. Snape pegou-se olhando a graciosidade dos movimentos que a jovem fazia. Ela parecia feliz, com um sorriso largo, enquanto dançava com o padrinho do noivo. Ela levou as mãos aos joelhos e moveu os quadris de forma sensual, por puro acidente seus olhares se cruzaram por um breve momento. Snape sentiu a boca seca. Tomou mais um gole do vinho e desviou o olhar, deparando-se com os olhos de Valentina sobre ele. A avó da mulher lhe ofereceu um sorriso curto e voltou a olhar para neta. O professor permaneceu sério e, tentando transferir sua atenção a outra pessoa que não fosse sua estagiária, pediu licença à senhora e caminhou até Dumbledore.
Elizabeth dançou até ficar ofegante e sentir o calor esquentar seu rosto. Falou com mais alguns convidados e tirou fotos. Seu irmão e sua cunhada estavam radiantes e isso lhe aquecia o coração. Viu-se pensando em Snape e o procurou com o olhar para admirá-lo em segredo. Ele estava incrivelmente elegante.
Finalmente se sentou para conversar com os amigos Paul e Melissa. Paul contava que estava morando em Bristol. Havia finalmente conseguido seu diploma em Aritmância e trabalhava com um astrônomo russo em algum projeto que Elizabeth não entendia muito bem. Melissa contou sobre o estágio no St. Mungus e que teve que fazer dois dias seguidos de plantão para conseguir uma folga para ir ao casamento. Disfarçou o constrangimento quando Paul lhe perguntou se ela estava saindo com alguém, mas olhou para a melhor amiga, surpresa com o aparente interesse dele em sua vida amorosa. Para Elizabeth, porém, havia sido apenas uma pergunta sem segundas intenções. Suspeitava, na verdade, que a preferência de Paul estava em outra direção.
Elizabeth diria que Melissa era uma pessoa carente. Os pais dela haviam se separaram quando ela ainda era muito pequena, logo após descoberta a traição da mãe. Agatha, sua mãe, casou com o amante poucos meses depois e passou a negligenciar a filha, principalmente por nunca aceitar sua identidade de gênero. Então, quem a criou foi seu pai, Theodore. Ele era o herói da filha, que o amava incondicionalmente. Mas Theodore morrera em um acidente quando Melissa tinha apenas quinze anos. Desde então, ela foi criada pelos avós paternos. Nunca foi de ter muitos amigos, então as pessoas mais próximas que tinha eram Elizabeth e Paul.
— Aí o velho vomitou em cima da enfermeira. – Melissa contava aos amigos. — Foi uma confusão! Ele sujou a sala de espera toda...
— Elizabeth. – A voz grave soou às costas da garota.
Ela viu Melissa fechar a cara em desagrado e Paul olhar, curioso, para o ex-professor. Elizabeth virou-se na cadeira para encontrar um Snape muito sério a encará-la.
— Eu já volto – disse aos amigos e caminhou para fora da tenda com Snape. — O que houve?
— Preciso ir. – Respondeu em voz baixa.
— Mas já? – Lamentou até perceber que ele segurava o braço esquerdo. Elizabeth o fitou com olhos angustiados. Arfou. — Tudo bem, eu aviso a Edward, ele entenderá.
— Até, Elizabeth. – Disse antes de seguir a saída.
— Severo! – Chamou, fazendo-o parar e se virar para ela. — Volte bem. – Pediu.
— Farei o que puder.
Com um último olhar, ele aparatou.
Notas da autora
- Contém trechos adaptados da obra de J.K. Rowling, "Harry Potter e a Ordem da Fênix", 2003.
