NOTAS ESPECIAIS:

Normalmente eu não deixo notas aqui no FF . net, só no Nyah e Social, mas hj fiz uma exceção devido ao longo tempo sem atualização.

Esse capítulo foi literalmente gerado e parido... porque foram praticamente 9 meses de sofrimento para nascer hahaha
Eu simplesmente não conseguia escrever mesmo sabendo o que era pra fazer. Bloqueio total... ainda assim me neguei a escrever qualquer merda e só passar por cima tipo: e ta tudo resolvido... não se eu enfiei o Kiki na historia, então vamos abordar ele de maneira digna...nem que pra isso eu passe meses me revirando sem conseguir inspiração.
ok... o "apocalipse coronga" tbm tem culpa... Ele me desestabilizou de um jeito que só recentemente eu estou conseguindo voltar a escrever, afinal sobreviver a virus contagioso em país de 3° mundo com avó de 90 anos, pais sem renda e marido sendo o brigado a sair para trabalhar foi osso. Cheguei a pensar que a praga das inimiga tinha enfim pegado e eu de fato havia me tornado analfabeta, porque nem um B+A = BA saía.
Entretanto a fic nunca entrou em hiato, porque eu nunca parei de tentar escrever esse caralho uhuhhhMas explicações e desculpas a parte, ontem, no meu aniversário ( sim ontem, hj é domingo, meu aniversário foi sexta, mas eu não dormi ainda então é ontem) eu tive um surto de inspiração e consegui desencalhar, e desde então estou trabalhando nesse cap que era para ter 2000 palavras e tem quase 8000 pq sim, pq deus quis... e eu até podia perfeitamente dividir em dois, mas tanta espera merece algo digno.

Já deu de textão? Ainda tem leitores a espera do milagre da atualização? Então bora!
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O clima, que pairava denso como mormaço sobre o Templo de Áries, não poderia ser mais estranho. Sentados em volta da pequena mesa na cozinha estavam Mu, Shaka e Kiki no que mais parecia um interrogatório que se vê em filmes policiais. De um lado o inquisidor adolescente lançava um olhar inquisidor e afiado que exigia respostas e do outro os réus culpados sentados lado a lado. O ar era pesado e incômodo, nenhum dos três queria estar ali, porém não havia escapatória e era por isso que logo Mu, muito nervoso e jeito, começou a proferir palavras baixas e envergonhadas a fim de se explicar quebrando o silêncio constrangedor que reinava entre eles.

Com os braços cruzados diante do peito, o jovem Kiki, que não era mais uma criança e sim um rapazote consagrado como o Cavaleiro de Caelum, direcionava um olhar crítico e analítico aos dois Cavaleiros de Ouro seminus a sua frente, ouvindo calado toda sorte de desculpa e explicação sair dos lábios do mestre. Era nítida a vergonha de Mu, que só de cueca se encolhia, desviava os olhos e apertava os dedos enquanto tentava de maneira simples contar ao aprendiz, a qual considerava como um filho, all a reviravolta em seu antigo casamento e o surgimento do relacionamento atual. Porém os olhos lilases do rapaz ignoravam o mestre, pois estavam cravados na figura ao lado dele, Shaka de Virgem. O loiro permanecia impecável, com uma postura altiva de cabeça erguida e olhos fechados como se nada importante acontecia,

Apesar da expressão blasé Shaka estava aborrecido.

Aquela situação era demasiada humilhante, sabia que fora descuidado, afinal nem ele nem Mu se deram conta da presença do garoto em Áries. Sua culpa só era amenizada por conta da enorme familiaridade que existia entre os cosmos do mestre e do aprendiz, era muito difícil distingui-los devido aos muitos anos em que viveram juntos, além de serem ambos da mesma raça e signo, o próprio Templo de Áries também reconhecia Kiki como guardião e morador. Quiçá até mesmo a Armadura de Ouro responderia pelo chamado dos dois, embora essa hipótese nunca fora de fato testada.

O flagrante então fora inevitável? Talvez se ele não estivesse tão distraído engolindo a língua de Mu ...

Mas essa cena toda era necessária? Questionava-se o virginiano. Afinal Não era como se dois Cavaleiros de Ouro devessem quaisquer explicações a um rapazote de patente inferior que invadira um das casas zodiacais. Porém o Cosmos oscilante de Mu assim como suas palavras atrapalhadas devido ao visível nervosismo logo o fizera lembrar que aquele garoto, que lhe encarava com fogo nos olhos, era muito importante para o namorado, e era por isso, apenas por isso, que Virgem se mantinha ali passando por aquela situação vexatória ao lado dele.

A postura arrogante de Virgem não passou despercebida por Kiki. Ele ouvia as palavras do mestre lhe contando a historia toda como se fosse uma voz distante enquanto apertava os olhos, franzia a testa e muito irritado quase cravava como íris no rosto frio e sem emoções de Shaka.

Se o Santo de Virgem pudesse morrer queimado por um olhar carbonizado.

Após vários minutos de um verdadeiro monólogo Mu se calou ao terminar seu breve resumo de tudo. Muito aflito balançava os joelhos embaixo da mesa freneticamente a espera de qualquer reação ou resposta do garoto que olhava o tampo da mesa de cabeça baixa.

Após um longo silêncio Kiki finalmente se pronunciou falado tão baixo que sua voz mais parecia um sussurro.

- Isso é tudo, Mestre Mu? - finalmente mirou a face de Áries.

O peito do lemuriano mais velho se agitou daqueles olhar profundo que ele não detecta ler.

- Sim. Quer dizer, tem muitos detalhes para te explicar e precisar conversar melhor, mas resumidamente ... é isso! - Mu agora estalava os dedos das mãos e Shaka ao seu lado controlava-se para não avançar sobre ele fazendo-o parar - Sei que é um choque chegar em casa e descobrir tudo desse jeito ...

- Então ... O senhor Aldebaran obviamente não está em Touro ... - Kiki o interrompeu como se deixasse escapar um pensamento.

- Não. Como eu expliquei, ele atualmente está cumprindo a punição dada pela Deusa por conta de toda essa confusão, por isso foi para a prisão comum assim como eu fui no começo e ...

Mas mal Mu recomeçou a falar e foi interrompido por um tapa abrupto que Kiki deu na mesa pegando os dois homens mais velhos de surpresa. Logo em seguida o garoto se recebe bruscamente da cadeira com um rosto distorcida em uma carranca e rapidamente apanhou a caixa de pandora, que estava no chão ao seu lado, a colocando nas costas.

- Kiki ?! Você está bravo? - Mu indagou confuso pelas ações assim como pela expressão no rosto do aprendiz - Senta! Vamos conversar ... A onde você vai? Espera ...

Com a armadura nas costas, punhos serrados e cabeça baixa o jovem Cavaleiro de Caelum não respondeu, e seu mutismo só angustiava ainda mais o coração de Mu. No momento seguinte, ainda sem dizer nem uma palavra, Kiki lançamento um olhar de canto para o mestre, lhe deu as costas e desapareceu.

— Kiki! — Mu ainda chamou pelo aprendiz, que se desmaterializara diante de seus olhos, ao se levantar atarantado e estender a mão como se pudesse de alguma forma alcança-lo no vazio.

Então foi a vez de Áries de bater na mesa de forma barulhenta.

— Droga! Mas que merda! Não era assim que queria que ele soubesse... Inferno! — falava e batia na mesa repetidas vezes — Por que, pelos deuses, por que ele tinha que voltar justo hoje e me pegar quase pelado aos beijos com outro homem na cozinha?! Mas que Samsara do caralho!

Inconformado, Áries não parava de reclamar, xingar e resmungar enquanto esfregava o rosto levando os dedos longos a raiz dos cabelos para puxa-los nervoso.

Shaka, que até o momento permanecia sentado e imóvel como uma estátua, levantou-se aparentando imensa calma e tranquilidade. Apesar de não estar tão abalado quanto o namorado, o virginiano sentia-se bastante aborrecido com o incidente, principalmente pela maneira petulante como aquele adolescente abusado lhe olhara o tempo todo. Porém não era hora de pensar nisso, pois o ariano ao seu lado já estava agitado além do necessário, por isso respirou fundo, manteve a pose e tocou no ombro dele com gentileza calculada.

— Ei, não adianta se exaltar assim praguejando e culpando a roda do destino por conta de um descuido nosso. Também me sinto desconfortável pela maneira humilhante como nosso relacionamento foi descoberto pelo garoto, mas o que aconteceu estava fora de nosso controle. Agora que ele já sabe de tudo cabe a nós guiarmos a situação da melhor maneira possível. — disse com voz suave apertando ligeiramente os dedos no ombro dele — Tente se acalmar um pouco.

O rosto do ariano se voltou pra o namorado no mesmo instante o mirando com os olhos esbugalhados de indignação.

— Me calmar? Não fale bobagens. Foi um desastre, Shaka! Não tem "melhor maneira" para resolver isso! Reparou em como ele olhava para nós? Nunca vi aquele olhar antes, e depois... Ele foi embora! Se teleportou sem dizer quase nada... Se ele tivesse brigado comigo, chutado a sua canela, gritado ou feito birra... Mas isso? Essa reação é tão... O Kiki não é assim! — deu um suspiro cansado — Eu vou atrás dele.

Dito isso Áries não perdeu tempo e caminhou apressado em direção ao quarto sendo seguido por Virgem. No quarto o lemuriano apanhava as roupas tentando as vestir o mais rápido possível ansioso demais para conseguir executar a tarefa como se devia.

— Mu! — Virgem o chamou quando ele terminou de fechar o botão da calça jeans, que vestiu de qualquer jeito, e corria para apanhar a primeira camiseta que encontrou no armário — Espera! Não vá ainda.

— Como assim "não vá"?! Claro que eu vou atrás dele, não posso deixar isso assim.

— Eu sei, mas espere um pouco. Não percebe? Kiki teve a mesma reação que você teve quando pegou Touro te traindo: fugir. — Shaka disse apanhando a camiseta da mão dele e o fazendo se sentar na cama ao seu lado — Ele está assustado, confuso e se sente traído de alguma forma. Dê tempo para que ele processe tudo o que aconteceu.

— Você não compreende, Shaka! Não consigo apenas ficar parado. Ele é meu aprendiz, eu... eu... — Mu se calou engolindo a voz embargada e escondeu o rosto com as mãos ocultando os olhos que ameaçavam marejar — Eu amo Kiki. Ele é mais do que um discípulo para mim, ele é meu filho! O amo como se fosse seu verdadeiro pai.

— Eu sei Mu. Acredite, eu entendo o laço de vocês perfeitamente.

O Virginiano tentava acalmar Áries, que nervoso não percebia estar encarando a situação pior do que realmente era.

— Então se entende, coloque-se no meu lugar! — disse Mu — Eu não o vejo ha muito tempo... E quando ele volta, acontece todo esse desastre! Agora foi embora de novo, só que dessa vez bravo e magoado comigo.

— Mu, olhe para mim!

Shaka pediu sério apanhando o rosto do homem que amava com as mãos e o trazendo para perto do seu. Logo um olhar profundo e cumplice foi trocado entre eles.

— Entenda uma coisa. As coisas não são tão graves quanto parecem. — beijou suavemente os lábios de Mu — E mais, não é com você que Kiki está bravo, meu amor.

— O que você quer dizer?

— Exatamente o que eu disse. Não era para você que ele estava olhando o tempo todo na cozinha. Eu sei que está angustiado e quer ir atrás do menino, mas confie em mim. Kiki tem assuntos a resolver nesse exato momento e não é com o mestre dele, deixe-o ir e aguarde o momento certo para agir. Logo ele vai precisar de você.

Após abandonar o Templo de Áries de maneira tão abrupta, no instante seguinte Kiki aparecera feito mágica nos arredores da prisão. Já era madrugada, portando a escuridão da noite ajudou o jovem Cavaleiro de Bronze a se esgueirar próximo as celas enquanto procurava em todas elas pela presença característica de um Cosmos em especial.

Não foi difícil. Logo Kiki estava parado encarando, pelo lado de fora, a cela do Cavaleiro de Touro.

Ofegante e controlando as lágrimas de frustração que começavam a se acumular no canto de seus olhos, apertava os punhos enquanto olhava as grades da janela no alto da parede.

Era mentira! Só podia ser mentira! — pensava atordoado e em negação. Todo esse papo de traição era um absurdo. Aldebaran nunca faria tal coisa com Mestre Mu, deveria que existir outro motivo que não aquele. O Cavaleiro de Touro amava seu mestre e o amava também.

Lutando contra a dor em seu peito, o garoto inconscientemente lembrou-se do quão terrível foi o luto por Mu e pelos outros Cavaleiros de Ouro que morreram na batalha contra Hades. Naqueles dias sofrera uma dor imensurável ainda muito jovem para lidar com ela corretamente. Foi só quando já estava conformado com a perda dolorosa que aconteceu o milagre da ressurreição e do reencontro. Com uma nova chance de vida seu mestre retornara, e em pouco tempo Kiki não apenas recuperou a figura paterna perdida, como ganhou outra ao formarem junto de Aldebaran uma família "de verdade" oficializada pelo casamento entre o mestre e o brasileiro.

Fora um tempo de pura felicidade para si, onde suas feridas foram curadas com muita alegria e carinho. Mestre Mu estava de volta e agora ainda havia aquele homem enorme e sorridente sempre junto deles. Adorava verdadeiramente o bom humor de Touro e a forma cativante com o qual ele lidava consigo, repleto de amor e carinho.

Portanto Kiki não entendia nada.

Se Mu era como seu "verdadeiro pai", o brasileiro era como um segundo pai que ele adotara rapidamente.

Então por que de repente sua família acabou?! Assim, sem aviso! Sem mais e nem menos.

Ele passa algum tempo fora se dedicando ao treinamento e quando volta cheio de saudades para ver os pais o que encontra? Um branquelo, metido e enjoado agarrando obscenamente um deles em Áries, enquanto o outro está na prisão!

Grande maneira de receber a notícia do divórcio.

Kiki mal conseguira absorver informação e Mu viera com a historia de traição, brigas e prisão, afirmando inclusive que já tinha até um novo namorado pelo qual estava apaixonado.

Definitivamente era muito para absorver. Sua cabeça fervia prestes a explodir.

Que porra era essa?! Como uma merda desse tamanho poderia acontecer? Estava tudo errado! Quanto tempo passara fora para tudo virar uma bagunça e sua família ser destruída? Toda aquela explicação absurda que acabara de ouvir só podia ser mentira! Sim, só podia ser algum engodo, alucinação ou ilusão. Não que Kiki pensasse que Mu mentira para si, entretanto não conseguia acreditar que Aldebaran realmente traíra seu mestre e deveria ter alguma outra explicação mirabolante para tudo isso.

Por mais que estivesse em clara negação, a bem da verdade é que no fundo se sentira traído também. Era por isso que estava ali, encarando a janela gradeada pronto para tirar tudo a limpo.

Não tardou par que do lado de dentro a presença do Cosmos agitado do garoto fosse sentira por Touro.

— Kiki?!

Assustado, Aldebaran que não conseguira dormir ainda apesar de ser madrugada, se levantou de pronto e correu em direção a janela para olhar para fora. Qual não foi sua surpresa ao dar de cara com o olhar furioso do menino que, de braços e pernas cruzadas, pairava flutuando sobre a caixa de pandora no chão, ficando na altura certa para ver dentro da cela através grades.

— Kiki, meu garoto! — Aldebaran murmurou com os olhos jabuticabas arregalados ao agarrar o metal frio com as mãos enormes. Nem era preciso adivinhar, estava estampado na cara de Kiki que ele já sabia de tudo — Você já voltou?! O que faz aqui? — perguntou nervoso sem saber o que dizer.

— É verdade? — Kiki ignorou as perguntas obvias demais para merecerem respostas e indagou imediatamente o taurino com postura firme e os olhos lilases injetados de fúria e mágoa.

— Kiki...

— Me responda senhor Aldebaran! — a voz que saia pelos lábios trêmulos já não era mais tão firme — O que o mestre Mu acabou de me contar... É verdade?

Olhando a figura chorosa do menino Aldebaran não conseguiu falar nada. Não esperava ter que lidar com Kiki tão pronto e muito menos daquela maneira: por detrás das grades da prisão. O remorso duplicou o notar que além de Mu, magoara também a ele, e isso fez seu coração doer a tal ponto que as palavras sumiram mergulhadas em sua tristeza. A traição trazia consequências que jamais imaginou ter que lidar. Em silêncio o taurino apertou ainda mais as grades com as enormes mãos e encostou a testa nelas fechando os olhos por um instante.

— Olhe pra mim! — Kiki ficou ainda mais alterado — Senhor Aldebaran, olhe para mim e me fale a verdade! O senhor traiu o mestre Mu?

Touro não teve mais escolha se não abrir os olhos e responder a tão terrível pergunta.

— Sim! É verdade. — murmurou profundamente envergonhado.

Nesse momento as lágrimas finalmente irromperam abundantes pelos olhos de Kiki e foram acompanhadas por uma única solitária que escorreu silenciosa pela face de Aldebaran.

Diante da confirmação do Cavaleiro de Touro, o jovem lemuriano perdeu completamente toda a compostura, que lutava bravamente para manter, e caiu em um pranto ruidoso e sofrido fazendo todo seu corpo tremer e balançar no ar de forma irregular. Em um repentino acesso de ira, ele avançou flutuando ate a grade e tentou furiosamente estapear o brasileiro através das barras de metal.

— Você é um idiota! Idiota! Idiota! — repetiu diversas vezes enquanto esbofeteava o taurino onde conseguisse. Este pouco fez para desviar dos golpes que mais lhe doíam no orgulho do que na pele — Você estragou tudo seu babaca idiota! Canalha! Porque fez isso com ele? Com a gente? Seu mentiroso! MENTIROSO!

— Kiki... Me desculpa... Eu sei. Eu sou um imbecil... Eu sei. — Aldebaran murmurava baixinho a cada nova acusação do menino enquanto desviva como podia dos tapas distribuídos em alta velocidade — Pode ficar com raiva. Eu mereço, mas não duvide de mim... Meu amor por vocês não é mentira.

— É MENTIRA SIM! Quem ama não trai! Você enganou ele e mentiu... Tava mentindo pra mim também?

— Não! Pela deusa! Não! Acredita em mim Kiki. — Touro se desesperou e imediatamente estendeu as mãos através da grade para tentar tocar no menino, que percebendo a intenção dele imediatamente se esquivou flutuando para longe de seu alcance — Eu errei sim, errei feio e estou pagando por esse erro, mas isso não tem nada haver com você, Kiki. Meus sentimentos são verdadeiros, eu realmente amo o seu mestre e amo você também! Nesses anos juntos você se tornou como um filho pra mim.

— Então porque estragou tudo, senhor Aldebaran? Eu achei que finalmente eu tinha uma família... Mas era mentira, porque agora acabou. Eu não queria isso! — Kiki soluçava inconformado, com o rosto todo molhado de lágrimas e ranho.

— Kiki, eu também não queria isso...

— Então por que fez o que fez?! Eu não acredito em você!

— Nem eu sei porque eu fiz o que fiz... Mas o que aconteceu não muda nada entre a gente. — era possível sentir o desespero na voz de Aldebaran — Ainda somos família.

— Como? Vocês se divorciaram e não tem mais volta porque o que o senhor fez não tem perdão. Diz pra mim, como vai ser agora?! Eu quero que tudo volte ao normal, mas não tem como! Por sua culpa tem um loiro pelado metido a besta lá em Áries se achando o dono da porra toda, enquanto o senhor tá aqui preso nessa merda. VOCÊ ESTRAGOU TUDO TOURO IDIOTA! — Kiki gritou com todas as forças — ESTÁ TUDO ERRADO E A CULPA É TODA SUA! EU TE ODEIO!

Os berros do jovem lemuriano foram tão altos que até os detentos em celas distantes puderam ouvir, assim como também atraiu a atenção dos guardas. Percebendo o erro, Kiki rapidamente levitou de volta ao chão, apanhou a caixa de pandora e foi embora, teleportando-se dali antes que fosse pego. Deixou para trás um taurino com o coração de pai completamente em pedaços.

Em Áries, já devidamente vestidos e sentados lado a lado no sofá da sala, Mu tentava se acalmar conversando com Shaka enquanto bebia o chá de camomila que o virginiano lhe preparada momentos antes. Levava a bebida quente aos lábios para terminar de tomar o restinho quando sentiu o chamado urgente do Cosmos de Touro.

"Mu! Mu!"

O contato abrupto lhe assustara tanto que Áries só não derrubou a xícara no chão porque Shaka teve um reflexo mais rápido e a apanhou no ar impedindo que o líquido se derramasse e que a porcelana se partisse.

"Aldebaran?! O que foi? É sobre Kiki?" — aflito Áries respondeu imediatamente apertando as mãos, agora vazias, contra o peito. Suspeitava o motivo de tal contato aquela hora da madrugada.

Ao seu lado, Virgem colocou a xícara na mesa de centro notando que o namorado estava um pouco desconsertado e evitava seu olhar, afinal aquela reação exagerada de Mu a um simples chamado por Cosmos era um sinal visível de que seu emocional estava deliberadamente interferindo em suas habilidades e reflexos como Cavaleiro.

"É Sim." — logo a resposta de Touro foi ouvida.

"Kiki foi aí te ver? Ele está com você? Eu senti o Cosmos dele se agitar agora a pouco".

"É por isso que estou te contatando. Ele veio me ver sim, mas não está mais comigo. Nosso encontro foi muito ruim. Eu não sei o que aconteceu aí, como foi a conversa entre vocês, mas ele estava muito alterado..." — Aldebaran tentava ignorar o significado das palavras "loiro pelado em Áries" — "Ele chorou muito, eu tentei falar com ele, explicar as coisas e pedir perdão, mas parece que só piorei tudo. Nunca vi ele assim".

"Pelos deuses!" — Aflito Mu apertou o peito com uma mão e buscou a mão de Shaka, que ao seu lado acompanhava toda a conversa em silêncio, com a outra.

"Eu estou tão preocupado. Estou preso aqui e não sei o que fazer, por isso te chamei".

"Droga! Eu sabia que ele não reagiu bem e que estava se segurando na minha frente, mas não pensei que fosse tanto" — Mu suspirou.

"Mu, estou preocupado. Sabe que não posso sair da cela... Mas não vou nem conseguir deitar com esse aperto no peito. Não importa o que aconteceu entre eu e você, amo aquele garoto e não posso ficar em paz sabendo que ele sumiu naquele estado."

"O quão ruim foi?"

"Por deus! Kiki me estapeou, falou um monte de coisas confusas, depois gritou comigo e foi embora. Ele já é um adolescente, mas estava chorando feito uma criança enquanto dizia que a família dele acabou, que eu não o amava de verdade... Ruim assim, Mu"

Mu se afundou no sofá com os olhos fechados. O aperto na mão de Shaka era tão forte que ambos tinham os dedos brancos pela força aplicada.

"Tem noção do quanto isso arrebentou o meu coração?" — Touro continuou —"Ah! Minha nossa, Mu... O garoto está todo confuso. Eu tentei contacta-lo com o Cosmos, mas ele me bloqueia a cada tentativa. Por favor! Vá atrás dele, ache esse menino e faça-o entender que o nosso divórcio não muda a minha relação com ele, nem os meus sentimentos".

O ariano sentia um estranho aperto bem profundo no peito. Era muito mais difícil do que parecia lidar com aquela situação onde ele deixava de ser o mestre e se tornava o pai. Nem mesmo era preciso prestar atenção no relato de Touro, só de sentir a tristeza oriunda do Cosmos dele já era mais do que suficiente para Mu saber que a situação de Kiki era péssima.

A mente do menino estava um bagunça total.

"Eu vou atrás dele, não se preocupe! Vou dar um jeito nisso. Muito obrigado por entrar em contato e me avisar." — respondeu ao finalmente abrir os olhos e relaxar o aperto das mãos.

"Não tem o que agradecer, eu também estou uma pilha de nervos. Não esqueça de me dar notícias depois".

"Ok, eu darei".

Logo o contato entre os cavaleiros foi quebrado.

Ainda no sofá Mu deu um suspiro e mirou o teto da sala perdido em pensamentos diversos. Seu papel como pai por vezes se mostrava infinitamente mais complicado do que sua missão como guardião de Áries, Ferreiro Celestial e Cavaleiro de Ouro. Ao lado dele, completamente alheio as minúcias de ser a figura paterna de um adolescente temperamental, mas completamente ciente do lugar que Kiki ocupava no coração do namorado, Shaka inclinou-se para se acomodar ao lado de Mu e trouxe as mãos ainda entrelaçada próximo aos lábios, beijando os dedos dele delicadamente.

— Se você me falar para ficar calmo novamente, eu vou te bater! — Mu advertiu com os olhos pregados no teto de pedra.

O virginiano apertou os lábios para conter o riso.

— Então não fique. — tocou o rosto de Mu fazendo-o olhar para si — Agora sim é o momento de agir. Kiki pode já ser um rapaz e ter se sagrado Cavaleiro de Bronze, mas assim como nós somos simples homens por baixo das armaduras, ele agora é apenas uma criança assustada que precisa do abraço e conforto do pai.

Mu piscou os olhos e franziu as pintinhas enquanto mirava as pálpebras cerradas do virginiano como se pudesse ver os olhos azuis por debaixo delas. Como Shaka podia estar tão tranquilo? O assunto era sério.

— É mais fácil falar do que fazer. Tenho tanto medo de errar com ele, de magoa-lo... — confessou — Não é como se eu fosse muito mais velho, ou que tivesse a experiência e conhecimento necessários para isso. Não existe manual de pai.

— E ainda assim faz um trabalho maravilhoso.

O indiano sorria de leve divertido pelas inseguranças tolas de Mu. Não havia em todo Santuário mestre mais dedicado a seu discípulo do que Áries, talvez justamente por isso se tornara tão naturalmente a figura paterna perfeita. O sorriso sumiu com o advento do ciúmes.

Incomodado, Virgem tratou de se sentar corretamente no sofá e dar adiantamento a resolução do "problema" do namorado.

— Enfim, de qualquer maneira está na hora de procura-lo e ter uma conversa séria e definitiva com ele. O garoto teve um acesso de fúria e agrediu um Cavaleiro de Ouro. — Virgem disse bem menos gentil que momentos antes ajeitando os cabelos atrás da orelha

— É! De fato, Kiki perdeu a linha. — Mu respondeu também aprumando-se no sofá, mas sem deixar de notar a brusca mudança na atitude de Shaka. — Um Cavaleiro de Bronze não pode fazer o que ele fez com um superior, mesmo que este seja Aldebaran a quem ele é intimo. Ele teve sorte, pois Touro jamais teria coragem de denuncia-lo.

— Sabe onde procura-lo?

Mu olhou para o namorado sentindo-se pela primeira vez um pouco mais calmo.

— Eu e ele somos mais parecidos do que parece. — deu um sorriso de lado —E pelo jeito somos dois fujões também. A alguns instantes senti uma presença invadir as defesas de Jamiel. No final para que outro lugar um filho iria se não ao lar?

Uma das muitas características únicas das terras de Jamiel era a falta de cercas e muros nas imediações das construções. O refúgio milenar do povo muviano, e que já abrigara uma vila inteira da qual agora permanecia firme apenas a torre principal, fora construído diretamente no alto dos picos e paredões das montanhas que formavam a grande cordilheira do Himalaia. Uma terra de quase impossível acesso e cercado por imensos despenhadeiros e fossos que com um único passo em falso levaria a criatura desafortunada diretamente para uma queda mortal. Ainda assim não havia vestígios de nem mesmo uma única modesta mureta de proteção. A resposta para esse enigma arquitetônico talvez estivesse justamente nos peculiares moradores daquele local.

O fato era que nenhum dos muitos habitantes, que por ali viveram por eras sem fim, jamais bloqueou o acesso ao perigoso precipício que rodeava o pagode sagrado, provavelmente pelo mesmo motivo que nunca se deram ao trabalho de construir portas de entrada em suas casas. Somente um filho de Jamiel saberia apreciar tão preciosos detalhes.

Era natural, portanto, que sentado na beirada do penhasco que abrigava o pagode sagrado, Kiki olhava a vastidão do abismo diante de si enquanto balançava os pés no vazio. Por conta do fuso horário já era dia e o sol fraco da manhã despontava por trás das enormes montanhas iluminando o rosto castigado pelo frio do garoto, enquanto o vento levava o som do choro para longe como um uivo terrível e distorcido que embalava os tremores causados pelos soluços.

Porém seu pranto solitário não durou muito. Logo a presença imponente do guardião daquela morada foi notada pelo rapaz, que sentiu-o materializar-se ao seu lado.

Antes mesmo de se teleportar para Jamiel, o mestre já sabia exatamente em qual local do solo sagrado encontraria seu aprendiz buscando consolo e paz.

— Acrofobia! Esse é o nome que deram para o medo de altura. Dizem que pessoas com esse medo sentem vertigens e mal estar só de chegarem perto de lugares altos. — a voz suave de Mu chegou aos ouvidos de Kiki, que limpou as lágrimas geladas e olhou para o lado a tempo de vê-lo se sentando ao seu lado — O medo de altura muitas vezes, é natural e serve de alerta em situações de perigo. Mas eu não concordo muito com isso.

Kiki escutava, um tanto curioso, aquele papo estranho do mestre sem dizer nada. Aparecer ali e começar a falar sobre medo de altura enquanto ambos estavam sentados tranquilamente na beirada de um precipício mortal não tinha sentido nenhum.

Indiferente aos pensamentos do garoto, Mu continuou devanear em voz alta.

— Não acho que o medo seja natural, pelo menos não para pessoas como nós. Eu não sinto medo nenhum dessa paisagem, nunca senti. Mestre Shion também gostava de sentar aqui. É bonito e calmo... Você não acha?

— S-Sim. — Kiki concordou fungando e limpando o nariz gelado com a manga do casco de pelo de iaque que vestia.

— Mesmo quando você era apenas um bebê que me dava trabalho correndo por aí, estranhamente eu nunca senti medo de que você caísse. Ao contrário! Eu tinha a estranha sensação de que esse lugar faz parte da nossa natureza, pois fomos feitos para as alturas.

— Talvez nós lemurianos somos como os carneiros montanheses, senhor Mu. — a comparação de Kiki, dita em voz chorosa e embargada, fez Áries olhar para ele com as pintinhas da testa arqueadas, um pra cima e outra para baixo — Atraídos naturalmente para os altos picos rochosos. Eles poderiam viver nas planícies, mas preferem subir nos paredões mais altos e íngremes das montanhas só para ver o mundo de cima.

Mu encarou o aprendiz por um momento, admirado de como em tão pouco tempo o pequeno bebê que corria e brincava serelepe por essas terras havia crescido tanto.

— Pode ser! Carneiros combinam conosco no final das contas. — Áries riu divertido com a conclusão dele — Mas tem outra coisa também que me faz amar esse lugar e essa vista. Não sei se por conta do ar rarefeito daqui há algum efeito em nosso metabolismo, o que faz com que nossa mente desacelere, mas estar aqui em cima, bem aqui na beirinha, me acalma. É o local que eu busco quanto tudo dentro de mim está um caos. Não há medo, não há ansiedade... Não há nada. Todos os sentimentos vão embora e o que resta é só eu, o vento e o abismo.

Kiki concordava completamente com Mu, afinal fora para o abismo de Jamiel que correra quando sentiu-se desamparado e todas as suas emoções se tornaram uma confusão sem fim.

— Vem aqui, projeto lemuriano de carneiro montanhês! — Mu sorriu e puxou Kiki para mais perto de si lhe abraçando com força e carinho.

Por algum tempo ficaram os dois ali em silêncio admirando a paisagem inóspita em total sintonia. O mestre consolou o aprendiz até que ele se acalmasse de verdade e seu pranto silencioso enfim não passasse de soluços fracos e baixinhos em um rosto sem lágrimas.

— O que vai ser da gente agora, mestre Mu? — a voz do garoto saiu abafada pelo tecido grosso da roupa de Áries.

— Como assim o que vai ser de nós?

— Agora que o senhor e o senhor Aldebaran se separaram... eu e ele... nós... — as palavras falhavam — Eu sei que ele te fez mal, eu estou muito bravo com ele também, mas... mas... e-eu gosto muito dele mestre Mu, muito mesmo! Eu não queria que ele fosse embora...

— Mas ele não vai embora Kiki.

— Vai sim. Ele não é mais o marido do mestre Mu, isso significa que a nossa família acabou. — o menino se agarrou ainda mais forte a Áries — Eu já perdi o senhor uma vez, mestre! Foi horrível e dói só de lembrar. Agora eu vou perder o senhor Aldebaran...

O coração de Mu doeu como se tivesse levado uma apunhada.

— A por todo monte Olimpo! Não repita isso. De onde você tirou esse pensamento absurdo Kiki? — carinhosamente afagou os cabelos avermelhados do discípulo, enterrando os dedos nos fios cor de fogo. Não esperava reposta para sua pergunta, pois infelizmente, como cavaleiro sabia muito bem em quais cicatrizes aquele medo havia encontrado terreno no coração de Kiki para crescer. Na verdade, a vida como guerreiros de Atena cobrava um preço muito grande dos homens destinados a serem cavaleiros, ao exigir-lhes um amadurecimento ridiculamente precoce para as questões bélicas e profissionais, ao mesmo tempo em que os desamparava completamente no âmbito pessoal. Todo o desastre envolvendo o seu casamento era o exemplo cabal do quão incompetentes aqueles bravos soldados podiam ser ao lidarem com as simples interações interpessoais. Não era de se espantar portanto que Kiki, um adolescente já consagrado Cavaleiro de Bronze e que estivera presente e até mesmo colaborara nas batalhas lendárias do passado, diante de um divórcio estivesse tão perdido e assustado quanto uma pequena criança civil. Mu beijou a cabeleira ruiva e deu longo suspiro — Você não vai perder Aldebaran. Ele está literalmente a um lance de escadas de Áries. Ele te ama!

— Ele também te amava e fez o que fez. Agora vocês estão separados!

— Mas uma coisa não tem nada haver com a outra Kiki. São amores diferentes, relacionamentos diferentes.

O menino então afrouxou o abraço apenas o suficiente para erguer os olhos para o rosto do mestre.

— Ele te traiu...

— Exatamente. Ele ME traiu. — disse com maior intensidade no "me" — Kiki, preste atenção no que eu vou te dizer. — Mu o aconchegou melhor olhando-o nos olhos — Você sabe que em meu coração você é muito mais do que meu pupilo na forja e herdeiro da armadura, é meu filho do coração.

— E eu também o considero como meu pai, mestre Mu.

— Exato. Mesmo não sendo sangue do meu sangue o nosso laço é real. Mas vamos fazer de conta que por algum milagre você fosse meu filho de fato, e não só meu, que Aldebaran também fosse seu pai de sangue, que tivesse nascido de nós dois...

— Mas mestre Mu, isso é impossível! Vocês são homens. Dois machos não fazem bebês. — Kiki franziu as pintinhas realmente confuso. Como a conversa tinha chegado nesse ponto absurdo?

— Ah pela deusa, Kiki! — Mu não conseguiu conter o riso de frustração — Isso não importa! Não se apegue aos detalhes. Foco na questão do exemplo, ok? Só faz de conta.

— Ok.

— Então, sendo você nosso filho de sangue, se eu e ele nos separamos você deixaria de ter o DNA dele ou o meu? Você seria menos filho nosso porque no cartório está escrito que não somos mais casados?

— Não. — respondeu de pronto — Não tem como mudar o sangue, ou tirar ele.

— Esse é o ponto! — Mu então se afastou de Kiki e se sentou um pouco de lado, com uma das pernas ainda balançando faceira no precipício — Você e eu não temos o mesmo sangue, mas você é meu filho amado. O divórcio não mudou isso. Se por conta do casamento vocês dois se aproximaram e agora, dentro do seu coração você ama Aldebaran como a um padrasto e ele te ama de volta como um afilhado, nossa separação não anula e nem apaga esse sentimento, Kiki. — tocou gentilmente o peito dele onde ficava o coração — Nós ainda continuamos a ser, todos nós, eu você, ele e agora Shaka também, uma família... Uma família diferente da qual você estava acostumado, mas desde quando isso é um problema? Somos Cavaleiros, nossos laços sempre foram diferenciados, além disso, ter dois homens como pais também nunca foi considerado muito comum, não é mesmo?

Kiki finalmente aliviou a expressão pesada em seu rosto e deu uma pequena risada que imediatamente alcançou e tranquilizou o coração de Mu, aquecendo-o por dentro.

— Então meu carneirinho montanhês, não sofra por aquilo que não deve. Além disso, perdoe Aldebaran e peça desculpas a ele. Você agiu muito mal, disse palavras muito duras a um homem que só te deu amor e carinho, além de o ter desrespeitado como seu superior hierárquico.

Kiki incomodou-se franzindo a testa, um pouco emburrado e cruzou os braços.

— Ele mentiu... E por culpa dele agora tem aquele outro lá em casa.

Os olhos de Áries se arregalaram e ele não conseguiu conter a risada que tentou abafar com a mão.

— Se refere a Shaka? — disse quando conseguiu se conter. Estava claro o descontentamento do aprendiz para com o novo namorado, o que imediatamente o fez se lembrar da expressão contrariada de Shaka minutos atrás. Duas crianças ciumentas. — Ele também não tem nada haver com isso Kiki.

— Como que não? O senhor só esta com aquele folgado porque o Touro fez merda te botando um par de chifres do tamanho das ombreiras da Armadura de Áries.

Mu encarou Kiki por um instante só para em seguida cair na gargalhada.

O menino voltou a emburrar de braços cruzados fazendo um bico enorme até que o mestre se acalmou e se sentou corretamente, ficando mais uma vez de frente para o nada em silencio por alguns minutos na qual admirava os picos rochosos cobertos de neve ao longe.

— Eu te falei que haviam muitos detalhes que ainda precisava te contar, não disse? — Mu capturou a atenção de Kiki que também tinha os olhos voltados para a paisagem e um bico adorável no lábio superior — Mas você não teve paciência e saiu correndo. Não era para você ter descoberto desse jeito, eu queria ter uma conversa apropriada, com calma, foi por isso que também não te contei nada nas cartas que trocamos. Aldebaran errou feio comigo, Kiki. Quanto a isso não há o que questionar, mas a infidelidade dele foi apenas a gota de água que faltava para o copo transbordar. Eu diria que o nosso divórcio foi a reparação de uma sucessão de enganos.

— Como assim, mestre Mu? Eu não entendo! Como o copo poderia estar cheio? Parecia tudo tão bem entre vocês antes.

Áries riu e bagunçou os cabelos do garoto com uma das mãos.

— Eu também não entendia na época, mas na verdade eu também ajudei a encher esse copo, talvez a primeira gota até tenha sido minha.

— O senhor? Mas como? O senhor é sempre tão justo.

— Eu errei quando por puro comodismo aceitei entrar em um casamento sem amor. — o desabafo saiu mais natural do que pretendia.

— O mestre não amava o senhor Aldebaran? — Kiki já não podia disfarçar o espanto em todo seu rosto.

— Não. Pelo menos não do jeito que se deve amar um marido, mas eu não sabia disso naquela época. Essa consciência dos meus sentimentos eu só tive ao descobrir que estava apaixonado por Shaka. Hoje eu percebo que foi um erro me casar com Aldebaran, pois eu nunca poderia dar a ele o que ele ansiava, sem perceber eu o estava enganando e enganando a mim mesmo no processo... Um relacionamento baseado em emoções unilaterais está fadado ao fracasso. Ele não suportou e colapsou. No entanto isso não o isenta da culpa da infidelidade. — o tom de voz ficou mais sério — Touro poderia ter agido de maneira digna para comigo e teríamos terminado esse casamento falido de modo mais civilizado. Mas, imagino que agir de modo tão despreendido seja difícil para aquele boi chifrudo e teimoso.

Mu riu um pouco, de modo leve, e cutucou Kiki com o ombro.

— Apesar de tudo isso ele foi um bom para você, não foi? Alguma coisa boa tinha que ficar dessa relação.

Kiki sorriu para Áries. O mestre tinha razão, Aldebaran era muito bom consigo, até mesmo hoje, quando perdera o controle estapeando-o em meio a ofensas ditas aos berros, aquele homem enorme apenas derramara lágrimas implorando seu perdão. Kiki finalmente sentiu-se verdadeiramente aliviado e mais tranquilo ao se dar conta de que não tinha porque guardar rancor de Touro daquela maneira, muito menos romper relações com ele.

— Eu gosto muito dele. Não vou mentir mestre Mu, ainda estou triste com a separação e pelo motivo dela, mas já não sinto tanta raiva agora.

— Então espere a tristeza amenizar e se desculpe com ele, combinado? Ele está arrasado.

— Combinado! Vou me entender com ele assim que voltar. Farei uma visita a ele lá na prisão.— Kiki respondeu determinado recebendo um tapinha satisfeito de Mu em suas costas.

— Ótimo.

Ficaram e silencio novamente até Mu notar a expressão pensativa e os suspiros do menino.

— O que foi agora?

— É que... Nossa! Mesmo sabendo de tudo, ainda assim eu não consigo assimilar completamente o que aconteceu, da forma como aconteceu e com quem aconteceu. E pensar que o senhor Aldebaran, sempre tão bonzinho, seria um marido infiel e o senhor Shaka, que era religioso devoto, agora fica de safadeza na cozinha lá de casa...

— Ei!

Áries ruborizou na hora, completamente sem jeito e dando um croque na cabeça de Kiki que riu passando a mão no local dolorido.

— Mas é realmente tão surpreendente assim? Que eu namore o Shaka? — Mu indagou meio que para mudar de assunto, mas não mudando.

- Bastante. Apesar de vocês sempre serem amigos, o Cavaleiro de Virgem sempre foi tão ranzinza, olhando para todo mundo de nariz em pé, com cara feia ... - Kiki fez uma careta ao se lembrar do indiano - Ele é tão grosso e romântico. Não combina nada com o senhor, mestre!

O lemuriano mais velho ficou em silêncio por um tempo, divertido pela forma como o aprendiz via Shaka. Era inegável que o namorado nunca fora do homem mais sorridente e gentil de todos, mas para o coração apaixonado de Mu até mesmo os resmungos do indiano lhe soavam adoráveis.

- Talvez seja porque ele motivos motivos para ser assim, amargurado! Motivos que agora não tem mais ... - o pensamento lhe escapou baixinho junto de um pequeno sorriso na face corada.

O garoto que observava o mestre com o canto dos olhos não deixou passar despercebido aquela frase acompanhada de muitos suspiros.

— Ah! Essa não! O senhor está realmente apaixonado por aquele chato de galochas, mestre! — exclamou de olhos arregalados — Está até suspirando feito bobo.

Mas ao contrário do que Kiki imaginava o mestre não se envergonhou novamente e sim aumentou ainda mais o sorriso ao jogar o corpo para trás, apoiando o tronco erguido nas palmas das mãos e erguendo o queixo para mirar o céu claro sobre eles.

— Sim, e sem constrangimento algum em assumir que estou amando de um modo que jamais imaginei ser possível, Kiki. — os olhos de Mu brilhavam, como se contemplasse a mais bela das visões, deixando que seus sentimentos e divagações se materializassem em palavras — Afinal quem sabe os caminhos do destino? Quantas voltas o Samsara dá para nos levar até o nosso objetivo? Por que tudo aconteceu desse jeito? Eu não sei essas repostas, mas a verdade é que nesse momento era para Shaka estar iluminado, muito acima de todos nós, enquanto como recompensa por meu sacrifício como guerreiro de Atena, minha alma estaria descansando nos campos elísios junto de Aiolos, Shion e Dohko. Mas eu estou aqui, vivo, respirando, sentado na beira do precipício de Jamiel tendo que lidar com um filho adolescente rebelde, um ex marido teimoso e um namorado ciumento que abandonou o caminho da iluminação para viver ao meu lado! — Áries deu de ombros e balançou os pés, feliz da vida sentir o vento passando por eles.

Kiki estava perplexo. Nunca vira seu mestre com aquela expressão abobalhada no rosto antes. Quem realmente era o adolescente entre eles? A paixão era mais perigosa do que se diziam os livros.

— Ei! Eu não sou um adolescente rebelde! — ralhou indignado ao se dar conta de seu papel no cenário descrito.

— Ah, não?! — Mu olhou pra ele de canto de olho — E menino de quinze anos que briga com o pai e foge de casa é o que então?

— Um exemplar Cavaleiro de Bronze que consegue invadir uma Casa Zodiacal sem ser detectado por dois Cavaleiros de Ouro e escapar em seguida. — disse cheio da razão, peito estufado e sem nenhuma vergonha na cara — E mais, tecnicamente eu não estava morando em Áries para poder fugir.

— Ora essa! Além de rebelde voltou respondão. Que merda Fênix andou te ensinando nesse tempo que passou no Japão?! Vou te devolver pro Shiryu!

Os dois se encararam por um instante tenso para logo em seguida caíram na risada.

Mestre e discípulo ainda ficaram ali conversando algum tempo antes de finalmente decidirem voltar para a Grécia. Haviam saído sem permissão do Santuário e com o histórico recente não seria bom causar incidentes e preocupações desnecessárias.

Já de volta, em frente a escadaria que levava ao Templo de Áries, os dois lemurianos se preparavam para subir e entrar quando o garoto puxou a camisa do mais velho lhe chamando.

— Mestre Mu, só mais uma coisa. Agora que está de namoro com o senhor Shaka, o senhor vai se casar com ele também?

A pergunta pegou Mu de surpresa, deixando-o completamente em branco e sem resposta. Mal havia saído de um casamento, literalmente já que nem completara um dia inteiro da assinatura do divórcio, que casar-se com quem quer que fosse nem se quer lhe passara pela mente.

— Por que está me perguntando isso, assim do nada? — esquivou-se rapidamente da questão sentindo-se particularmente atordoado com ela.

— Não é do nada. É que... — Kiki fez uma careta relutante e finalmente deixou as formalidades de lado — Se o senhor casar com ele, aquele loiro metido a Buda vai ser meu padrasto! — disse com imensa insatisfação.

O Garoto mal terminou de resmungar e o sujeito citado surgiu diante dos dois como uma aparição fantasmagórica oriunda do além. Shaka, que até o momento havia ficado em Áries aguardado ansioso o retorno de Mu, apareceu no alto do lance de escadas, a qual desceu sem pressa alguma. Andava até eles mirando por baixo das pálpebras fechadas as faces pálidas de ambos: Mu um tanto sem jeito e preocupado sem saber até que ponto ele havia escutado o diálogo e Kiki como se estivesse diante do próprio Diabo.

Virgem caminhou lentamente com toda a majestade e grandiosidade que sua figura quase divina impunha até se colocar ao lado de Mu, a qual abraçou intimamente pela cintura, voltando ligeiramente a face na direção do garoto ao lado dele. Havia escutado tudo.

— Então, nesse caso, jovem Cavaleiro de Caelum, creio que em vez de "loiro metido a Buda" você deveria se acostumar logo a me chamar de algo mais apropriado, não é mesmo? — Shaka disse com intencional amabilidade forçada — Que tal começarmos com... Papai?! — as palavras saíram da boca de Virgem com a mais profunda e verdadeira satisfação. O deboche escorria pelos lábios que se abriram em um tenebroso sorriso daqueles que mostrava todos os dentes ao "adorável" adolescente a sua frente.

Enquanto Kiki teve certeza de que não conseguiria dormir por varias noites seguidas, por conta dos pesadelos que teria com Shaka lhe encarando e pedir para chama-lo de papai com aquele sorriso medonho na cara, Mu, por sua vez, engasgou-se violentamente com a própria saliva ao ouvir tal palavra, tendo um acesso de tosse horroroso que o deixou roxo e sem fôlego, agarrado a Shaka.
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Notas finais especiais:

A capa (que só dá pra ver no nyah e no social) e o título do capítulo só fazem sentido para quem leu até o fim uhuhuhhuhh E ambos se referem ao debochado de um loiro indiano que decidiu ser o novo papai do pentelho cabeça de fogo uhuhauhhh

O pai ta on tem sentido ambíguo! Papai tbm, é por isso que Mu quase morreu engasgado...entendedores entenderão...( Tem gente si ...si sintindo papaizinho de açucar)... vem pro pai! uhuauhuhh

Quanto a capa... eu e a Rosenrot quase morremos de tanto rir com os sorrisos medonhos que o face app colocou nos Shakas dela, vou colocar os Shakas medonhos que perderam a "votação" para capa lá no grupo do trio ternura no facebook pra vcs terem pesadelos tbm hhahahaha

no mais... essa fic era pra ser tão séria... e eu faço uma bosta dessas com o nome e a capa do cap nos 45° do segundo tempo.. UHUHUHAH EU SAIO DO TEMPLO, MAS O ESPIRITO DAS BACANTES NÃO SAI DE MIM uhuhhuhhhhh

é isso. Finalmente encerramos todos os nós da fic. No proximo cap teremos uma pequena pulagem temporal para darmos início ao encerramento dessa história que eu amo, odeio, choro, rio e sofro.

beijooooooos 3