AMEAÇAS E ADVERTÊNCIAS

KARIN POV

Assim que me acalmei um pouco entrei no prédio. Antes que me virasse para o bebedouro ouvi passos correndo. Olhei rápido na direção, mas a pessoa já tinha virado na esquina. A paranoia bateu forte. Quem é? Será que espiou a conversa entre mim e Toushirou? Sacudi a cabeça indo até o bebedouro e tomei um pouco d'água. Se acalme, Karin, relaxe. Era bem mais fácil ele ter percebido e mudado de assunto. Mas ainda assim... Essa pessoa estava me observando e não queria que eu visse quem é.

- Ah, Kurosaki.

Me virei com o chamado encontrando um dos professores caminhando até mim. De camisa gola polo e calça social, ele era um homem de estatura mediana, cabelos negros e simpático. Devia ter uns vinte e poucos anos (pelo ao menos acho, nunca perguntei) e como era dono de um intenso par de olhos azuis, boa parte das alunas tinha uma queda por ele.

- Arisawa-sensei.

Ele parou diante de mim e reparei que levava uma pasta à mão.

- Boa hora, queria falar a respeito da dispensa médica daqueles garotos.

Me empertiguei no lugar. Com o dia esquisito desde o treino da manhã esqueci por completo disso. Que vergonha. Sem graça me remexi no lugar.

- Desculpa, ainda não tive tempo pra aprontar a papelada, mas já vou resolver isso, sensei.

- Mesmo? Melhor ainda.

Franzi as sobrancelhas confusa.

- Como assim?

- Bem, um dos rapazes veio conversar comigo e esclareceu que está apto para participar dos treinos. – seus olhos miraram um pouco além de mim e sorriu – Certo, Vega-kun?

- Claro.

Arregalei os olhos de susto. O que?!

Digio deu a volta bem detrás de mim ficando ao meu lado. Esse cara... Sorria de um jeito educado para o professor ignorando o espanto que me deu. Aqui nesse corredor não tinha ninguém, como ele chegou tão perto que nem o ouvi?!

- Qual o problema, Kurosaki? Parece que viu um fantasma.

Pestanejei me situando e o encarando sóbria. Filho de uma... Fechei os olhos um momento respirando fundo. Calma, Arisawa-sensei está bem na sua frente, não faça uma cena.

- Não é nada. Tem certeza que já quer voltar? Seus músculos podem se estirar com os exercícios.

Uma leve contração na sua bochecha indicou que estava com raiva e sei bem o porquê. Eu não o havia chamado de senpai. Por hierarquia ele era o veterano. Em respeito devia chama-lo de senpai, mas eu não tinha algum. Quem coloca ratos no quarto de uma garota? Quem incentiva os outros a me tratarem como nada e ainda se divertir? Ele não merece meu respeito de jeito nenhum, principalmente por ter quase me afogado.

Me fitando por uns instantes, Digio ficou calado e o esperei dizer algo desaforado, porém, invés disso o sorriso característico dele se abriu preguiçoso.

- Preocupada comigo, bruxinha?

Entalei de afronta, piorando quando ele ficou debochado.

- Ah, vai ...

- Kurosaki!

Engoli o xingamento. Arisawa-sensei me olhava sério e murmurei um "desculpas" morta de vergonha. Digio apenas alargou o sorriso odioso e desviei o olhar. Ainda podia sentir o ar reprovativo do professor sobre mim. Vendo que não diria mais nada Arisawa-sensei suspirou.

- Muito bem. Espero os atestados antes do início do treino à tarde, Kurosaki.

- Hai. Com licença, professor.

Me curvei para o mesmo e caminhei até o lance de escadas sem olhar para trás. Digio e o sensei ainda conversaram mais um pouco e quando não estava mais à vista dos dois arquejei irritada ao subir os degraus. Detesto esse cara, ainda mais por esse comportamento descarado. Entretanto, Digio era ardiloso e se estava tão amigável – mesmo que seja na frente do professor Arisawa - alguma coisa tem.

KARIN POF

HITSUGAYA POV

Ela fugiu mais uma vez. Droga...

Fechando os olhos por um momento me deixei cair no banco e respirei fundo procurando me acalmar. Por que é tão complicado? Lembrava de seu comportamento nervoso e acuado a cada vez que me aproximava dela. Ainda o jeito como corou perto de mim... Gemi frustrado enquanto escorregava no banco e joguei a cabeça para trás. Preciso ir devagar senão só vou afastá-la. Não sou paciente, já foi bem difícil me controlar ainda pouco. As reações dela mesmo sutis me provocavam, isso não é nada engraçado. Ah, Karin...

- Não tem ideia do que faz comigo.

Estreitando os olhos pensei em uma nova abordagem. A julgar pelo que aconteceu ainda pouco ela estava tensa e assustada demais. Se eu agir como tenho feito hoje era bem provável que nunca iria relaxar ao meu lado. Pelo ao menos havia algo muito ao meu favor. Curvando os lábios me endireitei levantando do banco e segui na direção dos prédios das salas.

Éramos do mesmo clube.

O capitão do time e a gerente convivem bastante. Mesmo querendo ela não pode me evitar.

Como tinha um tempo fui até o prédio B, as turmas do primeiro ano ficavam lá exceto a minha – muitos alunos se matricularam nessa escola e quantidade de salas disponíveis no prédio não foram suficientes. As turmas d eram por aqui. A minha sala 1-5 ficava no prédio A do outro lado deste aqui. Então não foi lá uma surpresa ser encarado no corredor duas vezes hoje já que fui buscar Karin mais cedo.

- Toushirou. Ei, Toushirou.

Falei cedo demais. Andei mais rápido ignorando os passos apressados atrás de mim, mas foi inútil. Hinamori não só conseguiu me alcançar como também ficou diante de mim. Sorrindo ela ajeitou a franja de um jeito delicado e calculado.

- Puxa, fiquei te procurando o intervalo inteiro. Ainda bem que te encontrei.

Hum... As pessoas por perto não paravam de olhar. Ela sabia chamar atenção.

- Precisa de alguma coisa?

Devia ser, afinal abraçava uma prancheta cheia de papeis. Com meu tom monótono seu sorriso vacilou e vi que não gostou disso. Bom.

- Bem, daqui a duas semanas já é o festival esportivo e pensei que talvez o clube de futebol masculino queira fazer alguma coisa.

- Deixa eu adivinhar: você está encarregada dos clubes de esportes.

- Isso. Como adivinhou?

Porque era óbvio, simples. Hinamori me olhou com desafio e enfrentei segurando o gênio. Não era tão difícil já que não é de hoje essa garota tentar me manipular. Como presidente ela tem voz nesses eventos e como capitão devo dar uma resposta. Para seu azar não seria como queria.

- Não vai dar. As eliminatórias da prefeitura são daqui dois meses e estamos sem tempo.

Seu sorriso apagou e por um momento vi que se irritou, mas conseguiu esconder num segundo fingindo preocupação.

- Mesmo? Eu posso falar com a Kurosaki. Já que ela é encarregada da agenda do clube deve saber se tem uma folga, não é? Ela não estava com você?

O que? Olhei Hinamori desconfiado.

- Por que quer saber?

Revirando os olhos ela pôs a mão no quadril.

- Nossa, Toushirou. Não precisa agir assim, perguntei porque escutei na cafeteria que foi à sala dela. É algo do clube?

- Se for eu não preciso ficar me explicando pra você, certo?

- Mas...

- Tchau Hinamori.

Ignorando seu olhar chocado, dei a volta por ela e segui caminho no corredor até a turma 1-2. Alguns dos alunos que olharam a cena cochichavam mal disfarçando e reprimi a vontade de revirar os olhos. Eu não tinha obrigação alguma de dizer o que faço ou deixo de fazer para essa garota. Hinamori não sabe o que é limite e ela ultrapassou o meu no primeiro dia do acampamento de treino.

Xingar Karin de vadia – mesmo que não saiba quem é – me deixou possesso. Depois disso não tolerava mais coisa alguma dela. Não tínhamos nada e ela tem que aceitar.

Por sorte não demorou muito, a pessoa com quem eu queria falar estava bem ao lado da porta. Ele estava tão distraído espiando lá dentro que tive de segurar seu ombro.

- Oe...

- Ah!

O cara pulou de susto girando no lugar e ao me ver ficou mais assombrado.

- Hitsugaya? Mas que...? O que tá fazendo aqui? A..a Kurosaki-san acabou de sair com a Tachibana.

Franzi a cenho. Escutei direito?

- Tachibana Hikari?

- É, essa mesma. Conhece?

Quem não a conhece? Ela e o atual namorado tinham um gosto aleatório para seus encontros no colégio. Antes de se assumirem os vi entrarem no laboratório durante o intervalo uma vez. Por algum motivo tive vontade de sorrir com a ideia dela e Karin serem amigas, mas segurei a tempo. Keita percebeu e pigarreou sem graça.

- Hum... Então...

- Quero te pedir um favor.

- F..favor?

Keita empalideceu ainda mais. Ele realmente estava com medo de mim. Bem, quando Karin se afogou me assustou como um inferno e eu não estava tão centrado pra controlar minha raiva naquele dia. Keita provavelmente se lembra disso.

- Sim. Quer fazer as pazes com Kurosaki, certo?

HITSUGAYA POF

Horas depois

KARIN POV

Depois do fim das aulas, todos os alunos que não participavam de algum clube foram para casa. Como de costume segui até o bebedouro perto do terceiro ginásio e tomei meu remédio. Era um anti-inflamatório para minha tendinite e mesmo que seja só dois comprimidos por dia não podia deixar de tomá-lo. A dor depois era insuportável para dizer o mínimo. Feito isso, segui até o vestiário feminino.

Como pertenço a um clube masculino trocava de roupa aqui nos treinos, exceto nas segundas-feiras de manhã quando sou responsável pelas chaves. Várias das gerentes trocavam de roupa aqui também e no fim dos treinos as meninas usavam os chuveiros. Tirei o uniforme dobrando e guardando no armário para logo depois usar o de educação física. O moletom deixei amarrado na cintura. Como não queria encontrar o Toushirou – encontrá-lo sozinha pra falar a verdade – sentei num dos bancos de madeira com o caderno pra matar tempo.

Ele me tirou do eixo? Sim, tirou e tanto que fiquei aérea praticamente o dia todo. Mas há muito tempo decidi o que é importante pra mim. Por mais que seja covarde, até saber lidar com isso vou ignorar o que aconteceu hoje. Com uma caneta na mão abri o caderno numa folha em branco e desenhei um campo de futebol. Rápido fiz os pontos que seriam os jogadores no novo esquema tático com seus números e mordi a caneta.

Certo... O que fazer?

Digio vai voltar pro treino, então temos o buraco no meio de campo. Franzindo o rosto pensei nos outros jogadores. Pensei e pensei mordendo o bocal indecisa ao lembrar todos os treinos do clube e me deparei com um baita problema. Toushirou agora é o meia armador, um jogador do meio de campo, mas até agora ele jogou no ataque! Como diabos vou saber os jogadores que mais interage numa partida? Grunhi de frustração com as mãos nos cabelos.

Calma, respira fundo. O treino daqui à pouco vai ajudar, não deve ser tão difícil assim. Ainda estava presa nessa frustração quando ouvi vozes.

- Foi bem estranho. Ele nunca fez isso.

- Deve ter sido um assunto sério. Hitsugaya-kun sempre foi responsável.

Essa não. Levantei o rosto em tempo de Hinamori e Miyura entrarem. Elas se interromperam na conversa quando me viram e suspirando me levantei. Eu não ficaria aqui para ser intimidada por essas duas.

- Miyura, pode ir na frente?

- Claro.

A cabelo de alga entendeu o recado e sorriu convencida ao passar rebolando por mim. Apenas para constar, Miyura tinha um corpo cheio de curvas e fazia questão de demonstrar. Hinamori esperou que sua amiga se afastasse com um olhar analítico e a julgar pelo vinco na sua testa, irritada. Até tentava esconder, contudo o sorriso neutro não foi o suficiente. Esperei ela dizer alguma coisa, mas ainda se mantinha calada. Suspirei cansada.

- O que você quer?

- O que Toushirou-kun queria quando foi te ver?

Pisquei confusa.

- O que?

- Ele foi à sua sala.

- E...?

A confusão aumentou. Ela achava que era o que pra me cobrar assim? A namorada dele? Sinceramente estava me estressando. Como eu não disse mais nada ela apagou o sorriso ficando séria.

- É uma pergunta simples, Kurosaki. Tenho certeza que consegue responder. É muito estranho que a essa altura do campeonato ele faça isso. Todos do colégio estão comentando.

Ela realmente não vai me deixar sair sem ouvir o que quer. Estreitei os olhos.

- Aonde quer chegar com isso, Hinamori?

- Vocês ficaram muito próximos com a viagem de treino. Quem viu diria que se conhecem há anos.

Gelei por dentro. Essa garota... Será que era ela que estava me espiando no intervalo? Não, não, não. Se fosse teria me abordado de outro jeito.

- Olha Hinamori, não tenho tempo pra isso. Se quer tanto saber o motivo pergunta pra ele, sim?

Passei por ela, mas antes que abrisse a porta ela continuou.

- Já fiz isso, mas ele não quis me dizer

Encarando sobre o ombro, seu olhar era tão ferino que me arrepiou.

Nesse instante, as meninas entraram no vestiário se deparando conosco. Como num passe de mágica aquele ar hostil no rosto de Hinamori sumiu enquanto se virava e conversava com elas. Quanto a mim continuei caminho indo até ao campo de futebol secundário. Se entendi bem o recado ela queria me intimidar e como estávamos próximas das outras pessoas, suas perguntas foram vagas. Ah, droga. Não era hora pra se distrair com isso. Hinamori não sabe de nada, duvido muito que tenha ouvido àquela conversa – Toushirou garantiu o local privado. Contudo, aconteceu o que eu temia.

Estavam falando sobre a gente. Toushirou seu idiota teimoso, eu avisei que ter aparecido na minha sala foi demais. Sorte que a fofoca parecia mais curiosidade, porem Hinamori tinha um ar tão sério, os olhos afiados como se procurasse um deslize em mim. Reprimi um calafrio. Essa garota me dava uma sensação desagradável. Parecia que queria cravar suas unhas no Toushirou não importa o que.

- O que foi, nanica?

Me virei de susto. Havia acabado de entrar em campo e Zaraki me aparece com uma prancheta numa das mãos pelas costas. Engoli em seco, esse homem me olhava irritado.

- Nada, treinador.

- Acho bom. Hitsugaya já falou sobre o que mandei? – assenti quieta – Quero que resolvam até quarta-feira.

Arfei agoniada enquanto ele dava a volta por mim.

- É depois de amanhã. Não vai dar tempo!

- Não interessa. Você que arrumou o problema, então resolva.

Me entalei chocada e vi em tempo do técnico demônio estreitar os olhos irritado.

- Eu sei que tem dedo seu na surra dos moleques, pirralha. Se perdemos um jogo das eliminatórias esqueço quem é seu irmão e te expulso do clube, entendeu?

Não consegui esboçar nada. Engolia em seco, ciente do quanto estava encrencada com o técnico. O mesmo, perdendo a paciência latiu irritado.

- Você me entendeu?!

- Hai.

- Bom.

Puxa vida, se pudesse Zaraki me esfolaria viva.

/

O treino como de se esperar não foi tranquilo. Zaraki mandou os rapazes fazerem treinamento avançado, precisamente com a posição de defesa e o meio de campo. Era para ver como era o desempenho físico dos titulares nessas posições e assim poderia montar vários cenários de jogos.

Ficou óbvio porque ele não usou a parte do meio de campo e o ataque. Eu podia sentir faíscas na minha direção toda vez que Toushirou passava a bola e os reservas mal conseguiam driblar no avanço do preparo pro ataque. Para o meu azar, Kiba não veio no treino à tarde. Droga.

- Jogada aérea!

Levantei os olhos do caderno bem a tempo de um dos meia fazer um passe cruzado. Uau... Atravessou de um lado à outro do campo. Azumi-senpai foi quem fez isso e me animei quando se juntou ao outro reserva e Toushirou. Eles se interagiam muito bem costurando a defesa na troca de passes.

- Nada mal para uns incompetentes.

Pestanejei de susto. Digio... Ele só fez aquecimento até agora. Zaraki não o deixou jogar por motivos óbvios e para minha estranheza nem reclamou. Digio aceitou quieto e risonho sinceramente me deixando nervosa. Sentia aquela sensação de manhã cedo, como algo sorrateiro espreitando aumentar a cada minuto. Suspirei anotando no caderno enquanto ele se aproximava de mim.

- Não diria isso, Azumi-senpai e os outros estão jogando muito bem sem você e seus amigos.

- Só estão ocupando espaço, logo vão voltar pro banco.

Apertei os olhos. Sujeitinho odioso, ele havia ficado bem ao meu lado. Sua sombra cobria meu caderno e o ignorei fingindo que não existia. Eu não estava nervosa por isso, não mesmo.

- Que fria, bruxinha. Não vai mesmo nem olhar pra minha cara?

Ignore, ignore, ignore!

- Sabe, devia ao menos pedir desculpas. Chamar o clube de rúgbi pra me dar uma surra foi baixo... Até pra você.

O sussurro no meu ouvido me pegou de surpresa e arquejei de susto esquivando. Digio segurou um sorriso gostando de me ver pálida e tremendo. Seu olhar era frio mesmo com a cor dourada. Ninguém percebeu isso, os gritos do pessoal pareciam distantes e aproveitando ele se aproximou do meu lado.

- Não pense que vai sair barato, Kurosaki.

Prendi o fôlego com seu tom frio e cortante. Ele nem esperou uma resposta, saiu andando como se nada tivesse acontecido. Engolindo em seco fui até o banco dos reservas e me sentei quieta. Devagar olhei para minhas mãos trêmulas e geladas como meu sangue. Foi a primeira vez, a primeira vez que eu realmente fiquei com medo desse cara. Apertei os punhos chateada, droga... Eu não posso ser covarde, não posso.

KARIN POF

HITSUGAYA POV

O vestiário masculino estava lotado. Todos que já tinham terminado seus atividades de clubes nos esportes tomavam banho e voltavam pra casa. Sinceramente, eu estava exausto. Repetir circuitos de defesa a tarde toda foi demais.

- Cara, eu tou morto.

- E eu, acho que vou acabar dormindo no metrô.

Uns caras riram enquanto fechei o armário. Fui um dos primeiros a usar o chuveiro e logo saí daqui. O motivo? Zaraki mandou que eu pegasse uns vídeos de partidas do interhight na sala dos professores. Ele não havia mandado Karin porque ela saiu bem mais cedo, algo sobre a papelada da dispensa médica dos outros dois titulares. Franzi a testa preocupado ao entrar no prédio da administração. Ela estava muito quieta no meio da tarde, até se distraiu na hora de distribuir água. Isso não é normal.

Droga, o que pode ter acontecido?

- Até que enfim, achei que não ia mais aparecer.

Parei no lugar virando o rosto na direção e reprimi um grunhido. Uma loira com uniforme desalinhado estava encostada na parede. Mesmo se não tivesse falado teria reconhecido, essas maria-chiquinhas tortas e as sardas nas bochechas são inconfundíveis. Hiyori... Mascando um chiclete enquanto mexia no smartphone me esperava desde que saiu do seu clube de softball. Essa baixinha era a razão de grande parte do meu estresse. Hiyori e eu havíamos crescido juntos. Ela é um ano mais velha do que eu e como filha de uma falecida amiga de Hirako ele nos criou juntos.

Ela gostava de bancar minha irmã mais velha e conforme o passar dos anos ficou óbvio que eu não a respeitaria. Uma encrenqueira com atitude de moleca e sem modos mata qualquer respeito. Passei por ela seguindo reto até o fim do corredor. Claro que Hiyori me seguiu indignada.

- Ei, espere aí. Aonde você vai? Estamos atrasados.

- Pode ir na frente, ainda tenho que resolver umas coisas.

- Ah é? Tipo o que?

Argh... virei a esquina andando mais rápido. Como a ignorei, ela bufou praticamente correndo ao meu alcançar.

- Escute, seu idiota. Eu não vou embora sozinha, está escurecendo e estou sem grana. Então vai ter que me aturar.

- Use seu passe.

- Esqueci em casa.

Deus... Eu mereço. Entrei na sala dos professores e procurei na seção de audiovisuais. Estavam limpando então o faxineiro não se incomodou conosco. Apenas pediu que deixasse as chaves com o zelador. Enquanto eu procurava nas caixas, Hiyori sentou na grande mesa de madeira voltando a mexer no celular.

- Vai demorar muito?

- Sim.

Ela ficou quieta por tempo até suspirar de tédio.

- Por que não procura por isso amanhã?

- O treinador mandou que eu assistisse hoje para o treino de amanhã, então não, não dá.

- Você está bem rabugento hoje.

De costas para ela pude sentir seu olhar. Hiyori era bem perceptiva quando queria. Como não respondi novamente achei que continuaria a reclamar, entretanto ela me surpreende mais uma vez.

- É ela, não é? A garota que te deixa maluco.

Parei de remexer na caixa. A atmosfera quieta ficou tensa e pesada. Hiyori pelo tom divertido sorria, mas não era uma piada. Era algo bem sério e real.

- Não sei do que está falando.

- Não? Estranho... Eu te vi atrás do segundo ginásio hoje com alguém. É bem quieto lá, quase não vai ninguém.

Um estalo ecoou alto nesse silêncio e xinguei por dentro depois. Com um dos vídeos na mão apertei tanto que a capa trincou. Foi a deixa para o riso dessa garota.

- Isso te irritou, acertei?

- O que você ganha espalhando boatos para Hinamori?

Peguei a caixa com raiva depois de achar uns vídeos e Hiyori nem se espantou quando coloquei de qualquer jeito na estante de metal. Pelo contrário, ficou mais ousada.

- Boatos? Olha aqui, seu hage, aquela cena que peguei de vocês dois na cama até hoje me dá pesadelos e Hinamori não manda em mim. Eu fiz isso porque quis, não escondi nada.

- Obviamente.

Procurei respirar fundo, fechando os olhos ao me apoiar nas prateleiras. Detesto isso, essa sensação borbulhando quase incontrolável quando estou com raiva. Não é bonito, nem sensato quando me provocam e Hiyori sabe muito bem disso.

- Tá mais calmo?

- O que você acha?

Sem risos ou mais alfinetadas. Ela percebeu que cruzou a linha, claro que notou, por isso me deixou quieto mais um tempo até suspirar.

- Mas sério, a essa altura todo mundo vai saber que a misteriosa garota que você chamava quando ficou com Hinamori é a bruxa da sua gerente.

- E?

Me afastei da estante bem mais calmo e guardei os vídeos na mochila. Pelo arquejo sufocado Hiyori se espantou. Pulando da mesa ela finalmente veio me ajudar procurando nas prateleiras debaixo.

- Você não tem medo do que suas fãs podem fazer? Ou pior, do que Hinamori pode fazer com ela? Porque essa aí tem um sentimento doentio, tipo mesmo por você.

Ao puxar mais uma caixa vasculhando e lendo as capas dos dvd a raiva que eu sentia praticamente sumiu substituída por outra coisa. Parecia orgulho, mas também tinha um toque de diversão.

- Ah, Hiyori... Você a subestima.

- Hinamori?

Que absurdo.

- Não, Karin. Ela não é chamada de bruxa à toa.

Olhei para baixo bem no instante que ergueu o olhar confuso e minha diversão aumentou. Principalmente quando seu rosto se retorceu de nojo.

- Arght... Que sorriso é esse? Tá me assustando.

- E você me atrapalhando. Procure daquele lado.

Revirando os olhos, ela se levantou indo para a direita. Hiyori era assim, às vezes brigava, outras ficava quieta. Quando voltei a remexer nas caixas ela continuou.

- Ah, mais uma coisa. Fique de olho no Digio, ele tá agindo muito estranho.

Então é isso.

Ele com certeza tem algo a ver com o comportamento nada natural de Karin.

- Entendi.

HITSUGAYA POF