Parte 11
"Nada daquilo fazia sentido" era o que Sawyer pensava sentado na sala da casa de seus sogros na véspera de natal enquanto as pessoas confraternizavam como se aquela vida fosse a coisa mais normal do mundo, mas não para ele. Hà algumas horas atràs estava na ilha, perdido no pacífico seduzindo uma mulher que deveria estar morta, mas que na verdade estava muito viva e era sua esposa em uma realidade aonde não existia ilha, onde não tinha tido queda de avião e ele não era um criminoso golpista que se aproveitava de mulheres casadas ingênuas para roubar o dinheiro dos maridos delas.
- Tem certeza de que está bem?- Ana-Lucia perguntou ao se aproximar dele que estava amuado no sofá.
Ele apenas balançou a cabeça positivamente fazendo Ana suspirar de frustração. Ela se sentou ao lado do marido e tocou sua mão dizendo:
- James, eu não consigo entender.
Sawyer voltou sua atenção para ela.
- Num momento estamos com raiva um do outro e falando de divórcio, no outro estamos transando loucamente e jurando amor eterno, depois você fica num canto e finge que não conhece ninguém ao seu redor. Você mal cumprimentou meus pais! Sério, qual é o problema?
- Quando foi que falamos de divórcio?- ele indagou parecendo surpreso.
- James, é véspera de Natal!- ela falou.
Ele deu um sorriso triste para ela.
- Eu sei.- disse e a beijou delicadamente nos lábios antes de levantar do sofá. – Você tem razão, chica. Vou socializar um pouco.
Ana ficou olhando para ele enquanto Sawyer se afastava tentando entender o que de fato estava acontecendo com ele. Foi nesse momento que sua mãe se aproximou dela, sentando-se ao seu lado no sofá.
- O que houve mi hija? Você me parece preocupada.
- Tem algo muito estranho acontecendo com o James.- ela contou. – Mas ainda não consegui descobrir o que é.
- Vocês estão brigando de novo?- Teresa questionou.
- Não exatamente.- Ana respondeu evasiva.
Do outro lado da sala, Sawyer conversava com alguns dos tios de Ana concordando com tudo o que eles diziam para que eles não percebessem que que ele não fazia ideia do que estavam falando e sequer sabia seus nomes.
- Você foi um grande safado naquele dia, James!- disse um dos homens. – Pensamos que a Lulu ia te matar quando te viu saindo do casino com a gente.
- Pois é, eu tive sorte.- disse James aceitando o tapinha no ombro que o homem mais velho estava lhe dando.
A campainha tocou e o pai de Ana-Lucia apressou-se em abrir a porta. Sawyer ficou surpreso ao se deparar com Jack e Kate adentrando a casa de seus sogros. O médico segurava com muito cuidado um moisés aonde uma nenê toda vestida de vermelho dormia tranquila sugando em sua chupeta.
- Oi estranho. Feliz Natal- disse Kate para Sawyer com um enorme sorriso logo após de cumprimentar os pais de Ana. – Como é que tá a cabeça?
- Sardenta...- ele murmurou olhando para ela, tentando encontrar algum sinal de que aquela mulher era sua amiga e confidente da ilha com quem ele podia conversar sobre tudo.
- James...- ela falou olhando para ele com desconfiança. – Você está bem?
Jack se aproximou deles ainda segurando o moisés, mas o bebê tinha ido parar no colo da Sra. Cortez.
- Hey, James, como se sente?- Jack perguntou amigavelmente colocando o braço ao redor dos ombros de Kate.
- Eu...- ele disse sem saber o que responder encarando aquela versão "família feliz de subúrbio" de Jack e Kate na frente dele. – Eu...preciso de um drinque.- disse finalmente ao se afastar pedindo licença ao casal.
A festa de Natal continuou animada. As pessoas bebiam, conversavam e riam. Sawyer gostou de ver Ana-Lucia dançando uma canção antiga com seu pai. Ela parecia tão feliz, tão plena como se absolutamente nada pudesse destruir sua felicidade. Dava até medo, ele pensou. Medo de que se fechasse os olhos aquela realidade desmoronaria novamente.
- Papi...- Lucy se aproximou dele abraçando-o pelas pernas.
- Oi, Luluzinha.- ele disse amoroso e pegou a menina no colo, embalando-a em seus braços. Ela esfregava os olhinhos mostrando que estava com sono.
Sawyer caminhou pela casa procurando um lugar tranquilo para se acomodar com a filha, acabou entrando em uma saleta aonde o avô de Ana-Lucia assistia televisão. Sentou-se no largo sofá com Lucy e cumprimentou o homem idoso que parecia muit interessado no programa que assistia.
- Hola!- ele disse, mas o homem não respondeu.
Ele acomodou o corpinho pequeno e rechonchudo de Lucy ao lado dele, tendo o cuidado de colocar uma almofada macia debaixo da cabecinha dela; os cachos loiros se espalharam para todo o lado porque ela tinha arrancado o elastico que o prendia. Sawyer acariciou-lhe os cabelos e então prestou atenção ao que passava na TV. Parecia se tratar de um talk show onde um físico chamado Daniel Faraday estava sendo entrevistado.
- Então existem mesmo realidades pararelas?- perguntou o entrevistador ao seu convidado.
- Exatamente.- disse o físico. – As realidades paralelas podem acomodar diferentes situações com as mesmas pessoas em tempos diferentes.
- Se isso é verdade, isso significa que existiria um outro Benjamin Linus em alguma outra realidade nesse momento fazendo coisas completamente diferentes das coisas que eu estou fazendo aqui?
- Correto!
- Uau! Dois Benjamin Linus?
- Talvez três.- brincou Faraday fazendo Benjamin, o entrevistador dar uma gargalhada na qual a plateia o acompanhou.
- Coitada da minha esposa.- Linus acrescentou. – Ela já tá de saco cheio de 1 Benjamin Linus! Que dirá mais dois.
A plateia riu mais ainda.
- Mas então Dr. Faraday, qual seria o propósito de essas realidades existirem? Afinal, qual delas seria a real?
- A realidade real é a sua realidade, assim como a outra realidade seria a realidade do outro Benjamin Linus.
- Que poderia ser qualquer coisa?- indagou o entrevistador.
Sawyer franziu o cenho porque de repente sentiu que se identificava com a conversa do programa.
- Quanto à razão das outras realidades existirem, eu acredito que o objetivo seria consertar fatos que ocorreram mas que não deveriam ter ocorrido, o que causaria um desequilíbrio no espaço- tempo. Teoricamente, uma pessoa que existe em duas realidades diferentes poderia ficar viajando entre as realidades até que o equilíbrio se estabelecesse de novo. – continuou o doutor Faraday.
- Mas doutor, essa pessoa teria noção do que estaria acontecendo?- perguntou Benjamin Linus.
- Bom, se isso realmente acontecesse eu imagino que seria bastante confuso para essa pessoa...
Sawyer arregalou os olhos imaginando se o que físico estava sugerindo poderia estar mesmo acontecendo com ele. Seria mesmo possível?
- Tu no perteneces aquí!- disse o avô de Ana-Lucia de repente.
- Como?- questionou Sawyer voltando-se para o homem. – O que o senhor disse?
- Tu no perteneces aqui! Fuera! Fuera de aqui!- agora o idoso estava gritando.
- Ei, calma aí, vô!- disse Sawyer pegando Lucy no colo novamente. A pequena já começava a chorar por causa dos gritos.
- Salga de aqui! Condenado! Fuera!- gritava o homem.
Os gritos dele logo chamaram a atenção dos outros convidados na festa de natal.
- Papa!- disse o pai de Ana-Lucia ao ver o homem velho tendo uma crise. – Se acalme, por favor!
Logo a esposa do idoso, a mãe de Ana-Lucia e outros parentes se amontoavam ao redor dele tentando acalmá-lo. Sawyer retornou para a sala principal e ficou lá com os filhos mais Jack e Kate.
- O que houve?- perguntou Ana-Lucia depois que a confusão tinha sido controlada.
- Eu não sei.- respondeu Sawyer. – Estávamos assistindo televisão e de repente ele começou a agir assim, gritando em espanhol que eu não pertenço aqui.
- Tadinho do meu abuelo.- falou Ana com pesar. – A demência vai e volta...ele para de reconhecer as pessoas.
- Posso ajudar em alguma coisa?-ofereceu-se Jack.
- Não, tá tudo bem agora. Papa conseguiu dar o remédio pra ele dormir.- disse Ana-Lucia.
Depois desse incidente, a festa esfriou um pouco mais continuou mesmo assim. Quando já estava perto da meia noite, Sawyer e Ana-Lucia dançavam abraçados na sala enquanto seus filhos dormiam no sofá. Ava, a bebê de Kate, ao contrário das outras crianças estava bem acordada enquanto Jack a embalava nos braços tentando fazê-la dormir.
Ana estava com a cabeça encostada no ombro do marido quando o ouviu sussurrar em seu ouvido.
- Talvez seu avô esteja certo.
Ela ergueu o rosto para ele e piscou algumas vezes.
- Como assim?
- Quando ele disse que eu não pertenço aqui.
Ana arregalou os olhos e deu uma risadinha.
- James, sério que você ficou preocupado com isso?
- E eu não deveria estar?- ele retrucou. – Olha, Lu, muita coisa esquisita tem acontecido comigo desde que aquela caixa caiu na minha cabeça!
- Hey, você pode ter perdido um parafuso mas continua sendo o meu James!- ela falou acariciando os ombros dele. – Você sabe muito bem que o meu abuelo nunca foi seu fã, né? E agora com a idade ele vai se tornar cada vez mais anti-James.
- E por que ele não gosta de mim?- perguntou Sawyer, curioso.
- James, por acaso você já se esqueceu do Raul?
- Raul?
- Sim, o homem com quem meu abuelo queria que eu me casasse. RRRau-l.- ela exagerou nos erres de propósito. – Esse era o homem que meu avô queria pra mim, mas aí apareceu você...
- Feliz Natal!- disse Kate, empolgada abraçando aos dois.
- Feliz Natal!- respondeu Ana-Lucia se virando para abraçá-la.
Sawyer olhou no relógio e viu que os ponteiros indicavam meia-noite. Foi nesse momento que ele sentiu uma forte dor de cabeça, fechou os olhos colocando os dedos indicadores sob as têmporas e quando os abriu deu de cara com Hurley olhando para ele, preocupado. O sol estava a pino e ele suava em bicas.
Continua...
