Capítulo XII – Uma nova ideia
"Seu pai também não ligava para as regras. Regras foram feitas para meros morais, não para vencedores da Taça de Quadribol" – Severo Snape, HP e o Prisioneiro de Azkaban.
No momento em que pousei a pena, finalmente dando por encerrado a noite, duas sombras surgiram à minha frente. Ergui os olhos para ver os sorrisos idênticos de Fabian e Gideon Prewett.
- Nós precisamos conversar – Fabian declarou, sentando-se ao meu lado, enquanto seu irmão se sentava do outro lado. Tive a ligeira impressão de que estava sendo encurralado.
- Você viu o quadro de avisos? – Gideon questionou, indicando o quadro do outro lado da sala.
Em resposta, ergui os rolos de pergaminho que eu tinha acabado de preencher. Se antes das férias os professores estavam alucinados com pontos que faltavam ser abordados para as noites, agora eles estavam alucinados com revisões. E as noites de planejamento com Black na última semana haviam me deixado devendo algumas tarefas.
- Prioridades, Tiago – repreendeu Gideon, piscando os olhos para aliviar suas palavras. – Olhe, eu tenho uma cópia aqui.
Ele me entregou um panfleto. Logo abaixo de uma imagem de um pomo-de-ouro que entrava e saía do folheto, havia um anúncio de que no final de semana haveria uma seleção para a vaga de apanhador.
Meu estômago deu voltas, como se eu tivesse acabado de me recuperar de uma queda brusca na vassoura. É claro que eu queria aquela vaga – lembrei da emoção de participar do jogo, da torcida gritando meu nome, da sensação de invencibilidade que estar voando sempre me trazia e do pomo-de-ouro agitando suas asas em minhas mãos.
Mas também lembrei tudo que tinha acontecido após o jogo, e isso me fez hesitar.
- O que houve com McLaggen? – perguntei, à guisa de responder. Fabian bufou, claramente irritado.
- Tiberius abandonou o time; disse que os treinos estavam conflitando com suas reuniões no Ministério da Magia e que ele não ia abandonar sua chance de conseguir um cargo oficial por causa de um passatempo.
Acenei, não surpreso. As ambições de McLaggen nunca foram secretas – se você desse corda, ele podia passar horas narrando todos os seus planos de carreira e ascensão no Ministério da Magia.
- Mas o que importa – Fabian continuou – é que há uma vaga e ela tem praticamente o seu nome escrito.
Desviei meu olhar automaticamente para as poltronas próximas à lareira, onde Evans conversava animadamente com Lupin e Pettigrew, me questionando se ela teria algo a ver com essa história; dessa vez, eu achava que não.
Mas então meu foco se distraiu, da mesma forma que acontecia quando eu me descobria olhando para Evans: o fogo da lareira refletia em seu cabelo, tornando o vermelho quase vivo, e eu não conseguia desviar o olhar. Ela sorria e, não pela primeira vez, desejei estar compartilhando daquele momento com ela.
Então pisquei, para acordar.
- Ok – concordei -, desde que seja uma competição justa.
- Com você participando, não será – Gideon riu. – Você é bem melhor do que qualquer outra pessoa que já vimos. Bom, sábado de manhã, esperamos você lá.
Assenti, distraidamente. No sábado de manhã eu tinha as aulas de poções com Evans, mas achei que, nesse caso, ela não se importaria de adiar. Ela ficaria feliz por saber que eu queria me juntar ao time de Quadribol – pude imaginar seu sorriso quando eu lhe contasse da novidade, e então me lembrei do último jogo, quando tudo que eu queria era beijá-la na euforia pós-vitória...
Meneando a cabeça com força para afastar esses pensamentos perigosos, levantei-me para subir para o dormitório. Para minha surpresa, Black estava lá, ocupado com alguns papéis. Ele me ignorou enquanto eu colocava o pijama, parecendo muito concentrado em sua tarefa. Mais para me distrair do que para praticar o teste de sábado, me encostei nos travesseiros fofos na cama, tirei o pomo-de-ouro que eu sempre deixava guardado e comecei a fazer o jogo de sempre: liberá-lo, esperar ele se afastar até onde possível, e então pegá-lo.
- Bons reflexos – ouvi Sirius dizer, e quando me virei, ele estava apoiado folgadamente nos travesseiros, na mesma posição que eu. Havia um presente perfeitamente embrulhado na mesa ao lado de sua cama. – Onde pegou o pomo?
- Afanei – respondi, a mentira saindo tranquilamente dos meus lábios. Eu não iria lhe dizer que Evans havia me dado um presente de Natal. Ou que eu havia mandado um presente para ela também.
Sirius ergueu as sobrancelhas, parecendo impressionado com o furto que eu não cometera. Eu me perguntei o que ele diria se eu lhe dissesse a verdade; provavelmente ele não acreditaria.
- Fabian e Gideon te falaram do teste de sábado?
Acenei, franzindo levemente a testa. Black e eu podíamos ter alcançado um nível adequado de cordialidade agora, mas eu lembrava que a razão exclusiva para eu jamais ter participado antes do time de quadribol era ele exclusivamente.
- Você vai conseguir a vaga – ele continuou, imperturbado. – McLaggen sempre ficava com a vaga porque ninguém era decente. Teve um ano que metade das pessoas que compareceram no treino não conseguiu dar nem uma volta no campo sem cair...
- Eu lembro – falei curtamente, minha mente trazendo fácil a memória desse teste. Fora há dois anos e eu estava nas arquibancadas, olhando infeliz para o campo, resistindo à vontade de simplesmente pegar minha vassoura e mostrar como se fazia uma captura decente do pomo-de-ouro. Mas Black estava no campo, e ele havia gritado lá debaixo para mim, só para me perguntar se eu estava indo espionar o time para os sonserinos.
Talvez a mesma lembrança tenha passado pela mente dele, porque Black subitamente pareceu culpado, como um cachorro que leva uma bronca.
- Eu lamento por você não ter participado antes – ele disse, soando sincero. – Você é realmente um excelente jogador e... eu não acho que você teria entregado o jogo. Quero dizer, na época eu achava, mas... Depois de te ver jogando, como se você tivesse nascido para isso... Acho que você é competitivo o suficiente para não deixar outra pessoa ganhar.
Fiz uma careta.
- Não é só sobre a competição.
- Você gostou de ganhar – Black ponderou, sem malícia. – Estava escrito no seu rosto no momento em que você ergueu a mão com o pomo-de-ouro.
Desviei o olhar, soltando novamente o pomo-de-ouro na minha mão e pegando-o no último momento possível.
- Sim – admiti, e, para minha surpresa, não me sentia envergonhado com esse fato. Subitamente me ocorreu que se eu estivesse tendo essa mesma conversa com Severo, eu ficaria extremamente constrangido por admitir que a vitória tinha me deixado feliz, mas havia algo na voz de Black que era tão sem julgamento que fazia eu me sentir à vontade. – Mas quando eu disse que não é só sobre ganhar, eu quis dizer... – Indiquei tudo à volta. – É a Grifinória. Mais do que por mim, eu nunca jogaria mal porque não iria querer que a Grifinória perdesse.
Sirius acenou, pensativo, mas eu sabia que ele conseguia sentir a sinceridade na minha voz. Mesmo quando eu acompanhava das arquibancadas, ouvindo o nome de Black sendo entoado no estádio, eu não torcia para que a Grifinória perdesse. E quando os Marotos realizavam alguma das brincadeiras deles, mesmo as indolores, uma parte da minha irritação vinha do fato de que isso significaria menos pontos para a Grifinória apenas. As festas de final de ano, nos dois anos em que a Grifinória havia ganhado a taça das casas desde que eu entrara em Hogwarts, eram minhas favoritas.
- Eu entendo – Black respondeu, puxando seu cachecol vermelho e dourado e olhando quase nostalgicamente para ele.
- Eu sempre quis ser da Grifinória. Sabe – corei, mas ergui os braços como se segurasse uma espada invisível e recitei –, para onde vão os bravos de coração. Como meu pai.
Sirius me encarou, pensativo; havia um brilho quase de inveja em seus olhos.
- Tudo que eu queria era quebrar a tradição da família – admitiu. – Eu realmente odiaria ser da Sonserina.
Sorri, compreensivo.
- Eu prometi para o meu pai que eu iria embora de Hogwarts se o Chapéu Seletor me colocasse na Sonserina – contei, sorrindo ao lembrar do meu eu de 11 anos todo solene recebendo a carta para Hogwarts e fazendo essa promessa ao meu pai.
Sirius piscou.
- Se você odeia tanto a Sonserina, como consegue ser amigo de alguém lá?
Não havia qualquer maldade em sua voz, só curiosidade. Dei de ombros.
- Eu não odeio a Sonserina, é só... Severo não mudou no momento em que foi colocado na Sonserina. As pessoas não mudam assim.
Ele continuou me olhando engraçado, e me ocorreu que ele não estava acusando Severo de ter mudado nos últimos anos. Mas antes que eu pudesse processar exatamente o que ele queria insinuar com aquilo, Black voltou a me questionar.
- E seu pai não se importa?
A verdade é que meu pai nunca gostara muito de Severo Snape, e isso fora antes de sequer entrarmos em Hogwarts. Mas essa não era uma história que eu queria compartilhar com Black.
- Com ele ser da Sonserina? Não deveria, minha mãe era da Sonserina, não é? E de qualquer forma, meu pai diz que se eu tenho motivos para ser amigo de Severo, ele vai confiar nas minhas escolhas.
Novamente Black me fitou com aquele brilho de inveja nos olhos, o mesmo que havia no rosto de Severo Snape desde a primeira vez que ele vira Sirius Black fazendo Lily Evans sorrir. O brilho de quem desejava, desesperadamente, ser outra pessoa.
Só que minha interpretação devia estar errada, porque não havia como Sirius Black, de todas as pessoas, invejar algo na minha vida.
- Seu pai parece legal – Sirius disse, numa voz neutra.
- Ele é – concordei, feliz. Meu pai era realmente maravilhoso. – Ele sempre pergunta de você, aliás.
Sirius pestanejou.
- Seu pai? Por quê?
- Meus pais batizaram você, meu pai é seu padrinho – expliquei, surpreso. – Seus pais nunca te falaram sobre isso?
Ele revirou os olhos.
- Meus pais só falam comigo para reclamar que eu não levo o nome Black a sério, Potter – disse, cheio de desprezo.
- Oh – exclamei, sem saber exatamente como responder, mas Black não parecia esperar uma resposta. – Meus pais nunca me se aconteceu algo, eu sei que a sua família é sempre convidada para Natais e jantares, mas como você deve ter percebido, não tivemos muito convívio.
- Seus pais provavelmente não atenderam às expectativas dos Black – Sirius desdenhou. – Se você não tem um poster de recrutamento do Lord das Trevas na sua casa, você não seria bem-vindo.
- Oh – repeti, ainda perdido. – Bom, não vamos ter um pôster tão cedo, então... se quiser comparecer algum dia para visitá-los, você seria bem-vindo, garanto. Eles lembram de você com carinho... aparentemente você era um bebê bastante fofo, Sirius.
Ele e eu nos encaramos por alguns segundos e então caímos na risada.
O sábado amanheceu frio, mas com um céu limpo. Eu sabia disso porque tinha visto o sol raiando no horizonte – aparentemente, a expectativa da seleção tinha me deixado mais nervoso do que o esperado, porque eu não conseguira dormir bem.
Ou talvez eu só quisesse muito a vaga no time.
O que os Prewett haviam me dito anteriormente estava certo. Eu sabia que não havia real competição – nos últimos anos, ninguém se destacara para a posição de apanhador durante a seleção do time. Então, nesse aspecto, eu não deveria ficar nervoso.
Se eu fosse honesto comigo mesmo, aceitaria que eu só estava muito animado. Fazer parte do time de quadribol era algo que que queria desde que tinha entrado em Hogwarts.
Sabendo que voltar a dormir não era uma opção, me levantei. Após o café-da-manhã, faltando ainda uma hora e meia para a seleção, fui para o campo de quadribol, considerando voar um pouco para aquecer, mas meus planos foram atrapalhados: o time da Sonserina estava treinando cedo, e me lembrei que eles jogariam em breve contra a Corvinal.
Fui para as arquibancadas, analisando o treino. Nott, o apanhador da Sonserina, era inseguro demais – diversas vezes surgia o brilho do pomo de ouro no campo, mas ele aguardava para confirmar se não era só um reflexo estranho, e quando ele finalmente agia, era tarde demais.
- Theo é péssimo – ouvi alguém dizer ao meu lado e, quando me virei, vi Regulus Black se sentando ao meu lado; ele olhava para Theodore Nott com desprezo. – Mas ele está no sétimo ano, então ficou com a vaga. – Quando o encarei, questionando, ele deu de ombros. – Na Sonserina as vagas são decididas por senioridade.
Franzi a testa, e ele sorriu atravessado, provavelmente concordando que o sistema era falho, mas Regulus não falou nada.
Fitei-o de relance. Na aparência, Regulus Black me lembrava o irmão. Eles tinham as mesmas características físicas – o mesmo cabelo e olhos escuros, formato do nariz, e um ar distintamente nobre e arrogante, como se eles estivessem acostumados a tudo ser fácil para eles. O estranho era que, de alguma forma, enquanto todas essas características eram enaltecidas em Sirius, Regulus era só um garoto normal. Não havia uma fila de garotas correndo atrás dele, ele não atraía a atenção por onde passava. Onde Sirius Black brilhava, Regulus era opaco.
E, desde que Evans havia mencionado que Regulus Black era um fã do Lord das Trevas, ele me parecia ainda menos similar a Sirius.
- Não é à toa que você venceu Nott no último jogo. Você voa muito bem – ele elogiou, numa voz tranquila, completamente alheio aos meus pensamentos.
O comentário me fez sorrir, orgulhoso, como toda vez que alguém me elogiava por aquela partida.
- Obrigado.
- Ouvi falar que McLaggen saiu do time da Grifinória. Você vai ser o novo apanhador?
- Tem uma seleção hoje, depende do resultado.
- Por favor. Depois do último jogo, nem sei por que precisaria de uma seleção. - Ele revirou os olhos, zombando, e sua semelhança com o irmão se acentuou repentinamente. – Mas é claro, vocês da Grifinória não iam querer demonstrar favoritismo.
Ergui as sobrancelhas.
- Melhor que manter alguém no time só porque é mais velho – observei, indicando Nott voando no céu, bem acima de nós. Regulus corou levemente, mas seu rosto permaneceu impassível.
- Esse é o último ano de Theo – ele respondeu calmamente. – No próximo ano eu participo.
- Você quer a vaga de apanhador? – perguntei, surpreso. – Não sabia que você voava. Black – quero dizer, Sirius – nunca comentou nada.
- Eu duvido que meu irmão falaria de mim, ou que ele soubesse disso. Sirius não se importa muito com o que eu faço – ele respondeu, com descaso. E então ele me lançou um olhar peculiar. – Achei que você e ele também tivessem suas diferenças.
- Sirius não é tão ruim – murmurei, olhando para o campo.
- Ele não é seu irmão – Regulus comentou, quase sombrio. - Severo sempre comentou que vocês se odiavam.
Meu estômago se revirou quando ele mencionou Severo, mas ignorei, fingindo concentração no campo onde os jogadores da Sonserina estavam finalizando o treino.
- Ódio é uma palavra forte – respondi finalmente.
Nós olhamos para o campo em silêncio; achei que Regulus estava me lançando olhares de relance, quase como se fosse me perguntar algo, mas ele não disse mais nada até o treino acabar.
Os jogadores da Grifinória surgiram, enquanto os da Sonserina se dirigiam ao vestiário. Havia quase uma sincronia nos jogadores dos dois times, enquanto eles evitavam cruzar o caminho um do outro.
- Ei, Tiago! – ouvi Sirius me chamar lá debaixo. Ele sorria, mas a animação em seu rosto morreu quando ele viu o irmão ao meu lado. – A seleção vai começar – avisou, e agora não havia mais qualquer calor na voz.
Ele se virou antes que eu pudesse responder. Me levantei; Regulus me acompanhou.
- Melhor eu ir – falou, aparentemente despreocupado com a frieza do irmão. – Boa sorte, Tiago.
Acenei, agradecendo-lhe. Eu deveria descer, mas fiquei encarando Regulus partir por alguns segundos, tentando conciliá-lo com um seguidor apaixonado por um bruxo das trevas. Por alguma razão, as ideias não batiam na minha cabeça. Ele só parecia alguém que não se dava tão bem com o irmão, mas não alguém que sairia por aí matando pessoas.
Quando finalmente desci no campo, Sirius tinha o rosto sério, mas ele não comentou nada. Me posicionei próximo aos outros cinco candidatos que havia para a vaga de apanhador, analisando-os. Todos eles já tinham tentado a vaga no ano anterior, e eu vira a seleção; a menos que alguém tivesse um talento escondido que não tinha revelado anteriormente, ou que tivesse desenvolvido muitas habilidades de um ano para outro, eu realmente não devia ter me preocupado.
Fabian e Gideon também pareciam estar tranquilos com a situação. Os sorrisos idênticos nos rostos deles não sofreram qualquer alteração desde o momento em que Robins começou a seleção, pedindo que pegássemos o maior número de bolas que ele jogava no ar, enquanto nos desviávamos de balaços pelo campo, até quando fizemos a última parte da seleção – pegar o pomo-de-ouro. Na verdade, seus sorrisos até pareceram aumentar quando voltei do mergulho com a bola dourada nas mãos.
Ao lado deles, Robins parecia achar graça da situação.
- Vão em frente – ele disse, pegando o pomo da minha mão para guardá-lo. Fabian e Gideon se adiantaram para declarar, em conjunto, que eu era o novo apanhador da Grifinória. Sorri, triunfante.
Recebi os abraços e parabéns do resto do time, enquanto Robins me avisava da rotina de treinos. Acenei e prometi comparecer na próxima segunda-feira à noite.
- Tiago – ouvi Sirius me chamar, enquanto os demais jogadores voltavam para o castelo. Ele caminhou ao meu lado, andando mais devagar de modo que ficamos um pouco para trás em relação aos outros. – Posso falar com você?
- Claro.
Ele respirou fundo.
- Eu sei que você não vai gostar de ouvir isso, mas não confie no meu irmão. Ele é um Black.
Ergui as sobrancelhas, achando graça.
- Você também.
- Você entendeu o que eu quis dizer. Ele é da Sonserina – Sirius observou, com uma fatalidade na voz que parecia resumir tudo que ele sentia sobre o irmão. Parei de sorrir e me virei para ele.
- Você já tentou dar uma chance para o seu irmão?
Sirius meneou a cabeça.
- Tiago, eu só quis dizer... Regulus realmente acredita nessa baboseira de tradição de família, sobre ser sangue-puro. Ele levou muito a sério tudo que meus pais ensinaram para ele... e Regulus é realmente fã de Você-Sabe-Quem.
- Lily mencionou – foi tudo o que respondi, e algum outro sentimento passou pelo seu rosto antes dele voltar a ficar grave.
- Então leve a sério. Regulus realmente não é uma boa pessoa.
Pisquei, calado, olhando para frente, me sentindo cada vez mais desconfortável. Sirius falava do irmão com exatamente o mesmo desprezo que usava para se referir a Severo Snape e, de alguma forma, isso apenas aumentava minha dificuldade em conciliar seu irmão com um sangue puro fanático.
- Você vai encontrar Lily agora? – Sirius questionou, sua voz completamente diferente. – Para aquelas aulas de poções, quero dizer.
- Ah, não – meneei a cabeça, me sentindo desconfortável de outra forma, como sempre ocorria quando Black mencionava esse meu tempo com Evans. – Por causa dos treinos, nós remarcamos para hoje à tarde.
- Bom – ele disse, embora por sua voz eu não achasse que ele sentia isso. – Não seria legal perder uma aula. Achei que ela viria aqui hoje cedo para acompanhar a seleção, ela está sempre envolvida no time.
Mantive meu rosto neutro. A verdade é que eu tinha alguma ideia do porquê Evans não havia vindo assistir à seleção hoje cedo e, por mais que eu apoiasse essa sua decisão, não havia como compartilhar com Black. Até onde eu sabia, ninguém mais sabia de toda aquela armação no último jogo.
Exceto Severo, mas afastei esse pensamento.
Ultimamente, eu andava evitando bastante pensar em Severo Snape.
- Talvez ela só quisesse dormir até mais tarde – comentei finalmente, e Sirius me lançou um olhar de relance que era idêntico àqueles olhares que seu irmão tinha me lançado algumas horas atrás. Como se quisesse dizer algo, mas estivesse incerto sobre o que exatamente.
- Talvez – ele concordou, numa voz que não parecia concordar nada. Voltamos em silêncio para o castelo.
O sentimento de euforia pela vaga de apanhador ainda não tinha passado totalmente quando abri a porta da sala de aula abandonada e encontrei Lily Evans sentada ali, já com o fogo aceso embaixo de dois caldeirões.
- Olá, Potter – ela comentou, sem me virar para mim, concentrada em colocar ingredientes em um dos caldeirões.
- Como você sabia que era eu? – perguntei, achando engraçado.
Ela ergueu os olhos para me encarar. O sorriso dela era maroto, e tentei bravamente ignorar como aquele sorriso fazia meu estômago dar mais voltas do que um voo na vassoura seria capaz.
- Eu tenho meus métodos para localizar pessoas – ela me segredou, piscando, enquanto lançava um olhar ao pergaminho em branco à sua frente, que me era levemente familiar. – E como foi sua manhã?
- Isso você não consegue saber? – perguntei, brincando, e Evans corou. Isso também me causou reações.
- Não seja tolo, Potter. Só quero saber como está o mais novo apanhador da Grifinória. – Passei a mão pelo cabelo, corando, e o olhar de Lily seguiu o movimento. – Parabéns pela vaga!
A sinceridade na voz dela era tão evidente, que sorri. Quase sem parecer perceber o que fazia, ela me abraçou – era igual ao que o resto do time havia feito ao me parabenizar pela vaga, mas, ao mesmo tempo, eu só conseguia sentir as diferenças – com Lily me abraçando dessa forma, eu não conseguia sentir apenas camaradagem. O perfume e o calor do seu corpo me entorpeceram, e a surpresa no gesto fez com que eu demorasse mais que o razoável para reagir.
Ela pareceu ter reparado nisso no mesmo momento que eu percebia que deveria retornar o abraço, porque Lily se separou de mim, sem me olhar, parecendo estranhamente acanhada.
- Oh, desculpe. Eu só fiquei feliz. De... de verdade.
- Obrigado – agradeci, e como aquilo não parecia representar tudo que eu sentia, toquei o braço dela, chamando-a. Os olhos verdes de Lily se voltaram na minha direção; eles refletiam a luz do sol, me lembrando mais que nunca o mar. – Realmente, Lily, obrigado por acreditar em mim.
Ela me lançou um sorriso brilhante e então, como se lembrasse de algo, desviou o olhar e se afastou de mim, voltando a separar os ingredientes que usaríamos naquele dia.
Por alguns minutos, trabalhamos em silêncio. Eu seguia as instruções rigorosamente no livro, e tudo estava certo na minha poção, quando reparei que apesar de eu e Evans estarmos, em teoria, preparando a mesma poção, a dela estava bem diferente da minha.
- Você está colocando as raízes no momento errado – Evans observou, sem sequer erguer o olhar do seu caldeirão. – Primeiro a poção precisa ferver.
- Ops – me contive, guardando as raízes. - É só que...
- Você se distraiu – ela me olhou de soslaio. – Já falei que é o seu único problema, Potter.
Eu corei.
- É que eu reparei... o que você está fazendo exatamente?
Ela pareceu culpada, com aquele olhar travesso que eu associava com alguma brincadeira – ou marotagem, como Black chamara.
- Testando – confessou. – Depois que você e Sirius criaram aquele feitiço – aliás, aquilo foi maravilhoso, Potter -, eu me lembrei de algo que tinha abandonado há algum tempo. Adoro inventar formas de melhorar as poções, e aí percebi que podia aproveitar o tempo aqui... Você já evoluiu bastante.
Eu não tinha como negar que, de fato, com as dicas de Lily, meu desempenho em Poções tinha realmente aumentado. Evans tinha me ensinado, mais do que tudo, a focar, e quando eu evitava distrações, minhas poções saiam bem – pelo menos, eu não havia cometido nenhum erro nas últimas aulas e, em um dos projetos, tinha até recebido um "Excelente".
Severo apenas estreitou os olhos quando viu minha nota, mas não comentou nada. Nossa comunicação andava restrita nos últimos dias; ele certamente suspeitava da minha participação na história do Mulciber, mas também não tinha como provar e nem como argumentar: eu jamais me aproximara de Mulciber o suficiente para lhe lançar aquela azaração, e ele sabia disso.
Por outro lado, com ele sempre próximo a Avery e Mulciber, eu também não estava tendo oportunidade de me reaproximar. Eu continuava recusando a me sentar na mesa da Sonserina e, como ele jamais viria até a mesa da Grifinória, nosso tempo juntos era limitado às aulas, passadas em silêncio.
Eu sentia falta dele, mas, ao mesmo tempo, toda vez que eu o vi com Avery e Mulciber eu me sentia enjoado de indignação; nada me justificava como ele conseguia ser e continuar sendo amigo dos dois.
Mas até aí, veio uma vozinha na minha cabeça, você também não é um modelo ideal de amigo. Entre mentir para ele e confabular com Black, eu não sabia qual ato Snape consideraria uma traição pior.
- Você está pensando demais – Evans comentou e, quando a encarei, vi que ela me olhava atentamente. – Você tem essa ruga na testa quando está preocupado.
Eu me permiti um segundo de um estranho prazer por Evans reparar em mim; então suspirei.
- Eu estava pensando em Severo – admiti. – Não estou sendo um bom amigo no momento.
- Como assim?
Pressionei os lábios, sem responder. Até onde eu sabia, o conhecimento de Evans com aquela marotagem era limitado a saber que eu e Sirius havíamos criado a azaração. Eu não sabia se Black tinha compartilhado com ela a forma com que havíamos lançado, mas achava que não; envolveria explicar sobre a Capa de Invisibilidade e, por alguma razão, eu confiava que ele tinha mantido sua palavra e não contado a ninguém.
- Quando nós fizemos aquela azaração – expliquei, lentamente -, uma parte do plano envolvia distrair Severo e fui eu que fiz isso. Enganei o meu melhor amigo e usei a nossa amizade, como parte da distração.
Evans me olhou atentamente, e achei que ela conseguia ver exatamente o que eu estava sentindo, mas não conseguia colocar em palavras.
- Eu ia dizer que você não teve escolha, mas você teve. Esse é o maior problema, não é? Você não se arrepende.
Lembrei do riso de Mary quando viu o efeito da azaração sobre Mulciber, e aquela lembrança me trouxe tanto satisfação quanto eu senti da primeira vez. Se eu fechasse os olhos, podia ouvir as risadas que haviam ecoado no Salão Principal, podia ver o pânico e a humilhação no rosto de Mulciber.
- Não – admiti. – Eu faria tudo de novo. Quando eu vi o rosto de Mary depois do feitiço...
Ela me encarou por um segundo a mais do que era necessário antes de desviar o olhar.
- Concentre-se nisso – recomendou. – Há pessoas que fazem tudo valer a pena. – Ela suspirou. – E sobre Snape... Acho que vocês vão se acertar. Não entendo muito bem – acho que ninguém entende -, mas qualquer um que olha para vocês consegue ver que vocês realmente se importam um com o outro.
- Espero que você esteja certa. – Olhei para a poção dela, cuja tonalidade de azul estava bem diferente da minha, e falei antes que eu pudesse me arrepender. – Você gostaria de conversar com Severo. - Lily ergueu as sobrancelhas, surpresa. – Quero dizer, isso que você está fazendo com a poção, experimentando, é algo que ele faz com frequência.
- Snape é bom em Poções – ela concordou, neutra.
- Ele é genial, na verdade... Se algum dia você tiver interesse, Severo tem dicas muito boas sobre como testar e criar poções, ele se interessa bastante por esse assunto.
- Certo – ela disse, embora não parecesse muito certa.
- Eu acho que vocês se dariam bem – expliquei, sem querer admitir que a ideia de Lily e Severo tendo uma conversa normal me soava alienígena. – Poções é meio que uma forma de escape para ele, sabe? É o que ele pode treinar durante o verão, então é terapêutico quase.
- Durante o verão? Ele não pode só usar magia como todos os outros bruxos fazem durante as férias? – ela perguntou, um tom de provocação na voz.
- Como assim?
Evans revirou os olhos.
- O Ministério da Magia só detecta magia próximo a menores, mas não sabe quem fez. Isso faz com que tem bruxos adultos em casa – sangue puro – consigam aproveitar à vontade durante o verão, enquanto – os olhos dela relampejaram de raiva – pessoas como eu fiquem para trás sempre.
- Oh – hesitei, ciente de que embora meus pais não me deixassem fazer magia livremente em casa, eu às vezes ignorava essa restrição, sem que nenhuma repreensão viesse do Ministério da Magia. – Eu nunca tinha pensado nisso. Não parece justo.
- Não é justo. Não é para ser justo. - Ela riu, sem humor, claramente incomodada com algo. – Mas é como a política funciona no Ministério da Magia.
- Bem – comecei, sem graça -, se ajuda, Severo não é sangue puro, o pai dele é trouxa, então ele também não pode fazer magia em casa.
Evans piscou, mas de alguma forma meu comentário pareceu diminuir sua irritação.
- Eu não sabia que ele era mestiço. Achei que todos os sonserinos fossem sangue puro.
- Não tem tantos assim, graças a Merlin – respondi com uma tentativa de sorriso. – Sei que ele é da Sonserina, mas ele nunca pareceu ter qualquer problema com você... ou qualquer outro nascido trouxa.
Por um instante, me lembrei do quanto Severo parecia fazer pouco caso de Mary – a única outra grifinória, no nosso ano, que também era nascida trouxa -, mas ignorei. Se Severo tinha algum problema com Mary, seria a insígnia dourada e vermelha em suas vestes; por toda a paixão que ele sentia por Lily, era claro que ele não se importava com a genética dela.
- Eu... eu vou considerar sua sugestão, sobre Snape – Lily disse, se voltando para sua poção. Ela parecia distante, mesmo enquanto suas mãos trabalhavam nos ingredientes para finalizar a poção.
Trabalhamos em silêncio por alguns minutos. Coloquei o último ingrediente no caldeirão e deixei a poção fervendo, aguardando os últimos segundos necessários para a poção finalizar. Ao meu lado, Evans já guardara suas coisas, separando sua poção em pequenos frascos que ela guardava na mochila. Entre os livros que havia lá dentro, reconheci um livro com uma capa dourada – o que eu lhe enviara de Natal.
Hesitei por apenas alguns segundos, me convencendo de que não havia nada demais em falar desse assunto com ela.
- Eu não tive oportunidade de falar antes, mas obrigado pelo presente de Natal.
Lily me olhou, com um pequeno sorriso nos lábios.
- Achei que você iria gostar... e pensei no pomo-de-ouro como um presente de desculpas? – ela pareceu hesitar. – Sabe, em relação a todo...
Ela fez um gesto vago; acenei, porque eu entendia. De alguma forma, agora que eu tinha conseguido uma vaga no time por mérito próprio, toda aquela história de armação não parecia importar tanto.
- E obrigada pelo livro, está sendo uma ótima leitura. – Lily me olhou curiosa. – Onde conseguiu um livro sobre necromancia?
- Tem uma livraria em Godric's Hollow que vende todo o tipo de livros. Achei que seria útil para uma futura inominável.
Evans mordeu os lábios e seu rosto perdeu toda a expressão, daquela forma que ela ficava quando não sabia bem o que sentir ou dizer.
- Lily? – perguntei, cauteloso, incerto do que eu havia dito de errado. Ela piscou, como se despertasse.
- A poção está perfeita – ela disse à guisa de responder. – Acho que você não está mais precisando de ajuda, Tiago.
Por um instante, eu não compreendi o que Evans disse. Mas então o impacto do que ela queria dizer me atingiu, e meu estômago deu voltas, de uma forma desagradável.
Ela estava certa, é claro, e com certeza Evans tinha coisas mais interessantes para fazer do que acordar cedo no sábado só para ficar me olhando fazer poções – e eu certamente poderia aproveitar o tempo também estudando alguma outra matéria, para garantir todas as notas que eu precisava. Mas esse tempo com Evans era... outra coisa.
Era um momento nosso – um momento que eu não precisava me importar com Black, e que a sombra de Severo não pairava me culpando pelos meus sentimentos. E, o que quer que outras pessoas pudessem ver, o que quer de imagens que minha mente pudesse conjurar quando o perfume dela me envolvia ou quando estávamos próximos demais, era inocente.
Era um momento em que éramos amigos.
- Mas nós podemos continuar, claro – ela acrescentou, num tom hesitante quando eu não falei nada. – Eu... quero dizer, está sendo útil para mim também – completou, a voz mais estável.
- Eu com certeza estou aproveitando – garanti. – Podemos continuar, então?
Evans acenou. Achei que o rosto dela estava corado, mas quando ela finalmente se virou para mim, só havia aquele sorriso maroto de volta no seu rosto.
- Exceto no próximo sábado – Evans começou. – Tem uma visita marcada para Hogsmeade. Se você estiver livre, quer me encontrar no Três Vassouras? – E então ela piscou, como se tivesse percebido o que acabara de dizer. – Quero dizer, encontrar uns amigos... É meu aniversário no sábado, tem uma sala reservada no primeiro andar para uma festa. Não é nada grande, só algumas pessoas, algumas garrafas de cerveja amanteigada e...
- Evans – interrompi, achando graça. – Você está exagerando. Eu adoraria ir, obrigado pelo convite.
Ela sorriu animada, e, numa ação que estava ficando mais frequente do que o razoável, ignorei o quanto aquilo fez meu pulso acelerar.
A montanha de dever fazia com que eu passasse mais tempo na biblioteca do que eu gostaria, mas ao menos eu não estava sozinho. Desde que eu tinha conseguido a vaga no time de quadribol, os outros jogadores me faziam companhia durante os jantares e, aqueles que estavam também no mesmo ano que eu, ou no sétimo ano, me acompanhavam nas visitas na biblioteca. Às vezes, mesmo que não combinássemos, eu estudava até com os Marotos.
Com isso, eu quase nunca estava com Severo. As aulas de Poções eram os únicos momentos em que nos encontrávamos e, ainda assim, não havia conversa. Passávamos as aulas em silêncio, trabalhando nas poções, e é claro que o silêncio me ajudava a me concentrar – eu tinha vários sucessos recentemente, o que fazia Severo estreitar os olhos, mas ele não falava nada.
Dessa forma, me surpreendi quando Severo se sentou na minha frente, o rosto sério e com a testa franzida de um jeito que me fez duvidar se ele, algum dia, voltaria a relaxar. Olhei à volta. Excepcionalmente, eu estava sozinho na biblioteca. Já era quase dez horas da noite e a biblioteca fecharia em breve; eu tinha ido embora com os colegas do time, mas tinha ficado com uma dúvida em um ponto da redação de Transfiguração e retornado à biblioteca para uma última consulta.
- Olá – falei, quando Severo não disse nada por alguns segundos. Ele ergueu as sobrancelhas.
- Você se juntou ao time de quadribol - ele disse e apesar de ser uma constatação apenas, havia um inegável tom acusador e aborrecido na sua voz.
Minha irritação surgiu em resposta, me inflando.
- Sério? Você não fala comigo há semanas e isso é a primeira coisa que decide me falar?
Ele cruzou os braços.
- Eu não estou falando com você? Você quem está me ignorando! Desde aquela história com Mulciber... – Severo me encarou. Ele parecia desconfiado, mas eu sabia que não havia no que ele sustentar sua desconfiança e isso me dava toda a calma para lhe devolver o olhar sem piscar, sem parecer culpado. – O que está acontecendo com você?
- Não tem nada acontecendo comigo – retruquei em voz baixa, observando que a bibliotecária nos lançava olhares irritados. – Só não suporto seus amigos e me parece que você não vive sem eles mais.
- Eu posso ter outros amigos além de você, sabe – Severo ironizou. – Além disso, você seria bem-vindo a andar conosco se não fosse... – Ele se interrompeu, antes que eu o pudesse fazer. – E não é como se você não tivesse opções. Time de quadribol? Qual o próximo passo, andar com os populares?
Desprezo irradiava de sua voz. Eu quis brigar, mas a pior parte é que eu podia lembrar exatamente de nós dois conversando e tirando sarro dos alunos populares da escola – além de Black, todos aqueles que andavam pelos corredores com a aura de arrogância e tranquilidade que vinha de saber que tudo estava bem, que todos os adoravam. Aqueles que jamais seriam alvos de feitiços no meio do corredor ou de uma marotagem.
- Você disse que não tinha interesse em ser popular – ele continuou. – E agora consegue arrancar McLaggen do time...
- Eu não fiz nada disso – respondi, ultrajado. – McLaggen resolveu sair e abriu uma vaga. - Me levantei, começando a recolher os livros para guardar. - Não vou me sentir culpado por ter sido escolhido para a vaga, se você tivesse visto a seleção...
- Ah, claro – Severo resmungou, me seguindo entre as estantes. – Um talento no campo de quadribol e você já se acha superior aos outros.
- Eu não falei nada disso – me defendi, cada vez mais irritado. – Não estou me achando superior a ninguém... E não posso ser culpado se você se sente mal porque sou um bom jogador. – Revirei os olhos. – É como eu me sentir mal porque você ser claramente muito melhor em Poções que eu.
Em geral, Severo se sentia muito satisfeito com seu inegável condão para Poções. Achei que ele poderia entender até – voar não era só natural por mim, eu sempre havia treinado muito também, da mesma forma que ele se dedicava a poções. Era uma comparação justa.
Mas dessa vez o meu elogio não produziu qualquer efeito. Supus que ser bom em poções nunca havia aberto portas para ele – certamente não o havia tornado mais popular e não havia lhe dado a única companhia que ele realmente queria.
- Agora só falta começar a andar com os Marotos – ele acrescentou, alheio aos meus pensamentos. – Mas não vai adiantar nada. Black nunca iria aprovar você e Evans.
Minha mão parou no ar, no meio do gesto de colocar o último livro na prateleira. Eu me virei para Severo, em dúvida se estava mais surpreendido com o que ele tinha dito ou com seu tom – Severo não estava agressivo. Ele parecia estar me avisando.
- Eu não sei do que você está falando – murmurei. Severo revirou os olhos.
- Não minta para mim, Tiago. Eu andei refletindo muito nos últimos dias, sobre como você está distante de mim, como se... se tivesse feito algo errado. E então eu percebi qual é o problema. Eu sei que você está atraído por Evans. Eu nem te culpo por isso – ele apontou para si mesmo. – Ninguém melhor que eu sei o poder que Lily Evans tem, mas... nunca vai acontecer. É o que você me disse várias vezes, e você estava certo.
Uma parte de mim queria dizer para ele que nunca aconteceria ele e Evans. Eu gostaria de falar a ele como Evans jamais aconteceria com ele porque Snape era da Sonserina e andava com uma turma extremamente sinistra. Não havia nada que eles tivessem compartilhado durante todos os anos de Hogwarts. De fato, eu não entendia sequer completamente o que havia em Lily Evans que atraia tanto Severo Snape – quero dizer, Evans era linda, mas certamente tinha outras garotas lindas em Hogwarts, e, no entanto, Severo nunca havia olhado para outra pessoa. Ele era praticamente obcecado por ela, e isso contava pontos em seu desfavor – como regra, nenhuma pessoa sã se sentia atraída por alguém que era fixado nela.
Mas, de alguma forma bem estranha, era essa adoração dele por ela que me fazia continuar a confiar Severo, mesmo agora quando ele insistia em continuar amigo de Mulciber, ou quando não negava, ultrajado, a ideia de se juntar a um Lord das Trevas algum dia. Se Severo podia adorar tanto alguém como Lily Evans, que jamais negava o fato de que tinha pais trouxas, não havia como ele partir para o lado das trevas ou se juntar a um Lord das Trevas que admitia não suportar bruxos como Evans.
Não fazia sentido.
Ele continuava me encarando. Pensei sobre como nunca iria acontecer também entre mim e Evans, e como as pessoas não paravam de me alertar sobre isso.
Talvez eu devesse começar a ouvi-las.
- Eu sei disso – falei finalmente, numa voz cansada, guardando o último livro. – Evans é... quero dizer, você está certo. Não vou negar que eu... Mas eu sou só amigo dela, é claro que não tenho ilusões, considerando ou não Black. Não vai nascer nada daí. – Ele me encarou, tentando ler alguma coisa nos meus olhos. – Eu não tenho expectativa de nada com Evans. – Me lembrei dos avisos de Marlene. – Seria complicado e eu não quero complicação.
Severo acenou, parecendo que um grande peso tinha saído dos ombros dele.
- Mas não vou deixar de jogar quadribol – acrescentei. – Eu realmente gosto de voar, não é sobre ser popular ou nada disso. - Ele acenou mais uma vez, ainda descrente, mas não insistiu no assunto. – Então será que podemos, sabe, superar isso? Rir do fato de que temos uma queda pela mesma garota e voltarmos a ser melhores amigos?
Ele me olhou por alguns segundos antes de sorrir, mais tranquilo.
- Nós somos melhores amigos, mesmo quando você está sendo idiota.
- É claro que sim, você sempre foi idiota – repliquei, e trocamos uma risada que nos fez sermos expulsos da biblioteca.
Mas pela primeira vez em muito tempo, me senti tranquilo com Severo.
Em nome da nossa recém-reconciliada amizade, me sentei na mesa da Sonserina no sábado de manhã para o café. A mesa não estava cheia – várias pessoas já estavam na fila para sair para Hogsmeade -, mas nos sentamos em um dos cantos, isolado do restante dos alunos. Severo ergueu as sobrancelhas quando eu havia sugerido isso, mas ele não discutiu.
Estávamos sendo bem simpáticos um com o outro – eu sabia que iria passar; não era a primeira vez que tínhamos discutido sobre algo. Pelo menos, as aulas estavam sendo bem mais tranquilas agora que voltáramos a conversar. A última poção que eu tinha feito quase havia explodido, mas Severo me ajudara a consertar – uma das raras vezes que eu me lembrava dele efetivamente ter me ajudado na aula de Poções, e de eu ter aceitado seu auxílio.
- Nenhum encontro hoje? – ele zombou, só um pouco malicioso. – Achei que um jogador de quadribol atraísse mais atenção que isso.
- Foi o que me prometeram, mas fui enganado – brinquei, revirando os olhos. – O que vai fazer hoje?
- Bem... – ele hesitou, subitamente sem graça. – Eu tinha combinado de ir com Avery e... Quero dizer, nada demais, só andar pelas lojas e experimentar ir no Cabeça de Javali. – Seu olhar encontrou o meu. – Mas se quiser, podemos ir juntos.
- Na verdade, eu... – respirei fundo, me sentindo tão desconfortável quanto ele parecia estar. – Evans me chamou para uma festa no Três Vassouras. Não é nada demais, é...
- É aniversário dela hoje – ele completou, bebendo da sua taça e olhando para a mesa da Grifinória, com a expressão de cobiça e adoração que eu conhecia bem.
- Ela não chamou só a mim, claro, tem todo um pessoal da Grifinória, Mary vai estar lá e...
- Tiago – Severo me interrompeu. Fitei-o; ele não parecia irritado, ou, Merlin me livre, com aquela expressão de inveja que ele reservava para Sirius Black. – Eu sei que não tem nada demais, vocês são da mesma casa, são colegas, é a vida – ele olhou para o outro lado da mesa da Sonserina, onde Avery e Mulciber tomavam seu café-da-manhã e me ocorreu que talvez as nossas vidas tivessem um rumo diferente. Franzi a testa. – Você vai levar algum presente?
- Ela disse que não precisava – murmurei, me questionando de repente se eu deveria ter ignorado essa recomendação de Evans. A lembrança de Sirius Black embrulhando uma caixa me voltou à cabeça e, subitamente, entendi para quem era o presente que ele organizava. – Ah, droga. Eu deveria dar algo, não?
Ele pareceu se divertir com a dúvida evidente no meu rosto.
- É o que se espera em um aniversário – Severo respondeu, ainda num tom leve. – Você consegue comprar algo em Hogsmeade antes. Talvez um livro?
- Não, eu já... – me interrompi. Severo ergueu as sobrancelhas, confuso. – Quero dizer, não parece um presente legal de aniversário.
- Você sempre me dá livros de presente – Severo observou. Ele franziu a testa, olhando para a mesa da Grifinória, e uma expressão de nojo surgiu em seu rosto. Segui seu olhar; Remo Lupin acabara de aparecer, e ele abraçava Evans, sem dúvida a parabenizando. – Você sempre pode arranjar uma coleira para ela colocar no Lupin – ele resmungou, sem se preocupar em abaixar a voz.
- Ei – chamei sua atenção. – Você sabe que não deve falar disso...
- Eu não falei nada – ele argumentou, olhando irritado para as costas de Lupin como se ele tivesse acabado de lhe ofender pessoalmente. – Prometi que não ia falar, mas... vai me dizer que você realmente não se preocupa com o que ele é? Que você dorme confortável sabendo que no mesmo quarto...
- Sim, eu durmo. Você sabe perfeitamente que... a condição dele... é inofensiva durante a maior parte do tempo.
Severo me encarou, incrédulo.
- Ele é um monstro – ele disse, mantendo miraculosamente a voz baixa. – Perigoso para qualquer ser humano, incapaz de se controlar, e se Dumbledore tivesse qualquer noção...
Severo continuava falando, mas eu parei de entender o que ele dizia. Uma única frase sua reverberava na minha cabeça, como se fosse parte de um quebra-cabeça que eu finalmente completava.
Perigoso para qualquer ser humano.
Qualquer ser humano.
Ser humano.
E de repente eu soube o que deveria fazer.
- Tiago? – ouvi a voz de Severo, bem de longe, e percebi que eu havia me levantado.
- Eu preciso falar com Sirius – falei, sem prestar realmente atenção nele. Alguma parte de mim registrou que a surpresa dele se acentuou, e suas feições se contorceram numa careta, mas antes que ele pudesse falar qualquer coisa, eu me afastei.
Os Marotos estavam a caminho da saída. Eu hesitei um pouco; não queria falar com Evans, caso eu estivesse errado, e não queria falar com Lupin, porque eu sabia que ele não iria concordar.
Isso só me deixava com uma pessoa, realmente, para falar.
- Sirius – chamei, parando-o. Quando ele me olhou, pude ver um lampejo de preocupação em seu rosto; eu me perguntei distraidamente o que ele deveria estar vendo no meu rosto. Meu corpo todo parecia tremer de excitação. - Preciso falar com você – falei, me surpreendendo com o fato de que minha voz estava calma.
Sirius pestanejou, mas algo na minha expressão o fez concordar. Ele se virou para Pettigrew, que havia parado também com o meu chamado; Pedro pareceu entender na hora o olhar que Sirius lhe lançou.
- Eu aviso que você já vem – ele disse lealmente, alternando seu olhar entre mim e Sirius. Finalmente, ele correu para se aproximar de Evans e Lupin, que estavam mais a frente, conversando entre si, sem notar que Sirius havia ficado para trás.
Sirius se voltou para mim, curioso.
- Tiago? – ele chamou e, por um instante, ele me lembrou Severo me fazendo a mesma pergunta um minuto antes. Respirei fundo.
- Já sei como vamos resolver o problema de Lupin, quero dizer, o problema peludo dele. – Sorri para Sirius, me sentindo mais confiante e animado do que eu me sentia desde o primeiro jogo de quadribol. – Você vai se tornar um animago.
No próximo capítulo: Tiago e Sirius trabalham juntos em seu novo projeto; Sirius toma uma decisão que afeta sua amizade com Lily.
