Escarlate: roupas de segunda mão

Capítulo 10
Tatuagem


Já era três de janeiro quando Ginevra viu seu funcionário pela primeira vez no ano. Havia ficado feliz com o sumiço do bruxo? Não. Seu ano acabara do jeito que esperava? Não também. Deixaria aquilo transparecer? Não, definitivamente.

"Feliz ano novo!" O sorriso era forçado demais, a voz era feliz demais, e ela mal conseguiu fazer contato com os olhos claros que praticamente a reverenciaram antes de sumirem na última noite do ano passado. Ginevra não dava a mínima naquele minuto, fazendo questão de prestar muito mais atenção no livro que fingia ler do que no bruxo que entrava pela porta.

Queria manda-lo enfiar os desejos de um bom ano novo no meio do cu, e não se sentiu nem um pouco culpada por todos os palavrões que agora faziam parte de seu repertório mental. Eles estavam se divertindo, ela sabia que estavam. Não o havia obrigado a ir com ela, Draco era já bem grande para dizer não - ele sempre dizia não quando não queria algo.

O problema era que, ultimamente, ele parecia estar querendo coisas demais com ela.

"Ginevra?" Quase saltou quando sentiu a mão quente tocar seu braço - quando que aquelas mãos ficaram tão mais quentes do que seu corpo?

"Eu sei, preciso devolver sua jaqueta, amanhã eu trago." respondeu a primeira coisa que pensou que ele poderia ter perguntado, não conseguindo mais evitar os olhos cinzas. Por que ele parecia tão frustrado quanto ela? Ele tão não tinha direito de sentir-se assim. Ele havia falado demais, feito demais, e então, simplesmente-

"Perguntei se você pode fechar hoje."

Doeu pensar que o primeiro beijo do novo ano não fora com ela - por opção dele.

"Quer dizer que a festa de ano novo rendeu?" Ficou muito orgulhosa de si por conseguir não ficar vermelha após sua pergunta. Ficou mais orgulhosa ainda por continuar, a voz não parecendo em nada raivosa. "Deve ter rendido, já que você desapareceu. Ainda tem batom no seu pescoço." Não se sentiria tão vitoriosa se visse que o rosto não combinava em nada com a voz, Ginevra forçando-se a não tremer ao ver a tinta vermelha contra a pele pálida.

Eles eram amigos, ela precisava se lembrar daquilo. Não eram nem mesmo melhores amigos, e qualquer relacionamento que havia entre os dois provavelmente acabaria assim que o contrato fosse finalizado, a pena cumprida.

Mas então por que o bruxo fizera o que fez naquela noite? Por que seu rosto ainda queimava como tatuagem no local onde a mão do desgraçado descansara por apenas segundos? Ainda conseguia sentir o toque se fechasse os olhos, e seu coração também sentia, e apenas o pensamento o fazia acelerar.

"Eu também tenho um encontro hoje à noite," Contou a verdade, não se importando em observar a reação do funcionário ao saber. "É um dos amigos do dono da festa. Denis me apresentou assim que você sumiu." Por um momento, se perguntou se deveria revelar que sim, ganhara do quase estranho o primeiro beijo de ano novo.

Virou a página, tentando outra vez arranjar um bom motivo para Draco ter ficado tão, tão perto, e simplesmente desaparecer no segundo seguinte. O momento havia acontecido, não? Um copo de vinho não era o suficiente para deixa-la embriagada a ponto de imaginar coisas: ele havia sim a prensado contra a maldita parede e estava prestes a beija-la sim. E então sumiu, e minutos depois Ginevra deixou-se fechar os olhos e fantasiar sobre os lábios que estavam tão pertos enquanto beijava um homem que era o oposto do que desejava.

Sacudiu a cabeça, e fez-se lembrar do que dizia para si desde o dia primeiro: Draco só insinuou que poderia beija-la. E ele definitivamente a avisara que não conseguiria parar em apenas um beijo, e não que nunca mais conseguiria parar de beija-la. Coisas diferentes, ele havia sido até mesmo gentil em falar aquilo, porque uma transa casual com alguém que ela teria que ver todos os dias estava longe de ser o plano ideal.

Mais uma vez sentiu o calor do bruxo quando outra vez este chegou tão perto, mas conseguiu evitar olha-lo ao sentir algo gelado ser posto em suas mãos.

"Seu presente de Natal." Ao abrir a mão, viu que segurava um pingente verde preso em um longo colar de prata. "Coloque." Ficou irritada por um momento com o tom de voz autoritário, mas a urgência que sentiu no pedido-ordem junto da felicidade ridícula de estar ganhando algo justo dele a fez por o colar sobre a blusa que usava sem um segundo pensamento. "Me prometa que vai usar."

O que?

"Ginevra, só me prometa que vai usar."

"Claro que eu vou usar, esse é o colar mais lindo que já vi!" Saiu dos lábios antes que pudesse se controlar. Era verdade, aquele tom de verde era maravilhoso, sendo quase tão bonito quanto o âmbar que carregava no pescoço desde o ano passado. "Mas por que você-"

"Só um dia, não discuta comigo e faça o que eu te peço."

Ela concordou com aquilo sem mais questiona-lo: só precisava parar de encarar aqueles olhos azuis claros.

Não trocaram mais nenhuma palavra naquela manhã, muito menos almoçaram juntos - o que havia se tornado um hábito no ano anterior -, Draco deixando o brechó antes das quatro da tarde.


Esse lugar é tão chique, nem sei com qual garfo me matar. Foi a mensagem que viu assim que pisou fora do estabelecimento trouxa, mandada a exatos vinte minutos atrás pela pessoa que mal o olhou na cara naquela manhã.

Por que inferno aquela bruxa estava lhe mandando mensagens depois da merda de dia que dividiram?

Era tão frustrante. Talvez nunca em sua vida se sentira tão frustrado. Quando parava para pensar naquilo, como fizera naquelas últimas cinco horas que passara sentado, perdido em seus malditos pensamentos, queria sim ter escolhido Azkaban. O que era melhor, afinal? A prisão, ou olhar todo dia para algo que ele queria tanto e não poderia se deixar ter?

Porque era injusto, e a vida já fora injusta demais com aquela bruxa - havia sido com uma grande parte dos bruxos naquela última década. Sim, a vida havia sido também bem injusta com ele, mas Draco conseguia controlar o suficiente suas emoções para não deixar tais tão transparentes. Ginevra mal conseguia controlar a decepção quando comia o último pedaço de chocolate.

Ele sabia que se a tivesse beijado naquela noite, ela retribuiria bem até demais. Estava estampado na cara daquela maldita, desde a hora que batera em sua porta, minutos antes das dez. Era óbvio quando Draco a viu se virar ao ver uma loira se jogar nos braços dele, tão incomodada quanto o bruxo ficaria se o contrário acontecesse. Mais claro do que nunca no momento em que a encostara na parede, quando ela o deixou se aproximar, quando o puxou para si.

Ginevra nunca conseguiria suportar o peso que havia em seu antebraço, a marca que Draco tentava esconder de todas as formas.

Achei que estivesse num encontro. Respondeu, só depois de clicar em enviar pensando que o melhor que poderia ter feito era ignorar.

Eu estou.

Guardou o celular no bolso, tomando mais um gole da garrafa que segurava na mão direita. Whisky direto do gargalo numa sexta à noite, como ele chegara nesse ponto? Nem deveria estar bebendo, ao menos era o que o trouxa havia lhe falado. Mas então, ele bebeu durante três das cinco horas, e o homem não fez questão de levar embora seu álcool.

Incrível como quando você não quer encontrar uma pessoa, o destino parece te colocar na frente dela de propósito. Ali estava o filho da puta do destino, esfregando em sua cara uma ruiva que sentava em frente à um homem que ele não fazia ideia de quem era - mas em nada aquilo o acalmara. Era um restaurante trouxa, no entanto Draco conseguia sentir que era um bruxo que sentava-se na frente de Ginevra. Sempre achou engraçado como os trouxas não conseguiam ver aquela diferença sutil.

Não se atreveu a passar pela frente do restaurante, sabendo que com sua atual sorte, a bruxa sem dúvida o veria, e a chance dela fazer algo estúpido era sempre tão grande. Desviou, entrando numa ruela que nem mesmo consideraria pisar em sua atual situação se estivesse sóbrio - mas então, o que poderia acontecer de errado com ele em um bairro trouxa?

Já estava na metade do caminho quando apoiou a garrafa no chão, finalmente resolvendo por vestir novamente seu casaco, quando a vida o fez lembrar que nunca era bom se perguntar aquelas coisas. O que poderia acontecer de errado afinal, em uma ruela escura, com ele depois de beber meia garrafa de whisky e não podendo usar magia?

"Malfoy." A voz era familiar - era coincidência demais. "Já faz um tempo que não te vejo, um ano? Dois?"

Incrível como quando você não quer encontrar uma pessoa, o destino parece te colocar na frente dela de propósito. Duas vezes, na mesma noite.

Ele viu três sombras antes de ir para o chão.


Se Draco já estava bêbado antes da surra, a garrafa de whisky que acabava de terminar fazia um bom trabalho de deixa-lo insensível o suficiente para não sentir seu rosto. Merda, haviam feito um bom trabalho chutando sua cara, e sentia que o trabalho fora tão bom quanto em suas costelas. E só havia a merda de um remédio trouxa no seu apartamento - deveria ter ido para os Zabini, ao invés de estar tentando se manter de pé na frente de sua porta enquanto chegava a conclusão que deixara sua chave cair.

Do olho que ainda mantinha aberto, conseguia ver que tinha sangue demais no chão. Inferno, era por isso que ainda estava sentindo seu nariz - acabaria com o mesmo torto de seu padrinho após a noite de hoje. Será que Severo havia algum dia apanhado daquele jeito?

"Malfoy, você está fedendo a álcool!" escutou a voz que era a mais provável de aparecer por ali, ainda assim a última que gostaria de ouvir. Quase riu: Malfoy, ela estava realmente brava com ele.

Aquele começo de ano definitivamente não estava sendo de todos os seus o dos melhores.

"Provavelmente porque eu bebi uma garrafa inteira de whisky." Sabia que a voz que saíra com certeza soara melhor em sua cabeça do que de fato a ouvida pela ruiva. Tirou a mão do bolso, usando ambas para continuar a se manter de pé: ela provavelmente entraria batendo a porta no segundo seguinte, e ele finalmente poderia deixar-se cair e dormir contra a parede até sua sobriedade voltar o suficiente par arrombar a porta.

"Decepcionado porque me chamaram para sair antes de você?"

Com a sorte que andava tendo, Draco deveria ter considerado que a bruxa não iria entrar. Sentiu uma mão em seu braço esquerdo e não conseguiu evitar o gemido - tudo doía naquele momento, especialmente a merda de seu braço. No instante seguinte a mão ia para seu rosto, a delicadeza do toque contando para ele que Ginevra tinha conhecimento do estado deplorável em que o loiro se encontrava.

"Oh Merlin-"

"Não é nada." Forçou-se a abrir outra vez os olhos: ela parecia muito mais preocupada do que deveria. Ele estava tão mal assim?

"Seu rosto-"

"Está tudo bem, Escarlate." Teria caído se Ginevra não o tivesse segurado, e sentiu-se envergonhado ao ver o sangue manchando a blusa amarela.

"É óbvio que não está! O que houve?" A mão continuava em seu rosto, o toque tão suave que Draco mal sentia os dedos indo de seu lábio aberto para seu nariz, então para o corte bem em cima de seu olho direito, e o galo que parecia estar se formando logo acima. "Ok, a gente precisa curar isso aqui, está sangrando demais." Conseguia sentir o nervosismo que havia ali ao ouvir a voz trêmula. "Você precisa de um hospital-"

"Não!" Quase levou os dois ao chão. "Sem hospitais, Ginevra-" A última coisa que precisava era virar manchete na merda do Profeta Diário depois de ir para um hospital - especialmente chegando com aquela bruxa.

"Seu nariz está quebrado!" Ela quase gritava, a mão que antes o tocava com delicadeza agora revirando sua jaqueta. "Você está com o supercílio aberto e-"

"E eu vou ficar bem. Eu nem estou sentindo dor." mentiu, sentindo a mão livre da ruiva indo da jaqueta para os bolsos de seu jeans. Tão ridícula aquela cena: tudo que ele mais queria acontecendo por ter sido um idiota descuidado. "Procurando alguma coisa ou você só quer passar a mão em mim?" Era óbvio o que ela estava tentando achar, até mesmo para seu cérebro embriagado.

"Cadê suas chaves?" Sentiu a mão desistindo, vendo-a ir de seus bolsos para a bolsa que a ruiva agora mal conseguia manter equilibrada em seu ombro. "Que inferno, Draco. Alohomora!"

E a porta foi destrancada.

Sentiu-se apenas mais estúpido por esquecer que conseguia fazer aquilo, por mais que não estivesse em posse de sua varinha. Pensou em responder tal, mas no segundo seguinte era arrastado para dentro de seu apartamento, Ginevra não se importando com o horário e batendo a porta atrás dos dois. O barulho fez seu cérebro doer - era possível sentir dor no cérebro?

"Senta." Conseguia escutar a irritação na voz, aquela mesma mascarada que escutara pela manhã.

"Você está brava. Desde o começo do dia." disse assim que foi forçado no sofá, apoiando suas costas assim que sentiu o almofadado. Ao menos o móvel era preto, pensava enquanto sentia mais sangue escorrer. "Eu gosto das bravas. Especialmente das que tem uma boca suja como a sua."

Só abriu os olhos novamente quando sentiu um pano úmido sendo passado na sua bochecha, a ruiva provavelmente tentando limpar o rosto pálido para ver a gravidade da situação. Era ruim, ele imaginava que era ruim e sabia que estava perdendo mais sangue do que deveria pelo nariz quebrado, mas tinha quase certeza de que não precisava de um medibruxo para sobreviver.

"O que houve?" Talvez precisasse para não ficar deformado e com dor por dias, mas não para sobreviver.

"Como foi seu encontro?" A resposta foi automática - e foi o que bastou para a ruiva perder totalmente a paciência, o pano molhado não sendo tão delicado ao passar mais uma vez pelo seu lábio inferior.

"Não!" Quando enfim conseguiu manter os dois olhos abertos, a intensidade com a qual Ginevra o olhava foi o suficiente para faze-lo ficar minimamente sóbrio. "Por que você nunca pode ser sincero comigo?" A bruxa estava frustrada a ponto de ter lágrimas nos olhos, que ele não sabia ao certo se era pela irritação ou pela preocupação em vê-lo praticamente desfigurado. "Para de desviar o assunto e me conta o que aconteceu com você!"

E aquele grau de sobriedade o fez sentir cada maldita célula de seu corpo. Ele mesmo sentiu lágrimas que queriam sair de seus olhos, olhos que não deixaram de focar nos dela por nenhum segundo durante tudo que a enorme quantidade de whisky o fazia falar.

"Mas eu já te disse!" Fungou, péssima ideia para sua situação, e acabou cuspindo sangue na manga da jaqueta que usava. "Eu te disse inúmeras vezes! Tem muita gente que me odeia no mundo mágico, e é isso que aconteceu!" Se afastou do pano que a ruiva segurava, com raiva: a última coisa que queria estava acontecendo. Ali estava ele, sangrando e derrotado, desabafando tudo que sentia para uma Weasley - a sua maldita Weasley. "Eu sou - fui - um comensal! Eu tenho a marca, todos reconhecem o meu rosto, e nem sempre-" Respirou, enxugando com mais força do que o necessário os olhos molhados, se arrependendo do ato no mesmo segundo. Ao menos poderia dizer que eram lágrimas de dor - física. "E isso é muito mais comum do que você imagina para o meu tipo de gente."

Engoliu mais sangue, a boca tomada pelo gosto metálico, e por mais que a dor física já beirasse o insuportável, tudo piorou quando viu os olhos cheios de lágrimas da sardenta. Ele precisava se recompor, pensou desviando os olhos para o chão. Mas era tão difícil voltar a não sentir quando já sentia tanto.

"Porra, você precisava aparecer e me fazer ficar sóbrio justo hoje? De todos os dias que você poderia escolher-"

Ao menos dor física era melhor do que sentia dentro do peito. Colocou a mão no nariz, e antes que a ruiva pudesse pará-lo, realinhou-o o quanto pôde - e o máximo que a dor deixou. Aquilo, claro, não melhorara em nada o sangramento.

Não lutou mais quando as mãos pequenas seguraram as suas, uma coleção de xingamentos seguindo o gesto.

"Inclina a cabeça pra frente." Mais uma vez sentiu um pano contra o rosto, a ruiva apertando-o mais do que ele considerava confortável naquele momento. "Preciso parar esse sangramento. Eu já quebrei o nariz no Quadribol, então não me olhe assim: eu sei o que estou fazendo. Dói?"

"Pra caralho." Colocou a mão no corte que havia logo sobre o olho direito, tentando focar qualquer energia para deixar o corte pelo menos um pouco melhor. Desistiu segundos depois. "Eu não vou conseguir fechar isso agora." Mais uma derrota. "Nem pense em tentar me curar," falou, assim que a viu com a mão dentro da bolsa. "Eu não estou bêbado o suficiente para esquecer o quanto você é péssima nisso."

"Você tem algum analgésico?"

"Só tem Advil." Se arrependeu ao rir do olhar confuso que viu, mas resistiu em levar a mão até o ponto que doía logo abaixo das costelas. "Remédio trouxa, se você não sabe. Eu não posso ter poções na casa, parte da pena."

A viu examinar mais alguns segundos seu rosto antes de levantar-se.

"Você vai precisar de pontos. Me dá um minuto." Encostou a cabeça no sofá e fechou os olhos assim que viu a ruiva saindo pela porta. Merda, mas que merda. Como conseguia acabar o dia daquele jeito, como conseguia ficar um dia sem-

Deve ter apagado por alguns poucos minutos, já que no segundo seguinte sentia uma mão cutuca-lo no ombro.

"Para parar o sangramento." Ginevra o fez beber o líquido azul de dentro de um frasco pequeno, e Draco nem mesmo pensou antes de aceitar, como fazia com tudo que a jovem o oferecia.

Tão, tão perigosa.

"Você sabe fazer isso?" Respirou fundo ao ver o kit de primeiros socorros sendo aberto.

"Com medo, trouxa?" ela provocou, o apelido que só mesmo ela teria coragem de usar com ele o fazendo sorrir. "Eu pensei em dar os pontos enquanto você dormia, mas é tão perto do seu olho-" a bruxa hesitou. "Draco-"

"Sem hospitais."

Ginevra pareceu enfim aceitar a derrota.

"Ok, isso que vou passar é um analgésico. É superficial, então-"

"Vai doer." Já tinha aceitado aquilo. "Me costura logo, Escarlate."

Quando o algodão com álcool chegou no corte, doeu muito mais do que ele estava esperando. Puta que pariu, os trouxas passam por aquilo toda vez que se cortam? Respirou fundo, a mão esquerda agarrando o braço do sofá, o braço queimando com a força que fazia ao contraí-lo. O analgésico que seguiu não ajudou em nada.

Lembrou-se de anos atrás, quando Potter lançara um Sectumsempra bem no meio de seu peito - a dor estava muito próxima da que o fez ficar uma semana no hospital da escola. As cicatrizes ainda estavam em seu peito - algumas nem toda a magia poderia curar. Tinha certeza que ganhara mais algumas marcas para sua coleção depois daquela noite.

"Pronto."

"Nem foi tão ruim." mentiu, sentindo-se mal ao ver as mãos sardentas cheias de sangue.

"Claro, eu sou ótima em curativos trouxas - olha o pai que eu tenho!" ela brincou, o cutucando de leve bem onde levara o último chute. Sabia que aquele ponto bem abaixo de suas costelas deveria estar roxo, assim como sabia que deveria ter resistido à dor que sentiu assim que a ruiva tentou ver o motivo que o havia feito se encolher. "Tira a camisa." ela tentou mais uma vez, os lábios retos. Até brava ele queria beijar aquela filha da mãe. "Tira a camisa ou eu arranco ela de você."

"Cuidado," sussurrou com um meio sorriso: ao menos a dor o fazia não perder tanto a cabeça ao lado dela. "Você não quer arrancar minhas roupas hoje." disse, mas a bruxa devolveu o sorriso, quase arrebentando os botões de sua camisa sem nem um pingo de vergonha.

Draco engoliu seco, desabotoando o último botão e tirando quase por completo as duas peças sujas de sangue, um silêncio desconfortável surgindo entre os dois. Pelo menos não parecia haver nada ruim o suficiente para a ruiva arregalar os olhos.

"Vejo que os anos de Quadribol renderam." foi o comentário que veio enquanto ele a observava o observar.

As mãos passaram brevemente pelas três enormes cicatrizes que ele carregava no peito, foram para o ponto que lhe fizera perder a camisa e então para suas costas, onde estavam demorando mais. Sentiu alívio ao ouvir a próxima frase.

"É só um arranhão, não precisa de pontos." Ginevra terminou aquele último curativo e levantou-se, e por um momento achou que a bruxa fosse enfim voltar para seu apartamento. O alívio dobrou quando ela continuou. "Vou pegar uma camiseta limpa pra você, ok?" Não deveria sentir alívio por aquilo, pensou ao segura-la pelo pulso. "O que foi?"

"Pega duas." Não estava exatamente confortável em ver tanto sangue exatamente em cima de onde ficava justo o coração da bruxa. "Eu te sujei inteira."

Os sorrisos que Ginevra lhe davam tinham o poder de aquece-lo por dentro: era irritante e ao mesmo tempo maravilhoso. Encostou-se outra vez no sofá depois de falar que as camisetas ficavam na segunda porta do armário, não esperando ouvir a risada que veio segundos depois, muito menos a pergunta feita assim que a ruiva apareceu pela porta, duas camisetas na mão.

"Você prefere: agite antes de usar, ou," Ela estava com as duas piores peças de roupa que haviam naquele armário. "Só vim pela comida?"

"Que fique claro que isso é obra do idiota que chamo de irmão." Xingava Zabini mentalmente, antes da ruiva arremessar a camiseta verde e ele a pegar com perfeição.

"Agite antes de usar para você." Sim, abençoados os anos de Quadribol, pensou quando seus olhos viram de relance as costas da ruiva, e graças a Merlin por todo álcool que consumira, pois tinha certeza que só havia cabelo cobrindo a pele cheia de sardas.

"Escarlate, se você só veio pela comida justo hoje, vai sair daqui duplamente decepcionada." Não conseguiu evitar a frase, agradecendo pela primeira vez por apenas sua mente estar respondendo a aquela visão.

A filha da mãe conseguia ficar adorável até naquele azul.

"Não é o que a população feminina de Hogwarts fofocava pelos corredores." ela respondeu, sentando-se outra vez no lugar que antes ocupava, a camiseta grande demais naquele corpo, tão pequeno comparado ao dele.

"Quer matar a curiosidade outro dia?" Se divertiu ao ver Ginevra sacudir a cabeça e revirar os olhos. "Posso te mostrar tudo que rendeu com o passar dos anos."

"E eu teria ficado envergonhada ano passado, mas esse ano você vai ter que fazer melhor pra isso." A camiseta foi posta com cuidado, Draco finalmente se livrando do resto da camisa que ainda cobria seu braço esquerdo.

"Você não sabe o que está pedindo." disse, lembrando somente agora do motivo de ter tomado tanto cuidado em esconder o braço. Sentiu-se desconfortavelmente nu quando os olhos castanhos dobraram de tamanho, se achando tão idiota por esquecer do que carregava depois de ver aquelas costas sardentas totalmente descobertas. "É, está olhando para o motivo da surra." engoliu seco e se forçou a não recuar quando a mão correu seu braço, o toque até mais delicado do que quando cuidava de seu rosto.

"Draco-" Não conseguiu encará-la, e afundou as unhas na mão esquerda ao sentir que esta tremia. Ele nunca sentia-se confortável em ficar com os braços descobertos, ele não sentia-se confortável nem agora, nem depois de mais de cinco horas sentado numa cadeira dura.

"Parece que fechar meu braço esquerdo para tentar esconder a marca não foi visto com bons olhos." Ginevra não falou nada, mas o fez abrir a mão antes que pudesse outra vez cravar as unhas a ponto de arrancar sangue.

Bêbado, impotente, e completamente quebrado, em todos os sentidos da palavra, era como Draco se sentia após aquela maldita noite.

"Sabe cuidar disso?" Fez que sim, odiando quando ela continuou. "Então sabe que precisa deixar descoberto até cicatrizar, não sabe?" Estava prestes a responder que não faria aquilo, especialmente com ela, quando a bruxa soube melhor do que ele as palavras que viriam. "Draco, eu não me importo. Eu sei o que tem no seu braço, eu sei desde que você começou a trabalhar comigo. E tá tudo bem."

Ficou feliz pelo tempo que Ginevra lhe deu de enxugar os olhos pela segunda vez na noite, a bruxa se levantando e, pelo barulho que fazia, abrindo seu congelador.

Ela voltou com uma bolsa de gelo, pressionando-a com cuidado em uma das áreas mais doloridas de seu rosto.

"Como foi seu encontro?" Saiu antes que pudesse se conter, e resolveu culpar o resto de whisky que ainda havia em seu sangue.

"Chato demais para te manter acordado."

Acabaram os dois deitados no sofá, Ginevra encostada no acolchoado enquanto ele praticamente deitava-se nela. Ela ainda segurava o gelo em seu rosto, enquanto ele observava a saia comprida cair pela coxa da bruxa, mostrando uma sarda que mais parecia um coração. Era aquilo que fazia o seu bater rápido? Era a posição, mais íntima do que qualquer coisa que já dividira com uma mulher? O fato dele estar completamente despido na frente dela? Porque era assim que se sentia, por mais que ainda estivesse coberto por suas roupas.

"Quando eu saía com Astoria, nós dificilmente escolhíamos lugares públicos." Não conseguiu segurar mais a vontade de tocar naquela sarda, naquela pele. A acariciou com a ponta dos dedos, tão delicadamente quanto a ruiva o tratara por toda a noite, e foi recompensado com o menor dos gemidos. O álcool já não fazia mais efeito algum. "E quando íamos, eu me limitava aos menos conhecidos. Eu sabia que isso a incomodava. Foi só quando começamos a sair que eu realmente notei o quanto as coisas estavam diferentes. Muitos bruxos odeiam todos os comensais que foram listados, dava para saber pelo jeito que me olhavam." Pelas coisas que pensavam, completou mentalmente. "Foi com ela que eu descobri que não é fácil ser normal depois de tudo que aconteceu."

"Sabe quais são os melhores lugares?" Queria muito virar a cabeça para ver o que havia naqueles olhos castanhos agora, mas o gesto era tão, tão arriscado. "Os que vamos com boa companhia." Não conseguiria não beija-la se olhasse justo agora para aqueles lábios carnudos. "O lugar que fui hoje é o melhor italiano de Londres, mas já tive melhores memórias com a macarronada da minha mãe."

"Porque a comida da sua mãe é maravilhosa." confessou, lembrando-se do final de seu dia de Ação de Graças. "Minha mãe é tão boa na cozinha quanto você." Adorou a risada que seguiu.

"Trouxa." Adorou o apelido. "Por que você foi embora no ano novo?" Ginevra sempre conseguia fazê-lo detestar uma de três coisas.

Ele não podia se virar. Teve que fechar os olhos para manter sua cabeça organizada e fria o suficiente para ficar ali, fazendo apenas palavras saírem de sua boca ao invés de calar os dois.

"Eu acabei de te falar." Inconscientemente apertou a coxa que antes tocava, a mão que precisava fechar em algo para reunir forças escolhendo justo o que poderia lhe fazer perder o resto de seu pouco controle. "Eu acabei de te falar, Ginevra, por que você não me escuta?" Não iria se virar, ainda mais ouvindo o quão rápido o coração contra seu ouvido batia. "A coisa que eu mais queria era ter ficado no ano novo." O dele seguia no mesmo ritmo enquanto se deixava confessar seu maior desejo. "E a coisa que eu mais queria agora era continuar da onde eu parei."

Rezou para ela não fazer nada, não soltar nenhum som, não agir e fazer o que ele tinha tanto medo desde ano passado, pois ele retribuiria bem demais. De olhos fechados era até pior: o coração acelerado era ensurdecedor, e a pele macia contra sua mão direita o fazia querer retribuir todos os cuidados que recebera até agora. Só precisava subir seus dedos mais alguns centímetros, e só de imaginar aquilo sentiu o jeans apertado demais.

"Mas minha cabeça está girando, só consigo sentir gosto de sangue e tenho certeza que a melhor coisa que posso fazer é ir dormir." Ginevra merecia muito mais do que ele poderia oferecer hoje, se não sempre. Sabia daquilo, e sabia o quão errado seria deixar sua mão sumir debaixo daquela saia, por mais que tivesse total certeza do quanto a ruiva apreciaria aquela sua qualidade. "Então só hoje, me deixa parar de tomar decisões sem pensar um pouco nas consequências. Olha bem o que isso já me rendeu."

Pela primeira vez na vida, ficou feliz quando uma mão segurou a sua: graças a Merlin, uma decisão boa vinda da bruxa. Abriu os olhos, olhando para a mão, outra vez cheia de machucados. Como sempre o indicador era o que mais sofria: aquilo não poderia não estar dolorido.

"O que você está-" Antes que se desse conta, a segurou entre as suas, o que ele não conseguira fazer em si mesmo feito com perfeição nos dedos, já não mais vermelhos. Observou orgulhoso o resultado, levando a pele sardenta até seus lábio: ao menos uma coisa ele poderia beijar.

"Quantas vezes mais eu vou ter que curar a sua mão, Escarlate?" escutou-a fungar, e esperava que ela não estivesse prestes a chorar como ele estava minutos antes.

Mas não houveram lágrimas naquela noite. Houve Ginevra enfim retirando a bolsa de gelo e ligando a televisão, os dois ainda aconchegados juntos em cima das muitas almofadas que havia ali - Zabini estava tão certo em manda-lo arranjar um sofá confortável. Houve uma mão acariciando seus cabelos, que estavam provavelmente mais vermelhos do que platinados, mas nenhum dos dois mais parecia se importar. Houve ele, finalmente sentindo-se menos nu ao deixar seu antebraço tão exposto, deixando-se respirar gengibre enquanto descansava a cabeça no ombro sardento.

"Assim eu vou dormir."

"Pode dormir. Eu vou ficar com você."

Riu.

"Você vai passar a noite e eu nem arranquei sua roupa, isso é tão errado." brincou, falando a verdade.

"Eu arranquei a sua, trouxa." Riu outra vez, sentindo o arrepio da bruxa quando a respiração dele tocou outra vez seu pescoço. "Zabini me disse-"

"Por Salazar, esse realmente não é um bom começo de frase."

"Que você me ajudou em Hogwarts." tencionou, perguntando-se por um segundo se valeira por tudo a perder finalmente cedendo ao desejo de beijar aquele pescoço. Mas pela primeira vez, Ginevra deixou algo passar, e a ruiva derretendo em seus braços continuou apenas em seus pensamentos. "Eu não sei o que você fez, mas obrigada." Sentiu os lábios dela em sua testa. "Draco, você não precisa fazer tudo sozinho, aguentar tudo sozinho. Tudo bem ser vulnerável de vez em quando."

Riu pela terceira vez: só teria sido mais vulnerável aquela noite se tivesse ficado literalmente nu na frente da bruxa.

Quando acordou, Ginevra ainda o segurava nos braços.


Nota da autora: Gente, espero que vocês estejam gostando de ler do mesmo jeito que estou gostando de escrever! Cada capítulo faço com muito carinho, estou me apegando muito a essa história e nossa, era pra ter 12 capítulos e já passam dos 20 na minha cabeça.

Então espero que continuem por aqui, porque ainda vamos ter pelo menos mais...10? 12?

Mas o beijo vem, inevitavelmente, nos próximos 2. Ou 1. Ainda não sei, mas está praticamente feito!

Obrigada a todos que estão por aqui, e vou adorar ler o que acharam! Ótimo fds!

Beijão,

Ania.