Arrumar minha mala para voltar para casa foi mais doloroso do que seria normalmente, principalmente pois não conseguia jogar o presente que havia comprado para Malfoy fora, então era mais um trambolho para ser colocado na mala, que já não tinha muito espaço.

Era um cachecol. Não era nada de demais, mas eu amava vê-lo com trajes de inverno e uma mudança dos comuns trajes com cores Sonserinas me parecia uma boa ideia.

O embrulho triste parecia me olhar, me julgando do canto de minha mala, quase gritando 'você foi uma idiota por ter me comprado'.

Susana suspirou umas três vezes ao me olhar com pena enfiando minhas roupas no baú.

- Susana, pare de suspirar, pelo amor de Merlin – disse sem nem mesmo virar para ela. – Quem ouve pode pensar que estou em fase terminal de alguma doença desconhecida.

- Não me conformo como você parece tão... tão calma com toda essa situação. – disse com uma voz exasperada, como se estivesse indignada comigo.

- Acho que talvez...- divaguei jogando um livro esquecido em meio às minhas tralhas - ...talvez eu já soubesse. Bem no fundo. Era uma tragédia anunciada, não sei como fui em frente com tamanha estupidez.

- Você estava tão feliz...

Eu estava. E como tamanha decepção havia acontecido há menos de 24 horas, eu ainda me permitia relembrar os doces momentos que havia compartilhado com ele. Quantas vezes parei de fazer o que estava fazendo para revisitar aqueles momentos que, agora, pareciam que tinham sido inventados por uma mente muito fértil.

- É como se eu já soubesse. Já esperasse. Não digo que por isso dói menos, pois acredito que esteja doendo mais do que qualquer coisa que eu já passei fora a morte de meu irmão. Mas assim como a morte, quando a pessoa está doente, em seus momentos finais, você já a espera. Nesse caso, nosso relacionamento, ou sei lá qual seria o nome apropriado para aquilo que tivemos, devia estar doente desde o início. Ele só chegou ao final já esperado.

- Você está lidando com isso de uma maneira muito madura.

- Não, Su, não estou. – admiti – Por dentro estou chorando como uma criança.

Os olhos ameaçaram a querer encher de lágrimas novamente, mas engoli a vontade de externalizar tudo e voltei ao que estava fazendo.

Desci com a minha mala me sentindo uma fugitiva. Não queria correr o risco de sequer encontrar com ele, mas é claro que o destino não seria tão bondoso comigo.

Lá estava ele, com sua mala enorme, uma roupa escura, um sobretudo preto e uma cara de quem já tinha vivido dias melhores. Um resquício de pena passou pelo meu coração, mas foi embora tão subitamente quanto chegou. Tentei passar o mais longe dele possível, fingindo inutilmente não o ter visto, mas a indiferença estava somente nos meu planos e não nos dele.

- Weasley – ele me chamou por entre as pessoas. Eu ignorei, mas ele prosseguiu me chamando – Weasley!

Parei e respirei fundo. Não tinha cogitado aquele encontro sendo que o que estava marcado na noite anterior havia ido de mal a pior.

Parei entre as pessoas que olhavam de forma estranha para um Malfoy chamando um Weasley, ainda mais sem o nome ser seguido de um xingamento. Aparentemente a situação não era estranha somente para mim.

Ele veio até mim com as mãos nos bolsos e olhos fundos. Achei que os dias daquele olhar perdido já haviam ido embora.

- Preciso conversar com você – ele disse baixinho em tom de súplica. Meu coração doeu.

- Não acho que tenhamos assunto, Malfoy. – ele recebeu seu sobrenome como um tiro. Há quanto tempo não nos tratávamos com tamanha formalidade.

- Sei que você não tem, mas eu tenho. Eu preciso me explicar. Eu tenho muito o que explicar. Muito pelo que me desculpar.

Pessoas passavam por nós com expressões de quem estava assistindo uma aurora boreal.

- Não acho que seja o melhor lugar para termos essa conversa. – disse enfiando as mãos nos bolsos de meu casaco – Não sei nem se tenho a maturidade emocional que essa conversa requer.

- Gina, - meu nome na voz dele me fazia palpitar, independente da situação – eu não tive maturidade emocional ontem e eu preciso falar com você. Eu entendo que você não queira me ouvir, mas eu preciso te explicar.

Olhei para os lados analisando o entorno, somente para ter mais certeza de que aquele não era o local apropriado para aquele papo.

- Não. – disse com uma voz fria. Ele pareceu ter tomado um tiro ao ouvir, mas continuei – Não aqui.

- Eu posso te visitar em casa, se me permitir – disse Malfoy se agarrando à esperança que eu havia acabado de estender a ele.

Assenti.

- Você sabe onde me encontrar. – disse antes de virar as costas e voltar a puxar minha mala em direção ao trem. – Na terça minha família irá ao beco diagonal em busca de alguns itens faltantes de Natal. Assim você não correrá o risco de apanhar de meus irmãos.

Malfoy suspirou e assentiu.

A vida seria longa até terça-feira.