N/A: Capítulo 10! Nesse capítulo já dá pra ter uma ideia do que vai acontecer, especialmente agora chegamos no arco do Santuário. Estou muito feliz de manter minhas fanfics no mesmo ritmo, por isso passarei a atualizar aos sábados. Obrigada por acompanharem até aqui!
Obs: P.O.V = ponto de vista do personagem que está narrando
[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]
10
Santuário
Dafne P.O.V.
Juno vivia em um quarto no primeiro andar, próximo a hospedaria. A senhora Ágatha também habitava o mesmo corredor, porém mais ao fundo em um espaço privativo. Quando avisei as duas que estaria indo embora com o primeiro grupo, Juno se ofereceu para me emprestar algumas roupas para a viagem. O inverno havia chegado e eu não tinha muitos casacos, então aceitei a ajuda dela.
- Tem certeza de que não vai precisar deles? – perguntei.
- Sim – ela assentiu, fazendo com que os fios escuros de seu cabelo acabassem se soltando da trança – não me afasto muito vilarejo então não preciso de tantos casacos, a lareira da hospedaria é ótima durante o inverno.
Peguei o casaco verde água que estava sobre a cama, que por acaso me fez lembrar de Dégel. Não tínhamos nos falado depois que ele me socorreu, mas a lembrança de seu olhar me mantinha acordada, especialmente depois do que Apolo me disse.
- Tem certeza sobre o Santuário? – Juno começou a refazer a trança. Seu quarto era menor do que o meu, mas parecia um verdadeiro lar de uma garota jovem como ela.
Aquelas paredes tinham vida, pois Juno não usava máscaras, nem tinha segredos demais, e eu a invejava por isso.
Talvez algum dia ela se casasse com alguém do vilarejo ou do Santuário, seja como for, sua vida seria melhor do que a minha.
- Sim – respondi – de qualquer forma não poderia dizer não.
- Mas por quê? – ela perguntou, acabei falando demais – A senhora Ágatha ficaria grata se ficasse, poderia me ajudar.
Juno sorriu, tentando me fazer mudar de ideia, ela devia estar querendo uma amiga.
- Não é nada disso – suspirei – apenas não pertenço a um lugar como esse.
O sorriso dela murchou. Acho que às vezes Juno se esquecia de que eu não era um ser humano comum, por isso era reconfortante falar com ela.
- Já que vai embora... – ela mordeu o lábio – percebeu que o cavaleiro educado fica te observando? Aquele que pega livros quase todos os dias.
Segurei o casaco mais perto do corpo, eu já tinha percebido que Dégel estava alerta aos meus passos, mas não da mesma forma que o loiro, Asmita. Apolo não me alertou sobre o Cavaleiro de Virgem, então eu teria que lidar com ele pessoalmente.
- Ele é melhor do que os gêmeos – Juno estremeceu – eles me assustam, principalmente o que acabou de chegar.
Ela começou a se preparar para o trabalho, o sol sequer havia nascido e o céu estava com a cor acinzentada da madrugada, mas com o inverno vinham novas funções. Olhei para a janela, nada animada com o frio que vinha do lado de fora.
- Obrigada pelos casacos
Nos deparamos com Albafica quando deixamos o quarto, ele usava uma capa para se proteger do frio por cima das roupas simples. Juno mal conseguiu falar de susto, e ele lhe deu espaço para seguir para seus afazeres, tomando cuidado para que seus ombros não se tocassem.
Percebi que Albafica segurava a mochila que havia deixado no salão com o pouco das coisas que tinha.
- Não precisava trazer isso – tirei a mochila de seus ombros. Albafica não se encolheu, tomei cuidado para não tocar nele. Mesmo sem o sangue venenoso ele ainda ficava incomodado com o toque das outras pessoas – onde estão os outros?
- Ainda não desceram.
Assenti, mas não consegui esconder minha melancolia.
- A senhorita está assim por causa de Defteros? – Albafica perguntou, observador como sempre - Preferia ir com ele, não é?
- Sim – respondi. Mas não para o Santuário, para bem longe dos deuses - Já se despediu da menina?
A menção de Lissa fez Albafica suspirar.
- Ela ficará bem sem mim.
Coloquei a mochila no chão para vestir o casaco, ficou um pouco largo, mas pelo menos serviria para me manter aquecida. Estava prestes a seguir Albafica pelo corredor quando fui tomada por uma sensação estranha, como se alguém estivesse me chamando do lado de fora.
- Espere!
Albafica se virou para me encarar, um pouco alarmado pelo meu tom de voz.
- Esqueci uma coisa no quarto – engoli em seco – pode me esperar no salão?
O cavaleiro assentiu, um pouco aliviado pelas minhas palavras. Ele não sentiu o mesmo que eu.
Deixei que Albafica se afastasse para voltar para o quarto de Juno, quando tranquei a porta, Sumiye apareceu na janela, mas ela não se parecia mais com uma simples caçadora que vivia sozinha na floresta. Seu arco prateado cintilava, assim como a tiara em sua cabeça que deixava seu cabelo bagunçado um pouco mais arrumado.
- O que está fazendo aqui? – perguntei – Já vai amanhecer.
- Então Apolo ainda não assumiu o céu – ela se aproximou, as mãos inquietas como se algo a estivesse incomodando – preciso de um favor.
- Um favor? – eu sorri – O que quer? Uma previsão?
- Não gosto de pessoas que vêem o futuro – Sumiye entortou a boca, como se o meu destino fosse um incômodo para ela mais do que para mim mesma – é algo diferente, soube que Kardia está indo para o Santuário então imaginei que você também estaria.
- Seja rápida – retruquei. O quarto de Aspros ficava perto dali.
- Precisa ir à Casa de Escorpião.
- O que? – deixei a mochila cair.
- Tem algo lá, algo meu – Sumiye tentou explicar, mas estava se atrapalhando com as palavras – não há cavaleiros novos então os pertences do anterior ainda devem estar lá não é? Você precisa me ajudar.
- O que quer que eu faça? – suspirei.
- São apenas cartas – Sumiye respirou fundo, não eram apenas cartas para ela – precisa queimá-las.
Assenti em silêncio, não podia recusar ajudá-la agora que estávamos tão perto de nosso objetivo. Se Sumiye fosse descoberta, os outros começariam a desconfiar.
A garota olhou para trás, parecendo ainda mais assustada do que quando chegou. O céu a estava chamando de volta, o sol já ia nascer.
Dégel P.O.V.
Não passava das primeiras horas da manhã quando nos reunimos na entrada da hospedaria. Kardia eu seríamos os primeiros a partir em direção ao Santuário, mas durante a noite Albafica também se ofereceu para ir. O estranho era que até agora ele não havia aparecido, então já estávamos atrasados.
- Será que ele ainda está dormindo? – disse Kardia, ele estava deitado nos gramado apesar do frio, era a primeira vez que meu amigo acordava tão cedo em dois meses.
- Acredito que não – respondi, olhando para o relógio de bolso que havia conseguido no vilarejo – Albafica não é irresponsável.
Esperamos mais um pouco, não havia ninguém nas ruas do vilarejo, mas estava frio e possivelmente havia nevado no terreno próximo ao Santuário, então poderíamos ter problemas pelo caminho, mas fazer com que Kardia se levantasse da cama a essa hora da manhã já foi um grande feito.
- Ah, olha ele ali – Kardia se levantou num salto, tirando pedaços de grama do cabelo – mas espere...
Albafica finalmente apareceu, mas não sozinho: Dafne estava com ele.
Foram cinco minutos de silêncio até que algum de nós resolvesse falar.
- Shion permitiu que ela viesse conosco – disse Albafica, sua aparência estava um pouco melhor essa manhã apesar de ele ainda manter distância de nós.
Dafne estava diferente, seu cabelo estava preso, permitindo que eu olhasse para seu rosto com mais atenção e parte do corpo estava escondida sob o casaco. Quando percebeu que estava olhando para ela, Dafne se escondeu atrás de Albafica.
- Mas ela é só uma garotinha – Kardia se aproximou de Dafne, encostando sem querer no ombro de Albafica, que quase correu para o outro lado do terreno. Ele teve que se abaixar um pouco para que ficassem da mesma altura – e o caminho para o Santuário é muito íngreme, ainda mais na neve.
- Não vou atrasá-los se é com isso que está preocupado. – Dafne afastou o rosto de Kardia com a mão, depois olhou para mim – Podemos ir?
- Sim – respondi, sentindo meu rosto queimar – é melhor começarmos a andar.
XXX
Albafica foi na frente, o caminho não havia mudado muito com os anos, só a vegetação parecia diferente, fiquei feliz por perceber que Rodorio mantinha as tradições antigas, mantendo uma distância segura do Santuário.
Kardia tentou se aproximar de Albafica durante algum tempo, mas suas tentativas de manter uma conversa sempre davam errado. Quando perguntou sobre a mulher que ele deixou para trás no vilarejo, achei que Albafica acabaria perdendo a compostura.
- Ele nunca fica em silêncio? – Dafne finalmente disse alguma coisa.
Me mantive afastado dela depois que Aspros chegou, Defteros me pediu para protegê-la, mas Albafica já fazia esse papel.
- Essa nunca foi à especialidade de Kardia.
Dafne sorriu, senti meu rosto queimar novamente, então desviei o olhar. Alguma coisa sempre acontecia quando ficava perto dela, como se tivesse medo de olhar em seus olhos por muito tempo.
- Então de quem você está fugindo, Aspros ou Defteros? – perguntei.
- Dos dois – Dafne respondeu – mas espero que não se incomode por ter vindo.
- Você não me incomoda nenhum pouco – respondi, talvez com um pouco de exagero.
Eu estaria mentindo se dissesse que não havia pensado nela depois da outra noite, mas não foi isso o que Defteros me pediu para fazer.
Peguei sua mochila e a coloquei em meu ombro, apenas para ter algo para me manter ocupado. Não estava pesada, ela não deveria ter muito mais do que algumas roupas.
- É a primeira vez que uma sacerdotisa de Apolo irá ao Santuário em mais de duzentos anos – Dafne suspirou – e com roupas tão inapropriadas quanto estas, se minhas irmãs pudessem me ver agora diriam o quanto as estou envergonhando.
Ela falava pouco sobre as outras pítias, devia ser um assunto doloroso para ela, ainda mais agora com Aspros de volta.
- Onde ficará quando chegarmos? – perguntei.
- Num dos alojamentos – ela respondeu – ou na Casa de Aquário, já que está tão preocupado comigo.
Meu rosto deve ter ficado vermelho de novo, pois Dafne começou a rir, fazendo com que Kardia parasse de falar um pouco e olhasse para mim.
- Só estou brincando! Sei para qual alojamento devo ir – ela disse – mas posso aparecer na Casa de Aquário quando for visitar Albafica.
- Espero que sim – sussurrei.
Dafne me olhou por um momento, me deixando envergonhado do que tinha acabado de dizer.
XXX
- Mal posso esperar para voltar, sinto falta de minha Casa e de minha armadura! – Kardia começou a se alongar enquanto andava, chamando a atenção para ele.
Já estávamos andando há uma hora. O vilarejo ficou completamente para trás, por isso o caminho estava ainda mais íngreme nesse ponto.
- Mas nós não estamos indo até lá para tomá-las de volta – disse Albafica – não temos o direito.
- Sabe Albafica eu acho que você precisa de um pouco de diversão.
Kardia abraçou o companheiro, mas Albafica o empurrou, apesar de não estar mais doente ele ainda mantinha distância do contato físico, mas tinha que admitir que a cena foi um pouco cômica.
- Você está voltando por isso também? – Dafne havia ficado quieta depois do que eu disse, então pensei que tivesse passado dos limites.
- O que? – perguntei.
- Tomar sua armadura de volta – disse Dafne – é o que seu amigo quer.
- A maioria das coisas que Kardia quer são loucuras, não dê muita atenção a ele.
-Hum... Como a garota.
- Então você também sabe sobre ela?
- Como assim também? – Dafne parou de andar, ela parecia tensa.
- Não é nada grave, Kardia conheceu essa garota depois que acordou e acabou se tornando o assunto principal entre os outros. Defteros não te contou?
Não devia ter falado o nome dele, pois Dafne se encolheu ainda mais sob o casaco.
- Você tinha família? – perguntei para mudar de assunto - Nasceu em Delfos ou... Perdoe minha curiosidade, mas é que ainda não sei muito sobre você.
- Está tudo bem – ela sorriu – e não, não tinha ninguém.
- Eu sinto muito.
- Não sinta, não tenho memórias de uma mãe ou de um pai para chorar.
- E como chegou a Delfos?
De novo ela aparentou desconforto, havia coisas que ela preferia guardar para si mesma.
- Alguém me levou para lá ainda criança – respondeu Dafne – mas encontraria o lugar de qualquer maneira por causa do meu dom.
Assenti e não me perguntei mais sobre sua vida no passado. Notei que Kardia olhava para nós às vezes, ele balançava a cabeça em reprovação, mas o ignorei.
- Espere, você está...
Tentei tocar o rosto de Dafne, mas ela se virou rapidamente, havia um pouco de sangue escorrendo pelo seu nariz, ela tirou um lenço do bolso e o levou até o sangramento.
- Ei vocês dois! – Kardia gritou, ele e Albafica já estavam numa boa distância a nossa frente – Estão nos atrasando!
- Consegue continuar? – perguntei para Dafne, ignorando Kardia completamente.
- Sim – Dafne voltou a olhar para mim enquanto dobrava o lenço – não se preocupe comigo.
Ela sorriu e andou mais depressa.
- Você me ajudou – ela disse quando a alcancei – e eu disse que lhe devia um favor, mas até agora você não me pediu nada.
- Não tem dívida nenhuma comigo.
- É claro que tenho, então vou lhe fazer uma proposta.
- Que tipo de proposta? – perguntei.
- Posso ver o seu futuro – disse ela.
Aquilo me surpreendeu um pouco, mesmo sabendo que as pítias atendiam aos pedidos dos visitantes do templo não imaginei que Dafne ainda seguisse essas regras.
- Não. – respondi.
- O que? – perguntou ela.
- Não acredito que seja bom para alguém saber do próprio futuro, sem querer ofendê-la.
- Não me ofende, mas posso ver seu futuro e não lhe dizer nada.
- Acho que está mais curiosa sobre mim do que aparenta – respondi.
Dafne ficou em silêncio, mas não negou minha afirmação.
- Se isso a fará se sentir melhor então tudo bem – eu disse – pode ver o meu futuro, mas não me conte nada, quero que seja uma surpresa.
Ela assentiu em resposta. Quando passamos por um caminho pedregoso e escorregadio por causa da neve ofereci minha mão a ela, mas Dafne recusou e o atravessou sozinha. Passei os próximos minutos me perguntando por que ela fez isso e por que aquilo importava tanto. Mas o que estava acontecendo comigo?
Após horas de caminhada nos deparamos com a paisagem que tanto esperamos. As grandes construções brancas, as Doze Casas, o Salão do Grande Mestre e a Estátua de Athena pairando sobre nós do alto da montanha, tudo continuava lá.
Finalmente chegamos ao Santuário.
Percebi que cada um de nós interpretou a situação de maneira diferente, Kardia, como sempre, era o mais animado, Albafica mais contido. Eu estava feliz por ter voltado, mas quando olhei para Dafne ela olhava para o Santuário com tristeza.
- Até logo senhorita – Albafica disse antes de seguir Kardia. Havia alguns soldados nos esperando logo à frente, provavelmente Shion os alertou sobre a nossa chegada.
- Preciso ir com eles – eu disse – temos uma reunião com os cavaleiros restantes antes de subirmos, mas se precisar de algo...
- Não precisa se incomodar – Dafne suspirou e tirou sua mochila dos meus ombros - Shion disse para onde devo ir e sei que não devo interferir nos assuntos do Santuário... Mas Dégel...
- Sim?
- Cuide do seu amigo Kardia, está bem? Ele precisa tomar decisões sensatas.
- Kardia não é conhecido por tomar decisões sensatas – respondi – mas gostaria que me falasse mais sobre isso.
- É melhor não dizer mais nada... – ela iria embora, mas segurei seu braço antes que se afastasse.
- Então ao menos posso procurar a senhorita para falar sobre outros assuntos?
Finalmente nos encaramos ao mesmo tempo desde que deixamos o vilarejo. Dafne olhava para mim como se suplicasse por algo.
- Dégel – disse ela – deixe-me ir agora.
Soltei o braço dela devagar, mesmo que parte de mim não quisesse deixá-la ir.
Fui invadido por uma sensação estranha de desapontamento e decepção enquanto a assistia ir, mas ainda não entendia o porquê. Eu queria passar mais tempo com ela? Isso seria correto com Defteros?
Continuei olhando Dafne se afastar, até que Kardia veio ao meu encontro e me levou em direção aos soldados logo a frente.
Continua...
