Entre Dragões
Embora os acontecimentos do dia anterior ainda estivessem claros na mente de Soluço, ele não se sentia intimidado, ele ainda queria explorar a ilha, descobrir as demais espécies de dragões que viviam por ali. Fazer contato com eles...
Uma coisa que muita gente concordava sobre Soluço era que ele era terrivelmente teimoso – como o pai, muitos diziam. E, naquele momento, ele concordava com aquilo.
Já tinha tido sua vida colocada em perigo várias vezes graças à dragões, tanto em Berk, quanto naquela nova ilha, mas ainda assim, ele estava determinado a continuar com suas ideias.
Paz e harmonia entre humanos e dragões.
Podia parecer loucura até mesmo para ele, mas Soluço ainda sentia que era possível. Ele já tinha dois amigos dragões, porque não poderia ter mais?
Ele entendia que aquilo ia demorar, que seria difícil apagar centenas de anos de inimizades, mas todas as grandes jornadas começavam com um simples passo, não é?
Soluço acordou pensando assim, abrindo os olhos com mais facilidade do que ele esperava. Ele comparou aquilo a como era acordar em Berk, sabendo que seu dia consistiria em participar do treino com dragões e mentir para o povo de Berk que acreditava que ele era alguém que ele não era.
Céus, como ele estava feliz por não ter de passar por isso. Qualquer um acharia aquilo estranho, mas Soluço estava mais contente acordando em uma ilha cheia de dragões do que de vikings.
O chão tremeu em baixo do garoto, o arrancando de seus pensamentos.
Soluço desviou os olhos para o dragão negro ao seu lado. Banguela estava levemente virado para trás, a asa erguida já não cobria mais o pequeno humano, mas o calor do dragão ainda o deixava quente.
O corpo de Banguela vibrava de vez em quando enquanto ele respirava, ainda dormindo, e Soluço teve que segurar uma risada.
Okay, dragões podem roncar, tudo bem..., ele balançou a cabeça, se perguntando como não notou aquilo antes.
Outro dragão também roncava aos seus pés, dessa vez soltando sons agudos e curtos, com a cauda pequena enrolada no tornozelo de Soluço, como se não quisesse perder o contato com o humano.
Soluço suspirou, se inclinando contra o corpo escamoso de Banguela. Ele se lembrou do que refletiu enquanto acordava e, embora quisesse fazer tal coisa, ao mesmo tempo ele não queria se levantar, não queria arruinar aquele momento.
Ele se sentia confortável, aconchegado, no calor dos dois dragões. Não queria levantar.
Um outro som, não muito distante, lembrou Soluço que aqueles não eram os únicos dragões na caverna.
Fogo Gelado se remexeu no lugar, esticando as asas e as pernas enquanto acordava.
Soluço não conseguiu deixar de observar. Como era esperado, Fogo Gelado agia praticamente do mesmo modo que Banguela; se remexendo antes de levantar, esticando a cauda e abrindo a boca num longo bocejo. Mas ao mesmo tempo Soluço conseguia notar como ela tinha o seu próprio jeito de se portar, balançando as barbatanas em sua cabeça e afagando a cabeça com as patas dianteiras; ela parecia um pouco menos graciosa que Banguela e o garoto se perguntava se era por seu porte maior e mais musculoso...
"É uma sorte o Escama da Noite ter um sono tão pesado." A energia obscura da Fúria da Noite tocou a de Soluço de repente, o surpreendendo. Fogo Gelado abriu os olhos, focando as pupilas finas para o humano enquanto deixava escapar mais um bocejo, dessa vez com os dentes à mostra.
"Ah, desculpa..." Soluço murmurou sem jeito.
Fogo Gelado o ignorou se colocando de pé e, se ela já era alta normalmente, vendo-a do chão, Soluço se sentia diminuto – um arrepio subiu por suas costas, mas ele tentou empurrar para longe o sentimento.
A Fúria da Noite o encarou por um momento e então bufou.
"Se vai ficar aqui é melhor aprender a controlar essa sua mente barulhenta..." Ela transmitiu por sua energia enquanto se dirigia para a saída, a cauda movendo para os lados.
"Ah, é, claro, é, controlar a minha mente... Eu-Eu vou-" Mas a dragoa já tinha se retirado. "Aprender isso..."
No silêncio da caverna – interrompido só pelos roncos de Banguela e Lambe-Olho – Soluço pensou no que Fogo Gelado disse.
Ele já sabia criar paredes entre ele e outras energias, mas só quando focava toda sua energia naquilo. Ele tinha notado como dragões tinham suas próprias paredes, erguidas para que o garoto e outros dragões não pudessem ouvir o que eles pensavam.
Soluço conhecia sua mente agitada, sabia como seus pensamentos corriam soltos então, de fato, seria muito bom ele aprender como controlar aquilo, se desejava viver entre dragões...
Ele desejava viver só entre dragões...?
"Você aprende rápido." A energia fraca e sonolenta do Terror Terrível a seus pés tirou Soluço de seus devaneios. "Todo mundo aprende rápido... Bem, todo mundo que é dragão..."
"Ah, tá, bom saber, Lambe-Olho." O rapaz não pôde deixar de sorrir, observando enquanto pequeno dragão se esticava, bocejando alto, antes de virar para ficar com a cabeça para cima.
Banguela foi o último a acordar, grunhindo baixo e piscando os olhos com lerdeza.
"Bom dia, Banguela." Soluço sorriu para o dragão, que soltou um arrulho baixo, apertando a cabeça contra o lado do garoto. Ele riu, sentindo a respiração forte de Banguela contra sua pele, quando a camisa foi erguida levemente com o movimento.
E por um momento, ele corou, se lembrando do que tinha descoberto sobre seu melhor amigo dragão. Soluço se repreendeu, se forçando a lembrar também que eles tinham decidido que tudo continuaria o mesmo entre eles.
"Hora do café da manhã?" Ele perguntou, tentando ignorar seus pensamentos.
Banguela trinou, se colocando de pé e se esticando, mostrando os dentes e apertando as garras contra o chão de pedra. Soluço não conseguiu deixar de encarar. As vezes ele esquecia que Banguela era um dragão poderoso, capaz de acabar com ele com facilidade. Mas Banguela nunca o machucaria.
Soluço se lembrou de como Banguela o protegeu contra Flamejante, mesmo sendo muito menor que o Pesadelo Monstruoso, e como tinha feito o mesmo mais uma vez, na nova ilha. Banguela tinha até tentado protege-lo de seu próprio pai e de sua irmã – Soluço tentou não pensar no quão problemático era saber que Banguela viu sua família como uma ameaça.
Ele se forçou a pensar em outra coisa, sorrindo ao se lembrar que, aquele dragão, um Fúria da Noite, estava do seu lado. Ele não tinha que temer ninguém desse modo.
Seu coração bateu um tiquinho mais forte, e ele gostou da sensação.
Um trinado suave tirou Soluço de seus devaneios e ele se voltou para dois dragões que o encaravam com olhares curiosos.
"E-então? Vamos indo?"
Como no dia anterior, Banguela e Lambe-Olho acompanharam o garoto para fora da caverna. Soluço notou que vários olhos ainda se voltavam para ele, assim como energias curiosas e se surpreendeu ao notar que erguer a parede invisível entre sua mente e a dos dragões parecia ser um pouco mais fácil agora. Talvez ele estivesse aprendendo rápido como Lambe-Olho havia dito.
O dia lá fora estava bonito, com poucas nuvens no céu e o sol brilhando, se erguendo no horizonte. Ainda era cedo.
Soluço subiu nas costas de Banguela e juntos com Lambe-Olho, eles desceram até a praia. Pescar era mais fácil para o Fúria da Noite quando tinha a ajuda do garoto, foi o que Lambe-Olho disse. Soluço se sentiu mal, se lembrando que ele e o que tinha feito era a razão para isso, mas tentou não se focar naquele pensamento.
Se aquilo não tivesse acontecido, Soluço e Banguela nunca teriam se tornado amigos, não é?
Eles comeram os peixes que pescaram à beira do mar e Soluço notou como ainda era o foco da curiosidade e inimizade de vários dragões. Eles ainda mantinham distância, alçando voo cada vez que Banguela notava que estavam perto demais.
Soluço se perguntou quando os dragões iriam parar de o lançar sentimentos incomodados e desconfiados. Talvez nunca... Soluço nem sabia bem quanto tempo iria ficar ali... Não que ele tivesse planos de voltar para Berk logo.
Honestamente, o pobre humano ainda não sabia o que queria fazer no futuro.
É melhor se focar no presente, Soluço... Ele decidiu.
Depois de terminar de comer, Soluço sentiu a natureza chamar e os três subiram a praia até chegarem à floresta. O garoto afastou os dragões e se dirigiu para as moitas, pedindo por privacidade, e recebendo olhares e um comentário curioso de Lambe-Olho.
"É só xi-xi. Todo mundo faz xi-xi!" Ele guinchou, mas com um leve rosnado de Banguela, ele deixou o garoto em paz.
Era de se esperar que dragões não entendessem coisas de humanos, entre elas privacidade.
Dragões eram criaturas curiosas. Ao mesmo tempo que pareciam ser tão inteligentes quanto humanos, capazes de viver em sociedades com regras parecidas com as de humanos, eles também agiam como animais, rosnando e atacando para proteger territórios ou companheiros. Bem... Vikings também faziam coisas parecidas, mas com armas.
De fato, não havia muita diferença entre os dois.
Banguela trinou quando Soluço se dirigiu até ele, apertando o cinto. E Soluço sorriu em resposta.
Ele podia se acostumar com o jeito dragão de viver...
Talvez...
Banguela fez um som, virando a cabeça de lado, encarando os olhos vagos do rapaz. E não era preciso que Lambe-Olho traduzisse.
"Eu estou bem, Banguela." O garoto revirou os olhos. "Só porque eu estou pensando não quer dizer que tem alguma coisa errada."
Banguela bufou, balançando a cabeça.
"Ele discorda." Lambe-Olho traduziu.
Soluço soltou um arfar de falsa ofensa.
"Ora, como ousa, Banguela?" Ele reclamou alto e Banguela soltou um ronronar grave, o olhando de modo desinteressado, o que mostrava que ele tinha entendido a piada. "Meu melhor amigo!"
O dragão bufou mais uma vez e pareceu rolar os olhos, antes de apertar a cabeça contra o rapaz, quase o empurrando para trás. Soluço riu, sentindo o ronronar grave do dragão fazendo seu corpo tremer.
"Eu só estava pensando..." Ele falou, sentindo que Banguela queria saber o que se passava por sua cabeça. Banguela o encarou com olhos grandes, pupilas dilatadas, prestando atenção. "Que... Que eu gosto dessa ilha..."
Banguela pareceu gostar daquilo.
Seus lábios se esticaram, dessa vez com muito mais facilidade do que das ultimas vezes, e ele sorriu, completamente banguela, enquanto arrulhava baixo. Soluço riu, afagando a cabeça do dragão, que se apertou contra seu toque.
É ele gostava do lugar... Só tinha que aprender mais sobre ele.
Pelo menos ele já sabia onde ficava o próximo lugar que queria visitar naquela manhã.
"E então... Alguém tem sede?"
-o-
Soluço tomou mais água do que precisava para saciar sua sede e soltou um suspiro satisfeito. Ele desviou os olhos para Banguela, que tomava grandes goles de água cada vez que abria a boca.
A manhã estava sendo calma e agradável, fazia um tempo que Soluço não tinha dias tão confortáveis quanto aquele – ele agradeceu aos deuses por não ser obrigado a ir a treino algum, ou ter de sair de casa, com medo de ser pego enquanto se dirigia para o cânion.
Ele não precisava fugir para visitar Banguela. Agora o dragão estava bem ali.
Será que era assim que alguém em "liberdade" se sentia?
Soluço nunca tinha pensado em Berk como uma prisão, mas agora, ele podia dizer que seu lar era um pouco parecido com isso...
É claro que a ilha não era perfeita, principalmente com tantos dragões que não gostavam de sua presença... Assim como alguns vikings que sentiam o mesmo sobre ele – pelo menos antes dele se tornar famoso.
Soluço balançou sua cabeça. Ele estava pensando demais, como sempre. Aquilo tudo o deixava confuso, desconfortável. Ele não queria pensar mal de seus companheiros vikings, mas essas eram as coisas que ele mais se lembrava, uma vez que tinha convivido com aquilo desde criança...
Soluço tomou um pouco mais de água e aproveitou para jogar um pouco em seu rosto, tentando esfriar sua cabeça.
O som de um bufar diferente chamou a atenção de Soluço e ele se virou para o dragão que tinha feito tal som.
O Nadder balançou a cabeça e encarou o garoto com o rosto virado para o lado, o olho amarelado examinando o humano. E então soltou um guincho baixo, erguendo o olho para Banguela, que estava tenso, pronto para proteger Soluço caso fosse preciso.
"Será que dá para você mandar o seu humano se limpar? Ele cheira muito!" O dragão reclamou e, embora a mensagem fosse direcionada apenas para Banguela, Soluço sentiu que o Nadder estava deliberadamente falando para o humano ouvir.
Soluço corou levemente quando outro dragão – um Pesadelo Monstruoso pequeno, possivelmente ainda bem jovem – concordou com o Nadder. Ele puxou sua camisa verde e deu uma fungada para saber se realmente precisava tomar um banho ou se seu cheiro só estava sendo captado pelos focinhos potentes dos dragões.
Banguela rosnou alto, mas Soluço fez sinal para que ele se acalmasse.
"É, talvez eles tenham razão, Banguela..." Ele disse, rindo de nervoso e passou a mão pelos cabelos, os sentindo um pouco mais desgrenhados do que o normal. "Faz alguns dias que eu tomei banho..." Ele estendeu a mão para a água mais uma vez, mas Banguela soltou um arrulho grave, afastando o rapaz da água coma cabeça. "Ah! Banguela, o que...?"
"Essa é a fonte de água, a gente não toma banho aqui!" Lambe-Olho traduziu.
"Ah! A-ah, é claro!" Soluço disse. Era de se esperar, até em Berk a água de se beber não era a mesma de tomar banho. Ele empurrou Banguela para longe, tentando ignorar o leve calor em suas bochechas ao notar que o focinho do dragão estava perto demais de suas calças. "Banguela, eu não ia tomar banho aqui, seu dragão bobo!"
Banguela bufou alto, sem apreciar o empurrão. Ele lançou um olhar estranho para Soluço e o garoto não soube como processar aquilo.
O olhar do dragão era profundo, o encarando como se conseguisse ver sua alma. E Soluço se sentiu de novo a criancinha escondida entre a grama alta, encarando os olhos de um perigoso Fúria da Noite.
"A gente te leva pra lagoa de banho!" Lambe-Olho guinchou, pulando na cabeça de Banguela, fazendo o dragão finalmente desviar os olhos..
Banguela bufou, movendo a cabeça até o Terror Terrível cair com um baque surdo e um guincho no chão. Soluço riu, um pouco abalado pelo que tinha acontecido e pelas memórias que vieram à sua cabeça.
Tantos anos já tinham se passado desde aquele momento...
Em pensar que um dia ele estaria em uma ilha cheia de dragões, voando nas asas daquele Fúria da Noite.
Banguela arrulhou, chamando sua atenção, e Soluço reconheceu aquele olhar de apenas alguns minutos antes.
"Banguela, eu já disse que está tudo bem, senhor super preocupado!" Ele reafirmou. "É só que... Sabe, desde que eu cheguei aqui eu ando pensando... Pensando demais..."
"Sobre o que?" Lambe-Olho perguntou, voando até pousar na cabeça do humano, que cambaleou levemente.
"Ah, bem... Você sabe, sobre- sobre várias coisas...!" Foi só o que Soluço disse, sem saber se estava pronto para dividir seus devaneios com algum dos dois. "Vamos para a lagoa do banho, tá bom?"
Banguela soltou um choramingo baixo, mas se inclinou para que o garoto subisse em suas costas.
"A velha Dente Lascado diz que banhos lavam a mente!" Lambe-Olho guinchou, pulando do garoto para as costas do Fúria da Noite. "Eu não sei o que isso quer dizer... Mas talvez você precise disso então!"
"É, talvez eu precise mesmo, Lambe-Olho..." Soluço concordou, enquanto Banguela movia seus músculos poderosos, abrindo as asas e se lançando para o céu.
Eles voaram acima da floresta e Soluço novamente deu "alô" aos Machadões. Alguns deles responderam, sua energia vibrando de um modo quase amigável. Bem, era melhor do que nada.
Passando pela floresta, eles deram a volta no que Soluço lembrava ser um vulcão adormecido. Não deu para ver a abertura enquanto eles voavam, mas como a mata crescia quase até a boca, dava para ver que não só fazia anos desde a última vez que lava havia jorrado de lá, mas que tal coisa possivelmente nunca mais aconteceria. A não ser que algo ou alguém acabasse acordando o vulcão. Soluço esperava não estar por perto caso aquilo acontecesse.
Eles desceram e Soluço viu o lado ao lado da montanha adormecida. Já havia dragões por lá, entrando e saindo da água, balançando as asas para se livrar do excesso ou só para espirrar água em outros, com guinchos que Soluço acreditava ser risadas.
Os dragões olharam com interesse enquanto o Fúria da Noite se aproximava e suas energias vibraram com força quando notaram que o dragão negro não estava sozinho.
Soluço tentou erguer suas paredes mais uma vez, sentindo um pouco de inimizade ao seu redor. Ele não estava com humor para ouvir aquelas coisas, tudo o que queria fazer era tomar banho e só.
"Essa é a nossa lagoa de banho!" Lambe-Olho guinchou, pulando no lugar. "Se você nadar mais fundo a água é mais quente!" E com um arrulho baixo, ele pulou na lagoa, desaparecendo na água.
Banguela bufou e Soluço riu. Ele não podia ouvir, mas sentia que Banguela estava falando alguma coisa pouco lisonjeira sobre o pequeno Terror.
Soluço deslizou das costas do dragão e deu uma olhada ao redor.
A lagoa era bonita e grande, quase perfeitamente arredondada; ela quase chegava a tocar o vulcão, mas havia uma parede de árvores entre ela e a montanha agora esverdeada; mas para além do vulcão, a lagoa se afinava até se tornar um pequeno córrego, se dirigindo para uma cachoeira e possivelmente caindo até o mar.
Era um lugar bonito.
O garoto respirou fundo, segurando a barra da camisa...
"Ei, é o humano!"
"Ugh, não me diga que ele quer se limpar aqui?"
"Ele cheira, precisa mesmo de um banho, hehe."
"Eu prefiro não tomar banho no mesmo lugar que um humano..."
"Porque humanos tem camadas de pele de cor tão diferente...?"
Distraído enquanto observava o lugar, Soluço quase não chegou a notar que suas paredes haviam caído até sentir uma enxurrada de presenças diferentes tocar sua mente.
E, no mesmo instante, ele se sentiu constrangido. Não sabia se era por causa dos comentários ou se era só porque tinha finalmente notado quantos olhos estavam voltados para ele.
Ele soltou a barra da camisa e se virou para Banguela, que o encarava com interesse, os olhos bem abertos, respirando em lufadas que moviam seu peito grande e musculoso com rapidez.
E Soluço sentiu seu rosto ficar ainda mais quente.
"A-ah, Banguela...! Não tem... Sabe né? Não tem um lugar mais... Escondido... Onde eu possa tomar- tomar banho?"
Banguela inclinou a cabeça para o lado, sem entender e Soluço grunhiu baixinho.
No mesmo momento, a cabeça pequena de Lambe-Olho apareceu na água e o dragãozinho guinchou.
"Porque tá demorando tanto, Soluço?" Sua energia vibrou com animação. "A água tá gostosa!"
"Ah, é, aposto que está!" Soluço disse de modo nervoso, tentando erguer sua proteção mental mais uma vez, incomodado com as demais presenças ao seu redor. Estava se sentindo mais e mais exposto a cada segundo que passava. "Mas eu- É, eu acho que deve ter um lugar melhor para eu tomar um banho, né?"
Lambe-Olho soltou um arrulho que soou tão curioso e confuso quanto o olhar de Banguela.
"Isso é mais uma coisa de humano?" Ele reclamou enquanto nadava para fora da lagoa. "Vocês humanos são bobos!" E balançou as asas para se livrar do excesso de água. "Não tem nada demais tomar banho com outros! É até mais divertido!"
Soluço corou, pensando em como seria se os vikings de Berk tomassem banho como os dragões. Mas logo fez uma careta quando imagens nada agradáveis vieram à sua mente.
"Eu sei que vocês não são humanos e não entendem o que a gente pensa sobre isso, mas... Mas é o princípio da coisa!" Ele reclamou, de modo decidido, e se virou para Banguela, esperando alguma coisa.
Banguela bufou, revirando os olhos de um modo quase humano. Ele abaixou a cabeça, permitindo que o garoto subisse em suas costas, sendo acompanhado pelo Terror Terrível. Banguela não chegou a voar, mas andou até o penhasco pelo qual a água do rio caia, descendo de pedra em pedra sem muita dificuldade.
"Ah, é, assim é melhor..." Soluço assentiu quando as patas do dragão tocaram o chão.
A água caia em uma cacheira pequena, criando um pequeno lago cercado por areia e pedras, que se juntava ao mar não muito longe dali. Parecia até ser uma mini-ilha privada.
Não havia mais nenhum dragão por perto, embora Soluço sentisse que talvez tivesse alguns logo acima, olhando com curiosidade – por sorte o penhasco formava um teto natural entre eles.
"A água aqui é mais fria..." Lambe-Olho sibilou, desgostoso.
Soluço tocou a água com os dedos.
"Ah, eu acho que está boa..." Ele deu de ombros. A água estava morna e aconchegante, mas talvez aquela temperatura fosse fria para um dragão.
Lambe-Olho sibilou mais uma vez e abriu as asas.
"Eu vou voltar pra lagoa!" Disse simplesmente e alçou voo, sumindo para além do penhasco.
Soluço riu, balançando a cabeça, e decidiu que já tinha perdido tempo demais. Ele retirou a camisa verde, a deixando de lado na areia, longe da água, e se dirigiu para seu cinto até que um ronronar baixo o fez parar.
Ele olhou por cima do ombro, encontrando Banguela sentado na areia de modo quase humano. O dragão o encarava com aqueles largos olhos verdes, as pupilas dilatas mostrando que prestava atenção e o garoto sentiu seu corpo esquentar sob o peso daquele olhar.
Soluço não sabia porque estava sendo tão tímido quanto a seu corpo. Banguela já tinha o visto sem roupas antes...
Por mais que Soluço não quisessem pensar que, o motivo por trás de seu constrangimento frente ao dragão, era porque ele sabia que Banguela pensava nele como mais do que só um amigo, ele sabia que era exatamente por causa disso. Seus dedos seguraram o cinto da calça com força, se sentindo desconcertado enquanto processava o que poderia estar se passando na cabeça do dragão...
Não, não, ele não ia pensar nessas coisas.
"Banguela, por favor..." Soluço murmurou, lançando um olhar sério para o dragão, esperando que ele recebesse a mensagem.
Era como se Banguela tivesse demorado para processar aquilo. Ele piscou os olhos uma ou duas vezes, antes de bufar baixo e obedientemente dar as costas para o humano.
Soluço suspirou, mas ainda não se sentia totalmente confortável.
Ele retirou o resto de suas roupas com rapidez, chegando a quase tropeçar enquanto tirava as botas pesadas, e entrou na água o mais rápido que podia.
O contato entre sua pele quente e a água morna o fez tremer levemente, mas ele suspirou, aos poucos se acostumando. A pequena lagoa não era muito funda, uma vez que a água caia até o mar, mas chegava até a cintura do garoto, o que lhe dava a chance de se afundar nela de modo confortável.
Céus, ele tinha sentido falta daquela sensação.
E, embora não tivesse sabão por ali, Soluço tentou se lavar o melhor que conseguia, esfregando seu corpo e seu cabelo até se livrar do cheiro de suor e peixe que ele próprio podia sentir. Ele fez uso da cachoeira rindo ao sentir a água atingindo sua cabeça com força. Até mesmo a água daquele lugar parecia ser diferente da que os vikings tinham em Berk; ou talvez Soluço só se sentisse diferente ali.
É, ele se sentia bem diferente.
O garoto suspirou, afastando os fios de cabelo que caiam em seus olhos e, timidamente, se voltou para Banguela. O dragão ainda estava de costas para ele, a cabeça virada para o alto, olhando para o céu como se procurasse alguma coisa... Ou como se só apreciasse a vista.
Soluço se lembrou das vezes em que os dois brincaram na lagoa dentro do cânion e se sentiu um pouco mal por impedir Banguela de se unir a ele ali.
Se Soluço quisesse que as coisas continuassem as mesmas, então ele devia agir de acordo.
"Ei, Banguela!" Ele chamou. Banguela não virou para ele, mas sua barbatana esquerda ergueu enquanto o dragão se inclinava um pouco para o lado, mostrando que ouvia. "Vem cá!"
Mas tudo o que o humano recebeu foi um bufado e um movimento de cauda como resposta.
Soluço balançou a cabeça, já tendo uma boa ideia do que o outro estava fazendo.
"Ora, Banguela! Vem logo!" Ele disse. "A água tá fresquinha!"
Banguela ainda assim não se moveu. Soluço revirou os olhos e se aproximou um pouco de onde o dragão estava. Ele bateu os braços contra a água, tentando espirrar uma boa quantidade no Fúria da Noite, sem muito sucesso.
E, de repente, uma onda de água foi jogada contra Soluço, que quase caiu para trás. Ele cuspiu a água que tinha entrado em sua boca e piscou uma ou duas vezes, vendo que o que tinha causado a onda era uma cauda longa, com uma barbatana postiça.
Banguela soltou um arrulho baixo, finalmente olhando por cima do ombro escamoso.
"Ah, então é assim que você quer brincar, Banguela?" Soluço sorriu e tentou novamente.
Como retaliação o dragão finalmente se dirigiu para a lagoa pequena, se jogando nela e lançando água para todos os lados, principalmente em cima do humano. Os dois começaram uma guerra de água. Soluço tinha a vantagem de ser pequeno enquanto Banguela quase nem cabia na lagoa, mas o dragão era maior e bem mais pesado.
E era como se os dois estivessem brincando no cânion novamente, como se nada tivesse mudado, só dois grandes amigos, se divertindo.
"Ack! Tá bom- Tá bom! Já chega, chega!" Soluço disse entre risadas, cuspindo água. Seus membros já estavam cansados e seu rosto agora estava vermelho e quente por causa da agitação. "Você ganhou... De novo!"
Banguela soltou um arrulho grave, se empertigando todo e erguendo o focinho, olhando o garoto de baixo.
"Um dia eu ganho de você, Banguela! Marque minhas palavras!" Soluço disse em tom sério, mas tudo o que recebeu de Banguela foi um gorgolejar estranho, como se o dragão estivesse fazendo zombaria dele.
Soluço riu, revirando os olhos.
"Ok, já chega..." Ele passou a mão pelo cabelo, afastando alguns fios de sua testa. "Meus dedos já estão tão enrugados quanto a Gothi!" Banguela se aproximou, curioso, fazendo um som suave ao notar o estado das mãos do garoto. "É, isso é normal, Banguela, não se preocupa."
Soluço passou pela cachoeira uma última vez e, quando abriu os olhos, se viu encarando a base do penhasco de pedra. E ele parou por um momento.
Havia algo estranho ali. Ele não sabia o que era, mas era como se as pedras estivessem mal posicionadas, como se tivessem sido colocadas ali por alguém.
Curioso...
Soluço se aproximou, passando as mãos pelas rochas. Musgo verde e fresco as cobria graças à humidade, o que queria dizer que, se alguém tinha mexido ali, tinha feito isso há muito tempo.
Banguela soltou um murmúrio baixo, chamando pelo garoto. Soluço fez uma nota mental sobre aquilo, talvez ele pudesse dar uma olhada mais tarde.
Soluço saiu da lagoa, notando que não tinha exatamente com o que se secar. Banguela fez pouco caso disso, juntando alguns galhos que haviam caído de cima do penhasco e criando uma fogueira mal feita. Soluço sorriu para o dragão, surpreso ao vê-lo fazer tentar imitar o que um humano faria.
O garoto pegou sua roupa de baixo, decidindo que era melhor ficar com aquilo do que sem nada.
"Heh, a mãe ia ficar irritada se eu não me secasse o mais rápido possível..." Ele murmurou para si mesmo, sorrindo com a lembrança. Banguela soltou um arrulho baixo, mostrando que estava ouvindo também. "Um tio meu morreu por que não se secou e ficou no vento frio, sabe? É, essas coisas acontecem..."
Banguela soltou um som alto, fazendo Soluço pular de surpresa. O dragão se ergueu nas pernas traseiras, assim como tinha feito antes, e rapidamente envolveu o garoto com uma asa.
"Ah! Banguela!" Soluço não sabia se estava corando só de surpresa ou por causa do modo como o dragão o apetava contra seu peito grande e quente. As escamas de Banguela eram quentes como uma fornalha e Soluço conseguia sentir cada uma delas apertando contra sua pele exposta. "B-Banguela, calma, não precisa disso...!"
Mas tudo o que ele conseguiu do dragão foi um bufado baixo.
Soluço pensou em empurrar Banguela para longe, mas aos poucos sentiu sua força sumindo. Ele não podia mentir para si mesmo, ficar perto do dragão era aconchegante, sendo tão quente e sólido. E Soluço sentia que talvez ele conseguisse se secar mais rápido assim.
Ele não chegou a decidir o que fazer ao sentir a presença de outro dragão se aproximando, embora esse não estivesse sozinho.
"Oi! Já terminou?" Lambe-Olho guinchou, pousando na areia com um outros Terror Terrível ao seu lado.
"Já." Soluço sorriu, se voltando pro outro dragão, esse de uma coloração mais alaranjada. Não lhe parecia conhecido. "Ah, oi, você trouxe um amigo..."
"Esse é Morde-Cauda, meu companheiro!" Lambe-Olho arrulhou e Soluço sentiu sua energia vibrar com o que parecia ser orgulho.
"Ah, companheiro...?" Soluço não estava esperando aquela palavra.
"Quando Defensor disse que você ia ajudar um humano eu não acreditei..." Morde-Cauda inclinou a cabeça para o lado com um som curioso. Sua energia se movia de modo rápido, como parecia ser típico dos Terrores Terriveis, fazendo contato com a do humano com sentimentos tanto de curiosidade amigável quanto de indecisão, talvez um pouco de medo.
"Ele é um humano legal." Lambe-Olho ronronou, apertando a cabeça contra o pescoço do outro dragão.
Morde-Cauda não respondeu, apenas ficou encarando o garoto com olhos amarelos incertos.
Soluço ofereceu um sorriso para o dragão, embora soubesse que eles não entendiam o que um sorriso queria dizer – com exceção de Banguela.
O garoto observou os dois enquanto esses conversavam entre si. Paredes haviam sido erguidas entre eles, possivelmente por Morde-Cauda, para que o humano não ouvisse sobre o que conversavam.
Ainda assim, pelos guinchos e linguagem corporal, Soluço podia adivinhar que Morde-Cauda não estava convencido de que ele era um "humano legal", como Lambe-Olho dizia; enquanto isso, Lambe-Olho parecia determinado a mudar a opinião de seu companheiro.
O Terror Terrível esverdeado se apertava contra o outro, esfregando sua cabeça contra o pescoço do companheiro, ronronando e arrulhando baixinho. Morde Cauda correspondia ao toque, vez ou outra encostando no outro a ponta da asa, mas ainda parecia sério.
Era... Era até bonitinho de se ver.
As vibrações fortes do ronronar de Banguela fizeram o rapaz se lembrar de que estava ainda envolto nas asas do Fúria da Noite, apertado contra seu corpo quente como uma fornalha.
Ele desviou o olhar para cima, encontrando dois grandes olhos verde-amarelados o estudando com interesse.
Soluço sentiu como se todo o seu corpo estivesse pegando fogo e empurrou a cabeça do dragão para cima.
"Banguela, dá pra parar de ficar me olhando?!" Ele reclamou, ignorando o som vindo do outro.
"O que é... Isso...?" O retorno da energia de Morde-Cauda distraiu Soluço.
Ele se virou para o dragãozinho, o vendo se aproximar com cuidado de sua roupa, cheirando com curiosidade.
"Ah, é minha... Roupa..." E Soluço se lembrou de que ainda estava completamente nu. Ele se remexeu no lugar, apertando um pouco as pernas, só para se lembrar de que, com a asa de Banguela o envolvendo, nenhum dos Terrores conseguia vê-lo.
Ainda assim, ele colocou sua roupa de baixo, só para se sentir um pouco mais confortável.
"Roupa...?" Morde-Cauda guinchou.
"Ah, é tipo a sua segunda pele, né?" Lambe-Olho decidiu.
"Bem, é, dá pra chamar disso..." Soluço deu de ombros. "A gente usa pra se proteger do frio e para... Sabe né, cobrir o que precisa ser coberto..."
"Tipo o que?" Morde-Cauda questionou.
Soluço hesitou.
"Ah... Sabe, né... Vocês- Vocês dragões não tem que se preocupar com isso..." Ele decidiu que era o melhor a dizer.
Ambos os Terrores Terríveis pareciam um pouco confusos, mas Soluço estava decidido a não conversar sobre anatomia humana com eles.
Uma vez se sentindo seco o bastante, Soluço afastou a asa de Banguela e colocou sua roupa novamente, se sentindo muito mais confortável vestido. Soluço nunca gostou de ficar nem sem camisa perto de outros vikings, sendo completamente desprovido de músculos ou de pelos no peito, algo que todos os outros da sua idade já tinham em boa quantidade.
Ao pensar nisso, ele se sentiu um pouco bobo de ficar com vergonha de ficar sem roupas na frente de dragões.
Eles nem sabiam como humanos deviam ser em baixo das roupas!
Soluço apertou o cinto e examinou suas roupas, limpando a areia de suas calças. Banguela arrulhou, chamando sua atenção.
"É, Banguela, esse é meu único par de roupas por aqui..." Ele murmurou, como se soubesse que Banguela perguntava alguma coisa. "Logo elas vão ter que ser lavadas, sabe...? Só que eu... Eu não tenho mais nada para vestir, não é?"
O dragão negro inclinou a cabeça para o lado, respirando em lufadas pesadas, e examinou o garoto com os olhos, do pé à cabeça. Soluço não gostou muito daquele olhar...
"Então!" Ele exclamou, surpreendendo todos os dragões e sorriu sem jeito. "Com fome, Banguela? Lambe-Olho? Uh, Morde-Cauda" Ele perguntou, recebendo sons animados dos dragões, até mesmo do Terror Terrível alaranjado.
Soluço subiu nas costas de Banguela e eles voaram para as praias largas. Soluço deixou que Banguela guiasse o voo, sabendo que o dragão conhecia melhor os lugares de pesca da ilha.
A pesca foi rápida e Morde-Cauda pegou alguns peixes pequenos só para ele – e talvez Lambe-Olho – e Soluço momentaneamente se esqueceu do que tinha acontecido alguns minutos antes. Após a pesca, eles se ajeitaram na areia da praia para comer, exatamente como tinham feito de manhã.
Hm... Soluço podia se acostumar com aquela rotina.
O garoto escolheu um dos peixes, começando a retirar as escamas desse, quando guinchos conhecidos chamaram sua atenção e Lambe-Olho e Morde-Cauda guincharam de volta, pulando no lugar.
Um pequeno grupo de Terrores Terríveis voou até eles, assim como naquele dia – que já parecia ter acontecido há uma eternidade – e Soluço se surpreendeu com algumas daquelas cores.
"Ei, oi, são vocês!" Ele exclamou, reconhecendo os pequenos dragões.
Os Terrores guincharam para ele, suas energias agitadas vibrando com curiosidade e apreensão, e Soluço notou que alguns o reconheceram também. Lambe-Olho e seu companheiro se juntaram a eles, balançando as cabeças e fazendo grunhidos engraçados. Pelo que dava para notar por sua energia, aquilo era quase o equivalente a um abraço de boas-vindas ou um aperto de mãos.
Era incrível como os dragões utilizavam tanto a linguagem corporal quanto a "língua" de suas mentes. Soluço já tinha observado vários animais que moravam ou visitavam Berk, ele já tinha visto como pássaros diferentes agiam de modos diferentes, quando se encontravam, quando estavam assustados ou protegendo território. Era de se esperar que dragões também tivessem seus costumes físicos, afinal, eles eram animais também.
Mas agora Soluço tinha descoberto que dragões se comunicavam de muitos outros modos além do físico.
Ele se perguntava porque os dragões ainda utilizam esse tipo de comunicação quando podia simplesmente entrar um na mente do outro? Não era mais fácil só fazer isso?
"Então tem mesmo um humano aqui na ilha..." A energia pressionando contra sua mente tirou Soluço de seus pensamentos. Um Terror roxo se aproximou lentamente, a cabeça abaixada. Soluço não o reconheceu, talvez fosse novo no grupo. "Eles são mais estranhos vistos de perto."
Banguela rosnou alto com aquele comentário e Soluço quase riu. Novamente, Banguela tentava proteger sua "honra". Ele afagou a cabeça do dragão, que simplesmente bufou com o contato, como se soubesse no que o rapaz pensava.
"Ele é Soluço!" Lambe-Olho guinchou, pulando da cabeça de Soluço para as costas de Banguela, os usando como degraus até tocar a areia.
"Porque esse nome... Soluço...?" Um dos Terrores questionou com interesse e Soluço sabia que era uma pergunta para ele, pelo modo como a energia do dragão tocou a sua.
"Ah, bem, é tradição do povo de Berk, é... Dar nomes ridículos..." Soluço explicou. Não era toda a verdade, mas ele não estava com vontade de explicar o que era ser um viking raquítico para o pequeno dragão.
"Vocês humanos são estranhos..." Lambe-Olho soltou o mesmo trinar-risada que o garoto tinha ouvido e ele não conseguiu deixar de sorrir com aquilo. Os outros dragões concordaram com seus próprios guinchos, até Morde-Cauda.
Soluço se voltou para Banguela, que estava mais focado no peixe que comia.
"Agora você não me defende?" O garoto mencionou e tudo o que recebeu do dragão foi um olhar e um bufado leve. Soluço riu baixinho e ergueu o peixe que tinha descamado. "Banguela, será que você pode...?"
Banguela ergueu a cabeça, lambendo o resto de peixe de seus lábios, antes de soltar uma pequena bola de fogo no peixe que o garoto queria. E Soluço notou como ele tinha sido mais delicado dessa vez, possivelmente se lembrando do que o rapaz tinha dito em relação à sua comida.
"Obrigado, Banguela." Soluço sorriu para Banguela, que arrulhou de modo suave. Fazer as coisas daquele modo era muito mais fácil do que preparar uma fogueira.
Soluço deu uma mordida, apreciando mais do que ele esperava. Nunca tinha sido muito fã de peixe – ele preferia mais galinha – mas estava começando a se acostumar mais aquilo. E talvez devesse, uma vez que estava vivendo entre dragões.
Ele pensou enquanto mastigava.
Ele estava começando a gostar da ilha – embora aquele fosse só seu terceiro dia no lugar – mas sua casa estava em outro lugar, em outra ilha muito distante. Ele se perguntou se um dia iria retornar...
Soluço ainda queria colocar suas ideias em prática. Ele queria mostrar para os outros vikings o que ele sabia sobre os dragões.
Talvez um dia...
Mas ao mesmo tempo, Soluço queria ficar ali, naquela ilha; queria explorar o lugar e conhecer tipos diferentes de dragões... E talvez descobrir o que havia em baixo da cachoeira que ele tinha visto antes...
Banguela rosnou baixo, tirando o garoto de seus pensamentos. Ele seguiu o olhar do dragão. Um Nadder Mortal se aproximou lentamente, quase de modo tímido, virando a cabeça de lado para examinar o pequeno grupo à beira do mar.
"Ah, oi..."
O Nadder não respondeu, apenas ficou encarando. Sua energia era fraca, difícil de ouvir ou sentir, como se estivesse muito, muito longe. Não havia parede pontiaguda entre eles, mas Soluço acreditava que o dragão estivesse protegendo sua própria mente, impedindo o rapaz de saber o que se passava nela.
"Hum, quer um pouco?" Soluço ofereceu, apontando para o pequeno monte de peixes.
"Não..." O Nadder bufou, balançando a cabeça e batendo as asas. Ele virou o rosto de lado mais uma vez, examinando o garoto e o peixe no espeto. "Porque você faz isso... Pede para o Sombra da Noite queimar o peixe?"
"Ah, bem, é que..." Soluço foi pego de surpresa pela pergunta. Era a primeira vez que um outro dragão, além dos pequenos Terrores que tinha mostrado interesse ou curiosidade sobre alguma coisa humana. "Coisa de humano. A gente não consegue comer peixe cru."
"Porque não?" O Nadder trinou.
"Ah, eu não sei bem, mas..." O humano deu de ombros. "Isso faz... Sabe, faz mal pra gente. Ou faz a gente ficar doente."
Houve uma pausa e o Nadder soltou um arrulho típico da espécie.
"Humanos são delicados por dentro...?" O dragão pontiagudo transmitiu com interesse.
Soluço podia sentir sua energia dançando levemente, curiosa, interessada, e ele não conseguiu deixar de sorrir, notando como não havia nenhum sentimento desconfiado ou traiçoeiro vindo do dragão.
Ele só queria saber mais sobre essa "criatura" tão diferente que era Soluço, um sentimento que o garoto dividia em relação aos dragões. Era interessante estar do outro lado da interação dessa vez.
"É..." Soluço assentiu e se lembrou de uma coisa. "É! Igual aos dragões."
Mais uma pausa. O Nadder fez um arrulho baixo, inclinando a cabeça para os lados como um cãozinho curioso. E, mesmo que o dragão não estivesse transmitindo aquilo diretamente, Soluço conseguiu sentir algo diferente...
Algo ainda mais amigável do que "curiosidade".
Sem "dizer" mais nada, o Nadder se afastou, abrindo as asas depois de um tempo e voando para longe.
Banguela bufou alto ao lado do garoto, olhando do Nadder que se afastava para ele.
"O que é? Não posso falar com outros dragões, é isso?" Soluço disse e riu quando o dragão fez um som incomodado, balançando a cabeça como se fingisse ofensa. O garoto riu com o jeito de seu dragão.
Banguela era tão surpreendentemente humano...
Ou quem sabe humanos eram surpreendentemente como dragões...?
Soluço não sabia de onde tinha vindo aquele pensamento.
Depois de comer, Soluço deitou suas costas contra o pescoço largo de Banguela, descansando com a barriga cheia e sentindo o calor do sol contra seu rosto, enquanto o corpo poderoso de Banguela respirava em baixo dele.
Ele fechou os olhos, ouvindo o som ao seu redor.
O som das ondas do mar quebrando na areia, o farfalhar das folhas nas árvores, o murmúrio baixo do vento. Era quase os mesmos sons de Berk, com exceção dos gritos e rosnados de dragões, do bater forte de asas poderosas e dos guinchos dos Terrores Terríveis que aparentemente estavam brigando por um peixe grande.
Era confortável, como os sons de Berk eram para Soluço desde pequeno, o som de vikings conversando, martelos batendo contra metal, fogueiras queimando...
Ele suspirou, ouvindo um outro som...
Era grave, poderoso, pesado, e parecia estar bem próximo, embora fosse um som abafado e baixo. Entrava por seus ouvidos e parecia descer por todo o seu corpo, batendo junto com seu coração.
Soluço abriu os olhos, se colocando sentado e olhando em volta.
Banguela arrulhou baixinho, encarando o garoto com curiosidade.
Não havia mais nenhum dragão por perto, a não ser Banguela e o grupo de Terrores. Os demais dragões ainda mantinham sua distância.
Então de onde...? E quem...?
O trinar baixo de Banguela tirou Soluço de seus pensamentos. O Fúria da Noite se aproximou do rapaz, apertando seu focinho contra o ombro desse. Soluço tremeu levemente, se lembrando das marcas em sua pele, mas ele sabia que Banguela só queria saber se ele estava bem ou não.
"Tá tudo bem, Banguela..." Ele sorriu, afagando em baixo da boca do dragão, o fazendo ronronar. "Então... Que planos temos para o resto do dia?"
Como Soluço esperava, os planos mais uma vez era voar sobre a ilha e explora-la um pouco mais.
Dessa vez ele voaram ao redor das praias, acima das formações rochosas que se estendiam para longe das praias de areia clara. Dragões de todas as cores e espécies diferentes se empoleiravam nas pedras e Soluço reconheceu alguns; enquanto do alto era possível ver Escalderriveis e outros nadando entre as ondas do mar, seguindo atrás de cardumes pequenos de peixes.
"Esse lugar é... Incrível!" Soluço suspirou, sua mão instintivamente indo até o cinto. "Eu queria tanto estar com o meu caderno..."
Ele imaginou com um suspiro como seria imortalizar aquele lugar nas páginas de seu caderno.
"Me faz lembrar um pouco de Berk..." Ele murmurou e sentiu quando Banguela se moveu logo em baixo, soltando um som estranho. "Ora, Banguela, não resmungue! Eu nunca sai de Berk antes, é isso que eu quis dizer."
Banguela bufou, abaixando as barbatanas contra seu pescoço, e, mais uma vez, Soluço quis saber o que se passava na cabeça de seu dragão.
"Deve ser chato ficar preso só num lugar sem ter asas..." Morde-Cauda trinou, chamando a atenção do garoto.
"Bem, é. Mas é por isso que nós temos barcos! E navios!" Soluço explicou, se lembrando das curtas viagens em que já tinha participado com sua família. "Podemos viajar o oceano inteiro neles!" Ele parou por um momento. "É, só que demora um bom tempo pra ir de lugar para lugar, mas... É o que a gente tem."
"Você não!" Lambe-Olho fez um som engraçado, voando à frente do garoto. "Você agora tem o Escama da Noite!"
Banguela respondeu com um arrulho e Soluço não conseguiu se impedir de sorrir.
"É... É, tem razão..." Ele afagou o pescoço forte do dragão que se moveu muito de leve, se inclinando contra o toque.
-o-
"Eu não sei bem o que a gente fez hoje, Banguela..." Soluço disse enquanto se dirigiam para as cavernas. "Mas eu me sinto bem mais cansado do que eu esperava..."
Mas ele sabia sim porque estava cansado, tinha se sentido assim no dia anterior também. Eram aquelas presenças, as milhares de energias diferentes, tocando sua mente, empurrando contra suas paredes invisíveis que ainda não eram fortes demais. Aquilo drenava todas as suas energias com tremenda rapidez.
O sol só estava começando a se pôr e, embora Soluço quisesse voar com Banguela até a lua estar alta no céu, ele sentia que acabaria dormindo nas costas do dragão em poucas horas.
Então, ambos decidiram que era melhor voltar para as cavernas depois do jantar. Lambe-Olho, como antes se manteve junto a eles, dessa vez trazendo seu companheiro consigo. Era bom que Terrores Terríveis fossem pequenos e que a caverna dos Fúrias da Noite fosse grande, senão o lugar ficaria um pouco cheio.
Falando em Fúrias da Noite...
Como da última vez, Fogo Gelado estava na caverna, já deitada em seu canto, como se esperasse por eles.
"Oi, Fogo Gelado." Soluço disse educadamente e Banguela arrulhou para a irmã.
Fogo Gelado soltou um simples rosnado, sem erguer a cabeça.
Era de se esperar.
Soluço suspirou, olhando do peixe que tinha em mãos para Banguela. O dragão inclinou a cabeça para o lado, lançando um olhar para a irmã, como se dissesse sem palavras para o garoto "vá em frente".
Decidido, Soluço deu alguns passos na direção da Fúria da Noite, parando após a dragão rosnar gravemente.
"Ei, então, Fogo Gelado..." Soluço começou. "A gente- A gente meio que pegou uns peixes a mais pro jantar então... Ah... A gente decidiu trazer um pra você, que tal?"
Fogo Gelado finalmente se moveu, erguendo a cabeça muito levemente e abrindo os olhos grandes, com pupilas levemente dilatadas. Ele olhou do peixe para o humano, antes de erguer o lábio superior, mostrando um pouco dos dentes enquanto rosnava.
"Eu não quero nada vindo de você."
"Pois é, né... Eu estava esperando isso..." Soluço assentiu. "Mas... Você pode aceitar como vindo do Banguela?"
"Escama da Noite nunca traria um peixe para mim na caverna." E ela lançou um olhar estranho para seu irmão que apenas bufou em resposta, mostrando por sua expressão que não estava gostando da atitude dela. Fogo Gelado não parecia ligar.
Soluço suspirou.
"A gente pode ficar com o peixe então?" Lambe-Olho guinchou, mas foi ignorado.
Soluço olhou do peixe para a dragão enquanto essa se ajeitava sobre as cinzas no chão, e decidiu que, de um modo ou de outro, aquele seria o primeiro passo na relação dos dois.
Com determinação, Soluço pegou o peixe pela cauda, ignorando Lambe-Olho que estava se dirigindo para ele, e deu mais alguns passos tentativos para o outro lado da caverna. Banguela soltou um som estranho.
Uma das barbatanas curtas de Fogo Gelado se ergueu e ela rosnou mais alto do que antes, mostrando os dentes, encarando o garoto pelo canto do olho.
"Olha, tudo bem se você não quiser, mas..." Soluço caminhou lentamente até o lado esquerdo da caverna, tentando ignorar o rosnado e a energia forte de Fogo Gelado que tentava empurrá-lo para longe. Banguela rosnou com mais força que sua irmã quando essa se moveu e Soluço decidiu que era melhor ser prudente e parar ali. Já era o bastante, ele não queria invadir o espaço de Fogo Gelado. "Então eu deixo aqui. Né? Caso você mude de ideia..."
Ele soltou o peixe não muito longe de onde Fogo Gelado estava deitada. Os olhos esverdeados da Fúria da Noite se desviaram para o peixe por um momento, e então para o garoto enquanto esse voltava para o outro lado da caverna.
Soluço sorriu para ela e se virou para Banguela e os Terrores.
"E nenhum de vocês vão comer o peixe da Fogo Gelado, me ouviram?" Ele disse. Banguela soltou um arrulho baixo, erguendo olhos brilhantes para o garoto e Soluço se perguntou o que ele queria dizer. Ele ergueu a mão para afastar o cabelo na frente de seus olhos e sentiu o cheiro forte de peixe nas suas mãos, fazendo uma careta. "É, a não ser que esteja começando a cheirar..."
"Já cheira..." Lambe-Olho começou, mas um rosnado de Banguela fez o dragão se calar – não sem antes sibilar para o maior. Morde-Cauda pareceu concordar com Banguela no momento, dando uma leve mordida no chifre de seu companheiro que reclamou, mas logo se calou.
Soluço riu levemente e se sentou entre os dragões. Banguela se remexeu no lugar, chegando mais perto, até o seu lado tocar as costas do garoto.
"Valeu, Banguela." Ele sorriu, afagando a cabeça do dragão, que ronronou baixo.
Ele lançou um olhar para Fogo Gelado, mas essa tinha virado o rosto, o escondendo tanto do garoto quanto do peixe jogado à sua frente.
Soluço tinha tido a ideia, quando viu o último peixe que ainda restava. Ele não planejava exatamente mudar a mente de Fogo Gelado, ele sabia que não conseguiria fazer tal coisa, mas sentia que, com um simples ato ele poderia começar a ganhar a confiança dela.
Assim como tinha feito com Banguela.
Ele se lembrava da primeira vez em que fizeram contato de verdade. Soluço sabia que só tinha sido alguns meses atrás, mas ao mesmo tempo, era como se tivessem se passado anos. Naquele momento, Soluço sentia que não podia mais viver sem ter a companhia de Banguela...
Companhia...
Ele desviou os olhos para Lambe-Olho e Morde-Cauda, enrolados um no outro e dormindo juntos.
Soluço tentava não pensar nisso, no que Banguela queria que ele fosse, mas aquilo sempre voltava para sua mente. Ele ainda não sabia como se sentir sobre aquilo e estava honestamente chocado consigo mesmo ao se sentir cada vez menos revoltado com aquela ideia.
Bem, se Banguela queria ser seu companheiro... Isso não queria dizer que eles precisavam ir "todo o caminho" numa relação não é?
Ora, o que ele estava pensando? Ele amava Banguela, mas como um amigo! Ele era um dragão, não um humano! Não funcionaria de qualquer jeito.
Soluço balançou sua cabeça, sentindo seu rosto quente, e tentou ignorar aquele pensamento. Ele se forçou a fechar os olhos, a tentar dormir... Tentou se lembrar das belas vistas da ilha, de suas praias claras, do mar azulado, as árvores verdes...
O cansaço de antes começou a tomar sua mente e aos poucos ele não conseguia mais distinguir pensamentos diferentes.
Soluço ouviu o som de algo se arrastando e abriu os olhos de modo lento, os sentindo pesados por causa do sono.
Fogo Gelado estava se movendo, esticando a perna esquerda até o peixe, agarrando-o com as garras e o puxando para perto. Soluço prendeu a respiração. Ela cheirou o peixe antes de abrir a boca e o engolir em segundos.
O garoto não conseguia descrever como se sentiu ao ver aquilo. Fogo Gelado ainda não confiava nele para comer na sua frente, mas... Talvez um dia eles chegassem lá.
Ele sentiu a energia forte e grande da Fúria da Noite tocar sua mente e tentou erguer suas paredes, sentindo um ar desgostoso vindo da outra. Em segundos ela se afastou, como se estivesse satisfeita com a parede que o humano havia criado entre os dois.
Era melhor do que nada. Soluço estava aprendendo. Aquilo com certeza faria tanto a sua vida, quanto a de outros dragões, muito melhor.
E, sentado com as costas contra Banguela, Soluço se lembrou de tudo que tinha pensado e formulado de manhã, e também se lembrou daquela pergunta que tinha feito a si mesmo.
Ele desviou os olhos para Fogo Gelado, que estava lambendo os lábios enquanto se ajeitava para dormir.
Talvez ele quisesse viver entre dragões...
