Marina organizava as roupas seguindo duas prováveis estimativas, a de pouco dias e a de incontáveis dias, ainda não era certo o local da investigação do naufrágio que com toda a certeza iria acontecer, o que era certeiro era o fato de todos os sobreviventes terem de ir ao comitê do naufrágio.

O quarto do hotel era simples, mas de muito conforto. Havia uma cama muito macia, que parecia as nuvens do céu de tanta maciez, uma cômoda de madeira pura e acima dela um vaso com flores. Na parede havia um belo espelho, com detalhes bem desenhados em branco. A jovem improvisara um guarda roupa, guardando as roupas nas gavetas –compostas por vestidos, camisolas, roupas intimas e alguns colares e brincos. De Lowe, em uma outra gaveta, havia um uniforme de oficial, dois ternos e gravatas. – com cuidado e bem organizadas, cada uma em seu devido lugar. Havia ganhado algumas roupas de Dorothy Chambers, que tinha muitas e resolveu doar para quem necessitava mais do que ela própria, a herdeira da Chambers Line, uma companhia de navios poderosa. Ela estava hospedada no mesmo prédio e sentia essa necessidade de ajudar.

– Ainda bem que Dorothy me deu algumas camisolas, estava sem. – Marina agradeceu para si mesma. – Depois agradecerei a ela pessoalmente.

Encarou-se no espelho, estava tão diferente de como era antes. Não havia mais ali uma menina rebelde e inocente, mas sim uma jovem que estava tomando o corpo de uma mulher, que havia feito totalmente o contrário do que fora imaginado para seu futuro. Batidas na porta acabaram com o silêncio.

– Dorothy? – Indagou Marina, ao abrir a porta. – Boa noite, que surpresa te ver aqui.

A moça de cabelos castanhos sorriu antes de entrar no quarto. Dorothy era incrivelmente charmosa, delicada e decidida, seu ar não era soberbo, pelo contrário, seu ar era de mudança. Ser herdeira de alguma coisa não a fazia menos ou mais.

– Precisava fugir do ar tóxico que Ismay trouxe com ele. Ele está lá embaixo conversando algo com os oficiais. – Sentou na cama. – Fez bem em não ter descido, aquele idiota acabou o clima.

– Estava arrumando as roupas que você me deu, inclusive, muito obrigada!

– De nada, Mari, ficou feliz que gostou.

– São simplesmente lindas! A senhorita tem bom gosto! – Falou, enquanto sentava ao lado da cama. – As camisolas tem um tecido muito macio também.

– Claro que eu não poderia deixar de ajudar a senhora Lowe, inclusive seu nome já corre pela boca de certas pessoas. Mas não tem o que se preocupar, eu estou passando pelo mesmo que você, somos duas profanas.

– Minha mãe ficaria horrorizada se ouvisse isso, infelizmente ou felizmente é verdade.

– Mas não me importo se sou profana ou não. Sou adulta e já sei o que quero.

– Dificilmente entendem isso, Dorothy, mulheres não tem poder sobre suas próprias escolhas. Espero que na geração da minha irmãzinha as coisas possam ser diferentes e ela escolha seu próprio marido ou vire freira.

Dorothy esperou um pouco.

– Quando você e Lowe vão oficializar tudo? Vocês ainda não são casados perante justiça, certo?

– Em breve quando formos para a Inglaterra. Vamos no casar na terra natal dele... ele já contatou a família e aparentemente eles estão dispostos a fazer as pazes com o filho.

A jovem riu enquanto falava. Lowe sabia que tinha que casar para deixar seu casamento legitimo, até mesmo para não render problemas futuramente, já havia preparado tudo, mas Marina insistiu que fosse feito na terra natal dele. Na visão dela, queria que a família dele se unisse, não gostaria de ver um filho afastado da mãe, mas sabia que o pai, com seu ego ferido, seria um caso a parte. Ela não queria que Lowe ficasse sem sua família.

– É uma decisão nobre. – Sorriu Dorothy. – Família é um bem precioso.

Lowe entrou no quarto. Usava um terno, mas carregava o paletó sobre o braço. Ele estava terrivelmente bonito aquela noite. Seus cabelos castanhos estavam bagunçados, seus olhos brilhavam e seu sorriso era sedutor.

– Boa noite. – Lowe sorriu. – Prazer rever a senhorita Chambers. – Estendeu a mão.

– O prazer é todo meu em rever o senhor. Ismay foi insuportável?

– Ele queria que escondêssemos algumas coisas. Obviamente, recusamos. Ele está com o emprego de presidente por um fio. A população inglesa está furiosa...

– Com razão. – Marina se meteu.

– Ismay nunca mais será o mesmo. – Dorothy se levantou. – Com licença, tenham um boa noite.

A jovem se retirou rapidamente.

– Amanhã será a reunião no comitê, às oito da manhã. – Anunciou o oficial. – Todos temos que ir.

– Assumo que não estou nem um pouco empolgada. – Levantou Marina, indo em direção ao espelho. – Rever aquilo tudo é pior que pesadelo. A morte do Moody ainda me rende certos pesadelos, aqueles gritos... santo Deus.

Lowe chegou por trás da esposa, a abraçando pela cintura.

– Agora vamos ter que recomeçar juntos. Não precisa temer nada.

– Eu tenho medo, sou humana. – Virou o rosto para ele. – Tudo tem sido tão monótono.

– Amanhã à noite podemos dar um passeio. Vai nos tirar dessa tristeza, não faz bem.

– Passeio no que? Em algum parque?

– Em um parque de diversão pertinho daqui. Isabellinha vai gostar, ela merece brincar um pouco, nós também.

– Nem lembro quando foi a ultima vez que fui a um parque. – Marina se soltou e caminhou. – Vou colocar Isabellinha para dormir, e quando eu voltar quero você tenha tomado banho, estás com um cheiro ruim.

Lowe não segurou a gargalhada. Marina caminhou em direção ao quarto do lado, onde havia duas camas com lençóis brancos desarrumados e uma pequena cômoda no fundo do quarto. A porta do banheiro estava aberta, Isabella saiu dele vestindo uma camisola branca e estava abraçada a uma boneca verde.

– Oi, Mari. – Falou enquanto subia na cama.

– Muito bem. Indo para a cama no horário certo.

– Não tem o que fazer a não ser dormir. – Ajeitou os lençóis, cobrindo as pernas. Tossiu antes de se deitar.

– Amanhã nós vamos ao parque de diversão.

– SÉRIO? – Isabella gritou, entusiasmada. – EU AMO PARQUES!

– Pois é. Vamos amanhã. Mas agora vou apenas te dar um beijinho. – Marina se aproximou e beijou a irmã na bochecha, depois ajudando-a a se deitar. – Boa noite e durma bem.

Entrou uma outra garota no quarto. Seu rosto não era animado, ela cobria o pano com um lenço, tossia muito. A companheira de quarto de Isabella era uma jovem de por volta de vinte e quatro anos, adoecida de uma doença contagiosa chamada tuberculose e havia sido abandonada naquele hotel a alguns dias por conta de sua doença. A jovem se deitou, sobre os olhos curiosos de Isabella e Marina. A mais velha beijou novamente a irmã antes de se retirar. Lowe estava deitado na cama, quase cochilando quando Marina retornou.

– Muito bonito os oficiais da White Star Line dormindo sem camisa. – Debochou Marina, cruzando os braços.

– Sou obrigado a dormir de camisa neste calor infernal?

– Estava brincando, estressadinho. – Se deitou ao lado dele.

– Eu sei. – Ele riu.

Marina o abraçou. Lowe era um homem forte.

– Nunca tinha reparado que você era forte.

– Sou. Mas somente em força, por dentro sou um ursinho de pelúcia de tão fofo.

– Você anda muito convencido. – Ela o beijou. – Mas o meu oficial é bonito mesmo, o que posso fazer?

Lowe tornou a beijá-la. Marina laçou as mãos em volta do pescoço dele, enquanto ele a beijava carinhosamente.

– Eu te amo. Sei que não sou de demonstrar, mas quero que saiba disso. – Ele falou, a olhando no fundo dos olhos.

– Eu te amo mais ainda.

O jovem casal voltou a se beijar carinhosamente, beijos esses que com o passar do tempo iam fazendo desaparecer o mundo enfurecido e entristecido atrás deles. Ele era terrivelmente carinhoso, nunca fora alguém de atos selvagens, cada toque seu era feito com muita cautela, mostrando que ela a amava e parecia não se importar com o mundo de pernas no ar a sua volta. Marina se permitiu viver mais ainda aquele momento em que apenas o quinto oficial importava, o que a fazia esquecer de tudo e amá-lo mais ainda, ele lhe fazia viver sensações nunca antes experimentadas, havia ali um toque mágico, um passeio em uma dimensão onde somente o amor importava. Os defeitos perderam sua importância, a insegurança desapareceu como a neve em um dia de calor, todos os problemas esvaneceram. No dia em que se conheceram, uniram o coração, no dia do casamento, a alma em um ato louco de rebeldia, naquele dia, se tornou soberanos sobre corpos, as almas e os corações em um amor avassalador e apesar de tudo, verdadeiro. Algo tinha de diferente do dia do casamento, a rebeldia deixou de existir e os sentimentos verdadeiros transpareceram por atos e pingos de suor. Tudo estava selado, talvez profanamente. Se os olhos eram o espelho da alma, a alma de Marina amava Lowe autenticamente, e Lowe amava Marina mais do que a si próprio. Antes do corpo, foi a alma, e assim permaneceu.

No comitê do naufrágio, as pessoas se entediavam com a falta de dinâmica dos investigadores em mostrar o número exato de vítimas, dizer a causa do naufrágio, como a White Star Line iria reagir mediante aos acontecimentos e qual o seu plano para os sobreviventes, se é que havia um plano.

– 1 criança da primeira classe morta, seis salvas. 24 crianças da segunda classe salva, nenhuma morta. 52 crianças da terceira classe mortas, 27 salvas.

Rostos choravam compulsivamente. Muitas mulheres sem seus filhos lamentavam sua perda, a morte das crianças parecia ter deixado o clima mais pesado ainda.

– 140 mulheres da primeira classe salvas, 4 mortas. 80 mulheres da segunda classe salvas, 13 mortas. 76 mulheres da terceira classe salvas, 89 mortas. Mulheres da tripulação, 20 salvas e 3 mortas. – O homem virou a página. – 57 homens da primeira classe salvos, 118 mortos. 14 homens da segunda classe salvos, 154 mortos. 75 homens da terceira classe salvos, 387 mortos. Da tripulação, 192 salvos e 693 mortos. 710 sobreviventes e 1514 mortos por estimativa.

Cada olhar perdido mostrava a dor que cada passageiro iria levar em seu coração. Ismay ficou o tempo todo de cabeça baixa, enquanto Molly Brown o encarava furiosamente. A mulher desejava mata-lo por sua ganancia e falta de humanidade.

– Espero que o senhor lembre para sempre que a culpa foi sua. – Sussurrou Molly, que era a presidente do comitê, antes de se levantar e tomar a fala.

– Quero aqui exaltar que... – Molly começou a falar. – Que esta tragédia ficará para sempre em nossos corações. Rezo para que essas almas estejam no colo de nosso Senhor Deus e que Ele conforte as nossas almas entristecidas. Digo, senhoras que perderam vossos maridos, que eles foram heróis e não gostariam de vê-las chorado por sua partida, mas que sorrissem, crendo que Deus cuida deles. As mães que perderam os filhos, eles cumpriram sua missão e sempre viverão como o símbolo de que as senhoras devem continuar. Maridos, o amor que vossas mulheres sentiam não se acabou, esse amor vive e faça dele seu próprio consolo. Aos órfãos, recito uma passagem bíblica que diz, ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, Deus cuidará de mim. Vocês são mais que vencedores, quem partiu desta vida agora são astros que no céu brilharão para sempre, e vocês, sobreviventes, serão amparados e cuidados, a vida vai recomeçar e tudo ficará bem. Estas são minhas palavras.

Molly recebeu palmas calorosas. Os sobreviventes a viam de certa maneira como uma mãe, ela era uma verdadeira heroína. Marina acompanhava tudo de braços dados com Lowe, enquanto Isabella estava sentada ao seu lado.

– Lowe, aqueles dois idiotas estão olhando para nós. – Marina tentou disfarçar.

– Não retribua. – O oficial sorriu. – Está tudo bem, amor, não se preocupe.

– Mas e se eles estiverem planejando algo? Não duvido nada aquele homem que seguiu Isabella e eu ser algum empregadinho dele.

– Calma. – O oficial colocou a mão em seu ombro. – Respira fundo.

Ao saírem do comitê, tiveram que lidar com os repórteres eufóricos por respostas e por fotos dos sobreviventes. Lowe achava isso ridículo, era uma tragédia, aquelas pessoas eram sobreviventes, tinham passado por um trauma gigantesco, não era celebridades para serem perseguidas. Serguei os encarava furiosamente, mas nada poderia fazer, pelo menos ainda não, tinha que conter sua impaciência e esperar que a noite chegasse.

O Luna Park estava fervendo aquela noite. As luzes iluminavam a noite escura, mostrando belos brinquedos de vários tipos em funcionamento. Bolhas de sabão, balões, algodão doce, tudo isso era o suficiente para que os pequenos e os adultos se encherem de uma felicidade, pois supostamente poderiam estar adentrando em um mundo mágico. Esse parque se localizava em um local chamado Coney Island, o primeiro parque de diversão fechado moderno, muito famoso e conhecido pela disputa doa próprios parques entre si. – a ganancia não escapava nem de locais supostamente mágicos. – e pelo show de luzes e diversão.

– Nossa, como é bonito. – Falou uma garotinha, com as mãos agarradas a de Lowe e Marina. – Tem muito brinquedo legal. Lowe, você vai em qual?

– Hum... Montanha Russa, talvez?

– Esses russos tem cada invenção maluca. – Isabella brincou. – E você, Marina?

– Não vou em nenhum. – Respondeu a jovem. – Eu tenho enjoos facilmente, pode não ser uma boa ideia voltar para casa exalando cheiro de vomito.

Lowe riu, antes de embarcar em algum brinquedo perto com uma Isabella radical, era uma misturada de infantilidades de ambas as partes, era o lado ruim de ter uma cunhada com menos de dezesseis anos. O que ninguém reparou era que um Serguei observador estava por ali, esperando para colocar um plano em ação. Ele não iria ter dó de usar a força. Escondeu-se em uma parte escura, onde apenas seus olhos brilhavam de forma demoníaca.

– Cuidado. – Marina gritava, sem pensar no perigo. – Se você matar a Isabella, nunca irei te perdoar.

– Ele não é o Serguei! – Gritou Isabella, de volta, quase que inaudível.

A garotinha talvez nunca tivesse se divertido tanto quanto naquela noite. Brincou em vários brinquedos, comeu doce e depois ficou tonta, mas ainda assim brincou de novo. Lowe sempre fora seu acompanhante, mas isso não significava que a presença de Moody não estava com ela. No fatídico do naufrágio, ele deu a ela um colar muito bonito, ele tinha um coração esculpido de cor azul celeste, que tinha uma cópia e tinham prometido usar em alguma ocasião. Era a forma que Isabella tinha de ter a memória dele viva. Lowe, aos poucos, ia conseguindo ganhar a confiança da cunhada e naquela noite, passaram a ser grandes amigos, teria de haver um amor fraternal de ambas as partes.

– Estou tonto. – Lowe brincou, saindo de algum brinquedo.

– Você não tem idade de andar em brinquedos radicais. – Marina o beijou. – Vais fazer trinta anos, é um senhor de idade.

– Ainda tenho muito fogo para usar, querida, não sou senhor de idade!

– Deixem para brigar depois, quero comer alguma coisa. – Isabella passou a mão na barriga.

– Mas você já comeu três algodoes doces, quatro saquinhos de pipoca e um cachorro quente. – O oficial estava confuso. – Não achas que comes demais, mocinha?

– Não é o suficiente para alimentar meu estomago. – Ela brincou. – Me dá dinheiro?

– Toma! – Ele se deu por vencido. – Compra um saquinho de pipoca.

– Obrigada.

Isabella saiu calmamente para comprar um novo saquinho de pipoca, enquanto Marina e Lowe esqueceram o que era reputação. Aproveitavam seu momento intimo até ouvirem um grito.

Grito de voz conhecida.

– Isabella! – Gritaram em uníssono.