Capítulo 11

Fiquei feliz de Hanabi não estar em casa quando cheguei. Eu queria chorar em paz sem ter que explicar por que o meu peito explodia de dor, porque o homem que eu amava tinha me largado. O homem que ela odiava. Ela não entenderia. Eu chorei na cama até que não tive mais lágrimas para verter. Então me levantei, comi biscoitos e sorvete de creme direto na banheira.

Assim que fiquei mais calma, liguei para Tsunade. "Por que diabos você contou para ele?" Eu gritei quando ela respondeu ao telefonema.

Silêncio, então: "Presumo que ele não se acalmou durante a noite?"

"Tsunade, não. Ele está furioso. Ele gritou comigo e..." Eu sufoquei um soluço. "E ele me demitiu. E não quer me ver nunca mais."

"Oh, Hinata, me desculpe. O tiro saiu pela culatra. Eu pensei que estava fazendo a coisa certa contando a verdade para ele, mas parece que não."

"Você o conhece pessoalmente?"

"Sim."

"E você tirou dinheiro de um cliente para espioná-lo? Isso é muito baixo, Tsunade, mesmo para você."

"Não deixo minhas afiliações pessoais afetar o meu negócio," ela cortou. "Se eu assim fizesse, a maioria das pessoas de Roxburg estaria fora dos limites." Ela suspirou. "Olha, Hinata, ele vai mudar de ideia. Você vai ver."

"Por que você acha que está certa sobre isso quando você esteve errada sobre muitas outras coisas?"

"Eu estava certa quando disse que ele ficaria caidinho por você, não estava?"

"Afora isso. Tsunade, isto não é um jogo. Sasuke nunca vai me perdoar."

"Você e eu, vai perdoar a nós duas querida." As lágrimas rolavam pelo meu rosto e para dentro do pote vazio de sorvete.

"Está tudo bem para você," eu soluçava. "Eu estava apaixonada por ele. Eu sou apaixonada por ele. E agora ele se foi."

"Eu estou chegando. Vamos lamentar juntas e fazer um plano para colocar você de volta no coração dele."

"Não! Não quero te ver. Não quero falar com você. Isto é tudo culpa sua Tsunade. Você nunca deveria ter contado. Você nunca deveria ter me colocado ao lado dele. Foi um desastre e eu só... só quero que você me deixe em paz." Eu desliguei o telefone. Meu telefone tocou, mas era Tsunade. Deixei cair na caixa postal, mas ele continuou a tocar, então tive que desligá-lo.

Quando Hanabi chegou em casa naquela tarde, olhou para mim e soube que algo estava errado. Pela primeira vez na minha vida, eu chorei no ombro dela e ela me consolou. Ela não gostou nada quando contei a ela que tinha acontecido. A maioria de suas respostas: "Bastardo" ou "Eu sabia que isto ia acontecer."

"Ele é um cara legal," disse para ela. "Sou eu a vadia pelo o que fiz para ele."

"Isso é besteira. Se ele realmente te conhecesse ele saberia como você estava se sentindo. Você usa seu coração em tudo o que você faz Hinata, e ele pisou nele. Eu o odeio."

"Não o odeie." Me levantei para pegar outro lenço de papel, mas a caixa estava vazia.

"Você não me disse que está chocada com a minha escolha de carreira." Ela se inclinou no sofá, levantou os joelhos e descansou o queixo neles.

"Você dormiu com todos os seus objetivos?"

"Não!" Ela deu de ombros.

"Então por que eu ficaria chocada?"

"Porque eu mentia e trabalhei no limite da prostituição."

Ela bufou. "Não seja tão melodramática. Você não é uma prostituta. Mas não é um trabalho ético, eu concordo."

Eu mordi meu lábio e olhei para ela. "Vá em frente. Dê-me uma palestra sobre como eu não deveria ter pegado o trabalho."

"Não."

"Por que não? Eu mereço."

Ela revirou os olhos. "Presumo que o dinheiro era bom."

Eu só olhei para ela. "Muito bom?" ela insistiu. Balancei a cabeça. "E você tinha um monte de contas para pagar?"

Eu já não podia encará-la. Levantei-me para me servir de uma taça de vinho. "Hinata, eu não sou idiota. Sei que minhas despesas médicas devem ter sido enormes. O dinheiro tinha que vir de algum lugar, além disso, você teve que pagar a escola de arte e teve que colocar comida na mesa. Nós nunca passamos por nenhuma necessidade." Ela de repente estava ao meu lado, tirando o copo da minha mão. Eu não podia vê-la muito bem através das lágrimas que desfocavam a minha visão, mas a presença dela era um conforto. "Você tomou conta de mim, Hina. Agora vou cuidar de você, começando com um abraço." Ela me puxou para perto dela e eu chorei, mais uma vez. Depois de um tempo, ela me levou para a cozinha.

"Vou te servir de vinho e vou cozinhar algo para a gente comer. Então amanhã, ou depois de amanhã, ou sempre que você quiser, vamos discutir o que fazer para conseguir dinheiro."

"Eu vou arranjar outro emprego," disse para ela. "Tudo no seu tempo." O que eu não lhe disse foi que não havia nenhuma maneira que eu pudesse ganhar a mesma quantidade apenas como PA. Além do que a Tsunade me pagava, eu recebia um salário dos meus alvos. Nenhum emprego normal poderia chegar perto.

Tsunade ficou tentando falar comigo por telefone durante uma semana, mas eu a ignorei. Na semana seguinte, ela veio até a minha casa. Eu a vi chegar no seu carro esporte vermelho. Não respondi a campainha e como Hanabi não estava em casa, eu não precisei atendê-la.

Tsunade foi embora. Ela ligou novamente todos os dias da semana seguinte e eu apaguei todas as mensagens que ela deixou, sem ouvi-las. Sasuke não ligou nem uma vez. Após um mês, eu já não chorava até dormir. Minhas lágrimas pareciam ter secado, deixando um espaço oco dentro de mim. Não conseguia ter nenhum tipo de resposta emocional a qualquer coisa.

Hanabi falava comigo, mas eu mal a ouvia. Eu acordava de manhã, comprava mantimentos quando necessário e passava pela rotina de tomar banho, me vestir e comer alguma coisa. Mas era como se eu vivesse num nevoeiro. Eu olhava os anúncios de emprego, mas não me candidatava a nenhum deles. Eles sempre ficavam muito longe, ou não pagavam bem o suficiente ou simplesmente pareciam aborrecidos. Nós vivíamos das minhas economias, mas elas foram diminuindo a cada semana. O empréstimo que eu tinha feito para pagar as contas médicas comia a minha poupança como uma feroz besta que precisava ser alimentada continuamente. Até que o empréstimo de repente terminou. Recebi uma declaração final do banco mostrando cada centavo que tinha sido pago. Liguei para eles, mas não me disseram quem tinha sido a pessoa que tinha pagado o empréstimo devido a razões de confidencialidade.

"Mas eu sou o única com acesso a essa conta," disse ao funcionário do banco. "Eu sou a única que pode pagá-la. Alguém lhe deu um número errado e pagou por engano o meu empréstimo. Você precisa devolver o dinheiro."

"Não, Miss Hyuuga, o valor pago na conta foi o montante exato devido. É um valor muito preciso para ser um erro."

"Então me diga quem pagou o meu empréstimo?"

"Eu não posso. A informação não está disponível para mim."

"É estranho," disse para ela. "Muito estranho."

"Se a senhora quer um conselho, Miss Denny, apenas aceite e seja grata." Eu desliguei e disse o que tinha acontecido a Hanabi.

"Deve ter sido a Tsunade," eu disse. "Ela se sente culpada por ter acabado o meu relacionamento com Sasuke."

"Não acha que pode ter sido ele?"

Eu balancei minha cabeça. "Ele não faria algo tão pensativo, quando ele não quer pensar em mim. Tem que ter sido Tsunade."

"Quem quer que tenha sido, vamos comemorar com chocolate. Não temos mais que pagar o empréstimo, woohoo!"

Não me juntei ao woohoo de Hanabi, mas comi o chocolate. Não me sentia bem aceitando dinheiro de ninguém, mesmo de Tsunade, particularmente uma quantia tão grande. Parece que eu teria que falar com ela apesar de tudo, mas ainda não.

"Talvez isso tire a sua mente para fora de tudo," Hanabi disse, acenando um cartão creme para mim. "Lembra-se do novo centro de bem-estar para pacientes com câncer? Está terminado."

"Eu pensei que eles tinham ficado sem fundos."

"Parece que encontraram uma nova fonte. Este é um convite para a sua inauguração. O hospital deve ter dado o meu nome. Seu nome está nele também."

"Eu não vou, mas você deve ir. Você pode contar suas histórias de guerra para os outros sobreviventes."

Ela me deu um olhar fulminante. "Eu não vou sem você. Venha, vai ser divertido, e Deus sabe que precisamos de um pouco de diversão." Algo no tom de voz dela me fez dar uma pausa. Eu estava tão envolvida na minha própria miséria que eu tinha me esquecido da minha irmã e do seu mundo.

"Está tudo bem, Hana?"

"Com certeza." Eu franzi meus olhos.

"Não acredito em você. É Kushina?" Minha frequência cardíaca se acelerou. "A casa?" Ela deu um pequeno aceno.

"Ela recebeu uma ordem judicial. Se ela não sair até segunda-feira, ela vai ser removida. As escavadoras estarão lá às nove."

Eu abaixei minha cabeça para minhas mãos. Eu não estava surpresa dele ter mudado de ideia. Eu sabia que isso ia acontecer, embora eu esperasse estar errada. "Dane-se, Sasuke," eu murmurei.

"Ele é um bastardo, Hina," Hanabi disse, colocando seu braço ao redor dos meus ombros. "Isso só prova que você teve sorte de se livrar dele."

Eu balancei minha cabeça. "Não é tudo preto no branco. Ele não é necessariamente o vilão e Kushina a heroína. Ele ficou destruído pela morte de Rin, e ainda está até hoje, doze anos mais tarde. Ele ainda se culpa e ter a Kushina culpando-o também não ajuda."

Hanabi mordeu o lábio e deu um aceno relutante. Ela pelo menos não estava cega de afeição pela a amiga para ver a verdade no que eu tinha dito. "Você está me dizendo que ele quer se vingar da Kushina por culpá-lo?"

"Não, não é isso. Ele só não consegue encarar Willow Crescent, ou aquela casa. Ele quer voltar para casa e passar um tempo com sua família, mas as memórias de Rin e seu papel na morte dela têm feito tão mal para ele que ele não pode fazê-lo. Não sozinho, de qualquer maneira."

"Acho que eu entendi," ela disse. "Doze anos de culpa pode mexer com a cabeça de alguém."

"Antes de ele descobrir sobre o meu envolvimento com a Tsunade, ele me disse que ele não derrubaria a casa se eu voltasse com ele para Willow Crescent. Que nós dois íamos enfrentar seus demônios juntos."

"Por que você não me disse isso? Ou melhor, porque você não disse para a Kushina?"

"Porque se tornou irrelevante depois que ele terminou comigo."

"Isso podia ter amolecido Kushina um pouco no que diz respeito a ele se ela soubesse como ele ficou afetado pela morte de Rin. A razão pela qual que ela o odeia tanto é porque ela acha que ele nunca se importou. Ela vê o sucesso de Uchiha Sasuke nos jornais, fazendo bilhões de dólares e namorando mulheres lindas, e ela acha que ele rechaçou para longe sua irmã."

"Ele se importou. Ele se preocupou tanto que enterrou o Sasuke real sob um falso, porque só assim ele poderia continuar a viver."

"Você o faz parecer vulnerável."

"Ele é. Ele é solitário." Essa verdade é que me sacudiu. Sasuke é uma pessoa solitária. Ele mantém todos longe dele, incluindo sua família. Todos menos eu — até agora.

Ela suspirou. "É difícil conciliar o cara que você descreve com o que aparece na mídia, o cara que Kushina odeia."

"Eu sei. A questão é: o que vamos fazer agora? Não podemos deixá-lo demolir a casa de Kushina."

"Você quer ir contra ele, depois de tudo o que você me disse? Eu pensei que você estava do lado dele." "

Eu estou. Derrubar a casa de Kushina vai fazer com que ele se sinta ainda pior em longo prazo. Ele apenas ainda não viu isso."

"Típico dos homens. Eles são tão míopes."

Eu ri pela primeira vez em semanas. "Obrigada," eu disse, abraçando-a. "Eu sei que o cara que você viu é difícil de gostar, mas não é o cara que eu conheço."

Ela franziu a testa para mim. "Eu pensei que você estava começando a se esquecer dele, mas parece que não."

Eu a ignorei e sai na direção do meu quarto. "Pegue uns sapatos. Nós vamos para a casa de Kushina fazer um plano de ação. Segunda-feira é só daqui a dois dias."

Passamos os dois dias seguintes na casa de Kushina, entrando em contato com todos que conhecíamos e alguns que não conhecíamos. Nós colocamos folhetos em caixas de correio por todas as ruas de Serendipity e nos reunimos com os vizinhos. Shisui se juntou a nós no domingo à tarde para rever o plano para a manhã seguinte.

"Sem mídia," ele disse enquanto estávamos sentados na sala de estar de Kushina, copos de café na mão.

"De acordo," disse. "A mídia vai assustá-lo e ele pode querer fazer o oposto do que queremos."

Shisui arqueou suas sobrancelhas para mim. "Você chegou a conhecê-lo muito bem."

Concordei, ciente que Kushina ainda odiava Sasuke e podia não estar preparada para ouvir quaisquer coisas boas sobre ele. Era ela que queria a mídia presente.

"Ele não vem para casa há anos, não é verdade?"

Shisui acenou. "Dez anos ou mais."

A respiração de Kushina se descontrolou. "Por que não? Sua mãe o baniu?"

"Não. Nada disso. Mamãe e papai têm implorado para ele vir, mas ele se recusa. Ele odeia este lugar, e esta rua. Faz ele se lembrar de Rin."

"Não seja ridículo! Ela era minha irmã. Se eu pude viver aqui então ele pode visitar sua casa de vez em quando. Os dois estão errados sobre Sasuke. Sei que ele é seu irmão, Shisui, mas isso te faz ficar cego para o fato dele ter mudado."

"Como você sabe?" Hanabi perguntou, me pegando de também ficou surpresa pela pergunta. "Quando foi a última vez que você o viu pessoalmente?"

"Eu, hum, já faz um tempo. Mas essa não é a questão. Sasuke está intimidando a mim e a minha casa e não vou ficar calada e deixá-lo fazer isso."

"Nós também não vamos," eu lhe disse. "Nenhum de nós quer que Sasuke vá adiante com esse projeto." Eu olhei para Shisui e para Hanabi, esperando ter transmitido a mensagem que eles deviam acabar com esse assunto. Kushina não estava preparada para entender Sasuke. Se ele conseguisse derrubar a casa, ela provavelmente nunca ficaria.

"Acho que vejo uma falha no nosso plano," disse Hanabi. "Seu sucesso depende dele ver a reação das pessoas que ele ama. Mas se ele não vem aqui há anos, é pouco provável que venha agora."

"Deixe comigo," disse Shisui. "Eu tenho uma carta na manga que eu estava poupando para o momento certo. Acho que agora é a hora certa."

"O que é?" Kushina perguntou, um sorriso no rosto.

"Não é o quê, é quem." Seu sorriso desvaneceu-se. Ela piscou para ele e ele olhou para ela até que ela desviou o olhar. Era como se eles tivessem falado, sem precisar usar palavras.

Eu olhei para Hanabi, mas ela apenas deu de ombros, ela estava no escuro como eu.

Na noite de domingo nós dormimos na casa de Kushina e acordamos cedo na segunda-feira para nos preparar. Não demorou muito para as pessoas chegarem na propriedade de Kushina, brandindo cartazes feitos à mão. Eu reconheci os outros alunos de sua aula de arte e um casal de rapazes que se pareciam com Sasuke e Shisui.

Havia pessoas idosas vestidas mais para um passeio de barco do que para um dia de protesto, e eu pensei que eles deveriam ser os vizinhos. Vi pelo menos duas celebridades e Hanabi viu algumas outras. Alguém deve ter entrado em contato com a polícia e com a mídia, infelizmente. Um repórter estava na varanda de trás da casa de Kushina tentando conseguir uma entrevista com ela, mas ela o evitou com sucesso e o repórter eventualmente desistiu.

Às nove horas, um barulho a distância sinalizou a chegada dos tratores. Fui à procura de Shisui e encontrei-o em pé com um cara com ombros que pareciam tijolos. Ele tinha o cabelo escuro e a boa aparência de um Uchiha. Shisui me chamou e me apresentou como namorada de Sasuke.

"Eu não sou," falei imediatamente. "Trabalhei para Sasuke até que ele me demitiu. Nós éramos..." Dei de ombros, desistindo de explicar o que Sasuke e eu éramos um para o outro. De qualquer forma já não importava.

"Qual dos irmãos você é? Número quatro ou cinco?"

"O primeiro," ele disse, sua voz saindo de um peito sob tensão que sua camiseta branca escondia. "Eu sou Itachi."

Minha boca formou um O e me encontrei tentando achar Kushina na multidão. Esse era o cara que ela tinha namorado. Eu tinha a sensação de que ela não tinha notícias dele ou o via há anos. E, eu tinha sido levada a acreditar, que o mesmo acontecia com a sua família.

"Ele chegou a Roxburg ontem," explicou Shisui. "Nós o recrutamos para nos ajudar."

"Ele é sua arma secreta," disse, lembrando a reação de Kushina.

Shisui assentiu com a cabeça e entregou o celular para Itachi. "Ligue para ele."

"Você acha que a presença dele vai fazer Sasuke quebrar um hábito de dez anos de não vir aqui?" Eu perguntei enquanto Itachi ligava para Sasuke.

"Não é tanto a presença de Itachi, mas o que ele vai dizer-lhe. Ouça." Shisui, cruzou os braços e assistiu seu irmão.

"Não é Shisui," Itachi disse. "Sou eu." Ele escutava, arqueando sua boca. Eu imaginei que Sasuke estava lhe dando um sermão sobre não voltar pra Roxburg durante anos e aparecendo logo agora.

"Acabou?" Itachi perguntou. "Porque agora é a minha vez. Você é um covarde, Sasuke." Silêncio, então: "Você ainda está aí?"

Dei uma olhadela para Shisui. Ele parecia preocupado.

"Não me faça ir até aí e te arrastar para cá," Itachi falou. "Agora seu tenho treinamento militar."

"Desliga," Shisui disse. "Ele não vem."

Mas Itachi não desistiu. Uma frieza como aço se estabeleceu em seus olhos ameaçadores como eu nunca tinha visto, nem mesmo em Sasuke. "Você é um covarde, irmão," ele disse através do maxilar quase fechado. "Você não vai mesmo enfrentar as pessoas cujas vidas você está mudando." Ele procurou na multidão até o olhar dele se fixar numa ruiva, cercada por uma multidão de pessoas. O gelo desapareceu de seus olhos, substituídos por um desejo que quebrou meu coração. Como se sentisse seu olhar, Kushina se virou, mas rapidamente fugiu na direção oposta.

"Porra, Sasuke!" Itachi, gritou. Eu me aproximei dele e descansei minha mão no seu braço para impedi-lo de jogar o telefone na árvore mais próxima.

"Desliga," eu disse baixinho. "Ele não vem." Meu coração parecia deslizar em queda livre, direto para os dedos dos meus pés. Gritar com Sasuke e xingá-lo não ia funcionar. Eu já tinha tentado.

Itachi piscou rapidamente para mim. "Sim, é ela," ele disse no telefone. Ele tirou o celular da orelha. "Ele desligou."

"Ele me ouviu?" Ele assentiu.

"Ele reconheceu a sua voz."

"E o que ele disse?"

"Nada. Ele apenas desligou. O que está acontecendo entre vocês dois?"

Eu suspirei. "Nada mais. Eu estraguei tudo, e ele está com raiva de mim. É tudo minha culpa. Não o culpe."

"Não." Ele olhou acima da minha cabeça novamente, verificando mais uma vez a multidão, provavelmente à procura de uma ruiva em particular. "Eu nunca o culpei. Esse foi o problema."

Ele saiu e eu fiquei com Shisui, me perguntando que diabos ele estava falando. "Itachi defendeu Sasuke depois que Rin morreu," explicou Shisui, olhando para a multidão a procura do irmão. " Kushina não pode perdoá-lo por não ter culpado Sasuke. Isso os separou e Itachi não tem sido o mesmo desde então."

"Oh," eu sussurrei, limpando os olhos. Minhas lágrimas estavam querendo sair, meus nervos estavam em frangalhos, e não era só por causa da triste história de Itachi. "Isso é tão triste."

"Pelo menos ele está de volta agora."

"Por quanto tempo?"

"Depende." O rosnar dos tratores me fizeram parar de fazer mais perguntas. A voz de Kushina veio do megafone, organizando os manifestantes em uma linha que se expandia pelo comprimento da casa. Alguém começou a cantar e uma linha de pessoas, uma segurando o braço da outra, ficou parada em frente da casa. Um capataz tentou gritar para Kushina, pedindo às pessoas para se moverem, mas a voz dele foi abafada. Ele apelou para a polícia que apenas observava. Havia apenas quatro deles, não o suficiente para ter impacto. Não pareciam interessados em mover ninguém ainda e simplesmente deram de ombros. O capataz começou a falar no telefone. A mídia ficou excitada, cheirando uma história que tinha potencial para explodir. Nada vende mais notícia do que algumas celebridades se envolvendo num protesto. A única coisa que venderia mais seria um protesto violento envolvendo celebridades.

"Caramba!" disse Hanabi ao meu lado. Ela assentiu com a cabeça para outra meia dúzia de viaturas da polícia que chegavam.

"O capataz parece estressado," eu disse. "Sem dúvida Sasuke os mandou continuar."

Hanabi pegou o meu braço. "Nosso plano não está funcionando, não é?"

"Não," eu disse. "Não está."

Os policiais se reuniram com o capataz. "Vocês devem Ir para casa agora, ou vocês vão ser removidos à força!" ele gritou através de seu próprio megafone. "Um dos polícias pecou o megafone dele. "Vocês devem ir para casa," ele disse para os manifestantes em uma voz mais mansa. "Tenho ordens para prender qualquer um que tente impedir que os operários façam seu trabalho."

"Hanabi, quero ir embora," eu disse.

"De jeito nenhum." Ela parecia animada e nem um pouco preocupada.

"Não vou deixar você se machucar por causa disso."

Ela estufou o peito dela. "E não deixarei isso acontecer com você também. Somos uma equipe, Hina. Você cuida de mim e eu cuido de você." Tentei convencê-la, mas ela não estava me ouvindo.

Ela e quase cem outras pessoas gritavam para o capataz quando ele mandou o motorista iniciar a escavadeira. A máquina começou a se mexer, mas teve que parar na frente da linha humana. Ninguém se mexeu. Uma senhora idosa bateu seu cartaz sobre o trator e um policial a pegou e carregou-a para fora do caminho, como se ela fosse insignificante como um galho. Outro policial a algemou. O ato deixou os manifestantes ainda mais furiosos.

Kushina era claramente a líder, em pé no centro, exortando seus partidários a segurarem a linha. Um policial foi na direção dela, mas Itachi se colocou na frente dele antes que o policial pudesse chegar perto dela. Ele ia dar um soco, mas Kushina pulou para perto dele e disse algo que eu não pude ouvir. Ela puxou-o de volta, de alguma forma gerenciando como usar o seu pequeno corpo contra o enorme corpo dele e teve sucesso, conseguindo levá-lo para longe do problema.

Os outros manifestantes avançaram, surgindo ao nosso redor como uma maré. Nós fomos jogados para frente. Eu me perdi da Hanabi. Vi os três mais novos Uchihas gritando e agitando os punhos para a equipe de demolição. Os policiais formaram uma barreira unida, mas eles estavam em desvantagem. Não demorou muito tempo para eles começarem a usar gás lacrimogêneo e violência.

"Hanabi!" Eu gritei. Mas foi inútil. De jeito nenhum ela conseguia me ouvir. Não podia vê-la. Eu subi na varanda e olhei para a multidão, mas não consegui achá-la. Uma mulher alta e loira foi em direção aos irmãos Uchihas. Atrás dela vinha um homem alto, com os cabelos grisalhos, mas foi a mulher que me chamou atenção. Era Tsunade, e ela foi direto até Shisui e o abraçou. Parecia que ela conhecia todos os Uchihas, não apenas Sasuke. Eu vi como ela mandou todos os três saírem. Eles sacudiram suas cabeças. Então o homem entrou e ela ficou com raiva dele também e tentou puxá-lo para fora. Ele se inclinou e a beijou carinhosamente, pondo fim à sua raiva. Nenhum irmão ou amigo beijava dessa maneira. Era o beijo de um amante. Me inclinei no alpendre, tentando dar uma olhada nele. Seu modo de andar era familiar, bem como sua maneira de ficar parado. Tinha um porte majestoso, como se estivesse acima de todos. Ele se virou me dando uma visão direta do seu rosto.

De susto, eu quase caí para trás. Era o rosto de Sasuke, apenas mais velho. Devia ser seu pai. O que significava que Tsunade era sua esposa ou amante. Era mãe ou madrasta de Sasuke. Que diabo estava acontecendo? Ela tinha me colocado para espionar o próprio filho? Tudo se encaixava. A razão pela qual ela o fez de alvo e também ao projeto — ela morava na casa ao lado — seu profundo conhecimento do que Sasuke gostava e a razão para, finalmente, dizer-lhe que eu trabalhava para ela. Ele teria descoberto eventualmente, mas era melhor ele saber por ela. Mesmo assim, ela tinha julgado mal seu filho e seu plano não tinha dado certo. Sem mencionar que ela tinha me manipulado bem como o Sasuke. Eu tinha a impressão de que ela sabia que eu dormiria com ele e que ele gostaria de ter um relacionamento comigo. Um relacionamento sério, e não apenas um caso.

Um grito agudo à minha direita arrastou minha atenção para longe de reunião familiar dos Uchiha. Eu reconheci aquele grito. Hanabi. Um policial estava carregando ela, puxando-a pelos braços. Outro se inclinava sobre ela, ameaçando-a. O olhar no rosto dela era de puro terror.

...