Capítulo Dez

The Same Side

(Do Mesmo Lado)

— Entre, Black.

Sirius abriu a porta. A presença de Scrimgeour era mais do que esperada, já que era o escritório dele e Sirius tinha solicitado uma reunião, mas não esperava ver Robards lá.

— O que aconteceu com você? — perguntou Robards, chocado.

— Qu... Ah. — Sirius levou a mão à orelha, que estava vermelha e inchada apesar de todas suas tentativas de curá-la (em sua velhice, Olho-Tonto dependia de venenos obscuros, poções e feitiços de animação). — Uma briga com uma caixa de correio. Não pergunte. — Nenhum dos dois perguntou. Sirius olhou de um para o outro. — Quer que eu volte depois ou...

— Não, sente-se. — Scrimgeour indicou a cadeira livre ao lado de Robards. — Sobre o que queria conversar? — Sirius olhou para Robards, que não fez menção de ir embora.

Que assim seja. Amargurado, Sirius colocou a mão no bolso, de onde tirou seu Auxiliar e o envelope que continha seu pedido de demissão, colocando-os na madeira escura da mesa de Scrimgeour. As sobrancelhas espessas dele se levantaram e ele olhou para Robards, mas o cheiro de nenhum deles era particularmente surpreso.

— Estou pedindo demissão — falou Sirius, decidindo que eles não tinham entendido. Scrimgeour não se mexeu para pegar a carta.

— Por quê? — perguntou ele.

— Está tudo aí — murmurou Sirius.

— Quero ouvir de você — falou Scrimgeour.

— Porque eu vou passar o próximo ano como professor... — Tinha esperado um pouco mais de resistência, fosse de Olho-Tonto, fosse de Dumbledore; mas um tinha resmungado e dito que estava mesmo aposentado, e o outro tinha aceitado sua candidatura com nada além de um gentil lembrete que deveria cuidar de todos os alunos, não só de Harry, e aí começou a planejar como poderia usar todo o tempo livre que Olho-Tonto passara a ter para recomeçar a Ordem da Fênix. Os eventos da Copa Mundial tinham preocupado Dumbledore tanto quanto a todo mundo. — E ser professor não é lá de muito uso pro Departamento de Aurores, então... — Com um nó na garganta, indicou a carta.

— Está querendo uma mudança, é? — perguntou Scrimgeour, curioso. — Mudança de ritmo ou...

— Não posso ficar aqui, senhor — falou Sirius tristemente. — Não com tudo que está acontecendo. — Olhou de soslaio para Robards; ele, pelo menos, entendia o porquê de Sirius precisar passar o ano perto de Harry, especialmente depois de tudo o que tinha acontecido na Copa Mundial. E depois da conversa que tivera com Harry na noite anterior, Sirius decidiu que podia usar esse tempo para ver se havia algo que podia fazer por Draco.

— Realmente — falou Scrimgeour. — Mas por que isso significa que precisa pedir demissão? Do jeito que eu vejo, estamos preocupados com as mesmas coisas.

— Você está preocupado com o Harry? — perguntou Sirius, franzindo o cenho.

— Estou preocupado com Você-Sabe-Quem — respondeu Scrimgeour. — E seus seguidores, e qualquer pessoa que eles possam querer machucar, incluindo seu garoto.

— Por causa da Copa Mundial? — perguntou Sirius.

— Entre outras coisas — falou, e Sirius ergueu uma sobrancelha.

— Ele sabe — falou Robards, e Sirius o olhou. — Tudo sobre aquele dia em que te prendi a uma cadeira no meu escritório para te perguntar sobre aquelas cartas de testemunhas falsas. Sobre Munch não ser Crouch, sobre tudo o que aconteceu com Wormtail na escola, sobre o infeliz hábito de Potter sempre estar no meio de tudo...

— Você contou? — perguntou Sirius, incrédulo. — Ele estava na nossa lista de suspeitos. — Olhou para Scrimgeour. — Er... sem ofensas, senhor.

— Não me ofendi. — De fato, Scrimgeour parecia se divertir.

— Você acha mesmo que ele não teria feito perguntas há muito tempo se não soubesse? — perguntou Robards. — Nós temos nossa liberdade por aqui, Black, mas não tanto assim... Se tivéssemos feito as coisas do seu jeito, ele estaria no meu escritório depois de uma semana, querendo saber no que estávamos trabalhando, quais eram nossas pistas. — Ele também parecia se divertir. Era vergonhosamente óbvio. Mas Sirius estivera distraído demais com tudo que acontecera com Harry, Wormtail, Crouch e Voldemort para parar e pensar no assunto.

— Certo — falou, sem jeito. — Então, por que ficou quieto?

— Eu não estava preocupado — falou Scrimgeour, com um leve encolher de ombros.

— Mas agora está? — perguntou Sirius.

— Com uma coisa só — falou Scrimgeour. — Gawain não poderá ir com você para Hogwarts, então eu não terei quem me mantenha atualizado sobre o que você tem feito. Isso significa que você terá de me atualizar. — Sirius assentiu lentamente. — E estou falando de atualizações de verdade. Nada dessa história de ser vago nem de omitir as coisas.

— Eu vou omitir às vezes — falou simplesmente, pensando em Harry.

— Não — falou Scrimgeour. — Não omitirá, ou vou te tirar de lá e mandar outra pessoa.

— Eu vou pedir demissão — falou Sirius. Normalmente, gostava de Scrimgeour, mas estava ansioso desde a Copa, preocupado com Harry, e não gostava do tom do outro homem. — E vou ficar na escola. Não pode obrigar o Dumbledore a me demitir.

— Não seja difícil, Black. Se quisermos te tirar de lá, tiraremos... vamos te colocar sob investigação por ocultar informações ou...

— Eu fujo — falou, erguendo as sobrancelhas. — Sumo do radar. Já fiz isso antes e fiz muito bem, se parar para pensar.

— E como aconteceu antes, você ficará perto de Potter, mas, ao contrário da última vez, ele não ficará escondido na sua casa. Ele estará em Hogwarts, o que significa que você estará em Hogwarts...

— Chega, vocês dois — falou Robards, irritado.

Sirius e Scrimgeour rosnaram um para o outro sem real vontade. Scrimgeour foi o primeiro a suspirar e a relaxar.

— Quais omissões? — perguntou ele, tenso.

— Às vezes eu vou saber das coisas. Dos planos de Voldemort, ou nomes de pessoas, ou... sei lá, coisas. E não poderei provar nenhuma delas, nem explicar como eu sei. Você terá de acreditar que eu sei do que estou falando e não poderá pedir por detalhes que eu não der.

— Você tem um informante? — perguntou Scrimgeour.

— Tipo isso — murmurou Sirius. Robards e Scrimgeour se entreolharam.

— Potter? — Scrimgeour ter perguntado indicava que Robards não tinha contado tudo; quando Robards confrontara Sirius sobre as cartas falsas, Sirius tinha dito abertamente que Harry era sua fonte de informações, mas tinha se recusado a explicar. Robards não ter contado a Scrimgeour era bom; era algo que diminuiria um pouco o envolvimento de Harry, e Sirius era grato; não ficaria surpreso se Scrimgeour agisse por suas costas e fosse direto a Harry se achasse que a situação justificasse tal atitude.

— Não vou falar mais nada — disse. Ele e Scrimgeour se encararam por mais um tempo, até o homem mais velho assentir, tenso.

— Muito bem — falou, mas não parecia muito feliz. — Acho que o mais importante é estarmos do mesmo lado. Inimigo em comum e tudo o mais. Certo?

— Certo — concordou Sirius, aliviado.

-x-

A última semana das férias foi movimentada, mesmo para os padrões d'A Toca. Fred tinha ordens médicas para descansar, o que significava que ele e George passavam muito tempo enfurnados em seu quarto, fazendo só Merlin sabia o que, e Harry ia e vinha como sempre — para jogar Quadribol, para contar histórias sobre a mais nova Lupin, para contar que Sirius começaria a ensinar em Hogwarts. O pai e Percy trabalhavam até tarde no Ministério, tentando arrumar tudo depois da Copa Mundial e, quando estavam em casa, passavam muito tempo conversando um com o outro, com Bill e com Charlie em voz baixa. E Ron... bem, quando ele não estava com Harry, Hermione ou Ginny, fugindo dos cuidados excessivos da mãe ou tentando aprender novos feitiços com os antigos livros de Bill — Ron passava muito tempo espreitando as escadas ou atrás das portas, ouvindo e torcendo para descobrir algo interessante. Na maior parte do tempo, ouvia nomes desconhecidos e sobre o iminente Torneio Tribruxo.

Em particular — quando não sabiam que Ron estava ouvindo —, o pai, Bill, Charlie e Percy discutiam o aumento de medidas de segurança (apesar de Ron não conseguir entender como Charlie podia contribuir tanto à conversa quanto Percy), mas quando Ron e os outro estavam por perto, eles não mencionavam o Torneio, apenas insinuavam o fato de que havia algo grande acontecendo em Hogwarts naquele ano e que era um segredo. Já fazia um tempo que Ron sabia do Torneio — desde que Sirius contara a Harry, e Harry contara a Ron —, mas os adultos pareciam se divertir os "provocando", então Ron não demonstrava saber. Ginny — que também sabia — não tinha ficado nada impressionada e tinha sido bem menos indulgente:

— Algo grande acontece em Hogwarts todos os anos — disse ela a Percy quando ele tentou provocá-la depois do jantar na véspera de voltarem à escola — e nunca é algo bom. Prefiro um ano chato, em que nada acontece. — Percy franziu o cenho (não de um jeito bravo, Ron achava, mas perturbado) e se afastou.

— Acho que Hogwarts não sabe ser chata — comentou Ron, indo para o lado para abrir espaço para Hermione no sofá.

— Não sabe mesmo — falou a mãe, indo colocar uma pilha de roupa limpa ao lado de Ron. Felizmente, ela não ouvira a afirmação amargurada de Ginny; ela estava tensa desde a Copa Mundial e aquele era o tipo de coisa que a faria explodir. — Aqui está, Ron, querido... cuidado na hora de guardar para não amassar. — Sobre a pilha de vestes pretas de Ron estava um amontoado de veludo marrom desconhecido. Ginny também percebeu.

— Não é o uniforme da escola — falou Ginny, sentando-se para ver melhor.

— Mãe, não é meu — disse Ron.

— É seu, querido; vestes de gala. Estavam na sua lista. — Foi com muito medo que Ron pegou as novas vestes e hesitou. Ginny soltou uma gargalhada.

— É uma renda que eu tô vendo, Ron? — perguntou ela, alegre.

Era. Sentia o olhar de Hermione — nele ou nas vestes, não sabia — e não conseguia se obrigar a olhar para ela.

— Não vou usar — falou, horrorizado.

— Todo mundo vai usar, Ron — falou a mãe de mal-humor. — São para ocasiões formais...

— Acho que elas não cabem em nenhuma ocasião há uns cinquenta anos — disse Ron, sem saber se estava mais horrorizado ou bravo. — Olhe pra elas, mãe!

— É um modelo mais antigo — disse a mãe —, mas acho que são muito tradicionais...

— Eu não ligo, não vou usar — falou Ron. — Prefiro ir pelado. — Hermione soltou uma risada, e Ron sentiu as orelhas esquentarem.

— Então vá — ralhou a mãe. — E quero ver as fotos...

— Vou pedir pro Fred e pro George tirarem — falou Ginny com um sorriso maldoso.

Ron deixou as vestes de gala no sofá e pegou o resto de suas roupas, dizendo:

— Vou fazer as malas.

A porta do quarto de Fred e George se abriu quando passou na frente dela, e George colocou a cabeça para fora.

— A mãe tá brava com a gente? — Ele pareceu notar a expressão de Ron. — Ah. Era com o Ron — falou por cima do ombro.

— Excelente — disse Fred de dentro do quarto.

— Continue — falou George.

-x-

Não houve nenhum comportamento estranho por parte de Potter, Granger e dos Weasley que sugerisse que algo fosse acontecer — e ele sabia, porque era pelo que estivera esperando —, mas mesmo assim Draco não se surpreendeu; Potter sacou a varinha e ergueu o mesmo feitiço de silêncio que usara no dormitório no fim do semestre, e os quatro pares de olhos — cinco, se considerasse os de Bichento — se fixaram em Draco, que os olhou de volta.

Potter torceu a boca.

— Você sabia que a gente ia...

— É claro que eu sabia — falou Draco. Assim que contara a Potter, durante a Copa Mundial, que o pai queria que virasse um Comensal da Morte, soubera que Potter provavelmente contaria aos outros. Houvera a improvável possibilidade de que Potter guardasse para si (entendesse que era para Draco contar se quisesse), mas achou (e torceu) que era mais provável que Potter confiasse nos outros; afinal, eles também seriam afetados. Ficou satisfeito por estar certo.

— Somos tão previsíveis assim? — perguntou Granger, rindo um pouco. Draco sorriu levemente em resposta.

— Facilita nosso trabalho, então — falou Weasley, dando de ombros. — Se estamos todos na mesma página...

Estamos todos na mesma página? — perguntou a Garota-Weasley. — É claro que nós quatro estamos...

— O Lorde das Trevas está mais ativo ultimamente — falou Draco, impassível. — Meu pai acha que ele voltará logo, o que significa que está na hora de eu parar de bancar o Grifinório e voltar para o lado "certo", ser um Comensal da Morte. Eu contei ao Potter na Copa, ele foi pra casa, ficou todo preocupado com isso e contou para vocês, que estão preocupados com o que minha família vai fazer comigo e, apesar de vocês provavelmente não quererem admitir, sobre o que eu vou fazer. É mais ou menos isso?

Granger e Potter ficaram previsivelmente envergonhados, a Garota-Weasley deu de ombros e assentiu, e Weasley franziu o cenho, assentiu e disse:

— É, parece que estamos todos na mesma página.

— Bom. Então...

— Antes que você diga alguma coisa — interrompeu Potter —, nós conversamos e... bem, você é um de nós. Não importa o quê.

Não é mentira. A garganta de Draco se apertou, e ele não conseguiu dizer um agradecimento sincero nem algo espirituoso, mas conseguia ver no rosto de Potter que ele entendia. Granger, por outro lado, entendeu errado.

— Não que a gente duvide de você — disse ela, apressada. Não era uma mentira, mas também não era toda a verdade. Eles duvidavam um pouco dele (eles tinham que duvidar) ou Draco não tinha feito um bom trabalho com Potter e Granger na Copa Mundial e seu plano não funcionaria.

— Certo. — Draco pegou sua mochila e tirou dela a caixa de madeira em que guardava sua Penseira. Ele a tinha desde o começo do verão (o pai estava mais disposto a comprar presentes depois de terem conversado sobre lealdade) e, apesar de não ser tão grande e impressionante quanto a de Severus, ela certamente servira bem aos seus propósitos. — É uma Penseira, Granger — falou quando ela abriu a boca para perguntar. — Elas guardam e compartilham lembranças. — A Garota-Weasley ficou pálida e tensa. Potter a olhou, depois para Draco, cauteloso. Pela primeira vez, Draco se sentiu nervoso. — Se vamos fazer isso, será do meu jeito. Eu... eu pensei bastante nisso.

— Vamos lá então — falou Weasley, depois de trocar olhares com os outros três.

— Vocês farão suas perguntas — disse Draco — e eu as responderei... completamente, prometo. Quando acabarmos de conversar, eu vou lhes dar uma escolha. — Voltou a fuçar em sua mochila e tirou um punhado de pequenos dragões de plástico que comprara numa loja infantil no Beco Diagonal. Eram quatro dragões vermelhos e dourados e quatro pretos e cinzentos; derrubou todos ao seu lado no banco. — Vermelho e dourado se confiarem em mim, preto e cinza se não confiarem.

— Confiar sobre o quê? — perguntou Weasley, os olhos arregalados. — Malfoy, o que...? — Draco balançou a cabeça.

— Por que dragões? — perguntou Potter.

— Porque eu posso dar as respostas — disse Draco —, mas não posso permitir que lembrem.

— Você fez um Voto Perpétuo ou algo do tipo? — perguntou Weasley. — Essa é a forma de não o quebrar?

— Quando terminarmos — falou Draco —, vocês vão colocar a lembrança da conversa aqui, mas terão o dragão para lembrar o que escolheram.

— Você vai tirar nossas lembranças? — perguntou Granger, parecendo chocada. — Você sabe como... eu andei lendo um pouco e parece complicado, e se você não tiver certeza, eu não quero que você...

— Eu sei o que estou fazendo. Passei o verão todo brincando com a Penseira. Eu vou tirar a lembrança, não enfeitiçar, o que é mais fácil, e usar uma Penseira é mais efetivo do que um feitiço — explicou Draco. Correu o dedão pela borda entalhada da Penseira, distraído. — É um jeito mais eficaz do que um feitiço de memória.

— Suponho que seja uma forma de nos manter seguros? — falou Potter, nada impressionado.

— Vocês, não — falou Draco em voz baixa, e a expressão de Potter mudou completamente. — E é tudo o que posso dizer, a não ser que concordem. — Potter, Granger e Weasley assentiram com uma sincronia enervante; o assentir de Granger foi breve e ansioso; Potter o olhou nos olhos enquanto assentia; e o assentir de Weasley era casual, mas pensativo.

— Não — falou a Garota-Weasley, levantando-se. — Tô fora.

— Ginny — chamaram Granger e Weasley em uníssono; Weasley parecia exasperado, Granger surpresa. Potter só assentiu mais uma vez.

— Desculpe — falou ela, olhando para Draco —, mas minhas lembranças... elas são minhas. Não gosto que elas sejam tiradas ou... ou mudadas ou... — Ela balançou a cabeça. — Depois vocês três me contam o que decidiram e eu vou na de vocês. — Ela foi embora.

— Desculpe — pediu Draco aos outros três quando a porta foi fechada e Potter reergueu seu feitiço. — Mas tem que ser assim. — Respirou fundo. — Minhas opções, como meus pais a apresentaram, eram: Comensal da Morte ou Durmstrang.

— A escola de Karkaroff? — perguntou Potter duramente. Draco achou esse um jeito estranho de falar, mas assentiu mesmo assim.

— Talvez você devesse ir — falou Granger —, ainda que só pra não se envolver nisso tudo...

— Não vou deixar que me mandem para longe quando todo mundo que é importante está aqui — falou Draco.

— Cara, se eles não te mandaram pra longe e você não precisou fugir e ficar com um de nós — falou Weasley —, então...

— Sim. — Draco olhou para a Penseira, virando-a em suas mãos. — Eu devo bancar o bom Grifinório e ficar perto de Potter, para que eu possa ser útil quando o Lorde das Trevas voltar. — Granger parecia prestes a chorar.

— Não — disse Potter, balançando a cabeça. — Você não pode...

Lá se foi o um de nós. Não importa o quê...

— Não vou — falou Draco, fazendo um gesto para acalmá-lo. — Não de verdade pelo menos...

— Não pode — repetiu Potter, mais enfático, e tarde demais ocorreu a Draco que ele já devia ter sentido o cheiro do que estava por vir.

— Mas eu posso — falou Draco. — A questão é essa, Potter.

— É disso que eu tinha medo — disse Potter, balançando a cabeça. Devia ser verdade, porque Granger e Weasley (que pareciam confusos e preocupados) agora pareciam preocupados. — Na verdade — continuou Potter —, isso é pior do que eu temia, porque você só vai fingir pra deixar seus pais felizes, vai fingir para que possa enfrentar Voldemort ativamente. — Draco foi o único a se encolher ao ouvir o nome do Lorde das Trevas; Weasley e Granger estavam imóveis e tristes.

— Sim — falou Draco, recuperando-se. — É o que a gente faz desse lado, né?

— Ele vai te matar se descobrir, sabe — falou Potter. Granger se encolheu. — E é muito provável que descubra... ele entra na cabeça das pessoas e...

— Ninguém além de mim sabe — falou Draco. — Ele só vai poder tirar da minha cabeça, e imagino que não terei muita oportunidade de ficar cara a cara com ele enquanto estiver em Hogwarts.

— E se de algum modo ficar cara a cara com ele?

— Sei um pouco de Oclumência — falou Draco. — E se isso não for o bastante ou se eu perceber que não dou conta, eu vou fugir e aceitar aquele quarto em Grimmauld, Potter. Mas nesse meio tempo, estarei mais seguro do que todo mundo; não pintei um alvo nas minhas costas ao fugir ou desafiar meus pais, e posso passar o tempo que eu quiser com vocês três sem que o Lorde das Trevas ou seus seguidores desconfiem, porque é o que eu devo fazer.

— Não precisamos tanto assim de informações — falou Potter. — Eu já tenho meus sonhos e minha cicatriz para saber o que está acontecendo...

— Seus sonhos não acontecem sempre que a gente precisa saber de alguma coisa — lembrou Draco. — E o outro lado não se resume ao Lorde das Trevas; você não sonha com cada um dos Comensais da Morte.

— É arriscado...

— Potter, seu hipócrita — falou Draco, incapaz de tirar a afeição de sua voz. — Você se arriscaria num piscar de olhos por qualquer um de nós. se arriscou. Por que não posso fazer o mesmo?

— Acho que ele tem razão — falou Weasley, dando de ombros. Potter o olhou feio.

— E não vamos nos lembrar de nada disso? — perguntou Granger.

— Desculpe — murmurou Draco.

— Não tem problema — falou ela e apontou para os dragões ao seu lado. — Posso?

— Se estiver pronta — respondeu, surpreso. — Achei que teria mais perguntas.

— Eu tenho — contou ela, mordendo o lábio. — Várias, na verdade, mas não vou lembrar de nenhuma das respostas, então... — Ela fez uma careta.

— E eu achando que o Harry era o único maluco o bastante para enfrentar o Voldemort — comentou Weasley. — Um Malfoy foi mais Grifinório... honestamente.

— Não gosto disso — falou Potter, a boca se torcendo pra baixo.

— Eu sabia que você não ia gostar — concordou Draco.

— Mas eu entendo — continuou ele. — E... nós não vamos nos lembrar de nada disso, eu sei, mas se houver algo que possamos fazer para ajudar sem saber...

— Confie em mim — falou Draco, a voz mais rouca do que teria gostado. — Fique com o dragão e confie em mim, mesmo quando a confusão começar.

— Acho que podemos fazer isso — falou Potter, assentindo. Granger jogou os braços ao redor de Draco, derrubando Bichento, que soltou um som de insatisfação e foi se sentar no colo de Weasley.

— Daqui a pouco não vou mais saber que tenho que te mandar tomar cuidado — falou ela contra seu ombro —, então estou mandando agora. Tá?

— Tenha mais fé em mim — falou Draco, fazendo-se de ofendido. — Ainda sou eu. — Granger riu, um som choroso.

— Certo — disse Weasley. — Vamos acabar logo com isso.

— Não digam nada depois que eu oferecer os dragões — pediu Draco, sacando a varinha e ajeitando a Penseira em seu colo. — Vou tirar tudo o que foi falado depois que eu expliquei que os dragões ficam no lugar das respostas. A primeira coisa que vocês vão lembrar é de ter escolhido um, para que saibam que... que vocês de fato escolheram.

Granger assentiu.

Draco lhes ofereceu os dragões e assistiu, aliviado, cada um deles escolher o dragão vermelho e dourado. Aí, ergueu a varinha.

Os olhos de Granger estavam arregalados, mas confiantes, e ela nem se encolheu quando Draco usou a mais leve Legilimência para vasculhar a superfície de sua mente, encontrar as beiradas da lembrança e tirá-la por sua têmpora. Ele imaginou, distraído, o que Severus pensaria de usar tudo o que tinha aprendido com ele sobre Penseira e a arte da mente para isso. Para escolher o lado errado, Draco achou que ele ficaria orgulhoso a contragosto.

Granger piscou quando a lembrança se soltou e abriu a boca para dizer algo, mas Potter colocou uma mão em seu braço e balançou a cabeça. Granger fechou a boca, deu um olhar astuto e preocupado para Draco, e virou o dragão em suas mãos, pensando.

Potter foi o próximo. Sua mente reconheceu o toque, por mais leve que fosse, e ele se remexeu em seu assento, o maxilar tenso, a mente resistindo — ou tentando. Draco conseguia ver, mesmo estando na superfície, que se forçasse, Potter não conseguiria impedir sua entrada. Mas não forçou, apenas esperou.

Potter respirou fundo e pareceu relaxar a mente, ou dar permissão, apesar de ter sido cauteloso e ter continuado tenso. Draco trabalho o mais rápido possível, e aí a lembrança de Potter se juntou à de Granger na Penseira.

Potter piscou do mesmo jeito que Granger e franziu o cenho, girando o dragão em suas mãos. Mas quando ele olhou para Draco, sua expressão era confiante.

Weasley se remexeu quando Draco se virou para ele.

Como tinha feito com os outros, Draco usou da Legilimência. Sem saber, Hydrus tinha sido seu objeto de estudo durante todo o verão — Draco praticara formas de chegar aos pensamentos superficiais sem ser percebido e formas de se comunicar. As vozes dos dois eram parecidas o bastante para que — mesmo dentro da mente de Hydrus — Draco conseguisse murmurar algo sobre uma coceira no nariz ou vontade de ir ao banheiro, e Hydrus respondesse como se esses pensamentos fossem dele. Tinha sido esclarecedor e uma boa forma de se divertir.

Mas torcia para que Weasley reconhecesse sua voz como sendo sua.

Finja, murmurou, e Weasley arregalou os olhos. Eu explico quando puder.

Os olhos de Weasley foram para Potter e Granger, e ele ergueu o queixo levemente em um assentir.

Draco fuçou um pouco mais a fundo do que tinha feito com os outros dois e tirou alguns poucos segundos das lembranças de Weasley; os últimos instantes antes de ele adormecer na noite anterior, momentos dos quais ele não sentiria falta.

Colocou-os na Penseira.

— Tudo bem? — perguntou Potter a Weasley, os olhos indo dele para Draco. Perguntou-se qual era o cheiro que ele sentia e se forçou a ficar calmo enquanto tentava pensar em uma resposta...

— Sim — falou Weasley —, só... confuso. — Potter aceitou essa resposta com um assentir cauteloso (era, afinal, a verdade, ainda que a confusão de Weasley tivesse um motivo diferente daquele esperado por Potter) e, como por milagre, o assunto acabou aí.

Continua.