N/A: Como prometido, atualizarei a fic aos sábados, esse capítulo ficou MUITO longo, mas cumpre o seu propósito. Muitas das informações sobre os outros clãs e os Volturi eu consegui no guia oficial da saga, na época eu comprei a edição física, mas hoje vocês podem encontrar facilmente as informações na internet. Não vou mentir, gostaria muito de um feedback de vocês leitores!
Obs: P.O.V = ponto de vista do personagem que está narrando
Obs 2: alguns personagens tiveram a idade alterada, e a aparência escolhida para alguns foi a descrita no livro e não no filme
[Todos os personagens pertencem a Stephenie Meyer!]
11
Revelações
Demetri P.O.V.
Fazia quase uma hora que Elia havia sido levada por Kebi. Tinha razão quando pensei que Aro a trouxe para que Amun a testasse como uma aberração. Ele havia feito o mesmo comigo e posso até ter me acostumado com o passar dos anos, mas nunca cheguei a gostar. Essa era a única coisa negativa que conseguia lembrar de quando morava aqui, e um dos maiores motivos de ter aceitado o convite dos Volturi, bom, ou pelo menos era isso que eu pensava.
- É bom ver que está bem – Kebi disse olhando para mim, ambos esperávamos por movimentos vindos da sala a nossa frente.
- Fico feliz por vocês estarem bem – respondi com sinceridade. Mesmo após ir embora nunca cheguei a ver Amun e Kebi como inimigos, mas não podia dizer o mesmo de Benjamin e Tia, pois a primeira vez que nos encontramos foi no campo de batalha.
- Você parece gostar muito dessa garota, ela é bonita.
- Eu gosto dela – eu a amo, na verdade.
Kebi sorriu de leve de um jeito maternal. Não acho que ela tratava Benjamin da mesma maneira que me tratou, podia perceber pelo olhar frio que ela lançava a ele.
- Foi muito duro para Amun vê-lo aquele dia.
- Foi duro para mim também, mas só agora me dei conta disso.
Fitei o chão para escapar do olhar de Kebi. Tudo estava muito confuso agora, pois não estava sentindo tudo isso quando nos vimos naquele dia, na verdade naquela situação não senti remorso por estar prestes a enfrentar aqueles que já foram a minha família, mas agora lembrar de tudo aquilo me pareceu horrível.
Quase agradeci por nada ter acontecido.
- Mesmo se tivesse nos enfrentado – ela falou aquilo quando começamos a ouvir passos – teríamos te perdoado.
As palavras de Kebi conseguiram mexer comigo. As lembranças desse lugar sempre foram reprimidas por mim de uma maneira que não sabia explicar, mas agora começava a me perguntar o porquê de ter partido, pois eles eram bons para mim.
- Finalmente! – suspirei aliviado ao ver Elia sair daquela sala, intacta, segura.
Minha vontade era de envolvê-la em meus braços e não soltá-la nunca mais, porém não tinha mais permissão para fazer isso. Elia era uma mulher casada agora e precisava respeitar sua vontade, mesmo que isso partisse o meu coração todos os dias.
Kebi nos deixou a sós, dessa vez foi ela quem entrou na sala.
- Eu estou bem – Elia levou as mãos à parte de trás da cabeça – ouvi um pouco sobre o que eles discutiam.
- E ficou impressionada, é isso? – me aproximei um pouco mais, apenas para ter a certeza de que ela não estava tendo alguma reação nervosa. Elia tinha uma imagem tão idealizada de Aro que tinha medo do que ela faria que no dia que descobrisse quem ele era de verdade.
- Eles falavam sobre batalhas, visões do futuro e crianças híbridas – ela piscou por um segundo, confusa - o que é isso?
- Vamos para outro lugar – sussurrei quase que ao mesmo tempo. Já estava na hora de Elia saber no que de fato estava se metendo desde o dia em que chegou ao clã, mas precisávamos encontrar um local tranqüilo, pois Aro foi bem específico ao nos proibir de falar com Benjamin sobre o que exatamente viemos fazer aqui.
Estava longe dessa casa há tempo demais, mas ainda me lembrava de que as paredes tinham ouvidos, mais precisamente os ouvidos afiados de Kebi. Apesar de nossa conversa amigável sabia que ela sempre contava tudo a Amun.
Levei Elia até o terraço, que por sorte estava vazio, parece que Felix e Renata resolveram continuar a conversa com Benjamin e Tia em outro cômodo. Aparentemente nosso último quase conflito não era motivo para Benjamin deixar de ser um bom anfitrião, e Felix e Renata apenas seguiam ordens, então é claro atacávamos apenas se esse fosse o propósito.
Ventava muito, por isso tirei o paletó e o coloquei sobre os ombros dela, que apesar de não precisar aceitou de bom grado.
- Por que sempre temos que nos esconder para conversarmos? – Elia perguntou enquanto sentávamos próximo a borda do terraço.
- Porque estou sempre lhe contando o que não devia – respondi.
Havia uma rua movimentada alguns metros à frente, pois este atualmente era um bairro turístico, uma grande diferença do tempo em que vivi aqui quando não havia quase nada ao redor, mas ao olharmos para o lado podíamos ver as pirâmides iluminadas ao longe. Elia não conseguia parar de olhar para elas, sabia que estava louca para visitá-las, mas preferi deixar que Aro terminasse a reunião com Amun, pois ele ficou furioso por tê-la levado para Roma sem permissão e não queria mais problemas, bom, não mais do que estava prestes a desencadear:
– Você já ouviu falar sobre os Cullens?
Os olhos de Elia se arregalaram ao ouvir aquele nome.
- Na verdade não, mas imagino que eles foram o motivo do conflito nos Estados Unidos?
- Sim.
- Eles são um clã poderoso ou algo do tipo?
- Agora eles são um tipo de resistência aos Volturi. Na verdade o líder, Carlisle, era muito próximo a Aro, chegou a viver conosco por alguns anos.
- E por que ele se tornou um inimigo? – Elia se aproximou de mim. Fiquei surpreso por ela deduzir que Carlisle era o inimigo sem pedir mais explicações.
- É complicado.
- Complicado pode ter vários significados – Elia retrucou. Ambos sorrimos, era estranho me lembrar de nossa primeira conversa, de quando não tinha a mínima idéia do que ela acabaria representando para mim. Lembrar que cheguei a cogitar a possibilidade dela ser amante de Aro agora me parecia repugnante.
- Carlisle é um vampiro diferente – esperei que aquilo resolvesse tudo, mas Elia ainda parecia não ter entendido, por isso acrescentei: - ele não bebe sangue humano.
- Mas como... – seus grandes olhos brilharam de curiosidade - Isso é possível?
- Sim, também achei que era uma piada quando ouvi da primeira vez, mas é verdade. Podemos sobreviver com sangue animal.
A mão dela subiu automaticamente à garganta, sua expressão era de choque.
- Ele não me disse isso.
- Tem certeza? Muitos não aderem a essa dieta...
- Não, Demetri – ela me interrompeu – Aro nem sequer me deu escolha, eu não sabia disso.
Tínhamos pouco tempo, não sabia até quando Aro permaneceria recluso com Amun, por isso continuei:
- Carlisle pensava diferente sobre muitas coisas, por isso foi embora. Não tivemos problemas com ele nos próximos anos, tivemos notícias de que acabou constituindo família, mas as coisas mudaram há quatro anos, quando um membro de seu clã acabou se relacionando com uma humana.
Elia ouviu tudo com atenção, sem voltar a me interromper ou a fazer perguntas sobre a história de Edward Cullen com Isabella Swan, pois tudo aquilo não parecia ter relação nenhuma com os Volturi, a não ser com o fato de que Edward quebrou as regras, mas ela pareceu se interessar quando chegamos no ponto em que Aro e Amun discutiam agora:
- Então isso é uma criança híbrida – Elia sorriu – elas são perigosas?
- Sim – respondi mesmo sem ter certeza disso, na verdade essa era uma situação que não cheguei a refletir no campo de batalha, mas agora tudo parecia vir a mim com mais clareza – especialmente se quisermos manter nosso anonimato.
- Então Aro quer proibir sua criação.
Fiz um gesto com o dedo para que ela fizesse silêncio, não podíamos falar sobre isso abertamente aqui, pois Benjamin poderia nos ouvir e criar problemas, se bem que não ficaria surpreso se a vidente dos Cullens já não estivesse dois passos a frente de nós.
Elia não pareceu surpresa com aquelas novas informações já que o fato de vampiros se misturando com humanos não era inédito no imaginário humano, mas ela parecia magoada por Aro ter omitido informações importantes.
Ficamos em silêncio por exatos trinta minutos, o bastante para me deixar preocupado, então fiz a única coisa que consegui pensar para ajudá-la: a abracei. Fiquei feliz por sentir aquela familiar corrente elétrica tomar o meu corpo novamente. Elia não me correspondeu no começo, mas depois apoiou a cabeça em meu ombro. Ela só estava estressada, ainda era uma recém nascida afinal, tudo era mais intenso, e era muito difícil tentar agradar Aro o tempo todo e tentar reprimir tudo o que sentia de uma vez só, ainda mais descobrindo que o homem em que tanto confiava escondia informações cruciais.
- Não devia ter me dito essas coisas.
- Como assim?
- Essas coisas, essas revelações – Elia respirou fundo antes de me soltar – só serviram para me confundir.
Assisti, confuso, ela deixar o terraço com direção ao andar de baixo. Amun estava parado no portal, nos observando, mas deixou que Elia passasse sem dificuldades. Era a primeira vez que ficávamos a sós desde que nos reencontramos e aquilo me assustou.
- O que está fazendo aqui? – perguntei, sem me dar conta de como aquilo soou rude, afinal estava em sua casa, mas Amun deixou passar.
- Aro estava procurando a filha – ele sorriu – parece que é importante.
Assenti. Amun logo assumiu o lugar de Elia ao meu lado.
- Você parece gostar muito dessa garota.
- Foi Kebi quem te contou?
- Ela não precisou, vi isso no momento em que a impediu de se aproximar de Benjamin.
Não achei que ele estivesse me observando naquele momento, pois todas as outras vezes que nos encontramos fazíamos questão de ignorar um ao outro.
- Só quis fazer a coisa certa, Elia precisava saber quem é Aro.
- Mas esse é o problema, Demetri – Amun suspirou, acredito que ele se controlou para não colocar para fora todo o ressentimento que sentia com relação a seu suserano – talvez ela não quisesse ver quem Aro é de verdade.
- E você sabe quem ele é de verdade?
Amun hesitou, mas acabou continuando:
- Ele é engenhoso, Demetri. E o que contou a ela, se causar problemas entre eles, pode ser o seu fim, por mais brilhante que seja o seu dom.
Aquilo conseguiu me deixar preocupado, pois sabia que era verdade. Eu não era Alec, podia ser substituído, ainda mais agora que haviam descoberto alguém que eu não conseguia rastrear.
Estava ficando obsoleto.
- Não gostaria de receber a notícia de sua morte – disse Amun - por mais que estivesse empenhado em me matar há alguns meses.
- Ah, sobre aquilo...
- Não precisa se explicar – ele retrucou – eu sei sobre Chelsea.
- Chelsea? – não entendi o que ele disse, afinal ela não era perigosa - O que Chelsea tem a ver com isso?
Amun hesitou novamente, era óbvio que ele sabia de algo, mas não queria se arriscar ainda mais, pelo contrário. Ele me deixou com todas aquelas dúvidas novas em minhas mente, cujas respostas teria que descobrir sozinho.
Claudio P.O.V.
- Por que está com essa cara? – Jane perguntou sem tirar os olhos da televisão.
Estávamos na minha sala preferida, a única que possuía acesso a televisão e jogos eletrônicos, mas apenas Jane jogava agora, estava aproveitando o fato de Felix não estar aqui e Santiago estar ocupado demais vigiando Marcus. Alec observava sua irmã jogar enquanto eu só estava passando o tempo no sofá, nenhum de nós ousou tirar o controle de suas mãos.
Jane se tornou minha amiga em um curto espaço de tempo enquanto Alec me ignorava, não entendi o porquê no começo, até que Elia me explicou que eles se tornaram muito próximos quando ela chegou. Próximos demais.
- Quer que eu lhe faça sentir dor de novo?
- Não – suspirei. Achava o dom de Jane muito fascinante, deixava ela testar em mim algumas vezes desde que não fosse forte demais.
- Está irritado?
- Por que acha isso?
- Porque está parecendo Alec há alguns anos. Ele namorou uma pessoa em Roma, mas não deu muito certo.
Não imaginei que ela falaria sobre Alec comigo, ainda mais na presença dele.
- Há quantos anos?
- Quase trezentos.
Consegui sorrir por um milésimo de segundo, até que Alec me encarou de uma maneira muito assustadora para alguém da sua idade e fez minha expressão voltar ao normal na mesma hora.
- Então continua irritado? – Jane voltou a perguntar, ela estava quebrando todos os recordes em Assassin's Creed.
- Não, eu só... – respirei fundo e tentei pensar com clareza – Preciso falar com Elia.
Alec revirou os olhos e começou a resmungar em inglês. Não era fluente, mas sabia que ele não falava nada de bom sobre mim enquanto deixava a sala as pressas.
- Peço desculpas por ele – disse Jane – Alec está passando por problemas e não devia ter falado sobre o passado.
- Tudo bem – respondi – pelo menos agora sei que não sou o único com problemas aqui.
Jane sorriu enquanto esfaqueava um inocente no jogo. Esse não era o objetivo, mas ela gostava de dificuldades.
Respirei fundo e tentei imitar Elia, me concentrar tanto em uma coisa até ser capaz de parar de pensar, mas não consegui.
- Tenho certeza que esquecerá todas essas preocupações no dia do Festival – recordei, enquanto Jane falava, que Elia havia me contado sobre esse evento quando ainda morávamos em Roma, que ela participou uma vez.
Para a minha surpresa, Alec voltou antes do que esperávamos, e não estava de mãos vazias.
- Aqui – ele estendeu para mim um pequeno celular branco – ligue logo para Elia.
- Sério? – levantei do sofá em um salto e peguei o telefone – Posso mesmo fazer uma ligação?
- Sim – Alec disse de maneira inexpressiva.
- Obrigado! Mas e quanto ao número, eu não...
- Só há um número gravado aí – Alec assumiu meu lugar no sofá – e pertence a Aro.
Ouvir aquele nome foi o suficiente para que minha empolgação sumisse. Ele era a razão da maioria das minhas preocupações sobre este lugar.
- Não posso ligar para ele.
- Então eu ligo – Jane pausou o jogo, tirou o celular da minha mão e começou a discar o número que aparentemente parecia ter decorado. Resolvi sentar no chão.
Alec pareceu perceber meu incômodo por ter que interagir com Aro, mesmo a distância.
- Se quiser fazer com que isso dê certo – ele começou a dizer enquanto Jane estava ocupada, Aro havia atendido – terá que aceitá-lo também.
- Eu sei, quer dizer, eu acho que sei, mas não consigo concordar com ele – esfreguei os olhos e encostei a parte de trás da cabeça no sofá, acho que Alec não me deixaria sentar ali de novo – o que aconteceu com sua garota romana?
- Quem disse que era uma garota?
- Aqui – Jane nos interrompeu, colocando o celular em minha mão – não demore, Aro não ficou feliz, esse número é apenas para emergências.
"Mas esta é uma emergência", pensei com todas as minhas forças enquanto pressionava o celular contra a orelha esquerda.
- Elia? Elia? Elia? – comecei a dizer enquanto roia as unhas de tanta ansiedade. Por que ela demorava tanto para responder?
- Claudio?
- Finalmente! – disse um pouco alto demais, assustando Jane, que voltou a dar atenção para o jogo – O que está acontecendo? Por que está demorando tanto?
- Eu sinto muito, mas eu estou bem, não se preocupe – a voz dela soou baixa no começo, mas depois voltou ao tom habitual, como se ela estivesse perto de alguém e procurasse um lugar tranqüilo para falar ao telefone – devemos pegar o avião em alguns dias.
- Dias? – soei melancólico de propósito, talvez assim ela voltasse mais depressa – Será que ainda estarei aqui depois de todo esse tempo?
Não estava prestando atenção neles, mas foi impossível não notar que Jane e Alec estavam rindo nas minhas costas.
- Faça uma pergunta útil. – disse Alec.
- Isso – Jane concordou – pergunte se o acordo foi feito?
- Não me interesso por esse acordo idiota – respondi aos dois, quer dizer, aos três, já que aquela resposta também valia para Elia – só quero saber por que estão demorando.
- Não acho que posso falar sobre isso por telefone, mas prometo que lhe direi tudo quando chegar, está bem?
- Certo – suspirei – mas está em segurança, não está?
- Claro que sim! – ela pareceu um pouco mais animada, mas não sabia se aquilo era apenas para me acalmar – Logo estaremos juntos de novo, e depois não voltarei a viajar sem você, não acho que consigo suportar uma segunda vez.
- Então agora concorda comigo? – sorri e baixei a cabeça, apoiando-a em meus joelhos – Eu disse que seria uma loucura, mas é claro que preferiu dar ouvidos a Aro.
- Não vamos falar sobre ele, está bem? Apenas saiba que sinto muito a sua falta.
- Eu também – engoli em seco – e te amo muito
- Também te amo muito.
Alec voltou a murmurar xingamentos quando ouviu a declaração de Elia, então resolvi acabar com aquilo de uma vez:
- Vou passar o telefone para Alec, está bem? Ele quer muito falar com você.
Entreguei o celular a Alec, que me olhou como se aquilo fosse uma mini bomba nuclear. Estava abdicando do tempo de falar com minha esposa para que eles resolvessem essa estúpida briga e esperava que ele aproveitasse.
- Alec? – ouvi a voz de Elia chamando-o do outro lado da linha e sabia que ele também podia ouvi-la – Sei que você não vai atender, Claudio deve ter feito isso de brincadeira, mas mesmo assim estou lembrando sobre algumas histórias que você me contou enquanto estou aqui. Queria que pudesse me mostrar todos esses lugares pessoalmente. Demetri não é tão divertido quanto você. Espero que possamos conversar de verdade quando eu voltar está bem? Preciso ir agora...
Logo sua voz desapareceu, a ligação fora terminada. Havia um pequeno sorriso se formando nos lábios de Alec, mas ele se esforçou para não mostrá-lo.
- Que ótimo – Jane disse olhando para mim enquanto seu polegar direito pressionava um dos botões repetidamente – agora você o fez se apaixonar de novo.
Alec guardou o celular no bolso, ainda se esforçando para não sorrir ou olhar para mim. Foi quando duas pessoas entraram na sala.
- Eu não disse que ele estava aqui, senhora? – foi impossível não notar Heidi, mesmo usando uma roupa não tão estonteante.
Sulpicia estava ao lado dela.
- Aconteceu alguma coisa? – Alec prontamente se levantou e correu para o encontro da esposa de Aro. Essa era apenas a segunda vez que a via. Elia nos apresentou semanas após a minha chegada e ela foi muito gentil, por isso não entendia como ela podia ser casada com alguém como Aro.
- Não – Sulpicia respondeu com um sorriso – resolvi andar um pouco enquanto Heidi e Corin retiram algumas coisas.
- Estamos aproveitando que o senhor Aro não está para fazer uma limpeza – disse Heidi, ela usava jeans e uma camiseta, e seu cabelo estava preso em um coque alto. Parecia pronta para carregar algumas caixas – a senhora Sulpicia queria vê-los, então achei que Claudio podia nos ajudar.
- Eu? – perguntei.
- Seria de grande ajuda – Sulpicia sorriu.
Não podia dizer não a ela, na verdade sentia muita pena, ficar presa naquele quarto e ainda por cima ser casada com um homem sádico devia ser horrível.
Deixei Sulpicia com Jane e Alec e segui Heidi pelos corredores. Notei que Gianna não estava em seu lugar habitual.
- Onde está Gianna? – perguntei.
- Ela deve estar chegando – Heidi esticou seus longos braços para cima, alongando-se.
Respirei aliviado, pois imaginei que ela já tivesse sido devorada.
- Esta é a sua primeira vez fazendo isso, então tentarei explicar – Heidi começou a falar assim que chegamos à câmara do subsolo – a senhora Sulpicia recebe muitos presentes do senhor Aro, mas depois de alguns anos ela gosta de se desfazer de algumas coisas. Especialmente roupas. Deve ter percebido que ela usa coisas muito ultrapassadas, então além de comida na minha última viagem trouxe um guarda-roupa novo, completo, para ela.
Assenti, fingindo que estava entendendo o que ela falava. Para mim não havia nada de errado com as roupas que Sulpicia usava, pois ela parecia confortável nelas.
Logo entramos no quarto de Sulpicia, que mais parecia com um pequeno castelo particular. Havia outra vampira lá.
- Acho que você já conhece Corin – Heidi apontou para a vampira ruiva, que também usava roupas simples. Ela segurava uns cinqüenta cabides em cada mão.
- Já nos conhecemos, que bom que veio ajudar! – Corin disse com um sorriso. Também a vi no dia em que conheci Sulpicia, ela era reservada, mas inexplicavelmente me sentia bem ao lado dela.
Não esperei que ela pedisse e automaticamente tirei os cabides de suas mãos, apesar da minha nova força eles eram mesmo pesados.
- Onde devo colocá-los?
- Pode segurá-los por enquanto, vou dobrar as roupas e colocá-las nessas caixas.
- Enquanto isso vou buscar o resto no quarto – Heidi esfregou as mãos, animada, enquanto se retirava.
- Ela poderia trabalhar com isso se fosse humana nos dias de hoje – disse Corin – sabia que há pessoas que são pagas para organizar armários?
- Sim – respondi – algumas garotas da minha faculdade faziam isso para pagar as contas.
- Oh, faculdade! – Corin me olhou com admiração. Ela pegou um longo vestido azul coberto por um plástico transparente e o dobrou com delicadeza, como se fosse um bebê feito de tecido, colocando-o na caixa – Não podia estudar no meu tempo. O que você fazia?
- Direito – respondi – minha mãe ficou muito orgulhosa quando consegui.
- E você gostava?
- Sim, estava tentando convencer Elia a fazer o mesmo curso, assim poderíamos passar mais tempo juntos.
- Então você e Elia sempre estiveram juntos?
Assenti em resposta. Se houve um tempo em que não estive com Elia foram nos anos em que a esperei nascer.
- Isso é muito bom – disse Corin – mas não acho que ela teria feito uma faculdade, por causa de Mestre Aro.
Suspirei, lembrando-me daquele pequeno detalhe que tanto me incomodava. Se bem que naquela época eu não sabia que Elia precisava escolher mais do que uma faculdade, que precisava escolher se queria continuar viva.
- Sulpicia desabafa comigo às vezes – Corin continuou, ela já havia guardado metade das roupas – ela me disse que Aro traria sua namorada de qualquer jeito, só que demoraria mais alguns anos, por isso ficamos surpresas por ela ter vindo ainda esse ano.
- E ela te disse o porquê de Elia ter vindo tão cedo? – perguntei.
Corin balançou a cabeça, acabando com a nossa conversa sobre Elia e Aro. Pensar sobre os motivos que a fizeram vir para cá me enfureciam, especialmente por Andrea ser o principal responsável. Sabia que se ela realmente tivesse tido a chance escolher teria me escolhido.
Heidi voltou depois de algum tempo, então tive que carregar mais algumas caixas e ajudá-las a montar prateleiras novas, não que Corin precisasse de alguma ajuda nesta atividade. Ela era muito habilidosa com ferramentas.
- Você ainda tem família, Claudio? – Heidi me perguntou quando deixamos o quarto. Corin já havia saído para buscar Sulpicia.
- Pais, avós, um irmão mais velho – sorri ao me lembrar deles, especialmente de Luca. Claro que estava triste por não poder mais vê-los, mas essa foi uma decisão minha e sabia que estavam bem – tios e primos...
- Nossa, deve ter sido difícil deixá-los.
- Na verdade não, e é isso o que me surpreende.
Heidi soltou o cabelo e desarrumou um pouco a parte da frente, o que a deixou ainda mais parecida com uma supermodelo do leste europeu.
- O que tem no final do corredor? – mudei de assunto antes que ela procurasse saber mais sobre a minha família.
- O quarto da senhora Athenodora e... Bom, um depósito.
- Depósito? – perguntei, intrigado, Elia não me falou sobre nenhum depósito e havíamos conversado até sobre as masmorras do castelo.
- Na verdade era o quarto que Mestre Marcus dividia com a esposa, mas o senhor Aro o mudou para o andar de cima.
- Entendo, desculpe pela pergunta. – estava ciente da situação de Marcus e de sua esposa, Elia ficou muito impressionada com a história e costumava passar horas falando como queria ter tido a chance de conhecer a irmã de Aro e como queria que Marcus recuperasse a alegria de viver. Algo que eu julgava como impossível, pois ao me imaginar na situação dele acredito que reagiria da mesma forma.
Olhei para o corredor escuro, um ambiente tirado direto de filmes de terror onde as coisas da falecida Didyme permaneciam intocadas.
- Tudo bem – Heidi me analisou por um segundo – não costumamos conversar muito, mas obrigada pela ajuda, quando voltar da minha próxima viagem guardarei um grupo de humanos especialmente para você.
Ela virou-se graciosamente e logo a perdi de vista na escadaria. Era engraçado como ela falou sobre matar pessoas de maneira tão natural, acho que teria agradecido se não tivesse consciência de que aquilo era errado. Elia teria agradecido, por isso precisava ficar ao lado dela.
Finalmente estava sozinho, algo muitíssimo raro nesse lugar, especialmente próximo ao quarto de Aro. Afinal quais segredos o senhor das trevas escondia ali?
Não esperei Heidi nem Corin voltarem com Sulpicia, voltei para dentro do cômodo e segui diretamente para a parte mais reservada na câmara. Em um dos últimos aposentos, próximo a uma grande cama com dorsal havia mais duas portas, reconheci a da esquerda como sendo o closet que havíamos acabado de modernizar, e deduzi que a da direita deveria ser onde Aro guardava seus pertences pessoais.
Não sabia ao certo o que estava procurando quando comecei, simplesmente ignorei as roupas e procurei nas caixas e gavetas por algum compartimento secreto, algum lugar onde ele pudesse esconder algo comprometedor, pois normalmente era assim que funcionava nos filmes. Sulpicia existia há centenas de anos e se Heidi deixou uma coisa clara nessa recente reforma, enquanto recitava a história de cada jóia que encontrávamos, era de que havia coisas que eles não conseguiam se desfazer por causa de lembranças e sentimentos. Imagino que Aro devia sentir o mesmo por mais sádico que fosse.
Tomei cuidado para não quebrar nada, já estava demorando demais, elas já deveriam estar voltando. Estava prestes a ir embora quando notei algo estranho no chão, um pequeno desnível sob meus pés que teria passado despercebido se não fossem os anos que passei consertando o piso de casa junto com meu pai para economizarmos dinheiro.
Me ajoelhei rapidamente, arrastando a tapeçaria exageradamente ornamentada e passando os dedos pelo chão até encontrar a fina linha que separava as pedras. Levantei-a com cuidado para não danificá-la, sem saber o que esperar quando a retirasse, talvez jóias, dinheiro, drogas, documentos ilícitos, não sei o que estava pensando, por isso fui pego de surpresa ao encontrar apenas um livro antigo.
Tive que colocar meu braço inteiro na abertura para conseguir alcançá-lo. Toquei-o com a ponta dos dedos e só consegui trazê-lo para cima por causa da minha força, portanto foi difícil até para um vampiro. A primeira coisa que fiz quando finalmente o peguei foi folheá-lo, para ter certeza de que era algo importante, pois estava arriscando a minha vida e a segurança de Elia ao estar ali. Aro podia dizer a todos que era um líder, quase um pai preocupado, mas eu não acreditava naquele sentimento.
Conhecia o verdadeiro pai de Elia e sabia o quanto ele era melhor do que Aro.
As páginas amarelas e empoeiradas revelaram que aquele não era um livro comum, mas um diário escrito a mão em diferentes línguas. Procurei por um nome, por uma confirmação de que aquilo realmente pertencia a Aro, até que encontrei um nome escrito no rodapé da primeira folha, com uma caligrafia elegante e delicada.
Aquele era o diário de Didyme.
Elia P.O.V.
Já havia criado uma rotina no castelo em Volterra, mas aqui, em outro país, em uma casa estranha, as coisas pareciam nunca perder a intensidade. Estávamos no Egito há dois dias, porém parecia uma eternidade. Amun e Kebi nunca descansavam, nunca paravam, estavam sempre em movimento, seja conversando em árabe, dando ordens aos funcionários humanos ou seguindo Benjamin e Tia por todos os lugares como se tivessem medo que eles pudessem desaparecer a qualquer momento, mas tinha a leve impressão de que isso acontecia porque nós estávamos aqui, ou melhor, porque Aro estava aqui. Tomei cuidado para não tocar nele desde que falei com Demetri sobre os Cullens, ainda estava pensando sobre tudo, tive sorte por ele estar encantado demais com Benjamin para notar minha apreensão.
- Por que não está com o resto dos seus amigos?
O reflexo do brilho de minha pele limitava um pouco meu campo de visão, por isso demorei a perceber que Benjamin havia entrado na sala da piscina. Estava nos fundos, onde o teto era aberto, fazendo entrar luz e uma brisa agradável. Ainda eram as primeiras horas da manhã do nosso último dia nesse país. Queria ter aproveitado mais, que meus passeios durante a noite com Demetri não tivessem sido quietos e estranhos, pensando melhor queria que ele não tivesse me contado nada.
- Eles não são meus amigos – respondi – não todos eles.
Acho que Benjamin notou meu desânimo, porque sua expressão habitual de alegria diminuiu.
- Aro está com eles, está ajudando Amun a contar histórias sobre o século passado – Benjamin sentou ao meu lado, sua pele morena também começou a cintilar – cada um com a sua versão, é claro.
- Tenho certeza de que a versão de Aro deve ser muito interessante, mas gostaria de ouvir a versão de Amun – acrescentei - outro dia.
- É engraçado, não é? – Benjamin continuou – Como eles falam sobre seus feitos e aventuras enquanto nos mantêm presos.
- Pelo modo que fala é como se estivesse pensando em ir embora.
- Muita coisa mudou nos últimos anos – Benjamin olhou para o céu, pensativo - talvez seja à hora de seguir meu caminho, sozinho.
- Tia o seguiria? – perguntei, notando a falta da quieta vampira.
- Claro que sim – ele voltou a sorrir como uma criança – não é isso que casais fazem?
- Sim – pensei em Claudio na mesma hora, no quanto tinha desistido só para ficar comigo – sei bem como é isso.
Apesar do tom daquela conversa parecer cordial, percebi em seu olhar e principalmente no modo em que ele se portava, como no fato de estar sozinho aqui enquanto os outros estavam reunidos no andar de cima, que Benjamin estava planejando alguma coisa.
- Por que não me diz o que quer Benjamin? – perguntei – Mal nos conhecemos, não precisa fingir que se importa comigo ou com o que penso. Quer saber o que Aro veio fazer aqui, não é?
Ele assentiu, ansioso. Finalmente uma reação verdadeira. Será que Amun sabia que a lealdade de Benjamin havia mudado?
- Aro veio fazer o que sempre faz.
- Subjugar outros clãs? – ele perguntou, deixando-me irritada.
- Manter a ordem.
Minha resposta foi clara e direta, sem espaço para mais discussões. Apesar do que Demetri havia dito esse era o meu clã agora, não era? Então seus interesses eram meus interesses.
Aquela foi à última vez que Benjamin falou comigo.
XXX
Passei o resto dos dias trabalhando com Amun e evitando Aro e Demetri, pensando em como queria voltar para casa, para a minha casa em Roma, ver o meu pai e o meu sobrinho. Deus, até queria ver o meu irmão, apesar de saber que teríamos uma discussão terrível quando nos reencontrássemos! Achei que podia suportar tudo isso com Claudio ao meu lado e estava me saindo bem, mas agora tudo parecia pesado demais.
Nos despedimos de Amun e Kebi na noite do quinto dia, antes de voltarmos para o carro que nos levaria mais uma vez até a pista de decolagem. Percebi que Demetri estava quieto demais, ele finalmente conseguiu fazer as pazes com sua primeira família vampira, mas também percebeu que suas declarações tiveram um impacto sobre nossa relação. Agradeci em silêncio por ele ter me dado um espaço para pensar.
Notei que Benjamin e Tia não se juntaram a nós durante a despedida.
Finalmente, Aro percebeu meu comportamento estranho no momento que tentou tocar em mim e eu recuei, assim que entramos no carro. Nunca havia feito algo assim sem avisá-lo com antecedência, pois sempre nos comunicávamos daquela maneira, quase sempre o deixei entrar em minha mente sem restrições, pelo menos até perceber que nunca entrei na mente dele.
Permaneci calada ao lado de Renata até avistarmos o avião. Os outros desceram primeiro, com Demetri à frente. Foi quando enfim consegui ficar sozinha com Aro, que me encarava, sabendo que algo estava errado. De repente foi como se as paredes do carro se fechassem em volta de mim, estava me sentindo sufocada.
- Por que não me contou sobre os vampiros vegetarianos? – fiz a pergunta que tanto me incomodou nos últimos dias.
Esperei por uma reação furiosa por desobedecê-lo, por ser curiosa demais, algo que ele considerava meu maior defeito, mas Aro permaneceu sereno. Seu único movimento foi lançar um olhar para Demetri, que naquele momento estava entrando no avião.
- E por que quer tanto acabar com os Cullens?
Agora sim ele demonstrou irritação, entortando levemente o canto da boca. Em momentos como este eu desejava ter o seu dom.
- Foi Demetri quem lhe contou? - ele perguntou.
Assenti, e continuei, prestes a explodir:
- Mesmo depois de tudo não confia em mim, é isso? – engoli em seco, tentando voltar a ficar calada, mas não consegui: – Achou que eu o deixaria?
Tentei não parecer tão emotiva, mas era difícil.
- Não o deixaria apenas por pensar diferente, sabe que não poderia, eu... – não queria olhar para Aro agora, por isso me concentrei no teto do carro. – O que aconteceria com nosso acordo se fizesse algo assim? Iria se vingar de mim machucando minha família, é isso?
- Elia, por favor – Aro finalmente inclinou o corpo para frente e segurou minha mão.
Comecei a pensar em como poderia ficar perto de alguém que não confia em mim. Deixei tudo por Aro, mas ele ainda insistia em me esconder fatos importantes de sua vida, de seu mundo. Não consegui evitar em me sentir mal por aquelas crianças que estávamos condenando a morte, por enganar Benjamin, e agora ele sabia exatamente o que eu pensava.
- Depois que minha irmã se foi, eu... – a voz de Aro falhou quando ele tentou se explicar – Não vou suportar perder você também.
- Vai me perder se continuar escondendo coisas achando que está me protegendo – respondi – e não use a memória da sua irmã para tentar me fazer sentir pena! Não disse nada a Benjamin, sei que é com isso que está preocupado.
- Estou preocupado com você! – ele parecia nervoso, então sorriu por um momento, satisfeito – Veja só, está bem na minha frente, mas também não consigo sentir seu cheiro ou presença...
- Talvez porque esteja tentando me esconder de você – puxei minha mão de volta e cruzei os braços – podia ter me falado sobre o sangue animal, seria uma escolha minha, Aro! Ao menos uma... Quero ir para casa, quero ver o meu pai...
O sorriso de Aro murchou.
Cansei de falar e olhar para ele, então finalmente saí do carro e entrei no avião, onde Demetri me esperava, agitado, pois se estava brigando com Aro era por sua culpa, e se ele não conseguia sentir minha presença no mesmo ambiente, imagine Demetri. Renata e Felix tentaram fingir que não tinham ouvido nada.
- Você está invisível para mim – Demetri disse assim que Aro se juntou a nós no avião, sentando-se sozinho na primeira fileira.
A porta foi fechada.
- Eu sei – respondi – acho que entendi um pouco como funciona agora, mas ainda não sei se é uma coisa boa.
- Se foi agraciada com esse dom, então é claro que é uma coisa boa.
Demetri conseguiu me fazer sorrir um pouco, apesar de toda a guerra que estava sendo travada em minha mente naquele instante. Acho que ele percebeu que havia acabado de discutir com Aro, por isso tentou me distrair.
O avião estava prestes a decolar e ninguém nos pressionou para colocar os cintos de segurança, mas o fiz mesmo assim. Ainda magoada com Aro foquei na paisagem do lado de fora, estávamos nos despedindo da cidade, e eu parecia ser a única a me importar.
