Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Abby Green, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books.
Capítulo 10
O celular que Ichigo lhe dera vibrou dentro do bolso do jeans, e Orihime soltou um impropério antes de atender e ouvir um autoritário:
- Onde você está ?
Ela imediatamente derreteu e sentiu o sangue correr para os lugares mais sensíveis do corpo.
- Estou nos tonéis - ela desligou. Estava abalada desde o momento em que Ichigo dissera que o relacionamento deles voltaria a ser platônico assim que o contrato fosse assinado. Deveria ter ficado feliz. Não era tola para imaginar que seria algo mais. Ela sabia que havia muita coisa entre os dois. A briga entre as famílias podia ter acabado, mas causara danos demais para serem sanados pelos dois…
Ela suspirou e quase morreu de susto ao ouvir um sussurro:
- Não caia lá dentro.
Ela se voltou e viu Ichigo parado na passarela que cercava os tonéis. Estivera tão pensativa que não ouvira o ruído do jipe, nem os seus passos sobre o metal.
- Uma vez eu caí… tinha nove anos.
- Como aconteceu ? - perguntou ele, espantado.
- Eu estava brincando de esconde-esconde com o meu irmão, Sora. Byakuya estava aqui, ajudando a decantar as uvas. Eu fiquei fascinada, debrucei demais para olhar e caí. Felizmente, Byakuya me pescou imediatamente - Orihime sorriu envergonhada - Ele me agarrou pelos cabelos. Eu fiquei mais aborrecida com a dor do que com o fato de que poderia ter me afogado em vinho tinto fermentado. Byakuya e Hisana me levaram para casa e me banharam. Jamais contaram aos meus pais… - ela estremeceu - Se tivessem contado, meu pai teria me trancado no quarto por uma semana sem comida.
- Ele costumava fazer isso ? - perguntou Ichigo, revoltado.
Orihime estremeceu e tirou alguns resíduos do enorme tonel vazio.
- Algumas vezes… se algo o zangava. Ficou mais freqüente depois que Sora morreu. Ele era um homem irritado… revoltado por ter uma filha inútil a quem não poderia passar o seu legado - ela percebeu que estivera resmungando e mudou de assunto - Os tonéis precisam de uma reforma. O meu pai os colocou aqui porque queria voltar a usar tanques de concreto.
- Podemos nos livrar deles, se você quiser, e usar aço. Depende do que você achar melhor.
Os dois voltaram ao nível do solo e discutiram os méritos de uma reforma ou da modernização das instalações. A caminho da clínica, Orihime sentiu que retomara o controle. Mas o seu controle foi abalado quando ela presenciou a preocupação que Ichigo tinha com Hisana, e a insistência para que ela fosse bem cuidada. Ele mostrava que se importava com pessoas que nem trabalhavam para ele…
Na volta, ela estava silenciosa, e se admirou quando Ichigo perguntou:
- Por que o seu pai mudou de idéia ? Ele expulsou você e sua mãe e lhes deu as costas. Por que, de repente, ele deixou tudo para você ?
Ela ficou tensa e não conseguiu falar por algum tempo. Só conseguia pensar naquela tarde fatídica e nas coisas terríveis que havia ouvido. Ela se sentiu enjoada.
- Pare o carro, por favor.
Ichigo parou o carro perto de um mirante de onde se via os Andes à distância. Ela saiu do carro e cambaleou, sentindo um tremendo peso. Ichigo também saiu do carro e tocou-lhe o ombro.
- Orihime, o que foi ?
Ela pulou para trás, de olhos arregalados. Ele a viu pular, viu seus olhos cheios de horror… ela já olhara para ele daquele jeito antes. Encolhera-se daquele jeito quando ele a tocara…
- Há algo… que você não sabe. Algo que aconteceu depois que nos encontraram - ela se voltou de frente para a vista. Ele contraiu o peito como se esperasse um golpe.
- O que eu não sei ?
- Eu não quero lhe contar - ela falou baixinho. Ele pegou-a pelo ombro e fez com que ela o encarasse. Soltou-a, como se odiasse tocá-la, e ela teve a sensação de que era inevitável. Talvez ela lhe devesse uma explicação. Aquilo fecharia o círculo.
- Diga, Orihime.
- Eu não lhe disse naquele dia porque não podia… e, depois, porque eu não queria que você tivesse uma sombra terrível envenenando a sua cabeça, como envenenou a minha.
Ichigo sacudiu a cabeça, confuso, e olhou para ela muito sério.
- Não vamos sair daqui até que você me diga, Orihime.
Ela olhou em volta, sentindo-se desmaiar. Sentou-se sobre a amurada do mirante e começou a falar, hesitante.
- Eu não lhe contei tudo o que aconteceu quando voltei para casa… depois de sermos apanhados. Eu tive uma briga com a minha mãe, como lhe disse… ela estava lívida - ele cruzou os braços e Orihime fixou os olhos em algum ponto à meia distância - Ela me disse que eu não iria vê-lo de novo. Eu disse a ela que não poderia me impedir - Orihime olhou para ele e continuou docemente: - Eu queria vê-lo de novo… e, então, ela me contou sobre o caso com o seu pai. Eu não sabia o que aquilo tinha a ver conosco, e tentei ir embora… e ela me disse outra coisa… - mantendo os olhos fixos nos olhos de Ichigo, ela lhe contou tudo o que acontecera - Por isso eu não podia mais vê-lo… e o meu pai ouviu tudo.
Ele sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Olhou para ela, sem expressão, de repente sentiu-se nauseado e só não vomitou porque a sua força de vontade foi mais forte.
- Quando nós fomos para Buenos Aires, a minha mãe concordou em pedir uma amostra de DNA ao meu pai. Ele cedeu, com a condição de que ela nada recebesse no divórcio. Eu fiz o teste e descobri que era filha dele, mas aí já era tarde para lhe contar tudo isso. Muita coisa tinha acontecido. Eu ainda estava traumatizada com a possibilidade… - ela se calou e engoliu com dificuldade - Eu escrevi uma carta para o meu pai, mas não recebi resposta até pouco antes da sua morte.
Ichigo estava recuperando a cor, mas parecia não conseguir olhar para ela. Para Orihime, isso tinha o efeito de uma chicotada.
- Meu Deus, Orihime… - ele subiu na mureta e olhou para o infinito. Ela olhou na mesma direção e mordeu o lábio com tanta força que sentiu o gosto de sangue.
- Naquele último dia… eu não percebi que ia até o orquidário até chegar lá. Foi por isso que, quando vi você, reagi daquele jeito. Como eu poderia lhe dizer o que a minha mãe havia enfiado na minha cabeça ? Era monstruoso.
- O seu pai deve ter contado à minha mãe. Deve ter sido por isso que ela tomou uma decisão drástica - disse ele, com amargura.
- Eu também acho. E sinto muito.
- Santo Deus, Orihime. A culpa não foi sua - afirmou ele secamente.
Ela se encolheu. Guardara o segredo por tanto tempo, e agora ele também maculara a cabeça de Ichigo. Orihime sentiu o tremor subir pelas pernas e se espalhar pelo seu corpo.
- Desculpe. Eu não queria que você soubesse… eu não deveria ter dito nada.
Ela o ouviu praguejar, e, de repente, ele a abraçou com força, reduzindo o seu tremor a leves estremecimentos. Ela não conseguiria sequer chorar. Ichigo lhe acariciava as costas, os cabelos, como se domasse um cavalo bravio. Depois de algum tempo, ele a afastou e segurou-a pelos ombros.
- Estou feliz por você ter me contado - ele ficou olhando para ela, até que ela concordasse. E, então, segurou-lhe a mão e levou-a de volta para o carro como se fosse uma criança. Ela se sentia anestesiada. Um Ichigo muito sério sentou-se ao lado dela e os dois voltaram a Villarosa. Quando ela o viu tomar o caminho de casa, admirou-se.
- Aonde estamos indo ?
- Você vai para casa comigo esta noite.
Ela sentiu o calor inevitável e começou a despertar. Algo mudara entre os dois, depois que ela contara a terrível verdade. Ele acabara de abraçá-la como um irmão. Talvez jamais voltasse a desejá-la, depois de saber. Ainda que não fosse verdade, fora veneno.
Eles chegaram à casa de Ichigo. Sem uma palavra, ele a levou para o quarto. Orihime estava insegura e confusa, e soltou-se da mão dele.
- O que estamos fazendo aqui ? - ela se envergonhava do quanto o queria. Ele parou diante dela.
- Vamos exorcizar os demônios agora mesmo, aqui.
- O que quer dizer ? Como ?
Ele segurou-lhe o rosto e apertou-a contra o corpo que se enrijecia.
- Deste jeito.
E, então, ele a beijou. Um beijo diferente de qualquer outro, que lembrava o primeiro beijo que ele lhe dera, que ela tanto desejara depois de uma semana de crescente excitação, e que fora extremamente sensual, mas desajeitado. Desajeitado como quando ele desabotoara a sua blusa e corara ao ver os seus seios. Era como se o passado e o presente se unissem.
Ichigo colocou-a na cama, abriu sua blusa e puxou o sutiã para baixo, revelando seus seios. Ela arqueou o corpo como se implorasse para ser acariciada.
- Eu nunca esqueci o seu gosto… a doçura da sua pele, dos seus seios. Eu poderia ter me afogado no seu perfume…
Ela enfiou os dedos nos cabelos de Ichigo e uma onda de emoção a fez levantar a cabeça e beijá-lo. As carícias estavam imbuídas de ecos do passado, da maneira como ele a tocara pela primeira vez, naquele dia.
Eles ultrapassaram o ponto onde haviam parado. Desfizeram-se das roupas, que foram espalhadas pelo chão ou sob seus corpos, na cama. Quando ele se colocou sobre ela, sua boca cobria o seio de Orihime e sua mão acariciava-lhe o corpo, deleitando-se com a pele de cetim, úmida de suor.
- Ichigo, por favor… - implorou ela, contorcendo-se com impaciência. Ele se movimentou, entrou no seu corpo, e Orihime se deliciou por estarem unidos.
- Mantenha os olhos abertos - disse ele.
Ela não conseguia tirar os olhos de Ichigo, enquanto ele se movimentava ritmicamente dentro dela e levava-a para longe da sombra do que acontecera. Quando ela atingiu o orgasmo, ele parecia transcender tudo, ser espiritual. Como se um peso lhe tivesse sido tirado. O olhar de Ichigo a queimava e ardia dentro dela, enquanto ele se exaltava e se soltava dentro do seu corpo. Ela o envolveu pelos quadris com as pernas.
Ele caiu ao lado dela, exausto, e a abraçou. Antes de cair no sono, ele pensou em como fora intenso possuí-la sem barreiras e em como ela o envolvera com as pernas e o puxara para o fundo do seu corpo.
Orihime acordou e olhou para Ichigo, que dormia um sono relaxado. Acordado, ele sempre era tenso e controlado. Ela sentiu o coração se contrair e sentiu nostalgia de um tempo em que o vira relaxar e rir. Talvez ele ainda conseguisse, com outra mulher… não com ela. Ele já fora mais leve e cheio de esperança, e ela tinha sido o motivo pelo qual a leveza e a esperança de Ichigo haviam sido substituídas pelo cinismo. Quando ela pensava em toda a confiança que havia sob a sua arrogância… a sua rejeição deveria tê-lo ferido muito fundo para ser perdoada.
Não quis esperar que ele acordasse. Sabia que algo mudara na noite passada. Eles haviam ultrapassado um marco: tinham enterrado o passado. A relação entre os dois era baseada em antigas diferenças, no desejo insatisfeito… o contrato logo seria assinado e ele iria mantê-la na periferia da sua vida. Ela precisava encarar a própria consciência culpada. Dormira com Ichigo, usando o contrato como desculpa, porque seria a única maneira de dormir com ele. Ichigo não iria querê-la sem o contrato. Não se sujeitara a seduzi-la apenas por desejo. Ela precisava sair dali, antes de alimentar alguma esperança de que talvez… em outro mundo, se não tivessem uma história tão complicada… tudo poderia ser diferente. A verdade é que Ichigo colocara as mãos no que mais desejava: a propriedade dos Inoue. Ele vencera e, de quebra, se vingara.
Quando Ichigo acordou, o Sol estava alto. Ficou desorientado. A cama estava vazia e ele se sentiu amargamente aliviado. A última coisa que se lembrava era de ter acordado durante a noite e de ter visto Orihime sensualmente relaxada em seus braços. Ela acordara e o provocara, e ele a possuíra novamente.
Ele ainda sentia a cabeça girar ao recordar o que ela lhe dissera. Reagira instintivamente, levara-a para casa e fizera amor com ela para apagar as terríveis palavras. Quando se lembrava da maneira como ela olhara para ele, enquanto faziam amor, sentia-se tonto. As revelações de Orihime deram uma reviravolta no passado, que ele ainda não conseguira assimilar. Não poderia mais culpá-la pela reação que tivera naquele dia. Ele teria reagido da mesma maneira, ou ainda mais violentamente. Pensar que ela mantivera tudo em segredo o deixava doente. Ela quisera vê-lo novamente. Se a mãe não tivesse lhe dito o que dissera, aquele dia teria sido diferente.
Suou frio ao pensar em como poderia ser diferente agora: bloqueou imediatamente seus pensamentos e ficou muito tenso. Fechara o círculo com Orihime. Haviam feito uma trégua. Ele poderia perdoá-la e seguir em frente. Investiria na propriedade e a colocaria de pé novamente. Isso seria suficiente. Não poderia pensar em outras alternativas porque isso ameaçaria as defesas que construíra cuidadosamente contra a angústia da mãe e o abuso do pai, e que fortalecera desde a semana que passara com Orihime e sentira o coração bater pela primeira vez. O conceito de amor sempre lhe fora estranho até conhecê-la. E havia sido destruído depois da sua rejeição cruel. Não importava o que ele soubesse agora. Não poderia desfazer o dano. Ela estava ligada a tudo e jamais poderia fazer parte do seu futuro.
Ele sentiu a dor de pensar que deveria deixá-la no passado. Levantou, tomou um banho frio, pensando que poderia finalmente seguir em frente, mas apenas se a deixasse para trás.
Orihime saiu cansada da clínica, mas feliz, até ver o conhecido jipe parar no estacionamento. Ela apertou o passo e abaixou a cabeça.
- Orihime !
Ela se voltou. Não estava preparada para encontrar Ichigo. Fazia dois dias que o deixara na cama e não o vira desde então. A mensagem era clara: siga em frente.
Tentou aparentar indiferença, mas não conseguia conter o impulso de devorá-lo com os olhos. Cruzou os braços, com o coração apertado.
- Como está Hisana ?
- Bem. A operação foi um sucesso. Ela ficará internada alguns dias, mas teve sorte. Eles estão muito gratos a você.
- Não foi nada - disse ele, com um gesto displicente.
- Você quer alguma coisa ? - perguntou Orihime. Ele olhou para ela por um longo tempo, e ela sentiu um arrepio de frio.
- Naquela noite… nós não usamos proteção.
Ela gelou e ficou corada. Não pensara naquele assunto.
- Tudo bem. A minha menstruação veio hoje - disse ela, mortificada.
- Ótimo.
- Byakuya volta para casa amanhã. Ele examinará o contrato e eu devo assiná-lo no dia seguinte - ela se sentia uma fraude: lera o contrato e ele era mais que justo e generoso. Só estava adiando as coisas.
- Eu vou buscá-lo.
Ela se voltou rapidamente na direção do carro, odiando as lágrimas que surgiam em seus olhos. Devia ser bobagem, mas, naquele momento, parecia que qualquer ligação que tivessem tido por fim se rompera.
- Orihime…
Ela parou, piscou para disfarçar as lágrimas e se voltou. Ichigo não se movera.
- Sinto muito que…
Ela levantou a mão para calá-lo e engoliu o amargor de esperar que ele lhe dissesse algo banal.
- Não, Ichigo. Não precisa dizer nada. Acabou - ela correu para o carro. Ela e Ichigo haviam procurado um desfecho e encontraram. O que ela pensara existir entre os dois não passara de ilusão, de emoções exacerbadas. Enquanto observava a estrada através de um véu de lágrimas, pensando que, se aquilo fora um desfecho, por que não parecia ter terminado ?
Orihime olhou para o contrato. Ela e Byakuya o haviam lido na noite passada e concluído que ela não poderia fazer melhor negócio. Com o investimento de Ichigo, os vinhedos e a casa seriam completamente renovados e modernizados - algo que seu pai sempre recusara. Este fora um dos motivos para a ruína da propriedade. Byakuya e Hisana seriam protegidos e cuidados. Ichigo traria um gerente de projetos, um novo mestre enólogo e contrataria mão de obra para a colheita. Orihime sabia que só lhe restava assinar, não apenas por ela, mas também pela economia local. A propriedade sempre contratara moradores locais e voltaria a empregá-los.
Não podia negar que queria ver seu legado reflorescer, mas seria uma pena que ela não estivesse lá para ver. Pegou a caneta com mão pesada e assinou o contrato. Com isso, selava o seu destino: não poderia mais ficar ali. Não poderia ver Ichigo todos os dias e conviver com o esquecimento do que houvera entre os dois. Ela se escondera atrás do investimento para vender a alma e o coração a Ichigo. O que acontecera entre eles se reduzira a um documento legal.
Tentou escrever uma mensagem para ele, mas tudo lhe parecia ridículo e banal. Por fim, ela escreveu simplesmente: "Ichigo, estou lhe passando o controle total da propriedade, e todas as decisões a Byakuya. Ele é a melhor pessoa para supervisionar o trabalho a ser feito. Atenciosamente, Orihime".
Ela colocou o recado dentro de um envelope e deixou-o sobre o contrato, com um bilhete para Byakuya. E saiu de casa.
Ichigo olhou o pôr-do-sol que coloria os picos nevados dos Andes de cor-de-rosa. A barba incipiente coçava. Seus olhos ardiam. Não dormira uma noite inteira, desde o dia em que acordara na cama vazia. O panorama da sua vasta propriedade jamais deixara de lhe dar satisfação, mas há semanas deixara de animá-lo. Ele se tornara distraído e perdera o interesse pelo trabalho, que sempre fora sua razão de ser. No dia anterior, Kyouraku precisara repetir três vezes o que lhe dizia, e ele rosnara como um urso ferido. Ele se desculpara, mas percebera estar perdendo o pouco controle que conseguia manter. E começara a perder o controle quando vira Orihime Inoue entrando no hotel de Mendoza. Antes mesmo de reconhecê-la, soubera que tudo mudaria irrevogavelmente.
E, de repente, enquanto a luminosidade se espalhava sobre os Andes, ele percebeu o que aquilo significava e o que deveria fazer para recuperar a sanidade. Tudo aquilo - a sua batalha com os pais, a sua fortuna - nada significava. Porque, a partir do momento em que vira Orihime Inoue montada num cavalo, oito anos antes, e a seguira até o orquidário, ela passara a controlar o seu destino. Ela conquistara a sua confiança e o destruíra com a sua brutal rejeição - agora compreensível. Era a única que poderia curá-lo, fazer com que ele se arriscasse a confiar novamente… desde que ela voltara para casa, ele começara a despertar, a voltar à vida e a resistir porque o sofrimento era intolerável. Mas o sofrimento se tornara tão indispensável para ele como respirar.
Ele nem notou que se mexera até estar dirigindo o jipe em direção à casa de Orihime. Não reparou no outro veículo que passou pela estrada: um táxi. Quando chegou, a casa estava silenciosa, e ele imediatamente pressentiu por quê. Foi até o escritório, viu o contrato e as mensagens. Colocou o bilhete para Byakuya de lado, abriu o envelope com o seu nome e leu. Então pegou o contrato e olhou a última página: a assinatura de Orihime estava na última linha.
Com um rugido inarticulado, ele atirou o contrato contra a estante, e as páginas se espalharam. Ele saiu da sala com um olhar enlouquecido.
Orihime estava na fila do guichê contando o dinheiro. Tinha o suficiente para a passagem. Quando chegasse a Buenos Aires, tentaria convencer sua tia a deixá-la ficar com ela por algumas semanas, até encontrar um…
- Fugindo, Orihime ?
O raciocínio de Orihime congelou. Ela se voltou e viu Ichigo atrás dela, de braços cruzados. A sua fisionomia calma e controlada desmentia a sua aparência: cabelos despenteados, olhos avermelhados e queixo coberto por uma incipiente barba. E ele estava muito, muito bonito.
Ela se voltou para o guichê e tentou controlar o sangue que lhe aquecia as faces.
- Não sei por que se deu o trabalho de vir até aqui, Ichigo. E não: eu não estou fugindo - ela avançou dois passos, mas ele a seguiu.
- Você quase me enganou. Percebeu que não iria agüentar ? Que você realmente não se importava tanto com a propriedade ?
Ela tentou se esquivar e passar por ele.
- Você sabe que isso não é verdade. Eu amo aquelas terras.
- Então por que está indo embora ?
Ela corou. As pessoas começavam a observá-los porque, com certeza, reconheciam um dos cidadãos mais importantes de Mendoza. Bastaria que a reconhecessem também para terem assunto para fofocas durante meses: Ichigo Kurosaki escorraça Orihime Inoue para fora da cidade !
Ela se afastou da fila, para evitar que os ouvissem, e passou por Ichigo.
- Eu não preciso estar lá para você investir na propriedade dos Inoue.
- Faz parte do contrato - disse ele, irritado. Ela sentiu vontade de bater o pé no chão. As suas emoções estavam à flor da pele.
- Eu estou indo embora, Ichigo, e não há nada que você possa fazer ou dizer para me impedir - ela resolveu voltar ao fim da fila e começar tudo de novo.
- E se eu disser que não quero que você vá, e que isso nada tem a ver com o investimento ?
Orihime parou e sua respiração se tornou ofegante. Sequer notava os olhares interessados das pessoas que passavam entre ela e Ichigo. Ela não ouvira bem, ou ele não dissera o que ela ouvira; ela deu mais um passo adiante.
- Droga, Orihime ! - ele se plantou diante dela. Orihime o encarou e notou que um músculo do seu queixo tremia.
- Ichigo...?
- Eu não quero que vá porque acabo de perceber que preciso de você.
Ela crispou as mãos em torno da bolsa. Alguma coisa voou dentro do seu peito, mas ela pensou que ele deveria estar falando do investimento.
- Byakuya estará lá. Ele é capaz de…
Ichigo quase explodiu.
- Eu não estou falando sobre o investimento. Ele não me interessa. Só me ofereci para investir porque você estava resolvida a se arriscar perigosamente. E o contrato… - ele se calou e soltou um impropério, antes de admitir: - O contrato foi um meio de levá-la para a cama sem reconhecer que eu tinha medo de que você me rejeitasse de novo.
Ele levantou a mão e acariciou-lhe o rosto. Ela percebeu que a mão dele tremia e teve um déjà vu.
- Eu fiz uma confusão por ser muito covarde para admitir o que você me fez sentir ao voltar, Orihime - ele sacudiu a cabeça - A sua rejeição, naquele dia… foi como se tivessem arrancado o meu coração do peito e jogado no chão. Depois disso, nada mais importava. Eu me fechei. Em uma semana, eu tinha me apaixonado completamente por você…
A visão dela ficou turva. Ela segurou a mão de Ichigo sobre o seu rosto, desejando que ele confiasse nela.
- Ah, Ichigo… sinto muito que tenha acontecido, que a minha mãe tenha me envenenado, que eu não pudesse lhe contar. Eu o queria tanto. Eu me apaixonei por você. É por isso que não pode me perdoar - ela afastou a mão dele do seu rosto, decidida, e recuou - É por isso que eu estou indo embora. Não sou forte o suficiente para ficar perto de você, amando-o e sabendo que seguiu a sua vida, que precisa ir em frente.
Ele parecia perplexo.
- Você me ama ? Ainda agora ?
Ela assentiu e as lágrimas lhe umedeceram os olhos.
- Você sempre esteve no meu coração e na minha cabeça. Quando eu voltei, disse a mim mesma que o odiava por ser autoritário, por me fazer acreditar que o que acontecera entre nós dois, há oito anos, para você não passara de puro desejo. Mas era uma mentira. Eu só concordei com esse maldito contrato porque pensei que seria a única maneira de você me aceitar…
Enxugando às lágrimas, ela agarrou-se à bolsa e passou por ele, mas Ichigo segurou-a pelo braço.
- Por favor… deixe-me ir. Você não pode me fazer ficar. Não agora.
Ele não a ouviu. Virou-a para ele e ergueu-lhe o rosto. Orihime viu a sua expressão e sentiu o coração parar. Ele parecia tão vigoroso, tão livre das sombras terríveis. Um sorriso iluminava o seu rosto… ela sentiu o coração voltar a bater, fazendo com que sua cabeça ficasse leve. Ele gentilmente perguntou:
- Você ouviu alguma palavra do que eu disse ?
Ela ficou confusa. O que ele teria dito ? Ichigo pegou a sua bolsa e soltou-a no chão. E, antes que ela pudesse tomar fôlego, ele já se ajoelhava diante dela e lhe segurava as mãos. Olhando-a com os imensos olhos castanhos, ele falou com a voz rouca:
- Orihime Inoue, eu te amo. Você já me fascinava antes que eu a conhecesse e, quando nos conhecemos, eu me apaixonei profundamente por você. Nunca deixei de amá-la, por mais que isso me doesse, mas só percebi isso quando você voltou para casa. Eu disse a mim mesmo que a odiava e que queria me vingar… mas eu queria você, queria o seu coração, e era covarde demais para admitir…
Ela estava muda de perplexidade, certa de estar sonhando. A fila se desmanchara e os dois estavam cercados por uma multidão de espectadores curiosos. Orihime ouviu alguém suspirar dramaticamente perto dela.
- Orihime Inoue… você me daria a honra de se casar comigo ? Não poderei prosseguir com minha vida se não souber que você estará comigo. Quero que tenhamos filhos e envelheçamos juntos, e que sejamos aqueles que enterrarão para sempre a briga entre nossas famílias. Eu a amo.
Ela começou a chorar abertamente e a emoção a levou a tremer. Ele levantou-se e abraçou-a, embalando-a e acalmando-a. Quando ela conseguiu se acalmar, afastou-se um pouco e olhou para Ichigo. Ele ainda parecia feroz e angustiado. Ela ainda podia ver o medo nos seus olhos: o medo de que, de qualquer maneira, ela fosse embora. Ela abraçou-o pelo pescoço e lhe deu um beijo salgado, dizendo com um suspiro emocionado:
- Sim. Eu me caso com você, Ichigo Kurosaki. Como poderia ser diferente, se eu o amo tanto ?
Os gritos da multidão fizeram com que ela escondesse a cabeça no peito de Ichigo, envergonhada. Ela sentiu que ele a levantava do chão e que a carregava para fora, para a luz do Sol.
Um ano depois
- Não - disse Ichigo pacientemente - Somos casados, mas a minha mulher tem uma enorme propriedade em seu nome e resolveu manter o nome Inoue. Ela é uma mulher moderna.
Orihime estava de mãos dadas com o marido e controlou o riso quando ele lhe apertou a mão com mais força. Os dois observaram o velho casal de esnobes se afastar, demonstrando reprovação pela sua falta de conveniência. Os habitantes de Mendoza só aos poucos começavam a aceitar a união Inoue-Kurosaki, mas as terras dos Inoue estavam a caminho de florescer novamente através do próprio rótulo.
Quando o casal se foi, Orihime riu alto e escondeu a cabeça no peito de Ichigo. Ele lhe acariciou o pescoço com ternura. Ela se controlou, adorando a sensação de calor lânguido que ele lhe provocava ao tocá-la e que, mais do que nunca, logo se transformaria em algo mais forte, se tivesse oportunidade.
- Bem, señor Kurosaki - disse ela, sorrindo para o marido - Você sabe que este é o nosso primeiro aniversário ?
- Mas nós só nos casamos há nove meses - disse ele, levantando a sobrancelha.
Orihime olhou ao redor do suntuoso salão de baile do hotel em Mendoza e apertou a mão dele.
- Não este tipo de aniversário. Estou falando da primeira vez em que nos reencontramos, no ano passado…
Ele fitou os olhos cinza límpidos e adoráveis da esposa e sentiu o peito se contrair intensamente, como sempre acontecia ao sentir fisicamente o amor. Ele se lembrava de que, ao vê-la surgir na porta naquela noite, um ano antes, pressentira que ela lhe traria problemas, mas não mudaria nem um segundo do que acontecera.
Ichigo sorriu, levantou a mão da esposa e beijou-a. Os olhos dela escureceram, ele imediatamente sentiu o sangue correr para a virilha e quase gemeu alto. Pareciam dois adolescentes fogosos.
- Feliz aniversário, meu amor - disse ele com a voz rouca, acariciando o rosto de Orihime.
Ela mexeu o rosto sob a mão dele e Ichigo olhou para ela, desejando que estivessem a sós. Ela suspirou e ele olhou para baixo, preocupado. Notou que Orihime tinha uma expressão de desconforto e que abaixava a mão, apoiando-a sobre a enorme barriga. Já haviam se passado duas semanas do prazo. Ela resmungou de bom humor:
- Você acha que este bebê vai resolver aparecer ? Se ele demorar mais tempo, eu vou precisar de um guindaste para me movimentar.
Ele sorriu e abraçou-a.
- Sei um jeito de apressá-lo…
Ela se derreteu sob o olhar de desejo do marido. O ano que passara fora um sonho. Ela o amava mais do que acreditara ser possível quando se apaixonara por ele.
- Podemos ir embora agora ?
- Podemos fazer o que quisermos - disse ele, depois de beijá-la.
- Mas o seu discurso... - ela o viu trocar um olhar com Kyouraku.
- Kyouraku cuidará disso. Isto... - disse ele, tocando-lhe a barriga - Você, nós… não há nada mais importante do que isso.
No dia seguinte, às cinco da manhã, Ichigo e Orihime davam as boas-vindas ao filho, Sora, assim chamado em homenagem ao irmão dela.
Exausta, mas feliz, Orihime observava Ichigo ninar o filho.
- Se pudéssemos patentear o seu método de apressar o parto, faríamos uma fortuna.
Uma mãozinha agarrou o dedo de Ichigo. Ele olhou para a esposa e brincou:
- Da próxima vez eu me empenharei mais.
Ela resmungou.
- Da maneira que eu estou me sentindo, não haverá próxima vez.
Ichigo riu e Orihime ficou feliz por ele ter recuperado a cor. Ele quase desmaiara na sala de parto por nada poder fazer enquanto ela evidentemente sentia dor.
Ichigo se aproximou e entregou o filho para a esposa, que o colocou para mamar.
- Não se preocupe, sra. Kurosaki - disse Ichigo, junto ao ouvido dela - Eu lhe darei tanto prazer da próxima vez que você não vai pensar na dor.
Orihime olhou para ele e viu os seus olhos escurecerem ao ver o filho lhe sugar o seio. Ela sentiu um calor no ventre, que nenhuma dor seria capaz de diminuir, nem depois de quinze horas em trabalho de parto.
- Onde eu fui me meter ? - resmungou ela baixinho.
Ichigo beijou-lhe o pescoço, ergueu-se para olhá-la, colocou a mão na cabeça do filho… e simplesmente sorriu.
P. S.: E aqui chegamos ao final de mais um a adaptação, a minha décima segunda adaptação, a primeira com o fandom de Bleach, e, obviamente, também a primeira com o ship Ichigo/Orihime. E eu espero que vocês gostem dela.
E, se gostarem... reviews, pode ser ?
