RESPOSTAS

KARIN POV

As aulas da manhã se passaram como um borrão. Melhor dizendo, parecia que eu estava dentro de uma bolha assistindo vagamente o que os professores diziam. Só me dei conta que o intervalo chegou quando escutei o sinal. Foi um despertador. Pisquei encarando os rabiscos na folha do caderno enquanto o pessoal da turma se levantava e conversava ao meu redor.

O que aconteceu mais cedo... O que teria acontecido se o zelador não tivesse aparecido... Minha pressão subiu, acalorando por dentro ao lembrar da sensação das mãos dele na minha cintura. Aquela febre crescer entre a gente. Sério, o que ia acontecer? Ele... Ia me beijar, não é? Meneei a cabeça. Como raios ele ia fazer isso? Toushirou nem tinha aproximado o rosto do meu. Só que ele estava muito estranho, impulsivo. Com certeza se o zelador não tivesse atrapalhado ele faria alguma coisa.

Guardando meu caderno e o livro de matemática no vão debaixo da mesa, engoli em seco. Procurando me acalmar, tinha que tomar uma decisão e por hora optei por essa.

Evitar o Toushirou.

Sim, muito covarde e totalmente inútil. Argh! Eu sou a gerente do clube de futebol masculino! E ele é o capitão do time! Não posso faltar no treino à tarde. A vida é uma comediante hilária, com certeza estava dando altas gargalhadas pela pilha de nervosismo em que me encontro. Esgotada apoiei os cotovelos na mesa afundando o rosto nas palmas das mãos. O suspiro que soltei foi tão fundo que atraiu atenção da minha colega à direita.

Hikari estava a meio retoque do batom quando reparou no meu desânimo.

- Ei, tá tudo bem?

- Unhum.

- Sério? Parece que vai ter um treco.

O meio riso junto do click do espelho me fizeram espiar por entre os dedos. A garota de cabelos ondulados negros, presos num rabo de cavalo me olhava meio divertida, mas não me incomodou. Tachibana Hikari era a colega mais próxima que tinha da turma. Ela não se importava com a fama que ganhei por ser uma encrenqueira vingativa, muito menos em ser mal vista conversando comigo. Hikari tinha sua própria cota de má fama e isso tinha haver com uma cena que flagrei sua dentro da enfermaria antes das férias.

Bastam saber que o cara é seu namorado agora e está nesse colégio.

Curvando os lábios, Hikari se curvou perto da minha cadeira sussurrando.

- O que aconteceu dessa vez?

Desviei o olhar baixando as mãos do rosto. Por onde eu começo?

- Bem...

- K..Kurosaki?

Olhamos na direção vendo uma das garotas perto das portas de rolar. Ela parecia travada no lugar, tremula e ainda por cima com os olhos arregalados. Que estranho.

- O que foi?

- T..tem alguém aqui querendo falar com você.

Pisquei confusa, mas me levantei. Não era algo incomum, de vez em quando um garoto queria entrar pro clube e as vezes me procuravam.

- Já vou – me virei pra Hikari suspirando – Depois eu te falo.

- É melhor mesmo.

Se endireitando na mesa voltou a retocar a maquiagem e sorri por sua atitude descontraída. É disso que gosto dela, Hikari nem pressiona ou insisti nessas horas. Ela é bem legal. Me aproximando da porta, já que a pessoa ainda estava no corredor estranhei a reunião feminina por perto. As garotas olhavam para a passagem coradas e cochichando, aumentando minha curiosidade.

Quem é esse cara? Ah, tanto faz. Dando os ombros abri caminho através das meninas plantadas no lugar.

- Hai. O que vo...

Assim que levantei o olhar minha voz morreu. Senti um vazio no estômago enquanto meus olhos aumentavam. Não foi à toa a reação nervosa da garota, muito menos nos cochichos aqui perto. Parado no corredor, Toushirou me encarava analítico e esperando. Meu coração faltou parar de susto.

- O... o que você tá fazendo aqui?

Engoli em seco nervosa. Não acredito que gaguejei e ainda na frente de todo mundo. Toushirou para piorar curvou os lábios, quase causando um ataque cardíaco nas garotas atrás de mim.

- Vim te buscar para a reunião. Esqueceu?

Que diabos, eu não estava sabendo de nada disso. Espere um pouco, que reunião? O fitando confusa vi a intenção dele por trás da sua postura relaxada e me empertiguei. Seu olhar aguçou, mas não dei à mínima.

- Bom, agora eu não posso. O intervalo já vai acabar.

- Sua turma vai estar em Aula didática. Então não tem problema.

O que? Como ele sabe disso?! Quase gemi de agonia. O pessoal que assistia essa troca de palavras nem acreditava no que estava vendo. Também pudera. Nunca que a gente se encontrou nos corredores e muito menos se falava fora dos treinos. Precisava me livrar dele.

- Mas e você? Com certeza vai perder matéria se formos agora.

- É sobre o treinamento tático, Kurosaki. Zaraki mandou nós resolvermos o problema com a falta daqueles três.

Me entalei. É mesmo, uma semana, talvez duas dependendo da condição física deles e o time precisava treinar logo o novo esquema tático. Droga. Toushirou vendo que ganhou no argumento estreitou o olhar risonho e vitorioso. Como detestei isso. E para completar ouvia os murmúrios à minha volta.

- Três? Do que ele estava falando?

- Será que ela aprontou alguma?

- A bruxa ataca de novo.

Escutei uns risinhos. Eu mereço.

- Ta, vamos logo.

Antes que morra de vergonha ou te enforque aqui mesmo imbecil. Me dando passagem na porta, ele me seguiu ignorando os olhares curiosos em nós. Meu rosto esquentou, mas como estava emburrada, tremendo com os punhos fechados havia uma possibilidade bem grande de acharem ser raiva e não vergonha por eu estar com Toushirou. Um dos caras mais cobiçados do colégio.

Ele havia ficado ao meu lado no corredor, mal disfarçando o bom humor e aproveitei para reparar melhor o seu uniforme. Como os alunos tinham liberdade em mesclar as peças obrigatórias me surpreendi um pouco com sua gravata frouxa no pescoço, os botões da gola soltos. Como estamos em setembro a camisa branca era manga curta, mas de um numero maior. Nem marcava os músculos que eu tenho certeza que tinha, eu o vi sem camisa semana passada.

Ok, memória desnecessária. Agora meu rosto ardia forte pela lembrança e para completar Toushirou me fitou de soslaio. Rápido encarei o piso com o coração martelando. Nossos olhos se encontraram e nesse instante tive certeza de duas coisas. A primeira, ele não estava mais tão volátil como mais cedo. A segunda, mesmo escondido num ar de calma seu olhar era profundo, igual quando me agarrou trazendo pra junto de si hoje de manhã.

Sabe a sensação de autoconsciência quando alguém te observava com afinco? É desse modo como me sinto agora. Toda vez que espiava e o flagrava ainda me observando. Toushirou nem disfarçava. Inquieta quase corri pra longe quando terminamos de descer os lances de escadas, mas ele reparou. Quando ia dar um passo me agarrou pelo pulso e foi me puxando pra fora do prédio longe do fluxo dos alunos.

Quando dei por mim estávamos atrás do segundo ginásio perto do prédio dos clubes. Havia umas mesas e bancos de madeira abandonados e um silencio ensurdecedor. Mesmo com o farfalhar dos galhos de um salgueiro aqui perto, não relaxava de jeito nenhum, principalmente quando ele me soltou perto de uma mesa. Pisando no banco se sentou nela e o imitei rígida procurando me acalmar.

- Tome.

Olhei pra baixo, vendo ele me oferecer uma lata de chá. De onde ele tirou isso?

- Obrigada.

- De nada.

Abri a lata bebendo um pouco. O gosto do chá branco me relaxou e observei em nossa volta – o evitando. Aqui era quieto, um espaço aberto atrás desses prédios e privado. Um pouco do nervosismo voltou e bebi mais da latinha.

- Pra que me trouxe aqui?

- Queria que ninguém atrapalhasse.

Quase me engasguei com o chá. Encabulada o encarei bem no instante que ele fez o mesmo. Toushirou esperou que enxugasse a boca com o lenço, sempre carrego um no bolso e arquejei.

- Então mentiu mesmo, não tem reunião nenhuma.

- Sim e não. É verdade que Zaraki nos mandou resolver o problema com a nova formação, mas isso é para depois do treino.

Não consegui dizer nada e inquieta desviei o olhar. Segurava a latinha, girando-a entre as mãos pensando. É bem obvio o que ele queria me trazendo nesse lugar remoto. Por que não tive coragem pra fugir? Agora um silêncio desconfortável se propagava até Toushirou o quebrar.

- Iria me evitar?

Nem pensei em admitir.

- Não.

- Já estava fazendo isso.

Franzi a testa injuriada com seu tom acusatório.

- Como você sabe? Eu...

- Nem saiu pra almoçar.

Prendi o fôlego. Mas que coisa! Pra que essa cobrança?

- Costumo ficar na sala durante o almoço.

- Ah, sei.

Como se fosse possível fiquei mais emburrada. O espiei vendo seu rosto cético fitando o muro coberto de limo. Ele ainda estava irritado e notar me fez perder o nervosismo.

- Alias o que importa? A gente nem se vê fora das atividades do clube. Tem idéia da confusão que armou indo até minha sala?

- Se não fizesse isso você fugiria, Karin.

Meu corpo amorteceu ao me chamar pelo primeiro nome e então novamente o silêncio se estendeu. Toushirou mirava o nada, quieto ao meu lado e procurei me centrar. A atmosfera densa, cheia de tensão pesava sobre nós. Eu sentia e aposto que ele também. A razão era bem simples. Um de nós devia contar sobre o passado, sobre aquele dia e eu não me sentia segura para isso. Honestamente nem queria. Entretanto, ele me surpreendeu mais uma vez, suspirando fundo como se soltasse o fôlego que havia prendido.

- Alguém nos viu no terraço.

- O que?

Me fitando de soslaio, Toushirou repetiu ante minha confusão.

- Naquele dia quando estávamos no terraço no fim do festival, algumas pessoas da nossa turma nos viram.

Recordei desse dia e era verdade. Enquanto a gente conversava eu ouvi a porta de acesso abrindo. Como não disse nada ele continuou apoiando os cotovelos nos joelhos pensativo.

- Correu um boato na escola... Sobre uma confissão.

Arregalei os olhos, ele não diria o que acho que entendi, não é? Soltando outro suspiro Toushirou continuou tenso ao me contar.

- Essas pessoas espalharam que eu havia me confessado e você me aceitou.

Arfei de espanto. Isso foi bem diferente, pensei que diria o contrário! Ignorando minha reação ele me olhou centrado.

- A confusão que ouviu foi causada por Yukio e Tasuke. Lembra deles?

Outra surpresa. Claro que me lembro. Eles viviam me infernizando, não aceitavam que uma garota fosse melhor do que eles no futebol. E piorava quando Toushirou e eu formávamos um combo. Nesse instante tive um estalo, um momento de clareza e entorpecida o encarei. Percebi aonde queria chegar e ainda sim, me senti vulnerável.

- Quando eu cheguei naquele dia eles já haviam contado para cada um da nossa turma. Não vou te dizer o que falavam. Me irrita só em lembrar, mas... Por mais que eu tentasse esclarecer ninguém me ouvia, apenas debochavam, riam e para piorar o professor estava atrasado. Quando eu percebi tinha explodido. E acho que foi nesse momento que você ouviu.

Ao me fitar estremeci vendo nos seus olhos o quanto estava perturbado, cheio de revolta por aquilo, mas um ar preocupado surgiu neles e notei tarde uma lágrima rolando por meu rosto. Encarei o chão, limpando e ignorando seu incomodo quando o evitei.

- Eu não queria dizer aquelas coisas, Karin. Eu nunca me importei sobre isso. A única pessoa que não me tratou diferente naquela escola, apenas como alguém normal foi você... você. Mas o único jeito que fez aqueles dois pararem foi repetir tudo o que diziam. Não esperavam por isso.

- E daí? Não muda o fato que todos riram às minhas custas.

E por sua causa, mas não quis acrescentar.

- Muda que eu te defendi depois. A parte que não ouviu, que fez todos se calarem e firmou a história que durou por semanas.

Soltando fôlego, continuou.

- Isso é o que todos vocês pensam. Se estamos juntos não é da conta de ninguém.

Espera, o que? Ele falou mesmo isso? Toushirou não viu meu choque. Concentrado demais no passado enquanto apertava os punhos juntos, tenso e nervoso. Essa postura rígida foi uma confirmação. Ele realmente falou, inacreditável.

- Quando percebi já tinha dito e fiquei preocupado sobre como reagiria. Mas eu não tive como me explicar, afinal você desapareceu.

Toushirou esperou que eu dissesse alguma coisa, mas não consegui. Melhor dizendo eu não quis. As últimas palavras estragaram tudo o que disse. Cerrava os dentes, segurando tanto a vontade de chorar como de gritar. Ambas eram tão fortes que eu queria bater nele. "Você desapareceu..." Soou tão ressentido. Eu também saí machucada nessa história, caramba! Bem mais que ele, pode apostar.

Vendo que eu continuaria calada, ele suspirou outra vez.

- Eu não queria perder sua amizade, Karin, aquilo poderia arruinar.

- Você nem sabia.

Ele nem se importou com meu tom ácido.

- Verdade, mas eu era um pirralho imaturo e temperamental. Eu não queria que minha melhor amiga se afastasse de mim por uma coisa daquelas.

O fitei de esguelha rancorosa em tempo de ele cerrar os olhos enquanto bagunçava os cabelos. Ficamos uns minutos em silêncio e aproveitei para passar por cima dessa mágoa misturada à raiva chegando a uma conclusão. Olhei para o nada, soltando o fôlego de repente exausta desse assunto.

- Crianças podem ser cruéis.

- Sim, podem ser.

Se eu tivesse a maturidade que tenho agora não teria saído correndo, fugindo da escola e... Aquilo não teria acontecido. Quanto à Toushirou, não sei, mas com certeza não teria repetido todas as coisas horríveis sobre mim se soubesse que estaria escutando tudo.

- Por que você fugiu?

Me empertiguei, calada. Ao meu lado o ouvi se aproximar e não consegui me mexer. Meu coração martelava forte, ao sentir o olhar dele sobre mim.

- Se chegou a ouvir no corredor, por que fugiu ao invés de entrar?

Engoli em seco. Aonde ele quer chegar com isso?

- A Karin que eu conheci teria invadido a sala, berrado e xingado até mais do que eu fiz.

Outra vez uma pausa e comecei a hiperventilar. Dessa distância, perto assim de mim Toushirou via meu rosto pálido corando aos poucos. Que droga, deveria ter saído correndo!

- Ela teria feito isso, a não ser que se sentisse acuada... Magoada. Pensei nisso a manhã inteira.

Contei os segundos, a cada pulso cardíaco meu martelando forte ao ponto que sentia na garganta. Toushirou se aproximou um pouco mais, sua respiração banhando meu rosto e orelha tão sensível que arrepiei. Ele viu, claro que viu, mas ignorou chegando mais perto para sussurrar.

- Você gostava de mim, não é?

Não aguentei, desci bruscamente da mesa e girei no lugar pronta pra correr. Nem tive chance de fugir. Ele me segurou pelo braço, de pé ao lado me puxando para perto. Plantei o pé no lugar impedindo. Minha sapatilha interna ficaria suja, mas não estava nem aí, só queria sair daqui.

- Me solta!

- Só responde.

Estava tremendo demais, nem sua voz baixa me acalmou. Me sentia acuada igual essa manhã, tanto que sequer o encarava. Fitava seu peito vendo o quanto respirava forte, fundo como se estivesse sem ar.

- Eu não vou te falar nada! Já disse o que queria agora me solta.

Puxando o braço, ele finalmente me deixou ir e não perdi tempo correndo pra longe dando a volta no segundo ginásio. Quando cheguei ao prédio das salas, me encostei na parede arfando com a mão no peito. Minha cabeça era um mar de confusão, principalmente com esses sentimentos que demorei tanto em amortece-los e agora vinham com força. Em ondas que me abalavam de dentro pra fora.

Se não estivesse tão distraída com isso, teria notado a sombra de alguém perto do bebedouro me espiando silenciosa.

KARIN POF