Capítulo 10 – Irmãos
Kagura invejara a liberdade de Byakuya em se deslocar de um lugar para o outro. Sua habilidade de voo não era tão natural quanto a de Sesshoumaru, mas ainda assim era admirável. Com apenas uma dobradura em formato de pássaro que cabia na palma de sua mão, o Mestre do Chá possuía um meio de transporte aéreo que carregava facilmente duas pessoas. Ela não se sentira muito confortável a princípio pela rigidez do papel e pelas pontas afiadas, porém o desconforto não era grande o suficiente para fazer com que ela desejasse ir sobre os próprios pés para onde estavam indo. A sensação do vento em seu corpo bastava para lhe proporcionar prazer na viagem. Prazer esse que atrasara o relato de seu despertar.
Byakuya ficara fascinado com a história que ouvira dos lábios dela. Kagura, no entanto, tomara cuidado em omitir a participação de Sesshoumaru e das pessoas que conhecera no vilarejo em sua trajetória até o Palácio do Céu Estrelado, por em seu ponto de vista essa informação ser irrelevante em sua narração.
Não transmitira informações o suficiente para concretizar um fato, contudo havia o suficiente para que ele elaborasse especulações, não sendo essas diferentes das que Kagura já ouvira de Jaken. Nem mesmo Byakuya demonstrara ter conhecimento anterior sobre a forma verdadeira dela ser o seu leque. Esse segredo foi algo que o criador deles, Naraku, levou consigo para a cova.
- Talvez Kanna soubesse sobre isso – Byakuya observou – Me recordo de tê-la visto levar o seu leque para o leito de um lago quando fui passar para ela sua última missão. A nossa irmã mais velha não era de muitas palavras, entretanto com certeza ela sabia de mais coisas do que deixava transparecer – Deu de ombros – E assim como Naraku seus segredos nunca serão revelados, isto é, se depender dela para isso.
- Suponho que ela também deve ter morrido – Kagura comentou.
- Sim. Somente nós dois continuamos vivos, se é que podemos dizer isso depois de já termos encarado uma espécie de morte.
Aquele sentimento era estranho para si. Saber que Kanna falecera resultara em uma sensação de vazio em seu peito. Nem mesmo o vento que circulava com rebeldia ao seu redor melhorara o seu ânimo que inexplicavelmente se tornara apático. Ainda que não possuísse nenhuma lembrança sobre aquela que fora a primeira youkai criada por Naraku, conforme Byakuya lhe relatara, saber que de alguma forma ela se preocupara em realizar um memorial para si fizera com que despertasse uma enorme simpatia por Kanna.
O resto da viagem foi realizado na maior parte do tempo em silêncio. Sua companhia tinha o costume de lhe dirigir a palavra de vez em quando, entretanto nunca para dizer algo relevante. O lugar para onde estavam indo não era tão distante quanto julgou que seria. De fato, era bem próximo do vilarejo cujo qual Rin habitava. Do alto de onde estava, ela pôde reconhecer o templo que a menina mencionara e pelo jeito algum evento estava acontecendo por lá, pois havia uma grande aglomeração de pessoas na enorme escadaria que levava à construção.
- Parece que está acontecendo uma festa ali – Byakuya comentou, demonstrando também ter notado o intenso movimento ali formado.
- Provavelmente é o festival do outono – Kagura respondeu, recordando-se da menção de Rin sobre a preparação da festividade.
Byakuya a estudou com desconfiança.
- Como sabe disso? – Questionou.
- Uma conhecida me falou – Respondeu, dando de ombros em face da irrelevância da fonte.
- Você não me falou dela – Acusou.
Kagura revirou os olhos e deixou que um suspiro cansado escapasse antes de lhe dirigir a palavra.
- É só uma garota humana. Não há nada de interessante nisso para ser compartilhado.
Esperava que essas palavras fossem o suficiente para encerrar o assunto, contudo estava enganada.
- ... Você não está escondendo nada de mim, não é mesmo, Onee-San? – Ele provocou.
Dominada pela impaciência, petulância e desconfiança daquele que dizia ser o seu irmão, os olhos dela se fixaram no topo da cabeça dele que estava à sua frente e bateu-lhe ali com os nós dos dedos de sua mão direita. Essa ação retirou um gemido de dor do homem que em instinto protetor agarrou o lugar dolorido com ambas as mãos e a acusou de ser cruel.
- Sua função é cuidar para que cheguemos no lugar que precisamos e não cuidar da vida dos outros – O recordou.
- Tem razão – Respondeu com indignação ao tratamento recebido – Quando voltarmos, vou avisar a Hideaki que não a quero mais trabalhando comigo. Uma pessoa que não respeita o irmão, com certeza não irá respeitar o seu superior! – Acusou.
Kagura cruzou os braços em frente ao corpo e virou o rosto, deixando escapar um estalo de irritação de seus lábios.
- É necessário que você volte vivo para falar qualquer coisa.
- Isso foi uma ameaça? – Voltou-se para ela, surpreso com o que acabara de ouvir.
- Apenas uma observação – Respondeu, esboçando um sorriso no canto dos lábios.
- O seu leque está quebrado – Ele recordou – Não tem como você me atacar.
Os olhos dela continuaram fixos na direção do vilarejo, mas ela podia sentir os olhos azulados de Byakuya a estudando minuciosamente.
- Eu não planejo atacá-lo – Confessou – Mas voando à essa altura, muitas coisas podem acontecer – Dando uma piscada longa, retribuiu o olhar ao dele – Melhor não ficar muito perto das extremidades, não concorda?
Kagura pôde jurar que o viu engolir em seco. Provavelmente não por medo, mas pela ausência de palavras para rebater o que ela dizia com tamanha audácia. Imediatamente eles começaram a perder altura. A princípio ela julgou ser uma atitude cautelosa dele e estava quase se dando por vencida quando observou que eles estavam pousando no meio de um jardim de ervas onde um enorme youkai com aspectos animalescos se encontrava, entretido com sua colheita.
- Jinenji – Byakuya o cumprimentou, saltando de seu meio de transporte.
Kagura o imitou, sentindo a grama macia nas solas de seus pés descalços. A dobradura que outrora tinha a sua dimensão ampliada consideravelmente para carregar os dois no ar, agora voltara ao seu tamanho original. Ela assistiu a mágica acontecer diante de seus olhos enquanto o Mestre do Chá guardava o pequeno pedaço de papel na manga de sua vestimenta.
Nesse momento, de dentro da casa construída no meio do jardim saiu uma senhora de idade avançada que usava um lenço na cabeça.
- Quem está aqui, filho? – Ela questionou, voltando-se para o youkai na plantação.
- Filho? – Kagura deixou a indagação fugir de seus lábios.
O youkai era quase três vezes maior do que a senhora. Era difícil imaginar que ela fosse a mãe daquela criatura que nem remotamente lhe assemelhava.
- O Mestre do Chá do Palácio do Céu Estrelado, mamãe – O youkai chamado Jinenji respondeu à mulher enquanto se punha de pé, comprovando a Kagura que de fato se tratava de mãe e filho – Você não veio sozinho dessa vez, vejo que trouxe uma garota consigo – Jinenji corou ao reparar a presença de Kagura.
Ela arqueou uma de suas sobrancelhas ao ver a enorme face dele ganhar cor.
- Essa é Kagura, a minha irmã – Byakuya a apresentou – Provavelmente no futuro ela virá buscar as encomendas no meu lugar.
Desconfiada das palavras do Mestre do Chá, ela se pôs a estudá-lo. Então ele mudou de ideia sobre me demitir? Ponderou.
- Oh! – O focinho de Jinenji se abriu, demonstrando sua surpresa – Vocês de fato são muito parecidos. Vocês são gêmeos?
Kagura interveio antes que Byakuya pudesse responder.
- Não somos irmãos – Corrigiu a informação compartilhada por seu companheiro – Apenas viemos do mesmo criador.
Enquanto Jinenji demonstrava estar confuso com o discurso dela, Byakuya não hesitou em esconder sua indignação.
- Como você é rude, Onee-San – Disparou – Apesar de não nos tratarmos como família, certamente possuímos uma ligação de irmãos, ainda que não tenhamos sido próximos por uma questão de... falta de oportunidade.
Ela podia continuar esse debate, mas julgou não estar no lugar mais propício para isso, ainda mais com uma família de estranhos presenciando a discussão.
- Que seja – Deu de ombros, decidida a não insistir no assunto, pelo menos nos momentos seguintes.
- Err... – Jinenji que assistia a cena em silêncio com medo de ser inconveniente, finalmente criara coragem para entrar na conversa novamente - ...Em que posso ajudá-lo dessa vez, Mestre do Chá?
- Vim buscar as mesmas ervas do mês passado. Espero que ainda as tenha disponível agora que a estação mudou – Byakuya retirou um pedaço de papel da manga oposta onde a dobradura de pássaro estava guardada e entregou-o ao Jinenji – Dessa vez eu trouxe a lista comigo – Comentou.
- Jinenji, convide-os para entrarem enquanto prepara o pedido deles – A mulher que aparentemente era a mãe daquela criatura ordenou, voltando a entrar na casa.
- Vocês gostariam de entrar? – Jinenji obedientemente os convidou.
Kagura já havia dado um passo para frente quando Byakuya a deteve no lugar, segurando-a pelo braço.
- Agradeço, mas vamos esperar aqui. Estamos com um pouco de pressa.
Desconfiada das palavras de Byakuya, Kagura o encarou e retirou a mão dele de seu braço indelicadamente. Quando Jinenji se distanciou deles, indo para dentro da casa enquanto estudava o conteúdo daquele pedaço de papel que lhe fora entregue, ela aproveitou a deixa para questionar a decisão do companheiro.
- Por que recusou o convite?
- Você não viu a velha? – Perguntou, acariciando os braços como se estivesse arrepiado.
- O que tem ela? – Não havia identificado nada de estranho na mulher que justificasse evitá-la.
- A mãe de Jinenji apesar de ser humana e já ter bastante idade não é nem um pouco simpática. E o olhar que ela tem... – Byakuya estremeceu – Não, não, não. Não vou entrar naquela casa com ela lá dentro, não!
Ela teria rido da reação dele por se sentir intimidado por uma simples humana se algo naquela explicação não tivesse chamado sua atenção.
- Ela é humana e claramente Jinenji é um youkai – Observou – Como ela pode ser a mãe dele?
- Jinenji não é um youkai! – Ele a corrigiu – Ele é um meio-youkai, um hanyou. O pai dele era um youkai e a mãe dele é aquela humana.
Kagura absorveu a informação em silêncio. Não havia conseguido captar nenhuma diferença na energia emitida por Jinenji que o diferenciasse de um youkai completo. A única diferença que pôde sentir foi que a vibração dele era mais baixa do que a de Byakuya e ainda assim no Palácio do Céu Estrelado muitos funcionários tinham as vibrações enérgicas mais ou menos acentuada e isso nunca a levou à questionar a raça que eles pertenciam.
- Nem todos os youkais são puros – Byakuya comentou, demonstrando ter compreendido as dúvidas que ela possuía – Nosso criador mesmo era um meio-youkai, mas ele foi construído dessa forma, visto que a origem dele era totalmente humana. Nós, as crias dele, somos totalmente youkais. Pelo menos isso ele soube fazer certo.
- Ser um meio-youkai é tão ruim assim?
Byakuya a estudou, procurando uma forma de transmitir o seu conhecimento.
- É melhor do que ser humano, mas um hanyou possui várias limitações e não pertence à lugar algum. Como eles não são youkais completos, os youkais não os veem como seus semelhantes e, como não são totalmente humanos, os humanos os desprezam. É muito difícil você encontrar um meio-youkai que viva em um grupo de pessoas, a maioria optam em se isolarem, como é o caso do Jinenji – Byakuya apontou – Se você reparar, o corpo dele é coberto por cicatrizes antigas provocadas pelos humanos da vila onde ele anteriormente habitava. Pela perseguição que sofria ainda quando criança, a mãe dele o trouxe para este lugar onde eles trabalham há muitos anos com o cultivo de ervas medicinais. Não é uma vida fácil, contudo é a única opção que lhe restou.
- Talvez ele tivesse uma opção melhor se a mãe dele estivesse morta – Kagura ponderou.
- Muito difícil – Ele negou – A maioria das pessoas que vem até aqui são humanos e eles só vem porque a mãe dele intercede na negociação. Quando ela morrer, provavelmente os aldeões irão cessar suas compras ou saquearão este lugar caso precisem dos produtos.
- Isso seria muita ingratidão dos humanos... – Murmurou, observando a figura do meio-youkai com dois embrulhos nos braços sendo acariciado pela mãe que retirava as gramas presas em sua roupa na porta da residência em que habitavam.
- Ingratidão não é algo específico dos humanos. Você mesma foi considerada ingrata para o nosso criador quando escolheu traí-lo. Claro que você pagou o preço por isso, e isso não significa que estava de tudo errada ao fazer a sua escolha. Porém quando alguém faz um favor para você, não necessariamente eles fazem sem esperar algo em troca. É como a plantação de ervas do Jinenji: ele vende o que planta e quem compra sempre espera receber o melhor produto. Entretanto ele não é o único que trabalha com isso na região e quando ele deixar de ser útil, ser descartado será inevitável.
Kagura semi-cerrou os olhos, fazendo uma análise mais profunda do que estava lhe sendo dito.
- Quer dizer que o mesmo vale para mim no Palácio do Céu Estrelado?
- Exatamente – Byakuya concordou – Com a saída da Ume-San, tínhamos uma vaga e Akemi-San enxergou potencial em você. Em troca de hospedagem e pagamento, é esperado que você trabalhe para nós. Ninguém lá genuinamente se importa com você. Ninguém, exceto eu, que sou o seu irmão. E por ser o seu irmão estou disposto a te aceitar na minha Casa de Chá, mesmo que não tenha competência para essa arte.
Depois do que lhe havia sido compartilhado, era difícil que ela não desconfiasse até daquele que dizia ser o seu irmão. Quando ele deixou claro que tudo na vida tinha um valor a ser pago, com certeza o acolhimento dele lhe custaria algo no futuro, assim como havia tido um custo o de seu criador. Se o preço máximo de sua ingratidão foi a morte, como Byakuya alegara, então ela dependeria o mínimo possível das pessoas em face de não desejar cometer os mesmos erros do passado.
- Irei separar as ervas que pediu para o mês que vem – Jinenji prometeu, entregando os dois pacotes que trazia consigo para Byakuya que em troca lhe entregou as moedas da bolsa que Hideaki lhe dera mais cedo.
- Conto com sua eficiência, Jinenji – O Mestre do Chá abriu um sorriso no canto dos lábios e passou as encomendas para Kagura que resmungou do peso ao recebe-las – Nós já vamos agora e mês que vem quem virá é a minha irmã.
- Yo! Você bem que podia carregar os pacotes! – Esbravejou, acompanhando Byakuya em direção ao portão de madeira que separava a plantação de ervas das terras ao redor.
- Não quero mimá-la demais – Ele riu.
- Nós vamos voar, que diferença faz quem segura ou não os pacotes? – Indagou.
- Nós vamos caminhar. O dia está lindo, Onee-San. Perfeito para uma caminhada – Rebateu a afirmação, espreguiçando os braços em direção ao céu.
O dia realmente estava lindo e ela poderia apreciá-lo mais se estivesse nas alturas e sem peso extra para carregar. Contudo, sabia que discutir com ele só cansaria a sua beleza.
- Então ao menos carregue um – Comandou, enfiando um pacote nos braços dele, assim que ele voltou a abaixá-los e tomou a frente do caminho, antes que ele pudesse cogitar lhe devolver.
- Tudo bem – Ele respondeu, passando o braço livre ao redor dos ombros dela – Desde que me faça companhia nesse dia tão especial, Onee-San.
Uma veia em sua têmpora saltou. Se não estivesse tão absorta na fúria que sentiu por Byakuya quando ele rompeu a distância que havia entre ambos, teria notado o tom estranho presente naquela frase e saberia que ele estava tramando algo ao escolher fazer o percurso por terra ao invés de por ar.
