Capítulo 11

Natal

"You are the start of something new."

"This" – Ed Sheeran.


Snape bateu à porta dos aposentos de Elizabeth no início da madrugada após muito deliberar se deveria o fazer ou não. Tinha consciência do que implicaria chamá-la nas primeiras horas da madrugada para dizer que estava bem; sabia que era uma atitude inepta, sabia que seria um caminho perigoso a se trilhar, sabia que apresentava uma nova face do estranho relacionamento entre eles e, mesmo assim, ele bateu.

Elizabeth o atendeu assustada. Seus olhos castanhos, ainda com resquícios da maquiagem que usara para o casamento – e Snape se perguntou o quão cansada ela deveria estar para nem mesmo ter ligado para isso – vagaram por toda imagem do homem, demorando-se ao fitarem as vestes ainda mais pesadas do que as habituais e a máscara de comensal pendendo na mão esquerda. Os orbes que transbordavam de preocupação, e isso tiraria o sono de Snape, retornaram para a sua face, prendendo-se às suas íris escuras como obsidianas.

— Passei apenas para dizer que estou bem. – Falou em voz baixa.

— Obrigada por avisar – ela encostou o ombro direito no batente da porta, suspirando aliviada. — Fiquei preocupada.

Ela não precisava dizer isso a ele, pois já era um sentimento claro em seus olhos. Ainda assim, a sobrancelha de Snape se arqueou, e ele disse:

— Perdoe-me – deu uma breve olhada para as vestes de dormir que ela usava. — Acho que acordei você.

— Não, não acordou. – Sentiu-se envergonhada de estar de pijama na frente dele e, por isso, abraçou-se. — Cheguei há pouco tempo, na verdade.

— Tudo bem, então. Boa noite.

— Boa noite – sussurrou enquanto o assistia caminhar até seus aposentos.

ooOOooOOoo

Elizabeth teve um último encontro com a Armada de Dumbledore antes do recesso para as festividades de fim de ano. Eles treinaram o feitiço Impedimenta e Potter prometeu ensiná-los o feitiço do patrono quando retornassem. O garoto continuava a ignorar a presença de Elizabeth e não escondia seu desagrado por ela estar ali. Hermione parecia constantemente envergonhada pela atitude do amigo, mas também não soube dizer a Elizabeth o que se passava quando a perguntou por que Harry Potter não parecia gostar dela.

Ainda naquela noite, Elizabeth decidiu, de uma vez por todas, ir ao gabinete do diretor. A conversa que entreouvira dos seus pais martelava em sua cabeça desde o casamento. Tinha dias que as perguntas que se fazia eram tão intensas que ficava absorta; às vezes nem conseguia dormir. Portanto, caminhou até a sala do diretor, encontrando Dumbledore mexendo em alguns papéis.

— O que a traz aqui a essa hora, querida? – Parecia preocupado. — Aconteceu alguma coisa?

— Meus pais estão escondendo algo de mim – disse sem rodeios.

— E por que acha isso? – O mago, então, abandonou os pergaminhos, dando atenção exclusiva à jovem mulher.

— Eu... – pareceu hesitar pela primeira naquela noite. — Eu escutei uma conversa estranha deles no casamento de Edward. Algo sobre Voldemort – brincava com os dedos sem perceber — e eles disseram...

— Disseram o quê? – Fitou-a por cima dos óculos.

— Disseram que...

Ela foi interrompida por alguém que batia à porta. Dumbledore teve sua atenção tomada e a porta abriu sozinha. A professora McGonagall adentrou o gabinete guiando Potter e Weasley para dentro. Os dois garotos pareciam muito assustados e Minerva estava agitada.

— Boa noite, profa. McGonagall, e...

— Ai! – Potter exclamou baixinho assim que seus olhos focalizaram em Elizabeth, e levou a mão à cicatriz.

— Professor Dumbledore, Potter teve um... Um pesadelo. – Minerva disse. – Ele contou...

— Não foi um pesadelo – disse ele rapidamente.

Minerva o olhou carrancuda por ter sido interrompida.

— Muito bem, Sr. Potter. Então conte ao diretor sobre isso.

— Eu... Eu estava dormindo – ele parecia nervoso. — Mas não foi um sonho comum. Foi real. Eu vi acontecer. – Respirou fundo. — O pai do Rony, o Sr. Weasley, foi atacado por uma cobra gigante.

Elizabeth arregalou os olhos com assombro e se virou para Dumbledore, que escutava tudo com os olhos cravados nas próprias mãos. Houve uma pausa constrangedora e Elizabeth e Minerva trocaram olhares confusos. Dumbledore inclinou-se para frente e olhou para o teto.

— Como você viu isso? – Perguntou ainda sem olhar para o garoto.

— Bem... Eu não sei. Isso importa? – Harry disse um pouco furioso. — Vi dentro da minha cabeça, eu acho.

— Você me interpretou mal. – Dumbledore disse em tom calmo, sem nunca olhar para o garoto. — Onde você estava quando viu o ataque acontecer? Por acaso você estava ao lado da vítima ou olhava tudo de cima?

— Eu era a cobra – disse o menino, assustado. — Eu assisti tudo do ponto de vista da cobra.

Ninguém falou nada por um momento. Elizabeth sentiu um arrepio ruim e voltou a olhar para Dumbledore esperando que ele dissesse algo. Preocupada, ela se levantou e andou até Potter.

— Harry, acalme-se. Sente aqui. – Pôs a mão no ombro dele, que se afastou como se tivesse levado um choque.

— Não encoste em mim! – Ele gritou levando a mão novamente até a cicatriz.

— Elizabeth. – Dumbledore a chamou e, com apenas um olhar, Elizabeth entendeu que era para se afastar do menino.

Deu alguns passos para trás até encostar as costas em uma das estantes e cruzou os braços, aturdida.

— Cara, calma. – Rony falou colocando a mão no braço do amigo.

— Arthur está gravemente ferido? – O diretor perguntou num tom ríspido, ainda olhando para Elizabeth que tinha a postura cabisbaixa.

— Sim. – Potter disse, enfático.

Dumbledore se ergueu muito rápido, sobressaltando todos que estavam na sala, e se dirigiu a um dos quadros na parede.

— Everard? – Disse rudemente. — E você também, Dilys.

Um bruxo pálido, com uma franja curta e escura, e uma bruxa mais velha, com longos cachos prateados, abriram os olhos lentamente, ambos pareciam estar em um sono profundo em seus respectivos quadros.

— Vocês estavam ouvindo?

— Naturalmente – a bruxa disse e o outro quadro também assentiu.

— O homem tem cabelos ruivos e usa óculos – disse. — Everard, você precisará aumentar o alarme. Tenha certeza de que ele será encontrado pelas pessoas certas.

Ambos acenaram com a cabeça em compreensão e deixaram seus quadros.

— Everard e Dilys foram dois dos mais famosos diretores de Hogwarts. – Dumbledore explicou enquanto caminhava por Minerva, Potter, Weasley e Elizabeth, e seguiu até o poleiro de Fawkes. — A fama deles é tanta que possuem retratos pendurados em outras instituições bruxas. Como são livres para vagarem entre seus próprios quadros, podem nos contar o que está acontecendo em qualquer um dos locais.

— Mas o Sr. Weasley pode estar em qualquer lugar! – Harry disse.

— Por favor, sentem-se. – Dumbledore pediu, ignorando o garoto. — Everard e Dilys podem demorar.

McGonagall pegou a varinha e conjurou mais duas cadeiras. Os dois garotos e Minerva sentaram-se, deixando a cadeira que Elizabeth ocupava antes vaga, mas a mulher continuou em pé. O diretor tocou a cabeça da fênix com o dedo e o pássaro acordou. Fawkes esticou o pescoço e observou Dumbledore através dos olhos brilhantes e escuros.

— Nós precisaremos – disse calmamente ao pássaro — de um aviso.

Houve um clarão de fogo e então a fênix já tinha ido. Dumbledore se abaixou para pegar um instrumento prateado, cuja função Elizabeth desconhecia. Carregou-o até a escrivaninha, sentou-se encarando o instrumento e o tocou com a ponta da varinha. O instrumento tiniu e começou a fazer barulhos rítmicos. Pequenas baforadas de uma fumaça verde e pálida foram emitidas de um tubo no topo. Dumbledore observou a fumaça de perto e franziu a testa. Alguns segundos depois, as baforadas se tornaram correntes fixas que ficaram espessas e serpentearam no ar. Uma cabeça de serpente surgiu do fim, abrindo totalmente sua boca. Elizabeth pensou se aquele instrumento estaria, de alguma forma, confirmando a história contada por Harry Potter e observou o padrinho em silêncio.

— Naturalmente – o mago disse para si mesmo. — Mas em essência dividido?

Elizabeth franziu o cenho, achando que aquela pergunta não fazia sentindo nenhum. Contudo, a serpente de fumaça se dividiu em duas cobras. Dumbledore tocou com a varinha mais uma vez e a fumaça desapareceu. Everard retornou ofegante para seu quadro e chamou pelo diretor.

— Tem notícias? – Dumbledore perguntou.

— Eu gritei até vir alguém correndo até a mim – o quadro disse secando a testa. — Ele não parece bem, estava coberto de sangue. Eu corri até o retrato de Elfrida Cragg para ter uma boa visão enquanto eles saíam com o Sr. Weasley.

— Dilys deve tê-lo visto chegando.

Alguns segundos depois os cachos prateados da bruxa apareceram no quadro. Ela sentou-se na sua poltrona e disse:

— Eles o levaram para St. Mungus, Dumbledore. Eles passaram pelo meu quadro o carregando. Ele parecia estar mal...

— Obrigado. – Dumbledore disse e olhou para McGonagall. — Minerva, preciso que você vá acordar os outros filhos de Arthur.

Minerva assentiu e logo encaminhou-se para sair do gabinete. Elizabeth e Harry olharam para Rony, que parecia muito apavorado.

— E quanto a Molly? – A professora perguntou quando alcançou a porta.

— Isso é trabalho para Fawkes. Mas ela talvez já saiba. Molly tem um relógio excelente...

McGonagall saiu e Dumbledore foi até a estante perto de Elizabeth e de lá pegou um pequeno caldeirão velho. Depositou-o sobre a mesa, levantou a varinha e murmurou "Portus". O caldeirão tremeu, emitiu uma luz azul transformando-se numa chave do portal. O diretor dirigiu-se a outro retrato de um bruxo com uma barba pontuda e que se vestia com as cores da Sonserina; parecia dormir profundamente.

— Phineas. – Dumbledore o chamou tentando acordá-lo.

O bruxo continuou a fingir que estava dormindo até os outros quadros também gritarem o seu nome. Ele, então, acordou teatralmente.

— Alguém me chamou?

— Eu preciso que você vá visitar seu outro retrato novamente – disse o diretor. — Eu tenho outra mensagem.

— Visitar meu outro retrato? – disse com a voz cansada. — Ah Dumbledore! Estou muito cansado.

Os outros retratos explodiram em reclamações, repreendendo Phineas e lembrando-o que ele possuía um compromisso para com o diretor regente.

— Ora, tudo bem. Apesar que ele já deve ter destruído a minha imagem, assim como fez com grande parte da família. – Phineas reclamou.

— Sirius sabe que não deve destruir seu quadro. – Dumbledore disse e Elizabeth logo lembrou que já havia visto o retrato de Phineas no Largo Grimmauld. — Você dará a ele a mensagem de que Arthur Weasley foi gravemente ferido e que sua mulher, seus filhos e Harry Potter estarão chegando ao Largo em breve.

— Arthur Weasley, ferido, mulher, filhos e Harry Potter chegando para ficar. – Repetiu em uma voz entediada. — Sim, sim... Muito bem.

Ele desapareceu rapidamente pelo canto do quadro e na mesma hora a porta se abriu. Fred, Jorge e Gina foram acompanhados para dentro com a professora McGonagall e todos pareciam assustados ainda com seus pijamas.

— Harry, o que está acontecendo? – Gina disse espantada. — A professora McGonagall disse que você viu meu pai ser ferido...

— Seu pai foi ferido enquanto ia do trabalho para a Ordem da Fênix – explicou o diretor. — Ele foi levado ao St. Mungus. Eu estou mandando vocês para casa de Sirius, onde é mais conveniente para ir ao hospital do que A Toca. Vocês encontrarão sua mãe lá.

— Como nós vamos? – Fred perguntou agitado. — Pó de Flu?

— Não, pó de Flu não é seguro no momento, a rede está sendo vigiada. Vocês irão usar uma chave do portal. – Indicou o caldeirão sobre a mesa. — Estamos apenas esperando Phineas Nigellus retornar. Quero ter certeza que o caminho está limpo para vocês irem.

Houve um clarão de chama bem no meio do escritório que deixou para trás uma única pluma dourada.

— É um aviso de Fawkes. – Dumbledore disse enquanto pegava a pluma. — A profa. Umbridge já deve saber que estão fora da cama. Minerva, cuide disso. Conte a ela qualquer história.

E a professora de Transfiguração se foi num instante.

— Ele disse que ficará encantado. – Phineas voltou ao quadro. — Meu tataraneto sempre teve um gosto estranho para convidados.

— Venham então – o diretor disse.

Potter e os Weasley se agruparam ao redor da escrivaninha de Dumbledore e logo rodopiaram e sumiram da sala. Dumbledore, então, jogou-se em cima da cadeira, suspirando e apertando o nariz com os dedos. Elizabeth continuou a encarar o espaço vazio onde segundos atrás o grupo estava.

— Arthur ficará bem – o mago disse para a mais nova, que só então pareceu acordar do transe.

Elizabeth o olhou por algum tempo e assentiu com a cabeça. Respirou fundo e olhou para as próprias mãos, lembrando-se da reação de Potter quando ela o tocou. Sentiu os olhos azuis do diretor sobre ela, mas não o olhou de volta.

— O que dizia mesmo? – ele tentou retomar o assunto dos dois. — O que seus pais disseram?

— Eles... – ela hesitou mais uma vez e finalmente encarou os olhos do padrinho, temendo descobrir o segredo dos seus pais. O pavor fora tamanho que sua ida ao escritório se mostrou inútil. Por fim, ela suspirou e disse baixinho. – Eles disseram que eu não poderia descobrir.

Não esperou uma resposta de Dumbledore e, desorientada, saiu a passos largos do escritório, seguindo para as masmorras.

ooOOooOOoo

— Dumbledore te contou? – Elizabeth perguntou a Snape quando o encontrou próximo ao Saguão de Entrada.

O professor assentiu quase imperceptivelmente com a cabeça e disse:

— Dumbledore disse que você estava lá. O que fazia no gabinete àquela hora? – Deitou seus olhos sobre ela, que desviou o olhar.

— Depois eu explico sobre isso. Estou indo para a casa do meu primo. Fiquei preocupada com eles.

Snape assentiu mais uma vez e a acompanhou até a entrada do castelo, assistindo-a se afastar aos poucos e aparatar.

Elizabeth caminhou pelo corredor escuro do Largo Grimmauld até alcançar a cozinha. Sirius estava sentado à mesa com um olhar perdido e Valentina estava fritando algo no fogão. Caminhou até a avó e a surpreendeu com um abraço pelas costas.

— Oh, minha Lizzie – a mais velha virou-se para abraçar a neta. — Que surpresa! Estou fazendo um pouco de bacon e ovos para mim. Vai querer?

Negou, alegando que já tinha tomado café da manhã em Hogwarts. Caminhou na direção de Sirius, que estendeu a mão para ela. Ela segurou a mão dele e se inclinou para lhe dar um beijo na bochecha, por fim se sentando ao lado dele.

— Me desculpa – ele começou — pela cena no casamento do seu irmão.

— Você tem algum problema mal resolvido com o Snape, Sirius, mas eu não tenho nada a ver com isso. Mas está tudo bem, deixe pra lá. – Mudou de assunto. — Eles estão dormindo?

— Foram dormir muito tarde esperando Molly chegar do hospital. – Sirius suspirou. — Mas Arthur está bem.

— Harry te contou?

— A história de que ele viu tudo sobre a perspectiva da cobra? – A prima assentiu. — Sim, contou.

— Isso é muito estranho. Voldemort possui uma cobra, não? Deve ter sido ela.

Sirius apenas concordou com a cabeça; o olhar perdido. Valentina se sentou na frente deles. Deu uma garfada no prato e disse:

— Voldemort está ficando mais forte. Essa história de Harry ter visto o que aconteceu como se fosse a própria cobra... – balançou a cabeça. — Perigoso, muito perigoso.

— Eu tenho que alimentar o Bicuço. – Sirius disse levantando-se da mesa, incomodado com a conversa sobre os perigos que envolviam seu afilhado.

Elizabeth observou a avó que parecia muito tranquila enquanto tomava seu café da manhã. A mais nova suspirou e curvou-se sobre a mesa.

— Acha que Potter foi possuído?

— Não. – Valentina respondeu olhando para o prato. — Pelo menos ainda não. Mas em breve ele tentará.

— O garoto deveria aprender Oclumência. – Valentina apenas assentiu com a cabeça, concordando com a neta.

Pouco depois os adolescentes desceram. Elizabeth foi cumprimentada pelos adolescentes e por Molly, que adentrou a cozinha um pouco depois. Harry Potter pareceu incomodado com a presença de Elizabeth e por isso ela resolveu não se demorar.

— Só queria saber como o Sr. Weasley e vocês estão.

— Arthur está bem, querida. – A Sra. Weasley respondeu, carinhosa. — E nós estamos bem, apesar do susto.

— Eu tomei a liberdade de mandar uma coruja para a Melissa. Pedi que pegasse o caso do Sr. Weasley para si.

— Oh, Elizabeth! – Os olhos de Molly lacrimejaram e ela avançou para abraça-la. — Eu nem sei como lhe agradecer. Conheci Melissa quando estive no hospital, ela foi incrível.

— Não precisa agradecer, senhora Weasley. Apenas fiz o que estava ao meu alcance.

Elizabeth se despediu de todos e logo retornou ao castelo. Após o almoço, começou a arrumar suas malas, já que partiria no fim da tarde para ficar alguns dias em Norfolk, depois passaria o Natal no Largo Grimmauld. Antes de partir, se dirigiu aos aposentos de Snape, que a convidou para entrar após alguns segundos de breve hesitação.

— Vai me dizer o que fazia no escritório de Dumbledore? – Perguntou o professor, sentando-se na poltrona defronte.

— Vai me dizer por que está curioso? – Devolveu com um pequeno sorriso que logo sumiu. Suspirou muito fundo. — Eu escutei uma conversa estranha dos meus pais no casamento de Edward. Minha mãe parecia repreender meu pai pela reação que teve naquela reunião da Ordem, mas eles falaram algo sobre a possibilidade de você, acidentalmente, me entregar a Volde... – ele se encolheu. — Desculpa. Me entregar a Você-Sabe-Quem.

— Eu jamais faria isso – sua voz era muito dura e desprovida de sentimentos além da fúria.

— Eu sei que não – adiantou-se a dizer. — E meus pais também sabem disso. Depois – continuou — falaram que eu não poderia descobrir.

— Descobrir o quê? – Franziu o cenho e viu Elizabeth dar de ombros, tão confusa quanto ele.

— Não faço ideia. Mas sei que é algo relacionado a Você-Sabe-Quem.

Então, Snape fiz um mísero movimento, como se fosse dizer algo, mas desistiu. O gesto fora tão rápido que Elizabeth perguntou-se se teria imaginado, mas sabia que não era o caso. Ela o questionou:

— Agora fala. O que você sabe? – Seu tom era firme, mostrando que não desistira caso ele tentasse desviar o assunto.

— Antes de você vir para Hogwarts – contou após alguns segundos em silêncio, sabendo que estava passando por cima das ordens expressas do diretor —, Dumbledore me contou que você era herdeira de Ravenclaw e por isso eu deveria manter sua identidade em total sigilo.

— Sim, você já me contou isso.

— Mas ele deixou muito explícito que eu não deveria revelar sua imagem ao Lorde das Trevas. Pelo jeito como Dumbledore falou, parecia que seu rosto, a sua imagem era mais importante do que sua ascendência. Não entendi o porquê e Alvo não quis explicar. Eu só assumi a responsabilidade.

Eles trocaram um olhar cúmplice e Elizabeth ofereceu um sorriso de canto. Ela se levantou e disse:

— Não quero estragar as festividades de fim de ano, sabe? Então não vou tentar descobrir nada agora. Vai ficar em Hogwarts, não é? – Ele assentiu com a cabeça. — Eu estou indo para casa e passarei o Natal no Largo Grimmauld. Bem, tenho que ir.

Snape a acompanhou até a porta, ela atravessou o batente e virou-se para ele. Encararam-se por breves segundos, um tanto encabulados por mais que não soubessem o motivo. Elizabeth, de repente, sentiu uma inevitável vontade de abraçá-lo, que foi devidamente reprimida para um canto longínquo em sua mente, mas que voltaria mais tarde para atormentá-la. Por fim, ela disse:

— Tenha um feliz Natal, Severo.

— Igualmente, Elizabeth.

ooOOooOOoo

No dia 23, Elizabeth e seus pais chegaram ao Largo Grimmauld. Edward e Emma chegariam em breve após passarem alguns dias em lua de mel na Tailândia. A família ajudou na decoração da Mansão Black que, na véspera de Natal, estava quase irreconhecível. A casa agora não possuía mais teias de aranhas nos candelabros ou poeira nos móveis. Elizabeth, inclusive, jogou um feitiço de disfarce nas cabeças entalhadas de elfos domésticos, escondendo a decoração bizarra feita pela mãe de Sirius.

— Está feliz? – Elizabeth perguntou quando se juntou ao primo na mesa.

— É bom passar um Natal fora de Azkaban e com a minha família. – Respondeu escorregando pela mesa uma garrafa de cerveja amanteigada para a prima.

— Como Harry está? – Deu um gole longo.

— Ele ficou perturbado com o que viu, é claro. Mas creio que esteja mais calmo agora.

— Sirius... – hesitou antes de suspirar. — Harry não gosta de mim. – Brincou com o gargalo da garrafa. — Ele já te disse algo sobre isso?

— Sim... – coçou a testa um tanto desconfortável. — Harry disse que a cicatriz formiga quando você está por perto.

— E o que isso significa? – Perguntou, preocupada.

— Eu não sei, Eliza. Normalmente a cicatriz dele dói por causa de Voldemort.

Aquela informação pesou sobre os ombros de Elizabeth. Agora, mais do que nunca, tinha certeza que possuía alguma ligação com Lorde Voldemort e que, provavelmente, seus pais sabiam disso e estavam escondendo dela. Desde quando escondiam isso? Será que Edward também sabia? Sua avó sabia? Dumbledore?

O som da campainha a tirou do transe. Sirius levantou-se para atender.

— Deve ser o seu irmão – comentou enquanto saía da sala.

Elizabeth o seguiu pelo corredor e viu o irmão e a cunhada adentrarem com as roupas salpicadas pela neve. No momento em que seu olhar cruzou o do irmão, soube que algo não estava certo. Sirius ajudou a carregar as malas e guiou Emma para o quarto onde ficaria com o marido. Edward caminhou para a sala de estar com a irmã ao seu encalço.

— O que aconteceu? – Perguntou de uma vez.

— Emma está tentando engravidar há alguns meses – disse fitando o fogo da lareira —, mas... nada. Nada aconteceu, nem mesmo um susto. Então, assim que chegamos da viagem, nós fomos ao médico. – Edward pôs as mãos na cintura e finalmente olhou para a irmã.

— Então?

— Emma não pode ter filhos.

Elizabeth se sentou sobre o braço do sofá enquanto absorvia a informação. Edward parecia querer segurar o choro a todo custo. Ele passou a mão no rosto e explicou:

— Ela tem o que eles chamam de útero unicórnio – suspirou. — Parece que o tecido que forma o útero não se desenvolveu direito e o útero dela tem metade do tamanho normal, além dela ter apenas uma tuba uterina e um ovário.

Elizabeth correu para abraçar o irmão que naquele momento rompeu em lágrimas. Ela também sentiu algumas lágrimas caírem dos próprios olhos, o coração apertado pelo sofrimento do irmão e da cunhada. Elizabeth ajudou Edward a se sentar e apertou as mãos dele entre as suas.

— Quer dizer – disse após se acalmar —, ela não é completamente infértil. Mas as chances de ela conseguir são muito baixas e perigosas.

— Sim... – fungou. — E mesmo que ela conseguisse, não seria fácil, você sabe por quê. – A irmã o lembrou.

— Sim, eu sei – suspirou, cansado.

Acontece que qualquer criança descendente de Ravenclaw é extremamente forte. Todas as mulheres que engravidaram dos herdeiros de Rowena passaram por gravidezes delicadas e muitas até mesmo não sobreviveram. Qualquer feto bruxo compartilha o núcleo mágico com a mãe até o momento do parto. Um bebê Ravenclaw, já tão poderoso em sua breve vida, suga quase toda a energia de sua progenitora.

Cassiopeia enfrentou uma gravidez complicada durante a gestação do primogênito. Ter um segundo filho foi um risco tremendo, mas que ela se dispôs a correr. O fato de ser uma bruxa poderosa, além da média, lhe concedeu o privilégio de ser mãe pela segunda vez, já que possuía um forte núcleo mágico, contudo não conseguiu fugir das complicações da gravidez. Na verdade, Cassiopeia era uma das pouquíssimas mulheres da família que conseguiram sustentar duas gravidezes dos herdeiros de Ravenclaw. Já o contrário acontecia com as mulheres Ravenclaw. Elas eram mais poderosas e suas gestações eram tranquilas. O caso de Emma se agravava devido sua condição. Ela não sobreviveria a uma gravidez.

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Elizabeth acordou na manhã de Natal encontrando alguns presentes ao pé da cama. Ela se livrou da coberta e correu para os embrulhos como uma criança. Os pais haviam lhe dado um conjunto de pulseira e brincos de cristais e rubis; a avó, um belíssimo exemplar de Orgulho e Preconceito de Jane Austen; o irmão lhe presenteou com um cordão delicado de prata, com um pingente de águia, e Emma deu uma edição inédita de Mil ervas e fungos mágicos. Entre os presentes estavam, também, um brinco de ouro de Sirius, uma caixa de bombons de Lupin (Elizabeth sentiu-se envergonhada por não ter lembrado de comprar nada para ele), uma blusa simples de Jesse, um belo vestido lilás de Melissa, uma bota de Paul e o tradicional suéter da Sra. Weasley.

Elizabeth vestiu o suéter azul com um grande "E" bordado e desceu para a cozinha. Encontrou uma cena delicada. Molly estava aos prantos por causa do filho Percy que havia devolvido o suéter. Valentina e Cássia a consolavam e Elizabeth achou melhor se afastar. Aproveitou o momento para enviar o presente que comprara para Snape, sabendo que chegaria com um pouco de atraso.

Já perto do almoço, com Molly mais calma, Elizabeth a agradeceu pelo presente e trocaram um abraço aconchegante. Edward e Emma pareciam abatidos, mas tentavam agir o mais normal possível. Ao fim do almoço, todos permaneceram sentados à mesa, bebendo e conversando. Foi quando Sirius pareceu se lembrar de algo e se levantou. Ele voltou com uma caixa nas mãos e a entregou para Elizabeth.

— Chegou para você quando ainda estava dormindo. Não tem nome, mas conferi e é seguro.

Os olhos de sua família estavam sobre si, os outros estavam distraídos em suas conversas. Ela puxou o laço branco que prendia a caixa, abrindo-a. Encontrou um belo cachecol verde e prata. Franziu o cenho enquanto puxava a peça para fora da caixa, balançando a cabeça em total descrença.

— Isso caiu quando você puxou o cachecol. – Emma disse estendendo um pequeno pedaço de papel dobrado.

Elizabeth abriu o papel e leu:

"Elizabeth,

Feliz Natal.

Snape."

Elizabeth não escondeu o sorriso que invadiu seu rosto. Ela começou a rir ainda fitando o pequeno pedaço de pergaminho.

— De quem é? – O pai perguntou.

— Er... – sentiu as bochechas corarem e tentou, sem sucesso, parar de sorrir. — Do Snape.

Ao nome, a maioria a olhou como se fosse um alienígena fazendo malabarismo com chifres de unicórnio. Sentiu suas bochechas corarem, mas a mãe a salvou quando anunciou que havia uma deliciosa sobremesa à espera de todos. Em segundos ninguém mais lembrava do presente de Snape para Elizabeth, e ela devolveu o cachecol para a caixa, perguntando-se quais eram as chances daquela coincidência acontecer.

Um pouco mais cedo naquele mesmo dia, Snape chegava ao Salão Principal para o café da manhã. Imaginou que àquela hora o presente que enviara para Elizabeth já deveria ter chegado ao Largo Grimmauld. Havia travado uma grande batalha entre presentear ou não a sua estagiária. Ele sentia medo de como Elizabeth poderia interpretar aquilo. Era a mesma lógica de quando decidira bater à porta dos aposentos dela para avisar que estava bem. Sabia o que o presente implicava, o que significaria entre eles dois. Mesmo assim, ele comprou e enviou o presente.

— Hem-hem. – Umbridge sentou-se à mesa e arrancou o professor de seus pensamentos. — Feliz Natal, professor Snape.

O homem permaneceu em silêncio, já que sabia que se atrevesse a dizer algo acabaria ofendendo a Alta Inquisidora. Duas corujas adentraram o Salão, voando graciosas enquanto carregavam um pacote. Elas pousaram sobre a mesa, deixando o pacote na frente do professor e voaram em saída. Snape, certamente, estranhou aquilo. A única pessoa que lhe dava presente no Natal era Dumbledore e, às vezes, Minerva. Abriu a caixa encontrando um cachecol azul escuro com alguns discretos fios prateados. Sem acreditar, Snape pegou o pergaminho que estava sobre o cachecol e leu:

"Severo,

Espero que nos dias em que a Sonserina não estiver jogando você possa retribuir o favor que lhe fiz e torcer para a Corvinal. Desejo que seu dia seja agradável e feliz e que tenha gostado do presente. Foi um pouco difícil de escolher.

Feliz Natal,

Elizabeth."

Snape nem ao menos percebeu que carregava um curto sorriso no canto dos lábios e soltou uma risada pelo nariz.

— De quem é o presente? – Dumbledore perguntou com um olhar interessado.

— Não é dá sua conta.

A grosseria não soou estranha para o diretor, que apenas deu de ombros e voltou a conversar com Minerva. Snape, por sua vez, releu o bilhete alguns vezes, perguntando-se quais eram as chances daquela coincidência acontecer.

Quais eram as chances de ele e Elizabeth terem se presenteado com o mesmo presente?


Notas da autora

- Contém trechos adaptados da obra de J.K. Rowling, "Harry Potter e a Ordem da Fênix", 2003.