N/A: Como prometido, atualizarei a fic aos sábados. Esse capítulo ficou um pouco menor do que eu esperava porque ele não estava planejado, mas enquanto o escrevia percebi que se não fosse desse jeito acabaria atrapalhando o desenvolvimento mais pra frente, então prestem atenção, talvez um evento aparentemente simples aqui possa ser importante depois. Gostaria muito de um feedback de vocês!

Obs: P.O.V = ponto de vista do personagem que está narrando

[Todos os personagens pertencem ao Masami Kurumada e a Shiori Teshirogi!]


11

Miro

Defteros P.O.V.

Aspros conversava animadamente com Sísifo no refeitório, uma rotina que se repetia desde que ele chegou, Hasgard também se reunia com a dupla, só que o Cavaleiro de Touro era mais cauteloso. Para Sísifo era como se Aspros fosse o mesmo de antes, alguém que não traiu o Santuário nem profanou o Templo de Apolo, mas uma criança com um sonho.

Eles pareciam verdadeiros irmãos e agora entendia o porquê de Sísifo ter sido o estopim da Guerra Santa em que lutamos. O destino não era gentil com aqueles que ousavam se intrometer nos planos dos deuses, e ele e Aspros tinham isso em comum.

Mesmo que o relacionamento com meu irmão fosse complicado foi duro presenciar como ele parecia mais a vontade com os outros cavaleiros do que eu jamais me senti, apesar das acusações e dos crimes que cometeu ele pertencia aquele mundo, tendo nascido sob a estrela maligna de gêmeos ou não. Aspros teria sido um Grande Mestre lendário se não tivesse se deixado levar por suas próprias ambições.

Deixei que ele se regozijasse com seus velhos amigos enquanto sentava em outra mesa, observando. Acho que ambos crescemos com aqueles que realmente deveríamos estar ligados, Aspros com Sísifo e Hasgard, Cavaleiros de Ouro, e eu com Dafne, escondidos na floresta.

Minha Dafne, ou quase isso.

Ela não era minha nessa vida, por isso pensar nela era uma tarefa dolorosa, pois Dafne foi embora sem se despedir. Fui mesmo um tolo ao imaginar que poderia controlar seus passos agora que estávamos reunidos de novo. Ela não estava mais presa em Delfos, era uma mulher que tomaria suas próprias decisões, que viveria a vida que foi tomada dela a força, e essa vida não me incluiria enquanto Aspros estivesse aqui.

- No que está pensando?

Asmita mal falava comigo, por isso só me virei para encará-lo ao lembrar do som de sua voz. Na verdade sequer havia percebido que ele estava no refeitório. Asmita tomou um gole de café quente enquanto esperava por uma reação minha, mas eu não respondi, pois havia algo sobre a mesa.

Uma faca. Não, aquilo era estreito demais, um punhal era o termo correto.

- Não se preocupe com isto – Asmita percebeu meu receio, por isso se apressou em guardar o punhal dentro do bolso do casaco – é apenas precaução.

- Para que? – perguntei. Eu não precisava viver no Santuário para saber que o único Cavaleiro de Ouro que usava armas era Dohko, e ele não estava aqui, a última notícia que tivemos dele foi que chegou em segurança até Athena.

- Nunca se sabe – Asmita deu de ombros, seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto – alguém pode precisar.

- Não precisamos de armas para matar alguém.

- Eu sei – Asmita concordou com um sorriso cínico no rosto – seu irmão, por exemplo, só precisou de um golpe para acabar com as pítias de Apolo, mas mesmo assim não foi menos cruel do que alguém que esfaqueia uma deusa no peito.

Imaginei que ele estivesse bêbado por falar sobre o assassinato das pítias na minha frente, mas Asmita estava sóbrio.

- O que quer dizer com isso? – perguntei.

O sorriso dele ficou largo e sombrio, algo que eu não esperava de alguém com sua fama. Fiquei imóvel, não entendia o que ele queria com aquela conversa.

- Falei demais – ele agitou as mãos na frente do corpo – esqueça o que eu disse, foi apenas algo bobo que ouvi no vilarejo.

- Não me pareceu algo bobo, pelo contrário.

- Vocês Cavaleiros de Gêmeos... – Asmita balançou a cabeça e suspirou – sempre tão sérios todos vocês, devia parar de vigiar seu irmão e andar pelo vilarejo, ouvir o que as pessoas dizem, histórias de nossos sucessores.

- Está falando dos cavaleiros dessa época?

- Shion e Dohko não nos contaram tudo, é claro, uma guerra civil no Santuário, algo vergonhoso para a história, mas é interessante não é, como um pequeno objeto pode mudar tudo?

- Seja lá o que estiver tramando, não estou interessado – respondi antes de me virar. Preferia refletir em silêncio a ouvir os delírios dele.

- Bom... – Asmita deve ter se inclinado para frente, pois senti o hálito forte de café próximo ao meu rosto – Você nunca esteve interessado em nada, nos crimes do seu irmão, nem na Guerra Santa, mas olhe só para vocês dois, um é o espelho do outro, mal consigo diferenciá-los e isso é um problema.

- Eu não sou igual a ele – de alguma forma ele estava conseguindo me envolver com sua conversa, afinal continuava a responder.

- Nem todos acham isso, por que não muda um pouco?

- Como assim? – perguntei.

- Acho que Shion tem uma tesoura no escritório – Asmita finalmente me deixou em paz, deixando o refeitório. Peguei o café que ele havia deixado na mesa e tomei um pouco. Forte e sem açúcar, meu favorito.

Olhei para os assentos vazios na minha frente e pela primeira vez senti falta da companhia de Dégel para me distrair durante as refeições, até mesmo das conversas sem sentido de Kardia. Me perguntei o que ambos estaria fazendo no Santuário, se Dégel estaria cuidando de Dafne como eu pedi.

Partiria com o segundo grupo até o Santuário, estava decidido, com Aspros ou não, eu queria ver Dafne de novo.


Dafne P.O.V.

Quando Dégel finalmente me deixou sozinha corri até o alojamento das Amazonas e coloquei minhas coisas no primeiro quarto vazio que encontrei, sem me importar se tinha dona ou não. Depois corri em direção as Doze Casas, a escadaria era longa, mas não estava sendo vigiada e o Relógio de Fogo estava apagado, sinal de que todas estavam vazias, mas ninguém se importaria com uma garota de aparência simples como eu que sequer tinha armadura, não quando os Cavaleiros de Ouro da geração passada haviam acabado de chegar.

Subi com o máximo de forças que tinha, não parando em nenhuma, ignorando até mesmo a vontade de espiar a Casa de Gêmeos, o futuro lar de Defteros. Havia acabado de atravessar a Casa de Câncer quando parei para respirar um pouco. Minhas pernas doíam e tinha certeza de que meus pulmões estavam em chamas. Tentei olhar para trás, mas a subida me deixou com vertigem, ou então foi um efeito do ressentimento que havia nas Casas em que passei, principalmente na última.

- Aquela garota – eu disse em voz alta, pensando em Sumiye – ficará me devendo uma se eu conseguir sobreviver a isso.

Olhei para frente, faltavam mais três casas e os degraus pareciam ter se multiplicado. Ainda bem que havia deixado o casaco no alojamento.

- Eu vou conseguir – tentei respirar fundo, eu estava quase sem fôlego – preciso conseguir.

Ninguém me interceptou, pois ninguém vigiava as ruínas com os traços de batalhas anteriores. O Santuário estava mesmo vazio e Athena estava distraída, apaixonada por um humano, por isso o céu estava tão decepcionado.

- Finalmente – caí de joelhos quando avistei o símbolo de Escorpião.

A arquitetura da Casa ainda parecia sólida, e estava em melhores condições do que as outras. O pátio era enorme, com espaço para lutas e treinamento, havia uma parede ao fundo que dava a impressão de ser o seu limite, mas que na verdade escondia a moradia do cavaleiro que costumava viver aqui.

Ao contrário das outras não havia ressentimento nessa Casa, o Cavaleiro de Escorpião devia ser leal a Athena e ao seu dever até seu último suspiro.

Pobre Sumiye, assim como eu ela não teve a menor chance, apenas o vislumbre de uma vida que jamais chegaria a ter.

Estava apressada demais para prestar atenção no que havia lá dentro, então atravessei o primeiro cômodo até chegar ao quarto. O local parecia ter sido saqueado, gavetas abertas, roupas espalhadas pelo chão, provavelmente algum desertor procurando por ouro ou prata antes de abandonar o Santuário.

"Se eu fosse um Cavaleiro de Ouro, onde esconderia os meus segredos?", pensei enquanto analisava alguns papéis que já estavam no chão, mas nenhum deles se parecia com uma carta de amor. Será que esse cavaleiro foi um leitor como Dégel?

Havia um abridor de cartas na mesa de cabeceira, então deduzi que ele costumava ler antes de dormir. Como a única coisa intacta no quarto era a cama e o cavaleiro estava morto, não fui delicada, o usei para cortar os lençóis e o forro, até que finalmente encontrei, escondidas entre o tecido e o material do colchão, as cartas de Sumiye.

- Miro... Então esse era o seu nome... Miro de Escorpião.

Larguei a lâmina para pegar o resto das cartas, aquela era uma oportunidade boa demais para deixar passar. Sumiye não estava aqui e ela não as queria de volta, pois aquilo também traria problemas para ela, então folheei algumas a procura de algo que pudesse aproveitar.

Li boa parte daquelas confissões enquanto recuperava o fôlego. Miro sabia sobre Sumiye, mas não disse nada a Athena nem a Shion, pois na época ela não era uma ameaça, pelo menos não tão grande quanto Hades.

Talvez a Guerra Santa fosse mais importante do que a chegada de guerreiros neutros na região, ou então ele simplesmente não quis denunciá-la pelo mesmo sentimento tolo que eu sentia por Defteros. Um sentimento que acabaria me matando logo.

Não percebi que meu nariz havia voltado a sangrar enquanto procurava as cartas, deixei um rastro de sangue por todo o quarto.

Precisava sair o quanto antes.

Continua...