– O senhor viu alguma garotinha baixa de cabelos loiros escuros?

O pipoqueiro encarou a jovem de cabelos castanhos presos a um coque que usava um belo vestido violeta, com luvas brancas e brincos pequenos brilhantes. Marina não conseguia disfarçar seu desespero, gritava por dentro de preocupação, ainda mais percebendo que o pipoqueiro parecia não saber de nada ou não viu nada que fosse relevante.

– Não vi nada, senhorita. Mas já experimentaram olhar na roda gigante ou em qualquer outro brinquedo?

Marina revirou os olhos. Por onde ela passou, ouvia a mesma coisa. Mas Isabella não teria coragem de ir em qualquer coisa sem a companhia de alguém, tinha sido de fato sequestro ou uma tentativa de Serguei de chamar a atenção. Lowe cruzou os braços, dando uma olhada em tudo o que estava ao seu redor com certo arrependimento em ter deixado a menina ir comprar pipoca sozinha em um lugar tão grande, sua sensatez parecia ter fugido dando lugar a uma certa burrice. A única maneira era voltar a procurar e se nada de importante fosse encontrado, chamar a segurança ou a própria polícia.

Sem muitas alternativas favoráveis, voltaram a dar uma volta completa por toda o parque. Perguntaram, deram características, olharam para o chão para averiguar se não tinha qualquer vestígio, mas dessa vez, Isabella não usou botas sujas de lama. Nada. Serguei havia o seu lado psicopata de maneira muito inteligente. Desaparecimento eram agonizantes, não se sabia ao certo se encontraria a vitima com vida ou sem, machucada ou não, era uma situação difícil que Marina odiaria ter que passar, estava agonizada apenas com o fato de pensar que poderia encontrar a irmã mais nova morta. Quando as esperanças se apagaram como a chama de uma vela que se desvanece mediante um sopro inesperado, a jovem passou a chorar, sentada na escada de um brinquedo sem funcionamento, mas que tinha um operador.

– Vou chamar a segurança. – Lowe estava agoniado por dentro, mas não conseguia expor sua preocupação, era um homem com dificuldade de mostrar o que sentia. – Me espere aqui, qualquer coisa se esconda.

– Eu só quero encontrar minha irmã. – Falou, baixinho.

– Nós vamos encontrar a Isabellinha. – Beijou a esposa no rosto, em seguida caminhando para encontrar algum segurança.

Enquanto Lowe fazia o que estava ao seu alcance, Marina encarava o céu estrelado acima de seu, a última vez que viu o céu assim foi um dia antes do naufrágio, e posteriormente a todo aquele desencarne coletivo intensamente traumático, as noites passaram a ser mais sombrias, mas as estrelas, passaram a ser ainda mais brilhantes. Nenhuma luz artificial daquele parque poderia se comparar ao brilho dos astros feitos pelo Criador em seu poder de ser tão perfeito e detalhista. A jovem teve o rosto iluminado, e suas lágrimas cintilavam como um cristal. Ela ficou com uma beleza estonteante em contato com a luz natural vinda dos céus como, quem sabe, um conforto ou uma resposta. Seus cabelos castanhos foram se tornando como ondas de chocolate, os olhos azuis, uma joia esculpida a mão e perfeitamente esculpida. Encostou-se no corrimão, tendo sua cabeça preenchida por remorso, ela sabia que tinha errado com a irmã muitas vezes.

– Sabe que te ver sofrendo me dá prazer? Se bem que ainda acho pouco mediante o que fizestes comigo.

Serguei estava atrás dela, em pé, com as mãos nos bolsos. Marina virou-se para trás devagar, não pretendia rebater para não lhe causar problemas, mas se ele fosse ousasse demais, poderia considerar uma agressão física.

– Vocês dois formam um casal perfeito. Ambos são incrivelmente burros. A fusão da burrice que habita no corpo de vocês me permite fazer o que quiser, quando eu quiser, como se fossem minhas marionetes.

– Você é simplesmente ridículo.

– E você, uma burra iludida por um marinheiro de quinta categoria que pode ser casado ou ter uma noiva nas entrelinhas. Mas como a senhorita Potter nunca usa a cabeça...

– Ele tem uma noiva sim. Sou eu. Aliás. – Se levantou da escada. – Esposa. Prazer, senhora Lowe, ao seu dispor.

– Me poupe. – Ele deu uma risada maléfica. – Os documentos provam isso? Acho que não. Sabia que isso é crime?

– Tentativa de assassinato também. Parece que o senhor é tão burro quanto eu.

– Posso até ser burro. – Ele desceu as escadas, exalando um cheiro de perfume insuportável. – Mas sou mais inteligente que vocês dois, pode ter absoluta certeza. Você e Lowe não passam de dois adolescentes iludidos, se bem que não, tu podes ser a iludida e ele o aproveitador. Que lindo seria a senhorita grávida e abandonada. – Falava no sentido de humilhar. – Seu marinheirinho teria várias mulheres a bordo dos navios da White Star enquanto ficarias sozinha em uma casa tenho que trocar um bebê ou então... sem marido e com um filho, para completar uma reputação na lama. Eu sei de tudo, sua... profana. – Falou a ultima palavra soletrando, para humilhar ainda mais.

Marina deu um tapa no rosto de Serguei. Nunca tinha sido tão humilhada. Chorava de ódio.

– Com certeza eu viveria isso se fosse casada com você. Eu tenho ódio de você, Serguei, ódio! Você me dar ânsia de vomito! – Ela cuspiu no rosto dele. – É isso que merece, seu inútil, psicopata!

Serguei perdeu a cabeça. Puxou Marina pelo braço com brutalidade, a levando para o brinquedo que estava parado por falta de manutenção, estava com um problema técnico que poderia custar a vida de quem fosse radical demais para brincar nele. Mas ele não queria saber, queria matar aquela rameira naquele exato momento, não se importava se o plano era outro, ele queria que o impulso desse certo e de Isabella, se livraria depois, já tinha planos para a menina. O russo havia ameaçado o operador uma arma carregada, aquele homem de barba foi obrigado a colocar o brinquedo em funcionamento, mesmo que a orientação fosse a de ninguém brincar ali.

– Vamos ver quem de nós vai ter sorte. – Serguei debochou, sorrindo maleficamente. – Te encontro no inferno.

– Talvez o senhor vai descer sozinho.

Marina se aproveitou pela demora do brinquedo. Saiu daquele passatempo com atestado de morte rapidamente, correndo pelas pessoas como se não tivesse o amanhã, procurando pela sala de segurança ou por alguém que pudesse ajudá-la. Toda ação mal feita tinha seu preço. A jovem estava desesperada, ainda mais quando percebia os olhares de desprezo que recebia das pessoas ao seu redor. Chegou até a saída do parque, encostou sua cabeça na parede e respirou fundo. Lowe iria procurar em algum momento e ela iria reconhecer sua firme e autoritária voz. Não conseguia assimilar nem pensar nada.

– Ainda não acabamos! – Serguei apareceu novamente.

– Vai pro inferno! – Marina começou a agredi-lo fisicamente. – Me deixa em paz! – Deu-lhe um soco no olho. – Eu te odeio. – O chutou.

Serguei se levantou do chão e a socou, em seguida a puxou pelo cabelo e a colocou no carro brutalmente, junto com a mãe e a irmã. Isabella estava com o rosto machucado e tinha arranhões nos braços, Riley portava apenas um olho roxo. Marina abraçou a irmã mais nova, que estava quieta e pensativa, era assim que ela ficava quanto estava triste, a garota tossia bastante. Serguei assumiu o posto de motorista e saiu em alta velocidade.

Lowe nem sabia o que falar. Estava agoniado com o relato do operador, caiu sentado em uma cadeira que havia ali perto e se arrependeu de não ter feito nada no começo. Todos na sala estavam paralisados, buscando suas próprias respostas, mas a policia já tinha sido notificada sobre a situação e estava indo rapidamente para o parque que fora obrigado a fechar suas luzes e paralisar seus brinquedos por conta de dois desaparecimentos que tinham ligação e poderiam ter o mesmo autor. – ninguém estava duvidando e Lowe já havia feito um escândalo contando tudo o que aconteceu desde o Titanic.

– Boa noite. – O policial entrou na sala.

– Boa noite mesmo. – Lowe estava irritado. – Com a mulher que amo desaparecida e minha cunhada também, essa noite tem tudo de bom mesmo, senhor.

O policial não se revoltou, entendeu a fúria do quinto oficial e não questionou nada, estava disposto a ouvir e a resolver aquela situação.

– Bom, quem vai começar a me depor tudo o que aconteceu? – Indagou o homem.

O operador deu dois passos à frente.

– Tudo o que posso falar, senhor, é que vi um homem alto, de cabelos castanhos e sotaque russo discutindo com essa moça momentos antes de ele me ameaçar com uma arma carregada. Ela tinha cabelos castanhos, era bem feita de corpo e tinha olhos azuis. Usava um vestido violeta, que depois foi rasgado na manga por conta de um desequilíbrio.

O policial anotava tudo sentado em uma cadeira. Lowe andava de um lado para o outro, não sabia o que fazer, estava agoniado demais e podia complicar tudo.

– E a menina? Alguém viu? – Indagou novamente o homem. – Senhor Lowe, poderia me passar as características?

– Ela é baixa, tem problemas respiratórios e tosse com frequência, tem cabelos loiros escuros e olhos azuis esverdeados. Uma característica é que ela usa um colar de coração de cor azul celeste, é uma joia brilhante que ela nunca tira do pescoço.

– Nomes das desaparecidas.

– A mais velha se chama Marina Claire Potter, mas alguns a chamam de Marina Claire Lowe ou senhora Lowe. A menor se chama Isabella Caroline Potter.

– Idades.

– Dezoito e sete anos.

– Nome e características do suspeito.

– O nome dele é Serguei Hondjakoff. Tem cabelos castanhos, olhos verdes e é russo, ele tem uma grande estatura, é esnobe e altamente agressivo.

O policial se levantou e ficou diante do oficial, colocando a mão em seu ombro.

– Agora eu peço que o senhor tenha bastante paciência e não tome nenhuma decisão desesperada, como matar alguém ou algo do tipo. Está em nossas mãos e prometemos que traremos Marina e Isabella com vida.

– Colaboraremos com as investigações. – O presidente do parque colocou as mãos no bolso. – O senhor pode averiguar tudo agora mesmo. O pipoqueiro e o operador vão ajudar.

O pipoqueiro não sabia de nada e comia sua pipoca tranquilamente. Recebeu uma cotovelada do operador por simplesmente estar em uma dimensão distante enquanto todos estavam preocupados com o desaparecimento.

– Sim. – O pipoqueiro respondeu com a boca cheia de pipoca. – Colaboraremos.

Todos desceram acompanhados os policiais. No parque, poucos vestígios foram encontrados – apenas um tecido da roupa de Marina - mas na saída do mesmo repararam que havia resquícios de uma luta corporal e rastros de sangue, sem contar a marca de um carro que parece ter saído em alta velocidade local do crime. Tudo isso fazia parte de um grande cenário para montar a investigação e chegar a um final feliz – maioria dos desaparecimentos terminavam em corpos mutilados, ou cadáveres em estagio avançado de decomposição, carbonizados. Era uma misturada de finais que eram agonizantes. Maioria dessas vítimas eram crianças e mulheres, um infeliz número. O perigo poderia morar ao lado, família nunca foi sinônimo de segurança. Lowe estava chorando compulsivamente e sua cabeça explodia em paranoias, culpas e remorsos de não ter feito nada logo, e agora tinha comprometido a vida de quem ele amava e ainda tinha a vida de uma garotinha com tanto futuro pela frente em perigo. A situação era desesperadora e ele simplesmente estava com as mãos atadas, mas nem por isso deixaria, de ele próprio, fazer sua própria investigação. Nada ainda estava perdido, e ele não poderia deixar as paranoias e a culpa dominarem sua mente ou seria tarde demais. Lowe nunca temeu ninguém. Godfrey nunca foi manipulado por ninguém. Harold nunca ficou sentado esperando por nada, a única vez que fez isso desencadeou uma bomba relógio que explodiu em suas mãos. Harold Godfrey Lowe não tinha medo. Nunca teve. E ele teria sua Marina de volta.

Serguei tinha uma casa no local – que não chegava aos pés de seus palacetes em Moscou e São Petersburgo que eram mansões tão luxuosas que mais pareciam palácios, mas pelo tempo que estava sem uso poderiam ter perdido sua glória. – que era consideravelmente boa para se viver, ele preferia suas mansões russas? Talvez. Mas aquela mansão estava o suficiente para realizar seus planos.

– Espero que gostem. – Ele debochou, jogando Marina no chão. – O que acha de fazer uma faxina nesta mansão, senhora Potter?

– Eu nunca peguei em uma vassoura uma vez sequer. – Respondeu a mulher.

– Aprenda. – Serguei entregou-lhe uma vassoura. – Quero esta mansão limpa até as quatro da madrugada. – Encarou Marina. – E quanto a você, Mari... – Pensou. – Tenho outros planos.

– Vai me estuprar? – Marina perguntou, sem medo. – Do jeito que você é nojento, não duvido que encoste a mão em mim.

– Não. não encosto minha mão em garotas sujas como você, que já perderam a inocência e são profanas. Prefiro as virgens e as mais novas, se é que me entende.

– Idiota! – Marina se levantou e quase o agrediu, mas Riley a segurou.

– Marina, calma. – Riley tentou apaziguar as coisas temendo o pior. – Não piore nada, pelo amor de Deus.

– Esse psicopata quem complicou tudo. – Marina vociferou. – E eu não posso me defender de um homem que me espanca, me arrasta pelo cabelo e ainda quer abusar da minha irmã mais nova? Se ele encostar na Isabella, eu juro, mamãe, eu juro, que eu não vou ter medo de mata-lo com mil e uma facadas!

– Cala a boca, sua rameira! – Ele deu-lhe um tapa e ameaçou atirar. – Quem der mais um a vai ser fuzilado como os prisioneiros da Sibéria!

Riley se intimidou e tentou limpar a lareira da sala. Marina colocou a mão no rosto.

– Venha comigo, se gritar eu te mato. – Ameaçou Serguei. – Venha você também, tampinha de garrafa e aprendiz de rameira.

Seguiram para um quarto que ficava no segundo andar. O quarto era luxuoso, tinha uma penteadeira, um quadro na parede que mais parecia estar vigiando as duas irmãs e detalhes nas paredes ainda deixavam a aparência ainda majestosa. Aquela mansão fora inspirada nos palácios russos, por isso uma semelhança entre uma coisa e outra. Serguei a soltou.

– Esse é seu quarto. – Mostrou ele. – Deite-se na cama ou já sabe.

Marina obedeceu, o encarando com fúria.

– Agora feche os olhos.

Ela estava com medo, mas o fez. Serguei tomou a ousadia de atar as duas mãos a cabeceira, atando também os pés diante os olhos de uma menina de sete anos que estava seu traumatizando aos poucos. Isabella não conseguia chorar de tão desesperada que estava, tudo que mais desejava era que Moody ressuscitasse e a tirasse daquele inferno junto a Lowe, a fusão da força de ambos era o que faziam as coisas caminharem. Agora Lowe tinha que caminhar com as próprias pernas e certamente isso seria difícil para ambos os lados.

– É isso que acontece com quem quebra as regras, Isabella. – Serguei a puxou pelo braço e a fez olhar a cena. – Marina passará a noite aí, amarrada.

Isabella não conseguia falar nada.

– Fala alguma coisa ou quer que eu te bata bastante até você cair desmaiada? Não tem Moody aqui para te defender e nem Lowe para fingir que ama vocês duas. – Serguei se abaixou para sussurrar. – Diga bem feito! Fale! Humilhe sua irmã! Vamos!

– Bem... Bem feito. – Falou, começando a se desmanchar em lágrimas.

Marina não queria acreditar que ela tenha falado aquilo de coração. A sua própria irmã falar em sua cara que ela merecia todo aquele inferno era simplesmente... o fim de tudo. Serguei puxou Isabella pelo braço e a jogou em cima da outra cama – as duas camas eram separadas por uma mesa florida. – com brutalidade, mas não sem antes atar as mãozinhas pequeninhas também para evitar que ela ajudasse a irmã a fugir ou algo do tipo.

– Espero que as duas tenham tido a oportunidade de aprender russo. Amanhã nós iremos para a minha tão amada terra natal, Rússia. Marina e eu vamos nos casar em solo russo, diante do imperador e toda a mais alta sociedade russa!

– O imperador russo tem mais o que fazer. – Isabella se meteu. – Ele não ia perder o curto tempo dele indo ao casamento de um louco.

– Repita o que disse, Isabella. – Ele ordenou.

– Isabella, por favor... – Marina pediu, aos prantos. – Não fala besteira.

– O IMPERADOR RUSSO NÃO IA PERDER O TEMPO DELE INDO AO CASAMENTO DE UM PSICOPATA! – Isabella vociferou. – VOCÊ NÃO PASSA DE UM LOUCO!

Serguei bateu em Isabella, que ganhou mais dois chutes no corpo e um na cabeça. Caiu no chão, sentindo uma dor imensa. Marina só sabia chorar. O russo se retirou, já ansiando pelo momento em que iria ter sua maior glória selada.

A glória de ter Marina somente para ele. O que mais importava para ele além disso?