N.A.: Por curiosidade, esse é o capítulo que atrasou a conclusão dessa história por todo esse tempo. Tsch, tsch.


Capítulo XI – A primeira marotagem

"Andando pelos corredores e azarando qualquer um que o aborreça só porque é capaz..." – Lily Evans, HP e a Ordem da Fênix


Mulciber.

Esse único nome ecoava na minha cabeça, agitando um redemoinho de raiva e fúria dentro de mim. Eu queria ir atrás dele, nem que tivesse que invadir a Sala Comunal da Sonserina para conseguir encontrá-lo – e, então, só podia imaginar o que faria. Minha mente ficava alterando em qual era a melhor forma de fazê-lo pagar.

Mas, primeiro, eu tinha que encontrar Mary. Garantir que ela estava bem. Só assim essa culpa crescente seria abrandada.

Eu deveria ter ficado com ela nesse Natal – deveria ter percebido que Mulciber ficaria em Hogwarts também; Severo mencionara, afinal, mas eu estava tão distraído – pensando demais em cenas imaginárias, deixando-me perder em sonhos que não aconteceriam. Eu não jurara a mim mesmo que a protegeria dele? Mary nunca escondera o quanto ele a arrepiava e ele, por sua vez, nunca fora discreto naquela história de fitá-la. Como eu não percebera antes? Devia ter desconfiado, devia ter colocado ele contra a parede e exigido que ele a deixasse em paz – ele era um sonserino, afinal, e não se podia confiar nas cobras, era o que sempre me diziam...

Meus passos ecoavam no corredor enquanto eu praticamente corria por Hogwarts. Podia ouvir alguém andando atrás, provavelmente tentando me alcançar – tive a impressão de que era Black, de todas as pessoas -, mas não parei até chegar em frente da porta branca da enfermaria.

Então, pela primeira vez, hesitei. Só fiquei encarando a porta, meu coração martelando na garganta, e pulei quando senti uma mão no meu ombro.

- Vamos lá – ouvi Black murmurar, e, de alguma forma, a surpresa por ele realmente estar ao meu lado me despertou. Lembrei-me mais claramente de, enquanto eu saía pelo retrato, ouvi-lo dando instruções específicas e severas a Lupin e Pettigrew para que cuidassem de Evans. E então ele viera comigo.

Ele empurrou a porta por mim; com um rangido suave, ela se abriu e entramos na enfermaria. Só uma das camas estava ocupada, e havia uma cortina ao redor dela; meus pés se moveram automaticamente nessa direção, e puxei a cortina.

Mary estava deitada ali, dormindo num sono instável, seu cabelo loiro esparramado pelo travesseiro. Seu rosto estava pálido como giz, o que fazia com que os três riscos no lado esquerdo do seu rosto, que cortavam toda a sua bochecha, até chegar quase ao olho, parecessem ainda mais vermelho.

- Canalha – Sirius murmurou ao meu lado, a raiva em sua voz como um reflexo da raiva que eu sentia a vendo naquela situação.

Estiquei minha mão para tocar os cabelos de Mary, suavemente, sem acordá-la. Pensei em como eu nunca havia realmente apreciado o quanto ela era linda até vê-la assim, com a face marcada, e desejei poder esganar Mulciber com minhas próprias mãos.

- O que vocês acham que estão fazendo? – ouvi uma voz sibilar, e quando me virei, vi Madame Pomfrey surgindo do seu escritório, nos olhando, lívida. Ela veio até nós e fechou a cortina, escondendo-a de nós. – Vocês não podem entrar na enfermaria assim!

- Eu precisava vê-la – expliquei, e algo na minha voz fez a enfermeira me olhar com mais brandura.

- Mary está descansando, Tiago. Quando ela acordar, se ela quiser ver alguém, eu te aviso.

- Você pode dizer que eu passei aqui? – pedi, e a enfermeira acenou.

- É claro, mas só vou deixá-lo entrar se ela permitir. Quando ela acordou há algumas horas, pediu que ninguém a visse.

Havia alguma coisa em seu tom, como se estivesse sob orientação específica, que eu entendi exatamente quem Mary pedira para que não a visse nesse estado. Para mim, aquilo só tinha uma razão.

Era minha culpa.

Eu deixara aquilo acontecer, eu não a protegera o suficiente. Tanta distração nos últimos dias, que eu me esquecera de lhe mandar uma carta sequer. Não, eu estava preocupado demais com paixões impossíveis para pensar nela. Onde eu estava quando ela precisara de mim? Longe.

Se eu estivesse aqui, isso não teria acontecido. Se eu tivesse convencida ela a passar as férias comigo, isso não teria acontecido. Se eu tivesse lhe lembrado de evitar Mulciber, de não andar sozinha pelos corredores, naquele último momento antes do trem partir – quando eu estava preocupado demais querendo ser Sirius Black – isso nunca teria acontecido.

- Tiago.

Foi só o choque de ouvir Sirius Black me chamando pelo primeiro nome, sem desprezo na voz, mas com real preocupação, que anuviou a pressão no meu corpo e me fez piscar e voltar à realidade. Sirius colocou sua mão sobre meu ombro, me levando para fora da enfermaria.

Cai no chão, sentado, com as mãos em volta da minha cabeça. Black se abaixou ao meu lado.

- Ela vai ficar bem – Black sussurrou. Sangue latejava na minha cabeça. – Madame Pomfrey faz maravilhas. – E quando eu não respondi, a voz dele se tornou mais urgente. – Ficar aqui se remoendo não vai resolver nada.

Eu o encarei. Ele estava certo. Não havia nada que eu pudesse fazer por Mary agora, mas havia algo que certamente eu queria fazer tanto quanto confortá-la.

Levantei-me de uma vez, andando firme em direção às masmorras. Eu sabia que Black estava me seguindo e, por um instante, me perguntei se ele estava me julgando por eu saber exatamente onde ficava a Sala Comunal da Sonserina. Provavelmente sim, mas eu não tinha tempo para pensar no assunto.

Parei em frente à parede, arfante. Não havia ninguém por lá para me permitir a entrada, então fiz a única coisa possível: bati na parede, gritando todas as senhas que eu pensava que combinavam.

- Ambição! Astúcia! Puro-sangue! Verde! – Minha mão latejou de dor, mas me recusei a parar. – Mulciber, saia daí! Trouxa! Sangue-ruim!

A porta se abriu. Antes que eu pudesse registrar que o xingamento houvesse realmente funcionado, Severo apareceu, o rosto impassível.

- Que escândalo você está armando, Tiago? – perguntou, fechando a porta atrás de si. Eu o encarei, lívido.

- Me deixe passar. Eu quero falar com Mulciber.

Ele revirou os olhos, como se estivesse sem paciência.

- Você não vai acreditar nesse rumor que está correndo a escola, vai? Eu ouvi o que aconteceu, foi um acidente.

- Acidente? – perguntei, na mesma hora que Black, atrás de mim, soltou uma risada de zombaria. Snape pareceu percebê-lo pela primeira vez, e seus olhos negros se estreitaram. – Você não viu como Mary está, aquilo não foi feito por acidente! Mulciber sempre foi estranho com Mary, é claro que ele fez de propósito, e agora está na enfermaria...

- É, que tipo de acidente levaria alguém para a enfermaria com cicatrizes? – Snape zombou. – Alguma ideia, Black? Talvez ela tenha encontrado um lobi...

- Cala a boca – Sirius ameaçou, sacando a varinha. Severo riu, zombador, mas tirou a varinha das vestes também. Ele jamais deixaria de responder a Black.

- A verdade dói, não é? – Severo voltou a me olhar, mais sério, e sua voz ficou urgente. – Tiago... Dumbledore já conversou com Mulciber, ele vai ter detenção daqui até o final do ano, já perdeu duzentos pontos para a Sonserina, ele já está sendo punido.

- Perder pontos? – Sirius questionou, sua voz alta ecoando no corredor. - Detenção? O que ele fez com Mary não tem...

- Talvez não, mas foi o que Dumbledore fez comigo e com você, não foi? – Severo retrucou, cheio de desprezo. – Foi um acidente, Tiago, Mulciber não estava querendo ferir ninguém, foi só uma brincadeira que deu errado...

Uma risada de descrença escapou de mim.

- Brincadeira? Que tipo de brincadeira é essa? Como você vai defender aquilo, Severo?

- Tão brincadeira quanto Black e os amigos dele sempre fazem – Snape argumentou, o ressentimento evidente em cada linha do seu rosto quando ele encarou Sirius. – Vocês ignoram todas as regras, porque elas estão abaixo de vocês, é claro, e não se importam com quem apareça no caminho ou... ou se as pessoas vão se machucar no processo – e levantou o braço, onde as cicatrizes ainda eram visíveis.

- Eles não usam Magia Negra, porém – ressaltei, e Severo voltou a me encarar. – Se essa é a ideia de humor dos seus amigos, Severo... talvez Black esteja certo sobre a Sonserina. Talvez vocês sejam maus.

Essas palavras tiveram o efeito que eu esperava. Severo estreitou os olhos, claramente se sentindo traído, e senti uma satisfação maligna em conseguir machucar alguém. Ele abriu a boca para retrucar, mas antes que pudesse falar algo e que eu pudesse me sentir culpado, dei meia-volta, deixando-o parado no corredor.

Foi só quando chegamos no Hall de Entrada que percebi que Black me chamava.

- Tiago... – Ele olhou em volta para garantir que ninguém estava por perto. – Não vai ficar assim. Nós vamos fazer Mulciber pagar.

- Nós? – perguntei, a irritação em cada poro do meu corpo. – Os "Marotos", Black? Não me envolva com vocês, vocês são tão ruins quanto ele...

- Sério? Você realmente acha isso? – Black questionou, erguendo as sobrancelhas, me olhando mais sério do que nunca.

A resposta mal-educada morreu na minha boca, assim como qualquer vontade de brigar com ele. Não era com Black que eu estava irritado, não de verdade. Não era Black que eu queria fazer sofrer e pagar...

Black acenou, como se entendesse, e começamos a subir a escada de volta.

- No que você está pensando? – perguntei, em voz baixa.

- Numa boa punição, mas não como a que Dumbledore deu. – Ele me lançou um olhar, sondando. – Você não se importa em quebrar algumas regras?

Me lembrei de Mary na enfermaria e a raiva me inundou novamente; eu tinha certeza que Mulciber ria em algum lugar na Sala Comunal da Sonserina, se sentindo impune pelo que tinha feito.

- Não dessa vez. Não por Mary.

- Sim – ele acenou. – E acho que tenho uma boa ideia.

E então Sirius Black sorriu marotamente e, pela primeira vez na vida, eu o acompanhei no sorriso.


Mary ficou na enfermaria por cinco dias. No terceiro dia, ela finalmente me permitiu que eu a visitasse. As marcas em seu rosto estavam vermelhas ainda, mas não estavam mais sagrando – agora, só faltava cicatrizar.

Ela mordia os lábios quando me sentei ao lado dela, parecendo infinitamente insegura. Me lembrei da nossa despedida antes do Natal, e de como ela estava animada – e mais uma vez o ódio por Mulciber me envolveu.

Paciência, eu disse a mim mesmo. Ele vai pagar.

Então, com um respiro profundo, eu lhe ofereci minha mão. Mary hesitou apenas alguns segundos antes de aceitá-la, com um pequeno sorriso.

- Como você está? – perguntei, me sentando na cadeira ao lado da cama.

- Pronta para sair daqui. Mas Madame Pomfrey acha que preciso de mais alguns dias. – Ela revirou os olhos. – Não sei que diferença faz, não é como se isso – ela apontou para o rosto – fosse sumir.

- Me desculpe – soltei, antes que eu pudesse me controlar. – Eu não devia...

Ela ergueu as sobrancelhas, confusa.

- Por que desculpa? Não foi você que... – Mary indicou o próprio rosto novamente. – Quero dizer, você não tem culpa por nada disso. Foi só um acidente – ela cuspiu a última palavra, infeliz.

- Eu sei que não foi só um acidente.

- Mas não importa, não é? Não vou conseguir provar e Mulciber tem todo o álibi que ele precisa... Os professores aceitaram que foi um feitiço que deu errado, Mulciber estava com outros colegas e todos eles garantiram que ele não estava mirando em mim. E eu não lembro direito para poder contar.

Bufei, de raiva, e Mary soltou um riso relutante.

- Ah, Tiago, a única parte boa dessa história é que ele deve ter desencanado de mim. Com essas marcas, ele não vai me achar mais atraente.

Eu me levantei. Com cuidado, passei a mão pelo rosto dela, até tocar bem de leve onde ela havia sido ferida; minha mão estava fria, então o toque não podia estar bom, mas a única careta que ela fez realmente foi quando realmente encostei nas marcas.

- Você é linda – garanti. Mary pestanejou e então fechou os olhos, deitando sua cabeça levemente contra a minha mão. Sem realmente pensar no assunto, beijei sua têmpora, abraçando-a levemente.

Quando me separei, vi que não estávamos mais sozinhos.

Lily Evans estava ao pé da cama de Mary, seu rosto daquela forma isenta de emoções.

- Eu não queria atrapalhar – ela murmurou. – Eu só trouxe os livros, Mary – e quando a olhei melhor, vi que de fato havia vários livros e pergaminhos em seus braços. Agora que eu reparava, vi que a mesa de cabeceira ao lado da cama estava cheia de pergaminhos também.

Mary corou, se separando mais de mim.

- Lily está me ajudando com os deveres que estou perdendo – ela explicou.

- Oh – falei, como se isso explicasse tudo, enquanto Evans trocava as flores murchas ao lado da cama por flores novas, com um floreio da varinha. – Isso é legal da sua parte, Evans.

- Eu sempre sou legal – Evans respondeu, mas não havia qualquer ar de superioridade em sua voz. – Mas se você quiser, posso voltar mais tarde, Mary – ela acrescentou, olhando de mim para Mary num tom questionador.

Mary pareceu hesitar apenas um segundo, antes de se apoiar nos travesseiros atrás dela.

- Já é bem tarde, na verdade. Por que você não me deixa só os livros, Lily? Eu estou cansada agora, posso fazer amanhã cedo.

Ergui as sobrancelhas, surpreso. Não eram nem nove horas, mas Mary se deitou na cama, como se estivesse prestes a dormir, parecendo subitamente exausta.

- Tem certeza? – Evans perguntou, e soando tão confusa quanto eu me sentia.

- Sim, sim. Muito obrigada por trazer os livros, Lily – Mary respondeu, piscando para Evans de uma forma quase conspiratória. Evans franziu a testa, o que anuviou a ausência de expressão do seu rosto. – E você também, Tiago, pode ir. Obrigada pela visita.

- Bom descanso então – desejei, e ela acenou distraidamente. E então, quando ela viu que Evans ainda a encarava, Mary sorriu. – Eu estou bem, Lily, de verdade. Não se preocupe.

As duas trocaram um olhar, e, pela primeira vez, me perguntei como havia sido o Natal delas aqui em Hogwarts, juntas, só as duas na Grifinória.

Talvez não tenha nada demais, ponderei, quando eu e Evans saímos juntos da enfermaria. Lily provavelmente aparecia para ajudar a colega. Ela certamente fizera isso comigo, e eu era muito mais distante dela do que Mary, com quem ela dividia o dormitório há cinco anos.

- Você acha que ela está bem? – Evans perguntou, me acordando dos meus devaneios. Ela parecia preocupada. – Não deveria estar cansada...

- Acho que ela só quis ficar sozinha – respondi honestamente, embora isso não fizesse muito sentido para mim.

- Pode ser...

Fitei Evans. À luz das luminárias no corredor, achei que seu rosto estava pálido; seus olhos estavam inchados, com uma leve olheira embaixo deles, que me indicava que ela não tinha dormido bem nos últimos dias.

- E você? – perguntei, em voz baixa. – Como está?

- Eu não tenho por que não estar bem – ela respondeu, numa voz amargurada.

Aquilo me assustou. A última vez que eu tinha ouvido esse tom na voz dela, era para falar da própria família – como se ela sentisse culpa por algo que estava além do seu controle.

O que quer que a estivesse incomodando não deveria me importar. Lembrei de como ela correra para os braços de Sirius Black dias atrás, e de como ele a consolara – se alguém poderia acalmá-la ou ajudar a resolver os problemas de Evans, essa pessoa era Black.

Mas eu sabia que Black não estava com Evans nos últimos dias, e sabia também que havia coisas que ela simplesmente não compartilhava com Sirius Black.

Eu havia me prometido que tentaria ficar longe de Evans – certamente o fato de que ela andava nos meus sonhos não ajudava a nenhum de nós dois -, mas me vi parando no corredor, o que fez com que ela parasse também, a poucos passos do quadro da Mulher Gorda.

Seus olhos verdes refletiam a luz das velas a nossa volta.

- O que aconteceu, Evans?

- Do que você está falando, Potter? – ela perguntou, defensiva.

Respirei fundo, me recusando a me importar com a rispidez na voz dela.

- Lily... – comecei, e o uso do seu primeiro nome pareceu funcionar, porque algo quebrou no rosto apático dela. Lily mordeu os lábios, incerta. – Você não parece bem.

Ela mexeu a cabeça, fazendo com que seu cabelo flutuasse diante do seu rosto.

- É claro que não estou, com tudo isso que aconteceu! Nós deveríamos estar protegidas aqui dentro, mas não estamos, e Mulciber está andando por aí, fazendo Magia Negra...

- Ele vai pagar – interrompi, decidido. A sombra de um sorriso passou pelo rosto dela, ainda insuficiente.

- Eu sei que Sirius está planejando algo, mas... Não é o ponto, você entende? Não quero que ele simplesmente pague, quero que isso não aconteça nunca mais, quero que ele não se sinta à vontade para fazer isso... Só que não tenho o poder para isso. Não pude impedir – ela finalizou, sua voz quase inaudível.

Eu gostaria de dizer que não havia nada que Lily pudesse ter feito, mas eu sabia que as nenhuma palavra realmente ajudaria – pelo menos, não funcionavam para mim.

Black me contara a história do "acidente" na noite anterior. O relato oficial era que Mulciber estava com alguns colegas seus da Sonserina à toa pelos corredores do sétimo andar, à noite; ninguém sabia o que eles estavam fazendo sete andares acima da sua Sala Comunal, mas aparentemente não havia qualquer problema nessa conduta suspeita. Mary voltava sozinha do jantar quando, no meio de um corredor (provavelmente próximo a onde estávamos agora), fora atingida no rosto pelo feitiço errado de Mulciber. Ele e os amigos teriam ficado em choque com o ocorrido e, por isso não haviam feito nada; mas Lily Evans chegara alguns segundos depois, e então levara a amiga para a enfermaria.

Quanto mais eu pensava na história, mais eu percebia que havia uma variedade de cenários em que aquilo simplesmente não acontecia. Em outro universo, Mary poderia ter terminado o jantar alguns minutos mais tarde, quando eles já tivessem ido embora. Ou então eu poderia estar com ela. Evans poderia estar com ela. Eles podiam ter escolhido outro andar para vagar pelo castelo. Mas nós não estávamos em nenhum desses outros universos.

- Eu... eu a deixei sozinha – Lily continuou, cheia de repulsa. – Nós tivemos uma discussão idiota no jantar e então ela se foi, e quando eu percebi que eles estavam esperando no sétimo andar... Eu corri, juro que corri – ela me olhou desesperada, com lágrimas brilhando nos seus olhos. – Mas não deu tempo...

Não pensei; meus pés se adiantaram automaticamente em direção a Evans e minhas mãos a envolveram em um abraço. Foi tão automático que pareceu natural, como se eu já tivesse feito esse gesto tantas vezes. E da mesma forma, sem um segundo de hesitação, Lily me abraçou de volta, passando suas mãos pela minha cintura, e deitando sua cabeça no meu peito. Eu podia sentir seu perfume tão claro como se ela tivesse acabado de borrifá-lo pelo ar.

Meu coração palpitou e, distante, me perguntei se ela poderia ouvi-lo.

- Lily... – murmurei. - Nós podemos ficar discutindo aqui por horas sobre de quem é a culpa, e eu juro que entendo você. Quero dizer, já pensei em uma centena de coisas que eu gostaria de ter feito para impedir que tivesse acontecido, mas, no final do dia, só tem uma pessoa que realmente lançou o feitiço. E sei que não muda nada, mas Mulciber vai pagar, pelo menos numa parte.

Ela respirou fundo.

- Ótimo – disse, num tom resoluto. Ela se separou um pouco, só o suficiente para conseguir me encarar. Eu conseguia ver cada tom de verde nos seus olhos, cada minúscula gota de lágrima nos seus cílios. – Ótimo – ela repetiu, e sua voz estava muito mais suave.

Havia uma infinidade de razões para eu me afastar nesse momento, mas ali, sentindo o calor irradiando do seu corpo, enquanto ela me olhava mais profundamente do que eu me lembrava dela já ter feito antes, o rosto mais cheio de emoções do que eu era capaz de entender, não consegui mover meu corpo para longe.

Mas eu também não me movi para mais perto dela.

Também havia uma infinidade de razões para eu não me aproximar de Lily Evans.

Lily piscou, e ela parecia que ia falar alguma coisa quando o quadro se abriu atrás de mim.

Como se isso fosse um sinal, nós nos separamos. Deixei as mãos cair ao lado do corpo, enquanto Evans se endireitava, encarando a pessoa que acabará de sair da Sala Comunal.

Quando me virei, vi Pedro Pettigrew alternando o seu olhar entre nós, parecendo profundamente intrigado.

- Oi, Lils, Tiago – ele disse finalmente. Evans franzia a testa; vi seu olhar caindo para um pergaminho dobrado na mão dele, e então ela estreitou os olhos. Não consegui decifrar se ela estava irritada ou preocupada. Deveria ser irritada, porque Pettigrew deu um passo para trás. – Sirius pediu para eu te chamar, Tiago – falou, sem desviar os olhos de Evans. – Por causa do... você sabe.

Aquilo pareceu distrair Evans, porque ela se virou para mim, surpresa.

- Você está envolvido no projeto de Sirius?

Concordei com a cabeça, o que fez com que um brilho de aprovação surgisse nos olhos dela. Aquilo não deveria ter nenhum efeito sobre mim, mas senti um calor passando pelo meu corpo – eu gostava de ter a aprovação de Lily Evans.

Meneei minha cabeça, para afastar esses pensamentos, e voltei a fitar Pettigrew. Ele continuava a olhar para Evans, como se tentasse entendê-la. Talvez Evans tenha sentido seu olhar sobre ela, porque ela voltou a encará-lo.

- E foi você quem achou Tiago? – ela perguntou. Isso não fez muito sentido para mim, mas Pettigrew olhou brevemente para o pergaminho em sua mão antes de acenar.

- Sirius estava ocupado – ele respondeu lentamente, e algum entendimento deve ter passado entre eles porque Evans abaixou os ombros, claramente mais tranquila.

- Bom. Então vá vê-lo, Tiago – ela sorriu para mim. – Não quero atrasar os planos de vocês.

Sorri de volta, e entramos na Sala Comunal da Grifinória. Pettigrew e eu estávamos para subir para o dormitório, quando Evans o chamou.

- Pedro? – a voz dela era suave. Ele se virou para ela, parecendo nervoso. Evans se aproximou dele; eu nunca tinha reparado nisso, mas ela era mais alta que ele. – Não mencione para Sirius.

Não era possível interpretar se aquilo era um pedido ou uma ordem. Eu não entendi a que ela se referia. Evans havia se separado de mim antes que o retrato se abrisse totalmente, então eu sabia que não havia nada de estranho ou comprometedor que Pettigrew pudesse ter visto; o olhar dele caiu novamente para o pergaminho em sua mão.

- Claro que não, Lils – ele concordou, erguendo a cabeça para fitá-la.

- Obrigada, Pedro - Evans sorriu para ele, e então passou a mão pelo cabelo dele, despenteando-o num gesto de carinho, como se ela fosse a irmã mais velha dele.

Ele suspirou quando Lily partiu para se sentar numa das poltronas da sala, junto às suas amigas. Quando ele viu que eu o olhava, seu rosto se tingiu de rosa.

- Vamos? – perguntou, já subindo as escadas sem esperar por mim.

Pettigrew se virou para olhar para mim enquanto subíamos as escadas, sua boca aberta como se ele fosse falar algo, mas todas às vezes ele desistiu. Foi com certo alívio que abri a porta para o nosso dormitório, um sentimento que eu não sentira muitas vezes ao entrar no quarto. Mas ao menos dessa vez, ninguém me olhou irritado. Black levantou os olhos do pergaminho que ele analisava, e sorriu satisfeito quando me viu.

- Ah, Potter, estava te esperando.

Acenei, sentando-me na minha cama, enquanto ele me mostrava o pergaminho. Analisei os rabiscos perfeitos que Pettigrew fizera, para desenhar o movimento com a varinha que deveria ser realizado, até a última palavra para entoar o feitiço. Fulmino.

- Seu desenho é realmente ótimo – comentei para Pettigrew, que corou, satisfeito. Talvez o meu elogio tenha desarmado ele, porque ele se sentou na sua cama parecendo mais tranquilo. – Vocês acham que está pronto?

Black concordou com a cabeça.

- Testei em Pedro antes de você chegar – ele disse, ao que Pettigrew acenou, parecendo ainda mais satisfeito por ter sido usado como cobaia de um feitiço que eu e Black havíamos inventado. – Todos os raios saíram.

- E nenhum...

- Nenhum dano a longo prazo – Black garantiu, compartilhando uma careta comigo. – Só irá ensinar ele a nunca mais olhar na direção dela e, com sorte, causar alguns risos.

Achei engraçada a preocupação dele com esse último ponto. Sirius franziu a minha testa, como se também agora soubesse no que eu pensava, mas não falou nada. Ele e Pettigrew começaram a conversar sobre quando e como iriam lançar o feitiço, e aproveitei para ir me arrumar para me deitar.

Quando voltei do banheiro, Pettigrew já parecia caindo de sono, e Black continuava concentrado, agora olhando um pergaminho bem velho.

- O truque – ele disse, mais para si mesmo – é encontrar a janela certa. Os amigos de Mulciber estão sempre a volta dele.

Eu não precisava ver a repulsa no rosto dele para saber que ele falava de Severo, mas, excepcionalmente, não reclamei. Desde a briga na frente da Sala Comunal da Sonserina, eu não falara mais com Severo. As aulas eram passadas em silêncio, e evitávamos falar inclusive quando necessário – o que resultara em alguns acidentes na aula de Poções.

A verdade é que eu me dividia entre ficar extremamente decepcionado com Severo e me sentir culpado. Nós éramos amigos, mas de alguma forma eu sentia que ele tinha escolhido os outros amigos dele, mais do que a mim, e se fosse em qualquer outra época talvez eu entendesse. Mas não agora, não com o que Mulciber tinha feito; eu não entendia como ele podia defender algo que era simplesmente maligno.

Maligno.

Por outro lado, aqui estava eu, conversando e planejando coisas com Black, como se os últimos anos não tivessem existido, como se ele nunca tivesse me destratado. Quase como se fôssemos amigos.

Não é a mesma coisa, eu disse a mim mesmo. Sirius Black podia ser um babaca às vezes, mas ele nunca fora mau – e definitivamente não se envolvia com Magia Negra.

- Potter? – ouvi Black me chamar, e meneei a cabeça para me forçar a prestar atenção. Ao lado de Black, Pettigrew bocejava abertamente.

- Remo está bem? – perguntei, à guisa de falar sobre o momento que o feitiço seria lançado sobre Mulciber. Isso eu já tinha descoberto assim que havíamos iniciado a conversa sobre o feitiço, e pensar sobre o assunto sempre revirava meu estômago.

Black olhou pesaroso para a janela ao lado da sua cama, para o céu onde a lua cheia brilhava. Ele contemplava a lua como se ela tivesse lhe feito um insulto pessoal.

- Ele vai ficar – disse, com a voz cheia de revolta. – Odeio essa época, odeio não conseguir fazer nada para ajudá-lo. Ele não merece nada disso.

- Não – concordei, o que fez Black se voltar para mim.

- Se eu pudesse... estaria lá com ele agora. Para que ele soubesse que não está sozinho, mesmo nesses momentos.

- Ele sabe – garanti, com um sorriso leve, mesmo sabendo que aquilo não era verdade. Eu lera sobre lobisomens nos últimos tempos, e eles não representavam nada do ser humano que eram em todos os outros dias do mês. A verdade é que por mais que Remo fosse amigo de Sirius, quando ele estava transformado, ele era um perigo para qualquer ser humano que cruzasse seu caminho.

- Já pensei em sugerir a Dumbledore que nós pudéssemos ficar com ele, sabe? Talvez houvesse algum jeito de ele não conseguir se aproximar de nós, mas que pudesse saber que estávamos lá...

A voz de Sirius foi diminuindo e ele pareceu perdido, voltando a olhar para a lua lá fora. Me mexi para puxar a cortina da cama, e o movimento fez Black despertar.

- Desculpe o desabafo – ele disse, parecendo constrangido por ter dito tanto. – Então... alguma ideia de como vamos conseguir enfeitiçar Mulciber?

- Eu vou dar um jeito nisso – falei confiantemente. Ele ergueu as sobrancelhas.

- Potter, eu entendo sua necessidade de pessoalmente resolver isso, mas seria óbvio se você fizesse, sabe disso, não é? Todo mundo ouviu você praticamente convocando o cara para um duelo.

- E qual o problema? – questionei, desafiador.

- Lily me mataria se eu deixasse você ser pego – ele retorquiu, revirando os olhos. Meu estômago contraiu, enquanto eu tentava ignorar o pensamento de que ele e Evans conversavam a meu respeito e que ela se preocupava comigo. – E Merlin sabe que nós já tomamos detenção demais sem que você precise entrar nessa onda. Não, tem que haver um jeito de você não ser descoberto.

Acenei com a cabeça, pensativo. Os Marotos realmente eram pegos com frequência absurda em suas pegadinhas; eles não pareciam se importar com a detenção, mas isso implicava em menos pontos para a Grifinória e, ao menos essa consequência parecia incomodá-los. Eles eram cuidadosos, até onde eu sabia, e tinham diminuído as detenções nos últimos meses, mas havia uma quantidade limitada de coisas que se podia fazer no castelo sem que despertasse a atenção de professores, fantasmas, ou Filch.

Eu cometera minha cota de pequenas infrações no castelo – todos aqueles passeios noturnos até a cozinha -, mas, ao contrário deles, eu jamais fora pego.

- Então tudo o que precisamos é de um álibi – Sirius continuou, distraído.

- Bom, se todos estiverem me vendo, não haverá como me culparem – falei lentamente. – E se ninguém jamais ver quem lançou o feitiço, também não haverá como qualquer pessoa ser culpada.

Ele ergueu as sobrancelhas.

- No que você está pensando?

Suspirei profundamente.

- Eu posso distrair Severo enquanto você lança o feitiço.

- Mas como faremos isso sem que me vejam?

Eu hesitei. Há cinco anos, a Capa da Invisibilidade era meu maior segredo. A capa me dava toda a liberdade para andar por Hogwarts, sozinho e imperturbado; ela nunca falhara em me proteger. E, mais do que isso, eu cumprira a promessa feita ao meu pai e nunca contara para Severo. Para o meu melhor amigo.

- Tiago?

Meu olhar encontrou o de Sirius. Ele estava sério, de um jeito que eu não o vira antes, e me ocorreu que ele não estava tratando aquilo como mais uma brincadeira dos Marotos apenas. Ele realmente odiava o que tinham feito com Mary e queria devolver para Mulciber. Lembrei do que Evans me dissera há um tempo, sobre como ele odiava os sonserinos, e me ocorreu que a maior razão do ódio dele era como ele devia ter chegado tão perto de ser um.

Imaginei-o na Sonserina, usando vestes prata e verde, assumindo uma posição que era sua desde o nascimento – mas a imagem era errada, absurda. Sirius Black podia ser muitas coisas – a maior parte dela bem babaca às vezes -, mas ele não era um sonserino. E pela primeira vez desde que o Chapéu Seletor selecionou Severo Snape para aquela casa, me ocorreu que não ser um sonserino era um elogio.

- Eu tenho um modo de garantir que quem quer que lance o feitiço não seja pego – falei baixinho, para não acordar Pettigrew que dormia a sono solto. – Mas você precisa manter segredo sobre isso. Ninguém pode saber, nem ele, nem Remo, nem – minha voz falhou levemente, mas Black não pareceu reparar – Evans.

Sirius demorou um segundo a mais do que o necessário para se levantar e vir até mim.

- Eu prometo – e então, sem acreditar muito no que eu fazia, mas confiando totalmente em Black, tirei a Capa de Invisibilidade da minha mala.


Ficar em vigília era muito menos emocionante do que eu imaginava após tantos anos vendo filmes de policial e espiões. Ao meu lado, Black parecia mais calmo, e imaginei que não era a primeira vez que ele ficava aguardando por uma vítima despreparada.

- Você está entregando o jogo assim, Potter – Sirius murmurou, sem desviar os olhos do seu prato. À nossa volta, o Salão Principal estava agitado ainda.

- Desculpe – sussurrei de volta. – É só que o tempo não passa.

- Você sempre pode aproveitar o tempo para estudar – ele retrucou, com um sorriso divertido, me indicando o livro aberto à minha frente. – Ouvi dizer que precisa de nove N.O.M's para passar.

Corei, me lembrando da explosão na aula há o que parecia ser muito tempo.

- Se tem algo que entrega o jogo, é mais provável que seja a gente sentado aqui sem brigar – observei, e ele franziu a testa.

- Não é impossível, sabe. Só não precisamos tornar isso um hábito – ele acrescentou, agora me convidando a compartilhar da piada com ele.

Eu sorri de volta. A verdade era que, por mais estranho que fosse, aqueles últimos dias haviam sido agradáveis. Todas as noites, após as aulas, nós nos havíamos nos reunido no dormitório para discutir o feitiço em Mulciber; havíamos riscado algumas ideias até chegar em uma que nos pareceu adequada, e então havíamos criado o feitiço, juntos. Eu tinha a impressão de que não era a primeira vez que Black fazia isso, mas como eu também passara anos vendo Severo criar feitiços ele próprio, era fácil acompanhar. Nós dois éramos bons em magia, e trabalhar junto com ele era incrivelmente fácil. Havia uma estranha sintonia entre nós.

E durante todo esse tempo, Black não havia feito qualquer comentário depreciativo, nenhuma zombaria. Ele se concentrara e aceitara a maioria das minhas sugestões; mesmo quando discordávamos, ele não era agressivo ou maldoso, apenas apresentava ponderações.

Ele fora razoável.

Eu nunca pensara que Sirius Black poderia ser razoável.

- Você conseguiu acabar o dever de Poções? – Black perguntou, me distraindo. Quando demorei para responder, ele revirou os olhos. – Eles vão levar mais uns quinze minutos até sair, podemos pelo menos aproveitar o tempo numa conversa à toa.

Olhei para a mesa da Sonserina, mais ao fundo do salão. Mulciber estava ali, acompanhado de Severo, acabando de jantar, seguindo a rotina usual deles de jantar mais tarde. Agora que eu parara para pensar a respeito, eu não sabia como Black tinha essa informação, já que durante essa hora nós geralmente estávamos já no dormitório, trabalhando no... projeto.

- Graças a Merlin, Asqueroso e Ranhoso mantêm rotinas – ele acrescentou, me fazendo franzir a testa. Quando seu olhar encontrou o meu, ele só ergueu as sobrancelhas. – Não posso evitar, Potter.

- Só... não o chame por esse nome – pedi, sabendo o quanto esse apelido realmente incomodava Snape.

Black acenou, sem insistir. Como parte do plano de hoje envolvia eu distrair Severo, ele provavelmente estava decidindo que, ao menos uma vez, valia a pena essa amizade estranha entre um sonserino e um grifinório.

A culpa fez meu estômago revirar mais uma vez, mas respirei fundo. Eu já tomara minha decisão.

- Ele nunca vai saber – Sirius me garantiu, como se soubesse exatamente o que eu sentia. – Agora, Poções? Se precisar, tenho as notas de Lily para ajudar.

- Estou tranquilo com Poções – murmurei, sem querer dizer que ela já me ajudara com essa redação no ano passado.

- As aulas estão funcionando, então? – ele perguntou, sem qualquer maldade na voz. Por alguma razão, o assunto me constrangeu. Evans havia me avisado que Black sabia das aulas, mas, sempre que eu o imaginava pensando sobre o assunto, era com Black solitário, se perguntando exatamente o que estávamos fazendo sozinhos na sala.

A total ausência de preocupação dele só me demonstrava que Black não conseguia sequer cogitar algo acontecendo entre mim e Evans. É claro que não.

Ato de caridade...

Meneei a cabeça para afastar esses pensamentos.

- Sim – falei curtamente. E então, já que ele tinha mencionado Evans, achei que eu podia aproveitar para sanar minha curiosidade. – A propósito, por que Evans não está aqui?

- Ela está na enfermaria com Mary.

- Não, eu quis dizer, em nenhum momento Evans apareceu para nos ajudar. Achei que ela sempre participasse dessas travessuras de vocês.

Ele riu.

- "Travessuras"? Nós chamamos de marotagem – Black explicou, cheio de orgulho na voz. E então deu de ombros. – Lily estava ocupada essa semana. E... nós não somos grudados, sabe, Potter?

Ergui as sobrancelhas, incrédulo.

- Não é o que parece.

Black achou graça.

- É assim que você vê de fora? Bom, Lily sabe que estamos planejando algo. Mas como ela não iria conseguir participar dessa vez, eu pensei que poderíamos surpreendê-la.

Nós trocamos um sorriso, cúmplice, e me ocorreu quão estranho era manter a sintonia com Sirius. Como se também achasse a situação estranha, Black voltou a jantar.

De fora, ele parecia distraído, mas eu sabia que ele estava acompanhando atentamente Severo e Mulciber, aguardando o momento em que eles encerrariam a refeição. Ele não parava de olhar para o relógio também, atento ao horário e ignorando profundamente as duas garotas próximas que não paravam de lhe lançar olhares. Elas definitivamente eram do fã-clube de Sirius Black, mas ele não reparava nos suspiros que elas lançavam em direção a ele.

Eu ri mais alto do que pretendia da cena, e do outro lado do salão, Snape desviou o olhar da conversa que estava tendo com Mulciber e seu olhar encontrou o meu por um segundo – meu sorriso morreu -, antes do olhar dele cair para Black ao meu lado. Suas feições se contraíram naquele misto de desprezo e inveja que ele só reservava para Black, e ele voltou à conversa com Mulciber.

- Ele realmente me odeia, hein? – Sirius comentou, distraidamente, bebendo da sua taça.

- Ele tem suas razões – respondi, tão fielmente que minha voz saiu no automático. – Você não facilitou a vida dele.

- Eu realmente não entendo essa sua lealdade – Black resmungou. – Principalmente com toda essa história que aconteceu com Mary.

Eu me senti ultrajado. A única relação que Severo tinha a ver com todos os eventos era sua insistência em defender o amigo, o que eu também faria se a situação fosse contrária – só que eu não imaginava qualquer amigo meu envolto em uma história de Magia Negra.

Se fosse com outra pessoa, talvez eu acreditasse na história que Severo insistia e que fora divulgada na escola. Só que Mulciber sempre fora muito estranho em relação à Mary, sondando-a de uma forma que não era normal...

- Severo não tem nada a ver com essa história – falei lentamente. – Ele nem estava em Hogwarts.

- E você não vai chegar sequer perto do Asqueroso ali hoje – Black ponderou calmamente. – Às vezes você não precisa estar próximo para estar envolvido. – Eu não podia discutir com essa lógica dele, então acenei, impressionado. – Além disso, a parte do Ran... Snape que mais me preocupa nessa história não é essa. – Ele olhou no relógio e se levantou; estava na hora. – Às vezes, eu o vejo olhando para Lily exatamente como Mulciber olha para Mary.

E saiu, sem me dar tempo de responder. Não havia resposta, porém. Severo realmente passava um tempo exagerado admirando Evans à distância – o que era aparentemente evidente até para outros – mas não havia como eu explicar que ele adorava Lily com uma paixão que podia beirar a obsessão, e que ele jamais a machucaria. Pelo que eu sabia, Severo me machucaria antes de se atrever a causar dano a um fio de cabelo de Lily Evans, mas esse pensamento não seria dividido com Black.

Do lado de fora do Salão Principal, nos escondemos em um armário de vassouras. Me ocorreu quantas garotas gostariam de estar com Sirius Black na mesma situação e, novamente, segurei a risada. Sirius me olhou de forma engraçada, mas não comentou nada.

Com facilidade, extrai a Capa da Invisibilidade do meu bolso. O rosto de Black se iluminou, da mesma forma que quando eu a mostrara pela primeira vez. Ele admirava a capa, e isso me fez sentir uma súbita simpatia por Sirius. Aquela capa era o presente mais valioso que eu tinha na vida e me trazia tanto a lembrança do meu pai que não pude deixar de pensar que meu pai ficaria feliz em saber que eu compartilhara a capa com Sirius.

- Você não sabe o quanto isso seria útil – ele comentou em voz baixa, passando a mão pelo tecido leve da capa. Quando seu olhar encontrou o meu, ele piscou. – Não se preocupe, Potter, seu segredo está guardado.

Assenti, jogando a capa por cima dele e vendo-o desaparecer.

- Fique perto – alertei. – Lembre-se que você está invisível só, mas ainda podem te ouvir. Me avise quando pudermos sair.

Houve um barulho de pergaminho sendo aberto, mas o que quer que Sirius estivesse fazendo, eu não via, claro. Depois um minuto, ele falou:

- Eles estão saindo do Salão Principal... Atravessaram o Hall de Entrada... E acabaram de passar pela porta que leva às masmorras. Não tem ninguém por perto, é a nossa deixa...

Sai do armário de vassouras. Como Sirius prometera, o Hall estava vazio. Atravessei a porta que levava às masmorras, andando apressado no corredor que eventualmente iria até a Sala Comunal da Sonserina. Depois de alguns segundos, exatamente como eu e Black havíamos planejado, encontrei Severo e Mulciber no corredor.

- Severo? – chamei, e os dois se viraram. Ignorei a onda de raiva que passou pelo meu corpo ao olhar para Mulciber. – Posso falar com você?

Ele acenou.

- Já volto – disse para Mulciber, e, assim como eu esperava, Mulciber parou para aguardá-lo, claramente não confiando em mim. Franzi a testa, deixando a irritação evidente no meu rosto, e abri uma das salas vazias que tinha naquele corredor.

Snape me seguiu, deixando a porta entreaberta.

- Sério? – questionei, mas ele apenas cruzou os braços, não parecendo impressionado.

- O que você quer, Tiago?

Respirei fundo.

- Não quero continuar brigado com você.

- E a culpa é de quem por isso? Achei que nós deveríamos ser amigos, melhores amigos, mas no primeiro conflito você joga a minha Casa na minha cara, tão hipócrita...

- Eu errei nisso – concordei. – Desculpe, não foi justo da minha parte...

- E Black estava com você – ele continuou, sem me ouvir. – Como você pode fazer isso? Se aliar a ele? Contra mim?

- Eu não estava com ele – a mentira saiu tão facilmente da minha boca que me odiei por isso. – Black não tem nada a ver com essa história, não fuja do ponto...

- E qual seria o ponto?

- Nós não somos determinados por nossas Casas – insisti. Isso fez ele parar. – Não sou Godric Gryffindor e você não é Salazar Slytherin, e nós somos amigos. Eu conheço você e se você... se você diz que foi um acidente, ok, vou aceitar. Dumbledore já deu a punição adequada e espero que... ele tenha aprendido a lição.

Severo me encarou, e devolvi o olhar com calma e confiança. Não havia como ele saber que eu estava mentindo, porque Severo jamais saberia o rosto que eu fazia quando mentia: até esse momento, para o que realmente importava, eu sempre fora honesto com ele.

Depois de alguns segundos, ele acenou com a cabeça e sorriu minimamente, seu rosto se desanuviando conforme ele parecia relaxar.

- Ok.

- Eu só... vou definitivamente evitar Mulciber. Nós somos amigos, mas, desculpe, eu não gosto dessas pessoas com quem você está andando – acrescentei. Severo me olhou como se já esperasse isso. Ele parecia meio aliviado e meio decepcionado.

- Eu entendo. Eu só acho que...

Mas o que quer que ele achasse jamais foi dito, porque naquele momento houve um grito de susto do lado de fora. Nós nos olhamos por um único segundo antes que Severo saísse pela porta.

Segui-o. No corredor, Mulciber estava coçando o próprio braço.

- Algo me acertou! – Ele reclamou, levantando o braço e mostrando uma mancha molhada nas suas vestes.

- Você viu algo? – Snape perguntou, olhando ao redor.

- Não tinha ninguém no corredor – Mulciber respondeu, irritado.

- Provavelmente foi um vazamento no teto – respondi, numa voz controlada, apontando para o teto do corredor, onde realmente havia uma goteira enorme. Mulciber se agitou.

- Eu saberia se tivesse caído uma gota de água em mim, Potter!

Cruzei os braços.

- E você tem alguma outra ideia do que poderia ter sido?

Ele não tinha obviamente. O corredor estava vazio, como era fácil notar, e qualquer pessoa que estivesse por lá seria facilmente visível. Severo se voltou para mim, as sobrancelhas erguidas, claramente em dúvida.

- Você fez algo, Tiago?

- O que eu poderia ter feito? Estava com você – respondi, cheio de honestidade na voz.

Não havia como eles discutirem com isso. Com um resmungo, Mulciber se virou, partindo. Severo me lançou um olhar confuso, antes de seguir atrás do colega.

Calmamente, me virei também, para o caminho de volta à Torre da Grifinória. Em um corredor vazio do quarto andar, Sirius tirou a capa, seu corpo sacudindo de risadas silenciosas.

- Isso foi genial – ele declarou e, em algo que parecia ter acontecido muito nos últimos dias, troquei um sorriso com Sirius Black.


Quando cheguei na enfermaria na manhã seguinte, Madame Pomfrey fazia a última avaliação em Mary.

- Eu já estou bem – Mary prometeu, com um sorriso tranquilizador para a enfermeira. – Pronta para voltar às aulas.

De fato, Mary parecia animada. Seu rosto estava corado, e o material dela estava organizado, o que eu sabia ser uma demonstração de como ela devia estar cansada da enfermaria. A cicatriz em rosto estava rosa e era evidente ainda, mas quando ela sorria como fazia agora, era quase imperceptível.

Quase.

Nós caminhamos juntos pela escola, enquanto ela me questionava sobre o meu Natal. Descrevi brevemente como havia sido a festa, pulando qualquer menção à Marlene – ou à Lily Evans -, mas ela não pareceu notar. Aparentemente, minhas habilidades de mentir casualmente haviam aumentados nos últimos dias.

Isso não me parecia um bom augúrio.

- E o seu Natal?

- Ah, foi bem divertido – ela respondeu levemente. – Não tinha muita gente, mas Lily me fez companhia. Ela é bem legal. – Ela me olhou de soslaio. – As guerras de neve foram realmente divertidas. Nós... conversamos bastante.

Me veio à cabeça a imagem das duas sentadas junto a lareira, trocando confidências, e me questionei se o meu nome havia sido mencionado em algum momento.

Pela expressão no rosto de Mary, eu tinha certeza que sim.

- O que só torna as coisas mais difíceis, eu acho – Mary complementou, mais para si mesmo. – Lily seria bem mais fácil de se odiar se ela fosse uma má pessoa. – Outro olhar de soslaio, que ignorei. – O seu nome pode ter surgido entre uma ou outra conversa.

Mantive o silêncio, e Mary soltou uma risada.

- Ah, Tiago, você é muito sem graça às vezes. Você deveria me perguntar o que Lily falou de você, e eu ia me negar a te contar, claro, mas tinha que fazer o papel de curioso. Vai, pergunta uma só vez?

Ela me olhou divertida, ainda rindo, mas no momento em que cruzamos a porta do Salão Principal, seu sorriso morreu e ela empalideceu. Quando segui a direção do seu olhar, não fiquei surpreso ao ver que Mulciber a olhava, em pé próximo à mesa da Sonserina.

Por um segundo, nada aconteceu.

Então uma nuvem cinza surgiu em cima da cabeça de Mulciber, como se houvesse uma tempestade exclusiva sobre ele. A nuvem ficou cada vez mais escura, até que surgiu uma faísca, e um instante seguinte um único raio foi disparado da nuvem, acertando Mulciber.

O corpo dele se iluminou, e, como em um desenho, foi possível ver todo o seu esqueleto. Quando a luz se dissipou, ele estava caído ao chão, com fumaça saindo de seu corpo e o cabelo arrepiado até o último fio, mas intacto.

Por um instante, o Salão Principal ficou em silêncio. Então, ao meu lado, Mary começou a rir incontrolavelmente. Logo, havia outros sons de risada no salão, e olhei para a mesa da Grifinória. Sirius piscou para mim, enquanto Lily, sentada ao seu lado, gargalhava.

Sorri de volta para ele, extremamente feliz. O feitiço ia durar umas doze horas pelo menos, que era o tempo que nós havíamos estimado até os professores localizarem o contrafeitiço necessário. De toda forma, enquanto o feitiço durasse, cada vez que Mulciber olhasse na direção de Mary, ainda que sequer soubesse onde ela estava, outro raio cairia em sua cabeça; aquela nuvem cinza seria mantida sobre ele.

Então voltei a olhar para a mesa da Sonserina, e meu olhar cruzou o de Snape; seus olhos estavam estreitados, claramente desconfiados de mim.

Mas eu sabia que não havia nada que pudesse me ligar àquele feitiço, ninguém vira o culpado e o meu melhor amigo era meu álibi. Sorri tranquilamente, desviei o olhar, e me sentei à mesa da Grifinória.


No próximo capítulo: Tiago resolve algumas pendências e tem uma ideia sobre como resolver um certo problema peludo.