Eu sabia que não devia rir, mas internamente sustentava um sorriso bobo por saber que Azriel estava com ciúmes de mim, demorou dois instantes para eu perceber o que estava errado. Reconheci o sentimento corrosivo que atravessou meu coração junto com outros tantos quando eu saí correndo de Velaris e foi capturada.

Não era uma coisa boa, é claro que não. Mas uma pequena alegria dançava no meu peito, primeiro porque eu podia despertar ciúmes em Azriel e segundo porque assim ele saberia, em parte, como me senti quando soube de Mor.

Demorei mais tempo que o esperado segurando sua mão enquanto mostrava o atelier, desejava mostrar com aquele gesto que eu estava ali para ele, por ele. Embora nesse momento fosse gracioso ver ele se controlando, não gostaria que ele se sentisse inseguro comigo. Isso jamais, nunca faria algo para magoa-lo. Não foi por isso que sai da Caverna.

Prometi a mim mesma que tentaria ser a melhor parceira possível, a parceira que Az precisava, a feérica que o espião mestre da corte noturna esperava de mim. E foi exatamente por isso que dois dias atrás decidi encarar meus demônios. Quanto antes eu testasse melhor, então sem dar maiores explicações para Raul e Camella, fui até a casa de vento encontrar Morrigan.

Ainda bem que ela aceitou de pronto nosso encontro, mil cenários passavam pela minha cabeça, todas as explicações possíveis brotavam na minha mente, mas nenhuma foi como esperado e nem tão esclarecedora.

Flashback

Finalmente chegava nos últimos degraus daquela escada infinita, o treinamento pela manhã já tinha sido o suficiente, eu estava exausta. Assim que cheguei no pátio encontrei Mor, do mesmo jeito que eu colocando os bofes para fora sentada nas cadeiras com almofadas.

"Ah! Chegamos quase juntas! Eu tive a brilhante ideia de tentar novamente vir pelas escadas, agora me lembrei porque não faço." Mor dizia esbaforida porem elegante no seu vestido carmim enquanto eu me jogava na cadeira ao seu lado.

Sorri para ela sem muita emoção. Embora uma parte de mim a odiasse a verdade é que ela foi uma das primeiras amizades que fiz ali , não deveria ser tão irracional, não antes de ouvir a sua versão.

"Não tem ninguém aqui hoje, é só nos duas. Então vamos ter que ir a cozinha para buscar agua" disse se levantando segundos depois.

"Eu prefiro um chá, esta fazendo noites muito frias e você pode ficar com seu vinho se preferir." olhei de soslaio para ela que me sorriu de volta.

Assim que chegamos na cozinha e nos servimos das nossas bebidas, sentamos a mesa da cozinha mesmo, cada uma sentada na outra extremidade. Eu a encarava escolhendo a melhor pergunta para começar.

"Já imagino o porquê dessa conversa, acho justo e generoso que você tenha vindo até mim. Antes de começar tem uma coisa que eu preciso confessar, algo pessoal, secreto e intimo e que não revelaria se não fosse de suma importância para você me entender. Ninguém, absolutamente ninguém além de Feyre sabe sobre isso. Estou confiando a você algo que poderia ser minha ruina, tudo porque amo Azriel e desejo do fundo da minha alma que ele seja feliz. Então, por favor, faça por merecer."

Fim do Flashback

Nossa conversa durou a noite toda, conversamos sobre muitas coisas e acredito que tenha finalmente colocado um ponto final nos meus medos e tristezas. Mor e Az nunca tiveram nada, simplesmente porque ela não poderia ama-lo do jeito que ele esperava. A falta de reciprocidade já era um começo. Mor me garantiu que nunca tinha visto Azriel tão emotivo e ativo desde que me conheceu, que era nítida uma mudança em seu comportamento e ela acreditava que ele estava tão confuso quanto eu. E que eu deveria dar uma chance a tudo isso que estava acontecendo.

Portanto aqui estava eu, fazendo planos para uma temporada em Velaris.

"Onde estavam essas caixas? Do outro lado do rio? Vocês demoraram!" Reclamei assim que Camella e Raul chegaram com o restante das caixas dela.

Azriel continuava ali com a cara impassível sem demonstrar qualquer emoção, mas eu o peguei analisando Raul.

"Oh não foi nada, só queria respirar um pouco de ar fresco." uma boa de uma mentira, ou Camella estava com medo de Azriel ou ela finalemente quis nos deixar a sós.

"Eu vou terminar de instalar o abajur então"Raul foi interceptado por Azriel que se colocou a frente antes de chegar as escadas.

"Pode deixar eu instalo. Você pode voltar ao seu posto. Obrigado pela ajuda." Raul fez uma pequena mensura a Az e saiu sem olhar para nenhuma de nós como um bom soldado cumprindo ordens.

De novo um pequeno sorriso surgiu nos meus lábios antes de puxar pela escada. "Vamos, eu te ajudo."

"E não vai cair em cima de mim?" Como Azriel vinha atrás de mim, olhei por cima dos ombros antes de responder.

"Nos seus sonhos Azriel. Nos seus sonhos..." Tinha muita coisa que eu compreendia agora sobre parceria e uma delas é que as vezes compartilhamos coisas que não gostaríamos ou que não controlamos. Há dias eu sonhava com feérico forte , cheio de músculos e tatuagens e me perguntava se ele sonhava o mesmo.

Passamos o dia de forma agradável conversando sobre muitas coisas sem interrupção de Camella. Apesar de minha rotina na corte noturna tenha quase voltado ao normal, pela manhã treinava com Raul e o restante do dia passava ajudando Camella com compras para o atelier e percebi que sentia muita falta de Azriel.

Todo o trajeto desde a Caverna até aqui eu não estava em mim e aos poucos com toda paciência de Camella, eu fui me abrindo de novo e me dei conta de quanto eu gostava da companhia de Azriel, ele era sempre gentil, gostava de conversar das mesmas coisas que eu, talvez porque estava sempre preocupado com algo e também tinha o silencio dele. Era como se não precisássemos de palavras para nos entender. Uma troca de olhar parecia ter mais sentido que uma frase inteira.

Raul acompanhava Camella, enquanto eu e Az caminhávamos em passos lentos mais atrás.

"Eu andei pensando muito sobre…você sabe. Eu pensei que iria morrer justamente quando descubro que sou..."Suspiro alto antes de continuar " Parceira de alguém. O mundo seria muito injusto com você se isso acontecesse ou também podia ser uma libertação."

"Injusto ou não eu já estou acostumado a lutar de volta." Az olhava despreocupado suas cicatrizes nas mãos.

Eu ri pelo nariz. Ele realmente tinha lutado de volta, contra todos os vheelas e mais um pouco se fosse necessário. E era por isso, pela sua determinação que eu precisava ser forte também. Eu não saberia se merecia um macho como ele, mas eu precisava ser a minha melhor versão.

"Acho que precisamos conversar. Eu preciso que você saiba..."

"Tem um lugar melhor para conversar." Ele me cortou antes de começar. "Se não for um problema Camella ficar sozinha." Az olhava os dois enquanto atravessavam a ponte.

"Não, tudo bem." Disse sem esperar Camella dar nossa falta. Eu não queria perder a oportunidade de conversar, agora que tomei coragem era melhor terminar.

Azriel me ofereceu o braço e eu já sabia que iriamos voando. Em alguns minutos sobrevoamos Velaris e pousamos naquele mesmo jardim que ele me trouxe nos primeiros dias. Porem agora com a luz solar eu podia ver uma pequena construção ao fundo e distante um estabulo bem grande. A vista da cidade ainda era pequena, pois algumas construções obstruía todo o panorama.

"Eu queria te mostrar esse lugar antes." Az caminhava em círculos.

"Mas você já me trouxe aqui antes, a noite. Seu lugar secreto não é?

"Não é tão secreto assim. Vem deixa eu te mostrar." Az caminhava em direção a construção e tudo o que pude ver era uma magnifica miniatura de um castelo feérico. Cheio de vitrais e colunas de mármore, era rico em detalhes e me lembrava muito os castelos antigos, porem parecia vazio e muito envelhecido.

"É incrível! O que é?" Me aproximei mais do portal com desenhos de feéricos duelando.

"Minha casa." Olhei pelos meus ombros e Az parecia relaxado com as mãos nos bolsos. "Comprei, digamos a muitos, muitos anos atrás, mas nunca usei de fato. Ninguém queria, é muito bonita, mas pequena para ser uma casa. Com o tempo eu ampliei o que você pode ver nos fundos. Era uma torre de vigília do antigo castelo de Velaris. O castelo não existe mais a milênios, sobrou somente essa parte e o jardim. Gostei tanto do jardim que comprei tudo. Os únicos vizinhos são aquele estabulo da guarda ali e uma fabriqueta de Hydromel."

Olhava tudo com descrição, era tudo muito calmo e a atmosfera do lugar relaxante. Difícil imaginar que seria uma torre de vigília, parecia mais uma estufa elaborada, onde podia esquecer-se do tempo cuidando das flores.

"É lindo. Impressionante que você tenha essa casa e ainda dormia naquele apartamento pequeno no centro da cidade." Lembrei que ele tinha alugado o apartamento ao lado do meu, não era o lugar mais cômodo.

"Eu nunca quis..." Az pausou e sentou no único banco que tinha por ali e eu fiz o mesmo. "Eu nunca quis me mudar para essa casa sozinho. Ela é pequena, mas muito solitária. Sempre imaginei esse lugar como um retiro ou um esconderijo para dois amantes." Az esticou o olhar sobre mim e não pude evitar corar.

"Ah então já deve ter estreiado a muito tempo." Comentei rindo tentando quebrar o clima. "Garanto que é um lugar e tanto para um encontro, impressionaria qualquer feérica." Me arrependi instantaneamente lembrando que ele me trouxe aqui alguns dias atrás e o quão embasbacada eu fiquei com o lugar.

"Nunca trouxe ninguém aqui. Nenhuma valeria a pena." Ele olhava a construção com os cotovelos apoiados nos joelhos. "Só uma vez, logo quando comprei, Cassian e Rhysand vieram me acompanhar e nos embebedamos no salão vazio." Ele riu da lembrança e eu não pude deixar de sorrir, Azriel tinha um sorriso lindo que aquecia meu coração. "Eu nunca morei aqui, mas eu quero mudar isso."

Azriel voltou sua atenção a mim e eu engoli em seco. Não saberia dizer qual era sua intenção, mas algo doce e atrativo se desenhava na minha mente e eu não podia me deixar sonhando com algo impossível.

Torci minhas mãos e olhei o único anel que eu estava usando. Me recordei de minha família, dos vheelas, de Ruven que esperava por minha irmã, de Mor e nossa conversa. Senti um o tempo parar, meus dedos formigaram e minha respiração falhar.